SAUDADES DE QUANDO GAINSBOURG ERA POSSÍVEL

   Um cara me policia. Descobriu que às vezes creio em anjos. E agora esse cara tem certeza de que sou burro. Ou que tenho um tumor na cabeça. Um outro me fala que eu deveria ir a umbanda. Porque é legal. E outro acha que sou materialista demais. Diz que sou muito agressivo.
   Um velho amigo pensa que sou muito etéreo demais. E outro fala que eu deveria ser menos anos 2012, ser mais Che Guevara e Neruda. Uma amiga me manda uma mensagem. Diz que não deveria mais ficar arrumando briga por aí. Fala que às vezes lhe dou medo. E uma outra conta que pra ela sou um gurú indiano.
   Me vigiam também os desconhecidos. E ser vigiado por amigos é um elogio.
   Estranhos falam que sou saudosista demais. Que tenho preconceito contra Von Trier e Nolan. Estranhos, outros, dizem que sou moderninho futil. Que deveria descobrir Tarkovski e Bunuel. Uns dizem que não posto nada de inteligente. Outros falam que sou pedante. Pensam que sou gay, e já fui chamado de machista. Anti-americano, direitista, francófilo, vitoriano.
   Chegaram a comentar que amo a guerra.
   Nada disso importa. O que interessa é que todo mundo mete a colher no angú de todo mundo. Todos querem formar uma imagem de quem mal conhecem. Te fazer um personagem.
   Bem Vindo ao futuro.

Gainsbourg et le Tabac, Zippo, Gitanes



leia e escreva já!

AS CENTENAS DE FILMES DA SIGHT AND SOUND

   TerrEnce Malick deve ser o maior diretor da história do cinema. É o único que obteve 100% de seus filmes indicados. Acabo de ver os cerca de 1500 filmes que foram citados pelos votantes na enquete dos 250 melhores da revista inglesa Sight and Sound. Nessa lista, publicada em ordem alfabética, temos várias justiças, algumas surpresas boas e esquecimentos surpreendentes. Malick é o único diretor a ter tudo o que produziu
 citado, e seu ARVORE DA VIDA é o filme melhor classificado ( dentre os americanos ), dos que foram feitos de 2000 pra cá. O que a gente logo percebe é que neste século a produção se pulverizou. Hong Kong, Coréia, China, Irã, Turquia, Formosa....são esses os países com a nata das citações.
   Wes Anderson tem apenas um filme entre os 1500 citados e Tim Burton apenas Edward Mãos de Tesoura. Já Tarantino tem seis filmes lembrados, e os irmãos Coen quase todos. Mas não vou ficar aqui falando detalhes, quem quiser que veja a lista. Está disponível a dois toques de teclado. Prefiro comentar as surpresas.
   Maravilhosamente Chuck Jones tem cinco desenhos dos Looney Tunes entre os maiores. Desenho é arte e Jones, assim como Tex Avery, Bob Clampett e alguns outros sempre soube disso. Mas ao mesmo tempo vemos uma injustiça com a Disney. Citaram apenas Mogli !!! Logo Mogli, um dos menos bons da fase clássica. Deixar Pinóquio ou Dumbo de fora é esquecimento de gente que deveria ter pensado melhor. De qualquer modo, WALL E éstá ente os 80 melhores filmes já feitos. Justo.
   Michael Powell continua valorizado. Tem seus principais filmes citados ( mais de dez ), esqueceram CONTOS DE HOFFMANN, mas tudo bem, Powell está no posto que merece, é um dos 3 melhores da história do cinema britânico. Esqueceram Stephen Frears, nenhum de seus filmes foi lembrado, e Carol Reed está em baixa, citaram apenas 3 de seus filmes. Com David Lean se esqueceram de OLIVER TWIST, provávelmente por ter fama de racista. OS EMBALOS DE SÁBADO A NOITE está entre os 1500, mas senti uma certa má vontade com o cinema dos anos 70. De qualquer modo, os básicos da década mais louca estão lá. O que não aceito é entre oito filmes de Robert Altman citados, ninguém ter lembrado de MASH....imperdoável.
   O Brasil tem lembrado quase tudo de Glauber e muita coisa de Nelson Pereira dos Santos. Adorei ver meus dois filmes favoritos made in Brasil lembrados: MACUNAÍMA e O BANDIDO DA LUZ VERMELHA estão presentes.
   Bacana lembrarem do pouco visto AS 3 MORTES DE MELQUÍADES de Tommy Lee Jones. Esse filme, de 2007, é uma bela homenagem a Sam Peckimpah.
   Vincente Minelli, Raoul Walsh, Howard Hawks, Billy Wilder, o cinema clássico americano está muito lembrado. Buster Keaton tem um monte de filmes citados e John Ford aparece com mais de 12 filmes. Mas é estranho não terem citado Scarface de Hawks, Asas de Wellman e Inimigo Público de Le Roy.
   Jean-Luc Godard é talvez o maior vencedor da lista. São dezenas de filmes lembrados. Godard fazia aquilo que todo cinéfilo sonhava, se divertia filmando. Interrompia a narração quando se entediava, enfiava cenas improvisadas ao ter uma inspiração, liberava seu desejo. Godard fazia tudo o que um diretor não pode fazer hoje, inventar . Daí  sua valorização atual. É de longe o francês mais citado. Bresson vem logo depois.
   Todos os grandes gênios estão fartamente lembrados. Não há um só Bergman ou Kurosawa que merecesse ser citado que tenha sido esquecido. São 19 Bergmans e 15 Kurosawas. E há também uma tonelada de Dreyer, Bunuel, Lang, Kieslowski, Tarkovski, Fellini...
   A Itália é o grande perdedor. Sim, eles citam os De Sica, Antonioni e Visconti obrigatórios. Tem Pasolini às dezenas, tem Bertolucci, Rosselini...mas o cinema da Itália foi tão grande que dá uma frustração ver apenas um Scola, um Risi, dois Zurlini e dois Monicelli.... Lembraram dos ETERNOS DESCONHECIDOS, mas esqueceram BRANCALEONE!!!!!
   Todos os Clint Eastwood que valem a pena foram lembrados ( esqueceram Bird, e eu acho justo isso ), assim como Scorsese, De Palma e Woody Allen.
   Vertigo de Hitchcock é o maior de todos. Não sei se é o maior, mas também não sei se ele não é o maior. Hitchcock tem mais de vinte filmes na lista. E mesmo assim tem alguns que mereciam ser incluídos e que ficaram de fora. Ele conseguia unir o cinema pop a arte mais sofisticada. Ação e introspecção. Humor e horror. Senso de imagem e dom para diálogo. Erotismo e romantismo. E tudo isso mantendo sempre o senso de beleza, de diversão e de comunicação. Não sei se foi o maior de todos, mas se for, lhe fica muito bem.

