PALIMPSESTO, A BIO DE GORE VIDAL. COM ELENCO QUE VAI DE KENNEDY À GRETA GARBO, DE TENNESSEE WILLIANS À....JÂNIO QUADROS!

Tenho uma amiga americana. Ela é da velha tradição pentecostal. Ao contrário dos protestantes europeus, os americanos levam a religião muito a sério. O país foi fundado como refúgio religioso. Os puritanos ingleses, perseguidos, foram à América em busca da liberdade. Daí o mito da Terra dos Homens Livres. Uma bíblia sobre a mesa, eles liam, oravam e amavam essa terra sagrada. Gore Vidal é ateu. Mas entende esse caldo religioso ao falar dos Kennedy. Joe, o pai de John, era católico e irlandês. Um chefão mafioso, fez uma fortuna com contrabando, bebida, prostituição e cinema. Comia todas as atrizes dos anos 10 e 20. Seu filho John, culto, foi estudar na Inglaterra, tinha uma ambição sem fim. Seu sonho era vencer a Rússia e ser o presidente do Império Americano. Gore Vidal era amigo de John e de Jackie, a moça de sangue azul que casou com John e foi chifrada ostensivamente todos os dias. John queria a guerra. Kruschev não. Mas desde a segunda-guerra, quem manda nos EUA é o exército. O país vive por suas guerras. A Rússia, fraca, pobre, foi demonizada. Eles morriam de medo dos EUA, mas na América o povo era educado a crer que a Rússia ansiava pela guerra. Kennedy, antes de ser morto pela máfia da Flórida, ele havia quebrado todos os pactos de seu pai, mudara leis. Abria o caminho para o Vietnã. O orçamento militar triplicou em seu governo. E nunca mais pararia de crescer. Quem falasse em educação ou previdência era chamado de comunista. Vidal estudava a Suécia, o bem estar social, o fato de escolas e saúde serem grátis por lá. Mas, a propaganda americana desqualificava a Suécia: eles eram adeptos do amor livre, eram ateus, faziam suicídio, eram infelizes. Eram comunistas.
Gore Vidal estava lá. De sua biografia, nada é mais interessante que o mundo politico. Mundo que caiu cada vez mais até o absoluto vazio de hoje. Bobby Kennedy é pintado como uma besta completa. E Nixon como aquilo que podemos chamar de gênio do mal. Paranóico. Há Rockefeller, Lyndon Johnson, Reagan, os Clinton ( terrivelmente perseguidos e solitários ), seu primo Al Gore, Eisenhower, Roosevelt, o senador McCarthy, Goldwater. E em meio a todos eles, Jânio Quadros! Sim, Kennedy fica fulo com Jânio. Reclama que não há país onde eles tenha intervido menos que o Brasil e agora um idiota joga a presidência no lixo e deixa o caminho aberto para os militares brasileiros, um bando de covardes pidões. Pois é...
A familia Vidal foi centro da vida politica. O avô foi senador liberal, o pai também. O pai, que Gore adora, foi também um pioneiro da aviação. Fundou a TWA. A mãe, Nina, é odiada por Gore Vidal. Invejosa, fofoqueira, dada a se sentir uma mártir. E pelas fotos que vejo no livro, uma das mais belas mulheres do mundo.
O jovem Gore lê muito. E se apaixona pela única vez na vida por um colega. O amor é realizado, mas esse jovem será morto aos 20 anos em Iwo Jima. Durante toda a escrita desta bio, em 1995, aos 70 anos, Gore Vidal recorda seu amor perdido. Ele serve como fio condutor da história. E sabiamente Gore faz de sua bio um retrato de quem ele conheceu e não dele mesmo. Desmistifica certas pessoas ( Churchill era um bêbado burro, qualquer um em seu lugar venceria a guerra com a ajuda americana e uma Alemanha falindo dia a dia ), mas também, sempre com uma escrita aguda e bem humorada, eleva quem merece essa elevação.
