VIVE, LOUIS, LUDWIG, MIA, KANDINSKY

   VIVE LA FÊTE tocou em SP. Tenho um amigo que criou uma boa definição sobre 99% das bandas de 2012: Compõe bons covers. O VIVE abusa da chupação sobre o sublime VISAGE. Bom, pelo menos eles têm bom gosto em suas cópias. A maioria plagia lixo.
    Mia Couto transbordou simpatia no Roda Viva. Pena os entrevistadores variarem entre uma bobissima atitude blásé, tipo "Somos de um país maior" ( E há quem ainda pense que só a América tem arrogância ), e algumas tietes vazias. Mas o gajo tirou de letra. Esperavam discurso contra Portugal, não veio; esperavam traumas sobre a raça, nada a declarar. Couto é doce, sóbrio, poético e falou uma coisa lapidar: "Comecei a desistir da biologia ao perceber que explicava a vida pela poesia e não pela biologia". Ah sim, ele é biólogo. Que belo sotaque!
   Louis Malle tem justa homenagem em SP. Malle é melhor que Godard e Truffaut? Posso dizer que Malle não fez nenhuma obra-prima, mas também percebo que seus filmes são mais profissionais, mais atemporais, caem mais no gosto daqueles que esperam do cinema algo de "bem feito". Malle sobrevive melhor que os mais radicais. Mas atenção! Os filmes de Malle nada têm de careta ou de banais. Ele filmou em 1971 o incesto sem culpa, em 1977 a pedofilia sem discurso. Ele não tem obras-primas mas tem uma grande quantidade de filmes excelentes. E nenhum filme ruim. Mesmo Black Moon tem seu charme doido.
   Ando estudando pintura e começo citando uma frase de Wittgenstein que sintetiza toda a arte feita de 1910 em diante: "Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar."  Wittgenstein começou como um tipo de linguista e terminou descobrindo que a lingua é apenas um código que nos é imposto. Ela não revela a vida, a vida é que foi compactada para caber na linguagem.
   Pois eu não sabia o que era o abstracionismo. Rothko, Mondrian, Malevich, toda a pintura abstrata é uma tentativa de se capturar aquilo que está além do concreto, da linguagem da imagem, a pintura sentida como religião. Kandinsky e uma frase de Wittgenstein, outra vez ele: " O mundo é tudo o que é o caso". Caso: natureza e sociedade, as estruturas da religião, da arte e da ciência. Todos os atos, todo pensamento, toda emoção e toda imaginação. A pintura abstrata se apropria do todo, do caso. Olhar uma tela e ver nela aquilo que ela te faz sentir. Experimentar.
   Mas o mundo agora não é abstrato. Muito menos é impressionista ou surrealista. A cidade acostumou-se a guerra. Entramos nela suavemente. Toques de recolher não nos ofendem, aceitamos. A arte que criou este mundo está toda no expressionismo.

MORTE NA CATEDRAL- T.S. ELIOT

   Talvez as pessoas tenham hoje vergonha de gostar de Eliot. Gostam, mas vem sempre um "porém..." Why?
   Eliot dizia ser anglicano, monarquista e clássico. Ou seja, dizia crer em Deus, escolher a rainha e amar o período da arte clássica. Americano de St.Louis, como aconteceu antes com Henry James, Eliot foi mais inglês que qualquer inglês. Isso não é raro. Filhos de ex-colônias costumam ser mais metropolitanos que os naturais da metrópole. Além do que, Eliot era filho de uma familia rica dos USA. Seus antepassados podiam ser encontrados no navio que trouxe os peregrinos ingleses.
   Ele começa como modernista radical e logo cedo lança o poema símbolo do século XX, THE WASTE LAND, imagem de niilismo absoluto. O mundo para Eliot é um monte de fragmentos sem sentido. Quando aos 40 anos ele se converte á religião, o mundo passa a lhe parecer conjunto de fragmentos com sentido oculto. Em que pese a fama de Waste Land, que eu venero, a crítica atual prefere sua fase tardia, aquela de 4 QUARTETOS. Em 1948 Eliot ganha seu Nobel, justo. Falece em 1965.
   Mais que seu conservadorismo ( que não se reflete em sua arte sempre moderna ), o que irritou a crítica foram suas opiniões sobre poetas e romancistas. Eliot foi crítico muito lido e atacou Lawrence, Yeats, Wells e Shaw. Poeta, crítico, dramaturgo, conferencista. Eliot domina as letras inglesas entre 1922/1960.
   CRIME NA CATEDRAL fala do assassinato de Thomas Beckett, bispo de Canterbury, em 1170. Thomas foi o grande amigo do rei, Henrique II, mas ao ser alçado pelo rei ao bispado, passou a levar a religião "MUITO A ´SERIO",  obedecendo apenas a Deus. Logo o rei passa a tramar sua morte. Essa história foi usada num dos maiores filmes ingleses da história, BECKETT, que não se baseia nesta peça. O texto de Eliot, curto, litúrgico, tentativa de se fazer um novo Ésquilo em plena época de segunda guerra, tem uma beleza linguística genuína. Os poucos personagens ( Thomas, um coro, tentadores e soldados ), falam com poesia, declamam com precisão. Nada há de choroso, Thomas Beckett jamais pede nossa pena. E, de forma desconcertante, ao final os assassinos se explicam a nós. É uma peça fria, seca, ou seja, clássica.
   É a melhor peça de Eliot.

