ARTE OU DIVERSÃO, O QUE É O CINEMA? 007 E COSMÓPOLIS.

    Vou falar de dois filmes que vi ontem e os dois não poderiam ser mais diferentes.
    A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE é o mais desprezado dos filmes de James Bond. Isso porque ele carrega o peso de ser o primeiro sem Sean Connery. Em 1969 esse foi um assunto tão importante quanto o fim dos Beatles em 1970.
    Connery saiu do papel porque ele não queria passar a história como "o ator que é James Bond". Sean era ambicioso e assim que saiu foi logo fazendo um filme nada pop com Martin Ritt. Quem assumiu o papel? Chamaram um australiano de nome George Lazenby. Esse tal de George seria o único Bond a fazer apenas um filme. Ele foi execrado, ridicularizado, perseguido. Só agora, eu que adoro Bond, vejo George nesse papel. Ruim? O filme é ótimo. George faz um 007 deselegante, meio brega, tosco até. De certa forma ele antecipa Daniel Craig em seu tom anti-glamour.  O problema é que em 69 todo mundo lembrava de Connery... ninguém iria engolir Craig assim como não admitiram Lazenby. Connery voltaria em mais um filme e depois viria a era do gozador Roger Moore.
   Cada James Bond explicita seu tempo. Sean Connery era machista, cruel, politicamente incorreto e frio como aço. Sexista e sexy, nada bonito, muito bom ator. Roger Moore espelha os anos 70. Moore era gozador. Não levava nada a sério e brincava com o papel. Timothy Dalton foi a cara dos anos 80: insosso, arrumadinho, sem originalidade. Pierce Brosnan era indefinido. Mezzo Roger Moore, mezzo Dalton. E agora Craig, a cara de nosso tempo: Musculoso, frio, objetivo e bastante violento. Nada de elegãncia ou de safadeza, ele é um trabalhador.
   Quanto ao filme de Lazenby, ele tem cenas de ação enlouquecedoras. O estilo já é o hiper-editado, vemos flashs de ação, mas sem exagero, ainda dá pra saber quem é quem. Perseguição em esquis, perseguição em carros, perseguição em trenós. E a melhor Bond-girl da história: Diana Rigg, atriz que era mito na TV inglesa e que por isso foi chamada. Bond se casa com ela no final. E temos ainda a trilha do gênio John Barry. ( Aliás, 1962, ano da estreia de Bond, foi o ano das históricas trilhas sonoras de Bond, de Pink Panther por Henry Mancini e de Breakfast at Tiffanys... )
   Esse é o cinema diversão, hiper profissional e que eu considero dificílimo de fazer. No outro extremo temos o cinema arte, o cinema que pretensamente ignora o público.
   COSMÓPOLIS transpira "arte" em cada fotograma.  Tudo nele é artístico: os cenários, a trilha, a luz, e principalmente as falas. Ele tem aquele ar tristinho, escurinho-tipo: luz de geladeira, que todo filme de arte tem atualmente. Como julgar um filme tão "superior"?  Tão antenadinho? Superior em ambição, Cronenberg quer fazer uma crônica sobre tempos ruins. Portanto se em Bond o que nos pedem é: Divirtam-se; aqui ele pede: Pense. Pensamos, como pensamos. Pensamos tanto que dormimos. O filme é constrangedor. Explico.
   O que ele fala? Que o capital flui pelo mundo como um tipo de sangue venenoso que corrompe nossas vidas. Impessoal, ele obedece regras próprias. O carro flui pelas ruas, navega pelo oceano do mundo real, que sendo real é antigo, pois o mundo do dinheiro virtual é sempre o mundo do futuro. Vemos um tipo de vampiro, um morto vivo que flui nessa odisséia sem herói em busca de nadas que nada trazem. É um filme morto, tão vazio quanto seu tema. Cronenberg critica o mundo virtual, mas nada oferece em troca. Pior, coloca na boca dos personagens frases de um primarismo constrangedor. Personagens que são tão artificiais quanto um Schwarzenegger empunhando uma bazuca. Ah sim, o diretor de filme de arte sempre pode falar: "Tudo é proposital! Voce é que não entendeu"...Uma pinóia! Seu filme-funeral está longe de ser arte sem aspas, ele nada cria de novo, nada cria de perturbador, e passa longe da beleza, mesmo da beleza do horror. Há quem o aplauda. Como nos piores filmes de pseudo-arte, este filme possibilita a que qualquer um projete em suas imagens sentidos e simbolismos que ele não tem. Filmes de arte ruins podem ser como espelhos.
   O cinema atinge seu zênite quando une a arte de verdade com a diversão. Quando consegue perturbar e fazer o tempo voar. Quando o filme faz pensar e ao mesmo tempo dá prazer. O prazer do pensamento, da descoberta, da beleza ou da catarse.
   007 dá prazer e não faz pensar.
   Cosmópolis é um buraco. Masturbação chique travestida de discurso fatalista.
   Prefiro o prazer.

