SONHEI

   ...minha garganta nâo é mais o que foi. Ao engolir o café e perguntar o preço sinto peso onde antes nada havia. Meu corpo possui sólida memória e isso é distinção..
   E no entanto tudo seria tão breve não fosse a garoa que volta às ruas onde vive a certeza de um gosto e a procura da verdade para sempre suspeita. O táxi preto de motor borbulhante e que nos bancos macios e bamboleantes dialoga o cigarro e o perfume entre o bafo gordo de um chauffeur sem voz. As chaves dançam suas correntes de prata dentro do meu bolso onde um lenço cinza vive úmido e amassado tocando a lembrança de meu nariz vermelho e as mãos que foram quentes enquanto o café esfriava.
   O amanhecer parece cantar fazendo suspiros ou talvez muxoxo, arroxeado, sendo a suspenção da garoa e do vento e a entrada da estática que nada mais pode ser: sem sol e sem chuva. Os cordões dos sapatos, firmes em seu nó patriarcal, recordam as mãos rápidas que se aninham nos bolsos das chaves dançarinas.
   Se Langue de Ventadour fosse mesmo assim ele teria partido a noite e não ferido o dia. A luz do sol não revelaria sua vida que manchava todo o caminho do meio ao final. Langue mereceria uma nova chance e teria então o prazer de rever a baía do Porto onde toda vontade se macula ao final dos tortos dias e as dores dos desejos entram sem entrecortar revanche. Hoje olho o ex-libris de monsieur de Ventadour, aquele, o homem do cabelo escuro saudando o disfarce onde mora a canção que do vento ao léu nasce. Nas dúvidas a voz cativante. Aqui vou te mostrar a face de Langue, esse jovem que é promessa de futuro incerto, movendo a vontade de ir mais longe onde tudo explode: onda, barco e peixe e a promessa. Langue desceu. E sobe.
   Se chumbo tornasse ouro, mais que notas, promessas ao futuro, frases escritas em aluviões sem mais pássaros no céu da tarde sempre maior que toda a breve vida. Formação solta na precisão do raio. Olho sem mar, guardar o movimento. O silêncio assombra todo horizonte que se completa.
   Para muito mais depois.
   Detrás do muro de cimento cinza árvores com cipós. Uma palmeira na tarde fria, se estica. Restos de uma casa e duas outras inteiras ao lado. Janela fechada e fachada observando a rua. A outra aberta exibe embrulhos. Mais ainda mais.
   Diálogo de coisas murmurando imagens. O que elas contam não pode ser contado. Trazem memórias de mais coisas ainda. Prometem mundos vários onde as variáveis respiram.
   Qual sementes.
   E no cesto de roupas sujas vivia um rato.
   Eu nunca vi esse rato mas sabia dele. E portanto o rato para mim existia.
   Abrindo o cesto lá entrei para o encontrar.
   Grande lençol branco, retalhos e aventais.
   Me perdi naqueles panos, nas dobras coloridas e nos odores suarentos.
   E eu lembro de tudo o que vivi naquele cesto.
   Onde morava um rato, onde ele existia, e eu, apesar de nunca ter achado o bicho, sei que lá ele estava.
   Pois.
   As roupas no varal e os braços que as esticam. Canta. O vento a alegra porque seca.
   Sabão voa até o limoeiro, nos espinhos as bolhas se espetam e lavam.
   O sol é claro e desliza pelas coisas, quieto.
   Sorri enquanto as roupas secam.
   Memória materna.
   Depois.
   Eu conheci um cachorro chamado Nicky.
   Entrou em casa como líder. Vontade dele sem verbo. Chorava debaixo da cama.
   Me falava de filosofia. Aquela que não se pensa. Ia direto ao centro, sem mais palavras. Desatava a coisa e sua sombra junto.
   E sabia que o melhor era o sono.
   Sonhei.

PORQUE OS HOLANDESES ERAM TÃO MAGROS?

