MONKEY

   Mas será que nada toca neste século que me impressione?
   Com certeza eu não perco tempo ouvindo pseudo-novidades. Veja esse programa do Jools Holland. Sobre Al Green escrevi abaixo. Os aplausos e pulos de Damon Albarn são como os meus. E que mais?
   Teve Pendulum, que me impressionou por dois segundos. Depois percebi o gosto mofado de rock progressivo com toques de hard rock. Fleet Foxes faz música broxa. Os Beach Boys encontram o America. São tão fofos que flutuam. Tomara que se desvaneçam.
   Killers é bom. Pra quem tem 11 anos. Ou para trintões que nunca ouviram nada gravado entre 74/ 83. Ou quem escutou tudo isso e continua querendo ouvir aquilo que lembra, muito, o brit-pop oitentista.
   Mas então tem Damon e os Monkey, e isso é muito bom. Mais que isso, se hoje, em 2013, eu tivesse uma banda seria exatamente como essa. Damon não tem a voz de Bowie e nem sua genialidade. Mas como David, ele possui uma maravilhosa inquietação. Experimenta. É informado. Poderia passar a vida refazendo riffs tipo Kinks-T.Rex-Blur. Mas não. Ele mistura.
   E essa mistura é o que vale em nosso tempo.
   Sim, pois eu amo The Band ou Paul MacCartney, mas sei que não faz sentido nenhum fazer música como eles faziam. Porque o tempo é outro, o feeling é outro e sobretudo, eles já a fizeram. Ouço-os como poesia. Diálogo entre almas atemporais. Mas refazer The Big Pink? Pra que?
   O Roxy já propunha essa mistura. Como Kevin Ayers e como Eno.
   Damon sabe de tudo isso.
   Os Monkey são ótimos!

Monkey - Journey To The West - Live Jools Holland



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Al Green - Let's stay together (live at jools holland - 8-11-2008)



leia e escreva já!

O TAL DO POP PERFEITO. BEACH BOYS, 10 CC, ALGREEN E THE KILLERS

    O segredo se chama textura. A textura da voz e dos instrumentos, a riqueza do som. Um dos melhores discos que descobri este ano ( THE BELLE ALBUM, AL GREEN ) usa apenas baixo e bateria para conseguir uma complexidade sonora inebriante. Um contra-baixo que soa e pulsa com surpresa e charme baby. Isso é tudo.
    SMILE dos BEACH BOYS abusa de ser rico em textura. O disco talvez seja melhor que PET SOUNDS. Apesar de detestar a assexualidade de Brian Wilson, seus arranjos são tão criativos, têm tanta informação que só uma besta poderia dizer que aquilo não é genial. Instrumentos sobre instrumentos, efeitos sobre efeitos criando um mundo que é música pura.
    Postei I'M NOT IN LOVE a irônica canção do 10 CC que foi um hiper hit pop em 1976 e nunca mais foi esquecida. Em 76 eu detestava, desde 86 eu a adoro. Eis a textura do pop perfeito. A banda era uma reunião de compositores e produtores dos anos 60. Gente como Graham Guldman que havia composto e produzido por exemplo os Easybeats. Os ingleses adoravam o 10 CC desde 1973, os USA só a partir de I'M NOT IN LOVE. A banda acabou a seguir e os caras viraram produtores de clips. Pois bem, essa canção tem arranjos que conduzem a sonho. A progressão dos teclados sobem ao reino onírico e os vocais, hiper-sintetizados, são construídos em camadas sobre camadas. O arranjo vê a canção como uma tela impressionista, fria, e todos os sons se fazem pinceladas. O final é um arranjo onde todas as texturas se encontram. Harmônico.
   Para finalizar, assisti o JOOLS HOLLAND e nele tive a honra de ver AL GREEN. A voz não é mais a mesma. Ele engordou. Mas é um gênio. Lindo ver o público entrar em êxtase. Foram dos maiores aplausos que presenciei no programa de Jools. Porque? Porque é o pop perfeito. Tem voz, tem arranjos e é rico. Em seguida vieram The Killers e o choque é educativo. Simples balanço quadrado em 2/4 com os uh uh uh de sempre. Pobre pobre pobre. Parecia que eu já escutara aquilo mais de 3000 vezes. A primeira lá por 1980.
  