MULHERES APAIXONADAS/ REGINALDO FARIAS/ WILLIS/ CLIVE OWEN/ BATMAN/ PIRATAS PIRADOS

   MULHERES APAIXONADAS de Ken Russell com Alan Bates, Glenda Jackson, Oliver Reed
A prosa de DH Lawrence desaparece aqui. E nem poderia ser diferente. Como levar para a tela a profusão de ideias, de imagens e de pensamentos tortuosos que abundam no livro? Lawrence é infilmável. Ken Russell tem aqui o momento mais famoso de sua carreira ( concorreu a Oscar de direção ). Seu estilo se faz presente: exagerado, ácido, desagradável, sem nenhuma noção. E estranhamente fascinante. Não esquecemos de suas imagens. Há uma profusão de cores, de gritos, de cenas fortes, de tentativas apaixonadas. O filme, como o livro, que é o melhor de Lawrence, fala de dois casais: um par de amigos e uma dupla de amigas. Eles se conhecem e se envolvem. Glenda está magnífica. Para quem não sabe ela foi a grande atriz da época ( 1969/1976 ),  no auge da fama abandonou o cinema para fazer politica na Inglaterra. Neste filme ela é Gudrun, a mulher que na década de 20 quer viver plenamente. Alan Bates, um de meus atores ingleses favoritos, é Birkin, um homem insatisfeito, rebelde, livre, que se envolve com a amiga de Gudrun. Oliver Reed faz o ricaço e violento amigo, que se apaixona por Gudrun. Necessário dizer que o filme passa longe do convencional. Nenhum casal chega ao namoro normal. Todos se comportam como loucos, como bichos ou como queria Lawrence, humanos estéreis em alma. O que me fez pensar no seguinte: Como o mundo mudou em dez anos! Um filme como este seria impossível em 1959. Cheio de cenas de nú frontal masculino,´tem a famosa cena dos dois amigos lutando boxe pelados. Lawrence escreveu um livro sobre a sede por um novo mundo. Lawrence queria um novo sexo, novas relações e nova religião. O filme de Russell não passa perto disso. É mais um tipo de histerismo abobado sobre um quarteto doido. Mas é um bom filme. Irritante, inflado, pedante, e forte. Nota 7.
   CRUPIÊ de Mike Hodges com Clive Owen
Em 1971 Mike Hodges fez um dos melhores filmes do cinema inglês: Get Carter, onde Michael Caine fazia um bandido extra-cool. Era uma pelicula que antecipava o cinema de Danny Boyle e de Guy Ritchie em 25 anos. Em 1973 Hodges fez o fascinante Homem Terminal, uma sci-fi cabeça que fracassou. E então sumiu. Já com 65 anos, ele volta em 1998 e faz este filme sobre um observador. O crupiê é um escritor que se coloca à parte da vida. Para ele existem dois tipos de humanos: os jogadores e os crupiês. Os jogadores vivem, jogam, se arriscam. O crupiê observa, vê o que rola. Mas o filme, fascinante, vai além disso. Ele segue regras, não mente, gosta de coisas bem feitas, corretas. Se parece muito com um cavaleiro medieval, e creio que é assim que ele se vê, um tipo de cavaleiro etéreo, com seu código de honra rigido. Hodges mostra aqui seu absoluto dominio de imagem. O filme é soberbo. Tenho absoluta convicção de que Mike Hodges foi um grande diretor. Nota 8.
   POSSESSÃO de Neil LaBoute com Gwyneth Paltrow e Aaron Eckhart
O filme se passa entre ratos de bibliotecas. Vemos livros, manuscritos raros, estantes repletas. É o mundo fechado dos eruditos, dos pesquisadores, dos amantes de letras. E paralelamente se mostra a vida de poetas românticos de 1850. É o ambiente que mais adoro. Mentalmente é onde vivo.  Mas tenho de confessar a verdade: fora isso o filme nada tem a dizer. Fica sendo um tipo de Ghost para ratos de biblioteca. Não tem um porque, não faz sentido, não emociona. É um absoluto fiasco. La Boute sempre foi um enganador. Nota 2.
   CÓDIGO PARA O INFERNO de Harold Becker com Bruce Willis e Alec Baldwin
No cinema em 1998 já era fraco. Em dvd agora é quase um nada. Bruce, de quem gosto, vinha do mega sucesso de Sexto Sentido e fez este policial bobo, filme que tenta criar emoção com as figuras de um policial decadente e uma criança autista. A trama é muito fraca, pior, inverossímil, e Bruce não pode usar o que tem de melhor, seu humor. Becker foi um dia uma promessa...fez pluft...Nota 3.
   PIRATAS PIRADOS de Peter Lord
Animação sobre piratas bem doidos. Divertidíssimo! O filme é uma explosão de bom-humor e de gozação saudável. Leve e colorido, ele cumpre plenamente seu propósito: fazer rir sem jamais parecer grosso. Os tipos são todos bem delineados e as tiradas funcionam em tempo exato. Mais uma grande animação.  7.
   BATMAN de Leslie H. Martinson com Adam West e Burt Ward
Quem em criança viu Batman jamais irá conseguir levar a sério um herói de malha justa e capa negra de morcego. É uma figura ridicula, seja aqui ou seja com Tim Burton/ Chris Nolan. Este é o longa que nasceu com o sucesso da série de TV. Visto hoje ele é chato pacas. Nota 3.
   ASSALTO AO TREM PAGADOR de Roberto Farias com Reginaldo Farias
Um grande sucesso do cinema brasileiro e uma aventura que ainda funciona muito bem. Um trem é assaltado. Acompanhamos o destino dos assaltantes. O ambiente é a favela. O filme faz pensar: o que mudou? Estão lá os barracos e o povo mal vestido. A diferença é que hoje a favela não tem mais o jeitão rural que tem aqui. Vemos árvores e porcos nas vielas e muita criança pelada. Hoje a violência cresceu, os barracos têm TV e geladeira. Uma mudança de atitude: aqui todos querem sair da favela, têm vergonha de viver nela. Hoje há um orgulho, uma "alegria" por ser favelado ( da comunidade ). Isso significa o que? Aumento de auto-estima ou comodismo? Eu não sei. Um fato: em mais de 40 anos elas continuam lá. O povo que lá vivia em 1966 lá continua. O filme tem ação e drama, é bom. Nota 6.
   O MONGE de Dominik Moll com Vincent Cassell
Lixo. Num mosteiro um monge milagreiro se envolve com sexo. O mal invadiu o lugar, em quem esse mal vive? Logo percebemos que o mal está no monge que lá foi criado. Não espere nada de sério. O filme tem um tom pomposo, mas é raso como um pires. Pior de tudo, é chatíssimo! Nota ZERO.

