LANTERNA MAGICA- AUTOBIOGRAFIA DE INGMAR BERGMAN, NO FIO DA NAVALHA

   Bergman mal fala de cinema. E nunca se coloca como algo acima do competente. Então o que ele fala? Que odiava o pai por seu rigor, que odiava a mãe por sua frieza, ele conta que tentou matar o irmão quando era criança, depois quase assassinou a irmã e esbofeteou o pai antes de sair de casa.  Tudo descrito com detalhes. Não é uma leitura agradável e Bergman nada tem de simpático. Mulherengo, abandona suas esposas e mal percebia a presença dos filhos. Como todo problemático, Bergman é completamente um umbigo. Ele fala de suas dores, seus erros, suas falhas, seus traumas. E cansa. Cansa sua falta de humor, cansa o modo como ele ignora tudo aquilo que desejamos saber. Ele fala muito de sua carreira no teatro. Que não é exatamente aquilo que aqui no Brasil mais sabemos sobre Bergman.
   Claro, Bergman escreve bem, e algumas descrições são soberbas. Assim como o modo, pena que breve, em que ele descreve o cinema de Tarkovski, Kurosawa, Bunuel e Fellini ( diretores que filmam como em sonho ). Mas o livro frustra quem como eu tem amor por seu cinema. Ele se mostra um homem frio, rigido, como ele mesmo diz: um sueco.
   O que salta das folhas escritas em ritmo de montagem: a enorme influencia que seu modo radical de ver a vida teve sobre diretores, de Woody Allen, que escreve um belo texto introdutor, a Von Trier. Mas Ingmar foi o criador. Seu cinema dura para sempre. Mas lendo este livro sinto o quanto deve ter sido duro viver a vida de Bergman, e sorrio sentindo saudades dos livros de Huston ou de Wilder, autores que conseguem sair de seu casulo e se anular em favor de uma historia. 
  Estranho, amo muito os filmes de Bergman, mas nunca o ser Bergman.

O QUE AMA O AMOR

   Ela salvou minha vida. Foi em 1988. Naquele primeiro momento em que a vi aconteceu aquilo que hoje, machucado, não mais sei o que seja, paixão a primeira vista. Olhei os cabelos ruivos e o rosto claro, o nariz espanhol, empinado, e o jeito de quem não sabe para onde está indo, e imediatamente comecei a sonhar. 
 Eu vinha de um tempo duro, onde cada dia era uma decisão, medo presente em toda noite, e ao sentir por ela o que eu sentia, a vida se transformou. Havia um motivo na dor, conhecê-la e salvá-la. 
 A aproximação foi lenta, foi um longo inverno de blusas brancas e de corredores gelados, até que na primavera nos tornamos amigos. Ela tinha um compromisso e para ela todo o compromisso era sério. Mas alguma coisa se abria e nós ficávamos horas falando. Eu queria a proteger porque assim, eu sempre soube, eu me salvaria. E ela aceitava tímida, e tudo em nós era tateante, delicado, quase ao ponto de se partir. Criávamos um irrealidade que nos absolvia.
 Mas eu me cansei e ela percebeu e sentiu. Saí do sonho e comecei a ficar mais sólido, estúpido até. Magoada, ela foi. Eu a ignorava.
 Ontem eu a revi. Após décadas lá estava ela, e a primeira coisa que eu vi foi seu cabelo, de novo. Magra, menos frágil, após anos vivendo em Barcelona, ela visita o país e continua não gostando do que vê.
 Alívio. Vê-la é um alivio e conversamos horas, como se as últimas décadas tivessem sido outra vida e esta vida, dela, fosse contínua e sem tempo. Estar com ela é certo. É bom. Falamos de tudo, falamos do mundo, de bichos, de língua, de sempre. Casada a 20 anos, ela continua séria, correta e com alguma coisa que tateia. Eu ainda quero a proteger.
 Dói se separar. A dor que acontecia todo dia ainda está viva hoje, quem diria, em 2014. Melhor se virar logo e andar...Mas me preocupo, ela estará bem?
 É um tipo de amor. Ou melhor, é amor.
 1988 foi importante pra mim. Foi quando descobri Yeats e a coisa celta, Chet Baker, Espanha e Chagall. Brideshead. Muito interiorizado, foi dos anos mais solitários e dos que mais escrevi. E foi o ano dessa menina, agora mulher, que vejo diante de mim. A vida que ela planejou ela viveu. Mora onde quis, trabalha com o que desejou e não foi mãe, algo que ela também pedia a vida. Eu tive o que pude.
 A voz dela se altera na hora de partir. E vejo, mais uma vez, o quanto o amor ama a dificuldade, o quanto ele pede por obstáculos possíveis, mas sempre obstáculos, o quanto ele ama adiamentos, mal entendidos, espinhos, lutas, e reencontros. O amor ama o que pode ser, talvez seja, foi...O amor se enfada com o certo, correto e conforme.
 Ela se volta e a voz fica diferente...E eu me afasto com a mesma dor de 1988.

