PALIMPSESTO, A BIO DE GORE VIDAL. COM ELENCO QUE VAI DE KENNEDY À GRETA GARBO, DE TENNESSEE WILLIANS À....JÂNIO QUADROS!

Tenho uma amiga americana. Ela é da velha tradição pentecostal. Ao contrário dos protestantes europeus, os americanos levam a religião muito a sério. O país foi fundado como refúgio religioso. Os puritanos ingleses, perseguidos, foram à América em busca da liberdade. Daí o mito da Terra dos Homens Livres. Uma bíblia sobre a mesa, eles liam, oravam e amavam essa terra sagrada. Gore Vidal é ateu. Mas entende esse caldo religioso ao falar dos Kennedy. Joe, o pai de John, era católico e irlandês. Um chefão mafioso, fez uma fortuna com contrabando, bebida, prostituição e cinema. Comia todas as atrizes dos anos 10 e 20. Seu filho John, culto, foi estudar na Inglaterra, tinha uma ambição sem fim. Seu sonho era vencer a Rússia e ser o presidente do Império Americano. Gore Vidal era amigo de John e de Jackie, a moça de sangue azul que casou com John e foi chifrada ostensivamente todos os dias. John queria a guerra. Kruschev não. Mas desde a segunda-guerra, quem manda nos EUA é o exército. O país vive por suas guerras. A Rússia, fraca, pobre, foi demonizada. Eles morriam de medo dos EUA, mas na América o povo era educado a crer que a Rússia ansiava pela guerra. Kennedy, antes de ser morto pela máfia da Flórida, ele havia quebrado todos os pactos de seu pai, mudara leis. Abria o caminho para o Vietnã. O orçamento militar triplicou em seu governo. E nunca mais pararia de crescer. Quem falasse em educação ou previdência era chamado de comunista. Vidal estudava a Suécia, o bem estar social, o fato de escolas e saúde serem grátis por lá. Mas, a propaganda americana desqualificava a Suécia: eles eram adeptos do amor livre, eram ateus, faziam suicídio, eram infelizes. Eram comunistas.
Gore Vidal estava lá. De sua biografia, nada é mais interessante que o mundo politico. Mundo que caiu cada vez mais até o absoluto vazio de hoje. Bobby Kennedy é pintado como uma besta completa. E Nixon como aquilo que podemos chamar de gênio do mal. Paranóico. Há Rockefeller, Lyndon Johnson, Reagan, os Clinton ( terrivelmente perseguidos e solitários ), seu primo Al Gore, Eisenhower, Roosevelt, o senador McCarthy, Goldwater. E em meio a todos eles, Jânio Quadros! Sim, Kennedy fica fulo com Jânio. Reclama que não há país onde eles tenha intervido menos que o Brasil e agora um idiota joga a presidência no lixo e deixa o caminho aberto para os militares brasileiros, um bando de covardes pidões. Pois é...
A familia Vidal foi centro da vida politica. O avô foi senador liberal, o pai também. O pai, que Gore adora, foi também um pioneiro da aviação. Fundou a TWA. A mãe, Nina, é odiada por Gore Vidal. Invejosa, fofoqueira, dada a se sentir uma mártir. E pelas fotos que vejo no livro, uma das mais belas mulheres do mundo.
O jovem Gore lê muito. E se apaixona pela única vez na vida por um colega. O amor é realizado, mas esse jovem será morto aos 20 anos em Iwo Jima. Durante toda a escrita desta bio, em 1995, aos 70 anos, Gore Vidal recorda seu amor perdido. Ele serve como fio condutor da história. E sabiamente Gore faz de sua bio um retrato de quem ele conheceu e não dele mesmo. Desmistifica certas pessoas ( Churchill era um bêbado burro, qualquer um em seu lugar venceria a guerra com a ajuda americana e uma Alemanha falindo dia a dia ), mas também, sempre com uma escrita aguda e bem humorada, eleva quem merece essa elevação.