ENSAIOS- OSCAR WILDE

    Tudo o que vale a pena saber não pode ser ensinado.
    O trabalho é o refúgio daqueles que não têm nada para fazer.
    A ação é o último recurso dos que não sabem sonhar.
    A beleza revela tudo porquê não exprime nada.
    A natureza é a matéria que luta por converter-se em espírito, a arte é o espírito que se exprime sob as condições da matéria.
    São cinco frases de Oscar Wilde tiradas de O CRÍTICO COMO ARTISTA. Há como corrigir algo em sua escrita ou em seu pensamento? Eu não sei se Oscar foi um grande escritor. Talvez não. Compará-lo aos grandes de seu tempo é injusto com Oscar. Mas ele foi inteligente, excessivamente inteligente, incomodamente inteligente. Aliás, uma das suas frases diz que o mundo odeia o gênio. TUDO AQUILO QUE É ACEITO O É POR MEDIOCRIDADE. Nos tempos modernos claro. Oscar sabia que o popular dos gregos ou da renascença é o genial de hoje.
    Comprei uma edição digna de Oscar Wilde. Capa de couro preto, detalhes em ouro, folhas de papel Bíblia made in Yorkshire. Toda a sua obra em 1200 páginas. 60% eu já havia lido, do que nunca li começo pelos ensaios.
    A DECADÊNCIA DA MENTIRA discorre sobre a falta que a mentira faz ao mundo. Não a mentira do político ou do advogado, mentiras que são "mentiras aceitas como mentiras", mas a mentira que de tão mentirosa se torna verdade. A arte, para Oscar, e para mim, só vale quando é mentirosa. Arte que imita a realidade? Não é arte, é jornalismo. Jornalismo feito para agradar os sem gosto. Arte é mundo de mentira, fantasia absurda, imaginação extremada, criação. Essa arte se dirige aos artistas. ( Nosso mundo é tão tolo que até aquilo que poderia ser pura fantasia tenta ter ares de verdade. Homem-Aranha se acanha e mostra a verdade de Peter Parker e o Batman luta para ser simbolo da angústia do mundo real...Blá!!! )
   A grande sacada de Oscar é perceber que essa fantasia cria a vida material. Sim, a imaginação cria a matéria e nunca o contrário. Como???? Te irritas ó pobre filisteu???
   Simples explicar: Nós vemos aquilo que selecionamos e é a arte que seleciona antes de nós. Veja São Paulo. Se voce está cheio de arte expressionista voce verá uma cidade cinza, feia, expressionista, se voce é impressionista verá luz e cor, e se voce anda no mundo de HQ moderna, verá em SP uma metrópole de bandidos e prostitutas. A arte te dá como ver, o que ver e o que procurar. Lembro que após assistir TODOS DIZEM EU TE AMO vi SP como lugar romântico e de sonho. De forma mais profunda, HAMLET criou gente Hamletiana e FAUSTO os Faustianos. Não foi a natureza ou a história que os criou, foi Shakespeare e Goethe, sózinhos e com sua mentira. A arte cria o mundo que virá, então esses filmes "geladeira" com seus tipinhos flácidos, mortos, imbecis, cria um mundo de gente lesma- de- luxo. Assim como filmes catástrofe preparam o clima para a destruição de civilizações. O rock criou o mundo de 1968.
    Outro ensaio que leio é PENA, LÁPIS E VENENO onde Oscar cria um escritor e fala de sua vida. O dandismo impera no texto, retrato de um autor-assassino que vive apenas pela beleza e pela preguiça.
    Depois temos O CRÍTICO COMO ARTISTA em que ele diz que a crítica é mais importante que a arte. Como???? Ora, é muito mais dificil entender a arte que fazer arte. Com um detalhe, todo grande artista é um crítico. O que o faz criar é o desejo de criticar o que existe em seu tempo. Essa vontade critica nasce antes da criação.
    Quanto ao mediocre, ele faz arte e nada critica.
    Ler Oscar é uma critica a nós-mesmos. É um dos autores, poucos, que nos melhora como gente.