Kraftwerk Ruckzuck (live on WDR TV in 1970) QUANDO O FUTURO SURGE...O TEMPO, UMA QUESTÃO....



leia e escreva já!

APRESENTAÇÃO DA FILOSOFIA- ANDRÉ COMTE-SPONVILLE. PARA QUEM QUER COMEÇAR A SABER PENSAR

   A filosofia não responde a nada. E nem se importa com isso. O que ela nos dá é um método de pensamento. Impossível filosofar sem conhecer filosofia. Sem ela voce pensa em círculo e não clareia nada. Filosofar é conversar com as ideias que vieram antes. Por isso é necessário, para filosofar, ler filosofia. Mas livros de filosofia são árduos. Porque eles não dão respostas, antes demonstram a construção, passo a passo, de uma pergunta. André Comte-Sponville nos dá aqui uma bela introdução à filosofia. Seu público alvo são aqueles que sentem o desejo de filosofar. Mas que não conseguem, por enquanto, ler filosofia.
   Na tarefa de popularização do pensamento filosófico existem dois caminhos possíveis. A pura picaretagem e a didática. Picaretas são vários e Alain de Bottom é o menos ruim deles. Didáticos são honestos. No didatismo voce pode contar a história da filosofia ou explicar o ato de se filosofar. Bertrand Russell tem uma excelente breve história da filosofia. Apesar de ignorar Schopenhauer e Marcel, é a melhor exposição histórica breve que já li. Sponville não fala de história, fala das doze grandes questões filosóficas. Cada capítulo aborda em seis ou sete páginas um desses tópicos. Ele não vulgariza.
   1- A Moral. A moral é individual. Não há uma moral que possa ser imposta. O que é a sua moral? André usa a parábola de Platão: Se voce tivesse um anel que te fizesse invisível, o que voce faria? Mataria? Roubaria? Estupraria? O que voce, mesmo sem ser visto, Não se permitiria fazer? Eis sua moral. Se voce não mataria ou mataria, eis a moral. Ela é sua e não depende de castigo ou de recompensa.
   2- A Politica. Politica é história. Moral do grupo. Tudo é politica e não fazer politica é assumir uma não-humanidade. A politica só existe na história de um grupo. Ela é o que o grupo foi e pensa ser. Acordo que nos livra da animalidade.
   3- O Amor. André fala de Eros, o amor que falta, o desejo do que não se tem. De Phillia, o amor ao que se tem, o amor feliz, o amor que protege e cuida. E de Ágape, o amor que dá e não recebe, o amor que é caridade, que defende e alimenta a tudo aquilo que é vida. Tudo que nos une a vida é amor: amor a si-mesmo, amor ao dinheiro, ao poder, aos livros, a natureza. Amor ao amor que se tem, ao amor que se dá e o amor que nega o que se é em favor daquele que se ama. Amor que é potencia.
   4- A Morte. O paradoxo da morte. A grande questão da filosofia. O que ela é? Como algo que existe ( a morte ) pode não ser? O que seria a vida sem a morte? Porque vivemos se morremos? Como pode a vida ter nascido do nada? E se havia o nada, porque surgiu algo?
   5- O Conhecimento. É possível conhecer algo? Voce conhece o que? Sua rua? Mas voce conhece mesmo sua rua? Sua história, sua materialidade, quem vive nela, cada grão de pó, cada mancha, tudo o que ela é, foi e poderá ser. Voce conhece voce-mesmo?
   6- A Liberdade. Existe? Se existe, o que é ser livre? Fazer o que quiser? Liberdade é fazer ou ser? André demonstra a ilusão da liberdade e a verdade da liberdade. Eis o que o livro tem de bom: Ele demonstra sempre mais de um lado, mais de dois, mais de três.
   7- Deus. Se Deus existe porque existe o mal? Que Pai é esse que nos deixa sofrer? Sponville é ateu, mas fala que afirmar a não existência de Deus é uma imbecilidade. Como afirmar a existência é também uma imbecilidade. Explica o que é um agnóstico, o paradoxo da fé.
   8- O Ateísmo. O que é o ateísmo, as formas de ateísmo. O ateu e o agnóstico, o mistério. Não há prova sobre Deus, nada nos leva a aceitar sua existência. O que é o materialismo?
   9- A Arte. É o mais satisfatório dos capítulos. O que é a arte? Porque ela existe? André dá a mais perfeita explicação do que seja um gênio: É alguém que cria algo de novo e de diferente, mas, que ao contrário do mero novidadeiro ou charlatão, deixa atrás de si um contingente fértil de seguidores, de discípulos. Eis a superioridade da arte: Se Newton jamais tivesse existido, suas leis com certeza teriam sido descobertas por algum outro. A gravidade estaria lá. Mas se Shakespeare, ou Beethoven, ou Michelangelo jamais tivessem existido, toda sua obra, todos seus seguidores, tudo aquilo que eles, e só eles, criaram, jamais teria nascido. Com certeza o mundo seria outro e nós nos veríamos de modo diferente: menor. Há uma bela definição: Toda verdadeira arte é poesia, pois a poesia é essa linguagem plástica que toca a  explicação do que seja a vida.
   10- O Tempo. Tempo....o passado e o futuro: existem? Tudo é o presente. Tudo é uma abstração. E se não houvesse gente...haveria tempo? Existe tempo no Cosmos? E pode haver ação sem tempo? O que é a eternidade?
   11- O Homem. O que é um homem? Eis um capítulo perturbador. Se um homem é razão, então uma criança deficiente ou vegetativa é o que? Se um homem é comunicação, então um animal que se comunique será humano? Sponville diz que para ele, homem é aquele que nasceu de um homem. Portanto, tudo o que é gerado por dois humanos é humano. Perigo apontado por ele: o dia em que homens puderem nascer de uma criação artificial, de uma fábrica, será isso ainda um homem? Se ele for sem falhas, sem dúvidas, sem medo, será homem?
   12- A Sabedoria....
   Esses os 12 capítulos. Que são os doze temas mais questionados desde sempre. E todos eles irrespondíveis. Jamais chegaremos a uma conclusão sobre a sabedoria, o homem, o tempo etc e etc. E nem devemos, pois o que tem conclusão está morto, está aprisionado. A ciência lida com conclusões, não a filosofia que não é ciência e nem é arte. ( Mas a ciência pode ser filosófica, assim como a arte ).
   Sponville não conclui portanto. Joga questões, as explica, aposta algumas teses ( filosofar é um jogo sem vencedor ), cita alguns filósofos.
   Se voce quer começar, eis seu livro.