AFINAL UM BOM TEXTO DE PONDÉ

   Descartar as religiões como "tolice" e colocar todas no mesmo lugar das superstições é das coisas mais idiotas que a modernidade fez. É preciso conhecer aquilo que elas falam, mesmo que voce não creia em Deus ou na Alma Imortal. Não importa. Religiões dizem muito sobre aquilo que somos e mais que tudo, afirmam verdades que continuam a ser verdadeiras. Para sempre. Ou pelo menos enquanto formos humanos.
   A base de toda mísitica é sempre a mesma: a morte do Eu. Um faquir sofrendo sobre pregos ou fogo, um monge se isolando do mundo comum e se esquecendo de si-mesmo, um "soldado de Allah" ou uma freira trabalhando entre famintos africanos...Todos buscam a mesma coisa, esquecer o Eu. Não há religião onde o Eu manda. Cristo sacrificou sua vida, seu Eu por uma verdade. Assim é com toda religião, pagã, cristã ou oriental. A morte da individualidade, no êxtase dionisíaco ou na negação da vontade individual.
   Porque, como disse Pondé, ser um Eu cansa. Porque o Eu só existe como desejo. Nós somos um Eu quando queremos algo. Ou quando queremos ser Eu. Ele nos pede coisas, atos, vitórias, conquistas e auto-realização. Pior que tudo, ele se pensa único. O Eu sempre sonha ser o protagonista da vida.
   As religiões sabem. SOMOS FELIZES APENAS QUANDO O EU SE ESQUECE DE SER. Quando morremos e vivemos na inconsciência de ser um Eu, na consciência de ser MAIS UM ENTRE TANTOS. Vem daí o Amor.
   O amor nos alivia porque faz com que esquecemos daquilo que somos. Pensamos no outro, em sua alegria, em sua paz. Não queremos mais ser um Eu, queremos nos dar ao outro e ser algo sem nome. Daremos nossa vida, alegremente, por esse outro. Pelo amor. E creiam, esquecer seu desejo exclusivo, suas vontades, abdicar livremente de paz e conforto pelo bem de outro, não há maior alegria.
   Como não existe desespero maior que perder esse amor e voltar ao tédio do desejo do Eu. Voltamos então a trabalhar, comer, beber, comprar e transar, e voltamos a perceber que na satisfação dos sentidos físicos vive a dor de saber que eles são pouca coisa, são futeis, são falíveis, são apenas desejos ilusórios dos sentidos, do Eu.
    Não desejar nada, e continuar amando. Essa a contradição de toda religião. Essa a paz. Nada querer, nada temer. O medo cessa pois nada há a perder. A paz nasce onde não há desejo. Porque desejar é sempre querer. E querer é jamais poder ter. Criar vazios que serão vazios para sempre.
    Quem viveu a satisfação plena dos sentidos sabe do que falo. O vazio vive nessa satisfação plena.
    Pondé fala da tolice que é querer se conhecer. Desejar se auto-entender é cair na sedução do Eu. Megulhar dentro do Eu e se submeter a sua ditadura. Ditadura que tem apenas uma mensagem: Quero Quero e Quero! Como um baby chato o Eu pede pede e pede.
    Nikos Kazantzakis dizia que somos livres ao nada querer. Como diziam os hindús, que imaginavam o inferno como um lugar onde se deseja todo o tempo e nunca se sacia.
    Pondé termina dizendo que a pior expectativa é a da vida eterna. Ser um Eu para sempre.
    Lembro que uma vez pensei que a pior coisa do mundo seria ser para sempre Eu. Imaginem que horror! Ser condenado a ter para sempre, por séculos e milênios, seus medos, desejos e atos.
    Mas imagino a eternidade, e quase a sinto, como despersonalização. Nunca consigo crer numa eternidade onde eu continuo eu e voce voce. Nunca! Mas o que pressinto é uma possibilidade de eu e nós sermos aquilo que temos em comum. E isso não é o eu. Memória e desejo. Isso com certeza morre com a carne. Se algo fica, não é um eu.
    Fugi do tema. Meu eu me levou fora do tema.
    Esquecer do que se quer, essa é a alegria de viver.