SEXO NO CINEMA

Pior que qualquer inquisição, pior que o pior dos Papas, são esses filmes repressores, cortadores de tesão, que mostram o sexo como uma coisa sempre triste, dolorida, cinza, sem festa ou poder de vida.
Malditas cenas que são sempre assim: uma menina infeliz, ou pior, doente, um cara tristinho, ou pior, junk, e as massacrantes cenas de sexo em que os dois padecem de tédio, de dor e de falta de sentido. Será que só eu noto isso? Que esses quartos cinzentos, esses atores sofridos, essas falas mortas, ensinam de forma virulenta que o sexo NÃO é uma alegria, uma celebração uma doce sacanagem?
Chega de sexo filosófico, velho, velhaco, chato, sem tesão!
Quando um filme mostra o sexo como coisa divertida, ele faz do ato comédia e mostra o ridiculo de sermos bichos que transam. Chega!!
E Quando um filme mostra o sexo como coisa "humana", ele mostra o ato como beco sem saída, dor sem motivo, ato de violência.
Chega! Basta! Quero sexo como alegria!
Já!

Trailer do filme "Oh! Rebuceteio"



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SOBRE A PORNOGRAFIA

   O canal Brasil tem passado a meia-noite de quinta-feira uma série de filmes ( pornô? eróticos? ) feitos entre 1979/ 1983. Na época eu era menor de idade e nunca havia visto a produção de Claudio Cunha e de Ody Fraga. Lembro que eles eram exibidos nas salas do centro, avenida Ipiranga, São João, e raramente algum chegava a Pinheiros. A questão é: eles são pornográficos?
  Ontem assisti "'Oh! Rebuceteio!" de Claudio Cunha. Primeira surpresa, a imagem. O filme é bem iluminado e a fotografia em película dá ares de "filme de verdade" a coisa toda. Bem, ele é um filme de verdade! Segunda surpresa: O roteiro tem alguma pretensão a arte subversiva. Conta a história de uma atriz, muito jovem, de teatro, que entra em grupo e começa a trabalhar com diretor doidão. A mãe da jovem atriz sonha em vê-la na Globo, mas a peça em que ela ensaia é uma orgia de cenas de sexo explícito. 
  Outra surpresa, as cenas são de sexo "de verdade". A penetração é mostrada em detalhes e vemos ejaculações, sexo oral, closes dos orgãos sexuais masculinos e femininos. Mas a impressão causada é muito estranha! Após anos de sexo via internet ou via dvds, o filme exibido na TV parece erótico, explicito, porém erótico, nunca pornográfico.
  Porque? Talvez porque haja uma história? A fotografia, bem mais cuidada? Ou serão os atores, que além de tentar interpretar, surpreendentemente não possuem a cara e o corpo dos atores pornôs? Parecem gente de verdade, os rostos são de colegas do trabalho, e são saudáveis, bonitos. As meninas jamais parecem devoradoras, taradas ou artificiais. Os garotos são bonitos, parecem inocentes. Vemos então paus que gozam, pernas abertas, mas não vemos sujeira. As cenas parecem naturais. Isso chega a ser chocante. Se analisarmos o sexo por aquilo que é produzido para consumo de jovens masturbadores, a coisa está bem pior do que a gente pensa. Sexo explícito feito com alguma inocência e com desejos de se fazer cinema. Atores com cara de alunos de cursinho. Se alguém quiser saber de onde veio a inspiração para Boogie Nights, eis sua chance.
 

