leia e escreva já!
UM PUNHADO DE GITANES- SYLVIE SIMMONS, A VIDA DE SERGE GAINSBOURG
Quando o li pela primeira vez, em julho de 2005, adorei. Recém saído de uma relação, sedento por sexo, por esquecimento, passei a considerar Serge um ídolo. Mas o tempo passou e eu mudei com o tempo.
Começando a ler o livro, penso: -Um francês bêbado, chato, suicida....tudo o que mais odeio!
Quase desisto. Mas o livro é ok e continuo. E acabo gostando. Um pouco.
Ninguém em nove anos assiste tantos filmes, lê tanto, estuda letras, muda de emprego 3 vezes, conhece putinhas, rainhas, bobos e doidos, atletas e nobres empobrecidos sem mudar. Nesse nove anos tomei porres colossais, amei mulheres frias, tive casos sujos e platonismos inconvincentes. E mais que tudo, envelheci. Muito. E como consolo me tornei um pretenso anglófilo. Imaginar-se vitoriano consola a solidão. E Serge?
Não me interessa mais sua vida. A bebida e as mulheres...Jane Birkin. E daí? Mas nessa leitura quero saber da obra, da música. A história das gravações é o que de melhor há no texto. Sua música é melhor que sua vida e não o oposto.
Ele era um timido que usava a bebida para se soltar. O cigarro era companhia fiel. Seu maior medo era o de ser abandonado. Na verdade ele nunca foi. As mulheres o abandonavam mas continuavam em sua vida. Como amigas presentes e atenciosas. Penso que Serge não era sexy, ele acendia seu instinto de proteção, de mãe. Acho que ele nunca pensou isso.
Cèst tout.
Começando a ler o livro, penso: -Um francês bêbado, chato, suicida....tudo o que mais odeio!
Quase desisto. Mas o livro é ok e continuo. E acabo gostando. Um pouco.
Ninguém em nove anos assiste tantos filmes, lê tanto, estuda letras, muda de emprego 3 vezes, conhece putinhas, rainhas, bobos e doidos, atletas e nobres empobrecidos sem mudar. Nesse nove anos tomei porres colossais, amei mulheres frias, tive casos sujos e platonismos inconvincentes. E mais que tudo, envelheci. Muito. E como consolo me tornei um pretenso anglófilo. Imaginar-se vitoriano consola a solidão. E Serge?
Não me interessa mais sua vida. A bebida e as mulheres...Jane Birkin. E daí? Mas nessa leitura quero saber da obra, da música. A história das gravações é o que de melhor há no texto. Sua música é melhor que sua vida e não o oposto.
Ele era um timido que usava a bebida para se soltar. O cigarro era companhia fiel. Seu maior medo era o de ser abandonado. Na verdade ele nunca foi. As mulheres o abandonavam mas continuavam em sua vida. Como amigas presentes e atenciosas. Penso que Serge não era sexy, ele acendia seu instinto de proteção, de mãe. Acho que ele nunca pensou isso.
Cèst tout.
A EVOLUÇÃO DE DARWIN É UM BARATO BICHO!
Um dia um bando de peixes sentiu uma curiosidade imensa de ver o que havia lá fora. Só tinha um problema, lá fora não tinha água. Mesmo assim um deles disse: - Hey gente! Lá fora é mais legal ! E se foram terra adentro. Claro que cada passo levou uma eternidade e meia pra acontecer. Mas sabe como é, a evolução assim como o progresso capitalista é coisa irresistível e então através dessa força eles foram pra onde tinham que ir.
Depois teve um pássaro que resolveu que semente de girassol era melhor que frutas polpudas. Mas seu bico servia só pra bicar a casca de mamão ou de banana. Mas, sabe como é, ele anunciou:- Hey gente! Semente de girassol é mais barata e tem mais vitamina E! Bem, alguns deles morreram de fome por se recusar a comer frutas tenras, mas com o tempo eles conseguiram encurvar o bico e comer girassol. A teimosia do papagaio é coisa séria!
Então um macaco resolveu que ficar nas árvores era muito pouco cool. Os galhos davam assaduras na virilha e os MSG estavam enchendo o saco. Desceram pro chão e foram comidos pelos leões e pelas hienas. Desceram de novo e morreram de fome tentando comer capim. Do alto das árvores os chimpanzés riam deles: -Hey gente! Que idiotas! Hahahahahahah! Mas, agora cheios de teimosia, eles ergueram a coluna e conseguiram andar!!!! E foram engolidos pelos leopardos. Mas, um deles espalhou a noticia que comer carniça era muito in. E comeram os restos de uma zebra. Vomitaram uma semana e morreram de inanição. Mas com o tempo conseguiram engolir aquela carne podre e então, eureka! O cérebro cresceu!!!! Mas um grupo de lobos os engoliu vivos. Em meio a matança um deles teve tempo de dizer: Hey gente! Essa é a lei da selva!!!! Bem, o cérebro maior fez com que suas dores de cabeça aumentassem e então eles usaram o polegar para massagear a testa.
Um tempão depois esse povo cool usa tinta azul para pintar a unha do dedão e se vingou dos leopardos os extinguindo. A lei do progresso ainda manda e um povo in crê nesta fábula como se racional ela fosse. Bem, alguns dizem - Hey Gente! Um Deus criou gente de barro!!! Os caras cool riem, todos sabem que foi a evolução que fez com que os peixes desejassem andar!
_Aliás, esse povo sabe que o próximo passo são os seres feitos de compostos de ferro e vivendo eternamente...Foi um loooongo caminho baby...