Chet Baker "Almost Blue" (complete video)



leia e escreva já!

Pet Shop Boys - Being Boring (1990) HD



leia e escreva já!

DECADÊNCIA E ELEGÂNCIA

   Haverá um grande evento na USP. Convidados irão palestrar sobre seu "livro de cabeceira". Minha jovem professora de semiótica tem como livro favorito NO CAMINHO DE SWANN de Proust. Porque ela "tem fascinação pelo momento de virada do século XIX para o XX. A decadência..." Bem, ela sintetizou maravilhosamente o porque do meu amor pelos autores daquele momento. A decadência, a paixão pela decadência, a exuberãncia triste, a beleza maculada, a saudade do que ainda é. Henry James, Tolstoi, Tchekov, Thomas Mann, Yeats, Eliot, Joyce, Wolff, esse sentimento que vem desde 1880 e repercute até 1920... Os quarenta anos decisivos de Oscar Wilde, de Rilke, de Eça, de Machado, de Mansfield...
   Penso se nossa virada foi digna dessas viradas ( 1780/ 1820... )...1980/ 2020....O que ficará e como nos irão ver?
   Mudando de assunto. Ou não. Nessa minha revisitação a década de 80, a mais odiada, revisitação motivada por Ruskin, Pater e Wilde, topo com os videos de Bruce Weber. Bruce foi um super fotógrafo de moda. E que fez um doc sobre Chet Baker sublime. Além disso fez um video très chic com os Pet Shop Boys e um outro que todos conhecem com Chris Isaak ( onde Bruce transforma Chris em Chet Baker ). Jovens deselegantes, vejam esses videos e tentem entender o que desejo de volta para a culturinha pop. Coisas bonitas.
   Eu realmente creio que o convivio com a beleza faz de nós seres melhores. Ou pelo menos seremos infelizes cercados de beleza. Uma cidade de arquitetura fria nos faz frios e lugares agressivos aumentam nossa raiva. Essa ração de arte mesquinha, pobre, tosca e rasa faz de nós um bando de boçais sem gosto e sem senso. A arte antecipa o que virá. Essa burrice feia afundará o mundo ocidental numa pasmaceira idiota. E pior, feia. Sim, estou repetindo as teorias de John Ruskin. Não conheço melhores.
   Aproveitem a beleza que sobreviveu. E a que ainda nasce. São Heróicas.

PORQUE AS BANDAS DE HOJE SÃO TÃO FEIAS?

