O USO DA POESIA E O USO DA CRÍTICA - T.S. ELIOT

   Este livro nos apresenta um série de palestras feitas por Eliot em Harvard, entre 1932-1933. Dryden é o primeiro poeta-crítico de quem ele fala. O que Eliot procura é investigar as definições e as utilidades antes dadas ao que seja poesia. No fim, a conclusão é de que não pode haver homogeneidade no que seja escrever ou ler poesia, mas se pode retirar alguns mitos, e é aí que mora o melhor do texto.
  O poeta é influenciado pelo meio e pela memória, e talvez toda criação nasça da lembrança, da reelaboração de memórias soltas. Mas, para lermos e para entender poesia é preciso NÃO procurar encontrar o sentido o que se lê e não ler com o mapa da vida do poeta em mãos. Ler poesia é se jogar para dentro do texto e só levar em conta aquilo que está escrito, nada mais.
  Uma das mais brilhantes teses é a que diz que POESIA NADA TEM A VER COM MISTICISMO OU RELIGIÃO. Claro, há poesia mística, mas a poesia não é uma substituta da experiência religiosa. Eliot diz que com a morte da igreja, sua crise, as pessoas tentam ter vivências religiosas FORA da religião.
  Racine escrevia, como Shakespeare, para a diversão de boas e decentes pessoas. Hoje isso seria considerado banal. O poeta é visto como um tipo de guru ou de xamã, o que é um absurdo. Poetas, a maioria, escreve poesia conscientemente, como trabalho lento, e não como êxtases divinos.
  Interessante observar que em 2016 cobramos experiências religiosas, sem religião, de shows de rock, psicólogos formais, filmes simbolistas, e até de encontros esportivos.
 

A VALISE DO PROFESSOR - HIROMI KAWAKAMI

   Japoneses comem coisas assustadoras. E bebem demais. Este livro, de uma das escritoras mais premiadas do Japão atual, fala de um bar em Tokyo. Lá, uma moça e um velho professor conversam. E comem. E bebem.
  Nunca marcam um encontro, mas sempre se encontram nesse balcão, por acaso, acaso que não é acaso. Ela tem 38 anos e é uma solitária bem resolvida. Ele tem 70, e é formal, rígido, professoral ao extremo.
  Hiromi escreve ao modo nipônico típico: curto, direto, seco. E estranhamente singelo. ( Primeira vez que uso essa palavra. Singelo é uma mistura de beleza simples com delicadeza não afetada ).
  Os dois viajam, caminham, se hospedam em hotel e voltam ao bar.
  E tudo termina como tem de terminar.
  Leia.

FINISHING TOUCHES - ELIZABETH HILLIARD

   Descobri um sebo cheio de ótimos livros de arte. E baratos. Compro alguns, dentre eles esta bela edição de 1992, inglesa, sobre decoração. Quem me conhece sabe que meu mundo se faz pelos olhos. Cinema, fotografia, pintura, arquitetura, tudo que é do olho me interessa. E decoração. Tenho alguns belos livros sobre o assunto e este é um dos mais bonitos e dos mais originais.
  ELE É ORIGINAL POR NÃO SER ORIGINAL.
  Em todos os livros e revistas que vejo, edições de 2000, 2010, de 2016, a grande onda é ser toscano, marroquino, despojado, provençal, minimalista ou orientalista. Todos esses estilos são bonitos, elegantes, fascinantes até. Mas este livro tem o velho e puro estilo inglês. Que é a negação de todos esses estilos citados. Tento o descrever...
  Pouca luz, tudo é penumbra. No chão, pesados tapetes com arabescos ou sólido chão de madeira pintada. As paredes têm uma profusão generosa de quadros, fotos, espelhos, afrescos, papel, tapeçaria. Cortinas escurecem a luz e pesam nas janelas. Há abajures imensos, mesinhas, sofás gigantescos, imensos, fofos, cheios de almofadas de seda, de lã, de damasco. Estantes entulhadas de livros velhos, bolorentos e enfeites: cavalos de louça, soldados de chumbo, flores em vasos, fotos e espelhinhos, ursos, peixes e barcos.
  Portas de madeira lascada, verdes, azuis, laranjas, e poltronas de pano pintado, de veludo escuro, com panos, poltronas pra beber conhaque, pra fumar charuto. E longas mesas de mogno, as paredes frias, sombras e a luz do inverno filtrada na vidraça turva, amarela, antiga. Casas de avós, com cozinhas tímidas, e sólidas, cozinhas com louça onde se pode ver um mar, uma ilha, um sol. Pias de pedra, torneiras entupidas, estanho e cobre, bronze. E nos quartos a cama alta, fofa, anti-coluna vertebral, guarda roupa torto, imenso, esconderijo de mundos perdidos.
   Casa que tem cantos, tem lugares secretos, caminhos de ratinhos ariscos, brinquedos largados, recuperados, teias de aranha, ruídos, cheiros, mistérios.
   Nunca vi casas tão apaixonantes.