JULIA/ DAVID LEAN/ WELLMAN/ LUMET/ RINGO STARR/ RENOIR/ TATI

   JULIA de Fred Zinemann com Jane Fonda, Vanessa Redgrave, Jason Robards, Meryl Streep
Com uma belíssima fotografia de Douglas Slocombe, Julia foi o primeiro filme por que torci numa entrega de Oscar. Perdeu filme e direção para o Annie Hall de Woody Allen. Mas ganhou atriz coadj ( Vanessa Redgrave ) e ator coadj ( Jason Robards ). Revisto agora o filme parece ainda melhor. Baseado nas memórias de Lilian Hellman, o filme acompanha sua amizade com Julia, uma milionária judia que se envolve com a luta na Europa contra o nazismo. Jane faz Lilian. Jason é seu companheiro Dashiell Hammet. As cenas entre os dois são as melhores do filme. Eles discutem, brigam, ela tenta escrever, erra. Hammet já em sua fase impotente. Em sua segunda parte Lilian atravessa a Europa de trem para levar dinheiro a Julia em Berlim. As cenas no trem exibem suspense perfeito. Ficamos eletrizados. E o final, como no começo, Lilian só, num barco, num lago. Zinemann foi um dos maiores. Basta dizer que são dele Matar ou Morrer e A Um Passo da Eternidade. Julia é o fecho de ouro de sua carreira sem erros. Um filme que demonstra tudo aquilo que desejo ver no cinema. Nota 9.
   REDENÇÃO de Steven Knight com Jason Statham
A produção é de Joe Wright e a fotografia de Chris Menges, ou seja, é classe A. E demonstra pretensões artísticas. Mas é ralo, bobo e desagradável. Melhora no final, quando se torna uma simples aventura de ação. Nota 3.
   O VEREDITO de Sidney Lumet com Paul Newman, Charlotte Rampling, James Mason, Jack Warden
Escrevi sobre este filme abaixo em outro post. É um filme perfeito. Com roteiro de David Mamet, mostra a decadência de um advogado. Bebida, decisões erradas, mentiras, falsidades. Nota DEZ.
   UM BEATLE NO PARAÍSO de Joseph MacGrath com Peter Sellers e Ringo Starr.
Que coisa é essa??? Feito em 1968, com um roteiro caótico, esta comédia fala de um milionário que adota um mendigo. O milionário é Sellers, que está excelente, o mendigo é Ringo, que está Ringo. A trilha é de Paul MacCartney e é boa. As cenas são muito mal dirigidas, o filme é como um circo ruim. Ou um programa do Monty Python feito com mais LSD. Aliás, no roteiro vemos o nome de John Cleese. O incrível é que quando ele acaba pensamos: Não foi tão ruim! Nota 4.
   CARROSSEL DA ESPERANÇA de Jacques Tati
Primeiro filme dirigido pelo genial cômico da França. Suas caracterísitcas estão todas aqui. A vida como coisa simples, leve, comunal. ( Ao fim da carreira ele mudaria essa opinião com o filme Traffic ). Numa cidadezinha francesa chega uma quermesse. Vemos a vida dessa cidade. Um dia, uma noite, uma manhã. Quase sem falas, ver esse filme é como passear pela cidade. Galinhas, crianças, a praça, a fonte, o bar. Tati faz um carteiro que larga sua vida pacata e tenta ser um carteiro "à americana". Um filme adorável. Nota 7.
   SHE de Irving Pichel com Randolph Scott, Helen Mack
O filme, feito pela equipe de King Kong, mostra grupo de exploradores em busca da fonte da juventude. Encontram um reino onde a rainha vive a séculos. Não é ruim. Podia ter mais ação. Nota 5.
   GELERIAS DO INFERNO de William Wellman com John Wayne
O avião de Wayne cai numa região do Canadá que ninguém conhece. Ele e seus companheiros esperam pelo socorro. Que bela aventura!!! Wellman, que foi aviador e lutou na Primeira Guerra adora filmar aviões. Eles passam a procura dos sobreviventes e os vemos lá embaixo, em meio a gelo e fome. Wayne tem uma grande atuação. Seu desespero é palpável. Belo filme. Nota 8.
   QUANDO SETEMBRO VIER de Robert Mulligan com Rock Hudson, Gina Lollobrigida e Walter Slezack
Hudson é um milionário que passa seus agostos na sua villa italiana. Mas resolve aparecer em julho e encontra seu mordomo usando a casa como hotel. Gina é sua namorada de agosto. Filme ao estilo Sessão da Tarde dos anos 70. Belas paisagens, Rock muito bem, Slezack dando um show como o mordomo. Este é o filme familia de então. Levemente apimentado, bobo e muito agradável. Nota 6.
   RENOIR de Gilles Bourdos
O filme fala de 3 grandes artistas. O pintor e seus filhos, Jean, diretor de cinema, e Claude, diretor de fotografia. E mesmo assim consegue ser um filme desinteressante. Nota ZERO
   GRANDES EXPECTATIVAS de David Lean com John Mills, Jean Simmons e Alec Guiness
Este filme feito pelo então jovem David Lean, é considerado com justiça a mais perfeita adaptação literária levada ao cinema. O tempo fez crescer sua beleza. Guy Green fotografou num preto e branco cheio de escuros e de brumas esta soberba história passada nos pântanos ingleses. Os primeiros trinta minutos são das coisas mais perfeitas já filmadas. É um filme que consegue nos levar ao mundo de Dickens com perfeição. Vi recentemente duas versões desse livro em cinema, um de 1998 e outra de 2012...Não servem nem como curiosidade. Este é o filme. Nota DEZ.