Depois teve um pássaro que resolveu que semente de girassol era melhor que frutas polpudas. Mas seu bico servia só pra bicar a casca de mamão ou de banana. Mas, sabe como é, ele anunciou:- Hey gente! Semente de girassol é mais barata e tem mais vitamina E! Bem, alguns deles morreram de fome por se recusar a comer frutas tenras, mas com o tempo eles conseguiram encurvar o bico e comer girassol. A teimosia do papagaio é coisa séria!
Então um macaco resolveu que ficar nas árvores era muito pouco cool. Os galhos davam assaduras na virilha e os MSG estavam enchendo o saco. Desceram pro chão e foram comidos pelos leões e pelas hienas. Desceram de novo e morreram de fome tentando comer capim. Do alto das árvores os chimpanzés riam deles: -Hey gente! Que idiotas! Hahahahahahah! Mas, agora cheios de teimosia, eles ergueram a coluna e conseguiram andar!!!! E foram engolidos pelos leopardos. Mas, um deles espalhou a noticia que comer carniça era muito in. E comeram os restos de uma zebra. Vomitaram uma semana e morreram de inanição. Mas com o tempo conseguiram engolir aquela carne podre e então, eureka! O cérebro cresceu!!!! Mas um grupo de lobos os engoliu vivos. Em meio a matança um deles teve tempo de dizer: Hey gente! Essa é a lei da selva!!!! Bem, o cérebro maior fez com que suas dores de cabeça aumentassem e então eles usaram o polegar para massagear a testa.
Um tempão depois esse povo cool usa tinta azul para pintar a unha do dedão e se vingou dos leopardos os extinguindo. A lei do progresso ainda manda e um povo in crê nesta fábula como se racional ela fosse. Bem, alguns dizem - Hey Gente! Um Deus criou gente de barro!!! Os caras cool riem, todos sabem que foi a evolução que fez com que os peixes desejassem andar!
_Aliás, esse povo sabe que o próximo passo são os seres feitos de compostos de ferro e vivendo eternamente...Foi um loooongo caminho baby...
DO SENTIMENTO TRÁGICO DA VIDA- MIGUEL DE UNAMUNO
O sentimento de tragédia nasce pelo fato de que a cabeça diz razão e a alma fala sentimento. Se a razão é cega para tudo o que não se mede, o sentimento precisa da razão para se expressar. Em termos, as maiores verdades não podem ser ditas, palavras não expressam sua força. O que sabemos mas não conseguimos sequer pensar, eis a maior das verdades.
Este livro é árduo. Dificil. Unamuno assume o que todos sabem: a vida de mais sério tem a morte. Dois modos de viver: evitando pensar no fim. Ou crendo na vida eterna. No primeiro modo tudo perde relevância. Cada ato se faz futilidade pois não repercute, será imediatamente esquecido. Nada permanece, tudo é esquecimento. Unamuno diz que viver assim é impossível e que mesmo os que não acreditam na alma vivem como se tudo fosse continuar. Eis o consolo da história, dos filhos, da arte ou do conceito de clã. Houve uma sociedade assim: Roma dos césares, a mais materialista das sociedades.
No segundo modo tudo tem peso. Cada dia e cada ato irá ecoar por todo o sempre. Nada se perde, as coisas ficam, permanecem. A vida se torna grave, séria e trágica. Sentimentos, crises e nascimentos são eternos.
A razão reconhece o primeiro por ser ele calculável. O segundo a assusta por ser infinito.
Talvez as mais belas páginas estejam no capítulo final. Unamuno defende a Espanha perante a Europa. A Europa, científica, apressada, fria e técnica contra a Espanha, que não é nem quer ser Europa, Espanha que é fascinada pela morte, que não reconhece o tempo, a pressa, o pragmatismo ou o trabalho. Espanha que salvou o catolicismo com a reforma, que descobriu continentes, que criou a figura do homem que crê e que faz da crença um mundo: o Quixote.
Para Unamuno não importa se Deus existe. Importa querer que Ele exista. Viver na absoluta certeza é impossível. Todo crente duvida ou será apenas um fanático. Mas é preciso desejar Deus. Desejar que Ele seja possível.
E com isso poder preservar aquilo que faz de nós seres à parte: a certeza da morte, a crença na alma e a ansia por eternidade. Pois o homem não se conforma com finais, com finitudes, com o ato em vão. Eis sua nobreza.
Agir conforme essa crença, pesando consequências, eis sua moral.
É assim.
Este livro é árduo. Dificil. Unamuno assume o que todos sabem: a vida de mais sério tem a morte. Dois modos de viver: evitando pensar no fim. Ou crendo na vida eterna. No primeiro modo tudo perde relevância. Cada ato se faz futilidade pois não repercute, será imediatamente esquecido. Nada permanece, tudo é esquecimento. Unamuno diz que viver assim é impossível e que mesmo os que não acreditam na alma vivem como se tudo fosse continuar. Eis o consolo da história, dos filhos, da arte ou do conceito de clã. Houve uma sociedade assim: Roma dos césares, a mais materialista das sociedades.
No segundo modo tudo tem peso. Cada dia e cada ato irá ecoar por todo o sempre. Nada se perde, as coisas ficam, permanecem. A vida se torna grave, séria e trágica. Sentimentos, crises e nascimentos são eternos.
A razão reconhece o primeiro por ser ele calculável. O segundo a assusta por ser infinito.
Talvez as mais belas páginas estejam no capítulo final. Unamuno defende a Espanha perante a Europa. A Europa, científica, apressada, fria e técnica contra a Espanha, que não é nem quer ser Europa, Espanha que é fascinada pela morte, que não reconhece o tempo, a pressa, o pragmatismo ou o trabalho. Espanha que salvou o catolicismo com a reforma, que descobriu continentes, que criou a figura do homem que crê e que faz da crença um mundo: o Quixote.