A SIBILA- AGUSTINA BESSA-LUIS

   Agustina, uma das mais destacadas vozes portuguesas do século XX, desenvolve aqui a história de uma familia do campo, avôs, pais, primos. Familia que aparece cheia de posses, mas que vai sendo dilapidada por homens gastadores, galanteadores, infantis. Há uma frase, maravilhosa de Agustina que faz brilhar a narrativa: "Os homens vivem o tempo e o espaço, e assim perdem a vida. As mulheres não se colocam tão confortáveis no modernismo, elas perdem o tempo, ignoram o espaço e assim conhecem a vida".
   Duas irmãs são centro do livro. Quina, uma delas, desenvolve aquilo que perdemos no tempo, ela lê sinais no clima, percebe como são as pessoas, sente coisas que todos um dia sentiam mas que não conseguimos sentir mais. Em meio a saga, em meio as idas e vindas da vida, Agustina consegue dar toques misticos, sem nada de forçado, e demonstrar duplos sentidos, sem jamais interromper a história.
   É um livro dificil de ler. A autora escreve de modo farto, rico, um tipo de ourivesaria verbal, um banquete léxico, português do norte, cheio de expressões que nos são estranhos. Mas vale a pena, ela cria um mundo, cria um ritmo. A Sibila não se esgota nunca.

When Playboys Ruled the World Barry Sheene and James Hunt



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RUSH, JAMES HUNT X NIKI LAUDA, O FIM DO ROMANCE

   Porque os anos 70 exercem tanto fascínio sobre tanta gente? RUSH, este bom filme de Ron Howard talvez deixe clara essa questão.
 Temos aqui um cara cool. James Hunt poderia ser aquilo que quisesse. Milionário, bonitão, bem humorado, ele anda cercado por mulheres, bebe muito, se diverte todo o tempo e é piloto porque, como ele próprio diz, é a única coisa que ele faz bem. Hedonista, mas no belíssimo final deste filme, vemos que não é só isso. 
 Niki Lauda também tem origens abastadas, mas ele é de outro mundo. Ele é prático, frio, antipático e na verdade é muito melhor piloto que Hunt. Lauda não corre por prazer, corre para vencer, sempre e sempre. 
 Os dois entram em choque e a grande falha do filme, que nunca poderia ser evitada sem que se ferisse a verdade, é que nunca conseguimos torcer por Niki Lauda. Ele é tão obcecado e tão eficiente que nada nos faz simpatizar por ele. Seu acidente não nos emociona. James Hunt é o verdadeiro herói, um tipo de criança grande, ingênuo, raivoso e que dá respostas maravilhosas aos jornalistas ( hoje ele não duraria um mês no negócio se falasse metade do que ele falava em 1976 ). E eis então que se revela o segredo da década, os anos 70 foram o último suspiro de um certo amadorismo, de uma certa liberdade que foi morta nos anos 80. De ALMOST FAMOUS a BOOGIE NIGHTS, todos mostram isso, a ingenuidade e o hedonismo sendo corrompidos pela fria eficiência. A fórmula Um teve em James Hunt seu último romântico, e em Niki Lauda o primeiro piloto do total profissionalismo. Vem daí a emoção da cena final, cena onde Hunt diz que eles são como "cavaleiros templários, lutando pela honra e contra a morte", e Niki responde dizendo que isso é "típica bobagem inglesa." Mas eles reconhecem a necessidade de se ter um rival. E surgem as emocionantes cenas com o Lauda real e o Hunt de verdade...Para quem como eu acompanhou a história na época, recordo ainda hoje o momento em que o carro pegou fogo, é de fazer chorar.
  James Hunt largou a F1 e continuou a viver. Lauda foi tri-campeão...Hunt morreria aos 45, do coração. Lauda vive.
  Muita gente falou: Porque não fizeram sobre Prost versus Senna? Fácil responder, porque seria uma história de dois Niki Laudas, não haveria contraste. Para nós, brazucas, que vemos Senna como um tipo de mártir-perfeito das pistas isso não procede, mas tanto Senna como Prost ou Schummi ou Alonso têm essa unilateralidade, essa super-eficiência, essa coisa de vida vivida só nas pistas e mais nada. Lauda criou esse estilo. Em 1975 ele era uma anomalia, hoje é o molde da linha de montagem.
 PS: Piquet tentou ser o último dos James Hunts. Faltou finesse. 
 PS2: O filme é ótimo.