PETER PAN E O LORAX, DOIS MODOS DE PENSAR SOBRE A INFÂNCIA

   Em meio a um céu de Technicolor, o pai de Wendy, Miguel e João, vê finalmente o navio de Gancho, navio em que agora Peter Pan navega. Então o pai, modelo de praticidade e de "adultêz", conta que aquilo no céu faz com que ele quase lembre de alguma coisa de seu passado...
   Peter Pan tem tanto material poético que daria para se criar toda uma filosofia sobre a infância. Ou se preferirmos, sobre a idealização da infância pelos adultos do século XX. Não importa, a obra de James Barrie é uma das jóias do século e sobrevive muito bem ao icônico desenho da Disney. Vamos ao começo.
   Wendy é avisada de que deverá mudar de quarto, não poderá mais dormir com seus irmãos. Amanhã ela começará a ser adulta. Óbvio que Wendy menstruou. Mas ela insiste em esperar Peter Pan, em deixar a janela aberta e conta ao pai não querer jamais crescer. Peter virá e Wendy irá costurar a sombra que ele perdera. Sombra que pode ser tanta coisa... o medo de Peter, seu interior, seu gêmeo...
   Os dois, mais os irmãos, partem à Terra do Nunca e voam sobre uma deslumbrante Londres vitoriana. Não nos esqueçamos, Peter nunca teve mãe e Wendy deverá cumprir esse papel. Para Peter, mãe é quem conta histórias, geralmente sobre ele mesmo. Na terra de Peter existem sereias que o adoram, indios que lhe têem respeito e os piratas... tudo gira ao redor desse Peter, orfão que não cresce e que se ama em tudo que o cerca.
   Gancho é o contrário absoluto de Peter. Ele jamais brinca, nunca fantasia e vive com ódio e medo. Ele está preso no tempo, um jacaré-relógio, com seu tic tac neurotizante deseja o engolir. E Gancho vive assim, no medo do tic tac e no ódio a Peter Pan. Peter é tudo aquilo que ele não pode ser: criança. Em Gancho dói a fuga do tempo.
   Wendy tem pai e mãe, precisa voltar, precisa crescer. E volta. E é nesse final melancólico que o pai quase lembra do que foi um dia.
   O Lorax, já um exemplo seguro do que é o século XXI, joga a criança no mundo em que devemos ter um papel a cumprir. Uma responsabilidade. O desenho é ótimo e eu concordo com tudo o que ele advoga, mas que diferença imensa do mundo de Peter Pan! Se antes o que se tentava era descobrir o mundo secreto e mágico da infância, se antes tudo era voltado ao simbólico, ao interior; agora o que vemos é pura exterioridade, a chamada a ação, a intervir no real. Nesse sentido, nada mais Gancho que Lorax.
   A Terra virou plástico, e num estilo Matrix, todos vivem num tipo de "mundo fake". O ar é vendido em garrafões e tudo precisa ser mantido assim, porque é assim que a grande empresa quer. Mas um menino descobre o que aconteceu no passado e tenta plantar uma árvore...
   O desenho é todo do bem e isso não me irrita. Ele fala das coisas mais importantes e sérias do mundo de hoje. E essas coisas devem ser defendidas com força e sem concessões. Pagamos por água, e me creiam, água já foi de graça um dia. Pagamos por TV, que também já foi grátis. E pagamos por escola, hospital, poder cruzar uma estrada...estacionar. E não notamos o absurdo de tudo isso. Um dia haverá a taxa do ar. E assim, as árvores se tornarão dispensáveis.
   É fato já antigo de 15 anos que enquanto os filmes de adultos se ocupam com o mundo irreal, os desenhos cada vez mais se ocupam do mundo real. Serial killers, heróis de HQ, casos médicos e viagens mentais, com raras excessões, o cinema adulto só fala desses temas. Já os desenhos se ocupam de ecologia, vida familiar, honra, passagem do tempo e modos de viver. São temas muito mais vastos, menos particulares, mais sociais. Adoro-os e considero que na média os desenhos dão de dez a zero nos filmes que são lançados.
   Mas o que falo aqui é:  Não seria uma tentativa muito esquisita essa de se jogar na criança toda essa educação? Parece que desistimos dos adultos ( um bando de tarados que só quer a pornografia de corpos dilacerados e de mentes confusas ), e tentamos desesperadamente salvar a próxima geração, dando a elas a percepção do mal que fizemos e do quanto elas devem fazer. Salvem a natureza crianças! Salvem a familia! E deixem o papai com seus filmes cheios de sangue, maldade e niilismo cego.
   Peter Pan fazia com que adultos desejassem ser crianças. Lorax reza para que as crianças sejam adultas logo.
   Há algo de muito podre neste nosso mundo.