Para Unamuno não importa se Deus existe. Importa querer que Ele exista. Viver na absoluta certeza é impossível. Todo crente duvida ou será apenas um fanático. Mas é preciso desejar Deus. Desejar que Ele seja possível.
E com isso poder preservar aquilo que faz de nós seres à parte: a certeza da morte, a crença na alma e a ansia por eternidade. Pois o homem não se conforma com finais, com finitudes, com o ato em vão. Eis sua nobreza.
Agir conforme essa crença, pesando consequências, eis sua moral.
É assim.
TEMPO
Um amigo me fala de Leonardo Boff e resolvo ler seu blog. O primeiro post que leio já me toca. Tempo é o tema. A visão o tempo de Boff é a mesma que tenho. Tempo de relógio não existe. É tempo da razão, tempo que divide a vida em partículas artificiais. O sentido desse tempo serve apenas para nos aprisionar. Dentro desse tempo mecânico não pode haver felicidade. Nele mal cabe a alegria.
O tempo existe, não se pode dizer que ele seja invenção humana e só humana. Os bichos vivem seu tempo. As coisas surgem dentro dele e com ele. Boff fala do Big Bang como um evento no tempo. Na verdade ele inaugura nosso tempo. Um milionésimo de segundo dentro do silêncio. Acaso?
Minha alegria e minha liberdade sempre viveu no tempo natural. O tempo que reconhece dia e noite, inicio e fim. Calor e frio, chuva e sol. Boff conta que a igreja tenta fazer esse tempo sobreviver. Na igreja existe Natal e Pascoa, nascimento e morte. Tempo da Terra: melancia e uva, laranjas e cabritinhos. Plantar e colher, guardar e usufruir.
O amor tem um tempo seu. Conhecer, conquistar, reconhecer, aceitar, unir e construir. A dor tem seu tempo: ver, revoltar-se, aceitar, afundar, renascer, crescer. O relogio diz que passou certo tempo. Mas o que ele diz nada significa. O que ele chama de longo pode ser curto para voce. E vice-versa. O que seu mecanismo diz significa apenas que o relogio andou. Ele andou. O tempo quem sabe?
Cada ser tem seu modo de andar e de ser ao tempo.
Respeite.
O tempo existe, não se pode dizer que ele seja invenção humana e só humana. Os bichos vivem seu tempo. As coisas surgem dentro dele e com ele. Boff fala do Big Bang como um evento no tempo. Na verdade ele inaugura nosso tempo. Um milionésimo de segundo dentro do silêncio. Acaso?
Minha alegria e minha liberdade sempre viveu no tempo natural. O tempo que reconhece dia e noite, inicio e fim. Calor e frio, chuva e sol. Boff conta que a igreja tenta fazer esse tempo sobreviver. Na igreja existe Natal e Pascoa, nascimento e morte. Tempo da Terra: melancia e uva, laranjas e cabritinhos. Plantar e colher, guardar e usufruir.
O amor tem um tempo seu. Conhecer, conquistar, reconhecer, aceitar, unir e construir. A dor tem seu tempo: ver, revoltar-se, aceitar, afundar, renascer, crescer. O relogio diz que passou certo tempo. Mas o que ele diz nada significa. O que ele chama de longo pode ser curto para voce. E vice-versa. O que seu mecanismo diz significa apenas que o relogio andou. Ele andou. O tempo quem sabe?
Cada ser tem seu modo de andar e de ser ao tempo.
Respeite.
VINTE ANOS DE PULP FICTION ( SIM, VI O PÂNICO ONTEM )
Eu não sei se Pulp Fiction é o melhor filme dos últimos vinte anos, o que sei é que nenhum outro filme me deu tanto prazer.
Lembro bem de quando o vi pela primeira vez. Foi em maio de 1995. Uma amiga me emprestou o filme e a trilha sonora. O impacto foi tão grande que me apaixonei por ela. Sim, pela menina. Desde a primeira cena até a última eu gozei um prazer que misturava esteticismo, humor, citações e amor ao cinema. Seus atores nunca mais foram os mesmos. Travolta, Jackson, Uma, Keitel, todos se tornaram ícones de um filme que passou a simbolizar uma geração, a minha. ( Bruce Willis passou ileso. De certo modo ele já era desde sempre o cara que fala "Zed is Dead")
Diálogos do filme eram repetidos entre amigos, as músicas tocavam em festas, e assisti o filme 3 dias seguidos. Sempre com prazer. Cada vez maior.
Não sei se ele é o melhor porque me lembro de A Grande Beleza, Branca de Neve, os filmes dos irmãos Coen, me lembro de Todd Haynes, de Resnais, Cidade de Deus, e mesmo de Kill Bill. Mas eu tenho a certeza que já há quem olhe para o Oscar de 1995 e pense: O que???? Coração Valente venceu Tarantino? Ele é o nosso Citizen Kane.
Porque tudo nele foi uma zebra. Ele passou em Cannes e causou espanto. Surpresa. Era um filme independente. Tarantino abriu caminho para uma onda de filmes jovens com ideias jovens. Onda que logo virou marola, mas que teve méritos enquanto durou. Produtores jogaram grana na mão de uma galera esperta na esperança de ter um novo Tarantino em produção. Nunca surgiu. Mas foi legal pacas.
