O AMOR E MARC CHAGALL

   Quando a vida diminuir e o tempo parecer te apertar meu amor, e as coisas parecerem sólidas demais, pesadas e mortas, Olhe para Marc Chagall e renasça. Veja que tudo voa e o Amor vem, sempre vem.
    Lembra da mensagem que todo bicho pode dar, lembra da cidade azul, relembre de nosso dom.
    Chagall nunca fechou a porta, nunca dividiu sua alma em duas, nunca rompeu com nada do que era dele mesmo. Ele sabia ouvir e sabia olhar. Entendia os sinais. E voava.
    Quando voce sentir medo, amor, olhe para o galo, a cabra, a vaquinha que voa...e saiba então de onde surge a palavra Deus.

Marc Chagall & l'Amour



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Helen Mirren on Vasily Kandinsky



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Coming Home (1978) - Ending



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COMING HOME( AMARGO REGRESSO )/ DINNER AT 8/ HENRY KING/ DEL TORO/ DON SIEGEL/ MEL BROOKS

   AMARGO REGRESSO de Hal Ashby com Jon Voight, Jane Fonda, Bruce Dern
Parece que Dern vai ganhar seu Oscar em 2014. É ator que trabalhou com Hawks e com Hitchcock. Mas seu filme favorito é este. Feito em 1978, deu a Dern indicação a Oscar de coadjuvante. Perdeu. Mas Voight e Jane ganharam. O filme é muito forte e amargo. Fala daqueles que voltaram do Vietnã. Jane vai trabalhar num hospital e lá se enamora de Voight, um sargento que voltou paraplégico. Há uma cena de sexo belíssima! O drama nunca cai em tédio. E o discurso final de Voight é brilhante. Todo elenco está sublime, Dern chega a dar medo, faz um direitista que pira. Os internos do hospital são ex-soldados de verdade. Talvez seja o melhor filme do grande Ashby, um dos diretores mais influentes de hoje. Nota 8.
   OPERAÇÃO SAN GENARO de Dino Risi com Nino Manfredi e Senta Berger
Tem coisa pior que comédia sem graça? Nota ZERO.
   O LEQUE DE LADY WINDERMERE de Otto Preminger com Jeanne Crain, George Sanders
Saiu numa coleção da Folha. Falta de critério! O filme é ruim. Fico imaginando o neófito, aquele cara que tem preconceito contra "filme velho" e que resolve pegar este na banca. Que mal! Todos os seus preconceitos serão reforçados. De Oscar Wilde nada restou. Fuja!
   THE KILLERS de Don Siegel com Lee Marvin, Angie Dickinson, Clu Gullager e Ronald Reagan
O inventor de Dirty Harry dirige este belo filme bastante Tarantinesco. Para quem conhece o conto de Heminguay, nada a ver. É sempre um prazer ver Lee Marvin! Que ator soberbo! O assassino frio nato! Este filme tem um final clássico. Nota 7.
   EPOPÉIA DO JAZZ de Henry King com Tyrone Power, Alice Faye e Don Ameche
Excelente diversão! A hstória de um maestro com pretensões sérias que vira band-leader de jazz e atinge a fortuna. O filme é alegre, exuberante, uma típica produção classe A dos anos 30. King foi rei da Fox por mais de 40 anos. Profissional, seu senso de ritmo ainda impressiona. Nota 8.
   ALTA ANSIEDADE, BANZÉ NO OESTE e A ÚLTIMA LOUCURA de Mel Brooks
Reassisti esses 3 filmes de Brooks, um rei da comédia grossa dos anos 70. Alta Ansiedade é muito ruim. Uma colagem de cenas de Hitchcock sem eira nem beira. Banzé no Oeste, sobre um xerife negro, ainda faz rir. De longe é o melhor dos 3. Gene Wilder imita o Dean Martin de Rio Bravo. E A Ùltima Loucura é um filme mudo. Não funciona. Gags muito fracas.
   DINNER AT EIGHT de George Cukor com John Barrymore, Lionel Barrymore, Jean Harlow
Sofisticado, chique, esperto, sempre elegante, irônico, Cukor sempre foi um grande diretor. Este é um dos seus melhores. Fala de uma familia em falência, um ator alcoólatra, uma periguete. O elenco é fabuloso e a produção, MGM, esbanja luxo e finésse. Amargo, cruel até, nunca perde seu poder de entreter. John Barrymore, o tio-avô de Drew, tem uma atuação comovente. Um ator canastrão que falido não aceita o fim de sua fama. Quem não conhece o grande cinema americano dos anos 30 tem aqui uma bela chance. Nota DEZ.
   CÍRCULO DE FOGO de Guillermo del Toro
Quer saber? É bem bom! Começa meio devagar, mas as cenas de ação são tão bonitas! Isso mesmo, bonitas! Uma pintura de vermelhos, dourados e céus escuros. A luta em Hong Kong é desde já um clássico: uma das mais belas cenas do ano. O cerne do filme é esse, a plasticidade da imagem. Uma raridade no cinema atual, um filme de ação que preza pela estética. Um grande cineasta! Nota 7.