PONDÉ, YEATS, MARTELL, POLITICA E CINEMA COM ALMA

   Pondé citou Yeats na segunda-feira. O poema em que o irlandês fala da terrível certeza que todo canalha tem, e das hesitações que acometem os justos e bons. Dá até vontade de crer nos gnósticos e dizer que nosso mundo é obra do mal. Porque, como bem notou Yeats e como Pondé crê, quem segue o mal sente-se forte, duro, "em casa"; enquanto que o que segue o bem sempre sofre uma sensação de inadaptação, de fraqueza e de dúvida. Terroristas nunca hesitam.
  Ler Bernanos dá muito medo.
  O mal cobra um preço a quem ousa ser bom. Essa a raiz, terrível, do catolicismo puro. O bem só pode sobreviver a custa de nosso sacrificio. Nada pode ser mais antipático que dizer essa verdade.
  Falando de coisas mais amenas....
  Um amigo fala do voto. A questão é simples meu amigo. Assim como a arte e a religião perderam sua aura ( de acordo com Benjamin ), ou seja, não significam mais transformação e não mais repercutem, não têm identidade, a politica também se transformou em mera ciência. Voce vota e elege alguém. Pura mecânica. Um partido faz o papel de polo positivo e outro de negativo. Um precisa do outro para existir e um repele o outro. Entorpecido nesse campo magnético, cheio de eletricidade e de "verdade", voce aperta um botão. Veja bem, até aqui, você aperta um botão...
   É só isso, um ato banal.
   É claro que se voce tiver alguma cultura, todo o passado da politica vem a sua cabeça ( como vem o passado da arte ou das igrejas ), mas é mero flash-back. No eterno agora a politica nada mais significa. Não há a possibilidade de história, de reflexão ou de consequência. Politica-no-eterno-agora, como arte e igreja no eterno- agora, nada mais tem a dizer. Torna-se mera ferramenta.
  Pondé citou Yeats e um dia citou O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, em seu melhor texto. Bom gosto ele possui.
  Um outro amigo me diz que anda cheio de vontade de rever A PALAVRA de Dreyer. Bem... Ebbert sempre fala que todo amante de cinema chega um dia a Dreyer, Ozu e Bresson, e descobre que os três são os "santos" do cinema. Austeros, profundos e capazes de milagres com quase nada. Dreyer transformava um filme em catedral de silêncio e de horror=Sublime ( para quem não sabe, o Sublime é a união do terrível com o belo ). Ozu fazia o milagre de conseguir de um nada de roteiro uma épica sobre gente comum. Ele transformava familias banais e sentimentos vulgares em atos de profunda nobreza. E Bresson dava aulas sobre o sentido da vida em imagens reais. Ele modificava o real sem que percebêssemos. Fazia documentários sobre a alma.
   Questão de aura. Mas ainda têm público?
   Leio comentários no youtube sobre A VIDA DE PI. Quase ninguém entendeu uma saga tão simples. Somos uma geração que sabe tudo sobre o efêmero e nada entendemos sobre o atemporal.
   Perdemos nossa aura.