1994 foi um momento de TRANSIÇÃO no cinema. Antes de Matrix e antes dos X Men. Não havia a onda Marvel e nem a onda de efeitos exagerados. Um filme barato ainda podia render muita, muita grana. E Pulp Fiction ficou meses em cartaz. Não nos esqueçamos, John Travolta estava em baixa e Jackson era apenas um ator cult. Travolta, que adoro, teve a honra de fazer cenas icônicas para duas gerações, as cenas de Saturday Night Fever/ Grease e aqui. Hoje ele voltou a ser um ator "do passado". Mas é um cara que todo mundo que ama cinema respeita e tem carinho. É um grande cara. Neste filme ele está brilhante. Mas...quem não está? Há ator melhor que Samuel L. Jackson citando a bíblia?
No mundo de 2014 Tarantino é o Scorsese, o Eastwood e o Godard que nos resta. E não cito eles a toa. Pulp Fiction cita os três ( mais Leone, Woo, Hawks e uma porrada de filmes de Hong Kong ). Quentin é um nerd de cinema. Como eu. Ele ama o que faz e mais importante, tem prazer em filmar. Isso faz enorme diferença. Porque vivemos hoje a era de diretores que filmam como se estivessem em trabalho de parto. Ou em confissão numa igreja. Argh!
Nos anos seguintes a 1994 virou moda falar que Tarantino era diretor de um filme só. Não quiseram ver que Jackie Brown era ótimo. Esperavam outro Pulp Fiction. Ora, jamais teremos outro Pulp como nunca veio outro Taxi Driver, outro Rio Bravo ou um novo Josey Wales. São filmes que espelham um momento do mundo e da vida de quem os escreve. São únicos. Quando Quentin lançou Kill Bill e afirmou para todos sua grandeza, provou que Pulp não era filho único, o momento já era outro e Kill Bill é filho deste século artificial. Virtual.
Pulp Fiction faz vinte anos e o mundo está completamente diferente. Em 1994 eu não tive como partilhar minhas impressões. O sucesso de Tarantino foi sem net. Nisso melhoramos. Adoro poder escrever aqui. Mas que filme feito em 2014 chega perto de seu poder? Da alegria jovem de uma descoberta? Da festa criativa que nos surpreendeu cena sobre cena? Cada tomada sendo uma aula de liberdade, de inventividade, de se ir sempre contra a expectativa.
Cada geração tem o filme que merece. Talvez esta tenha a tristeza dos filmes de Von Trier ou a cor fake dos filmes de Wes Anderson. Eu prefiro a viril auto-confiança de Quentin Tarantino. Tenho orgulho de ser de sua fornada.
Lembro bem de quando o vi pela primeira vez. Foi em maio de 1995. Uma amiga me emprestou o filme e a trilha sonora. O impacto foi tão grande que me apaixonei por ela. Sim, pela menina. Desde a primeira cena até a última eu gozei um prazer que misturava esteticismo, humor, citações e amor ao cinema. Seus atores nunca mais foram os mesmos. Travolta, Jackson, Uma, Keitel, todos se tornaram ícones de um filme que passou a simbolizar uma geração, a minha. ( Bruce Willis passou ileso. De certo modo ele já era desde sempre o cara que fala "Zed is Dead")
Diálogos do filme eram repetidos entre amigos, as músicas tocavam em festas, e assisti o filme 3 dias seguidos. Sempre com prazer. Cada vez maior.
Não sei se ele é o melhor porque me lembro de A Grande Beleza, Branca de Neve, os filmes dos irmãos Coen, me lembro de Todd Haynes, de Resnais, Cidade de Deus, e mesmo de Kill Bill. Mas eu tenho a certeza que já há quem olhe para o Oscar de 1995 e pense: O que???? Coração Valente venceu Tarantino? Ele é o nosso Citizen Kane.
Porque tudo nele foi uma zebra. Ele passou em Cannes e causou espanto. Surpresa. Era um filme independente. Tarantino abriu caminho para uma onda de filmes jovens com ideias jovens. Onda que logo virou marola, mas que teve méritos enquanto durou. Produtores jogaram grana na mão de uma galera esperta na esperança de ter um novo Tarantino em produção. Nunca surgiu. Mas foi legal pacas.
1994 foi um momento de TRANSIÇÃO no cinema. Antes de Matrix e antes dos X Men. Não havia a onda Marvel e nem a onda de efeitos exagerados. Um filme barato ainda podia render muita, muita grana. E Pulp Fiction ficou meses em cartaz. Não nos esqueçamos, John Travolta estava em baixa e Jackson era apenas um ator cult. Travolta, que adoro, teve a honra de fazer cenas icônicas para duas gerações, as cenas de Saturday Night Fever/ Grease e aqui. Hoje ele voltou a ser um ator "do passado". Mas é um cara que todo mundo que ama cinema respeita e tem carinho. É um grande cara. Neste filme ele está brilhante. Mas...quem não está? Há ator melhor que Samuel L. Jackson citando a bíblia?
No mundo de 2014 Tarantino é o Scorsese, o Eastwood e o Godard que nos resta. E não cito eles a toa. Pulp Fiction cita os três ( mais Leone, Woo, Hawks e uma porrada de filmes de Hong Kong ). Quentin é um nerd de cinema. Como eu. Ele ama o que faz e mais importante, tem prazer em filmar. Isso faz enorme diferença. Porque vivemos hoje a era de diretores que filmam como se estivessem em trabalho de parto. Ou em confissão numa igreja. Argh!
Nos anos seguintes a 1994 virou moda falar que Tarantino era diretor de um filme só. Não quiseram ver que Jackie Brown era ótimo. Esperavam outro Pulp Fiction. Ora, jamais teremos outro Pulp como nunca veio outro Taxi Driver, outro Rio Bravo ou um novo Josey Wales. São filmes que espelham um momento do mundo e da vida de quem os escreve. São únicos. Quando Quentin lançou Kill Bill e afirmou para todos sua grandeza, provou que Pulp não era filho único, o momento já era outro e Kill Bill é filho deste século artificial. Virtual.