Primal Scream - Loaded (Original Video)



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My Bloody Valentine - Soon



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FESTAS, DROGAS E ROCK`N`ROLL, A SAGA DA CREATION E O FIM DO ROCK INDIE

   No começo dos anos 80 o mundo pedia por gravadoras indies. As grandes ( Sony, RCA, Polygram, EMI ) estavam fazendo a festa com MJ, Queen, Bowie, Police, Dire Straits e Bruce, dentre dezenas de outros. E o povo antenado consumia euforicamente os selos indies. Lembro que eu adorava o catálogo da Sire, mas havia a IRS, a Virgin, a Rough Trade, a Factory...e na Escócia um doido ruivo chamado Alan McGhee fundou uma das menores, a Creation.  Logo em seu segundo ano eles chamaram a atenção, Jesus and Mary Chain eram a ressurreição do Velvet Underground ( mais uma ), microfonia e doçura. Paralelamente veio o Primal Scream, que ainda não era o PS que voces conhecem.  O grupo de Bobby Gillespie era bem mais melódico.
  Conforme o fim da década foi chegando mais as indies se afirmavam. A Creation tinha meia dúzia de funcionários e todos eram completamente loucos. Sempre no vermelho, gastavam por conta dos lançamentos futuros. My Bloody Valentine era a bola da vez e Kevin Shields se tornou um ídolo na Inglaterra. Lembro que aqui no BR a revista BIZZ tinha um fanatismo pela Creation que me irritava. Na época eu adorava os californianos tipo Jane`s Addiction e Red Hot Chili Peppers, e nada menos "sol, esporte e go for it"que as melancólicas bandas de Glasgow. House of Love foi a primeira banda deles a chegar ao number one das ilhas...e então tudo mudou, para a Creation, para a GB e para mim.
  Se pensarmos friamente todo movimento dentro do rock se originou da droga da hora. Os Beatles se soltaram ao conhecer a maconha e o rock ficou viajandão com o LSD. A heroína deu o gas e o tema para Lou Reed e todos os que daí vieram. Álcool e anfetaminas criaram o rock de garagem e a cocaína deu aos anos 70 seu aspecto de ego inflado e "tudo é lindo".  Well...por volta de 1988 começou a cultura do ecstasy e a Creation é apresentada a nova droga em 89.  Alan McGhee mergulha fundo e leva as bandas do selo com ele. O estúdio, que sempre fora zona livre para gente junk, se transforma numa rave que nunca termina. Um disco muda tudo e para os ingleses se torna a coisa mais influente da época: Screamadelica do Primal Scream. Gillespie leva meses para terminar o disco, ele é todo gravado sob efeito de ecstasy. A mistura se faz: Creation plus dance= anos 90. Primal Scream é a primeira banda do selo a ir ao Top Of The Pops. Chapados. 
  Foi um dos melhores momentos da história do Pop inglês. Stone Roses, Happy Mondays, Blur, Charlatans. Nenhum deles era da Creation. Alan tinha o Super Furry Animals e lançaria em 94 o Oasis, a banda que segundo Alan, mataria o rock indie.