Descreve o mundo europeu pós-guerra, sexo barato e farto, felicidade nas ruas, mesmo com a fome de italianos, a construção de um novo mundo que logo seria abortado na guerra fria. Gore lança o primeiro livro gay da América, A Cidade e o Pilar, vira roteirista de cinema, autor de teatro, escreve na TV ao vivo dos anos 50 e volta ao romance em 1962, quando passa a morar em Roma. Roma em 62: alegria, vida livre, gente passeando, beleza. Roma em 1993: crime, sujeira, medo. Muda-se para um casarão à beira de um penhasco, de frente ao Mediterrâneo. Gore Vidal se torna uma figura popular. Um tipo de comentador sobre tudo o que vale ser comentado. Adoro seu texto e amo suas opiniões sobre literatura.
Vidal conviveu muito com Tennessee Willians, Paul Bowles, Anais Nin, Saul Bellow, Christopher Isherwood, Leonard Bernstein, Jerome Robbins, Rudolf Nureyev...Gore fala que o romance, após o cinema e a TV deixou de ser diversão. Passou a ser uma chatice a ser estudado por professores sem imaginação e por estudantes sem paciência. Ele exibe no livro a lista de best-sellers do NY Times de 1964. Em primeiro lugar está Gore Vidal. Depois vem John Le Carré, Ian Fleming, Louis Aunchincloss e Leon Uris. Uma das últimas vezes em que os mais vendidos eram romances para adultos. Em que um romance adulto conseguia vender 3 milhões de exemplares. Daí para a frente, só sexo, exoterismo, biografias, e auto-ajuda. E contos de fadas travestidos de romance adulto. Gore também tem críticas duras à escrita de Heminguay ( seco e sem imaginação ), um autor que deu milhares de frutos ruins. Com Heminguay todo homem metido a macho e que saiba escrever quatro frases duras acha que pode ser um escritor. O romance americano se torna um tipo de confessionário, uma prosa sem aprofundamento, sem invenção, apenas um longo descrever da vida ''como ela é""", o que significa a morte do romance como arte. Até os 20 anos era isso que o jovem Gore queria, mas aconselhado a ler Henry James ele muda. James, e mais Edith Wharton, Stendhal, George Meredith, Anthony Trollope, passam a ser seus modelos. Uma escrita elegante, ferina, dúbia, cheia de cor. Proust também é muito citado.
Gore Vidal diz que o mundo sempre teve, e continua tendo, seus donos. As pessoas verdadeiramente ricas, cultas, e também duras, frias, impessoais. E o tal jet set, os ricos que se exibem, que vomitam poder para as massas, mas que na verdade nada mandam, nada sabem e nada importam. O que ocorre é que esse alto mundo está se misturando com o jet set. O alto mundo tem se empobrecido e o jet set se assanhado. Isso faz com que se antes o poder fosse sujo e delicado, hoje ele seja sujo e grosseiro. A aristocracia morre quando ninguém mais quer servir a aristocracia. Quando todos se acham protagonistas. Esse é o caminho aberto para o vale tudo e a falta de direção. Gore não defende a aristocracia, quem a defende sou eu. Ele apenas descreve um mundo em sua decadência. Kennedy foi o primeiro Jet Setter a se imaginar um aristocrata. Um aristocrata filho de um mafioso. Bela aristocracia!
Poderia falar de tanta mais coisa! As filmagens de Ben-Hur, roteiro de Gore, em que ele e o produtor conseguiram fazer com que Charlton Heston não percebesse que a história era um romance gay entre Ben e Messala. Uma história divertidíssima! Há ainda a firmação de que no cinema dos anos 20 e 30 todos os atores eram gays e todas as atrizes lésbicas. O que chamamos de GLAMOUR é uma atitude gay. Gore foi amigo de Greta Garbo já no exílio da diva, uma presença de carisma absurdo e completamente ""sapata""". Como eram Marlene, Kate Hepburn e Bette. E também Cary, Gary e Powell. Um mundo gay. Que influenciou os heteros de ontem e de sempre. Uma ironia.
Ler este belo livro é como ter uma alegre aula de cultura. Alta cultura e cultura pop. De politica e de história. Uma beleza.
Ler Gore Vidal é como ler o melhor de Paulo Francis. Que bom.