A CAVERNA, O SÍMBOLO, O LIVRO

   Uma experiência verdadeira, profunda, transformadora é petrificada em forma de igreja. Se voce quer viver uma profunda experiência religiosa não a procure dentro de uma igreja. Porque começo este texto dizendo isto?
    Não vivemos para comer ou para procriar. Vivemos para ser. O mais antigo testemunho de um ser que pode ser chamado de humano nos mostra: Um longo labirinto escuro e aterrador. Após rastejar, se machucar, ter medo eis que conseguimos chegar ao núcleo: as pinturas na caverna! O centro da montanha. Esse é o símbolo primordial daquilo que somos. Dentro de nós, em nosso escuro interior vive o infinito. A psique em sua totalidade. Onde não existe tempo, espaço ou fim. Aquilo que só eu posso ser. Mas para chegar até esse âmago a coisa dói. Como dói!
   A teoria de Jung é básicamente otimista. Daí sua desvantagem. Nosso tempo é profundamente pessimista. Em Jung tudo tende para a luz. Nosso self, centro mental, não é bom ou ruim, ele é natural. E tem poder de dar vida. Quanto mais longe desse self mais entediados, sem ideias, morto. O contato com o self dá vida. A vontade de viver mora lá.
   Otimismo. Não existem pessoas iguais. Para encontrar o self cada um tem seu modo, seu caminho. Cada louco tem uma loucura única. Cada medicamento age a seu modo particular. A busca pelo self é busca por vida. Essa é a raiz de toda religião. E da arte, religião dos ateus. A busca por transcendência que se dá a cada um a seu modo. Por isso ser impossível uma tese psicológica única. Em sua originalidade cada ser deve mergulhar em sua gruta e encontrar seu centro. Como? Geralmente pela dor. Pela crise. Pela solidão.
   No mundo moderno, sem simbolos verdadeiros, sem ritos que ajudem, sem lendas e sem silêncio, onde tudo se pensa e o discurso interior nunca cessa, encontrar o self se faz quase impossível. O mal de agora é o excesso de controle, de razão, de porques.
   A luz da razão a vida nunca vale a pena. Lutamos para acabar no túmulo. E ser esquecidos. O que nos faz prosseguir é essa força tênue e distante que promete "algo a mais". Pode ser chamada de Deus, duende, anjo, xamã, fé, esperança, missão, consciência...não importa. Está dentro da mente, existe em nós e ao redor ( pois influencia tudo o que podemos perceber ). A razão a teme. Porque ela pede por humildade. A humildade de saber que a razão não é senhora da vida. E que nosso pobre ego precisa do self para continuar a viver.
   Criatividade, o encontro com essa vida nova sempre se dá pela criatividade. Pela ousadia original. Ser o que voce tem de ser. Como saber? Como entender a mensagem daquilo que não tem lingua racional? Lendo com atenção os sinais, as pistas.
    Fomos animais. Fomos irracionais. A razão surge e evolui para podermos sobreviver na luta pela vida. Adaptamos nosso cérebro à técnica, a comunicação, ao pensamento linear e claro. Simples. Mas aquilo que fomos não morre. Está aqui. Em mim. Em nós. Ancestralidade. Instinto. A voz da natureza em mim.
    Duas correntes no século XX. Gente que viveu essa experiência ( Borges, Hesse, Kazantzakis, Yeats, Camus, Rilke, Jung, Mann, Kandinski, Klee ) e gente que nunca a quis escutar. Tenho certeza que Paulo Coelho, por exemplo, viveu uma experiência significativa, mas, mal escritor que é, nunca conseguiu transmitir nada dessa experiência. Então uma multidão de pessoas que sentem esse anseio e mal sabem o que seja vão atrás dele. E nada encontram. Elas têm de escrever seu próprio "Diário de um Mago" e não pegar de barato esse relato de quinta categoria.
    Bem, escrevi aqui apenas um breve testemunho. O livro, a derradeira tentativa de Jung de escrever simples, tem muito, muito mais. De certa forma tudo que escrevo está lá exibido.
   