A VIDA DE PI- YANN MARTEL

Yann Martel nasceu na Espanha. Foi plantador de chá, lavador de pratos, segurança. Esteve na India e agora vive no Canadá. Em 2001 ganhou o Booker Prize com este livro. Sucesso de vendas, sua versão em cinema será lançada agora, em novembro, por Ang Lee. É o filme mais aguardado do ano. Como tudo em Lee, será sublime como Tempestade de Gelo, ou lamentável como Hulk. Ele não tem meio termo.
O livro é no mínimo inesquecível. Original. Se Paulo Coelho fosse bom escritor seus livros seriam como este. Falo isso porque o tema de Yann é o mesmo de Coelho, com uma diferença crucial: Yann é muito criativo. E sabe escrever. Este livro é sempre uma surpresa, nunca faz o que esperamos.
Um autor em crise vai a procura de Pi. Na verdade esse tal de Pi se chama Piscine e foi um menino indiano que teve a sorte de crescer em Zoológico. ( Penso se o filme de Cameron Crowe já não foi um pouquinho inspirado aqui ). Acompanhamos o escritor que ouve o relato de Pi.
Primeiro a vida no zoo e um belo e longo relato sobre sua adolescência e o que é a vida de um animal num zoológico. Nessa parte o livro é risonho. Um prazer leve e claro acompanha sua leitura. Piscine cresce e se interessa por religião. Em relato humorístico, vemos sua conversão ao hinduísmo, depois ao catolicismo e por fim ao islã. Todas sinceras e todas naturais. A vida é feliz para Piscine. Seu pai ama o esporte e a mãe é o que uma mãe deve ser.
Mas vem a guinada. O zoo fecha e eles embarcam os bichos para o Canadá. Mas o navio afunda. Piscine deverá sobreviver num bote, no Pacífico, com uma zebra, uma hiena, uma orangotango e um tigre. Pi irá passar quase um ano à deriva.
Todo esse trecho do livro é um pesadelo. Os animais se comem, ele se desespera, mas vive. Por fim sobram ele e o tigre.
Não contarei o resto. O que posso falar é que o fim é extremamente surpreendente. Yann Martel dá um nó na história e na nossa cabeça. Torce a conclusão, usa duas suposições, dá um toque de ironia suprema. Se voce for ateu achará o final "como deve ser". Se for religioso, achará o final "como deve ser" também. O modo como voce reagir à conclusão mostrará quem voce é.
Gosto de livros com linguagem mais elaborada. Como bom estudante de letras, pouca importância dou ao tema, o que me seduz num autor é seu estilo ( daí meu amor por Henry James e Proust, autores que são puro estilo ). O estilo aqui é o do best-seller, simples, comum, sem firulas de lingua e imagem. Mas o que o salva, e o ergue, é sua criatividade. Yann Martel tem o que falar, não é mais um autor falando sobre o tédio, mais um cara que escreve sem ter nada para dizer. Ele tem muito pra narrar. Conta uma bela história.
Raras vezes choro com um livro. Belos filmes me fazem chorar, literatura me eleva, me espiritualiza, mas não provoca lágrimas ( ou risos ). Este tem uma linha que me emocionou muito. É um "Eu te Amo". Dito perto do fim do livro. Quem ler saberá.
Até lá.

JUSTIÇA SEJA FEITA AO ISLÃ, PRIMEIRA IMPRESSÃO SOBRE A VIDA DE PI

   No originalíssimo livro de Yann Martel, A Vida de Pi, fala-se sobre 3 religiões: o hinduísmo, o catolicismo e o islamismo. Martel defende as três e assim conseguiu me fazer pensar coisas novas sobre esse tema.
   Primeiro o modo como um oriental vê o cristianismo. O que mais os surpreende, e que lhes é incompreensível, é como pode o filho de um Deus ter vindo a Terra como um fraco. Um filho de divindade deve ser poderoso, forte, imenso. Um Deus que é humilhado, incompreendido, e pasmem! Morto!!!! Um Deus que morre!!!! Isso é absurdo!
   Outro fato que eles estranham é a pressa que os cristãos têm. Deus fez o mundo em 7 dias!!!! Para o Oriente o mundo é obra de milhões de anos. E mais, a vida de um fiel é decidida em um segundo, um ato, um pensamento. Orientais têm infinitas encarnações para se refinar, um cristão tem poucos anos e um ato único. Para um oriental, o cristão vive na pressa e num eterno Agora. ( Ah, ele diz que cristãos possuem obsessão por Letras Maíusculas.... )
  Mas o que mais me surpreendeu é a beleza do islã.
  Confesso que é a religião que menos me interessa. Preconceito?
  Talvez Yann jogue uma luz sobre isso.
  Quando vemos imagens do Irã ou do Paquistão, o que vemos? Primeiro: Eles nunca estão sós. Andam em grupos, abraçados, conversando, rindo ou orando, sempre sem a solidão que nos aterra e nos seduz.
   Isso nos irrita. Estamos acostumados a pensar em individualismo como condição de brilho e inteligência. Afinal, até Jesus foi um incompreendido solitário.
   Segundo. Todos se parecem. E é isso. Eles Não Desejam ser diferente. Barbas e roupas brancas. Para serem todos iguais. Nomes próprios que se repetem ( Muhammad aos milhões ), a busca é pela não-individuação.
   Terceiro. A simplicidade. Nada de supérfluo. A verdade está no Alcorão e tudo deve ser simples e claro. Seja o pensamento, a arquitetura, a roupa.
   Se voce unir tudo isso, vida em grupo, anonimato e simplicidade, voce obterá tudo aquilo que nosso complicado e individualista mundo mais nega.
   Fosse só por isso, o livro de Martel já valeria muito.
   Mas o melhor, é divertido pacas!