   Quando em 1974 a seleção da Holanda, o mais revolucionário dos times, surgiu para o Brasil, o que mais me impressionou foi a magreza dos caras. Cruijff era cadavérico e Neeskens parecia um etíope branco. Logo depois, numa entrevista, o gênio do futebol europeu dizia que em sua infância ele aprendera a jogar bola nas ruas, entre as ruínas da guerra. O futebol holandês nada mais era que a lembrança daquela alegria do jogo de rua entre muros destruídos. Lindo não é?
   Leio então no livro de Alex Kershaw sobre Capa, que na Holanda pós-guerra, a ração diária a que cada um tinha direito mal daria para alimentar uma criança de 6 anos. De 1939 até a recuperação, que se dá apenas no meio da década de 50, europeus passavam fome. Manteiga, café, leite, carne ou ovos, eram artigo de luxo. A base era batata e pão preto. A falta de tecido é que originou a onda do vestuário mais simples, e não a inspiração de algum Dior. E a fome é que nos levou a magreza como beleza.
   As bios de, por exemplo, Keith Richards, MacCartney ou Peter O'Toole mostram isso: terrenos baldios, ruas em escombros, liberdade para andar e sumir, espaços de ninguém. Crianças nascidas entre 1935/1950, de poucos recursos, gripadas, sujas, famintas. Fabricando brinquedos, inventando jogos, sem conforto, usando a imaginação. Vendo os EUA como reino da fartura, sonhando com Hollywood e com Elvis.
   Todos eles ao crescer romperam radicalmente com esse passado miserável. Novos ricos, renasceram numa exuberância de sexo livre, drogas, sonhos, utopias e tempo em velocidade. Cresceram em meio ao caos, a carência material, mas por outro lado, conheceram a solidariedade entre vizinhos, a comunhão, sonhos de reconstrução, o ato de se dar valor a um pedaço de pão. Trouxeram para a vida adulta esse conhecimento. Saber o que seja nada ter. Saber o que é só poder contar com sua força e com a little help from my friends. Essa Europa, a Europa de quem hoje tem 80, 70, 65 anos, lhes vem a mente como pesadelo, pobreza "que parece ter sido irreal", ou nostalgia, saudade de "um lugar onde tudo era de todos e todos eram pobres. Juntos." Penso que essa geração, exatamente a que vem antes da minha, a de meus pais, foi a última geração européia a ter força e fé, por ser a última a ter conhecido o desespero e o horror na casa ao lado. A partir dos caras nascidos me 1955, 56 ( sou de 63 ), começa o mimo, a bundice, o não ter o que dizer por não se ter vivido. Tédio. É a geração flácida de Morrissey, a turma chic e esnobe, o povo que luta pela liberdade em um mundo que já liberou tudo.
   Leiam esse livro de Kershaw. É uma aula de história. Imperdível.

SANGUE E CHAMPAGNE-ALEX KERSHAW, A VIDA DE ROBERT CAPA, TRAGÉDIAS UTÓPICAS E CONCLUSÕES PRAGMÁTICAS.

