A PRAIA SELVAGEM e O ÍDOLO CAÍDO-ROBERT LOUIS STEVENSON

   Me surpreende sempre observar como Stevenson tem boa acolhida neste blog. Sempre que falo desse autor escocês logo vêem respostas. O motivo é claro, Robert Louis Stevenson toca em sentimento muito vivo hoje. Ele é um desenraizado.
   Faz parte daquele grupo de europeus do fim do ´seculo XIX, que cansados dos excessos da época ( racionalismo, moralismo, militarismo ), procuravam ares mais livres em lugares como o norte da África ou os mares do sul. Stevenson foi pra Polinésia, e não pense que lá achou o paraíso. O que encontrou foi um misto de vicio sedutor e inferno pacífico. Eis o livro.
   Ele tem dois contos. O primeiro é A Praia Selvagem. O que temos aqui é o medo. Um negociante inglês chega a ilha de mares tropiciais. Tem dificuldade em se estabelecer e ainda enfrenta um comerciante que invoca feitiçaria para o subjugar. O clima é opressivo. O tom é de aventura.
   O segundo conto se passa na Inglaterra. É sobre o amor de dois jovens. Um amor que dá errado por causa de um pai rígido e de um outro bêbado. Há um final feliz bastante artificial. Mas é estranho, esse falso final feliz deixa o conto ainda mais triste...
   Stevenson faz parte do time dos escritores que escrevem "enredos". Eles não são formalistas, não são fissurados por estilo e modos de escrever. O que procuram é contar uma boa história, cheia de eventos, de fatos e de gente. Nesse sentido Stevenson é soberbo.
   Um bom livro para se ler num bom sofá sob a luz de um abat-jour de canto. Acho que voce me entende, não?

Anouar Brahem : Le pas du chat noir



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LE PAS DU CHAT NOIR- ANOUAR BRAHEM

   Indo para a USP. Trãnsito parado. Anouar Brahem em cd. Muda tudo. A música tem esse poder. O ritmo artificial do trãnsito parado e dos motores cessa. A música traz a paisagem o ritmo da própria paisagem. Olho o canteiro sujo, as casas velhas e o mato na calçada. Olho as pessoas que caminham, o sol no céu e um sabiá que levanta vôo. A fumaça que o carro da frente expele, a moto que corre. O ritmo é outro.
   A vida tem uma velocidade, o gato que anda tem sua música. A água evapora em tempo todo seu, a planta cresce em dança que não capturamos. Mas agora eu a capturo. A música é esse mundo da planta crescendo.
  Anouar Brahem mistura música árabe com Debussy. Etéreo. Ele é todo sutileza e relaxamento sensual. Seda. A música nasce e não acontece. Ela dá a impressão de não existir. São fiapos de melodia e imensas harmonias. Piano que divaga, acordeon que não nasce e o oud, instrumento de corda que seduz sussurrando.  A música é uma constelação de interrogações. Se Wagner, o rock e as big bands são afirmações triplas, aqui o sinal é o da interrogação. Onde irá a melodia? O que é esta sinuosidade? Porque é assim?
  As sombras das árvores passam sobre meu carro e eu quase saio de mim.
  Quem precisa de drogas?

The Who - The Seeker EU ADORARIA QUE MINHA VIDA FOSSE MÚSICA DE COLE PORTER CANTADA POR FRED ASTAIRE....MAS ELA É ESTA CANÇÃO!!!!!!