GORE VIDAL

   Então Jack Kerouac chupou Gore Vidal... Estou lendo a bio de Vidal. Uma delicia, só que escrita naquele estilo Gore Vidal, claro. Um tipo de anti-Henry James. Ele diz gostar de James, mas escreve seco. Direto e rápido. Quanta fofoca!!!! E que belo tempo para se viver! 
   Foi ele quem me ensinou, via Paulo Francis, a ver a América. Gore Vidal nasceu numa das familias mais importantes dos EUA. Seu avô foi senador. Cego, ele era um defensor dos índios. Foi difamado pela indústria do petróleo, que ambicionava as terras dos peles vermelhas. Isso em 1909. O pai de Gore foi atleta. Mal casado, sua esposa era uma megera. Vidal foi filho único e nunca teve nenhum problema em assumir sua sexualidade. Para ele sexo é esporte, sem envolvimento. Um caçador. 
   Gore Vidal fala da queda sem fim do país. O mal começou com Teddy Roosevelt e a guerra contra a Espanha. Roosevelt, em 1900, se joga na missão de ""salvar"" o Panamá. Ignora a constituição, que pregava a neutralidade americana, o não envolvimento em assuntos estrangeiros, e nessa guerra desigual leva de brinde Filipinas, Porto Rico e Cuba. Teddy abre a comporta para a ditadura de generais e milicos dentro dos EUA. Desde então, e cada vez mais, a vida americana se baseia na guerra. Seu avô, junto com o presidente Woodrow Wilson tentou resgatar a neutralidade americana e não envolver o país na primeira guerra mundial. Mas não houve como. Desde então não existe guerra sem a presença americana. 
   O melhor do livro está na politica. Gore Vidal foi senador, amigo dos Kennedy e quase foi indicado para concorrer a presidência ( os EUA teriam um presidente gay e escritor. E tão tarado quanto Kennedy, que comia uma mulher diferente por dia. Toda a vida! ).  Se voce acha nossos escândalos indigestos....a politica feita na Casa Branca dá de lavada. Comprar senadores é coisa tradicional. Faz parte da democracia. E tem mais. Gore foi grande amigo da princesa Margareth, da Inglaterra. E ele fala o que todos nós suspeitamos, pouca gente nu mundo é tão idiota quanto a familia real inglesa. Burros, estúpidos, sem vida própria. Ocos como bonecos de pau. Moles e sem vontades. A pior familia real da Europa, não cai graças a Shakespeare. Gore tem bela teoria. Os ingleses, educados com doses cavalares do bardo, realmente acreditam no heroísmo dos reis e principes ingleses. Um rei é para eles algo tão mágico quanto....Shakespeare! A familia real da Holanda, da Dinamarca, da Espanha é muito mais nobre, pura e ativa que a inglesa. Mas será a inglesa a sobreviver sobre todas as outras. 
   Vidal fala bastante de escritores,claro. Foi amigo íntimo de Anais Nin. Que era uma chata e sem talento. Tennessee Willians, que era um caipira, mas, claro, talentoso. Paul Bowles, o melhor de todos. Conheceu também Faulkner, Cocteau, Saul Bellow, Mailer, Roth, o detestável Evelyn Waugh, Forster, Ginsberg, Kerouac, e os músicos Leonard Bernstein, Copland, além de bailarinos, bailarinas, atores.....Truman Capote, o grande mentiroso, está sempre por perto. Aliás há uma foto linda de Gore com Tennessee, Marlon Brando e Truman numa festa. 1948... segundo Gore foi o auge do país. Esbanjando dinheiro, viajando a Europa, morar em Roma custava o preço de um hamburger duplo. Foi o tempo em que a Broadway brilhava com peças de Tennessee e de Arthur Miller, O`Neil, os musicais adultos de Bernstein, de Copland, de Rodgers. O ballet moderno de Martha Graham. De Loring. O cinema ficava mais politico, na Europa, no Japão. Tempo de otimismo, muito otimismo. E de uma absurda fartura.
   Vidal viaja pela Europa em 48/50. Muitos amores. Glamour. E passa a morar na Itália boa parte da vida. Sempre com Tennessee ao lado. Com quem ele nunca teve nada. 
   É um belo livro. De uma das mentes mais privilegiadas de seu tempo. Um observador imparcial, esperto, malicioso, chique, e bastante sincero. 
   Vale muito ler. Sua cultura agradecerá.