JJ Cale [Old Friend]



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TSUGUMI - BANANA YOSHIMOTO

   Ela é da minha geração e é uma das grandes escritas do Japão de hoje. Seu nome verdadeiro é Mahoko, adotou Banana porque ela adora as flores de bananeira. E no Japão banana se chama banana. É uma das muitas palavras de influência portuguesa.
  Eu amei este livro! Conta a simples história de uma garota de 18 anos que passa férias em Izu, uma praia japonesa. Lá, ela convive com sua prima, Tsugumi, uma garota que fala o que pensa, é agressiva e tem uma doença que pode a matar a qualquer momento.
  O enredo é apenas esse. O mar, manhãs, um namoro, a volta do pai ausente, amizade feminina, cães. Mas tudo é contado de um modo tão simples, tão sincero, tão bonito, que a gente se encanta e se apaixona. Tsugumi é já uma das minhas paixões ficcionais. Uma personagem má, cínica, doentia e sedutora ao extremo. Dona de uma inocência celestial. Linda.
  Cada capítulo traz uma pequena aventura das amigas, e cada aventura é uma mistura de excentricidade e vida comum, banal. Habitamos aquela cidade, a pousada, e também a casa em Tokyo, onde se passa uma parte do romance. Yoshimoto escreve claro, solar como o verão que ela descreve tão bem.
  Leia este livro. Leia neste verão.
  E quantos livros voce já leu em que ao final a autora te agradece por tê-lo lido...Só no Japão mesmo.

Nine (2009) Penelope Cruz - A Call From The Vatican (Full Scene HD)



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NINE - CLOONEY - TIM BURTON - KEVIN SPACEY

   JOGO DO DINHEIRO de Jodie Foster com George Clooney e Julia Roberts.
Quando Clooney faz filmes conscientes, típicos da esquerda americana, ele vira um chato. Aqui ele denuncia a tv. O filme é tão divertido quanto o noticiário de segunda-feira.
   O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES de Tim Burton com Eva Green e Terence Stamp.
Burton está sem estilo. Ok. O filme é comum. Tem um problema sério: os personagens são sem sal. A batalha final, num parque, é legal. Fala de um garoto desajustado que encontra uma fenda temporal.
  VIREI UM GATO de Barry Sonnenfeld com Kevin Spacey, Christopher Walken e Jennifer Garner
Sonnenfeld já foi um diretor bem bom. Perdeu toda a mão de uns anos pra cá. Esta é uma comédia muito sem graça. Spacey é um milionário sem coração que vira um gato pra aprender a ter bom coração. Pois é...
   NINE de Rob Marshall com Daniel Day Lewis, Penelope Cruz, Marion Cotillard, Judi Dench, Kate Hudson e Nicole Kidman.
Se voce esquecer Oito e Meio talvez dê pra gostar deste filme. A fotografia é belíssima, os cenários lindos e Penelope Cruz está no momento mais sexy de toda sua carreira. Ela rouba o filme com facilidade. Mas...como esquecer Marcello Mastroianni...Day Lewis faz com que a gente sinta saudades de Marcello! Oito e Meio é mais bonito, mais sexy, mais profundo e muito, muito, muito mais vivo. Este não é um filme ruim. Não é mesmo! Mas Fellini...