GOTTFRIED KELLER E O ROMANTISMO A QUE ESTAMOS FADADOS

   Quanto mais o homem é amassado pelo anonimato, pelo medo ou pelo puro desespero, mais ele tende a reafirmar a presença de seu ego. É simples: se tudo grita a seu redor que voce é um nada, mais e mais voce vai berrar: Eu existo e eu sou Eu.
   Esmagaram toda a história e tudo o que era "homem" no século XVIII. De repente nada era mais o que era certo, tudo virara nada. Que reação poderia nascer a não ser a afirmação desesperada da única coisa que se mantinha " ao lado" ( aparentemente confiável e fiel ), o Ego. Pois veja então....
   Até então a paisagem onde uma criança nascia seria a mesma de sua velhice. E se ele nascia rico, morreria rico, se pobre seria pobre. Ele teria a profissão do pai ou de um tio e se casaria com uma vizinha ou uma prima. Seria batizado, casado e enterrado na mesma igreja. Teria a proteção do mesmo barão e lutaria uma guerra que seria certamente justa. O mundo era conhecido, imutável, confiável e principalmente vivido em grupo. Todos saberiam quem voce era: filho de seu pai.
  A indústria trouxe novos cenários. Fábricas, sujeira, fumaça e a derrubada de bosques. O progresso mudou a vila, o bairro. E seu futuro já não seria o de seu pai. Na fábrica voce não seria filho de ninguém. Voce seria mais um. Estradas, trens, bancos, desemprego, fuga do campo.
  Assustado, o homem precisa se reerguer. Nasce o romantismo. Se voce não é mais filho de seu pai, então será filho de sua nação, da história de seu país, de seu folclore. Seu Ego é seu mundo, e nesse mundo voce cria fantasias. O amor é livre, escolhe e luta, Deus agora é amor, o Amor manda. A vida não é mais algo dado a cada um, ela agora terá de ser conquistada. É imperativo viver e deixar sua marca no mundo.
   Penso que tudo isso sobrevive. Jamais voltaremos ao mundo pré-romantico. Onde nossa vida era do grupo. Assinamos tudo o que fazemos, lutamos para nos afirmar. Somos todos romanticos.
   Gottfried Keller era suiço. Leio duas novelas: O TRAJE FAZ O HOMEM trata de um alfaiate pobre, que por ser belo e bem vestido. vê-se confundido com um conde. A trama segue deliciosa, ele tenta resistir a mentira, mas vai mergulhando fundo e acaba, claro, por se apaixonar.
   A outra novela é ROMEU E JULIETA DO CAMPO, que traz um belo retrato dos camponeses de então. A infelicidade surge entre vizinhos que brigam e a vida de ambos se desfaz em dividas e rancor. Os filhos se apaixonam e fogem. Acabam por ter um destino trágico. No final dessa novela há toda a confirmação do ego romântico. Os dois se amam por uma noite e se deixam afogar, juntos, afirmando assim sua vontade de "eternidade". Se precisam ser conformados a vida familiar, preferem antes morrer.
   Nunca mais alguém se conformaria a ser e ter aquilo que seu pai foi e possuiu. Nunca mais viver seria apenas continuar a "doce rotina" da eternidade. A rotina doce fora corrompida, a inocência se perdera, e como bem sabemos, quando se deixa ir a inocência, nunca mais a reencontramos.
   Aldous Huxley afirma em seu livro " A FILOSOFIA PERENE" que a função sublime da religião é exatamente destruir esse ego, trazer ao ser a conciência de que ele é parte de um todo, de que nada ele pode possuir e que toda posse é dor. Incrível!!!! Com toda sua adoração por magos, bruxas, vampiros, celtas e druidas, os romanticos são dos menos religiosos dos seres. Percebem o mundo como um espelho e ansiam por um amor que é posse egoísta. Alimentam o eu, inflam, sentem pena de si-mesmos, se imaginam como seres hiper-sensiveis e especiais. Deixam de lado toda chance de paz e de serenidade.
   Se nosso mundo é uma ponte ao anonimato, somos todos pequenos romanticos com nossos blogs, nossas bandas de rock e nossos videos bombando. Em meio a bilhões de seres tentamos fazer nosso ego sobressair. Gritamos: Estou aqui ! Sou diferente! Existo!!!!Tenho opinião!
   Huxley e todos os seus santos, gurus e xamãs devem estar com piedade de nós.

J J CALE

JJ surgiu do nada e já meio velhaco. Nunca foi hippie. E penso que nem mesmo rocker. Sempre foi um tipo de cowboy. Todas as suas canções têm cheiro de estrada. TODAS. Mas é uma estrada diferente. Não é a rota 66. É o litoral da Florida, palmeiras e ritmos que às vezes são caribenhos. Mas é um cowboy. Sujo. E sua voz confirma isso. Canta rouco, não é nunca simpático. Não é nunca alegrinho. É sempre sério. E sem choro nem vela.
Nada de rockstar. Não pense em poeta-dylan-cohen-simon-young. Não. Nada disso. JJ é prosa. É Twain. Poe às vezes. Eu adoro JJ e quero ser um dia JJ. Lembro de ouvir JJ em 1985. Onde hoje tem uma praça tinha barracos e campos de futebol. E naquele tempo eu me dilacerava de amor e de desejo e de sexo e de coisas químicas. E JJ era um alivio, um bálsamo. Ele interrompia minha dor e minha doideira. Sem fazer de mim um cara frio ou angelical. Ele me fazia homem. Não tem som mais de homem que o de JJ.
JJ é anti frescura.