Descreve o mundo europeu pós-guerra, sexo barato e farto, felicidade nas ruas, mesmo com a fome de italianos, a construção de um novo mundo que logo seria abortado na guerra fria. Gore lança o primeiro livro gay da América, A Cidade e o Pilar, vira roteirista de cinema, autor de teatro, escreve na TV ao vivo dos anos 50 e volta ao romance em 1962, quando passa a morar em Roma. Roma em 62: alegria, vida livre, gente passeando, beleza. Roma em 1993: crime, sujeira, medo. Muda-se para um casarão à beira de um penhasco, de frente ao Mediterrâneo. Gore Vidal se torna uma figura popular. Um tipo de comentador sobre tudo o que vale ser comentado. Adoro seu texto e amo suas opiniões sobre literatura.
Vidal conviveu muito com Tennessee Willians, Paul Bowles, Anais Nin, Saul Bellow, Christopher Isherwood, Leonard Bernstein, Jerome Robbins, Rudolf Nureyev...Gore fala que o romance, após o cinema e a TV deixou de ser diversão. Passou a ser uma chatice a ser estudado por professores sem imaginação e por estudantes sem paciência. Ele exibe no livro a lista de best-sellers do NY Times de 1964. Em primeiro lugar está Gore Vidal. Depois vem John Le Carré, Ian Fleming, Louis Aunchincloss e Leon Uris. Uma das últimas vezes em que os mais vendidos eram romances para adultos. Em que um romance adulto conseguia vender 3 milhões de exemplares. Daí para a frente, só sexo, exoterismo, biografias, e auto-ajuda. E contos de fadas travestidos de romance adulto. Gore também tem críticas duras à escrita de Heminguay ( seco e sem imaginação ), um autor que deu milhares de frutos ruins. Com Heminguay todo homem metido a macho e que saiba escrever quatro frases duras acha que pode ser um escritor. O romance americano se torna um tipo de confessionário, uma prosa sem aprofundamento, sem invenção, apenas um longo descrever da vida ''como ela é""", o que significa a morte do romance como arte. Até os 20 anos era isso que o jovem Gore queria, mas aconselhado a ler Henry James ele muda. James, e mais Edith Wharton, Stendhal, George Meredith, Anthony Trollope, passam a ser seus modelos. Uma escrita elegante, ferina, dúbia, cheia de cor. Proust também é muito citado.
Gore Vidal diz que o mundo sempre teve, e continua tendo, seus donos. As pessoas verdadeiramente ricas, cultas, e também duras, frias, impessoais. E o tal jet set, os ricos que se exibem, que vomitam poder para as massas, mas que na verdade nada mandam, nada sabem e nada importam. O que ocorre é que esse alto mundo está se misturando com o jet set. O alto mundo tem se empobrecido e o jet set se assanhado. Isso faz com que se antes o poder fosse sujo e delicado, hoje ele seja sujo e grosseiro. A aristocracia morre quando ninguém mais quer servir a aristocracia. Quando todos se acham protagonistas. Esse é o caminho aberto para o vale tudo e a falta de direção. Gore não defende a aristocracia, quem a defende sou eu. Ele apenas descreve um mundo em sua decadência. Kennedy foi o primeiro Jet Setter a se imaginar um aristocrata. Um aristocrata filho de um mafioso. Bela aristocracia!
Poderia falar de tanta mais coisa! As filmagens de Ben-Hur, roteiro de Gore, em que ele e o produtor conseguiram fazer com que Charlton Heston não percebesse que a história era um romance gay entre Ben e Messala. Uma história divertidíssima! Há ainda a firmação de que no cinema dos anos 20 e 30 todos os atores eram gays e todas as atrizes lésbicas. O que chamamos de GLAMOUR é uma atitude gay. Gore foi amigo de Greta Garbo já no exílio da diva, uma presença de carisma absurdo e completamente ""sapata""". Como eram Marlene, Kate Hepburn e Bette. E também Cary, Gary e Powell. Um mundo gay. Que influenciou os heteros de ontem e de sempre. Uma ironia.
Ler este belo livro é como ter uma alegre aula de cultura. Alta cultura e cultura pop. De politica e de história. Uma beleza.
Ler Gore Vidal é como ler o melhor de Paulo Francis. Que bom.