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O ROMANCE DE TRISTÃO E ISOLDA- JOSEPH BÉDIER

   Denis de Rougemont, em seu livro sobre o nascimento da paixão, revolução mental ocorrida por volta de 1.100/1.200, cita por várias páginas Tristão e Isolda como o símbolo máximo do que seja a paixão como o Ocidente a entende. Pois bem, finalmente leio sua lenda, em versão do final do século XIX, mas que conserva todo seu medievalismo. O que posso falar? É das coisas mais fortes que já li.
  Tristão desde sempre cresce como um ser marcado. Ele não tem uma familia e é adotado por um rei. Primeiro fato: Nossas recorrentes fantasias de termos sido adotados, de termos um pai "de verdade" em algum lugar. Pois bem, Tristão é triste ( vem daí seu nome ), e vai à Irlanda para trazer ao rei sua noiva, a bela Isolda. Mas os dois, em mero acidente do destino, bebem de uma poção que faz deles apaixonados. Ou seja, eles não são donos de sua paixão, ela é uma armadilha que independe de vontade. Nada pode ser mais modernista que essa ideia. Daí para a frente o que os dois vivem é um eterno sofrimento, "mesmo quando estão juntos". A ideia que Isolda repete sempre, e que é o mote de toda a arte sobre a paixão desde então, é: "Impossível viver sem ele, impossível viver com ele".
  Não pense que temos aqui um simples livro sobre amor proibido ou infidelidade. Não! O rei compreende o amor dos dois, ele ama a Tristão, compartilha de sua dor. O que nos deixa surpresos é que a felicidade dos dois seria simples de alcançar, fácil, sem nada de tortuosa. Mas eles não percebem isso. Ou melhor, não desejam a felicidade. Eles optam sempre pela dor.
  É impressionante como os dois fazem de tudo para serem infelizes. Estão sempre partindo, se separando, tentando vencer a paixão, terminar a relação...e todo o tempo voltam derrotados, se reencontram e são felizes por apenas um ou dois dias, para logo retornar o medo, a dor, o compromisso com o rei e com a sociedade. Tristão irá até mesmo se casar com outra, em vão, e Isolda tentará ser a boa esposa do rei, é derrotada. O destino brinca com os dois e desde o começo eles sabem que somente a morte poderá os unir definitivamente.
  O livro nos coloca no mundo medieval. É um mundo de violência. Se mata muito, cabeças decepadas são exibidas como troféu e dadas como presente. Mas o amor dos dois, apesar de conter sexo, é estranhamente casto. Há algo de etéreo nesse amor, nessa paixão, eles se abraçam e não mais se soltam, dormem nos braços um do outro, vivem em realidade de devaneio, não percebem nada do que fazem um com o outro. Sofrem, e jamais querem terminar com esse sofrimento. Suas separações nunca são separações, são ingredientes que temperam a relação violenta dos dois.
  Acontecem momentos em que a paixão parece morrer. O modo como Tristão sente Isolda quando ela "termina", para quem já passou por isso, é perfeito. Tristão vê e sente Isolda matando o sentimento, nesse momento o livro alcança alturas absurdas. Como é absurdo, e tão verdadeiro, o modo como ele enlouquece e a forma como Isolda não o reconhece. Ele se faz outro, o amor se vai, e ela o vê como um estranho. Mas a paixão volta mais tarde e os subjuga pela última vez.
  Quem já se apaixonou sabe: a paixão é uma forma de morrer. Morte em vida, morremos para tudo o que existe, menos para a própria paixão. Flertamos com a loucura, com a destruição e estamos sempre suspirando de dor e de tristeza. Porém, estranhamente, vivemos. Cada segundo é um segundo sem igual. Cada dia é um "torneio", uma "justa", um acerto de contas. As noites parecem explodir, os dias nunca se repetem, tudo dói e tudo vive.
  Tristão e Isolda viverão enquanto a paixão existir. Enlaçados e com uma espada entre seus corpos, transformados em espinhos, floridos nas manhãs, suspirando.

An Evening with Fred Astaire Part 5/6....ME PEDIRAM UMA DEFINIÇÃO DE SOFISTICAÇÃO...EIS A RESPOSTA