...E AO FIM...

   E no fim da vida o ciclo se fecha. Ele encontra o amor da sua vida e ela lhe traz um sentido de espiritualidade que ele nunca conheceu. E seus discos, os do novo século, talvez sejam os melhores.
  Laurie Anderson era de uma New York que ele nunca conhecera. A cidade de Robert Wilson, do pessoal que se ajudava, que se cuidava, que conversava e produzia muito. Wilson, o melhor diretor de teatro da cidade, encomenda trabalhos para ele, e Lou, vejam só, que sempre adorou trabalhar sob encomenda, se vê musicando Poe, Lulu de Wedekind. Agora, por Laurie, ele é mais calmo, menos autoritário, menos impaciente. Ele aprende a escutar.
  Cada disco dela é um recado para ele e cada disco dele é uma declaração de amor para ela. O ciclo se completa. Após Shelley, Sylvia, Rachel...Laurie. Finalmente alguém tão genial como ele. Quase.
  O livro acaba desse jeito. Após sua morte, em 2013, Laurie faz cerimônias de 7 semanas, o tempo que a alma demora para partir daqui. John Cale, o amigo mais odiado, o mais roubado por Lou, comparece. Reconciliação.
  Eu não quero ser Lou. Sua vida foi um pesadelo. Ele era destrutivo, impossível de conviver, sabotador e desleal, muito desleal.
  Mas, com Dylan e Neil Young, atingiu o cume. E lá do alto, que bom, teve seus dez anos de paz.

The Velvet Underground - Sister Ray ( live at the Boston Tea Party )



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I'll be your Mirror NICO 1966 Warhol video



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Patti Smith - We're Gonna Have A Real Good Time Together - 1976 - Stockholm



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LOU REED TRANSFORMER - VICTOR BOCKRIS