GORDON, ELTON, NILSSON E A DOCE AGNETHA.

   Harry Nilsson era o melhor amigo de John Lennon. Entre 1971 e 1975 eles foram inseparáveis. Gravavam juntos, um participando do disco do outro. Seja dito, Nilsson fez sucesso por seu mérito. Era já famoso antes de topar com Lennon em NY. É dele o hit Everybodys Talkin, tema do grande filme Midnight Cowboy. Depois repetiu a dose com Without You, aquele sucesso choroso. Aliás Nilsson era um deprimido. Mesmo nesse clip que postei, a alegrinha Daybreak, a cara dele é de velório.
  Gordon Lightfoot é do Canadá. Terra de The Band, Joni Mitchell e Neil Young. E o Canadá é assim, mais americano que a América. Gordon fez sucesso nos idos de 69/76. Sempre folk. Sempre on the road.
  Preciso falar de Elton? Entre 70/77 ele fez um sucesso digno de beatlemania. É dos raros artistas que pode fazer um show de duas horas só com super hits. Aquelas canções que todos conhecem, dos 8 aos 88 anos, da faxineira ao mestre de filosofia. Como Paul. Me causa surpresa hoje ter causado surpresa em 1976 quando ele disse ser bissexual. Mais bandeira que ele só Barry Manilow. Um gênio. Sempre foi. O Cole Porter de minha geração.
  Eu ainda sou apaixonado por Agnetha. É a lourinha do ABBA. A saga dessa banda é muito fascinante. Em seu auge, entre 1973/1980, o povo do rock os ignorava. Abba não era rock. Esse foi o lado sujo dos anos 70, a segmentação ( nos EUA e Inglaterra. Aqui e no resto do mundo, incluindo Europa continental, tudo era uma bela mistura geral ). Sem solos de guitarra e sem cabelos rebeldes não havia chance de ser levado a sério. Até Elton era olhado com reservas. Assim como o Kraftwerk. Claro que os suecos não eram rock. Eles eram Pop, um maravilhoso pop ao estilo wall of sound de Phil Spector. A praia deles era a mesma dos Beach Boys. Das Supremes. The Miracles. As harmonias vocais, doces, são sublimes como cotton candy e a instrumentação tem aquele estilo "" todos juntos agora"" vigoroso que remete a Motown. E há Agnetha, a triste e doce Agnetha, a do sorriso triste....Uma fada nórdica em meio a banda que embalava bailes bregas e felizes de nossos pais. Doces suecos.
  Enjoy it.

COMO ERA O SÉCULO XX?