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UMA QUESTÃO DE CIVILIDADE

   Se a civilidade é um valor a ser desejado, e eu creio que é, nosso dever é lutar para que ela seja sempre predominante.
   Civilização é o oposto da violência. Sim, eu li Pondé e concordo que eu e voce somos violentos. Isso é biológico e histórico. A civilização é a tentativa de se domar esse impulso. Bela criação, a luta, inglória, para se deter um impulso natural. Portanto o civilizado é sempre artificial, criado pelo homem em negação ao puramente animal.
   A civilização então é anti-violenta e sendo assim, anti-natural. Ela vai contra a violência física, mas também a violência das paixões, e nelas podemos incluir o ódio, a vingança e as dores em geral. O homem civilizado não sente ódio, ele usa o humor contra seu inimigo. Ele não se apaixona, ele desfruta do amor. Não sofre inutilmente, ele canta ou sai para espairecer. Aqui fica claro: o civilizado não existe no mundo real. Ele é um ideal a ser perseguido e jamais obtido. Um homem ou uma sociedade civilizada é aquela que não desistiu da busca.
   Creio também que a civilidade se manifesta no modo como as mulheres são tratadas. Ela nasce com o fim do estupro, o controle do instinto e se desenvolve no modo como o homem se aproxima da mulher. Mulheres civilizam o homem, o modo como ele reage a isso demonstra sua civilidade.
  Por isso que Fred Astaire é o ponto extremo da civilidade em música. Ele é o oposto mais radical a funk ou coisas afim.
  Astaire canta sempre com calma, lentamente. Não há pressa em sua dicção, cada palavra é dita com precisão, de um modo delicado e sem jamais perder a firmeza da virilidade. As letras existem para serem entendidas e elas falam de mulheres como seres com valor. Elas são seduzidas, nunca "pegadas". Ouvir Astaire é um ato politico porque é uma tomada de posição. Contra a violência, contra a pressa e o ruído. Tudo é feito com cálculo, o senso da beleza está sempre presente. É um mundo ideal, onde os automóveis estão sempre limpos, a bebida sempre gelada e as ruas são pistas de dança. Um mundo que não existe, mas com o qual pessoas civilizadas têm compromisso.
  O cd que a Abril lançou ontem tem uma amostra dessa civilização. É o grau mais alto em elegãncia a que chegamos. Combina bem com P.G.Wodehouse, George Cukor e Mondrian. Desfrute.

FAMA E ANONIMATO- GAY TALESE

   Um amigo me empresta este livro. Entre baforadas de um cigarro esquisito ele me diz: "É do caralho!" Bem, eu o leio em dois dias. Do meu modo, entre doses de suco de laranja e rosquinhas de passas eu falo: "Deveras!"
 Gay Talese foi um dos pioneiros do Novo Jornalismo, e este livro tem de ser lido por todos aqueles que um dia quiseram trabalhar em jornal. Assim como Kane desperta desejos de fazer filmes e o Velvet Underground o desejo de montar uma banda, Talese deu a um monte de moleque a vontade de fazer reportagens. Mas, triste saber, o próprio Talese diz que esse estilo de reportagem acabou. Hoje os caras fazem toda a matéria sem sair da redação, via internet. Caraca! Chegam a cobrir uma tragédia urbana sem ir ao local do fato! Conclusão: Noticias frias, anônimas, de pouco detalhe ou vida. Impessoal.