OS VINGADORES/ MAHLER/ KEVIN KLINE/ DIANE KEATON/ PECK/

    OS VINGADORES de Joss Whelan
Nick Fury fuma um enorme charuto. É sexy ao nível Clooney de ser e é  musculoso. Está na meia-idade e tem um humor ácido, desencantado. Isso nas HQ, porque aqui ele é Samuel L. Jackson....eu adoro Nick Fury, o filme me fez odiar Jackson. Tem mais. Me fez pensar nos grandes sucessos de bilheteria da história. Todos são escapistas, e isso nada tem de ruim. Mas depende do tipo de escapismo. Se ...E O vento Levou era a afirmação da saga individualista americana, se A Noviça Rebelde era a propaganda de bons sentimentos em época de más noticias, e Star Wars era nostalgia travestida de saga futurista,  Os Vingadores é puro militarismo triunfante. Oitenta por cento do filme é propaganda de armamanto. Computadores militares, tiros e explosões, aviões, soldados. A história nada mais é que o enquadramento do incontrolável Hulk, a dessacralização de Thor e conscientização do Iron Man como soldado obediente. Não é por acaso que todos têm rancor contra Thor, afinal ele é um semi-deus. E o pobre Hulk é apenas uma besta que deve ser disciplinado. Destruição como fetiche ( após Star Wars todos os big hits têm a destruição como gozo, desde um navio que afunda até a perseguição de uma raça ). Nos extras o diretor desta coisa fala que se trata de um filme "so sexy"....
   MAHLER de Ken Russell
Tchaikovski era tão exagerado, pomposo e falso como este. O problema aqui é que Russell esqueceu daquilo que salvava o seu filme anterior: a beleza. Tchaikovski é um filme lindo, Mahler é ridiculo. Quando surgem as cenas nazistas começamos a achar que Ken tomou a droga errada. Foi este o filme que começou a destruir sua carreira. Se ele surpreendera o mundo com belas adaptações de Lawrence e filme cheios de imagens originais, aqui ele se perde em puro sensacionalismo. Nota 2.
   A CONQUISTA DO ESPAÇO de Byron Haskin
O que é isto? Deveria ser um pop e divertido filme B dos anos 50. Mas o que vemos? Um grupo viaja à Marte e seu lider enlouquece. O filho desse lider acabará por matá-lo. Em Marte há um clima de culpa, de medo e de consciência da inutilidade daquilo tudo. Simples? É um dos filmes mais doentios que já vi. Tudo nele é classe B, os atores ruins, os efeitos mediocres, os cenários pobres. Mas o roteiro é incrivelmente profundo trazendo antecipações de 2001 e até Solaris.
   MATANDO SEM COMPAIXÃO de Ted Kotcheff com Gregory Peck
Western dos anos 70, ou seja, ppouca ação e muito clima de fim de mundo. Peck é um ladrão barato, que foge em deserto de xerife "do mal". Um mestiço é o amigo de Peck e o filme, claro, fala de racismo. Não é um bom filme. Ele jamais emociona e fica sem saber onde ir com seus personagens. Peck, um ator imponente, não tem muito o que fazer. Nota 4.
   MEU QUERIDO COMPANHEIRO de Lawrence Kasdan com Kevin Kline, Diane Keaton, Dianne Wiest e Richard Jenkins
Kasdan foi um dia um dos grandes. Roteirista da turma de Spielberg, despontou a trinta anos com o marcante e icônico O Reencontro. Este é seu novo filme, recém lançado, e se está longe de ser ruim, nada tem de novo. Uma mulher, a sempre ótima Keaton, esposa de um médico, o sempre excelente Kline, acha um vira-lata na rua. O abriga. Depois de dois anos, em viagem ao Colorado, o cão some e isso expõe as dores da familia. Na busca pelo cão o que vemos é uma sessão de terapia dos personagens. O filme mantém o interesse, as pessoas são reais e os cenários deslumbram. Fácil de ver, falta ao filme um momento grande, um centro de catarse. Ele acaba sendo discreto demais, simples demais, comum demais. Mas pelo menos Kasdan não tenta fazer "arte". Ninguém é bem louco ou perigoso, a câmera nunca treme ou alça vôo. Nota 6.
   FANTASIA de Walt Disney
Grande orgulho de Disney, fracasso em seu tempo, reabilitado vinte anos mais tarde com os hippies. Vamos por partes. Porque orgulho de Disney? Porque ele trata de "grande arte". Afinal, é um looooongo desenho que cria clipes para músicas de Beethoven, Tchaikovsky e até Stravinsky. Típica jequice, achar que usar Dukas ou que falar da criação do mundo faz de um desenho "arte". Pinóquio era Arte sem nada de pedante. Os hippies descobriram que assistir Fantasia com LSD dava uma viagem ótima. Visto agora, tem seus bons momentos, mas seu espirito de "grande arte" faz dele o mais antipático dos desenhos. Nota 4.