   A minha é uma geração que em música deu tanto valor à roupa como a destreza. Afinal, John Taylor dizia que no palco se preocupava muito mais com o caimento do tecido de suas calças do que com sua performance ao contra-baixo. Não à toa, é minha a geração do nascimento do video-clip.
   Interessante observar hoje, que mesmo bandas "de esquerda", como The Clash ou Gang Of Four, tinham um cuidado com o visual que ninguém antes ou depois teria. Uma das coisas que mais me decepciona no rock atual é a falta de ambição visual. Não falo de gosto, falo de arrojo; o rock de agora é absolutamente convencional em visual. David Bowie dizia em 1972 que o público deveria ser tão "star" quanto o artista sobre o palco. O que se vê desde os anos 90 é o palco imitar o público. O artista sobre o palco tem um visual tão pouco interessante como o do garoto suburbano da última fila.
   Os Sex Pistols tinham um visual maravilhoso, assim como Jimi Hendrix, Sly Stone ou Mick Jagger em 1974. Quando minha geração surgiu, por volta de 1982, viemos elegendo Bowie como nosso Oscar Wilde e Bryan Ferry no papel de Walter Pater. Pouco importava a música, o que importava era ser artista. Esse o credo de Wilde, a arte era a vida, a obra era apenas um detalhe. Então procurávamos viver em "estade de arte". Isso se revelava numa atitude diante da vida, o "tentar algo novo". Recordo do modo como eu pintava e repintava minhas paredes, meus móveis e refazia os objetos que eu tinha. O estado era de constante criação, e mesmo que essa invenção fosse tola ou banal, não importava, o objetivo era a atitude criativa, fazer sem pensar no quê.
   As informações eram preciosas: Pollock. Cocteau, Matisse, Man Ray, Gaudi. Soul Music, Jazz, rock de garagem e "as novidades". Como dizia Wilde, a beleza atemporal. A turma que havia surgido imediatamente antes, Blondie, The Cars, Talking Heads, Ultravox, Japan, eram usinas de ideias visuais, tanto quanto musicais. Por um breve período, as artes plásticas eram o centro do mundo outra vez. Basquiat, Keith Harring e Beuys eram nomes de star. Não a toa é esta a era de filmes como Fome de Viver, Blade Runner ou Oito Semanas e Meia de Amor. O visual sobre o roteiro nasce neste tempo.
   Recordo das loucuras em video-clip de Goude, dos elegantes videos de Bruce Weber ( 1991 é o último ano dessa atitude ), e das estréias de Julien Temple.
   Há quem vá dizer que por detrás desse endeusamento do visual se esconde a absoluta falta de inspiração. Não sei. O que posso dizer é que os jazzmen já tinham essa ligação com a imagem ( como afirmação de negritude ) e que nos anos 60 todas as bandas davam um grande show de informação novidadeira. Eram momentos musicais que se ligavam a fotografia, a pintura e a um certo clima boêmio chic. Víamos o Velvet Underground no centro do mundo hiper-excitante de Andy Warhol e os Stones sendo ícones do mundo fashion de David Bailey. Quando o Blondie veio com suas poses à la New York anos 50 o recado foi prontamente entendido. O visual era o centro da coisa.
   Penso, e vejo, que os grupos de agora, ou pelo menos 90% deles, não dão uma foto de Helmut Newton ou um tratamento de Gaultier. Há excessões...quais?
   Posto abaixo um video de Miles Davis, o mais elegante dos ícones do jazz e que em 1986 lançou Tutu. Vi esse video na época e pirei. Lembro de passar a pintar meu quarto com cartas de tarot e de sair na noite imitando o jeito frio e brilhante do clip. Se ele te parecer "muito anos 80" é porque ele conseguiu exatamente o que queria, ser um manifesto daquele momento. Há nele a ambição de ser "interessante". E claro, chic.
   Coldplay, Dandy Warhols, Franz Ferdinand... nunca um deles me deu vontade de fotografar, de pintar ou de me vestir "como eles". Acho que essa geração perdeu muito com essa pobreza.

