leia e escreva já!
DECADÊNCIA E ELEGÂNCIA
Haverá um grande evento na USP. Convidados irão palestrar sobre seu "livro de cabeceira". Minha jovem professora de semiótica tem como livro favorito NO CAMINHO DE SWANN de Proust. Porque ela "tem fascinação pelo momento de virada do século XIX para o XX. A decadência..." Bem, ela sintetizou maravilhosamente o porque do meu amor pelos autores daquele momento. A decadência, a paixão pela decadência, a exuberãncia triste, a beleza maculada, a saudade do que ainda é. Henry James, Tolstoi, Tchekov, Thomas Mann, Yeats, Eliot, Joyce, Wolff, esse sentimento que vem desde 1880 e repercute até 1920... Os quarenta anos decisivos de Oscar Wilde, de Rilke, de Eça, de Machado, de Mansfield...
Penso se nossa virada foi digna dessas viradas ( 1780/ 1820... )...1980/ 2020....O que ficará e como nos irão ver?
Mudando de assunto. Ou não. Nessa minha revisitação a década de 80, a mais odiada, revisitação motivada por Ruskin, Pater e Wilde, topo com os videos de Bruce Weber. Bruce foi um super fotógrafo de moda. E que fez um doc sobre Chet Baker sublime. Além disso fez um video très chic com os Pet Shop Boys e um outro que todos conhecem com Chris Isaak ( onde Bruce transforma Chris em Chet Baker ). Jovens deselegantes, vejam esses videos e tentem entender o que desejo de volta para a culturinha pop. Coisas bonitas.
Eu realmente creio que o convivio com a beleza faz de nós seres melhores. Ou pelo menos seremos infelizes cercados de beleza. Uma cidade de arquitetura fria nos faz frios e lugares agressivos aumentam nossa raiva. Essa ração de arte mesquinha, pobre, tosca e rasa faz de nós um bando de boçais sem gosto e sem senso. A arte antecipa o que virá. Essa burrice feia afundará o mundo ocidental numa pasmaceira idiota. E pior, feia. Sim, estou repetindo as teorias de John Ruskin. Não conheço melhores.
Aproveitem a beleza que sobreviveu. E a que ainda nasce. São Heróicas.
Penso se nossa virada foi digna dessas viradas ( 1780/ 1820... )...1980/ 2020....O que ficará e como nos irão ver?
Mudando de assunto. Ou não. Nessa minha revisitação a década de 80, a mais odiada, revisitação motivada por Ruskin, Pater e Wilde, topo com os videos de Bruce Weber. Bruce foi um super fotógrafo de moda. E que fez um doc sobre Chet Baker sublime. Além disso fez um video très chic com os Pet Shop Boys e um outro que todos conhecem com Chris Isaak ( onde Bruce transforma Chris em Chet Baker ). Jovens deselegantes, vejam esses videos e tentem entender o que desejo de volta para a culturinha pop. Coisas bonitas.
Eu realmente creio que o convivio com a beleza faz de nós seres melhores. Ou pelo menos seremos infelizes cercados de beleza. Uma cidade de arquitetura fria nos faz frios e lugares agressivos aumentam nossa raiva. Essa ração de arte mesquinha, pobre, tosca e rasa faz de nós um bando de boçais sem gosto e sem senso. A arte antecipa o que virá. Essa burrice feia afundará o mundo ocidental numa pasmaceira idiota. E pior, feia. Sim, estou repetindo as teorias de John Ruskin. Não conheço melhores.
Aproveitem a beleza que sobreviveu. E a que ainda nasce. São Heróicas.
PORQUE AS BANDAS DE HOJE SÃO TÃO FEIAS?
A minha é uma geração que em música deu tanto valor à roupa como a destreza. Afinal, John Taylor dizia que no palco se preocupava muito mais com o caimento do tecido de suas calças do que com sua performance ao contra-baixo. Não à toa, é minha a geração do nascimento do video-clip.
Interessante observar hoje, que mesmo bandas "de esquerda", como The Clash ou Gang Of Four, tinham um cuidado com o visual que ninguém antes ou depois teria. Uma das coisas que mais me decepciona no rock atual é a falta de ambição visual. Não falo de gosto, falo de arrojo; o rock de agora é absolutamente convencional em visual. David Bowie dizia em 1972 que o público deveria ser tão "star" quanto o artista sobre o palco. O que se vê desde os anos 90 é o palco imitar o público. O artista sobre o palco tem um visual tão pouco interessante como o do garoto suburbano da última fila.
Os Sex Pistols tinham um visual maravilhoso, assim como Jimi Hendrix, Sly Stone ou Mick Jagger em 1974. Quando minha geração surgiu, por volta de 1982, viemos elegendo Bowie como nosso Oscar Wilde e Bryan Ferry no papel de Walter Pater. Pouco importava a música, o que importava era ser artista. Esse o credo de Wilde, a arte era a vida, a obra era apenas um detalhe. Então procurávamos viver em "estade de arte". Isso se revelava numa atitude diante da vida, o "tentar algo novo". Recordo do modo como eu pintava e repintava minhas paredes, meus móveis e refazia os objetos que eu tinha. O estado era de constante criação, e mesmo que essa invenção fosse tola ou banal, não importava, o objetivo era a atitude criativa, fazer sem pensar no quê.
As informações eram preciosas: Pollock. Cocteau, Matisse, Man Ray, Gaudi. Soul Music, Jazz, rock de garagem e "as novidades". Como dizia Wilde, a beleza atemporal. A turma que havia surgido imediatamente antes, Blondie, The Cars, Talking Heads, Ultravox, Japan, eram usinas de ideias visuais, tanto quanto musicais. Por um breve período, as artes plásticas eram o centro do mundo outra vez. Basquiat, Keith Harring e Beuys eram nomes de star. Não a toa é esta a era de filmes como Fome de Viver, Blade Runner ou Oito Semanas e Meia de Amor. O visual sobre o roteiro nasce neste tempo.
Recordo das loucuras em video-clip de Goude, dos elegantes videos de Bruce Weber ( 1991 é o último ano dessa atitude ), e das estréias de Julien Temple.
Há quem vá dizer que por detrás desse endeusamento do visual se esconde a absoluta falta de inspiração. Não sei. O que posso dizer é que os jazzmen já tinham essa ligação com a imagem ( como afirmação de negritude ) e que nos anos 60 todas as bandas davam um grande show de informação novidadeira. Eram momentos musicais que se ligavam a fotografia, a pintura e a um certo clima boêmio chic. Víamos o Velvet Underground no centro do mundo hiper-excitante de Andy Warhol e os Stones sendo ícones do mundo fashion de David Bailey. Quando o Blondie veio com suas poses à la New York anos 50 o recado foi prontamente entendido. O visual era o centro da coisa.
Penso, e vejo, que os grupos de agora, ou pelo menos 90% deles, não dão uma foto de Helmut Newton ou um tratamento de Gaultier. Há excessões...quais?
Posto abaixo um video de Miles Davis, o mais elegante dos ícones do jazz e que em 1986 lançou Tutu. Vi esse video na época e pirei. Lembro de passar a pintar meu quarto com cartas de tarot e de sair na noite imitando o jeito frio e brilhante do clip. Se ele te parecer "muito anos 80" é porque ele conseguiu exatamente o que queria, ser um manifesto daquele momento. Há nele a ambição de ser "interessante". E claro, chic.
Coldplay, Dandy Warhols, Franz Ferdinand... nunca um deles me deu vontade de fotografar, de pintar ou de me vestir "como eles". Acho que essa geração perdeu muito com essa pobreza.
Interessante observar hoje, que mesmo bandas "de esquerda", como The Clash ou Gang Of Four, tinham um cuidado com o visual que ninguém antes ou depois teria. Uma das coisas que mais me decepciona no rock atual é a falta de ambição visual. Não falo de gosto, falo de arrojo; o rock de agora é absolutamente convencional em visual. David Bowie dizia em 1972 que o público deveria ser tão "star" quanto o artista sobre o palco. O que se vê desde os anos 90 é o palco imitar o público. O artista sobre o palco tem um visual tão pouco interessante como o do garoto suburbano da última fila.
Os Sex Pistols tinham um visual maravilhoso, assim como Jimi Hendrix, Sly Stone ou Mick Jagger em 1974. Quando minha geração surgiu, por volta de 1982, viemos elegendo Bowie como nosso Oscar Wilde e Bryan Ferry no papel de Walter Pater. Pouco importava a música, o que importava era ser artista. Esse o credo de Wilde, a arte era a vida, a obra era apenas um detalhe. Então procurávamos viver em "estade de arte". Isso se revelava numa atitude diante da vida, o "tentar algo novo". Recordo do modo como eu pintava e repintava minhas paredes, meus móveis e refazia os objetos que eu tinha. O estado era de constante criação, e mesmo que essa invenção fosse tola ou banal, não importava, o objetivo era a atitude criativa, fazer sem pensar no quê.