A FILOSOFIA PERENE- ALDOUS HUXLEY

Um desses ateus militantes ( ateu militante é uma vergonha para um ex-ateu verdadeiro. A beleza do ateísmo está na indiferença individualista às coisas da religião. Militar dentro do tema é fazer parte dele, falar sobre aquilo que não se quer fazer parte ), mas como ia dizendo, esse ateu superstar diz que o que motiva todo religioso é o medo de morrer. Aí está o que acabei de falar. O cara se mete a falar sobre aquilo que não sabe e solta um chute no vazio. O auge de meu medo de morrer foi entre meus 15/20 anos. E foi ao mesmo tempo minha época mais descrente. Eu sentia pavor de morrer e odiava toda forma de religião. Via em todas uma forma de consolo para fracos. E só. Para mim, islamismo, gnosticismo ou hinduísmo eram iguais. Assim como eu não conseguia perceber que igreja e religião são tão diferentes como são rimas e poesia. A igreja se move na matéria, no comunitário e no comum, a religião é inefável, individual e original.
Ando tentando terminar A FILOSOFIA PERENE, de Aldous Huxley. É dificil. Há uma profusão de informação, de nomes, de citações. Huxley passeia pelos sufis, pelos católicos do inicio da idade média, pelos profetas menos conhecidos. E de começo ele já fala o que intuitivamente eu sempre soube: Nada é mais anti-religioso que a igreja. Qualquer igreja. Porque a verdadeira experiência religiosa é individual, não pode obedecer a ritual ou a leis exteriores a própria experiência. Mais que isso, para se viver essa experiência é preciso ter sentido de forma profunda a inadequação, o não-conformismo e a ânsia pelo "algo a mais". Huxley fala então do Eu, e isso encontra mais uma de minhas certezas, a de que toda infelicidade nasce da hiper-valorização do eu. O objetivo final de toda vida religiosa é a destruição do eu. Pois detrás dessa cortina enganosa vive aquilo que nos é mais precioso, verdadeiro e forte, o não-eu, o sem-nome, o inenarrável. A vida que é eterna por não ser eu.
Como dizer então que a motivação da religião é o medo da morte se seu objetivo e seu único pensamento é exatamente a morte do eu? Enquanto materialistas se distraem com bebidas, sexo e ciência, enquanto se envaidecem com sua razão, suas respostas óbvias e sua "coragem", o verdadeiro religioso se obriga a encarar o vazio, o nada, a destruição do ego. Onde o conto da carochinha?
Por favor, não pensem que sou um religioso. Se fosse não estaria aqui exibindo minha tese. Há vaidade no que falo e isso coloca por terra minha espiritualidade. Adoro dinheiro, sexo e gosto de beber. Mas ao menos tenho a humildade de admitir que pouco sei sobre a experiência de São João da Cruz ou de Rumi.
Hippies adoravam Aldous Huxley. Assim como amavam Hesse. Os dois, quando mal entendidos, pareciam dar um aval para um tipo de espiritualidade fácil. Uma espiritualidade "numa boa", individualista sem solidão e criativa sem riscos. Dava pra ler Sidarta e cair no mundo do sexo e drogas como se o barato fosse parte de uma auto descoberta. Para alguns poucos foi. Mas isso descambou num tipo de nova igreja. A igreja da religião util.
Hesse se perdeu mais que Huxley e o inglês escrevia melhor. Na visão de Hesse sempre há o âmago do romantismo alemão. Em Huxley o gosto de século XX é mais forte.
Por um breve milionésimo de segundo eu um dia pude quase ver. Senti o não-eu e pude me livrar de todo peso. Êxtase ou transcendência, palavra não há pra falar daquilo que não foi criado por palavras e por discursos. Não há como esperar uma mensagem ou um sermão tirados dessa visão. É a intimidade solitária de cada um perante o todo do universo.
Nesse centro do ser tudo é silêncio.