SOBRE OS SONHOS E OUTROS DIÁLOGOS, CONVERSAS ENTRE BORGES E OSVALDO FERRARI

   Em 1985, um ano antes de sua morte, Jorge Luis Borges teve veiculadas por rádio, uma série de conversas com o jornalista e escritor Osvaldo Ferrari. O gênio argentino fala sobre sonhos, religião, filosofia, tempo, Europa, liberdade... e sobre seus autores favoritos, Melville, Conrad, Henry James, Cervantes, Stevenson, Kafka, e sobretudo Dante. Borges se mostra bem-humorado, modesto, prolixo e sempre interessante. O que eu posso destacar dessas duzentas e poucas páginas tão prazerosas?
   Um fato que salta a nossa mente: a América como terra de europeus exilados. Seríamos mais europeus que os europeus, pois estando longe da Europa, podemos ser toda a Europa e ver sua verdade inteira. Um alemão na Alemanha é um alemão. Um francês é um francês, mas um americano pode ser alemão e francês, grego, italiano e romeno. Mais ainda, a América pode ser Europa e Oriente, temos aqui a chance de unir toda a história, Homero e Velho Testamento.
   O livro é todo feito desses pensamentos. Outro? Quando sonhamos criamos. Somos autor e ator, cenógrafo e diretor, e público também. Sonhando todo homem é um artista.
   Mais sobre o sonho: Yeats dizia que quando sonhamos rememoramos todo nosso passado. E nosso passado é o passado de nossos pais. E de nossos avôs. E dos bisavôs. Sonhando estamos revendo toda a história de nosso mundo. O poeta é o homem que cava esse passado.
    Mas o passado é livre. Nós criamos um passado. Podemos aumentar, encolher, esticar, embelezar, esquecer. Assim como o futuro, o passado pode ser moldado por nós. O presente existe? Se existe ele nos escapa.
    Fato notório: Todo povo primitivo fala em forma de poesia. E toda literatura nasce como poema. A prosa é mais dificil, mais sofisticada. Existem civilizações que nada produziram em prosa. Nosso passado fala em forma poética. Nossos sonhos são poemas. Nosso espirito é uma fala de um poeta.
    Clássico é todo livro que não necessita mais de materialidade para existir. Se todos os livros de Dom Quixote fossem queimados, mesmo assim os homens continuariam a falar em Quixote e Sancho e criariam um novo livro de memória. O mesmo com Hamlet, Dante ou Homero. Eles já existem no mundo, não vivem apenas nas páginas.  Se tornaram habitantes da história.
   Duas palavras se perderam no mundo moderno: amor e beleza. Escrever por amor? Quem ainda? O amor foi esmigalhado, vulgarizado, estudado, vilipendiado. O mesmo com a beleza. A pergunta estúpida: Para que serve a poesia? O que é o amor? Qual a função da beleza? A resposta de Borges: Para que serve uma montanha? O que é a vida? Qual a função de uma galáxia? A mania moderna dos porques e paraques remete a perguntas de crianças que acabaram de aprender a falar.
   Criar é lembrar. O artista recorda.
   A felicidade é um fim em si-mesma. Ela nada cria. É a tristeza que cria beleza. Ela é um caminho, uma incompletude. Deus criou a infelicidade para nos dar o que narrar.
   ....aí estão amostras do que o livro/conversa diz. O papo vai fluindo, em gotas, em xícaras. E voce vai sorvendo com prazer, com gosto.
   Borges é um autor que conheci tarde, com mais de 35 anos. O Aleph foi o primeiro. E que alegria!!! A criatividade nos dá uma felicidade imensa, a alegria de testemunhar uma vitória, a conquista da vida sobre a dor, da luz sobre o tédio, do espirito sobre o nada. A criação é o dom soberano. Borges é um de seus apóstolos.

O MENSAGEIRO- L.P. HARTLEY

   Harold Pinter fez deste romance, de Hartley, o brilhante roteiro que Joseph Losey dirigiria em 1971 e com o qual ganharia a Palma de Ouro em Cannes. Pinter fez um trabalho exemplar, o roteiro, como às vezes acontece, melhora o livro. As opções de Pinter são acertadas. Ele eliminou toda a parte zodiacal da história e conseguiu fazer do Mensageiro uma personagem mais interessante.
   Em 1950, um sessentão encontra objetos que lhe recordam uma história sua vivida em 1900, aos treze anos de idade. Uma estada na casa de campo de um seu amigo, membro da elite vitoriana. Lá, ele se apaixona pela irmã do amigo, noiva de um nobre ferido na guerra dos boêres, e que mantém um caso com um fazendeiro grosseiro. O narrador é usado como mensageiro entre os amantes. Acaba por perceber que é usado, e sofre com isso.
   Crítica ao sistema de classes, retrato do despertar da vida adulta, fotografia da repressão sexual, o livro é tudo isso. Há um começo delicioso com a descrição da vida escolar, das tragédias e glórias do menino. Depois vem sua vergonha nas férias, vergonha por ser mais pobre que seu amigo, sua glorificação da nobreza e sua relação de ódio e admiração com o fazendeiro vizinho, um homem do tipo "natural" à DH Lawrence. Ele, o amante, caça, ama, briga, esbraveja, tem força fisica, tem vontades; já o nobre visconde, noivo de Marian, a irmã do amigo, é educado, comedido, discreto e convencional.
  Hartley tem bela maneira de mostrar a cegueria do mensageiro. Consegue nos fazer lembrar de nossas tolices, do modo como tudo nos parece confuso, misterioso e assustador na pré-adolescência. Ele não percebe o código dos adultos, e pior, percebe que não percebe. Afirmo que é um belo livro desse escritor do século XX, morto na década de 70 e que foi um tipo de Thomas Hardy menor.
   Mas o filme é uma obra-prima....Faz falta a música de Michel Legrand e as imagens do menino correndo...O filme é mais duro, mais cruel, cortante. Pinter dá asas a confusão do menino, cria suspense, mergulha na tolice de uma visão cega.
  Faça então o contrário do que fiz, leia primeiro e veja o filme depois. Assim como acontece com  Wonder Boys ou Desejo e Reparação, o filme supera o livro, o que demonstra que o livro está longe de ser genial.
  Mas que ele, o livro, fica na cabeça, ah...ele fica sim... 