As informações eram preciosas: Pollock. Cocteau, Matisse, Man Ray, Gaudi. Soul Music, Jazz, rock de garagem e "as novidades". Como dizia Wilde, a beleza atemporal. A turma que havia surgido imediatamente antes, Blondie, The Cars, Talking Heads, Ultravox, Japan, eram usinas de ideias visuais, tanto quanto musicais. Por um breve período, as artes plásticas eram o centro do mundo outra vez. Basquiat, Keith Harring e Beuys eram nomes de star. Não a toa é esta a era de filmes como Fome de Viver, Blade Runner ou Oito Semanas e Meia de Amor. O visual sobre o roteiro nasce neste tempo.
Recordo das loucuras em video-clip de Goude, dos elegantes videos de Bruce Weber ( 1991 é o último ano dessa atitude ), e das estréias de Julien Temple.
Há quem vá dizer que por detrás desse endeusamento do visual se esconde a absoluta falta de inspiração. Não sei. O que posso dizer é que os jazzmen já tinham essa ligação com a imagem ( como afirmação de negritude ) e que nos anos 60 todas as bandas davam um grande show de informação novidadeira. Eram momentos musicais que se ligavam a fotografia, a pintura e a um certo clima boêmio chic. Víamos o Velvet Underground no centro do mundo hiper-excitante de Andy Warhol e os Stones sendo ícones do mundo fashion de David Bailey. Quando o Blondie veio com suas poses à la New York anos 50 o recado foi prontamente entendido. O visual era o centro da coisa.
Penso, e vejo, que os grupos de agora, ou pelo menos 90% deles, não dão uma foto de Helmut Newton ou um tratamento de Gaultier. Há excessões...quais?
Posto abaixo um video de Miles Davis, o mais elegante dos ícones do jazz e que em 1986 lançou Tutu. Vi esse video na época e pirei. Lembro de passar a pintar meu quarto com cartas de tarot e de sair na noite imitando o jeito frio e brilhante do clip. Se ele te parecer "muito anos 80" é porque ele conseguiu exatamente o que queria, ser um manifesto daquele momento. Há nele a ambição de ser "interessante". E claro, chic.
Coldplay, Dandy Warhols, Franz Ferdinand... nunca um deles me deu vontade de fotografar, de pintar ou de me vestir "como eles". Acho que essa geração perdeu muito com essa pobreza.
SOBRE OS SONHOS E OUTROS DIÁLOGOS, CONVERSAS ENTRE BORGES E OSVALDO FERRARI
Em 1985, um ano antes de sua morte, Jorge Luis Borges teve veiculadas por rádio, uma série de conversas com o jornalista e escritor Osvaldo Ferrari. O gênio argentino fala sobre sonhos, religião, filosofia, tempo, Europa, liberdade... e sobre seus autores favoritos, Melville, Conrad, Henry James, Cervantes, Stevenson, Kafka, e sobretudo Dante. Borges se mostra bem-humorado, modesto, prolixo e sempre interessante. O que eu posso destacar dessas duzentas e poucas páginas tão prazerosas?
Um fato que salta a nossa mente: a América como terra de europeus exilados. Seríamos mais europeus que os europeus, pois estando longe da Europa, podemos ser toda a Europa e ver sua verdade inteira. Um alemão na Alemanha é um alemão. Um francês é um francês, mas um americano pode ser alemão e francês, grego, italiano e romeno. Mais ainda, a América pode ser Europa e Oriente, temos aqui a chance de unir toda a história, Homero e Velho Testamento.
O livro é todo feito desses pensamentos. Outro? Quando sonhamos criamos. Somos autor e ator, cenógrafo e diretor, e público também. Sonhando todo homem é um artista.
Mais sobre o sonho: Yeats dizia que quando sonhamos rememoramos todo nosso passado. E nosso passado é o passado de nossos pais. E de nossos avôs. E dos bisavôs. Sonhando estamos revendo toda a história de nosso mundo. O poeta é o homem que cava esse passado.
Mas o passado é livre. Nós criamos um passado. Podemos aumentar, encolher, esticar, embelezar, esquecer. Assim como o futuro, o passado pode ser moldado por nós. O presente existe? Se existe ele nos escapa.
Fato notório: Todo povo primitivo fala em forma de poesia. E toda literatura nasce como poema. A prosa é mais dificil, mais sofisticada. Existem civilizações que nada produziram em prosa. Nosso passado fala em forma poética. Nossos sonhos são poemas. Nosso espirito é uma fala de um poeta.
Clássico é todo livro que não necessita mais de materialidade para existir. Se todos os livros de Dom Quixote fossem queimados, mesmo assim os homens continuariam a falar em Quixote e Sancho e criariam um novo livro de memória. O mesmo com Hamlet, Dante ou Homero. Eles já existem no mundo, não vivem apenas nas páginas. Se tornaram habitantes da história.
Duas palavras se perderam no mundo moderno: amor e beleza. Escrever por amor? Quem ainda? O amor foi esmigalhado, vulgarizado, estudado, vilipendiado. O mesmo com a beleza. A pergunta estúpida: Para que serve a poesia? O que é o amor? Qual a função da beleza? A resposta de Borges: Para que serve uma montanha? O que é a vida? Qual a função de uma galáxia? A mania moderna dos porques e paraques remete a perguntas de crianças que acabaram de aprender a falar.
Criar é lembrar. O artista recorda.
A felicidade é um fim em si-mesma. Ela nada cria. É a tristeza que cria beleza. Ela é um caminho, uma incompletude. Deus criou a infelicidade para nos dar o que narrar.
....aí estão amostras do que o livro/conversa diz. O papo vai fluindo, em gotas, em xícaras. E voce vai sorvendo com prazer, com gosto.
Borges é um autor que conheci tarde, com mais de 35 anos. O Aleph foi o primeiro. E que alegria!!! A criatividade nos dá uma felicidade imensa, a alegria de testemunhar uma vitória, a conquista da vida sobre a dor, da luz sobre o tédio, do espirito sobre o nada. A criação é o dom soberano. Borges é um de seus apóstolos.
Um fato que salta a nossa mente: a América como terra de europeus exilados. Seríamos mais europeus que os europeus, pois estando longe da Europa, podemos ser toda a Europa e ver sua verdade inteira. Um alemão na Alemanha é um alemão. Um francês é um francês, mas um americano pode ser alemão e francês, grego, italiano e romeno. Mais ainda, a América pode ser Europa e Oriente, temos aqui a chance de unir toda a história, Homero e Velho Testamento.
O livro é todo feito desses pensamentos. Outro? Quando sonhamos criamos. Somos autor e ator, cenógrafo e diretor, e público também. Sonhando todo homem é um artista.
Mais sobre o sonho: Yeats dizia que quando sonhamos rememoramos todo nosso passado. E nosso passado é o passado de nossos pais. E de nossos avôs. E dos bisavôs. Sonhando estamos revendo toda a história de nosso mundo. O poeta é o homem que cava esse passado.
Mas o passado é livre. Nós criamos um passado. Podemos aumentar, encolher, esticar, embelezar, esquecer. Assim como o futuro, o passado pode ser moldado por nós. O presente existe? Se existe ele nos escapa.
Fato notório: Todo povo primitivo fala em forma de poesia. E toda literatura nasce como poema. A prosa é mais dificil, mais sofisticada. Existem civilizações que nada produziram em prosa. Nosso passado fala em forma poética. Nossos sonhos são poemas. Nosso espirito é uma fala de um poeta.
Clássico é todo livro que não necessita mais de materialidade para existir. Se todos os livros de Dom Quixote fossem queimados, mesmo assim os homens continuariam a falar em Quixote e Sancho e criariam um novo livro de memória. O mesmo com Hamlet, Dante ou Homero. Eles já existem no mundo, não vivem apenas nas páginas. Se tornaram habitantes da história.
Duas palavras se perderam no mundo moderno: amor e beleza. Escrever por amor? Quem ainda? O amor foi esmigalhado, vulgarizado, estudado, vilipendiado. O mesmo com a beleza. A pergunta estúpida: Para que serve a poesia? O que é o amor? Qual a função da beleza? A resposta de Borges: Para que serve uma montanha? O que é a vida? Qual a função de uma galáxia? A mania moderna dos porques e paraques remete a perguntas de crianças que acabaram de aprender a falar.