   A primeira vez em que ouvi falar de Lou Reed foi na revista POP, da Abril, em 1975. Uma matéria de 4 páginas coloridas. Na primeira foto a gente via Lou tocando guitarra. De cara já estranhei. O cara tinha cabelo curto, a expressão era de um tipo de bandido antipático e usava roupa preta. Em 75 ninguém no rock usava preto. O texto falava de seu sucesso e do Velvet. A banda de Lou, Andy e Cale já era mito então. O som deles era descrito como barulhento, sujo, anticomercial. No mundo de então, sem internet e MTV, tudo o que podíamos fazer era criar com a imaginação. Então imaginei que o som do Velvet fosse um tipo de Led Zeppelin ainda mais alto e pesado. Só os escutei cinco anos mais tarde, no fim de 1980.
  Comprei White Light no Museu do Disco, uma memorável noite no shopping Iguatemi. Pus na vitrola às 23 horas daquele sábado. Após cinco anos de imaginação o que veio não se parecia com nada do que eu havia escutado. Ou imaginado. Não era Heavy, nem Hard, nem Prog, nem Jazz, nem nada. Mas eu não estou aqui para falar desse disco, o mais amado, e sim para falar desta biografia. Foi Brian Eno quem criou a frase de que o Velvet vendeu pouco, mas cada disco vendido era uma nova banda criada. De Roxy Music à Patti Smith, de Buzzcocks à Talking Heads, todos beberam na fonte e nenhum deles se parece com o Velvet. A banda foi um milagre. O maior do rock.
  Lou foi eletrocutado por ordens dos pais. Ricos judeus de NY, eles queriam curar o filho da viadagem. O amavam a seu modo, e foram vítimas da psiquiatria da época. A mente de Lou foi afetada ( ele tinha 17 anos ). Se tornou alienado de si mesmo para sempre.
  Foi um universitário rebelde, briguento, boca suja. Muito desagradável. Ninguém se sentia à vontade perto dele. E mesmo assim namorou a menina mais linda de Syracuse. Por anos. Seu interesse em sexo era mínimo, o que ele queria era sair de casa e ser poeta. Caiu na vida. Se viciou em anfetaminas, em speed injetável e até a década de 90 esteve sempre chapado.
  Lou foi trabalhar numa gravadora porcaria e lá compunha pop lixo. Então formou uma banda mais de garagem. E se enturmou com Andy Warhol. Lou Reed sempre soube o que queria e sempre se uniu a quem podia o ajudar. Para depois descartar a pessoa sem remorso algum. Andy quis formar uma banda para musicar seus videos. Montou o Velvet dando à Lou a liderança. Vieram Mo Tucker, uma baterista que ninguém sabia de que sexo era, Sterling Morrison, um grande guitarrista, e John Cale, um músico erudito que desejava fazer no Velvet sinfonias do caos. Enquanto eles estiveram juntos foi histórico. De 1965 à 1967, sozinhos, eles mudaram para sempre a música do ocidente. Criaram do nada aquilo que entendemos por punk, indie, alternativo, bizarro, underground, sadomasoquismo chic, cool, dark, soturno, rockn roll. Mas Lou Reed sempre foi um merda, e estragou tudo.
  Chutou Andy. Por ciúmes de seu carisma. Chutou Nico, porque queria cantar sozinho. E, que merda Lou!!!!, chutou John Cale, e destruiu assim o verdadeiro Velvet Underground. O VU sem Cale é como Stones sem Keith ou Beatles sem John. Virou a banda de um cara só, Lou, e o terceiro disco, por melhor que seja, não é VU, é solo de Lou. A aventura sonora criada pelos quatro ( todos compunham tudo no estúdio, Lou assinava ), partiu. Nunca mais.
  Duas curiosidades: White Light foi gravado sem engenheiro de som. Os engenheiros da Verve não suportavam ouvir a gravação e iam pra rua, deixando tudo ligado sem comando, e voltavam após 3 horas. O disco realmente se gravou sozinho.
  White Light, nas palavras de Lou, é um disco sobre astrologia. Ele é de peixes e cada faixa representa a luta entre peixes e virgem. Assim, a faixa um é peixes, a dois é a resposta de virgem e a luta se derrama pelo resto do disco.
  Em 1970, quando a banda acaba com o banal Loaded, tentativa de fazerem do VU um novo Beatles; Lou deprimido vai morar com os pais. Depois de um ano e meio isolado e esquecido, volta graças a ajuda de Richard Robinson, influente crítico de rock e escritor que produz seu primeiro solo: Lou Reed. Um fracasso absoluto.
  Mas vinham novas da Inglaterra. Toda uma nova geração não-hippie adorava Lou. E ele foi apresentado a seu maior fã, David Bowie. E nasce TRANSFORMER. Produzido por Bowie e Mick Ronson, com o piano lindo de Ronson, a guitarra nasal de Ronson e os bcking vocals e violinos de....Ronson. Lou Reed se torna uma estrela em 1972. Mas...
  Claro que ele tinha de brigar com Bowie. Com Robinson. Com todos os críticos de rock. Ah...Lou...essa sua língua....Lou adorava odiar...chamava Dylan de chorão, Zappa de hippie medíocre, Alice Cooper de palhaço, e Bowie de invejoso...Ah Lou...
  Grava Berlin, o disco em que ele apostou tudo. E o disco fracassa. Os críticos são impiedosos. Quanta bobagem se escreveu na época! E Lou Reed desiste. O livro diz que ele NUNCA MAIS gravou nada com 100% de comprometimento. A ferida de Berlin ficou até o fim da vida. Uma frase de Lou define tudo: " Em 1965 eu realmente acreditei que a inteligência iria um dia mandar no rock...Não deu certo. Eu me iludi."
  Vieram dois discos ao vivo, Coney Island Baby, seu casamento com um travesti, Sally Can't Dance, Metal Machine Music ( sua melhor piada ), e o punk.
  Lou frequentava o CBGS. E lá, em janeiro de 1976, ele foi entrevistado por dois garotos de 16 anos. Eles lançaram o número um da revista PUNK com Lou na capa e pronto: Lou era o pai do punk, Lou era o cara. Os punks podiam atacar tudo, mas Lou e o Velvet não. ( Não vamos esquecer que John Cale produziu os primeiros discos de Patti Smith, Stooges, Modern Lovers ).
  E como sempre Lou estragou tudo. Hiper viciado em tudo, tudo, tudo, ( menos drogas de hippies: maconha e LSD ), seus discos eram lentos, chatos, mal gravados. Ele não soube ou não quis se aproveitar desse bom momento punk. Perdeu mais um barco.
  A história de Lou Reed é a história de um triunfo que reverbera sem fim, e de alguns poucos sucessos que ameaçam reviver o triunfo do começo. A impressão é que ele sempre teve medo do sucesso, medo de precisar segurar uma missão. E ao mesmo tempo tinha a vaidade de um Mick Jagger, queria ser amado, seguido, idolatrado. Nessa briga interna ele gastou quase toda sua energia. O pouco que restava ia para os discos e os shows.
  Mas ninguém nunca vai esquecer o VU. Fazem já longos 36 anos que os ouvi pela primeira vez. Nenhum dos meus amigos gostou. Só eu e meu irmão. Mas hoje, em 2016, meio século depois do auge da banda, eles continuam soando corajosos, esquisitos, darks, o símbolo de tudo o que é independente, sem compromissos...genial.
  Em toda a história do rock NADA se compara ao VU. E se John, Sterling, Nico, Mo eram parte vital da coisa, Lou era dono das letras, das ideias, da primeira fagulha.
  Não aceito a morte de Lou. Sua partida para mim foi mais dolorosa que a de Bowie. Esqueço que ele morreu. Não quero acreditar. Porque o rock fica vazio, bobo, estúpido sem ele.
  Lou Reed era um grande merda. Vaidoso, mentiroso, egocêntrico, injusto, violento, mau...mas todos nós o amamos. E isso é genial.