 
  

J.J. CALE...

   Um amigo acaba de me avizar que JJ Cale morreu.
   Já escrevi aqui, em algum lugar, sobre JJ. Tudo o que for escrever agora irá parecer óbvio. Começo falando que neste mundo de "ursinhos fofos", JJ não cabia.
   Ele estourou ( estourou? ) tarde. Muita gente gravou suas músicas e é dos poucos que foi sempre melhor no original. Sempre. Até Bryan Ferry o gravou. Em 1978. A versão de JJ é bem melhor.
   Aliás já aviso. After Midnight e Cocaine são obras-primas com JJ. Com Clapton são apenas Ok.
   JJ era  um cowboy. Relaxado, totalmente na dele. Seus discos pareciam filmes. Uma mistura de Bogart com Steve McQueen e alguma coisa do México. O som era sempre quente.
   Não vou dizer que rolou uma coincidência. Que eu ainda hoje escutei dois discos de JJ. Nada de estranho. Nos últimos dez anos eu sempre escutei JJ. Quando eu queria ouvir música e não sabia o que pegar ia na certeza: JJ.
   Estava lendo que quando Billy Wilder e William Wyler foram ao enterro de Ernst Lubistch, ao voltar para os carros Billy disse: "O triste é que nunca mais veremos Ernst Lubistch"; ao que Wyler respondeu: " O pior é que não teremos mais novos filmes de Lubistch".
   Senti a mesma coisa. Não haverá mais um novo disco de JJ para se descobrir.
   Perdi mais uma de minhas vozes.