 O Novo Jornalismo era jornalismo por se ater ao fato, a verdade, ao ocorrido, o Novo era o estilo, escreviam como romancistas. A reportagem se parecia com literatura, mas não, óbvio, a literatura empolada, era um tipo de Heminguay. Este volume contém um monte dessas matérias de Talese. É diversão, é informação e é arte. Sim, arte. Em três matérias ele atinge a altura do melhor da prosa do século XX.
 Basta ler o texto que abre o livro. Talese anda pela New York dos 50's e observa os tipos que encontra. Em frases simples e curtas ele fala dos estranhos retalhos de humanos que vivem e trabalham na cidade, dá os números de lojas originais, profissões bizarras e estatísticas insuspeitas. Aqui ele nada deve ao melhor de Cheever, Mailer ou Capote. O texto faísca em humor, em urgência e em criação. E nunca perde seu aspecto de jornalismo: informação e verdade factual.
 Gay Talese escreve então o melhor texto sobre Sinatra sem entrevistar Sinatra. Ele apenas o segue, pega informações e descreve a preparação de um especial de TV com o cantor. O que vemos é um Sinatra fragilizado, inseguro, e ao mesmo tempo forte, agressivo, protegido. Das páginas irrompe um homem-mito completo, o enigma permanece, mas muito dele é revelado. Obra-prima.
 Mas a coisa fica melhor ainda. O Perdedor é um soberbo texto sobre Floyd Patterson, ex-campeão dos pesados que vive recluso e disfarçado após perder duas vezes. Talese entra no cotidiano de Floyd, ouve e vê sua vida, está lá. Patterson se revela. Tem medo, tem raiva, tem arrependimento. Há uma cena na saída da escola da filha do pugilista que é antológica. Penso, e o texto confirma, que o grande campeão se mostra grande na derrota. Floyd é grande como homem e como motivo de matéria. Talese sabia tudo de escrita rápida.
  Há ainda matérias boas com o diretor de teatro e cinema Joshua Logan e com o grande Peter O'Toole. Peter voltando a Irlanda e demonstrando seu ódio ao país e as freiras que arruinaram sua vida. No auge da fama, Peter bebe e joga nos cavalos, paquera e é muito assediado, e enfim conta sua paixão pelo teatro. Um tipo esfuziante, um cara original, um dos meus atores mais amados.
  George Plimpton foi um ricaço que aos 26 anos em 1952 foi pra Paris fazer uma nova revista. A revista foi a Paris Review que publicou Philip Roth, Irwin Shaw, William Styron e James Baldwin. A redação era uma festa, o apartamento de George era uma festa. Corriam de touros em Pamplona, lutavam boxe, bebiam, ouviam jazz, viviam em roda viva. E eram donos da melhor revista. Em 1956 mudaram de rota, foram pra New York e lá fizeram tudo igual. Gente exótica no apartamento de George, redação anárquica, festas e festas e festas. O que eles queriam afinal? Ser Heminguay. Não sabiam que nem Heminguay foi Heminguay.
  Um texto sobre a Vogue. Hilariantemente delicioso.
  Joe Louis. Apesar de Ali e de Sugar Ray, não estranhe se alguém falar que Joe foi o melhor. Talese acompanha Joe Louis aos 48 anos, em sua rotina diária. Um cara que lutou pela causa negra nos tempos mais duros ( anos 30 ), um simpático exemplo para os negros. Um texto solar.
  Deixo o melhor pro fim. No texto sobre Joe DiMaggio, o astro do beisebol que foi marido de Marilyn Monroe e talvez o grande amor dela, Gay Talese atinge o sublime. O que vemos é um herói completo. Triste, lutador, cheio de segredos, ético, teimoso, vitorioso, desiludido. Pungente, emocionante, que me comam se este não é um dos melhores textos do século.
  Valeu amigo. Concordo com voce, livro do caralho!