Pulp Fiction faz vinte anos e o mundo está completamente diferente. Em 1994 eu não tive como partilhar minhas impressões. O sucesso de Tarantino foi sem net. Nisso melhoramos. Adoro poder escrever aqui. Mas que filme feito em 2014 chega perto de seu poder? Da alegria jovem de uma descoberta? Da festa criativa que nos surpreendeu cena sobre cena? Cada tomada sendo uma aula de liberdade, de inventividade, de se ir sempre contra a expectativa.
Cada geração tem o filme que merece. Talvez esta tenha a tristeza dos filmes de Von Trier ou a cor fake dos filmes de Wes Anderson. Eu prefiro a viril auto-confiança de Quentin Tarantino. Tenho orgulho de ser de sua fornada.
A RAZÃO VIVE ONDE A MORTE IMPERA, MIGUEL DE UNAMUNO
Tenha em mente que bichos não cometem suicídio.
É sempre um prazer encontrar um autor que escreveu, noventa anos atrás, coisas que voce pensa desde muito mas que não conseguia as ordenar. Uma das ideias mais radicais de Unamuno é aquela que diz que a razão tende sempre à morte. Mais que isso, a razão só compreende aquilo que está morto.
Ela gosta e lida com partes de um todo, com objetos estáticos, com momentos congelados dentro do movimento. A razão é incapaz de estudar aquilo que não comporta tamanho, peso e limite temporal. Emoções só lhe são compreensíveis depois de vividas, quando já mortas. Tudo que a razão toca tem de ser morto. Único modo de ser dissecado e ela ama dissecar, desfazer, reduzir, diminuir, para assim fazer com que a coisa fique a dispor de seu entendimento, entendimento esse naturalmente pequeno.
Mais que isso, para a razão pura, viver é um ato irracional. Porque ela é incapaz de aceitar a irrazão primordial da vida, ato que não se justifica racionalmente. A razão pura, sem nada de irracional, ama a morte, estado em que tudo se define, se arruma, em que tudo tem começo e fim. A morte é arrumação. Estado que jamais fugirá a uma definição.
Na vida tudo foge à razão e tudo é assassinado por ela. Racionalize o amor e voce o terá morto e impotente. Racionalize a raiva e voce a terá corrompido. Racionalize a paixão politica, a arte, a própria vida e voce a destruirá. E nada pode ser mais insuportável `a razão que a ideia de vida após a morte.
Porque? Porque mais que o amor ou a ideia de Deus, a vida eterna seria a vitória final daquilo que não se explica sobre a razão, seria a vitória do infinito, do indestrutível, do irredutível, do irracional. Da vida.
Falemos da vida então. Se a razão tende a, e defende a morte, o não-movimento estático, então o que é a vida? Viver seria ter fé. E ter fé significa acreditar irracionalmente. Não necessariamente religião, mas não se vive sem se ter fé irracional em algo.
Não entenda irracional como fantasia. Irracional tem a ver com real que foge a razão. Inexplicável. A vida. Essa fé pode se chamar amor, arte, algum tipo de ïsmo", ideologia. Todas sob a dissecação racional são "sem sentido". Todas fazem parte da vida.
A razão chamará o amor de instinto de perpetuação, dará a arte o nome de consolo, chamará a religião de ópio, dirá que ideologias são modas e assim destruirá toda a substância da vida, vida que não se define, que é viva e portanto foge quando tentamos a capturar em uma fórmula. Só se presta a análise quando morta, estática, passada.
Mais que texto antiracional, os escritos de Unamuno são um alerta contra a maldade que vive ao lado da razão pura.
E não nos esqueçamos, tudo foi escrito antes da solução racional:: o nazismo.
É sempre um prazer encontrar um autor que escreveu, noventa anos atrás, coisas que voce pensa desde muito mas que não conseguia as ordenar. Uma das ideias mais radicais de Unamuno é aquela que diz que a razão tende sempre à morte. Mais que isso, a razão só compreende aquilo que está morto.
Ela gosta e lida com partes de um todo, com objetos estáticos, com momentos congelados dentro do movimento. A razão é incapaz de estudar aquilo que não comporta tamanho, peso e limite temporal. Emoções só lhe são compreensíveis depois de vividas, quando já mortas. Tudo que a razão toca tem de ser morto. Único modo de ser dissecado e ela ama dissecar, desfazer, reduzir, diminuir, para assim fazer com que a coisa fique a dispor de seu entendimento, entendimento esse naturalmente pequeno.
Mais que isso, para a razão pura, viver é um ato irracional. Porque ela é incapaz de aceitar a irrazão primordial da vida, ato que não se justifica racionalmente. A razão pura, sem nada de irracional, ama a morte, estado em que tudo se define, se arruma, em que tudo tem começo e fim. A morte é arrumação. Estado que jamais fugirá a uma definição.
Na vida tudo foge à razão e tudo é assassinado por ela. Racionalize o amor e voce o terá morto e impotente. Racionalize a raiva e voce a terá corrompido. Racionalize a paixão politica, a arte, a própria vida e voce a destruirá. E nada pode ser mais insuportável `a razão que a ideia de vida após a morte.
Porque? Porque mais que o amor ou a ideia de Deus, a vida eterna seria a vitória final daquilo que não se explica sobre a razão, seria a vitória do infinito, do indestrutível, do irredutível, do irracional. Da vida.
Falemos da vida então. Se a razão tende a, e defende a morte, o não-movimento estático, então o que é a vida? Viver seria ter fé. E ter fé significa acreditar irracionalmente. Não necessariamente religião, mas não se vive sem se ter fé irracional em algo.