  Primeiro um adendo que muita gente aqui no BR ignora ( colonizado que somos por criticos pró-ingleses ), é muito, muito dificil um inglês fazer sucesso nos EUA. Todas essas bandas inglesas que citei aqui NUNCA estouraram nos EUA. O Oasis será a única. A coisa lá é muito dura. Quando em 64 os Beatles pegaram os EUA trouxeram com eles o Dave Clark Five, o Animals e os Hermann Hermits. Os Stones só estourariam em 65, os Kinks, que venderiam pacas na GB por toda a vida, só tiveram de hits nos EUA, You Really Got Me e Lola bem mais tarde. Yardbirds, Spencer Davies ou Hollies, necas. Em 68, com a segunda invasão britânica, Bee Gees e Cream seriam os únicos. Bandas que causavam histeria nas ilhas, como Small Faces ou Traffic, nada conseguiam nos EUA. Lendo a parada de 72 da Inglaterra vejo os nomes de T.Rex, Roxy Music, Slade, Sweet, Gary Glitter e Status Quo nos 6 primeiros lugares, uma parada maravilhosa, mas TODOS jamais fizeram sucesso nos EUA. O rock inglês dos anos 70 que era hit na América se resume a Elton John, Rod Stewart e Led Zeppelin. Bandas como Smiths, Jam, Ultravox, passaram em branco e mesmo David Bowie só estourou muito depois de Ziggy Stardust, em 75 com Fame.  O Queen fez sucesso nos EUA, assim como o Police, mas muuuuuito menos que na Inglaterra ( e que aqui, onde até o Clash sempre foi muito mais popular que nos EUA ). 
   Em 83 houve uma terceira invasão: Culture Club, Duran Duran, Human League pegaram os primeiros lugares... até surgir Prince e Madonna e levarem tudo de roldão. O U2 reinaria sózinho, única banda britânica a estourar na América pelos anos 80 inteiros. Até o Oasis. Alan McGhee foi ver os caras num bar e assinou na hora ( ele fala hoje que se soubesse que Noel era fã do U2 jamais teria aceitado ). O resto todo mundo recorda. Mas porque eles fizeram tão mal as indies? Por 3 motivos: Primeiro a Sony comprou a Creation, deixando Alan como mera peça de decoração, Segundo, todas as indies passaram a sofrer assédio das grandes gravadoras, e todas foram obrigadas a procurar e trabalhar "novos Oasis", Terceiro, o espaço para bandas como Primal Scream acabou. Seus discos começaram a ser muito mal trabalhados, e o Jesus and Mary Chain chegou a ser demitido. E chegamos então a situação de hoje, a pulverização da cena e a transformação do público em nichos que mal se tocam. 
   É um final melancólico e desde o Oasis ( que não tem culpa e sofreu com o processo ), apenas o Coldplay conseguiu entrar no mercado da América. A Inglaterra jogou fora N bandas que poderiam ter tido uma longa carreira e em troca ganhou o Coldplay.
   Chato né?