  Uma aluna me sensibilizou ao perguntar como era o século XX. Se eu viver até 2060, mesmo assim, esse pobre e assustado século será meu tempo. Respondi para ela que foi uma época em que as pessoas tomavam sol. Pessoas bonitas eram pessoas bronzeadas. E todos, sinto dizer, pareciam mais saudáveis. Fumavam, usavam péssimas maquiagens, mas pareciam mais alegres, naturais. Acho que era porque não havia tanta preocupação com dietas, genes, plásticas, proibições. O sol era mais amigo. E veja, chovia muito! E no inverno fazia frio.
   Minha resposta foi essa. E como ela tem onze anos, escrevo agora uma lembrança, comum, banal, de meus onze anos...
   O envelope azul era feio. Novo e já amassado. Dentro vinha um disco pequeno, com um forte cheiro de petróleo. O selo, ao centro da bolacha também era azul e nele se lia Fermata. A vitrola era um grande móvel de madeira clara, lustrado. O visor tinha uma luz verde. Apertei o botão branco e o prato girou. Coloquei o braço com a agulha sobre o disco. A familia toda se apertava ao redor da vitrola ABC. Queriam saber qual minha música favorita. Nove acordes de piano, lentos, e então a voz jovem e estranhamente melancólica de Elton John. Uma belíssima balada, meu primeiro disco. Rica melodia, belo arranjo de orquestra, bateria ribombante, a guitarra espalhada e esmerilhada, o refrão com multi vozes sonhadoras, uma balada que parece estranha, excêntrica, refinada. O disco, simples, acaba. E eu respiro fundo. Minha familia não gostou.
  Goodbye Yellow Brick Road era o single mais vendido aqui, em SP, no mês de abril de 1974. E Elton era o rei. Tocava no rádio também, Beannie and Jets, Candle in The Wind, Daniel, Roy Rogers e Sweet Painted Lady. Ele era o campeão, mas aquele momento era mágico. Dizem que 1966 foi o auge dos singles no rádio. Falam de 1972 também. E eu vi momentos sublimes em 1980, 1982, e depois na MTV em 1991 e 1995. Mas o meio de 1974... nas manhãs de sábado, em que não havia aula...Us and Them, Angie, D`yer Makèr....Tinha Wings Live and Let Die. Lennon com Mind Games. E Sorrow, David Bowie no rádio AM de SP.
  Gaye era uma balada linda de Clifford Ward. A regravação de I Am a Believer com Robert Wyatt. You Done Nothin com Stevie Wonder. No More Mr Nice Guy, Jet, 48 Crash, Elected. E David Essex, Sweet, Abba, Soley Soley...Slade. Tinha Harold Melvin, Diana Ross e Stylistics. E o Secos e Molhados. Os Novos Baianos. Gita. E Esse tal de Roque Enrow!
  O rádio era uma festa! Uma mistura que ia de Originais do Samba e Benito di Paula à Guess Who mais T.Rex... Era uma educação musical completa. Lembro de gravar num K7 a banda War e na sequência veio Dave McLean. Era surpresa e mais surpresa! Tudo misturado.
  Isso era o século XX. Uma salada tosca. Uma invenção improvisada. Um prato cheio.
  E a gente era guloso pacas!!!!!

OS INFINITOS- JOHN BANVILLE....ERAM DEUSES, ERAM HOMENS ERA A VIDA.

   John Banville escreve aqui o melhor romance dos últimos 14 anos. É meu terceiro Banville e é, em suas primeiras página, o que menos promete. Parece bobo com o deus Hermes voando por entre os humanos que se reúnem numa casa de campo inglesa. A sensação é de que se trata de uma sátira sem leveza. Mas rapidamente a coisa muda e começamos a perceber que o romance é uma obra de arte. Mestre da língua, Banville faz poesia em prosa, filosofia em diálogos e diverte em meio a um drama pesado. Esse escritor irlandês, nascido em 1945 e que esteve na Flip, acho que em 2011, merece muito mais fama neste país tolo do que tem tido. Candidato ao Nobel, jamais irá vencer, aposto, é figura central da prosa deste século. Este livro o prova.
  Adam é um velho matemático. Famoso, ele revolucionou a ciência pura, ( ciência pura é aquela que vive no mundo abstrato, onde sua ambição está dentro dela mesma, não é prática. Como a arte, é inutil ). Adam descobriu uma equação que resolve o infinito. Adam está em coma após um derrame. Na casa está sua segunda esposa, alcoólatra. Seu filho, Adam Jr., um alegre e otimista rapaz. A nora, Helen, uma belíssima loura vaidosa, e a filha, Petra, que tem sérios problemas mentais. Há ainda Ivy, a ex-dona da casa, uma nobre falida que agora é empregada da familia, Duffy, um empregado. Depois chegam Grace, um amigo gordinho e desagradável de Adam, e o namorado de Petra, um rapaz frio, vazio, distante. Há ainda Rex, o cachorro, um velho labrador. Com esses elementos, mais a presença do deus grego Hermes, que narra boa parte do livro, e de Zeus, que está sempre desejando Helen, John Banville narra uma história que fala sobre morte, alma, carne, natureza e familia. O tema é pesado, mas, como um mestre, Banville nunca nos deprime. Essa a magia do autor. Ele faz com que um velho em coma narre alguns capítulos, suas sensações, seus pensamentos, e mesmo nesses momentos o que sentimos é maravilhamento, prazer. O livro dá enorme satisfação. Ele fala de chuva, de luto, de desentendimento, e é claro, solar, vivo.
  Todos os personagens são narradores em algum momento. Até o cão tem seus parágrafos. Mas Hermes e Adam são aqueles que mais falam. Vemos a vida pelo ponto de vista de um deus e de um homem em coma, na quase morte. Entramos na abstração da matemática, tomamos contato com  a natureza, com o infinito e com a dor de viver. A morte paira ao lado de cada frase. Deuses sofrem por não poder morrer, homens sofrem por morrer. Apenas os bichos e as crianças muito jovens são felizes. Ignoram que exista a morte.
  Não contarei a surpresa reservada às últimas linhas. Mas posso dizer que quando terminei o livro a minha sensação foi de espanto. A mesma sensação rara de se abrir um presente aos 7 anos no Natal. Um laço se desfez, a caixa se abriu e eu sorri. Um dos mais belos finais que li em minha vida. Uma afirmação do valor da vida. E ao mesmo tempo um tapa na cara. Lindo.
   Livros como esse recuperam nossa fé na literatura, na ficção e no homem. A criatividade, esse dom sem razão, e as palavras, ferramentas que quando bem usadas são encantamento. John Banville conseguiu escrever um romance para adultos, sem nada de fácil em seu texto, que produz o mesmo encanto de um grande livro de poemas. Parece um sonho. Parece uma epifania. Parece o Olimpo.
  E não é.