JUANITA AND JUAN, VERY CLEVER WITH MARACAS....

NEEDLES IN THE CAMEL'S EYES. Não pense coisas, o camelo é o do maço de cigarros. Urgentemente ele canta com voz exaltada. Formato canção com acordes graves de guitarra, Manzanera. Massa de sons ao fundo. Stop. Volta. Interessante toda a percussão. Ela não acompanha apenas, ela tece.
THE PAW-PAW NEGRO BLOWTORCH. Originalidade. 3 anos antes do tempo nasce a new-wave. Sintética, insuspeita, esperta, sexy, viva. Que bateria esperta! E tem os teclados tortos que Eno tanto usou no Roxy. Obra-prima da maluquice pop bem humorada. Busta Jones no baixo. Vixe! Ouve só essa guitarra helicopteral....
BABY'S ON FIRE. Tem toda uma geração que a conhece só do filme Velvet Goldmine. Pelo menos Thom Yorke teve a sabedoria de gravá-la idêntica a original. É uma das grandes músicas da década das melhores músicas. Ela é ao mesmo tempo pop, arte, cinica, pesada... Eno e Ferry estudaram pintura em 1969/1971 com Richard Hamilton, o papa do Pop-Art. Tudo neles remete ao visual, a riqueza de imagens, de foto-colagens. Rica complexidade de timbres. Robert Fripp tem aqui o solo de guitarra de sua vida. "Juanita and Juan, very clever with maracas"... isso é pop-art.
CINDY TELLS ME. Canção tradicional. Não vamos esquecer que este é o cara que estufou o som do U2 e fez deles o que são. Clima, ambientação. Manzanera e seu solo lindo de guitarra roxyana. Esta canção nasceu para a voz de Bryan Ferry....
DRIVING ME BACKWARDS. Eis a influência modernista sobre Eno. De quem é essa voz? David Byrne? Adrian Bellew? Não, é Brian Eno. O clima paranóico de New York circa 1980. Vários efeitos de teclados. Deus meu! Este disco é de 1973!!!!
ON SOME FARAWAY BEACH. Beleza. Se este disco tivesse sido gravado dez anos depois ( em 1983 ), teria vendido tanto! A melodia permanece simples até o fim. O segredo está no modo como ela vai se rearranjando. O som de Eno pede por nova tecnologia.
BLANK FRANK. Pop-Art again. Genialidade em estado absoluto. Percussão, vocal. Na internet um cara escreve que é um "Bo Diddley com rock alemão". Sim!!!!! Dá-lhe Fripp!!!! Bowie e Eno em Berlim iriam por essa estrada. Uma música que dá pra escutar pra sempre.....
DEAD FINKS DON'T TALK. Aaaaah....Madame Satã em 1984....Bauhaus, Dead Can Dance, Cocteau Twins...Uma triste canção que faz voce crer na beleza da tristeza. Eno arrisca um vocal à Bowie. Oh No!Oh No!.... Melancolia elétrica, porão com gente suada, sombras de álcool...e uma ironiazinha de Eno George de LaSalle.... pianinho Roxy...
SOME OF THEM ARE OLD. Esta tinha de ter sido do Roxy Music! "Remember me, remember me..." Existe elogio maior que dizer que uma canção deveria ter sido do Roxy? Existe, dizer que ela alcança a altura desta música. Ouça o arranjo feito para essas guitarras. ( Que não são guitarras ).
HERE COMES THE WARM JETS. Esses jets são os jatos do ato de urinar... O apoteótico final. Uma coda a um dos mais belos dos discos. Massa sonora que voa. Som que procura não transmitir emoção alguma. Harmonia que é sutilmente quebrada. Bateria que não se combina. Porém, tudo dá certo.
   Recém saído do Roxy, Eno lança este disco e nada acontece. É seu LP mais Pop, mais vendável. Depois dele, passo a passo, ele se tornaria cada vez mais "dificil". E se faria o melhor dos produtores. Na capa deste disco, cigarros, plumas, maquiagem, espelho, cartas de tarot, flores secas, panos....Informações, images. Um mundo. O belo mundo irônico de Brian Eno.

Devo - Mongoloid - 1978 - France



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Talking Heads - Crosseyed and Painless - Rome, Italy - 12/18/80



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