A THOUSAND DOGS - RAYMOND MERRITT and MILES BARTH

   Na feira de livros aproveitei e comprei este belo volume da Taschen. Temos aqui fotos de cachorros que vão de 1860 até 2010. Todos os grandes fotógrafos têm ao menos uma foto presente, mas devo dizer que nada é mais pungente que as maravilhosas fotos de cães na guerra. Fotos de cachorros em trincheiras na Primeira Guerra, fotos de cães entre escombros na Segunda, fotos de cães em paraquedas no Vietnã. O rosto dos soldados, sujos, em relação com seus cachorros, sempre tranquilos, é das coisas mais bonitas que vi em fotografia. São imagens que revelam a profundidade total do drama humano na Terra.
  O livro, de 600 páginas, tem também frases sobre cães, de escritores, pintores, atores, filósofos e de anônimos. Uma das mais fortes diz que o homem está completamente só no universo, distante de tudo e de todos os seres, e que o único OUTRO que tenta contato é o cachorro.
  Viajar nesse livro de cabo a rabo dá uma sensação de beleza infinita.
  Um lindo presente.
  Compre!

Giuliano Carmignola, Claudio Abbado, Brandenburg Concertos (1 - 6)



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VINIL. A ARTE DE FAZER DISCOS. - MIKE EVANS.