Criar é lembrar. O artista recorda.
A felicidade é um fim em si-mesma. Ela nada cria. É a tristeza que cria beleza. Ela é um caminho, uma incompletude. Deus criou a infelicidade para nos dar o que narrar.
....aí estão amostras do que o livro/conversa diz. O papo vai fluindo, em gotas, em xícaras. E voce vai sorvendo com prazer, com gosto.
Borges é um autor que conheci tarde, com mais de 35 anos. O Aleph foi o primeiro. E que alegria!!! A criatividade nos dá uma felicidade imensa, a alegria de testemunhar uma vitória, a conquista da vida sobre a dor, da luz sobre o tédio, do espirito sobre o nada. A criação é o dom soberano. Borges é um de seus apóstolos.
O MENSAGEIRO- L.P. HARTLEY
Harold Pinter fez deste romance, de Hartley, o brilhante roteiro que Joseph Losey dirigiria em 1971 e com o qual ganharia a Palma de Ouro em Cannes. Pinter fez um trabalho exemplar, o roteiro, como às vezes acontece, melhora o livro. As opções de Pinter são acertadas. Ele eliminou toda a parte zodiacal da história e conseguiu fazer do Mensageiro uma personagem mais interessante.
Em 1950, um sessentão encontra objetos que lhe recordam uma história sua vivida em 1900, aos treze anos de idade. Uma estada na casa de campo de um seu amigo, membro da elite vitoriana. Lá, ele se apaixona pela irmã do amigo, noiva de um nobre ferido na guerra dos boêres, e que mantém um caso com um fazendeiro grosseiro. O narrador é usado como mensageiro entre os amantes. Acaba por perceber que é usado, e sofre com isso.
Crítica ao sistema de classes, retrato do despertar da vida adulta, fotografia da repressão sexual, o livro é tudo isso. Há um começo delicioso com a descrição da vida escolar, das tragédias e glórias do menino. Depois vem sua vergonha nas férias, vergonha por ser mais pobre que seu amigo, sua glorificação da nobreza e sua relação de ódio e admiração com o fazendeiro vizinho, um homem do tipo "natural" à DH Lawrence. Ele, o amante, caça, ama, briga, esbraveja, tem força fisica, tem vontades; já o nobre visconde, noivo de Marian, a irmã do amigo, é educado, comedido, discreto e convencional.
Hartley tem bela maneira de mostrar a cegueria do mensageiro. Consegue nos fazer lembrar de nossas tolices, do modo como tudo nos parece confuso, misterioso e assustador na pré-adolescência. Ele não percebe o código dos adultos, e pior, percebe que não percebe. Afirmo que é um belo livro desse escritor do século XX, morto na década de 70 e que foi um tipo de Thomas Hardy menor.
Mas o filme é uma obra-prima....Faz falta a música de Michel Legrand e as imagens do menino correndo...O filme é mais duro, mais cruel, cortante. Pinter dá asas a confusão do menino, cria suspense, mergulha na tolice de uma visão cega.
Faça então o contrário do que fiz, leia primeiro e veja o filme depois. Assim como acontece com Wonder Boys ou Desejo e Reparação, o filme supera o livro, o que demonstra que o livro está longe de ser genial.
Mas que ele, o livro, fica na cabeça, ah...ele fica sim...
Em 1950, um sessentão encontra objetos que lhe recordam uma história sua vivida em 1900, aos treze anos de idade. Uma estada na casa de campo de um seu amigo, membro da elite vitoriana. Lá, ele se apaixona pela irmã do amigo, noiva de um nobre ferido na guerra dos boêres, e que mantém um caso com um fazendeiro grosseiro. O narrador é usado como mensageiro entre os amantes. Acaba por perceber que é usado, e sofre com isso.
Crítica ao sistema de classes, retrato do despertar da vida adulta, fotografia da repressão sexual, o livro é tudo isso. Há um começo delicioso com a descrição da vida escolar, das tragédias e glórias do menino. Depois vem sua vergonha nas férias, vergonha por ser mais pobre que seu amigo, sua glorificação da nobreza e sua relação de ódio e admiração com o fazendeiro vizinho, um homem do tipo "natural" à DH Lawrence. Ele, o amante, caça, ama, briga, esbraveja, tem força fisica, tem vontades; já o nobre visconde, noivo de Marian, a irmã do amigo, é educado, comedido, discreto e convencional.
Hartley tem bela maneira de mostrar a cegueria do mensageiro. Consegue nos fazer lembrar de nossas tolices, do modo como tudo nos parece confuso, misterioso e assustador na pré-adolescência. Ele não percebe o código dos adultos, e pior, percebe que não percebe. Afirmo que é um belo livro desse escritor do século XX, morto na década de 70 e que foi um tipo de Thomas Hardy menor.
Mas o filme é uma obra-prima....Faz falta a música de Michel Legrand e as imagens do menino correndo...O filme é mais duro, mais cruel, cortante. Pinter dá asas a confusão do menino, cria suspense, mergulha na tolice de uma visão cega.
Faça então o contrário do que fiz, leia primeiro e veja o filme depois. Assim como acontece com Wonder Boys ou Desejo e Reparação, o filme supera o livro, o que demonstra que o livro está longe de ser genial.
Mas que ele, o livro, fica na cabeça, ah...ele fica sim...
JUANITA AND JUAN, VERY CLEVER WITH MARACAS....
NEEDLES IN THE CAMEL'S EYES. Não pense coisas, o camelo é o do maço de cigarros. Urgentemente ele canta com voz exaltada. Formato canção com acordes graves de guitarra, Manzanera. Massa de sons ao fundo. Stop. Volta. Interessante toda a percussão. Ela não acompanha apenas, ela tece.
THE PAW-PAW NEGRO BLOWTORCH. Originalidade. 3 anos antes do tempo nasce a new-wave. Sintética, insuspeita, esperta, sexy, viva. Que bateria esperta! E tem os teclados tortos que Eno tanto usou no Roxy. Obra-prima da maluquice pop bem humorada. Busta Jones no baixo. Vixe! Ouve só essa guitarra helicopteral....
BABY'S ON FIRE. Tem toda uma geração que a conhece só do filme Velvet Goldmine. Pelo menos Thom Yorke teve a sabedoria de gravá-la idêntica a original. É uma das grandes músicas da década das melhores músicas. Ela é ao mesmo tempo pop, arte, cinica, pesada... Eno e Ferry estudaram pintura em 1969/1971 com Richard Hamilton, o papa do Pop-Art. Tudo neles remete ao visual, a riqueza de imagens, de foto-colagens. Rica complexidade de timbres. Robert Fripp tem aqui o solo de guitarra de sua vida. "Juanita and Juan, very clever with maracas"... isso é pop-art.
CINDY TELLS ME. Canção tradicional. Não vamos esquecer que este é o cara que estufou o som do U2 e fez deles o que são. Clima, ambientação. Manzanera e seu solo lindo de guitarra roxyana. Esta canção nasceu para a voz de Bryan Ferry....
DRIVING ME BACKWARDS. Eis a influência modernista sobre Eno. De quem é essa voz? David Byrne? Adrian Bellew? Não, é Brian Eno. O clima paranóico de New York circa 1980. Vários efeitos de teclados. Deus meu! Este disco é de 1973!!!!
ON SOME FARAWAY BEACH. Beleza. Se este disco tivesse sido gravado dez anos depois ( em 1983 ), teria vendido tanto! A melodia permanece simples até o fim. O segredo está no modo como ela vai se rearranjando. O som de Eno pede por nova tecnologia.
BLANK FRANK. Pop-Art again. Genialidade em estado absoluto. Percussão, vocal. Na internet um cara escreve que é um "Bo Diddley com rock alemão". Sim!!!!! Dá-lhe Fripp!!!! Bowie e Eno em Berlim iriam por essa estrada. Uma música que dá pra escutar pra sempre.....
DEAD FINKS DON'T TALK. Aaaaah....Madame Satã em 1984....Bauhaus, Dead Can Dance, Cocteau Twins...Uma triste canção que faz voce crer na beleza da tristeza. Eno arrisca um vocal à Bowie. Oh No!Oh No!.... Melancolia elétrica, porão com gente suada, sombras de álcool...e uma ironiazinha de Eno George de LaSalle.... pianinho Roxy...
SOME OF THEM ARE OLD. Esta tinha de ter sido do Roxy Music! "Remember me, remember me..." Existe elogio maior que dizer que uma canção deveria ter sido do Roxy? Existe, dizer que ela alcança a altura desta música. Ouça o arranjo feito para essas guitarras. ( Que não são guitarras ).