MANKIEWICZ/ BETTE DAVIS/ AVA/ BOGEY/ REDGRAVE/ ALEC GUINESS

PELE DE ASNO de Jacques Demy com Catherine Deneuve, Jean Marais e Jacques Perrin
Um rei viúvo, que prometeu a esposa se casar apenas com uma mulher que fosse mais bela que a rainha, descobre que a filha é essa pessoa. O conto de Perrault adaptado em 1970 por Demy, tem música de Legrand e fotografia de Cloquet. E mesmo assim é de uma bobice exemplar. Demy foi um deslumbrado. Se apaixonou pela nouvelle vague e depois pelos hippies que conheceu em LA. Une aqui o pior desses dois mundos. Claro, é um prazer ver Marais, o ator de Cocteau, mas é pouco. Nota 2.
ESCRAVOS DO DESEJO de John Cromwell com Bette Davis, Leslie Howard e Frances Dee.
O romance de Maugham fez de Bette uma estrela. Passado em Londres, o filme conta a história do médico, de pé deformado, que se apaixona por uma garçonete, que o usa e joga fora. O filme foi um sucesso e é bom, apesar de Bette. Porque apesar deste papel ter feito dela a estrela da Warner, seu desempenho é fake. Um sotaque cockney exagerado e uma vulgaridade de carnaval. Mas vale pela boa produção. Nota 5.
QUEM É O INFIEL? de Joseph L. Mankiewicz com Jeanne Crain, Linda Darnell, Ann Sothern, Kirk Douglas e Paul Douglas.
O roteiro, do diretor Mankiewicz, ganhou o Oscar de 1949. E é brilhante! Três amigas, casadas, vão passar um fim de semana numa ilha. Longe de telefones, elas recebem de um amigo uma carta. Essa carta diz que nessa hora, o marido de uma delas está fugindo com outra. Essa outra é a estrela da escola, antiga amiga das três. Essa carta faz com que cada uma delas se recorde do seu casamento, de um momento de crise, de alguma injustiça cometida. Qual deles fugiu? Mankiewicz dirige de sua maneira segura, pausada, firme de sempre. O filme, visto pela terceira vez, se mantém como diversão de primeira. Ainda atual, ele une drama, humor e muito suspense. O elenco, como em todos os filmes do diretor, se destaca. É este o primeiro papel de Kirk Douglas. Pode ver. É ótimo. Nota 9.
A MALVADA de Joseph L. Mankiewicz com Bette Davis, Anne Baxter e George Sanders
Um dos mais famosos filmes de Hollywood, conta a história da atriz veterana que é usada por uma fã que inveja seu status. O roteiro, do diretor, tem algumas das melhores falas wit da história. E há Bette, num de seus grandes momentos que não lhe deu um merecido Oscar. Ela consegue transmitir vulnerabilidade e vaidade ao mesmo tempo. Sua voz, rouca, traz sensualidade decadente. É um papel de genialidade. Mas o filme tem mais. Tem George Sanders exalando maldade, tem suspense e uma Anne Baxter quase ao nível de Bette. É um filme maravilhoso, perfeito, histórico e deu um Oscar a Mankiewicz como diretor. E mais um como escritor. Obrigatório para quem queira saber o que significa um bom diálogo. Nota DEZ!
A CONDESSA DESCALÇA de Joseph L. Mankiewicz com Humphrey Bogart, Ava Gardner e Edmond O`Brien