   Saiu agora este bonito livro, pela Publifolha. Evans começa falando da invenção do som gravado, ainda em cilindro, depois a criação da bolacha de acetato. No começo, discos de 3 minutos apenas, a 75 rotações por minutos. E em 1948 a grande revolução com a criação do LP como o conhecemos. Toda essa parte é a mais interessante do livro. Fotos de discos históricos, dos primeiros a vender bem, das capas mais bonitas ou criativas.
  Interessante notar que até os anos de 1990, toda mudança tecnológica tinha por alvo favorecer a música erudita. Para se ouvir uma sinfonia em 1945, por exemplo, era preciso ouvir oito discos. Vinte minutos em oito discos. Uma ópera completa usava cerca de 25 discos. Quando o LP é inventado, pela CBS, é a música clássica que se beneficia a princípio. Todo o catálogo da CBS, e depois da Decca, da RCA, da Philips, são vertidos para LP e são esses os discos que mais vendem. Entre 1949-1959, de cada 100 novos discos lançados, 60 eram títulos eruditos. Eu observei em 1995 críticos reclamando que os novos títulos de eruditos começavam a cair, pois na popularização do CD, entre 1987-1993, eram lançados milhares de discos de música clássica por ano. O CD, como antes com o LP, era uma nova mídia perfeita para óperas e sinfonias.
  Com o download isso acabou. Esse meio, que faz com que as pessoas mal suportem 10 minutos de música ininterrupta, sepultou o disco clássico. Foi a primeira invenção a não favorecer a música de Bach, Brahms ou Berlioz.
  Evans lança bela tese sobre a vantagem do LP. Além da beleza da arte gráfica, dos encartes, há a deliciosa sensação de "ser dono da música". On Line, voce escuta um disco. No LP voce o compra, é seu e só seu. Fisicamente presente. Pra sempre.
  O resto do livro, que fala da história das grandes gravadoras ( Motown, Island, Factory, Chess, Verve, Blue Note...estranho ele pular a Virgin, Decca, Atlantic, Stax, Casablanca, Sub Pop ), as grandes capas, não é tão bom. Talvez porque são histórias que eu conheça muito bem...
  De qualquer modo é um belo livro e que se favorece muito da internet. Pois apesar de o LP ser bem melhor, na NET podemos ouvir todos os sons citados. Então, vamos à eles...

DEBBIE, STANLEY, GENE, DONALD E A GENTE

   A alegria não cabe mais em nosso mundo. O que nos consola é um tipo de histeria sorridente que nada tem a ver com a alegria. No cinema o máximo que podemos almejar é a comédia cínica ou a fantasia abstrata. Há pudor em ser alegre no mundo da arte. Ou pior, há maldade no mundo artístico.
  Debbie Reynolds encarnava a inocência. Stanley Donen a elegância. Gene Kelly a destreza e Donald O'Connor o humor. Todo se uniram para fazer CANTANDO NA CHUVA, o filme que todo amante da vida tem a obrigação de ver. É a prova dos nove de seu grau de sanidade.
  Debbie partiu. Ou melhor, nosso mundo não mais pode a aceitar. Ela e seu universo são tão distantes de nós que se tornaram incompatíveis.
  Debbie viveu os dois mais temidos pesadelos da alma feminina: Ela perdeu o marido para a melhor amiga e ao fim da vida viu sua filha morrer. Por piedade ela morreu. Justo.
  Meu mundo é este de agora, pós 1968, o mundo em que Deus é o desejo e todo desejo é poder. O desejo é Dionísio e as pessoas se esqueceram que Dionísio é um deus cruel, violento, egoísta. Ele exige sacrifícios em sua honra, sangue e vinho. O mundo de Debbie era o de Apolo, elegante, belo, ordenado ( mesmo que fosse apenas aparência, aparências são o mundo ). Ela sorria, cantava, chorava, sorria de novo e sabia dançar. Era a vizinha que todo mundo quer ter, a namoradinha da sexta série, a melhor amiga que vira esposa. Nunca foi sexy, ela era amável.
  Partiu.
  E o que nos resta, enquanto alguns ainda sabem, é cantar na chuva e ser um palhaço.