Não entenda irracional como fantasia. Irracional tem a ver com real que foge a razão. Inexplicável. A vida. Essa fé pode se chamar amor, arte, algum tipo de ïsmo", ideologia. Todas sob a dissecação racional são "sem sentido". Todas fazem parte da vida.
A razão chamará o amor de instinto de perpetuação, dará a arte o nome de consolo, chamará a religião de ópio, dirá que ideologias são modas e assim destruirá toda a substância da vida, vida que não se define, que é viva e portanto foge quando tentamos a capturar em uma fórmula. Só se presta a análise quando morta, estática, passada.
Mais que texto antiracional, os escritos de Unamuno são um alerta contra a maldade que vive ao lado da razão pura.
E não nos esqueçamos, tudo foi escrito antes da solução racional:: o nazismo.
MAIO, 29, NASCI
Nasci a uma da manhã. Isso não fez de mim um boêmio pois eu sempre amei o sol. No entanto minha mãe conta que fazia muito frio. E que vim para casa enrolado em cobertores, numa tarde em que garoava e logo escurecia. Posso imaginar o táxi subindo a rua Progredior e me deixando na casa onde fui morar. Rua de paralelepipedos, escorregadia, o carro era um DKW, fazendo o ronco de duas marchas desses carros que se pareciam com tartarugas mal humoradas. Senti então o frio de outono pela primeira vez. Na ponta do nariz. E em meio as familiares vozes de meus pais pude perceber o som do mato que se movia no vento das cinco horas.
Passaram algumas décadas e eu continuo achando que a vida se revela na garoa de tardes frias e que o mato dança em finais de dias escuros. Não existem mais DKWs e a maternidade de Pinheiros sumiu. A rua Progredior hoje se chama José Janarelli. Mas a casa onde vivi está de pé, igualzinha, e minha mãe permanece em minha vida. Ela conta que eu não dava trabalho nenhum, raramente chorava e dormia o dia inteiro. Talvez eu preferisse sonhar. Talvez eu já sentisse saudades antes mesmo de viver. Mamava muito e logo abriria os olhos e descobriria meu maior amor: as cores, o brilho da luz. No rádio tocava Mellow Yellow.
É uma hora de mais um dia 29 de maio. Meu pai se foi, meu bairro mudou, meus sonhos se apagaram e minha voz desafinou. Mas ainda existe a cor e o mato dança. E mais uma vez tudo me fala e encanta.
Vida, valeu.
Passaram algumas décadas e eu continuo achando que a vida se revela na garoa de tardes frias e que o mato dança em finais de dias escuros. Não existem mais DKWs e a maternidade de Pinheiros sumiu. A rua Progredior hoje se chama José Janarelli. Mas a casa onde vivi está de pé, igualzinha, e minha mãe permanece em minha vida. Ela conta que eu não dava trabalho nenhum, raramente chorava e dormia o dia inteiro. Talvez eu preferisse sonhar. Talvez eu já sentisse saudades antes mesmo de viver. Mamava muito e logo abriria os olhos e descobriria meu maior amor: as cores, o brilho da luz. No rádio tocava Mellow Yellow.
É uma hora de mais um dia 29 de maio. Meu pai se foi, meu bairro mudou, meus sonhos se apagaram e minha voz desafinou. Mas ainda existe a cor e o mato dança. E mais uma vez tudo me fala e encanta.
Vida, valeu.
MIGUEL DE UNAMUNO. RAZÃO CONTRA CORAÇÃO. EIS A TRAGÉDIA DA VIDA.
Reitor da Universidade de Salamanca, Unamuno é o intelectual central da Espanha entre 1900/1930. Com cultura enciclopédica, ele tinha como filosofia a dúvida. Escreveu poesia, teatro, romances e livros sobre filosofia. Seu ponto de partida é: O que é o homem? E nessa busca da realidade básica, ele mira o homem comum, o homem que é carne, instinto, desejo, vontade de ser, sonho. Aponta como erro da filosofia o fato de que ela parte do estudo da própria filosofia e não mais da vida. Miríades de elocubrações racionais que dispensam a experiência vivida, que negam o sentimento e a intuição. Unamuno aponta que existem duas vidas, aquela que é experimentada como ela de fato é, e a vida que tenta ser racional, que se afasta do coração e do instinto e pensa que a razão engloba tudo o que há.
Ora, quem me conhece sabe que essa é a minha maior fé. A razão conhece aquilo que lhe compete, criações racionais, ciência reducionista, tudo o que cabe dentro de seu raio de visão. Mas, eu, como Unamuno ( e tantos outros ), sabemos que a maior parte da realidade escapa a razão. Racionalistas fecham os olhos e querem não perceber esse limite da razão. Unamuno quer ver o que a razão deixa escapar.
Somos trágicos porque vivemos o embate entre razão e coração. Não há a menor possibilidade de paz e nisso Unamuno é um pessimista radical. Crer na razão é desprezar o coração, crer no coração é desprezar a razão. Somos os dois. As vezes coração, muitas vezes razão. Em posts futuros falarei mais sobre este admirável pensador. Quero destacar aqui que ele tem logo no inicio da obra duas sacadas excelentes.
Primeiro. Todo homem vive com a certeza de eternidade. Mesmo os ateus. Não fosse assim viver seria impossível. Não há como construir algo ( familia, amor, trabalho, arte ) sem a ideia de tempo que se estende. Quando alguém diz que a morte é o fim de tudo, em seu íntimo ele sente que essa morte está sempre distante. Assinar uma obra de arte, criar uma familia, tentar preservar a memória são formas sem religião de se imaginar um modo de se permanecer eterno.