JJ Cale - devil in disguise - studio live



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TWELVE DREAMS OF DR. SARDONICUS- THE SPIRIT, ATEMPORAL

   Existem bandas que se negam a fazer parte de qualquer tipo de hype. E nem tomam para si a pose de "alternativas". Ficam num tipo de limbo, pois não são nem pop e nem "arte", não fazem parte de uma tendência e nem tentam ditar novidades.
  Veja o Spirit. Randy California, seu guitarrista, aos 15 anos já fazia jams com Jimi Hendrix e aos 17 já era o lider do Spirit. Mas mesmo com essa raiz, o som dele nunca é o de um guitar-hero. Nem psicodélico. E nem pop-anos-60. Na banda temos ainda seu padastro ( sim, step-father ), Ed Cassady. Um careca, na época já quarentão, e que tocara com Zoot Sims e Dexter Gordon. Ou seja, jazz. Mas o Spirit nunca lembra jazz. Então o que é a banda?
   Tenho cinco discos do grupo e são todos diferentes entre si. O primeiro é plácido, maconheiro; o segundo é mais técnico, frio, e bastante criativo. Este, que agora comento, é sua obra-prima, e vários experts e músicos jovens o adoram. Porque?
   A primeira coisa que se nota é sua atemporalidade. É um disco de 1970, mas poderia ser de 2012 ou de 1992. Principalmente de 92. Em vários momentos a sensação é a de estarmos diante de um disco grunge. Pearl Jam e Stone Temple Pilots. When I Touch You antecipa em 22 anos o som de Eddie Vedder. Mas o disco é mais que isso. Nature's Way, Animal Zoo, Mr.Skin... são várias as músicas que impressionam já de primeira. Variam entre introspecção e celebração, todas são pra cima.
   Entre os amigos de Randy, Neil Young era um dos maiores e na casa de Neil ( nas montanhas ), Randy começou a pensar no disco. O guitarrista de Neil o produziria. Há bastante de Young na sonoridade de algumas canções. Mas é um Neil Young menos angustiado, mais californiano, solar.
   O que causa espanto é o fato deste disco não ter sido um hiper-hit. Todas as faixas poderiam ter sido sucessos. Não foram. O Spirit acabou na vala das bandas cult ( o que não impediu a eleição de Ed Cassady como o segundo batera mais querido do mundo em 70, à frente de Ringo e de Ginger Baker ). Escutado hoje, Twelve Dreams respira como recém nascido.
  No efêmero mundo do rock, nada pode ser mais relevante que isso. O Spirit não é de ontem e nem de agora. É de sempre.

Spirit - I Got A Line on You



leia e escreva já!

A SINGULAR HISTÓRIA DE PETER SCHLEMIHL- ADELBERT VON CHAMISSO, AS DELÍCIAS DA CRIATIVIDADE E O MUNDO SOLTO E RACIONAL DO SÉCULO XVIII

   Belo tempo...tempo das narrativas onde a imaginação corria solta.
   O século XVIII é inalcansável por nós. O romantismo ainda não nascera, então nada de desejos de se confessar, de se expor o ego, de usar o papel como vomitório. Mais que isso. As nações da Europa ainda não se firmavam. Mais que alemão ou italiano, um homem era de Weimar, de Estrasburgo ou de Milão. Isso dava ao continente um aspecto de livre ir e vir. Todos os intelectuais e artistas se expressavam em lingua comum ( francês e latim ) e estudavam em várias culturas. Não havia endereço fixo, voce era súdito de uma ideia e da necessidade. Ora, nesse ir e vir, a criatividade fluia. Em plena adolescência, a razão, longe do cansaço de hoje, florescia em novas possibilidades. Ler os contos ou novelas da época é encontrar mentes em plena alegria criativa.
   Chamisso já faz a transição para a nossa época, a época romântica. ( Sim meu caro, somos ainda todos românticos com nossa obsessão pelo coração e a mente, nossa visão de que tudo é o EU, nosso culto a lideres e gurus, nossa hipervalorização do amor, do ódio; desejos de viagem, de aventura e de poder "viver"...Tudo isso é romantismo, criação de Goethe, Schiller, Keats, Wordsworth e Shelley...Beethoven e o endeusamento de Shakespeare... Napoleão e patriotismo...)....
   Weeellll....voltando: Chamisso, nobre, é cientista, poeta, romancista, viajante, pesquisador. Viaja o mundo, vai aos polos, ao Brasil, ao Pacifico. E vive essa transição. Ainda é um clássico, um nobre do século XVIII, pensa racionalmente, é livre de país e de confissões; mas amadurece no XIX, já tem o germe do exagero de sentimento. Em 1814 escreve esta noveleta. Um sucesso! Se lê muito nessa Europa. Não há cinema ou TV, o que existe é ópera e romance, e a mesa do jogo e do bordel. Do que trata? Em clima de sonho, um homem vende sua sombra ao diabo. Em troca de ouro infindável. Triste destino! Sem sua sombra ele deixa de ser aceito pelo mundo. Se torna um pária rico. Após várias peripécias, se isola como um tipo de estudioso da natureza.
   Várias teorias explicam a sombra. Seria um bom nome? A alma?  Saúde?  Fé?
   Diversão pura, escrito no estilo simples e direto da época, este é um conto ( novela? ) que sobrevive ao tempo, às modas. Encontrando ao fim da vida sua razão e seu alivio no estudo e na pesquisa, o conto acaba por espelhar a vida do próprio Chamisso e mais ainda, a vida de toda uma geração. Leia.
  