 

MATISSE, UMA VIDA- HILARY SPURLING

   A vida de Henri Matisse foi uma luta sem trégua entre aquilo que ele era e aquilo que ele fora educado a ser. Mas não só isso. Há um mistério em sua tenacidade, em sua força e nesse sentimento de missão que o guiou. Missão longe de qualquer sentido mistico, Matisse é o mais materialista dos pintores, mas missão em relação a cor, a linha.
   Nascido no norte francês, familia de trabalhadores bem situados, o jovem Matisse recebeu do pai o sentimento de que na vida tudo se ganha no rigor do trabalho duro. Apesar de romper com o pai, Matisse ficará sempre em cima do muro. Ele será pintor, algo que o pai não quer, mas jamais deixará de ser um trabalhador aplicado, a pintura lhe dará dor, exigirá esforço, luta. Em sua cidade ele será motivo de vergonha. O povo do lugar o irá ver como um idiota, um fracassado. Vai para Paris, estuda pintura e só consegue se encontrar após os 30 anos. O sucesso, depois dos 35.
   Eu ainda sou da geração que cresceu considerando Matisse o pintor da burguesia e Picasso o gênio radical. Os dois sempre foram rivais e colegas que se respeitavam. Foram os seguidores de Picasso que pregaram no francês o rótulo de conservador. Hoje não se pensa mais assim e esta biografia mostra porque. O fato é que Matisse foi sempre tão ansioso e individualista como o espanhol, a diferença é que Henri Matisse sempre foi um grande colorista, talvez o maior da história, e isso fazia com que sua pintura pudesse ser aceita mesmo por aqueles que não suportavam a pintura moderna. Eles nada entendiam de Matisse, mas gostavam daquele azul ou daquele rosa. O que os seguidores de Picasso não sabiam, ou não queriam saber, é que Matisse passava fome para não ter de ceder, jamais pintou algo que não brotasse de seu sentimento e entre 1910/1920, foi o mais odiado dos modernistas.
   Pessoa estranha era Henri. Desde sempre dado a dores psicossomáticas, a terríveis crises de ansiedade, insônia e depressão, hoje ele seria medicado com facilidade e talvez sua arte se fizesse menos sensacional e mais bem dirigida. O que seria uma pena. Ele pintava para aliviar seus nervos, cada obra era um parto. O prazer passava longe de sua atividade. 
   O que o marcou foi ter dito que desejava que seus quadros fossem como poltronas confortáveis para o homem cansado. Essa frase causou a ira dos modernos que queriam que quadros fosse desafios e bombas destruidoras. O que Matisse queria dizer é que PARA ELE os quadros eram confortos nascidos depois de luta e dor atroz.
   Ele se casou com uma filha de familia admirável. Talvez a melhor história do livro, a familia da esposa era muito ligada a uma familia riquissima da França. Essa familia entrou num longo processo em que pedia a justiça o ganho num caso contra familia americana que reinvidicava a herança de um milionário de lá que deixara tudo para os franceses. Após anos de disputa, o tal cofre do milionário, depositado em banco de Lyon, é aberto, e nele há um charuto e um lenço. Apenas isso. Se descobre que nunca havia existido o tal americano rico, nem um rival disputando o cofre. O pseudo rival era filho da familia francesa. Tudo fora um golpe. Com a publicidade da disputa a matriarca conseguira emprestimos gigantescos e fugira para a Espanha! Matisse, casado com a melhor amiga da pilantra, precisou botar panos quentes em tudo...
   Felizes no casamento, com filhos, Margueritte, a filha mais velha, vai ser uma figura heroica. Doente por toda a vida, conseguira' ser feliz, conhecida, e vai lutar na resistencia contra Hitler, sendo inclusive torturada pela Gestapo. E resistindo.
   Matisse era duro. Sua vida era a pintura. E sua familia vivia ao redor disso. Viajou pela Espanha, Argelia, EUA, Tahiti. Morou em Nice. E aos 70 anos renasceu. Os ultimos oito anos de Matisse correm em facilidade. Ele consegue pintar sem luta, consegue relaxar, enfim.
   O livro, detalhado, imenso, nos faz viver ao lado desse homem que passou por 3 guerras contra a Alemanha. E sobreviveu a todas. Foi abandonado pela esposa aos 65 anos. E continuou. Pintou belas modelos nuas. E nunca as tocava. Nunca bebeu. Se parecia com um banqueiro. 
   E pintou algumas das mais radicais imagens do seu tempo.
   Depois de 600 paginas a pergunta continua: Quem foi Henri Matisse?