LADRÃO DE CASACA- MAURICE LEBLANC

   Foi Marcelo Coelho ao escrever sobre o personagem mítico de Maurice Leblanc que me acendeu a vontade de finalmente conhecer seus livros. Criado nos começos do século XX, Arsene Lupin seria a resposta francesa ao hiper-sucesso de Sherlock Holmes, mas claro, como bom francês, ele teria de ser o contrário do detetive inglês. Arsene Lupin é um ladrão.
   Um ladrão fino, elegante e ético. Um ladrão de bom gosto, que rouba obras de arte, móveis e jóias, um bandido que nunca usa de violência. Suas façanhas são descritas pela imprensa e a população ama seus feitos. Inteligência, é tudo o que ele tem como arma. Os contos têm o estilo Conan Doyle, são baseados no detalhe, no clima noturno e de mistério, tramas intricadas, complexas, e de uma clareza de conclusão absoluta. Deliciosos.
   Maurice Leblanc criou Lupin por acaso. Jornalista, havia fracassado em suas tentativas de ser "um autor". Um dia o editor lhe pede alguma coisa para ocupar um espaço, um "conto policial". Nascia Lupin e com ele uma febre nacional ( logo mundial ).
   Até os anos 80 se encontrava livros de Arsene Lupin em qualquer banca de jornais. Junto aos livros de Agatha Christie e Sherlock, Lupin era lido por estudantes, donas de casa e intelectuais. Um tipo de literatura de entretenimento que nunca envergonhava ou irritava. Não sei se ainda é lido. Há um livro de LPM nas bancas. Procure e leia. Voce vai se viciar. No caso, vicio sem culpa.

AS INFÂNCIAS DE MANOEL DE BARROS

Cresci brincando no chão, entre formigas. Eu tinha mais comunhão com as coisas que comparação.
Eu via toda tarde a mesma lesma se despregar da sua concha. Esses pequenos seres tinham o privilégio de ouvir as fontes da Terra.
Meu avô ganhou o desnome de lavador de pedras. Os andarilhos, os passarinhos e as crianças têm o dom de ser poesia.
Aprendi a gostar mais das palavras pelo que elas entoam do que informam.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Tenho abundância de ser feliz por isso.
Acho que o quintal onde a gente brincou é maior que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande.
Sempre compreendo o que faço depois que já fiz.
São frases, pegas a toa, do livro desse menino Manoel. Todas falam como se fossem minhas. Ele cresceu no mato, lá pros lados de Corumbá. Era passarinho e insetos e rãs e lesmas. E o rio que passava detrás da casa.
Como escreve bonito o Manoel ! Ele mistura e tempera palavras e faz com que elas cantem. Elas sorriem e vivem soltas, inuteis, preciosas.
Tudo nele é feliz. Porque ele ama as coisas que são dele. Não ansia o distante ou o inexistente. Ele, como criança, olha a formiga e ama a formiga. A curiosidade de quem aprende. O amor de quem olha e vê.
Dá vontade de ler o livro todo de novo.
E vi que o homem não tem soberania nem para ser um Bem Te Vi....
Eu também amo aquilo que é pequeno, que passa despercebido, que ninguém dá bola.
Pombos, latas velhas, árvores mirradas, casas ensombreadas. Sapos, minhocas e pés de Mamona.
E também amo coisas grandes. Como Manoel de Barros. Seu livro é inacabável.

O SAPO NA RUA E A COBRA QUE NUNCA FOI COBRA NA QUADRA ( ELA É UM ANFIBIO )

   A rua tem trãnsito e tem asfalto e casas e prédios. E quando são cinco horas, seis, os carros passam e a molecada corre e grita de vida. E eu fico vendo.
   Mas eu juro, e tenho seis testemunhas, que ontem, 2012, um gordo sapo marrom cruzou a rua em meio aos carros e foi se colocar ao lado de uma árvore. Sem poder pensar, a gente foi até o sapo e pegou ele. Botamos o sapo no jardim em meio ao mato. E isso me fez pensar.
   A quadra da escola é uma quadra como é toda quadra da escola. E no canto tem o jardim do sapo. Então os alunos começam a gritar e eu e a professora vamos ver o que tem pra se gritar tanto. No meio da quadra tem um bicho cor de gente sem melanina. Uma cobra curta que não é cobra e que todo mundo chama de cobra-cega. Ela se fica sobre o cimento. Pegamos ela e a deixamos no jardim. A cobra que nunca foi cobra faz o que ela adora fazer. Mergulha na terra e desaparece. E isso me faz pensar.
   Este bairro, que é o bairro onde nasci, era um vazio cheio de coisas. E elas vinham todas da terra. Era cobra, cega ou de verdade e cupim. Era sapo e rã e nascentes e mamona. pàssaros. Penso que essa terra morou em minha cabeça e pede às vezes pra que eu lembre de voltar a deixar morar. Como fala Manoel de Barros, um menino me inventou. E pra mim um lugar me construiu.
   Nossa cabeça tem um espaço e se a gente lota esse espaço de razão e de coisas pra fazer não sobra espaço pra mais nada. De vez em sempre é bom jogar coisas fora e ver o sapo surgir sobre o asfalto e a cobra na quadra de cimento. Isso tudo eu chamo de milagre, de beleza e de poesia.
   Se eu cavo brota minha alma. Que não é minha, eu sou invenção dela.
   Saudade do sapo.