HERE COMES THE WARM JETS. Esses jets são os jatos do ato de urinar... O apoteótico final. Uma coda a um dos mais belos dos discos. Massa sonora que voa. Som que procura não transmitir emoção alguma. Harmonia que é sutilmente quebrada. Bateria que não se combina. Porém, tudo dá certo.
Recém saído do Roxy, Eno lança este disco e nada acontece. É seu LP mais Pop, mais vendável. Depois dele, passo a passo, ele se tornaria cada vez mais "dificil". E se faria o melhor dos produtores. Na capa deste disco, cigarros, plumas, maquiagem, espelho, cartas de tarot, flores secas, panos....Informações, images. Um mundo. O belo mundo irônico de Brian Eno.
THE PAW-PAW NEGRO BLOWTORCH. Originalidade. 3 anos antes do tempo nasce a new-wave. Sintética, insuspeita, esperta, sexy, viva. Que bateria esperta! E tem os teclados tortos que Eno tanto usou no Roxy. Obra-prima da maluquice pop bem humorada. Busta Jones no baixo. Vixe! Ouve só essa guitarra helicopteral....
BABY'S ON FIRE. Tem toda uma geração que a conhece só do filme Velvet Goldmine. Pelo menos Thom Yorke teve a sabedoria de gravá-la idêntica a original. É uma das grandes músicas da década das melhores músicas. Ela é ao mesmo tempo pop, arte, cinica, pesada... Eno e Ferry estudaram pintura em 1969/1971 com Richard Hamilton, o papa do Pop-Art. Tudo neles remete ao visual, a riqueza de imagens, de foto-colagens. Rica complexidade de timbres. Robert Fripp tem aqui o solo de guitarra de sua vida. "Juanita and Juan, very clever with maracas"... isso é pop-art.
CINDY TELLS ME. Canção tradicional. Não vamos esquecer que este é o cara que estufou o som do U2 e fez deles o que são. Clima, ambientação. Manzanera e seu solo lindo de guitarra roxyana. Esta canção nasceu para a voz de Bryan Ferry....
DRIVING ME BACKWARDS. Eis a influência modernista sobre Eno. De quem é essa voz? David Byrne? Adrian Bellew? Não, é Brian Eno. O clima paranóico de New York circa 1980. Vários efeitos de teclados. Deus meu! Este disco é de 1973!!!!
ON SOME FARAWAY BEACH. Beleza. Se este disco tivesse sido gravado dez anos depois ( em 1983 ), teria vendido tanto! A melodia permanece simples até o fim. O segredo está no modo como ela vai se rearranjando. O som de Eno pede por nova tecnologia.
BLANK FRANK. Pop-Art again. Genialidade em estado absoluto. Percussão, vocal. Na internet um cara escreve que é um "Bo Diddley com rock alemão". Sim!!!!! Dá-lhe Fripp!!!! Bowie e Eno em Berlim iriam por essa estrada. Uma música que dá pra escutar pra sempre.....
DEAD FINKS DON'T TALK. Aaaaah....Madame Satã em 1984....Bauhaus, Dead Can Dance, Cocteau Twins...Uma triste canção que faz voce crer na beleza da tristeza. Eno arrisca um vocal à Bowie. Oh No!Oh No!.... Melancolia elétrica, porão com gente suada, sombras de álcool...e uma ironiazinha de Eno George de LaSalle.... pianinho Roxy...
SOME OF THEM ARE OLD. Esta tinha de ter sido do Roxy Music! "Remember me, remember me..." Existe elogio maior que dizer que uma canção deveria ter sido do Roxy? Existe, dizer que ela alcança a altura desta música. Ouça o arranjo feito para essas guitarras. ( Que não são guitarras ).
HERE COMES THE WARM JETS. Esses jets são os jatos do ato de urinar... O apoteótico final. Uma coda a um dos mais belos dos discos. Massa sonora que voa. Som que procura não transmitir emoção alguma. Harmonia que é sutilmente quebrada. Bateria que não se combina. Porém, tudo dá certo.
Recém saído do Roxy, Eno lança este disco e nada acontece. É seu LP mais Pop, mais vendável. Depois dele, passo a passo, ele se tornaria cada vez mais "dificil". E se faria o melhor dos produtores. Na capa deste disco, cigarros, plumas, maquiagem, espelho, cartas de tarot, flores secas, panos....Informações, images. Um mundo. O belo mundo irônico de Brian Eno.
GOD SAVE NOEL COWARD!!! ( PARA ROMA COM AMOR E DESIGN FOR LIVING, UMA COMPARAÇÃO )
Uma moça conhece dois homens num trem. Os dois homens são amigos. Um é pintor, o outro, autor de teatro. Ambos pobres. Ela passa a amar aos dois. Dorme com um, dorme com outro. Casa-se com um, volta ao outro. Os amigos se tornam famosos e ricos. Ela realmente ama aos dois. E os dois amigos são realmente amigos. Jules e Jim? Longe disso! Isto é muito melhor! É Noel Coward. Design for Living, peça desse deslumbrante e muito chique autor inglês, aqui em adaptação de Ben Hecht e direção de Ernst Lubitsch. Filme de 1933, ou seja, antes do código de censura. É um filme malicioso, apimentado e que fica todo o tempo discutindo sexo, inclusive com referências ao orgasmo.
A primeira cena é um primor. Sem um só diálogo somos apresentados ao trio. Conhecemos sua personalidade, vemos sua individualidade. Em cinco minutos, mudos, já os conhecemos. Mais que isso, são "pessoas", parecem de verdade, embora nunca deixem de ser especiais, interessantes. Há aqui a conjugação mágica: um grande texto, um diretor de gênio e atores de estrela. Assistir este filme após a babaquice de Woody Allen é um alivio.
Woody Allen é um grande diretor. Que erra muito. E acerta também muitas vezes. Hannah e Manhattan são obras-primas ( entre outras ) e O Dorminhoco é hilário.( entre outros ). Mas o que ele faz em Roma? Nos engana. Não existe um só diálogo interessante e pior, os personagens são mortos. São arremedos de um rascunho mal feito. Temos então a história com Penelope Cruz que não diz ao que veio. A história de Roberto Benigni que poderia ser boa, mas que não é desenvolvida e se faz uma tolice atroz. Pior de todas, a imbecilíssima historieta do cara que se apaixona pela amiga da esposa. Woody já contou isso um milhão de vezes. Aqui temos um roteiro tosco e um grupo de atores que me deixa irritado de tanto tédio. A única boa piada é a do cantor de banheiro. Que não leva ou vai a lugar algum.
O filme, em seus primeiros minutos, ameaça ser um novo TODOS DIZEM EU TE AMO ( que é um muito prazeroso filme ), mas logo desaba. Onde TODOS DIZEM tinha prazer, refinamento e personagens adoráveis, aqui temos um vazio absoluto. Mas apesar de tudo, algo sobrevive a este desastre, a beleza esfuziante de ROMA. Deus! Que cidade linda!!! As cores das fachadas, as vielas, as igrejas da renascença que parecem sorrir para nós. Roma realmente é única, é quente, é a cidade da beleza.
Noel Coward foi o primeiro superstar. O que entendemos de estrela da midia foi criação dele. Cantava, compunha, fazia cinema e teatro, era critico e era "famoso". E muito, muito chique. Nos anos 90 se fez um disco em homenagem a Noel. Procure. Tem de Kd Lang à Pet Shop Boys.
Ernst Lubitsch foi uma estrela do cinema mudo alemão. Fugiu para os EUA e se tornou o rei da Paramount. Dizem que foi ele que inventou o que conhecemos como "cinema de classe". Billy Wilder o idolatrava. Como também William Wyler, Preston Sturges e até Hitchcock. Lubitsch era malicioso. Seus filmes têm um toque de "doce vienense", de cabaret de Berlim, de cultura popular do Império Austro-Húngaro. São fábulas sexy com humor adulto.
Design for Living tem Gary Cooper, Fredric March e Miriam Hopkins. Nenhum deles é inglês. E nem tenta ser. Cooper é belo e elegante. March é bom ator e intenso. Miriam é maliciosa. Precisamos do que mais?
Quem quiser conhecer o soberbo cinema dos anos 30 tem aqui uma chance. É um filme que pode ganhar aficionados. Uma jóia.
Quanto a Woody...evite ROMA.
PS: Woody Allen faz a personagem da "amiga" citar Yeats. Nem meu poeta favorito salva a coisa. Além de me parecer uma forma tola de se tentar dar substãncia a personagens rasos. Alec Baldwin cita a "Sindrome de Ozymandias". Ozymandias é um poema, lindo, de Shelley. Alec é ótimo ( e está desperdiçado ) e Shelley é gênio.... e daí?