BLUE JASMINE/ WOLVERINE/ UM DIA EM NY/ CANTANDO NA CHUVA/ JOSH

   BLUE JASMINE de Woody Allen com Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin
Dizer que todo o elenco está ótimo é chover no molhado, todo filme de Woody tem grandes atuações. Cate Blanchett chega ao milagroso, sua Jasmine tem uma tensão bergmaniana. Penso ser o melhor desempenho feminino desde Helen Mirren fazendo a rainha Elizabeth. A história é uma adaptação de Um Bonde Chamado Desejo para os dias de hoje, ou seja, Blanche seria mais consumista e Stanley menos viril. ( Aliás o filme me deu uma vontade doida de rever o filme de Kazan com Brando e Vivien Leigh fazendo misérias ). Para quem não viu e não aguenta mais as repetições de Woody um toque: o filme nada se parece com um tipico Woody Allen. É drama duro, forte, trágico, Allen não tem pena da pobre Jasmine. Esqueça o humor, esqueça a doce vida dos ricos neuróticos, é um drama pungente. Pobre Jasmine!!! Não há lugar para ela num mundo que ela sempre ignorou. Nota 7.
   LIGADOS PELO AMOR de Josh Boone com Greg Kinnear, Jennifer Connely, Lily Collins
Como um dia foi Jack ou Ted, Josh é hoje o nome da moda nos EUA. Cool... Então o diretor, Josh, ganha o troféu de Josh de uma ano cheio de Joshs. O filme, uma bobeirinha delicada sobre uma aluninho de escola cool tãaaaaao sensível e apaixonado!, é de uma imbecilidade joshiana. Nota ZERO.
   UM DIA EM NOVA YORK de Stanley Donen e Gene Kelly com Gene Kelly, Frank Sinatra e Ann Miller
Exuberante! A primeira direção da dupla é baseada num show histórico de Leonard Bernstein e Jerome Robbins. Filmado nas ruas de NY, com uma energia viril contagiante, mostra 24 horas na vida de 3 marujos em licença. Uma obra-prima. Nota DEZ!
  CANTANDO NA CHUVA de Stanley Donen e Gene Kelly com Gene Kelly, Debbie Reynolds, Donald O`Connor, Jean Hagen
Dizer o que? Tem alguns dos melhores e mais famosos momentos de toda a história do cinema. Impressionante ele não ter ganho o Oscar de melhor tudo. NOTA MIL !!!!!!!
   SR E SRA SMITH de Alfred Hitchcock com Robert Montgomery e Carole Lombard
Hitch estava na companhia de Selznick e resolveu fazer um filme com sua amiga, a grande Carole Lombard. Um veículo para essa brilahnte comediante ( que morreria em desastre de avião na sequencia ), é o menos tipico dos filmes americanos de Hitch. Marido e esposa descobrem que na verdade seu casamento foi ilegal, estão solteiros de novo...Nada de especial. Alguns movimentos de câmera são puro Hitch. Nota 5.
   WOLVERINE IMORTAL de James Mangold com Hugh Jackman
Mangold é o bom diretor de N filmes dos mais variados estilos. Ou seja, é um profissional a moda antiga, se exercitando em tudo quanto é gênero. Fez um bom western, uma ótima bio, bons policiais...e esta filme cartoon. Sério, sério até demais. É um bom filme, mas falta um bocado de ação. Nota 6.

HONRA A HISTÓRIA ( HISTORY CHANNEL )

   Se Atenas e Esparta não houvessem se unido, e vencido os persas que tinham 4 vezes mais homens, eu não estaria aqui. Porque então não teria havido Roma e nem latim e nem Portugal, ou este Brasil. A ideia de democracia, o teatro, e o cristianismo. Eu não seria eu porque os valores deste mundo seriam orientais, zoroatristas, animicos e alquimicos. Tudo seria outra coisa. 
 Se a história da cristandade não tivesse sobrevivido, se Paulo não sobrevivesse para carregar os textos, eu não estaria aqui. Pois não teria acontecido o milagre de um exército tomar o poder sem uma arma. Uma filosofia ter se afirmado entre analfabetos e miseráveis. Ainda teríamos a coragem e a bravura como bens maiores. E mal saberíamos o que é amor, perdão e caridade. Sacrificaríamos inimigos, não teríamos a dualidade entre alma e corpo, e nosso pensamento seria bem mais simples. E eu não seria eu, porque mesmo tendo crescido ateu meus valores eram E SÃO cristãos sem que eu o soubesse.
 E se em Veneza não tivesse sido criado o capitalismo eu também não seria eu. Pela primeira vez se criou uma casta de banqueiros e especuladores. Gente que era rica por ter capital e não pelas armas ou o trabalho. E esse ócio cheio de ouro financiou a arte, a ciência, e principalmente as navegações e os livros. A América seria um dia descoberta, mas não explorada. E os livros continuaram presos aos padres e aos eruditos. Eu não seria eu.
 Essa série do History Channel, Humanidade, a história de todos nós, ela dá muito o que pensar.
 E eu não estaria aqui, se a maldita peste negra tivesse durado só mais dois meses. Dois meses e o mundo ficaria restrito a América e a Oceania. E eu, com certeza, não estaria aqui.
 Por isso presto homenagem aos gregos democratas, que votando resolveram não se render, e lutar. E vencer.
 Homenageio os venezianos que usaram seu dinheiro em arte e conhecimento e não em mais guerra.
 E procuro ser digno daqueles cristãos que morriam sorrindo, espalhavam uma nova fé e trouxeram a ideia de uma vida justa onde todos são filhos do mesmo pai.
 E presto graças a sorte, que deixou a história prosseguir e não fez com que fôssemos vencidos por uma bactéria, uma pulga e um rato.