CASCAS DE LARANJA, PETER SINGER, CLASSE C, FALSIDADES

   A nova classe média brasileira é uma mentira. Como diz Tales Ab'Sáber, são pobres que vivem em pobreza absoluta. Não têm acesso a educação e a saúde. Vivem na sujeira, na violência e em mundo de trabalho árduo. O que essa nova classe faz é consumir. Se antes o pobre não existia para a TV e os marketeiros, hoje são alvo. Consomem pobreza, compram produtos classe C. Continuam na miséria, mas vivem na ilusão de poder consumir. Comprar lixo. Isso faz parte da grande pacificação do Brasil ( e do mundo? ). Voce continua na merda, mas não reclame, afinal voce pode jogar, comprar e ter acesso a uma praça de alimentação.
   O caráter da pobreza foi apagado. O pobre antes tinha sua cultura da miséria. Sofria muito, tinha necessidades que não eram atendidas, mas era deixado livre para não consumir, não desejar o que nunca poderia ter, criar seus desafogos. Agora ele é acossado por apelos, cobranças e sonha com o que jamais terá. Cai na ilusão de um plano de saúde que é mentira, uma faculdade que nada vale, e aparelhos bonitinhos que são obsoletos já no ato da compra.
   Isso se reflete na arte. Para poder filmar, gravar ou escrever, é preciso entrar nesse jogo. Empobrecer a obra para poder ser mais um da nova classe média. Não mirar a elite ( que mentalmente também se faz classe média C ), e jamais pensar na pobreza real ( a nova classe C nega sua miséria ). Fica  então uma arte pobrezinha com brilharecos de pseudo-requinte. Uma sub Hollywood. Ou uma MPB classe C, pobreza disfarçada de ouro falso. Era muito melhor o pobre assumido, o samba crú do morro, o caipira tosco, o cinema popular vulgar, o cinema de arte marginal. Melhor por ser real.
   Peter Singer é um dos mais importantes pensadores de agora. Sua filosofia é a do Utilitarismo. Sua ideia é simples: tudo o que fazemos deve beneficiar o máximo de seres vivos. O que prejudica deve ser descartado. Tudo o que pode ser feito sem sofrimento deve ser feito sem sofrimento. Simples, óbvio e pouco usado. A coisa deve ser absoluta. Singer não tolera o sofrimento animal. A dor que damos ( sem motivo ) aos outros seres vivos traz consequencias a nós mesmos. Cada ato de violência contra um animal aumenta a presença de atos violentos no mundo. Nos acostumamos a crueldade e a ignoramos. Fingimos cegueira. Mas sabemoso o que é feito para que possamos comer um bife. A transformação da vida em máquina. É o mesmo processo que permitimos ser executado em nossa vida. Se o boi pode ser confinado e tratado como máquina de proteína, então aceitamos também sermos confinados e tratados como máquina que deseja e nunca obtém.
   Seguindo em meus pensamentos.... Ortega y Gasset: " A multidão se tornou protagonista. Não existem mais solistas ou personagens principais. Só o coro restou."
   Todas a crenças são rigorosamente falsas, incluindo-se a crença na descrença.
   Todas as crenças são verdadeiras. Incluindo a crença na descrença.
   Todo sistema totalizador ou autotélico é um sistema metafísico, por mais que se queira secular e posterior a morte de Deus.
    Os inventores de origens, no fundo, sempre acabam acreditando nas mentiras que um dia contaram para si.
    Michael Foley é o cara. Ou não. O que ele fala:
    A venda de laranjas diminui muito no mundo como um todo. Ninguém mais quer se dar ao trabalho de as descascar. No futuro alguém irá morrer de fome com uma laranja na mão. Não saberá o que ela é.
    Isso é a extrema infantilidade de nosso tempo. Como bebês, esperamos que a mamãe nos dê o suco pronto.
    O mundo atual nega a responsabilidade individual. Tudo o que fazemos pode ser creditado a genética, a evolução ou a neurologia. Nos fazemos escravos de um tipo de determinismo que em nada difere do pior das tiranias. Voce é o que é e nunca é responsável por seus atos. Não escolhe.
   Dito tudo isto, vou agora descascar minha laranja.

CECILIA MEIRELES

    Cecilia Meireles é uma daquelas autoras que deveriam ser hoje muito lidas. Para nosso tempo é ela um antídoto. Não porque seja ela "antiga", mas sim porque ela se debate com nossos problemas e dá a eles escapes poéticos. Cecilia era um anjo, era linda e tinha uma vocação poética gigantesca. Ela olha as coisas com olhos de eternidade. Seu mundo, que é o meu, não é feito de homens e de História, é antes mundo de pedras, formigas, ventos e de solidão, uma solidão que não é sózinha pois habitada pelo amor às coisas. Sagrado.
   Este minúsculo livreto contém crônicas de Cecilia. Mas serão crônicas ou poemas? São peças de sentimentos de poesia, diário sem data de vida em olhares claros. E como ela sabe olhar! Vê a vidinha boa de um cão amigo num tempo em que o amor aos cães ainda era esquisito. Aliás ela antecipa todo o tempo a onda verde, ela chora matas perdidas e paisagens corrompidas.
   E ela olha albuns de fotografias, vê o valor nos trabalhadores braçais, se indaga sobre a vida dos peões, imagina a existência dos bichos. Fala dos brinquedos e dos Natais mudados. Cecilia nos anos 50 já lamenta o comercialismo do Natal e pede o resgate do simbolismo original. E fala ainda da morte dos lutos, do fogo na floresta, chora um gato morto por moleques e se espanta com a dor de ter visto um cachorro doente e abandonado na rua. O sentimento dela vem dessas coisas, pois ela mesma sabe, ela é o cachorro velho e abandonado, ela é o gato judiado, ela é a floresta que queima. E é também a criança do Natal, a alegria dos brinquedos, as fitas que enfeitam os vestidos.
   É doce ler Cecilia, é doce é triste. É lindo.