PS2: Tenho um amigo que tem uma tese: a de que sou um gay enrustido. Afinal, diz ele, como um fã de Oscar Wilde, Noel Coward, Evelyn Waugh, Henry James, Roxy Music e Bowie pode não o ser? Bem, ele esqueceu Secos e Molhados e My Fair Lady. Meu amigo, isso revela preconceito de sua parte. Então é proibido a um hetero amar Fred Astaire e entender de pintura pré-Rafaelista? De qualquer modo me pego pensando às vezes nisso, o porque de eu gostar tanto de escritores, musicos, ícones de um certo verniz gay. E chego ao humor. Essa coisa "witt", essa atitude cinica, essa elegãncia anos 30, isso me agrada muito. Se são valores gay ou não, que importãncia isso tem?
PS3: ah sim, eu adoro Cazuza! E Cole Porter.
A primeira cena é um primor. Sem um só diálogo somos apresentados ao trio. Conhecemos sua personalidade, vemos sua individualidade. Em cinco minutos, mudos, já os conhecemos. Mais que isso, são "pessoas", parecem de verdade, embora nunca deixem de ser especiais, interessantes. Há aqui a conjugação mágica: um grande texto, um diretor de gênio e atores de estrela. Assistir este filme após a babaquice de Woody Allen é um alivio.
Woody Allen é um grande diretor. Que erra muito. E acerta também muitas vezes. Hannah e Manhattan são obras-primas ( entre outras ) e O Dorminhoco é hilário.( entre outros ). Mas o que ele faz em Roma? Nos engana. Não existe um só diálogo interessante e pior, os personagens são mortos. São arremedos de um rascunho mal feito. Temos então a história com Penelope Cruz que não diz ao que veio. A história de Roberto Benigni que poderia ser boa, mas que não é desenvolvida e se faz uma tolice atroz. Pior de todas, a imbecilíssima historieta do cara que se apaixona pela amiga da esposa. Woody já contou isso um milhão de vezes. Aqui temos um roteiro tosco e um grupo de atores que me deixa irritado de tanto tédio. A única boa piada é a do cantor de banheiro. Que não leva ou vai a lugar algum.
O filme, em seus primeiros minutos, ameaça ser um novo TODOS DIZEM EU TE AMO ( que é um muito prazeroso filme ), mas logo desaba. Onde TODOS DIZEM tinha prazer, refinamento e personagens adoráveis, aqui temos um vazio absoluto. Mas apesar de tudo, algo sobrevive a este desastre, a beleza esfuziante de ROMA. Deus! Que cidade linda!!! As cores das fachadas, as vielas, as igrejas da renascença que parecem sorrir para nós. Roma realmente é única, é quente, é a cidade da beleza.
Noel Coward foi o primeiro superstar. O que entendemos de estrela da midia foi criação dele. Cantava, compunha, fazia cinema e teatro, era critico e era "famoso". E muito, muito chique. Nos anos 90 se fez um disco em homenagem a Noel. Procure. Tem de Kd Lang à Pet Shop Boys.
Ernst Lubitsch foi uma estrela do cinema mudo alemão. Fugiu para os EUA e se tornou o rei da Paramount. Dizem que foi ele que inventou o que conhecemos como "cinema de classe". Billy Wilder o idolatrava. Como também William Wyler, Preston Sturges e até Hitchcock. Lubitsch era malicioso. Seus filmes têm um toque de "doce vienense", de cabaret de Berlim, de cultura popular do Império Austro-Húngaro. São fábulas sexy com humor adulto.
Design for Living tem Gary Cooper, Fredric March e Miriam Hopkins. Nenhum deles é inglês. E nem tenta ser. Cooper é belo e elegante. March é bom ator e intenso. Miriam é maliciosa. Precisamos do que mais?
Quem quiser conhecer o soberbo cinema dos anos 30 tem aqui uma chance. É um filme que pode ganhar aficionados. Uma jóia.
Quanto a Woody...evite ROMA.
PS: Woody Allen faz a personagem da "amiga" citar Yeats. Nem meu poeta favorito salva a coisa. Além de me parecer uma forma tola de se tentar dar substãncia a personagens rasos. Alec Baldwin cita a "Sindrome de Ozymandias". Ozymandias é um poema, lindo, de Shelley. Alec é ótimo ( e está desperdiçado ) e Shelley é gênio.... e daí?
PS2: Tenho um amigo que tem uma tese: a de que sou um gay enrustido. Afinal, diz ele, como um fã de Oscar Wilde, Noel Coward, Evelyn Waugh, Henry James, Roxy Music e Bowie pode não o ser? Bem, ele esqueceu Secos e Molhados e My Fair Lady. Meu amigo, isso revela preconceito de sua parte. Então é proibido a um hetero amar Fred Astaire e entender de pintura pré-Rafaelista? De qualquer modo me pego pensando às vezes nisso, o porque de eu gostar tanto de escritores, musicos, ícones de um certo verniz gay. E chego ao humor. Essa coisa "witt", essa atitude cinica, essa elegãncia anos 30, isso me agrada muito. Se são valores gay ou não, que importãncia isso tem?
PS3: ah sim, eu adoro Cazuza! E Cole Porter.
ENO, PONDÉ, LEMOS, JORNAL, ÁFRICA E RIO
Fotos antigas nas paredes. De Paris, de São Paulo nos anos 30, de NY. Uma pintura pós-moderna. Dois sofás: um deles desconstruído e o outro um tipo de coisa chique em estilo vitoriano. Livros. Belas edições de luxo. Poemas de Goethe, um estudo sobre o cinema japonês e uma imensa bio de Lacan. O morador, sem tempo ( ou vontade? ou interesse? ) jamais leu nenhum dos livros. Mas diz gostar deles. O quadro nem é muito olhado e as fotos espelham um passado que nunca lhe interessou.
As almofadas estão sempre impecáveis.
Pondé escreveu ontem sobre esse tipo de ser. O cara que mora em casas que têm montes de coisas que não servem para nada. O senhor da sala de visitas. Sala que nunca é usada. E livros que jamais são lidos. O cara tem uma cafeteira italiana, aparelhos de academia, máquina de sorvete, cursos de vinhos e queijos, e nada disso é usufruido. Porque tudo isso é trabalho inutil pra ele. E ele simplesmente nunca trabalha "á toa". Nunca estuda. Nunca observa. Tudo o que ele faz é "pela carreira". Só estuda, trabalha e vê o que é "pela carreira". Brega. Sua casa faz parte da "carreira".
Essas casas traem seu dono. São mortas. Tudo nelas é mais que morto, na verdade são não-nascidos. Os objetos não respiram, não envelhecem, não se sujam. Nessas casas não existe história.
Pensei que só eu sentisse o tédio que essas casas dão. Eu as chamo de casas de "luzinhas amarelinhas". Ambientes assim abundam em filmes e séries de tv inteligentinhas. Completamente bregas. Tudo é sempre novo, limpinho e sem cheiro. A casa não é lugar pra se viver e trabalhar, é um tipo de vitrine, um tipo de cartão de acesso ao mundinho brega-novo rico. Laboratório onde se cria o tédio.
No mesmo jornal Ronaldo Lemos fala sobre Eno no Rio.
Brian Eno lançou um desafio ao Rio. Que ele assuma seu papel de Nova África. O que seria isso?
Desde sempre Eno fala que o problema dos computadores é o de que eles têm pouca África. Nerds têm um componente africano muito baixo ( substitua africano por dionisíaco que talvez voce entenda ). Daí que o mundo da informática tem uma ausência de africanês. É frio, impessoal, previsível e sem calor. Cabe ao Brasil trazer esse componente africano ao mundo. Brasileiros criando uma nova Microsoft ou Apple.
Ele fala mais. Por 50 anos a música foi central por ser uma forma de se receber a África.
Vamos desenvolver essa frase. Por 50 anos. Não era antes? Não. Antes de 1950 a música ficava muito atrás da literatura, do teatro, do ballet, do cinema, e até da pintura. A transformação da música em coisa sempre presente se dá a partir da explosão do rock e da hiper-venda de discos, fitas, cds e agora i pods etc. O que Eno fala é que o mundo sentiu-se fascinado com a africanização. O mundo começou a rebolar, a se soltar, a improvisar, a colorir, a batucar, a gingar. ( Dionisio? ). Isso fez do século XX um século negro, radicalmente diferente de qualquer outro.
Mas esse processo se esgota. E a música perde sua força. É preciso que o mundo receba algo de radicalmente novo. Que invada computadores, telas, a vida. Isso poderia ser o Brasil. Uma brasilização do mundo. A miscigenação radical. O improviso como dom e não como falha. O acaso. A hiper-africanização brasileira.