TERRENCE MALICK/ FORD/ O DITADOR/ HANYO/ MORGAN FREEMAN/ JOHN WAYNE

   A DIFICIL VINGANÇA de Terry Miles com Christian Slater e Donald Sutherland
Dificil este modesto western passar aqui. Continuam insistindo em fazer faroestes sem ter nenhum conhecimento sobre a mitologia do gênero. Os atores não têm tipos fisicos para o assunto e sua linguagem cheia de Fuck é toda de LA 2012 e não de Dakota 1885. Nota 1.
   NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS  de John Ford com John Wayne, Claire Trevor, Thomas Mitchell e John Carradine
O Homero da América ( Ford ) e seu filme Odisséia. Uma diligência cruza território hostil. Nela vão os personagens icônicos do país: o jogador, o comerciante, o banqueiro-ladrão, a prostituta, uma esposa fiel, o bêbado e o fora da lei. Wayne tem seu famoso close, uma apresentação à eternidade como jamais outro ator mereceu. É uma aventura, é suspense e é um filme-mito. O elenco explode em carisma e Ford filma como quem narra uma saga cantada. É o mais americano dos filmes. Minha professora de literatura diz que gênio é o homem que capta todo o insconsciente de uma país e o traduz em linguagem. É o homem que traduz e batiza uma nação que não se conhecia e não se reconhecia. No cinema é John Ford esse homem. Ele captou a América de 1776 até 1976. Depois de então o mundo de Ford permanece como sonho perdido de uma ideal de país que não mais existe no mundo sólido, mas que se faz eterno e mitológico no universo do desejo. Um filme que não é o melhor de Ford, mas que é insecapável. Nota DEZ.
   A MOCIDADE É ASSIM MESMO de Clarence Brown com Elizabeth Taylor, Mickey Rooney e Donald Crisp
Quem criou este mundo? Tudo aqui é um tipo de paraíso: as casas, as pessoas, até mesmo as dores parecem paradisíacas. Eis o mundo que o século XX, sofrido, desencantado, pobre em sonhos, tolo, sonhou. Como cada vez mais descreio de criações vindas do nada, deve ter havido um dia um mundo parecido com este. Onde e quando eu não sei. Com certeza não em 1948. Liz tinha quinze anos então, exagera um pouco no choro. O filme fala de um cavalo e do sonho de uma menina em vencer um derby. Rooney está ótimo como um ex-jockey. É do tempo em que animais eram filmados como animais e não como pseudo-humanos. Nota 7.
   CREPÚSCULO DAS ÁGUIAS de John Guillermin com George Peppard, James Mason e Ursula Andress
E não é que é bom? Uma surpresa! A história fala de um ex-soldado de infantaria, que na primeira guerra entra para a aviação alemã. Ora, em 1915 aviação era coisa de nobres, de esnobes. Ele não é aceito e passa todo o filme quebrando regras de cavalheiros, sendo ambicioso e afoito, tentando se vingar do despeito com que é tratado. As cenas nos céus, com aviões de época, são maravilhosas. Nuvens, tiros, piruetas, quedas. Chegam a hipnotizar. Uma diversão correta, com belo estudo de um "herói" ruim, egoista e destrutivo. A fotografia de Douglas Slocombe é de arrasar. O diretor prometia bela carreira, mas se perdeu em filmes tolos. Este é ótimo. Nota 7.
   HANYO de Ki-Young Kim
É considerado um clássico do cinema coreano. Um casal contrata uma empregada. Ela seduz o patrão e a vida de todos vira um pesadelo. Um dos filmes mais desagradáveis que vi. Todos são cruéis, brutos, estúpidos. Pequenas violências se acumulam. O filme não é bom. Mal filmado e com atores muito ruins. Mas tem originalidade e em seu país é o equivalente ao que para nós é Glauber Rocha, fundador de novo caminho. Nota 4.
   UM VERÃO MÁGICO de Rob Reiner com Morgan Freeman e Virginia Madsen
Um escritor alcoólatra vai passar um verão na praia. Lá conhece familia de divorciada. Se aproxima das crianças e tudo acaba bem. Reiner teve seu momento ( Harry e Sally ), esse momento passou. Lançado este ano, duvido que passe por aqui, deve ir direto para dvd. Tudo é previsivel, todos se tornam bons com facilidade, tudo se resolve. Mas sei lá, às vezes a gente precisa desses filmes do bem. Relaxa ficar vendo essa gente legal vivendo de um modo legal e tendo um destino legal. Sei lá, de repente a vida é mais isto que um cara se entupindo de drogas e comendo mulheres modernetes na noite. Bem, pelo menos o meu mundo está, felizmente, mais perto disto. Nota 5.
   THE THIN RED LINE de Terrence Malick com Jim Caviezel, Sean Penn e John Cusak
Um amigo me fala que este é um dos filmes recentes do cinema que Pondé mais gosta. Então o revejo. Tinha a lembrança de ser um filme chato. Ele é. De ser apelativamente cruel, e é. Mas agora percebo algo que antes não percebera. Malick é um cristão no sentido medieval e "puro" do termo. O mundo é um horror, os homens se matam, se comem, e em nada mais conseguem crer, Acreditam apenas na força e na dor. Então vivem uma realidade de força e de dor. Um mundo de gemidos, sangue, tiros e solidão extrema. Mas, para quem ainda quer ver, existe a folha que balança, um raio de sol na água, bichos olhando distanciados, praias e crianças. Caviezel ainda pode ver. O mundo dele é o mundo do espirito. Ele não se deixa engolir, não se deixa perder. Para Malick, o que podemos fazer é conquistar nossa alma, ela é nossa potencialmente, cabe a cada um a merecer. Caviezel a possui. Penn talvez um dia a obtenha. O comandante feito pot Nick Nolte é a carne absoluta. Todos os filmes de Malick repetem esse mesmo tom. Este, talvez o mais crú, é o mais dificil. Com certeza foi por este papel que Caviezel se tornou o Jesus de Gibson. Nota 8.
   O DITADOR de Larry Charles com Sacha Coen
Não é cinema. É um programa de Tv. Engraçado? Poucas vezes. Tem a fluência atravancada de Austin Powers. Mas Powers era mais engraçado. Humor rasteiro, de amigos bêbados, fácil de fazer. Basta atirar pra todo lado e pensar que o público é idiota. Tão ruim quanto Borat, ele faz humor sem alegria, risos sem celebração. É o humor pesado, o anti-humor segundo Comte-Sponville. Nota 2.