The Band Wagon - Fred Astaire and Cyd Charisse



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CYD CHARISSE

Cyd Charisse foi deslumbrante.
Dizer mais pra que? Veja a cena de The Band Wagon que postei. É sexy, é cinema.

SONHOS DE MENINO E UM SONHO DE AGORA

   Sonhei esta noite que Keith Richards morria num bombardeio. Ele tinha ido a Venezuela apoiar os bolivarianos e havia morrido por lá.
   Sonhei um dia que dois braços cresciam em meus flancos, assim como tive o medo de que duas asas fossem brotar em mim.
   Outros mais...
   A perna de meu irmão sai voando, decepada, em slow motion, e eu saio flutuando atrás dela para a devolver.
   Um peixe nasce no ralo do banheiro e olha pra mim.
   Deus está sobre as nuvens com um ladrão nas mãos, e usa-o como chicote disparando raios quando bate as costas do bandido na nuvem.
   Vi um disco-voador de vidro transparente nos céus do Caxingui.
    Meu pai ia rua abaixo e sumia em meio a neblina sem olhar para mim que o chamava.
    Sou uma mulher e corro nua pelas ruas.
    Sou eu e vou para a escola de pijamas.
    Uma menina me espera numa janela onde chove.
    Na minha antiga casa vivem meus bichos que morreram faz tempo. Eu os reencontro.
    Estou no escuro e parado sinto medo.
    Navego no mar sem fim e naufrago. Consigo voltar a terra e penso que estou curado.
    Beijo ela.
    Ando com ela e dou risos alegres e festivos.
    Uma sombra na parede me assusta.
    Sapos impedem que eu pise na rua.
    Um disco de vinil vira um buraco sem fundo.
    Nesta casa houve uma taba onde eles ainda pisam e cantam.
    Em mim moram os outros que foram meus anteriores antes de tudo.
    Olho o olho do bicho e sei que o bicho sabe, ou eu sei o que ele sabe.
    Vi um anjo ao lado da minha cama em 1967.
    Tive medo. Com 4 anos eu sabia que anjos nao existem mais.
    Havia uma imagem de Cristo que me dava medo.
    Um galo me conta que a vida cisca.
    Eu pedia autorizacao para poder entrar no mato. As cobras me davam.
    Ansias de entrar em mim. Ansias de ver antes.
    Gritei uma noite ao ver o buraco.
    Nuvem de insetos pretos voam e cobrem o sol.
    Keith Richards morreu?
   