Eno deu aparelhos para os cariocas onde eles criaram discos de Eno ao vivo.
Lembro então que Eno e Bryan Ferry foram alunos de Richard Hamilton, o criador da POP ART. Todo o discurso de Eno é consequência da POP ART. O olhar sempre adiante, a busca pelo mais colorido, mais vivo, mais excitante. A celebração. Ferry uniu a isso o olhar romântico do cinema anos 40, a publicidade e a escultura. Eno caminhou para a tecnologia e o futurismo. O Roxy foi essa usina caleidoscópica que falava de Bogart, Jerry Hall e Calvin Klein, Greta Garbo, Elvis e TV, Tango, carros e Funk, tudo numa canção.
Ando lendo Borges.
Diz que a maior invenção grega foi a conversa. A conversa como arte e como prazer maior.
Concordo. Mas digo também: a divisão de nossas forças entre Dionisio e Apolo foi genial. Casas apolineas ( sem o gênio de Apolo, um tipo de Apolo fake ), computadores sem Dionisio ( e o que são os hackers? Uma tentativa de dionisiar a máquina? ) Temos mais um momento decisivo, ou o mundo continua a reprimir o dionisiiismo ou tenta equilibrar a coisa....
As almofadas estão sempre impecáveis.
Pondé escreveu ontem sobre esse tipo de ser. O cara que mora em casas que têm montes de coisas que não servem para nada. O senhor da sala de visitas. Sala que nunca é usada. E livros que jamais são lidos. O cara tem uma cafeteira italiana, aparelhos de academia, máquina de sorvete, cursos de vinhos e queijos, e nada disso é usufruido. Porque tudo isso é trabalho inutil pra ele. E ele simplesmente nunca trabalha "á toa". Nunca estuda. Nunca observa. Tudo o que ele faz é "pela carreira". Só estuda, trabalha e vê o que é "pela carreira". Brega. Sua casa faz parte da "carreira".
Essas casas traem seu dono. São mortas. Tudo nelas é mais que morto, na verdade são não-nascidos. Os objetos não respiram, não envelhecem, não se sujam. Nessas casas não existe história.
Pensei que só eu sentisse o tédio que essas casas dão. Eu as chamo de casas de "luzinhas amarelinhas". Ambientes assim abundam em filmes e séries de tv inteligentinhas. Completamente bregas. Tudo é sempre novo, limpinho e sem cheiro. A casa não é lugar pra se viver e trabalhar, é um tipo de vitrine, um tipo de cartão de acesso ao mundinho brega-novo rico. Laboratório onde se cria o tédio.
No mesmo jornal Ronaldo Lemos fala sobre Eno no Rio.
Brian Eno lançou um desafio ao Rio. Que ele assuma seu papel de Nova África. O que seria isso?
Desde sempre Eno fala que o problema dos computadores é o de que eles têm pouca África. Nerds têm um componente africano muito baixo ( substitua africano por dionisíaco que talvez voce entenda ). Daí que o mundo da informática tem uma ausência de africanês. É frio, impessoal, previsível e sem calor. Cabe ao Brasil trazer esse componente africano ao mundo. Brasileiros criando uma nova Microsoft ou Apple.
Ele fala mais. Por 50 anos a música foi central por ser uma forma de se receber a África.
Vamos desenvolver essa frase. Por 50 anos. Não era antes? Não. Antes de 1950 a música ficava muito atrás da literatura, do teatro, do ballet, do cinema, e até da pintura. A transformação da música em coisa sempre presente se dá a partir da explosão do rock e da hiper-venda de discos, fitas, cds e agora i pods etc. O que Eno fala é que o mundo sentiu-se fascinado com a africanização. O mundo começou a rebolar, a se soltar, a improvisar, a colorir, a batucar, a gingar. ( Dionisio? ). Isso fez do século XX um século negro, radicalmente diferente de qualquer outro.
Mas esse processo se esgota. E a música perde sua força. É preciso que o mundo receba algo de radicalmente novo. Que invada computadores, telas, a vida. Isso poderia ser o Brasil. Uma brasilização do mundo. A miscigenação radical. O improviso como dom e não como falha. O acaso. A hiper-africanização brasileira.
Eno deu aparelhos para os cariocas onde eles criaram discos de Eno ao vivo.
Lembro então que Eno e Bryan Ferry foram alunos de Richard Hamilton, o criador da POP ART. Todo o discurso de Eno é consequência da POP ART. O olhar sempre adiante, a busca pelo mais colorido, mais vivo, mais excitante. A celebração. Ferry uniu a isso o olhar romântico do cinema anos 40, a publicidade e a escultura. Eno caminhou para a tecnologia e o futurismo. O Roxy foi essa usina caleidoscópica que falava de Bogart, Jerry Hall e Calvin Klein, Greta Garbo, Elvis e TV, Tango, carros e Funk, tudo numa canção.
Ando lendo Borges.
Diz que a maior invenção grega foi a conversa. A conversa como arte e como prazer maior.
Concordo. Mas digo também: a divisão de nossas forças entre Dionisio e Apolo foi genial. Casas apolineas ( sem o gênio de Apolo, um tipo de Apolo fake ), computadores sem Dionisio ( e o que são os hackers? Uma tentativa de dionisiar a máquina? ) Temos mais um momento decisivo, ou o mundo continua a reprimir o dionisiiismo ou tenta equilibrar a coisa....
DJANGO E TARANTINO E OS CINEMAS DE BAIRRO
Bastardos Inglórios foi um filme italiano barato. Django foi um western italiano barato. E de grande sucesso. A trilha sonora, feita por Luis Bacalov, tem aquela melodia de guitarra e vozes que são a marca registrada desse tipo de fita. A cidade onde tudo se passa é pobre e fake: lama e barracos. O herói carrega um caixão, fala quase nada, e mata trinta bandidos com dois ou três tiros. Nada aqui é real. Os críticos da época ( 1966 ) odiaram o filme porque tudo nele é vazio ( aparentemente ). 1966 era o tempo auge do cinema dito moderno. Bergman, Fellini e Buñuel. Mensagem, desconstrução e simbolismo. Mas 1966 era também o tempo da pop-art, e assim como James Bond, Django era POP.
Se numa tela POP, Leonardo da Vinci está colado ao lado de um maço de Marlboro e de uma pin-up da Playboy, aqui temos um western que é feito na Espanha com atores italianos e um jeitão de filme de samurai de Kurosawa. Tudo vale. Tudo se mistura. Os atores têm cara de Giuseppe e não de James ou Joe. A trilha é rock com ópera. Os duelos são de HQ. Os diálogos lembram textos de comerciais de TV. O herói é um Eastwood mais infantil. O filme é uma obra POP. Tem tudo a ver com Tarantino portanto.
Não pense que é um grande filme. Seu objetivo era agradar o povão. E o povão amou esse filme. Na época em que não havia vhs, havia o filme-povão, que passava em salas de bairro, mais baratas. Nessas salas passavam os filmes que hoje iriam direto para dvd; filmes de karatê, pornochanchadas, comédias italianas, filmes de terror, e westerns spaguettis. Tarantino e os diretores POP vivem nesse mundo. Fosse brasileiro ele citaria ainda Os Trapalhões e Zé do Caixão. Frequentei muito essas salas. Na Fradique Coutinho eu via filmes eróticos italianos, no Largo de Pinheiros filmes de catástrofe e de terror, na Lacerda Franco vi aventuras espaciais e filmes de rock ( essas 3 salas de rua em Pinheiros ), na Vila Sônia eu via pornochanchadas brasileiras ( delicias com Helena Ramos e Aldine Muller ), no Itaim westerns spaguettis com Giuliano Gemma e Lee Van Cleef, em Santo Amaro os filmes de karatê. Ingessos a preço de ônibus. Uma maravilhosa salada POP. Pois na Paulista tinha Woody Allen, Hal Ashby, Robert Altman, Truffaut, Pasolini e Spielberg. Astor, Bristol, Gemini, Belas Artes e Paramount. EMBALOS DE SÁBADO À NOITE com SÉRPICO.
Gosto de pensar que Quentin fez o mesmo que eu fazia. Ao mesmo tempo. ( Somos da mesma idade ). Gosto de imaginar que existe uma galerinha hoje que une, em seus dvds, Groucho Marx com Joel Coen, Bresson com Stephen Chow, Howard Hawks com Wall.E. O POP de se ler Peanuts e Kierkegaard. O sublime de Bugs Bunny e Ozu. Com a internet o POP pode ser Trans-POP. Esse é o cinema que vai sobreviver.