Porque o assunto central da vida é a preservação da vida. É inimaginável ao homem algo como o nada, o absoluto vazio. E mesmo a ideia cristã de inferno nos é preferível ao simplesmente deixar de ser. Melhor viver queimando em dor que simplesmente deixar de existir. Passar pela vida sem deixar rastro, sem jamais ser relembrado, sem pensar em algo que justifique essa passagem, isso é o verdadeiro inferno. Todas as criações da razão, ideologias, ciência, arte, arquitetura, poder, diários, memórias, são tentativas de esquecer o vazio e o nada.
Pois dentro de nós há o imperial desejo de acreditar no sentido das coisas. A vida tem de ter um sentido e tem de se justificar na eternidade, na história. Sem isso ela não existe. Não será mais vida, será um tipo de doença febril sem porque.
Crer em Deus ou na alma é crer na vida então. Pois ao crer na eternidade nasce no homem a responsabilidade perante o eterno. Cada ato passa a ter o peso da memória sem fim. Observe, Unamuno não se preocupa se Deus e a alma existem ou não, o coração sempre dirá que sim, a razão sempre afirmará que não, o que importa é que ao pensar na eternidade, ao crer na consequencia de cada ato, o homem se torna dono e servo de uma ética e de uma moral. Sem essa fé, a humanidade perde seu prumo. Nada justificará o bem e tudo será relativo.
Outro fato interessante nessas primeiras páginas é a constatação de que todo católico pensa apenas em si. A iluminação se dá na solidão da cela ou do horto. A salvação se dá a sós. Não chega a ser um egoísmo, pois não se dá a felicidade em detrimento do outro, mas é um egotismo, a salvação de cada um para o bem de todos.
No protestantismo a salvação só é possível em grupo. A congregação, unida, se salva ou se perde. Um depende do outro. Pois bem, é esse tipo de visão histórica que falta aos ateus. Países protestantes têm sociedades ordenadas, limpas e de certo modo limitadas em impessoalidade. Católicos são mais anárquicos, desordeiros, individualistas, mas produzem personalidades mais brilhantes, geniais, sem regras.
Shakespeare só foi possível numa Inglaterra ainda papista. Como em seus países, Dante, Cervantes, Leonardo e Michelangelo. Gênios contidos, como Rembrandt, Ibsen ou Dickens são tipicamente protestantes. Não vamos esquecer que a Rússia assombrou o século XIX com Dostoievski e Tolstoi por ser ortodoxa. Hiper-católica de certo modo.
Unamuno pensa assim. Ele constata e não responde. Deus existe? Quem sabe? A vida é eterna? Aposte. Voce tem duas apostas: sim ou não. Qual a melhor aposta?
Ora, quem me conhece sabe que essa é a minha maior fé. A razão conhece aquilo que lhe compete, criações racionais, ciência reducionista, tudo o que cabe dentro de seu raio de visão. Mas, eu, como Unamuno ( e tantos outros ), sabemos que a maior parte da realidade escapa a razão. Racionalistas fecham os olhos e querem não perceber esse limite da razão. Unamuno quer ver o que a razão deixa escapar.
Somos trágicos porque vivemos o embate entre razão e coração. Não há a menor possibilidade de paz e nisso Unamuno é um pessimista radical. Crer na razão é desprezar o coração, crer no coração é desprezar a razão. Somos os dois. As vezes coração, muitas vezes razão. Em posts futuros falarei mais sobre este admirável pensador. Quero destacar aqui que ele tem logo no inicio da obra duas sacadas excelentes.
Primeiro. Todo homem vive com a certeza de eternidade. Mesmo os ateus. Não fosse assim viver seria impossível. Não há como construir algo ( familia, amor, trabalho, arte ) sem a ideia de tempo que se estende. Quando alguém diz que a morte é o fim de tudo, em seu íntimo ele sente que essa morte está sempre distante. Assinar uma obra de arte, criar uma familia, tentar preservar a memória são formas sem religião de se imaginar um modo de se permanecer eterno.
Porque o assunto central da vida é a preservação da vida. É inimaginável ao homem algo como o nada, o absoluto vazio. E mesmo a ideia cristã de inferno nos é preferível ao simplesmente deixar de ser. Melhor viver queimando em dor que simplesmente deixar de existir. Passar pela vida sem deixar rastro, sem jamais ser relembrado, sem pensar em algo que justifique essa passagem, isso é o verdadeiro inferno. Todas as criações da razão, ideologias, ciência, arte, arquitetura, poder, diários, memórias, são tentativas de esquecer o vazio e o nada.
Pois dentro de nós há o imperial desejo de acreditar no sentido das coisas. A vida tem de ter um sentido e tem de se justificar na eternidade, na história. Sem isso ela não existe. Não será mais vida, será um tipo de doença febril sem porque.
Crer em Deus ou na alma é crer na vida então. Pois ao crer na eternidade nasce no homem a responsabilidade perante o eterno. Cada ato passa a ter o peso da memória sem fim. Observe, Unamuno não se preocupa se Deus e a alma existem ou não, o coração sempre dirá que sim, a razão sempre afirmará que não, o que importa é que ao pensar na eternidade, ao crer na consequencia de cada ato, o homem se torna dono e servo de uma ética e de uma moral. Sem essa fé, a humanidade perde seu prumo. Nada justificará o bem e tudo será relativo.
Outro fato interessante nessas primeiras páginas é a constatação de que todo católico pensa apenas em si. A iluminação se dá na solidão da cela ou do horto. A salvação se dá a sós. Não chega a ser um egoísmo, pois não se dá a felicidade em detrimento do outro, mas é um egotismo, a salvação de cada um para o bem de todos.