   

KIERKEGAARD, DON JUAN, ADÃO E EVA E JUNG

   Dizia Kierkegaard que o nível mais baixo da existência seria aquele de Don Juan, mundo que o Don Giovanni de Mozart exibe a perfeição. Nesse mundo tudo o que tem valor está ligado a sedução, a conquista e ao desejo de possuir. A pessoa viveria numa espécie de galeria de espelhos, onde ela se analisa todo o tempo e examinaria os outros sem parar de se comparar a eles. Um mundo de superficie, a vida como imagem em movimento, sem substãncia e sem chance de perenidade. Nesse mundo a nossa função passa a ser unicamente a de seduzir e ser seduzido. Mais nada. Pior que isso, após o ato da conquista torna-se impossível usufruir do que se tem. O objetivo é capturar, não se consegue apreciar aquilo que já faz parte do passado, da coisa que já foi conseguida. A posse é um desejo ilusório, pois ter se transforma em perder. Comapra-se e se paga um preço, o vazio entediante de se querer, sempre, aquilo que não se tem.
   Kierkegaard escreveu isso no meio do século XIX. E advertia que nosso mundo caminhava para a preponderância absoluta de Juans e Giovannis. Um pouco acima deles estaria o tipo Fausto, aquele que não ansia por ter, mas por saber, tudo. Esse vive na dúvida pois sabe que o querer, o ter e o saber possuem limites intransponiveis. A vantagem de Fausto sobre Juan é conhecer o desespero transformador, e não apenas, como Juan, o tédio asfixiante. Fausto quer transformar sua vida, Juan não. Ele é incapaz de criar algo de novo. É uma vítima. Fausto nunca é vitima, ele é seu carrasco.
   Me desculpem se me abstenho de falar sobre o tipo mais elevado. Entramos no mundo do símbolo e da religião e esse mundo está hoje tão enterrado dentro de nós, tão disfarçado em sintoma e em auto-mutilamento, que sua lingua seria tema para mais de uma biblioteca. A prponderãncia da razão, utilitária, simplificadora e comum a todos, fez com que a lingua da alma e do instinto nos fosse cada vez mais estranha. O que posso dizer com certeza absoluta, e essa é das poucas certezas absolutas que tenho, é que apenas a razão não pode nos dar motivo para viver. O que nos leva adiante, mesmo com a consciência do fim da vida, do mal e da injustiça, é aquilo que Jung chamava de inconsciente, o imenso universo vivo e atuante de símbolos, instintos, motivações e sonhos. Mundo que nos traz a ideia de criação, de atemporalidade, de comunhão entre o todo e nós, de beleza. Chamar esse universo, que é só meu e é de todos ao mesmo tempo, de Céu, de Inconsciente, de Instinto ou de Vida, tanto faz. Ele é o que nos guia e nos perde, nos dá dignidade de coisa viva e criadora, nos ajuda a querer persistir. Perder essa conexão é a morte em vida. É o mundo de Don Juan. Espelho e imagem, vaidade e posse.
   Uma parábola que agora se faz clara:
    Quando Adão e Eva perdem o Eden, o que eles perdem? O que eles ganham? Passam a ter de trabalhar, passam a ter consciência da morte, passam a sofrer. Ou seja, tornam-se racionais e criam a divisão interna da mente. Agora sabem o que devem ser. Nunca o que são.

PEQUENA ANTOLOGIA AMOROSA- JUAN DE LA CRUZ, LA NOCHE ESCURA...

   São duas noites. Na primeira o Eu vai a seu limite em clareza. Sentidos e inteligência usados ao máximo. A hiper-afirmação da vontade. Na segunda noite vem o esquecimento. Abrir mão de tudo. Não mais ser. Largar-se nas mãos do Amor. Morrer então, para assim ser eternamente.
   Juan de La Cruz foi monge. Espanhol do século barroco. Feito Santo por Pio XI. Uma vida de ansiedade em busca da comunhão com o divino. Suas palavras poéticas choram e se humilham. Comemoram e se erguem depois. A destruição absoluta do eu para dar lugar ao nascimento do não-ser, da comunhão com a Divindade. Sentimento que nos é inalcansável. Espírito distante de nós. Juan seria hoje calado e ridicularizado. Medicado.
   Clássico da alma espanhola, da negra noite da Espanha, busca pela negação, afirmação da condição sagrada da vida. A alma de Juan sai da sua casa e plana livre pelo escuro e ansiando pela paz absoluta. Perturbador, para nosso tempo incompreensível, lê-lo jamais é um prazer.
   Mas é estranhamente real. Para aquele que sofreu é um reencontro. Um âmago secreto. Um nó.
   Fonte de poesia. E além...