Se numa tela POP, Leonardo da Vinci está colado ao lado de um maço de Marlboro e de uma pin-up da Playboy, aqui temos um western que é feito na Espanha com atores italianos e um jeitão de filme de samurai de Kurosawa. Tudo vale. Tudo se mistura. Os atores têm cara de Giuseppe e não de James ou Joe. A trilha é rock com ópera. Os duelos são de HQ. Os diálogos lembram textos de comerciais de TV. O herói é um Eastwood mais infantil. O filme é uma obra POP. Tem tudo a ver com Tarantino portanto.
Não pense que é um grande filme. Seu objetivo era agradar o povão. E o povão amou esse filme. Na época em que não havia vhs, havia o filme-povão, que passava em salas de bairro, mais baratas. Nessas salas passavam os filmes que hoje iriam direto para dvd; filmes de karatê, pornochanchadas, comédias italianas, filmes de terror, e westerns spaguettis. Tarantino e os diretores POP vivem nesse mundo. Fosse brasileiro ele citaria ainda Os Trapalhões e Zé do Caixão. Frequentei muito essas salas. Na Fradique Coutinho eu via filmes eróticos italianos, no Largo de Pinheiros filmes de catástrofe e de terror, na Lacerda Franco vi aventuras espaciais e filmes de rock ( essas 3 salas de rua em Pinheiros ), na Vila Sônia eu via pornochanchadas brasileiras ( delicias com Helena Ramos e Aldine Muller ), no Itaim westerns spaguettis com Giuliano Gemma e Lee Van Cleef, em Santo Amaro os filmes de karatê. Ingessos a preço de ônibus. Uma maravilhosa salada POP. Pois na Paulista tinha Woody Allen, Hal Ashby, Robert Altman, Truffaut, Pasolini e Spielberg. Astor, Bristol, Gemini, Belas Artes e Paramount. EMBALOS DE SÁBADO À NOITE com SÉRPICO.
Gosto de pensar que Quentin fez o mesmo que eu fazia. Ao mesmo tempo. ( Somos da mesma idade ). Gosto de imaginar que existe uma galerinha hoje que une, em seus dvds, Groucho Marx com Joel Coen, Bresson com Stephen Chow, Howard Hawks com Wall.E. O POP de se ler Peanuts e Kierkegaard. O sublime de Bugs Bunny e Ozu. Com a internet o POP pode ser Trans-POP. Esse é o cinema que vai sobreviver.
CHAPLIN/ WES ANDERSON/ DJANGO/ GARY COOPER/ JERRY LEWIS/ PAULO JOSÉ/ AUDREY
UMA CRUZ À BEIRA DO ABISMO de Fred Zinnemann com Audrey Hepburn
Mulher jovem, viúva, resolve ser freira. Acompanhamos, em registro sóbrio, seu aprendizado e afinal a realização de seu sonho: trabalhar no Congo. Lá ela conhece médico ateu. Qual o tamanho de sua vocação? Zinnemann foi um gigante, A Um Passo da Eternidade, Julia, Matar ou Morrer e vasto etc. A palavra que o define: Precisão. Nada em excesso, nada de menos. Por incrivel que pareça, com tema tão árido, o filme funciona. Peter Finch está ótimo como o medico materialista e ainda há Peggy Ashcroft. Vida dura....Nota 7.
OS QUATRO GUERREIROS de Gordon Chau
Filme chinês de 2012 sobre kung fu. Adoro kung fu, detestei este filme! Em cinco minutos eu já me desinteressara. Tenta ser tão ágil, tão esperto, que se faz uma bagunça. Fuja! Nota ZERO
WAY DOWN EAST de David Wark Griffith com Lillian Gish
O inventor do que entendemos por cinema com a atriz de rosto mais expressivo da história. É um drama sobre a incocência. O rosto de Gish, linda e extremamente frágil, comove. Ver este filme é ver o século XIX em movimento. Griffith é um homem do tempo de Twain e Whitman. Nota 6.
O PRINCIPE DO DESERTO de Jean-Jacques Annaud com Antonio Banderas
Muito tempo atrás Annaud foi um bom diretor. A Guerra do Fogo é um bom filme. Este, seu mais recente, deve ter sido escrito por um menino de 8 anos. É tão tolo, tão banal que chega a dar raiva. Fala do começo daquilo que conhecemos como Mundo Árabe, petróleo e rivalidades tribais. É o tema de Lawrence da Arábia. Comparar os dois é como comparar vinho com Q.Suco de uva. Nota ZERO
MOONRISE KINGDOM de Wes Anderson com Bruce Wiilis e Frances McDormand
O filme serve para explicitar o porque de Wes ser um "cineasta" que sempre me pareceu incompleto. Ele não é um cineasta na verdade! É um artista plástico! Veja bem, suas imagens não contém movimento, os atores não interpretam, tudo é na verdade uma coleção de imagens pop-art à Rauschemberg ou Hamilton. O que vemos são quadros, poses que tentam contar uma história. O filme é como um monte de slides. "Olha a lata!"; "Olha a barraca!".... Poderia até ser interessante, afinal, Bresson fez mais ou menos isso num espírito modernista, mas Wes não tem bons slides! Cada vez mais penso que ele nasceu para fazer desenhos e não filmes...A animação do Raposo é seu melhor trabalho. De longe!!!! Nota 2.
A DAMA E O GANGSTER de Claude Lelouch com Lino Ventura e Françoise Fabien
Acho que voces esqueceram, mas na época de Godard e Truffaut, o diretor francês mais famoso era Lelouch. Ele filmava tudo na mão e contava belas histórias de amor. Aqui temos um ladrão e seu plano de assaltar uma joalheria. Ao mesmo tempo ele se apaixona por uma vendedora de móveis históricos. O filme é contado em flash-back e Lino é tão feio que fica sendo original. O plano de roubo é bastante engenhoso. Bom passatempo. Nota 6.
TODAS AS MULHERES DO MUNDO de Domingos de Oliveira com Paulo José, Leila Diniz e a turma de Ipanema
A alegria de se estar vivo. Paulo Jose´está adorável como um homem que não pode deixar de ter todas as mulheres do mundo. Mas ele se apaixona, se casa e daí nascem os problemas. O filme confirma um fato: o homem que se dá bem com as mulheres é aquele que ama essas mulheres. Há no rosto de Paulo a alegria, a felicidade de se desejar, de se amar, de se sentir fascinado pelas mulheres. Ele é como um garoto, uma criança cercada por lindos brinquedos. Domingos sabe o que faz, os atores falam obviedades, porque é de obviedades que a vida é feita. O romance de Paulo e Leila é desajeitado, comum, banal, encantador. O filme é feito livremente, solto, transpira felicidade. Serve ainda para vermos a Ipanema de então ( 1967 ), a turma de Domingos ( os personagens do livro de Ruy Castro comparecem como "atores" ), não é um filme perfeito, erra bastante, tem um som ruim, mas é vivo, solto, pleno. Junto com O Bandido da Luz Vermelha é a melhor coisa do cinema nacional. Nota 9.
AS AVENTURAS DE MARCO POLO de Archie Mayo com Gary Cooper
Cooper de malha justa fazendo um italiano? Parece um cowboy fantasiado. O filme mostra o lado ruim do cinema clássico dos anos 30, tudo parece falso demais! Veneza é um set de papelão e a China fica no quintal de Samuel Goldwyn. Além dos chineses, todos americanos com rosto maquiado. Bem, tudo isso seria esquecido se o roteiro fosse bom, mas não é. Cooper vê a pólvora pela primeira vez, o macarrão, o carvão, e faz cara de quem encontrou uma moeda na rua. Chato. Nota 1
LUZES DA CIDADE de Charles Chaplin
Uma obra-prima. Se voce quer começar a entender o cinema sem voz, eis seu filme. É absolutamente perfeito. Da primeira a última cena, é um filme que corre e acontece em tempo próprio, ele passa voando. Chaplin é o mendigo que se apaixona por florista cega, que salva milionário bêbado do suicidio e que entra numa luta de boxe. A luta é uma das cenas mais soberbas da história, uma obra-prima de ação e de enquadramento. Mas as cenas da festa, da dança e o final também são perfeitos. Nada piegas, mas bastante romântico, o filme é uma aula de cinema. Tudo se encaixa de modo tão correto, as coisas se encadeiam de maneira tão natural, que o assistir é entender o porque de certos filmes não fluirem e outros voarem. Chaplin era um gênio. O filme, seu melhor, ano a ano vem subindo nas eleições de melhores de todos os tempos. Não me surpreenderá se um dia for o melhor. Nota DOIS MILHÔES. PS: Só consigo lembrar de dois filmes com finais melhores que este: Nada de Novo no Front ( com a cena da borboleta ) e Os 7 Samurais ( a cena das espadas na cova ). O reconhecimento da florista é não só emocionante, é um final aberto e muito moderno.