Kinks - Waterloo Sunset [Excellent quality]



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ENCERRAMENTO: OLIMPÍADAS 2012, A FESTA

   Prefiro ignorar o fato de que George Michael parece hoje um cover de si-mesmo. Ou da assustadoramente ruim coisa pomposa chamada Muse. A forçada de barra com cantores pseudo-novos e com uma cantora ( quem? ) deixando Brian May constrangido com sua interpretação fake e vergonhosa de We Will Rock You. Os novos ingleses têm cara de almofadas.
   Prefiro dizer que o cara que escolheu os artistas acertou na mosca ao abrir com Ray Davies. O inventor do mais inglês dos estilos de rock abre a festa com Waterloo Sunset. Velho e desafinado. Mas andando pelo palco e sendo lembrado por bilhão de pessoas. Ah que justiça! Viva! The Kinks.
   E tudo termina com a mais amada e heróica das bandas inglesas: The Who. faz-se a ponte. De Kinks a Who, passando por Oasis, Queen, Lennon e Fatboy Slim. A entrada de Pete Townshend e Roger Daltrey com Baba O"Riley é sempre um êxtase. Assisti a festa com casal de amigos. Vibraram como eu. Ficamos horas falando do Who. É o teste do rock: Gostar deles é gostar de rock.
   O Brasil entrou simplesinho, simpatiquinho. Tom Jobim dizia que o Brasil tinha de se fazer digno da Bossa Nova. Se tivesse entrado com harmonias de Jobim seria lindo. Mas ficou uma coisa meio de samba e indio pra turista. O Brasil quer ser moderno e não toca em Jobim e Carmem Miranda. Tasca samba e indio. Estranho.
   Me falaram que teria Bowie. Ele foi homenageado. Mas não veio. Onde está Bowie?
   A cerimônia pedia o Queen e clamava por Bowie. Que pena....Mas vieram as Spice e os Pet Shop...triste consolo....
   O melhor? Ver Eric Idle. Aplaudido e com todo o povo cantando a canção da Vida de Brian. Caramba! Eles amam os Monty Python !!!! Só isso valeu  o show.
   Repito tudo o que disse antes. A festa deixa a sensação de que a Inglaterra virou um mero estado dos USA. Mas pelo menos souberam escolher. Ray Davies e Who.
  
  