CINCO SEMANAS EM BALÃO- JULIO VERNE

   Verne foi o mais lido escritor do mundo. Isso até quase agora. Quando eu era criança todos liam Verne na escola. Eu li A Volta ao Mundo em 80 Dias e Viagem ao Centro da Terra. Aliás, o cinema amava Verne. Tudo dele virou filme. Viagem ao Centro da Terra com James Mason é duca!!! Mas Verne não vai mais voltar a moda. A não ser que cortem as partes politicamente incorretas de seus livros. Ele escreve como um europeu normal de seu tempo. Quando ele topa com um negro, um chinês ou um indiano, ele vê sempre um ser muito superior ( o europeu ) diante de um homem ingênuo e primitivo ( o outro ). Mesmo para um cara anti-politicamente correto como eu, isso incomoda..Neste livro por exemplo, negros são mortos alegremente. Quando não, são confundidos com macacos. Fora o fato de que um dos heróis mata elefantes como se mata uma barata. Todo animal é uma besta terrível. E portanto deve ser morto.
   Três ingleses partem num balão para cruzar a África. Eles pretendem mapear o centro africano, a região onde nasce o Nilo, que em 1862 era desconhecida. Verne tem o dom da aventura. Apesar de se passar inteiro dentro de um balão e de ter só três personagens ele jamais entedia. Percebe-se também a diferença entre a literatura francesa e a corrente inglesa. Verne explica o funcionamento de tudo. Ele ansia pelo possível, cria uma fantasia que deve ser explicável, racional. Nunca se joga na fantasia pura.
   O melhor do livro são os relatos dos exploradores que morreram no continente. Verne consegue criar o clima de "buraco negro" que era a África de então. Cada quilômetro percorrido é um passo dentro do perigo, do jamais visto, da aventura. Desertos, montanhas, tribos, bichos, falta de água, tempestades. Um prato cheio.
   Julio Verne foi um dos fixadores do que se conhece como "escritor profissional". Produziu dezenas e dezenas de livros, todos com temas que uniam aventura e viagens exóticas. Todos em linguagem simples, direta. Vale lê-lo ainda hoje? Vale como retrato de um mundo ainda virgem, do auge do poderio europeu, e da fórmula ainda usada da viagem exterior, do ir onde ninguém foi. Se voce conseguir ignorar o massacre aos diferentes, voce vai se divertir.