A AGULHA OCA- MAURICE LEBLANC, O OCASO DE ARSÉNE LUPIN

   Li um livro sobre Os Franceses em que Theodore Ziegler diz que o que define um francês é sua pretensão outsider. Todos querem ser do contra, sempre. Pois bem, a resposta francesa ao sucesso de Conan Doyle e seu Sherlock Holmes tinha de ser alguém como Arséne Lupin, um gênio do crime, um bandido charmoso, o cérebro a serviço da mentira. Tudo é dúbio em Lupin, torcemos pelo bandido.
   Imenso sucesso por todo o século XX, Lupin hoje anda meio esquecido. Vale o reencontrar. Leblanc escreve com precisão, cria expectativa, nunca ofende a inteligência do leitor. Ego gigantesco ( o contraste com Holmes é completo ), Lupin aqui engana um pequeno gênio investigativo que pensa estar em sua pista. Mais não conto. As féria de verão logo irão chegar e ler este livro a varanda numa tarde quente será grande prazer para voces todos.
   Fácil de achar em sebos. Compre.

HONRA TEU PAI

   Honra dos aristocratas. Daquele que se considera, sempre, melhor que todos os outros. Por ser melhor ele se cobra um tipo de Honra. Por ser superior ele se dava maiores obrigações. Sua honra se media pelo peso das obrigações auto-impostas. Um homem tão superior não pode se permitir ser diminuído. Esse o primeiro fardo, não aceitar uma ofensa, um desaforo. Seu Nome deve ter a Honra intocada. Não se pode dar um só motivo para uma futura desonra.
   Esse aristocrata não deve deixar uma mulher ser desonrada, pois toda a honra feminina em suas terras está sob sua guarda. Assim também com uma criança faminta ou uma viúva nas ruas. Será uma desonra ter mulheres e crianças ao relento, mas não os homens.
   Observe então. como essa Honra é auto-imposta, ela se baseia toda na auto-estima, a Palavra dada adquire um valor tremendo. Palavra dada vale mais que a vida, pois um aristocrata que quebra sua palavra não suporta viver sem sua Honra. Na verdade a Honra vale mais que a vida, pois como Valor ela se faz eterna, é transferida de Pai para filho, se torna o maior bem de uma familia. Morrer Honrado se faz a grande ambição de uma vida, ambição que na verdade não é ambição, é obrigação auto-imposta.
   Honra sem testemunhas, Honra que existe de mim para mim-mesmo.
   A Honra da burguesia passa a ser a honra dos documentos. Ela vale diante da comunidade, deixa de ser íntima. Se torna imposta e muito mais que isso, é um Dever de todos, ricos e pobres. Não é mais a honra da palavra, é a honra dos tribunais. Honra deixa de ser Preservar seu Nome e passa a ser Pagar suas dívidas.
   Veja a diferença: No Aristocrata tudo deve respirar e demonstrar sua Honra. Gestos, roupas, hábitos, tudo, desde sua infância, exibe ao mundo, mas acima de tudo a si-mesmo, sua intocada Honra. Por isso que cuspir na bandeira, dar um tapa no rosto ou blasfemar contra a fmilia se torna a pior das ofensas, sua Honra em seus mais nobres símbolos é naquele momento difamada. Óbvio notar que nada há de democrático aqui. O nobre detém a honra, o plebeu é um vilão. E o pior vilão é o comerciante, desonrado por profissão, pois quem vende se desonra ao esquecer sua dignidade e bajular o comprador. ( Observe como isso sobrevive nos artistas pretensiosos ).
   O honrado burguês parte da ideia comerciária de que ninguém é honrado. A honra deve ser garantida pelo documento escrito e pela lei. Honra que não é mais uma regra de vida, mas apenas uma obrigação para que a sociedade gire, para que negócios se façam.
   O aristocrata vive em Honra e tem momentos grandiosos em que sua Honra se exibe ao mundo. Seu idela seria a de um mundo em que sua Honra fosse sempre posta a prova. O burguês sonha com um mundo onde todos tivessem a mesma honra que a dele, onde sua honra nunca fosse questionada.
   Estamos hoje vivendo um dos raros momentos em que a Honra não mais existe. A aristocrata se foi há muito e a burguesa está em crise e em prova. Daí o barbarismo.
   Este texto escrito por mim foi inspirado por outro de Renato Janine Ribeiro.
   Vale!