JJ Cale - after midnight - studio live



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WEMBLEY, 8:30... T.REX, DITADURA, EU, BOWIE E MICKEY MOUSE

   Em 1972 eu tinha 9 anos. E lembro de ficar noites e noites lendo Mickey e Tio Patinhas. E desfilei no 7 de setembro. Foi o ano do Sesquicentenário da Independência. Na escola a gente fazia cartazes com Dom Pedro e José Bonifácio. Desfilei numa avenida, em formação militar. Coisas do fascismo tupi.
   Mas eu nada sabia. O que me pegava era o monte de gibis. ´´Aureos tempos do Homem Aranha. Na TV eu via só desenhos. Eram aqueles de sempre: Flintstones, Corrida Maluca, Zé Colméia, Pernalonga. Eu ia à escola com calças cor de vinho. Tinha também uma marrom. Outra azul claro. Boca Sino, claro. O tecido era uma droga! Um tipo de sintético que dava coceira e mal cheiro. Todo tecido era sintético! Tempo do Nylon, do tal Fio Escócia. Jeans? Só USTOP. Duro feito um pau. Era como vestir uma armadura. Eu usava também um casaco de Marujo. Azul marinho com botões de latão dourado. Caspa. Eu usava cabelos longos e tinha caspa. Caloi vermelha. Mas não é sobre nada disso que quero falar. Vou falar sobre o que eu NÃO sabia então.
   No cinema voce podia escolher entre O Poderoso Chefão e Cabaret. Era um tempo em que o big hit de bilheteria ainda se construía em cima de atores e história. Mas já havia O Destino do Poseidon. Houve Uma Vez Um Verão era pra chorar. A Noite Americana, O Discreto Charme da Burguesia, O Último Tango em Paris. As grandes estrelas em 1972 eram Steve McQueen, Paul Newman, Robert Redford, Jack Nicholson, Clint Eastwood, Dustin Hoffman, Marlon Brando. A revelação se chamava Al Pacino. E Diane Keaton. As atrizes big stars eram Jane Fonda e Barbra Streisand. Tinha ainda Woody Allen e Mel Brooks.
   Os escritores da moda eram Philip Roth, John Updike, Gore Vidal, Truman Capote e Tom Wolfe. Tinha ainda Borges, Marquez e Llosa. Sartre tava vivo e falava muito. Nabokov também.
   1972 tinha o boooom do xadrez. Isso mesmo, essa eu vi na época. A guerra fria usou a disputa do mundial entre Boris Spassky e Bobby Fisher pra ver quem era mais inteligente, americanos ou russos. Munique, Olimpíada. Terrorismo. Mark Spitz e Olga Korbuci. Vimos ao vivo. Lembro.
   Emerson Fittipaldi ganhou a F1. Lotus preta, ainda o F1 mais bonito da história.
   Muhammad Ali era o Anderson Silva de 72. Pelé ainda jogava. Mas os melhores eram Crujff e Beckembauer. O Ajax de Amsterdan era o melhor time do mundo. E aqui tínhamos Jairzinho, Cajú, Rivellino, Pedro Rocha, Ademir da Guia e Dirceu Lopes. O novato esperança se chamava Zico.
   O mundo pegava fogo. Ia acabar? Terrorismo na Europa. Baader Meinhoff na Alemanha querendo fazer de Bonn um centro maoísta. Na Itália as Brigadas Vermelhas. O ETA na Espanha e o IRA na Inglaterra.
   Nos EUA havia o Panteras Negras. Negros armados para fazer a revolução. Angela Davis foi presa. Lennon e Jane Fonda eram perseguidos.
   Eu lia o Manual do Tio Patinhas.
   E havia Rock. Muito rock. Foi uma época em que se comprava mais música estrangeira no Brasil que MPB.
   Transformer do Lou Reed. Harvest de Neil Young. Ziggy Stardust de Bowie. E ainda Led Zeppelin IV, Machine Head do Purple,  o primeiro disco do Steely Dan. The Band e seu disco ao vivo. A estréia de J J Cale. O começo do Kraftwerk. O primeiro disco do Roxy Music. Tago Mago do CAN. Exile on Main Street dos Stones...
   Lets Stay Together do Al Green e Lets Get It On de Marvin Gaye. E Superstition de Stevie Wonder. Catch a Fire-Bob Marley.
   Rocket Man de Elton John. E o melhor disco dos Faces, aquele que tem Stay With Me. Schools Out de Alice Cooper.
   Na época eu não ouvia nada disso. Eu ouvia rádio e conhecia de ouvir falar: Paul MacCartney, My Love; Michael Jackson, Ben; Bee Gees, I Started a Joke e os Monkees. Em 1972, por causa da TV, eu ainda amava os Monkees.
   O mundo pirou em 1968 e em 1972 havia algo de podre nesse mundo. As coisas eram muito radicais, tudo parecia "pra ontem", cada um queria ser mais "diferente" que o outro.
   Mas no meio disso tudo tinha o T. Rex. E o T. Rex era abominado pelos "inteligentinhos" de então. Porque Marc Bolan dava uma banana para a revolução. O que ele dizia era : "Eu amo meu Cadillac". As meninas adoravam Bolan. E não percebiam que ele era beeeeeem gay. Como dizia Liberace, só se nota o que se quer notar. Os meninos imitavam Bolan. E essa foi uma revolução que venceu. O rock inglês se tornou "Teatro". Nunca mais voltou a ser "Visceral". Pois mesmo Sex Pistols ou Clash ( que iam aos shows de Bolan ) faziam "teatro". Rock sujo e sem planejamento só nos EUA. Graças a Bolan. E a Bowie, que espertalhão, copiou tudo e deu uma sofisticada no rock simples do T. Rex.
   Dou um show deles aí abaixo, de presente pra voces. Tosco. Forte. Pop. No fim tem Ringo Starr. Vejam que é muito legal.
   Marc morreu em 1977 num carro on the road.
   Em 1977 eu descobri o Roxy Music. E essa é uma outra história...