No protestantismo a salvação só é possível em grupo. A congregação, unida, se salva ou se perde. Um depende do outro. Pois bem, é esse tipo de visão histórica que falta aos ateus. Países protestantes têm sociedades ordenadas, limpas e de certo modo limitadas em impessoalidade. Católicos são mais anárquicos, desordeiros, individualistas, mas produzem personalidades mais brilhantes, geniais, sem regras.
Shakespeare só foi possível numa Inglaterra ainda papista. Como em seus países, Dante, Cervantes, Leonardo e Michelangelo. Gênios contidos, como Rembrandt, Ibsen ou Dickens são tipicamente protestantes. Não vamos esquecer que a Rússia assombrou o século XIX com Dostoievski e Tolstoi por ser ortodoxa. Hiper-católica de certo modo.
Unamuno pensa assim. Ele constata e não responde. Deus existe? Quem sabe? A vida é eterna? Aposte. Voce tem duas apostas: sim ou não. Qual a melhor aposta?
UM ANARQUISTA E OUTROS CONTOS- JOSEPH CONRAD
Se há algo que une a obra de Conrad é sua opção por retratar gente em limites. Momentos em que alma e corpo são postos a prova. Este livro, quatro contos deste que é um dos cinco gigantes do século, demonstra bem essa sua característica.
No primeiro acompanhamos um grupo terrorista em sua tentativa de encontrar um traidor. Impossível parar de ler, ele é todo feito num crescendo de medo e de suspeitas. Hitchcock leu com certeza, Conrad é muito popular em sua pátria de adoção. No segundo conto, esse uma obra-prima de melancolia, conhecemos um nobre alemão vivendo em Nápoles. Feliz, educado, bonachão, eis que tudo isso é destruído quando ele se vê vitima de um assalto. Seu mundo, ilusório, desaparece e esse velho sensível murcha. Conrad tece em poucas paginas o fim de um universo e a irrupção de um outro. Perfeito em execução, sublime em sentimento.
O terceiro trata de um mecânico perdido numa ilha da América do Sul onde ele se torna um tipo de pária. Conrad consegue, em 1910, ser ecológico, pró-animais, anti-capitalista e devastadoramente cruel. No último conto se narra a história de um navio imenso que tem o poder de matar em todas as suas viagens. Azar, sina, maldição, tudo se conjuga neste nefasto conto.
Joseph Conrad é dos raros escritores que consegue ser popular e erudito, fácil de ler e muito complexo, amado por críticos, modelo de escritores e mesmo assim ele nada tem de exotérico ou esnobe. Ex-marinheiro, pessimista, duro, é um autor que cresce com a idade de quem o lê. Adoro.
Na introdução deste volume, da Hedra, se fala uma anedota que preciso compartilhar:
O fim do século XIX e o começo do XX assistiu o apogeu do romance e nesse auge vale destacar Joseph Conrad e Henry James. Conrad como o objetivo, o observador que pouco narra e que tudo diz. E James como o autor que mata a ação e desenvolve a psicologia interna. Então o autor diz como seria uma carta escrita por James reportando uma gripe. Ele descreveria a mesa onde escreve, o quarto, a história de quem o decorou, o que revela a escolha de um vaso com flores, os arabescos do tapete, a voz de quem passa na rua...e só então falaria da gripe. Conrad diria de cara dos sintomas, da dor e então contaria a história de um homem que morreu de gripe.
Amo os dois estilos. Eles definiram tudo que se escreveu desde então. Começar a conhecer Conrad por este livro é uma boa ideia. Voce vai se apaixonar.
No primeiro acompanhamos um grupo terrorista em sua tentativa de encontrar um traidor. Impossível parar de ler, ele é todo feito num crescendo de medo e de suspeitas. Hitchcock leu com certeza, Conrad é muito popular em sua pátria de adoção. No segundo conto, esse uma obra-prima de melancolia, conhecemos um nobre alemão vivendo em Nápoles. Feliz, educado, bonachão, eis que tudo isso é destruído quando ele se vê vitima de um assalto. Seu mundo, ilusório, desaparece e esse velho sensível murcha. Conrad tece em poucas paginas o fim de um universo e a irrupção de um outro. Perfeito em execução, sublime em sentimento.
O terceiro trata de um mecânico perdido numa ilha da América do Sul onde ele se torna um tipo de pária. Conrad consegue, em 1910, ser ecológico, pró-animais, anti-capitalista e devastadoramente cruel. No último conto se narra a história de um navio imenso que tem o poder de matar em todas as suas viagens. Azar, sina, maldição, tudo se conjuga neste nefasto conto.
Joseph Conrad é dos raros escritores que consegue ser popular e erudito, fácil de ler e muito complexo, amado por críticos, modelo de escritores e mesmo assim ele nada tem de exotérico ou esnobe. Ex-marinheiro, pessimista, duro, é um autor que cresce com a idade de quem o lê. Adoro.
Na introdução deste volume, da Hedra, se fala uma anedota que preciso compartilhar:
O fim do século XIX e o começo do XX assistiu o apogeu do romance e nesse auge vale destacar Joseph Conrad e Henry James. Conrad como o objetivo, o observador que pouco narra e que tudo diz. E James como o autor que mata a ação e desenvolve a psicologia interna. Então o autor diz como seria uma carta escrita por James reportando uma gripe. Ele descreveria a mesa onde escreve, o quarto, a história de quem o decorou, o que revela a escolha de um vaso com flores, os arabescos do tapete, a voz de quem passa na rua...e só então falaria da gripe. Conrad diria de cara dos sintomas, da dor e então contaria a história de um homem que morreu de gripe.
Amo os dois estilos. Eles definiram tudo que se escreveu desde então. Começar a conhecer Conrad por este livro é uma boa ideia. Voce vai se apaixonar.
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