A história, cheia de fel, de um diretor humilhado por um produtor. Também é a história de uma atriz, ninfo, que não dá a mínima para a fama e que se casa com um milionário impotente. O filme deveria ser forte, mas não é. Ele quer ser tão irado que passa do ponto. O drama é exagerado, as cenas na Espanha parecem falsas e até Bogey se perde. Ele não combina com o papel. Talvez seja o pior filme do diretor, apesar de ser uma obra bastante famosa. Nota 4.
O AMERICANO TRANQUILO de Joseph L. Mankiewicz com Michael Redgrave, Audie Murphy e Bruce Cabot
Um filme fascinante que encerra o pequeno festival Mankiewicz que montei para mim mesmo ( eu sei que faltaram muitos outros....fica pra outra ).  O tema é fascinante! No Vietnã de 1954, vemos um repórter inglês, frio e distante, que tenta não se envolver na guerra, se envolver com um americano comum, que surge em Saigon para fazer comércio. Os dois viram conhecidos, disputam a mesma mulher e tudo vira um pesadelo em meio a guerra dos vietcongs contra a França. Well...para quem não sabe, o Vietnã lutou contra a França até os anos 60 e quando venceu teve de lutar contra os EUA por mais dez anos. E venceu. Este filme foi filmado em Saigon, e só isso já faz dele experiência invulgar. Foi nesse ano e nessa guerra que Robert Capa morreu. Redgrave, pai de Vanessa, dá seu show costumeiro. Vemos o inglês perceber o quanto ele foi covarde, mole, inativo. Todo o filme tem jeito de documentário e na rica filmografia do diretor é um dos melhores. Foi um fracasso na época, e nesta era do dvd está sendo redescoberto. A fotografia de Robert Krasker é excelente. Nota DEZ.
A VIDA PRIVADA DE SHERLOCK HOLMES de Billy Wilder com Robert Stephens, Colin Blakeley e Genevieve Page.
Billy num de seus últimos filmes, falha terrivelmente nesta tentativa patética de filmar um caso de Holmes como um tipo de comédia realista. O filme não pega fogo. E o roteiro, algo sobre um submarino, tem um interesse nulo. Nota 1.
VIVA A LIBERDADE de Roberto Andó com Toni Servillo e Valeria Bruni Tedeschi
Lixo. Um infantil e absurdo conto sobre um senador deprimido que é substituído por seu irmão doido. Claro que ele vira um sucesso! O que há de novo aqui? Porque fazer isso de novo? Peter Sellers o fez. Jack Lemmon fez. Eddie Murphy fez. E todos foram melhores. Nota ZERO.
O PRÍNCIPE de ....com Jason Patric, Bruce Willis e John Cusak
Uma menina se envolve com drogas e o pai vai salvar ela. O pai não é Bruce. É Patric. Cenas de ação frouxas e um roteiro com falas de analfabetos. Sem nota.
UM MALUCO GENIAL de Ronald Neame com Alec Guiness
Guiness escreveu o roteiro. É sobre um pintor genial que pobre, vive de aplicar golpes nos amigos. O personagem é feio, sujo, mentiroso, mal humorado e antipático. É um filme estranhíssimo. Nada nele nos seduz. E é um filme importante e bom. Vemos a Londres suja de 1957. Uma cidade ainda em ruínas, escura, pobre, com seus primeiros mods. O ambiente salva o filme. Nota....hmmm....5.
CRIME É CRIME de George Pollock com Margareth Rutherford e Ron Moody
Uma agradável aventura da velhinha Miss Marple, a detetive amadora criada por Agatha Christie. Crimes entre um grupo de teatro, num cidade do interior inglês. Nota 5.

