AMBROISE VOLLARD FALA DE SEUS ENCONTROS COM RENOIR

O amigo marchand, talvez o comerciante de arte mais mítico da história, escreve sobre suas conversas com Renoir. Agradáveis, reveladoras, solares. Como todo gênio, Renoir trabalha muito e ama seu trabalho. Para quem pensa que Renoir era um tipo de "amante da vida", uma surpresa: feliz ele foi, mas seu amor era pela pintura e ela tomava 99% do seu coração. Católico, Renoir dizia que os protestantes eram sombrios, enfadonhos, e que só conseguiam fazer coisas uteis. ( Não acho que ele estivesse errado. A alegria sensual em países como Alemanha ou USA é sempre um tipo de afronta ). Renoir, o homem que fez uma revolução, se mostra um conservador. Ele detesta carros, trens, a arte que vem depois dele, odeia a pressa, fábricas, barulho. Cercado de mulheres, principalmente a ex modelo que virou esposa, ele luta contra as visitas que não param de chegar, os compradores, a falta de tempo. Reumático, vemos o artista em sua cadeira de rodas, com os filhos Jean, o grande Jean Renoir, e Claude, que seria fotógrafo de cinema dos grandes. ------------------ Para quem não entende onde a revolução de Renoir: as cores. Eram consideradas erradas, fortes demais, não naturais. O desenho, era chamado de ruim, fraco, sem habilidade. Os temas eram chamados de vulgares. Mas ele logo venceu. Na maior parte de sua vida, quase 80 anos, foi rico. --------------------- Renoir foi o primeiro artista que chamei de favorito. Isso quando eu tinha 15 anos. Os nus voluptuosos conquistaram, óbvio, um adolescente que era meio tarado. As mulheres eram bonitas, alegres, felizes, radiantes. No livro Renoir não esconde o prazer de pintar uma bunda que reflete a luz. Seu horror era a pele opaca, sem brilho, sem cor. Depois eu descobri Gauguin, Matisse, Klee, mas Renoir foi o primeiro. ------------------- Outro fato interessante é pensar em como a pintura foi importante em certa época da história. E não foi por falta de riqueza na literatura ou na música. O impressionismo acontece no tempo de Flaubert, Mallarmée, Rimbaud, Debussy, Ravel, Bizet, isso para falar apenas da França. Entre 1860-1930, durante 70 anos, a pintura foi centro da vida intelectual. De Ingres e Delacroix até Picasso e Braque. Depois, talvez o cinema, as revistas, a popularização das câmeras fotográficas, mataram a pintura como arte central. Os novos pintores tentaram então expressar a alma ou o inconsciente e perderam o público. ------------------ Hoje volto a valorizar Renoir e não só eu. Ele se reabilita como clássico. Como monumento. Quem já viu uma tela de Renoir cara a cara sabe o efeito que ela causa. As cores parecem explodir, o desenho se move, ela nos chama, nos seduz, hipnotiza. E nos faz feliz. Era tudo o que ele queria. E venceu. Arte viva. Sensual, tem cheiro, canta, impressiona.