TEM ARTE NA TV? ÁGUA VIVA.

   Acho que foi Benjamin quem disse que o melhor juiz da arte é o tempo. Arte sobrevive, o resto passa. Ou vira apenas nostalgia de quem viveu aquele tempo. Quando esses saudosos morrem a coisa se vai com eles.
   Sou testemunha disso. Entre meus filmes favoritos, alguns são itens de nostalgia. Eu gosto porque me recordam a primeira vez, feliz, que os vi. Lembram um tempo de minha vida, uma pessoa, um sentimento. Mas há o filme que se impõe apenas por seu valor. Não vivi os anos 30 por exemplo. Não tem essa década o charme dos anos 20 ou a rebeldia cool dos 60. Nunca assisti um só filme dos anos 30 quando criança ou quando teen. E meu pai nunca via filmes tão velhos, sua praia eram os anos 50 e 60. Mas vejo os filmes de Hawks, MacCarey, Cukor, Dyke ou Capra e me apaixono por filmes feitos mais de 30 anos antes de meu nascimento. Porque? Arte.
   Falo tudo isso pra dizer que a principio não creio em arte na TV. Se adoro Columbo é por nostalgia. Nenhum garoto de 15 anos vai ver Columbo hoje e gostar. Noto que Seinfeld já não produz efeito sobre os teens de 2013 e duvido que em 2030 um cara de 20 anos se dê ao trabalho de ver Lost.
   Ou será que erro? Star Trek, o original, não é visto pela molecada? Mas ele não tem a propaganda dos novos filmes da série? O Pernalonga é atemporal mas o Pernalonga é cinema. Foi criado e exibido em cinema.
   Falo tudo isso pra contar que ontem vi um capítulo de ÁGUA VIVA e senti uma hiper nostalgia. Vi a novela em 1979 e adorava. Queria ser o Reginaldo Faria. Vendo hoje acho tudo tão lindo e tão antigo também. Tenho a impressão, confirmada pela novela, de que as pessoas então pareciam mais calmas, mas chiques e bem mais bronzeadas. Fábio Jr era bem mais bonito que o Fiuk e Glória Pires tinha 16 anos. Raul Cortez, Beatriz Segall, José Lewgoy, Tônia Carrero, todos eram um luxo! As roupas leves, bem cortadas, com caimento. E ao mesmo tempo me dá um bode, uma sensação de que todo o mal estava ali, que aquele monte de playboy quarentão, em festas sem fim, com seu ouro e seus iates, que todos aqueles caras chiques e sorridentes, praieiros e magros, são os malandros que deixaram a coisa virar o vale tudo de hoje.
   A novela é pura antropologia. Reginaldo em crise, percebe que a vida não é apenas a zona sul. E nesse capítulo ocorre uma cena que seria impensável hoje numa novela. Claudio Cavalcanti vai visitar Reginaldo e os dois conversam. Uma longa conversa que parece improvisada e onde NADA acontece. Falam da vida, da crise, falam em ser amigos, em companheirismo. Acho que aquilo foi quase um momento de arte. Solto. Hiper natural.
   O mundo de Água Viva não tem pressa. Pessoas muito magras, muito bronzeadas falam e vão a praia. Era a Abertura Politica, um otimismo eufórico no ar. O sexo começava a se liberar e por isso ainda era novidade. Tinha gosto de festa. A novela, pudica, mostra isso nas entrelinhas. Tempo de Mascarenhas e de Gabeira.
   Tenho a certeza de que ninguém com menos de 40 anos vê Água Viva.