PINK FLOYD BBC 1 1967 Astronomy Domine Unedited



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O DESESPERO HUMANO ( DOENÇA ATÉ A MORTE )- SOREN KIERKEGAARD

   Antes de falar especificamente sobre esta obra, vale frisar das diferenças cruciais entre Hegel e Kierkegaard, diferenças que dividiram toda a filosofia que veio após seu tempo. O básico é que Hegel acredita na história como coisa universal e ignora o eu. Para o alemão, a história nos faz ser aquilo que somos. Nossas vontades e nosso atos são consequência do nosso momento histórico. O eu pode ser pensado como uma ilusão. Não é preciso ser filósofo para perceber que isso vai dar no marxismo.
   Kierkegaard pensa de forma oposta. O eu é tudo. Estamos presos dentro da dialética que constitui o eu. Esse eu é tudo o que temos e tudo aquilo que podemos experimentar. Porque é para esse eu que sempre olhamos. Como consequência, SOMOS RESPONSÁVEIS POR TUDO O QUE FAZEMOS. Nós escolhemos ser o que somos, desejar aquilo que desejamos e sofrer o que sofremos. Quem lembrar do existencialismo está mais que certo.
   Kierkegaard escolheu e nunca culpou nada ou ninguém. Se sua vida foi sofrida, ele jamais se lamentou. Com seu eu ele fez aquilo que escolheu fazer. Após uma infância de riquesa material e de estudos impostos pelo pai ( com quem nunca rompeu ), ele escolheu uma juventude de prazeres e hedonismo e ao romper com sua noiva, mergulhou no isolamento e na reflexão. Tudo o que ele escreveu foi sentido na carne. Ele escolheu ser seu laboratório vivo. Claro é que isso dá um caráter personalista a sua filosofia. Mas é exatamente isso que o dinamarquês fala, ele diz que cada um experimenta sua própria experiência de eu. Ela é comum a todos nós, mas é COMPLETAMENTE INCOMUNICÁVEL E INTRANSFERÍVEL.
   Falo agora deste livro acima anunciado.
   Ler Soren Kierkegaard nunca é fácil. Ele exige de nós três coisas que nem todos podem querer usar. Comprometimento, disposição ao sofrimento e sinceridade. Todas essas três coisas em relação a si-mesmo. Sua filosofia opta pela vida para dentro e jamais para o mundo. Porque?
   Porque sofremos. Nascemos para envelhecer e daí para morrer. Normalmente estamos doentes ou iremos ficar doentes. Mas vem então a grande sacada do dinamarquês: Toda doença da carne, em homem ou em bicho, tende ao fim. Ela se extingue por si-mesma. Nela habita seu final, seja a cura ou seja a morte. A morte cessa a dor da carne. Mas não a dor do espírito.
   Porque não existe morte para o desespero. Não morremos de desespero. Podemos nos matar, mas isso não o extinguirá pois no ato de morrer por essa via o desespero continuará vivo até o fim. Isso, para ele, é o que mais nos diferencia dos bichos, esse desespero que é uma doença sem CAUSA E SEM FIM. SEM CURA PORTANTO.
   Kierkegaard diz que esse desespero está latente em todo humano. Ele pode ser disparado por um amor que acaba, pelo tédio ou pela doença da carne, mas na verdade o desespero existencial está presente desde sempre. É nossa condição de vida humana. Inescapável. Ou quase isso.
   Mas o que é esse desespero?
   Existiriam dois modos de se desesperar. E primeiro é preciso falar do eu.
   Só temos consciência de nosso eu ao olhar para ele. E esse eu é sempre coisa viva, dialética entre aquilo que se é e aquilo que se deseja ser. Nasce então o desespero. O desespero de se querer DEIXAR DE SER O EU ou A VONTADE VORAZ DE SER OUTRO. E saber, humanamente saber, que sempre se vai ser EU e que nunca, por mais que se deseje, será OUTRO. ( E penso que é um absurdo que um psicólogo sério não leia Kierkegaard ).
   Para ele, sómente humanos sofrem dessa doença sem solução. Mal insolúvel que de certo modo dignifica nossa condição de "ser à parte", "ser responsável" e de ser "em construção". Para ele, esse desespero é a chave para se entender o que seja ser uma pessoa, ser vivo, ser um homem espiritual.
  Vale aqui dizer que muitos negam essa doença e a vivem em forma de tédio e de vazio absoluto. Fogem do desespero pela religião do prazer, pelos sentidos exaltados. Prazeres que morrem e não podem ser vividos novamente. Efêmeros. Morte que se faz a cada gole e a cada trago.
   O desespero que é de todos, é assumido pelo homem em transição. Vem daí a teoria da religião de Kierkegaard, teoria que afirma que só a profunda experiência religiosa pode salvar o homem do desespero. Não entrarei nesse tema. Não é o tema deste livro e o próprio filósofo diz que a verdadeira experiência espiritual não pode ser comunicada em linguagem dos homens. Eu compactuo disso. Voce consegue falar de Deus quando voce procura por Ele. Ou quando O nega. Se voce O conhece é inutil e impossível falar.
   Segundo Kiekegaard, existindo a vida do espírito, toda doença da carne cessa com a morte e deixa de se fazer presente na vida eterna. O desespero permanece. Terrível não? Imaginar que todo o nosso desconforto possa ser "para sempre". É uma conclusão lógica já que se trata de uma dor da alma.
   Para concluir, pois isto é apenas um tipo de fofoca superficial que faço, ele me surpreende ao afirmar que a fonte do medo do homem jamais foi a certeza da morte. Foi sempre o não poder morrer. A dor da carne tem na morte seu fim. A dor da alma, que é o desespero, não aceita a morte. Cada segundo de desespero é uma eternidade. Sentimento que vem do nada, se faz presente e apaga o futuro. Dor que não leva à morte.
   Se tanto os homens primitivos como os homens de hoje encontram na religião a certeza do alivio das dores da carne e das fomes da vida, elas não podem prometer e não prometem, a cura do desespero na outra vida.
   Esse fado humano, essa sina, tem de ser vivida. Aqui- agora e também depois- além.
   A raiz de Kiekegaard, esse filósofo do terrível, se confunde então com a raiz do cristianismo. A vida é dor porque este reino é feito de carência. Jamais seremos completos. Suportar e não se lamentar. Confiar e ajudar. E jamais se esquecer.
   Viver com Dor. Ser gente enfim.