COMO SER UM CONSERVADOR - ROGER SCRUTON ( NÃO EXISTEM NA POLITICA BRASILEIRA ).

   Talvez um dia tenhamos tido verdadeiros conservadores. Mas eles devem ter se afastado da politica em 1889. O horrendo golpe republicano alienou do brasileiro sua alma conservadora e instituiu a história brasileira como um eterno recomeço, um jogar fora o passado. Começo que jamais termina.
   Dos livros de Roger Scruton este é o mais politico. Portanto não espere outro assunto a não ser as agruras do partido conservador e do trabalhista na Inglaterra. Claro que é um excelente livro e eu o recomendo para todos. O que ressalta no texto é a diferença imensa que há entre o conservadorismo real, inglês, e aquele que cá é chamado de direitismo. O direitismo, chamado por Scruton de liberalismo, prega o progresso, o consumo, a indústria e a economia como únicas verdades. Isso existe no Brasil, em que pese ser aqui conspurcado por uniões podres e cínicas com o estado.
  Conservadorismo, o verdadeiro, doutrina de Burke, de Alex de Tocqueville, prega o respeito ao passado. É uma democracia que leva em conta os mortos, os vivos e aqueles que ainda não nasceram. Tem no centro tudo o que nasce de baixo e não o que é imposto de cima. Seu vínculo é o amor entre familiares e vizinhos e não o dever para com o estado.
  As pessoas amam sua família, sua rua, seu bairro. E é esse amor que as une aos desconhecidos das cidades. Uma cidade é a união de famílias e não a união de indivíduos. Para esse amor ser respeitado, ruas, igrejas, monumentos, paisagens precisam e devem ser preservados, conservados. Uma cidade só é humana quando tem história, passado, e quando suas dádivas são guardadas como herança para o futuro. Lar, clube, time, igreja, escolas, praças. São esses os organismos de uma nação. Não se deve, jamais, impor a essas pessoas aquilo que lhes é melhor, o que se deve é garantir a liberdade de que elas continuem construindo sua história.
  Scruton escreve suas melhores e mais lindas páginas na defesa da beleza. Beleza é conforto, é bem estar, é dar sentido, é sentir-se aceito dentro do mundo. A arte moderna abomina essa ideia e Scruton explica como e quando aconteceu esse desprezo à beleza. A arte, deixou de ser um modo de se atingir a plenitude, e se tornou modo de destruir tudo.
  Vou resistir a tentação de comentar o fantástico capítulo final. Nele Scruton descreve a alegria. Para fazer justiça a algo tão bem escrito só se eu o reescrevesse. Leiam.
  Termino contando uma experiência minha...
  Em 1980 ainda andava de noite pela avenida Paulista com o coração em suspenso. Sombras nas esquinas e luzes embaçadas nas janelas dos casarões, os últimos, que contavam silenciosamente sua história para mim. Eu andava devagar, usufruindo de cada fachada, cada uma com seu emaranhado de linhas, cada linha cantando uma história.
  O pessoal do governo não conservou nada, e a indústria derrubou tudo. Segundo os seguidores de Le Corbusier e de Niemeyer, aqueles casarões não tinham valor nenhum. Eram bolos de noiva, lixo. O valor seria vidro e aço, linhas retas e muita luz. Hoje lamentamos sua extinção. Nunca voltarão.
  Uma casa é um lugar cheio de história. Tem coisas, tem cheiros, tem segredos.
  Nesse lugar a gente fuma, bebe, fala, dorme, lê. A gente tem coisas, a gente ama pessoas e por essa casa a gente trabalha e sonha. Essa a base do conservadorismo. Manter vivas as coisas. Preservar para o futuro o que melhor há do passado. E nessa ideia se encontra a beleza, o conforto e a história. Amar uma nação, a sua, é poder amar sua família.
  Muito "grosso modo" é isso.
  Mas é mais. Bem mais.

Status Quo - Paper Plane



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Status Quo - Down Down (Glastonbury 2009)



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