FRANK SINATRA/ BRANDO/ MEL GIBSON/ MONICELLI/ JEAN COCTEAU/ DORIS DAY/ GILLO PONTECORVO

   OS COMPANHEIROS de Mario Monicelli com Marcello Mastroianni, Renato Salvatori, François Perrier e Bernard Blier
Norte da Itália, fins do século XIX. Estamos numa fábrica, entre seus operários. Eles vivem em condições miseráveis, trabalham 14 horas por dia. O filme acompanha sua tentativa de obter melhores condições de vida. Uma greve acontece. Mastroianni é um professor pobre que aparece do nada , e que procura organizar os operários. O filme adota um tom quase documental. Não é o Monicelli humorista, é um filme de esquerda, como tantos em seu tempo. Ele consegue nos deixar revoltados e comovidos ao exibir o contraste entre as crianças operárias e os donos da fábrica. Mas hoje sabemos onde o esquerdismo iria dar...Teremos nos tornado mais cínicos? Admitimos a vitória do capital ? Porque nos é tão dificil tomar pura e simplesmente o partido dos explorados? Bem...é um filme forte. Nota 7.
   SANTO ANTONIO de David Butler com Erroll Flynn e Alexis Smith
Não é um dos bons faroestes de Flynn. Falta um melhor vilão, falta um personagem melhor definido para seus talentos de estrela. Ele já estava aqui no inicio de seu fim, as marcas dos excessos e dos escândalos já se podem notar. Mas é ainda uma produção de bom nivel da Warner. Alexis faz uma cantora de saloon e Flynn é um forasteiro que tenta livrar a cidade de seus bandidos. Apenas isso. Nota 5.
   QUEIMADA! de Gillo Pontecorvo com Marlon Brando
Em seu livro Brando diz ser este seu melhor papel. Não é. Posso citar cinco atuações melhores de Brando ( Um Bonde, O Chefão, Tango, Os Pecados de Todos, A Face Oculta ). Mas é um grande filme e uma grande atuação! Ele conta no mesmo livro ter discutido muito com o diretor. Pontecorvo insistia em fazer um filme completamente de acordo com a cartilha marxista, Brando queria mais sutileza. E lhe revoltava ver que um marxista como Pontecorvo explorava os figurantes de um modo tão óbvio. Mas ao mesmo tempo ele elogia o diretor e o filme. Com uma trilha sonora mágica de Ennio Morricone, o filme mostra a história de William Walker, um enviado da Inglaterra que "ajuda" os escravos negros a se livrar de seus senhores. A coisa se complica quando esses mesmos negros se voltam contra Walker, que afinal era apenas um novo explorador. Brando consegue refinar Walker. Ele é apenas um funcionário da Inglaterra, sem opiniões e sem nenhuma paixão. Faz um jogo impecável, obtém o poder para os ingleses, mas não vê nada de glorioso ou de errado nisso. Marlon Brando foi um gênio. O filme é muito bom, uma soberba aventura marxista. Um tipo de western de colonizados. Nota 8.
   O PIRATA de Vincente Minelli com Judy Garland, Gene Kelly e Walter Slezak
Numa ilha do Caribe, moça sonha em conhecer o famoso pirata Mococo. Mal ela sabe que seu ridiculo noivo é Macoco. Kelly faz o papel de um ator de circo, que para a conquistar finge ser o pirata Mococo. Músicas de Cole Porter em filme que não é um dos geniais musicais da época, mas que está longe de ser vulgar. Hiper colorido, alegre, cheio de vida e com belas canções, seu ponto fraco são as coreografias. Minelli e Kelly fariam bem melhor em outros filmes. Nota 6.
   ORFEU de Jean Cocteau com Jean Marais, Maria Casares, Marie Dea
Ou voce ama ou odeia. Cocteau traz o mito de Orfeu para a França de 1950. Para gostar voce deve se despir de linearidades e razões. O filme é só poesia. As coisas acontecem como em sonho e Cocteau tinha o dom para isso. Vê-lo é de certa forma como sonhar. Em dado momento voce perde a certeza de estar vendo um filme. Porém, se voce procura uma história emocionante ou um espetáculo, fuja. Os filmes de Cocteau, em que pese sua poesia, sempre resultam frios, distanciados. A fotografia é belíssima e surpreende a elegãncia francesa de então. São belas roupas e belos décors. Nota 7.
   PLANO DE FUGA de Adrian Grunberg com Mel Gibson
Mel Gibson era um excelente ator de ação. Como Bruce Willis, ele conseguia fazer tudo o que Stallone ou Arnold faziam, mas com muito mais humor e uma dose refrescante de hironia e inteligência. Mas após os Oscars de Braveheart Mel pirou. Aqui ele volta a ação pura e consegue ser outra vez o ator irônico que eu e minha geração adoramos. Mas o filme não é digno dos talentos do ator. É um desses filmes que tem prazer em mostrar dor, sujeira, destruição e vísceras. Ele é um americano em prisão mexicana. Lá ele tenta se dar bem. E é só. Eis a estética do cinema deste século: o prazer em se ver coisas sendo destruídas e sangue espirrando.  Moral: O mundo é uma merda. O filme também é.
   YOUNG AT HEART ( JOVEM NO CORAÇÃO ) de Gordon Douglas com Doris Day, Frank Sinatra, Gig Young, Dorothy Malone e Ethel Barrymore
Uma surpresa. O filme mostra aquilo que se conheceu como a tipica familia americana feliz. Uma familia de musicos felizes com três irmãs. Duas namoram, Doris não. Chega a vizinhança um alegre, confiante e rico compositor. Não, não é Sinatra, é Gig Young. Doris se enamora dele. Mas ele tem um amigo, e só no meio do filme surge Sinatra. E que impressão ele causa! Mal humorado, pobre, pessimista, Sinatra faz uma imitação de seu amigo Humphrey Bogart que magnetiza o filme inteiro. E quando ele canta, com sua voz no auge da forma, tudo fica muito mais real. Doris foge com ele e juntos passam momentos ruins. O filme, que surpresa, é muito bom. Tem a doçura saudosista da América em seu apogeu, e também anuncia a amargura daquilo que estava reprimido. Doris é encantadora. Nota 8.

Man Ray Part 6



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ROGER SCRUTON E A VERDADE DO QUE É BELO