O VEREDITO, FILME DE SIDNEY LUMET, PAUL NEWMAN E DAVID MAMET...FINGIR AINDA ACREDITAR

   Roger Ebert gostava de dizer que os alunos de cinema não vêem mais os filmes de Fritz Lang, George Stevens ou William Wyler. E que mesmo de Ford ou Hawks conhecem só os mais conhecidos. Mas continuam vendo muito Hitchcock, Billy Wilder e John Huston. Well, não percebo muito de Huston ou de Wilder nos diretores atuais, mas sei que eles estudam muito o cinema dos diretores americanos que foram oriundos da TV ao vivo dos anos 50. Diretores que davam muito valor a atores e a roteiro, e não tanto a visual e produção. Aprenderam tudo nas peças ao vivo que dirigiam para a CBS e a NBC. Seus nomes são Robert Mulligan, Arthur Penn, John Frankenheimer, Sidney Pollack, Arthur Hill, Mike Nichols, Franklyn Schaffner e Sidney Lumet.  Ver os bons filmes desses homens é como ver os poucos bons filmes americanos que são feitos agora. O livro que fala da renovação em Hollywood, SEX, DRUGS E ROCKNROLL erra ao ignorar esse fato: a renovação começou em 1959, com 12 HOMENS E UMA SENTENÇA.
   Um grupo de críticos fez uma pesquisa e refez a lista dos vencedores do Oscar corrigindo as injustiças históricas. Desse modo, DR FANTÁSTICO vence em 1964 e 2001 ganha em 1968. Em 1982 não vence Gandhi e nem Richard Attenborough é o melhor diretor. Principalmente Ben Kingsley perde o Oscar para Paul Newman. Todos esses Oscars vão para O VEREDITO. Em 1982 ele concorreu a cinco prêmios e perdeu todos para Gandhi. Gandhi é um filme ok, mas o filme de Lumet é mais que isso. É provocador e parece ter sido feito hoje. Todo o bom cinema que ainda se faz está aqui. Cult em escolas de cinema, este é o filme básico para quem quer saber de onde vem o estilo de 2013. Lumet foi um super diretor.
   Já falo do filme. Antes devo dizer que nos extras do dvd vem a história da produção. Dustin Hoffman, Robert Redford e até Frank Sinatra queriam fazer o filme. O roteiro de David Mamet era disputado a tapa. Lumet escolheu Paul Newman. Ele fez o papel de forma tão visceral que ninguém entendeu o porque de ter perdido o prêmio ( na verdade perdeu pela Gandhimania que se fez na época ). Em 1985 Paul ganharia por A COR DO DINHEIRO, típica vitória de consolação. Premiaram o ator certo no filme errado.
   ( Um amigo me recorda: Nenhum ator tem tão poucos filmes ruins como Paul Newman. Pegar na locadora um filme com ele é quase certeza de acerto. Brando, Nicholson, Beatty, Depp, Brad, Clooney, Hoffman, Cruise, todos têm uma coleção assustadora de filmes muito ruins ).
   Newman é um advogado alcoólatra. Que caça clientes em funerais. Fundo do poço. Um amigo lhe dá um caso. Um erro médico que ocorreu durante um parto. Num hospital católico. O advogado que defenderá o hospital é o melhor da cidade. Papel do venerável James Mason. Paul Newman fracassa. Ele faz tudo errado, afinal, é um alcoólatra. Perde testemunhas, se atrapalha, não sabe o que fazer, sente muito medo. Um roteiro assim nas mãos de um diretor ruim viraria um melô ou uma comédia. Com Lumet não. Cheio de coragem, ele jamais negocia com o público. O filme é lento, as falas são ditas devagar, silêncios que dizem tudo entre as falas. Há várias tomadas que são inesquecíveis. Cito duas como exemplo.
   Newman vai ao hospital fotografar a vítima. Numa cena toda muda, ele se senta e pára de fotografar. Olha a moça na cama. E vemos no rosto desse maravilhoso ator o que ELE PENSA. Toma consciência de que ele tem estado errado. Algo precisa mudar. Mas o que?
   Outra cena acontece no escritório após mais um erro do advogado feito por Paul Newman. A câmera fica a meio metro do chão. Na altura dos joelhos de Paul. Paul se lamenta com seu amigo, Jack Warden. E Lumet ousa não cortar, deixa que os dois interpretem sem interrupção. A cena vai e vai e vai. A câmera não se move, não tem música, nada. Apenas texto e dois ótimos atores.
   O fim do filme é perfeito. E surpreendente. Aliás, o filme é perfeito.
   Lembro que no Oscar de 1982 torci por Gandhi. Não queria que vencesse um filme de tribunal, americano e com produção padrão. Gandhi eu vi na época. O Veredito, só agora. Sidney Lumet faz tudo o que o cinema de 2013 faz. Closes demais, iluminação escura e marrom, falas econômicas. Mas há uma diferença, o filme flui. Ficamos duas horas completamente hipnotizados.
   Não é um filme de tribunal. É sobre um homem.
   Uma frase do belo roteiro: Devemos fazer de conta que acreditamos na justiça. Porque se nem isso fizermos, nada fará mais sentido. Se desde o começo acreditarmos na injustiça, se nos acomodarmos e nem tentarmos fingir crer, bem...nada mais terá saída.
   Eu vi este filme a ainda finjo crer no cinema.