MASTROIANNI/ SEAN PENN/ MARILYN/ GERMI/ RENOIR/ JACQUES TATI

   QUINTETO IRREVERENTE de Mario Monicelli com Ugo Tognazzi, Philippe Noiret, Gastone Moschin
Delicioso! É a continuação de Amici Mei, sucesso feito sete anos antes. Os velhos amigos continuam aprontando suas pegadinhas de adolescentes eternos. Monicelli tinha o segredo da comédia. O filme é feliz. Se voce tem amigos antigos irá se identificar com algumas situações. Maravilhoso tempo de comédias adultas. Comédias que falam de coisas sérias sem jamais parecerem forçadas. Tognazzi dá um de seus shows habituais. É um filme que mostra a alma masculina de forma bem verdadeira. Nota 7.
   A VALSA DOS TOUREIROS de John Guillermin com Peter Sellers
Um dos vários desastres que Sellers estrelou. Tudo dá errado inclusive ele. Zero. PS Eu adoro Sellers.
   O SACI de Rodolfo Nanni
Uma raridade ( que com o dvd deixou de o ser ). É o primeiro filme infantil feito no Brasil. Conta o episódio do Saci no Sitio do Pica Pau Amarelo. Simples, bem feito, tem um gosto de nostalgia, de pé no chão. Ele captura maravilhosamente a infância como ela é. Ou era? Nanni virou professor de cinema na FAAP. Há uma boa entrevista com ele feita em 2006. Nota 6.
   O PRÍNCIPE ENCANTADO de Laurence Olivier com Marilyn Monroe e Laurence Olivier
Este é o filme cujos bastidores foram dramatizados em 2011 no filme que deu indicação ao Oscar para Michelle Williams. Aqui vemos Monroe como uma corista que é convidada por duque do leste europeu para jantar na embaixada. Os dois não combinam, se agridem, e quase se apaixonam ao final. Esse fim não é doce demais, chega a ser azedo. Olivier tem seu filme roubado por Marilyn que está muito inspirada. Ela entra em cena e o filme é só ela. Olivier se exercita em um de seus prazeres: inventar sotaques. Peça de Rattigan que aqui se deixa ver com prazer. Para quem gosta de Marilyn ou de coisas very british é obrigatório. Nota 6.
   DOIS VIGARISTAS EM NOVA YORK de Mark Rydell com James Caan, Diane Keaton, Elliot Gould e Michael Caine.
Poderia ser ótimo, mas tudo falha. Porque? Os personagens são mal escritos. Caan e Gould, no auge da fama, são dois malandros atrapalhados que tentam dar um golpe em Caine, o maior malandro da América. Keaton faz seu tipo habitual, uma feminista histérica. Caine está bem, faz um super star do roubo. Quando o excelente Golpe de Mestre ganhou um monte de Oscars e dinheiro em 1973, uma fila de produtores se formou. Todos queriam fazer o seu Golpe de Mestre. Este é um deles. Nota 1.
   DIVÓRCIO À ITALIANA de Pietro Germi com Marcello Mastroianni, Daniela Rocca e Stefania Sandrelli
Como é bom ver Marcello!!! Aqui ele é um siciliano, nobre decadente, que é casado com repulsiva esposa melosa. Ele se apaixona por sua jovem prima e vizinha. O filme, dirigido pelo expert Germi, é cheio de cortes abruptos, frases ferinas e varia entre o humor amargo e cenas patéticas. Marcello tem uma de suas grandes atuações. Seu tipo, de bigodinho fino, cabelo empastado, ansioso de desejo, atrapalhado, é inesquecível. Uma obra-prima de criação e de estilo de interpretar. Mas o filme é muito mais. Temos a trilha sonora de Rustichelli e um roteiro brilhante que foi indicado ao Oscar ( e na época era muito raro indicarem qualquer coisa não anglo-americana ). Nota 9.
   A REGRA DO JOGO de Jean Renoir com Gaston Modot e Marcel Dalio
O revejo para celebrar a lista da Sound and Sight em que ele é o quarto melhor filme. Tenho uma relação complicada com este filme. Quando o vi pela primeira vez não gostei. Na segunda vez eu gostei um pouco. Agora foi a terceira. E finalmente entendo onde está seu gigantismo. Vemos um aviador que quebra um recorde mundial. Logo o tema muda, é a relação de um casal muito rico que se trai amoralmente. Então vamos ao campo e o tema se torna uma caça aos coelhos. Mas surge um malandro e agora o foco é nos amores desse malandro com uma empregada casada. Vem então o tema da vingança e nessa altura já não sabemos do que trata o filme e esquecemos do tal piloto de avião. E é isso: o filme é o primeiro a não ter personagem central, tema ou enredo. Não tem hierarquia, não tem foco, nem moralidade. É absolutamente livre. Influência gigantesca sobre o cinema feito após 1960 ( que é quando ele é descoberto. Em seu tempo ninguém deu bola pra ele ). Sempre que voce assistir um filme com dúzias de personagens com histórias entrelaçadas e sem qualquer sentido de objetivo central, saiba, o diretor tem este filme como cartilha. Nota 9.
   AS FÉRIAS DE MONSIEUR HULOT de Jacques Tati
Falar o que? Nada acontece neste filme, mas e daí? Queremos que esse nada jamais termine. O que amamos é ver Hulot, ver aquela praia e conviver com aqueles personagens. Este filme, ainda hoje hiper original, é um dos mais prazerosos filmes já feitos. Tudo aqui é felicidade. Hulot vai passar férias na praia, e nós vamos com ele. É um dos mais amados filmes do cinema. Eu realmente o irei rever por toda a vida.. Nota MIL.
   AQUI É O MEU LUGAR de Paolo Sorrentino com Sean Penn, Frances McDormand e David Byrne
Sobre um astro dark do rock dos anos 80 perdido no mundo de hoje. Penn está ótimo. Ele faz uma mistura de Ozzy com Robert Smith e algo de Edward Mãos de Tesoura velho. Mas o filme é um lixo insuportável. A trilha sonora, fraca, é de David Byrne e ele aparece como ele-mesmo, um tipo de grã-mestre da arte...Como se pode fazer um filme tão boçal, morto, flácido, tolo, sem porque? Como pode algum crítico o elogiar? Arghhhhh!!!!!
  