UMA PRECE TARDIA POR SUNI, O RINOCERONTE BRANCO.

Suni.
Voce morreu e sinto que Deus morreu mais um pouco junto a voce. Sinto que a vida ficou menor. Porque quando uma espécie se vai a vida se vai. Tudo fica mais sem motivo. 
Uma espécie deixa de existir e o palco deste drama diminui. A uniformidade aumenta, a diversidade encolhe. Um rinoceronte branco, personagem que aqui estava desde sempre. Que sobreviveu a romanos, gregos e nazistas. A secas, terremotos e vulcões. Mas não consegue resistir a nosso progresso. A nossa maldita cobiça. E leva com ele um testemunho. Uma presença.
O planeta perde mais uma voz, um rastro e um cheiro. Suni cai. Morto em sua terra. E sua terra cai com ele, deixa de ser terra e passa a ser vazio. O eco de sua morte roda mundo e invade meu espaço. Que seca.
Suni nada entendeu dessas mudanças. Não entendeu porque ele estava no centro delas. Porque a Terra é de Suni. E nunca nossa. Nós aqui estamos para cuidar de Suni.
E falhamos.
Mais uma espécie se vai. E para sempre vira lenda. E lenda é saudade para sempre. É ausência que não pode ser preenchida. Desconsolo.
Suni... Nunca mais.

Blondie - Heart Of Glass

para quem quer saber...

leia e escreva já!

Blondie - Rapture



leia e escreva já!

AUTOAMERICAN- BLONDIE

NEW WAVE foi o primeiro movimento no POP a se propor engolir tudo o que desse pra se enfiar no estômago e desse pra se enviar aos ouvidos.
Talvez fosse isso. 
BLONDIE. Um regurgitamento de rock tipo Beach Boys, mais Beatles, Mais Modern Lovers e mais JOHNNY THUNDERS plus BLACK MUSIC. ( Talvez primeiro branco a lançar rap ? ).
Tudo temperado com estilo visual: a primeira banda a lançar doze clips para um album- EAT TO THE BEAT, 1979. 
AQUELA COISA, óculos escuros, gravatas fininhas, sapatos sob medida, cabelos nouvelle vague, uma coisa meio boêmios anos 50.
Eu poderia escrever sobre PARALLEL LINES, o disco favorito dos críticos.
ou SOBRE eat to the beat,que é o mais elétrico e urgente....mas vou escrever é sobre aUtoAMERICan....
  pOIS ELE tem ANGELS IN THE BALCONY...(( O desejo sedento de uma voz de mulher e de um corpo de um anjo. O perfume que se espalha dentro das coisas e eu SEI que estive lá, onde VOCE sempre me teve. A inenarrável beleza ESTÚPIDA...Um Deus é aquele que viu tudo e suportou a dor dessa visão. e um ANJO toca meus pensamentos inefáveis e os beija sem paixão )).
Roberto. Dio. Mauro. Marina...Quanta saudade cabe no coração de um homem?
((( Como dizia Zeca Neves, Clem Burke é um batera maluquete. O melhor de 1980. O que não é pouco, muitos se destacam. Chris Stein é o cara. E Debbie é a playmate dos caras que jogaram a PLAYBOY fora...)))
As canções são fotografias de momentos distintos. SEM FLASH. MEIO ESCURO. 
De Hollywood à reggae made in Bali. DE rocknroll ao RAP. 
basquiat grafitaNdo. andy warhol...
...angel.