   André Assi Barreto escreve na revista Filosofia sobre Roger Scruton. Eu nunca tinha ouvido falar de Scruton, pensador inglês nascido em 1944. E já aviso: sou partidário dele. Outra coisa, ele é considerado um "lutador por causa perdida". Ótimo. Eu também sou. Vamos ao que André fala sobre Roger.
   Marcel Duchamp colocou um mictório como obra de arte. E a partir de então, tudo pode ser arte. Em 1960 chegou-se ao ponto de lata cheia de bosta de um artista ser exposta como arte. Arte passou a se confundir com "chamar a atenção da midia", criar algo de sensacional, e convenhamos, é muito mais fácil criar sensação mostrando merda ou vísceras podres de um boi, que criando beleza original. Esse é o ponto central de Roger Scruton. O mundo só poderá ser salvo se o conceito de belo for salvo.
   Artistas modernos se defendem dizendo que o público que os renega não tem a linguagem e a sensibilidade para os entender. Desculpa tola. Picasso era moderno e belo, assim como Pollock e Kandinsky. Não se trata de negar toda a arte do século XX, mas sim separar os espertalhões dos artistas.
   Scruton foi tema de programa na BBC. Sua tese central é a de que a beleza é tão verdadeira e eterna no homem como é a bondade e a verdade. O homem aspira a beleza como aspira ao bem e a verdade. Em 15000 anos de cultura esse valor sempre esteve presente e não são meros cem anos que podem destruir esse fato. O homem tanto aspira ao belo que assim que pode,  procura praias, montanhas ou recantos "belos". Há em Londres um fenômeno interessante, lojas que estão instaladas em imóveis vitorianos são muito mais valorizadas que aquelas em locais modernos-feios.
   Mas desde ao menos 1910 se faz essa confusão entre o sensacional e a beleza. Artistas incapazes de produzir qualquer coisa verdadeiramente artística passaram a desvalorizar e a zombar do que fosse "apenas" bonito. O feio passou a significar coragem e verdade, a beleza seria mentirososa e passadista. Ora, por mais de dois mil anos a arte serviu como consolo, elevação espiritual, meio de refinar o gosto. Pois a arte hoje aumenta a dor, promove o rebaixamento e esteriliza a sensibilidade. É como se ela tivesse a função de nos acostumar ao pior, ao mínimo, a conformidade da vida das fábricas, da violência e da dor. Seria isso por acaso?
   Se antes a arte dava sentido a vida, hoje ela quer apenas causar impacto. Profanar o sacro, cultuar o feio, promovendo assim a confusão, o vale tudo, o tudo pode ser arte. Isso nos lembra algo? Não é essa exatamente a tese do mercado? Tudo pode ser um produto, desde que bem divulgado. Sendo agressiva, sensacional, contra alguma coisa, a arter se torna "útil". Como dizia Oscar Wilde, o primeiro mandamento do belo e da arte é ser "completamente inutil". O que há de útil em uma música bonita, uma pintura bela ou um filme lindo? Mas "os artistas" fazem músicas sujas, pinturas terríveis, filmes duros e violentos, seriam obras úteis, ou são assim vendidas. Teriam a função de abrir olhos. Olhos para ver o que? Mais coisas feias.
   Construir e vender um prédio feio como moderno e social é muito mais fácil que tentar construir um prédio belo e apenas isso, Belo. Não se esqueçam disso.
   Fruir o belo é uma atividade inutil. Desinteressada. Como o amor ou a amizade, não há um objetivo aqui. A utilidade prática fica em segundíssimo plano. Na arte clássica esse era o objetivo: a arte como bálsamo e elevação de consciência. A criação era valorizada. Belo era o criativo, o vitalista, o potente. Agora se valoriza o banal, a quebra de tabús, a exaltação de sentidos. Tudo isso parece útil e criativo, Scruton mostra que o banal é realmente banal e a quebra de tabús é apenas histeria impotente. Não se cria, se odeia aquilo que outro criou.
   Roger Scruton só poderia ter nascido na Inglaterra. Dou um exemplo do que isso significa. Tenho um professor que em aula de literatura exaltou Balzac e Stendhal ( que adoro ), às custas da Inglaterra. Para ele, a literatura inglesa do século XIX é um nada absoluto, enquanto a francesa é o máximo. Sua explicação é a de que "enquanto a França fala de temas modernos, a Inglaterra ficou presa ao passado e a livros infantis!". Pois eu disse, isso é um ponto de vista. Posso dizer que a literatura francesa se resume ao tédio de esposas traindo maridos e caipiras querendo viver em Paris. Enquanto que a Inglaterra se preocupava muito mais com a criatividade, com o absurdo, o excêntrico e o humor. A resposta de meu mestre? Conforme-se então com seu David Copperfield.........
   Falei isso para voltar a Roger Scruton e dizer que ele culpa Foucault, Deleuze e que tais pela filosofia que prega o "tudo é válido, nada tem hierarquia, cada voz deve ser ouvida". Scruton vai ao cerne: Se tudo é válido então ouvir um Nobel falar sobre a escrita tem o mesmo valor que um semi-analfabeto?
   Estamos proibidos de falar que uma cultura é superior a outra. Não podemos condenar a escravidão feminina em certas nações, "pois é a cultura deles". Tudo se tornou relativo, e nesse universo não se pode dizer que o belo é melhor que o feio. A resposta do fã de Foucault sempre será: "O que é o belo? .."..E após essa pergunta ( na verdade sem sentido ), o relativismo se impõe e o belo se perde. Todos sabem o que é belo como sabemos o que seja bom ou verdadeiro. Relativizar é fugir da verdade.
   Dizer, como dizem os franceses, que só existe Gosto e não o Bom Gosto é falso. É como falar que não existe o bom e o mal, o feliz e o triste, o certo e o errado.  Esse relativismo é um totalitarismo. Brutal.
   Com a palavra Scruton: " A beleza pode ser consoladora, perturbadora, sagrada, profana, hilariante, atraente, inspiradora. Afeta-nos em variadas maneiras. Mas nunca é vista com indiferença. Fala a nós como um amigo íntimo. Se existem pessoas indiferentes à ela, é porque perderam o poder de olhar."
   Roger Scruton é filósofo por Cambridge. Segue Platão e Kant. Acredita na aristocracia pré-Segunda guerra. Reacinonário assumido, rejeita toda militãncia politica. Como todo reacionário, Scruton é "santo padroeiro das causas perdidas". Tem livros sobre música, o pessimismo, e a supremacia da cultura Ocidental.  Altamente rejeitado pela inteligência acadêmica oficial, principalmente por suas críticas ferozes a Foucault, Derrida e o multi-culturalismo.
  Seu jogo já está perdido. Mas quem ganhou, ganhou o que???