ULYSSES, BARBARA GANCIA, HAVAIANAS, ROBERTO CARLOS E MONKEES

   Paulo Coelho não gosta de Joyce. Seria surpreendente se ele gostasse. Porque tanto blá blá blá? Paulinho conseguiu o que desejava. Ele vingou aqueles que não conseguem ler Joyce. Que leiam Coelho.
   A Cinemateca produz uma multi-facetada mostra de filmes silenciosos. É sua chance, voce pequeno preconceituoso, de descobrir as delicias do mais cinematográfico dos tipos de filme. Imagem pura, ação sem diálogos, filmes que independem da lingua do país em que foram feitos, o mais pop dos estilos. E com trilha sonora improvisada ao vivo. Vão passar O Gabinete do Dr Caligaris. Tenho péssimas lembranças desse filme. Assisti aos 16 anos, e apesar de ter o dvd, nunca tive coragem de reve-lo. Hiper doentio, me dá um medo horroroso. Ver esse filme de Robert Wienne é como entrar na mente de um louco.
   Os Monkees, amados, vão excursionar. Se viessem ao Brasil eu iria. E teria de levar calmantes, balão de oxigenio e lenços à mão. Sem Davy Jones não será a mesma coisa. Mas lá estarão Peter, Mickey e Michael. E aquele monte de canções estupendas. Monkees é a única banda fake que virou lenda. E seu programa de Tv era anarquia pura. Ácido para crianças.
   Roberto Carlos foi o cantor da primeira canção que cantei na vida. O tempo voa e ele permanece de pé. Assim como MacCartney consegue, sem esforço, ser a alma em música da Inglaterra viva, com tudo de bom e ruim que ela tem ( comodismo, romantismo simplificado, humor, harmonia e hierarquia ), Roberto é o Brasil. Ele é doce demais, suave demais, sentimental demais, saudosista demais e carola demais. E ao mesmo tempo é profundamente verdadeiro, sincero, comovente e consolador. Ele não ousa. Ele executa. Ouvir coisas como Detalhes ou A Beira do Caminho é tomar contato com os arquétipos imorredouros de uma nação. O tempo voa e ele cresce. No deserto da canção romântica deste mundo velho e cínico, Roberto Carlos é bálsamo de esperança.
   Barbara Gancia é sempre ótima. Um texto dela: "Onde estão os Ricos?" Brilhante e hilariante. Ela toca com pé de chumbo e humor de veludo em assunto que muito me interessa. Ou seja: Com essas camisetas simplesinhas, essas bermudas horrorosas e chinelos fedidos, ainda existem ricos? O que define a riquesa? Afinal, hoje todos se vestem como pobres, assistem coisas de pobre e falam como pobres. Existem ricos, ricos de verdade? Onde estão esses endinheirados que se vestem como ricos, se divertem entre ricos e usufruem apenas do que é exclusivo? Barbara fala das imagens do Brasil de 1950, onde, ao contrário de hoje, todos parecem ricos. Ternos de linho e camisas brancas alinhadas. O pobre virou lei geral?
   Dou meu palpite: Ditadura da democracia. Ser rico é uma vergonha. Ser feliz é ser personagem da novela das oito. E rico de novela se comporta e goza a vida como pobre. A única diferença entre classes é que eles assistem Batman em poltronas melhores e usam a mesma bermuda de pobre comprada em loja mais cara. Fora isso, é o mesmo mundo de churrasco, balada e chinelo.
  Pense nisso: Na vida ou voce crê em tudo ou em nada. Isso é coerência. Crer em tudo: Anjos, física nuclear, na história, no marxismo, na psicanálise, em Jung e nas religiões. Porque tudo é uma questão de fé e se voce admite uma, creia, voce admite a validade de qualquer outra construção da mente criativa. Ou descrer de tudo. Religião, história, poesia, Freud e Marx, Kant e Goethe, admitir que tudo é vã construção da razão FANTASIOSA e assim se despir de toda crença e se guiar apenas por SUA EXPERIÊNCIA DE VIDA. Esse é o pensamento do mais importante filósofo vivo. E ele é tão bom que deixa a hipótese em aberto. Creia em tudo ou creia em nada. Mas jamais cometa a bobagem de crer em uma coisa e negar outra, ou negar tudo menos uma única teoria. Voce deve ir fundo. Ser um homem aberto a tudo, ou ser um homem descrente de tudo.
   Pra finalizar: Eu adoro a Inglaterra. E abomino os ingleses vivos.