BANCANDO A AMA-SECA de Frank Tashlin com Jerry Lewis
Na Sessão da Tarde dos anos 70/80 só dava Jerry...e Elvis. Mas seus filmes, hoje, só podem funcionar como pura nostalgia. É um humorista, um grande humorista, que perdeu a graça. O tipo de humor que ele fazia era aquele que hoje é lei: um pastelão retardado careteiro e desenfreado, lembra Adam Sandler e Jim Carrey. O problema é que Adam e Jim foram ao limite, e homenageando Jerry Lewis eles destruíram Jerry Lewis. Peter Sellers por exemplo, sobreviveu melhor porque ninguém tentou o imitar. Jerry foi tão seguido que hoje se parece com um Jim Carrey piorado. Que injustiça!!! Jerry era uma fonte de ideias, de coragem e de multi-talentos. O tempo lhe foi cruel. Bem... se este texto parecer confuso é porque meus sentimentos em relação a Jerry são confusos....
DJANGO de Sergio Corbucci com Franco Nero
Falarei mais deste filme acima...Tarantino está lançando um filme com este nome.... Nota 5.
Mulher jovem, viúva, resolve ser freira. Acompanhamos, em registro sóbrio, seu aprendizado e afinal a realização de seu sonho: trabalhar no Congo. Lá ela conhece médico ateu. Qual o tamanho de sua vocação? Zinnemann foi um gigante, A Um Passo da Eternidade, Julia, Matar ou Morrer e vasto etc. A palavra que o define: Precisão. Nada em excesso, nada de menos. Por incrivel que pareça, com tema tão árido, o filme funciona. Peter Finch está ótimo como o medico materialista e ainda há Peggy Ashcroft. Vida dura....Nota 7.
OS QUATRO GUERREIROS de Gordon Chau
Filme chinês de 2012 sobre kung fu. Adoro kung fu, detestei este filme! Em cinco minutos eu já me desinteressara. Tenta ser tão ágil, tão esperto, que se faz uma bagunça. Fuja! Nota ZERO
WAY DOWN EAST de David Wark Griffith com Lillian Gish
O inventor do que entendemos por cinema com a atriz de rosto mais expressivo da história. É um drama sobre a incocência. O rosto de Gish, linda e extremamente frágil, comove. Ver este filme é ver o século XIX em movimento. Griffith é um homem do tempo de Twain e Whitman. Nota 6.
O PRINCIPE DO DESERTO de Jean-Jacques Annaud com Antonio Banderas
Muito tempo atrás Annaud foi um bom diretor. A Guerra do Fogo é um bom filme. Este, seu mais recente, deve ter sido escrito por um menino de 8 anos. É tão tolo, tão banal que chega a dar raiva. Fala do começo daquilo que conhecemos como Mundo Árabe, petróleo e rivalidades tribais. É o tema de Lawrence da Arábia. Comparar os dois é como comparar vinho com Q.Suco de uva. Nota ZERO
MOONRISE KINGDOM de Wes Anderson com Bruce Wiilis e Frances McDormand
O filme serve para explicitar o porque de Wes ser um "cineasta" que sempre me pareceu incompleto. Ele não é um cineasta na verdade! É um artista plástico! Veja bem, suas imagens não contém movimento, os atores não interpretam, tudo é na verdade uma coleção de imagens pop-art à Rauschemberg ou Hamilton. O que vemos são quadros, poses que tentam contar uma história. O filme é como um monte de slides. "Olha a lata!"; "Olha a barraca!".... Poderia até ser interessante, afinal, Bresson fez mais ou menos isso num espírito modernista, mas Wes não tem bons slides! Cada vez mais penso que ele nasceu para fazer desenhos e não filmes...A animação do Raposo é seu melhor trabalho. De longe!!!! Nota 2.
A DAMA E O GANGSTER de Claude Lelouch com Lino Ventura e Françoise Fabien
Acho que voces esqueceram, mas na época de Godard e Truffaut, o diretor francês mais famoso era Lelouch. Ele filmava tudo na mão e contava belas histórias de amor. Aqui temos um ladrão e seu plano de assaltar uma joalheria. Ao mesmo tempo ele se apaixona por uma vendedora de móveis históricos. O filme é contado em flash-back e Lino é tão feio que fica sendo original. O plano de roubo é bastante engenhoso. Bom passatempo. Nota 6.
TODAS AS MULHERES DO MUNDO de Domingos de Oliveira com Paulo José, Leila Diniz e a turma de Ipanema
A alegria de se estar vivo. Paulo Jose´está adorável como um homem que não pode deixar de ter todas as mulheres do mundo. Mas ele se apaixona, se casa e daí nascem os problemas. O filme confirma um fato: o homem que se dá bem com as mulheres é aquele que ama essas mulheres. Há no rosto de Paulo a alegria, a felicidade de se desejar, de se amar, de se sentir fascinado pelas mulheres. Ele é como um garoto, uma criança cercada por lindos brinquedos. Domingos sabe o que faz, os atores falam obviedades, porque é de obviedades que a vida é feita. O romance de Paulo e Leila é desajeitado, comum, banal, encantador. O filme é feito livremente, solto, transpira felicidade. Serve ainda para vermos a Ipanema de então ( 1967 ), a turma de Domingos ( os personagens do livro de Ruy Castro comparecem como "atores" ), não é um filme perfeito, erra bastante, tem um som ruim, mas é vivo, solto, pleno. Junto com O Bandido da Luz Vermelha é a melhor coisa do cinema nacional. Nota 9.
AS AVENTURAS DE MARCO POLO de Archie Mayo com Gary Cooper
Cooper de malha justa fazendo um italiano? Parece um cowboy fantasiado. O filme mostra o lado ruim do cinema clássico dos anos 30, tudo parece falso demais! Veneza é um set de papelão e a China fica no quintal de Samuel Goldwyn. Além dos chineses, todos americanos com rosto maquiado. Bem, tudo isso seria esquecido se o roteiro fosse bom, mas não é. Cooper vê a pólvora pela primeira vez, o macarrão, o carvão, e faz cara de quem encontrou uma moeda na rua. Chato. Nota 1
LUZES DA CIDADE de Charles Chaplin
Uma obra-prima. Se voce quer começar a entender o cinema sem voz, eis seu filme. É absolutamente perfeito. Da primeira a última cena, é um filme que corre e acontece em tempo próprio, ele passa voando. Chaplin é o mendigo que se apaixona por florista cega, que salva milionário bêbado do suicidio e que entra numa luta de boxe. A luta é uma das cenas mais soberbas da história, uma obra-prima de ação e de enquadramento. Mas as cenas da festa, da dança e o final também são perfeitos. Nada piegas, mas bastante romântico, o filme é uma aula de cinema. Tudo se encaixa de modo tão correto, as coisas se encadeiam de maneira tão natural, que o assistir é entender o porque de certos filmes não fluirem e outros voarem. Chaplin era um gênio. O filme, seu melhor, ano a ano vem subindo nas eleições de melhores de todos os tempos. Não me surpreenderá se um dia for o melhor. Nota DOIS MILHÔES. PS: Só consigo lembrar de dois filmes com finais melhores que este: Nada de Novo no Front ( com a cena da borboleta ) e Os 7 Samurais ( a cena das espadas na cova ). O reconhecimento da florista é não só emocionante, é um final aberto e muito moderno.
BANCANDO A AMA-SECA de Frank Tashlin com Jerry Lewis
Na Sessão da Tarde dos anos 70/80 só dava Jerry...e Elvis. Mas seus filmes, hoje, só podem funcionar como pura nostalgia. É um humorista, um grande humorista, que perdeu a graça. O tipo de humor que ele fazia era aquele que hoje é lei: um pastelão retardado careteiro e desenfreado, lembra Adam Sandler e Jim Carrey. O problema é que Adam e Jim foram ao limite, e homenageando Jerry Lewis eles destruíram Jerry Lewis. Peter Sellers por exemplo, sobreviveu melhor porque ninguém tentou o imitar. Jerry foi tão seguido que hoje se parece com um Jim Carrey piorado. Que injustiça!!! Jerry era uma fonte de ideias, de coragem e de multi-talentos. O tempo lhe foi cruel. Bem... se este texto parecer confuso é porque meus sentimentos em relação a Jerry são confusos....
DJANGO de Sergio Corbucci com Franco Nero
Falarei mais deste filme acima...Tarantino está lançando um filme com este nome.... Nota 5.
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