AS AVENTURAS DO SR. PICKWICK- CHARLES DICKENS

   Uma das maiores tragédias da história literária é o fato de Charles Dickens ter descoberto sua consciência social. Quando ele lançou Oliver Twist o estrago estava feito. Ele continuou, claro, a ser um grande autor, cânone da literatura inglesa ( mas não da irlandesa ), gênio criador de personalidades, inventor de rostos e de enredos. Sim, Dickens é tudo isso. Mas o fato é que o Dickens que escreveu Pickwick é uma das felicidades para todo leitor. Um soberbo humorista. Um satirista na bela tradição de Fielding e de Sterne.
   Os Pickwick Papers foram escritos em forma de seriado, como fascículos. Depois veio o lançamento em livro e foi essa obra que fez a fama de Dickens. É um autor que ainda não se enche de lágrimas ao falar de crianças injustiçadas e das misérias de Londres. Ele descreve a lama das ruas, as estalagens obscuras, a imensa Londres labiríntica, mas tudo num viés de humor.
   Quantos tipos ele sabe criar! Em cada página surge um novo personagem, mais uma história, outro clima. Ás vezes surge o horror, às vezes o melodrama, mas logo tudo é satirizado pela presença de Pickwick e seus amigos.
   Pickwick é o chefe de um clube. Seus membros saem pelos arredores de Londres em busca de aventura. Não são aventuras como as de um herói ou de um guerreiro. São aventuras de quatro homens gorduchos e de meia-idade da burguesia inglesa de então. Eles se envolvem em pic-nics, noivos fugitivos, jantares suntuosos, caçadas, excursões aos lagos. E muito mais. Nessas discretas aventuras surgem viúvas vaidosas, ladrões sorrateiros, párocos glutões, virgens fofoqueiras... Pickwick ouve suas histórias, deliciados as podemos ler.
   O bom livro tatua-se em nós. Li Pickwick a treze anos. Andei relendo-o agora. E surpresa! As cenas vão se reavivando em mim. Penso: "Então era neste livro que estava essa corrida de carruagens! Era aqui que falava esse malandro que lembra personagens de Monty Python!" Quem leu guardou sem saber que guardou. Tatuou.
   Pena que o livro termina. Livros assim deviam continuar para sempre. Porque amamos a companhia de sua gente. Queremos tê-los como amigos. Segredo do grande autor ( e dom maior de Dickens ), as personagens nascem e moram em nossa casa.
   Bem- Vindo Sr, Pickwick !