   O livro é de uma beleza imensa. E simples. Cheio de suspense, a vontade é de o ler de uma vez só. Pode ser a melhor bio que já lí. Que me desculpe Richard Ellman.
   Capa nasce na Hungria e adota esse pseudômino ao se profissionalizar. Há uma lenda de que ele queria ser confundido com Frank Capra. Bobagem, Bob é um nome bem americano e ele quis parecer americano, e Capa era seu apelido de adolescência. Capa em húngaro quer dizer Tubarão. E como o tubarão, que nada e caça a vida toda sem parar, Capa viveu muito, sem endereço fixo, sem familia e nunca só. Ele tinha uma capacidade enorme em fazer amigos, estava sempre fazendo piadas e foi, entre seus amigos paqueradores famosos ( Picasso, John Huston, Gary Cooper ) o mais Don Juan de todos. Tinha jeito de criança levada, olhar de desejo, cheiro de aventura, humor, muito humor e bom gosto. Combinação irresistível para as mulheres. Não era bonito, era baixo, e nunca teve dinheiro, gastava tudo, mas era um rei. Fundou a agência Magnum ao fim da segunda-guerra, a primeira agência a defender e ser dona de todos os direitos dos fotógrafos, com Cartier-Bresson ( de origens nobres e sempre um cavalheiro ) e Seymour Chim ( de origem judaica e plebéia como ele ), fez da Magnum um novo capítulo na história das artes visuais. Chim fotografava a Europa, Bresson o oriente e Capa o que desejasse. Foi o mais famoso fotógrafo de guerra e o maior prêmio da fotografia de ação leva seu nome. O melhor do livro é observar as mudanças na vida de Capa, mudanças que contam a tragédia do mais triste dos séculos, o XX.
   O muito jovem Capa se faz promissor ao conseguir fotografar Trotski em comicio. Pouco antes de ser assassinado, o revolucionário russo faz um discurso. Capa sente cheiro de morte no ar e consegue fazer as únicas fotos do evento. Logo depois é mandado para a Espanha.
   A Espanha vivia então o sonho socialista em seu radicalismo total. Tudo era comunitário, a liberdade era absoluta. Uma mistura de solidariedade, sonho, idealismo e fé nos homens posto em prática. Mas logo a coisa azedou. O general Franco une tropas na África e avança sobre a Espanha. Hitler e Mussolini usam essa guerra como campo de provas, treinam tropas na ajuda à Franco e lançam novas armas. Socialistas de todo o mundo se alistam como voluntários para defender a Espanha livre. Orwell, Heminguay, Dos Passos, Steinbeck, todos se unem na luta. Capa fotografa e faz seu maior trabalho. Fotografa com paixão, toma partido, luta e corre riscos terríveis. Lança uma frase famosa: "Se uma foto não estiver boa é porque voce não chegou perto o bastante". Diz ele que as pessoas lutavam sorrindo. Iam alegremente para o sacrificio. Ainda acreditavam na morte por uma ideia. Crianças morrem nos primeiros bombardeios da história contra civis ( obra de Hitler ). Fome, dor, orfãos. Fogem espanhóis para a França. Cruzam os Pirineus na neve, morrem de frio aos montes. Capa junto. Na França são postos em campos de concentração para morrer. A França não quer se comprometer. Capa se aflige e faz piadas, dá humor para quem sofre, fotografa e divulga ao mundo a tragédia. Franco massacra espanhóis aos milhares. Vence. Será ditador por mais de 35 anos. A Espanha voltará a ser medieval. Os voluntários voltam chorando. Há uma cena explêndida no livro: A homenagem que o povo espanhol faz aos voluntários quando eles desfilam se despedindo. Capa chora. Pior que tudo, ele amava Gerda, uma grande fotógrafa que morre numa explosão. Capa nunca mais irá se recuperar. Começa aqui a nascer um novo Capa, mais cínico, mais mulherengo, muito mais ansioso.
   Vai à China. Guerra contra o Japão. Chiang-Kai-Chek e Mao-Tsé-Tung, ainda unidos, lutam contra o imperador Hiroito. Capa sente que a China consegue virar a guerra. A guerrilha de Mao. O povo sempre sorrindo. Bombas e mais bombas.
   Capa não suporta a vida comum. Viciado em adrenalina, viciado na guerra. Contradição: Capa odeia a guerra, mas ama o que ela traz de ação e de amizades. Nesse tempo, na guerra de campo, no chão, homens fazem amizades para toda a vida, compõe sagas biográficas e sentem a "Terrível alegria da ação".
   O que Capa faz? Joga. Joga muito, é uma geração do poker e da roleta, de enormes apostas. Capa perde muito. Não liga. Ele ama a adrenalina. E faz sexo. Traça atrizes ( Ingrid Bergman foi uma paixão real em que ele não investiu muito ), prostitutas, modelos, cantoras, nobres e pobretonas. Faz fotos de esportes. E vem mais uma guerra.
   Spielberg usou as fotos de Capa como base de todo o "Resgate do Soldado Ryan". Alex Kershaw faz do desembarque algo de eletrizante e inesquecível. Dor, sangue, suspense, pavor, crueldade. Capa é dos primeiros a pisar na praia e dispara a câmera. Balas zunem, todos morrem a seu redor. Mar cheio de sangue, de pedaços de corpos. Não tenho a arte para descrever a cena. Kershaw tem. "A deusa banalidade ainda não tomara o poder. O Horror absoluto era uma novidade."
   Capa acompanha as tropas na Itália depois. Anzio tem as cenas mais cruéis que ele viu. Ele vive. Os soldados vivem. "Voce vive de verdade quando sabe que daqui a um segundo pode estar morto. Então voce passa a beber muito, comer tudo, e a amar com volúpia plena. Assim era a Itália em 44." Nos bombardeios em Londres Capa percebe que os casais fazem amor em praças e em cantos escuros. No medo da morte todos se entregam ao sexo. Londres era cheia de gemidos de coito. Mas a Itália foi mais. Mortos demais, fome demais, medo demais. E a amizade. A imensa amizade entre aqueles que sofrem juntos.
   Após a guerra, Capa foi aos campos mas não os fotografou. Dor demais? Por ser judeu? Ninguém sabe. O homem famoso por fotografar a morte não tirou uma só foto de Auschwitz. E faz uma observação inteligente: "Americanos sabem vencer uma guerra. Não matam prisioneiros e não estupram ( muito ). Querem ser aceitos pela população. Russos, assim como os franceses, entram arrasando. Matam tudo que se mova. Nâo fazem prisioneiros. Subjugam o povo "liberto". Não sabem fazer politica."
   Capa após a guerra vai, sem vontade, à Hollywood. Faz amizade com Huston e namora Ingrid Bergman. Se entedia. Tem aversão ao estilo americano. Acha tudo vazio, futil, infantil. Vai a sua cidade favorita, Paris. Cobra desfiles de moda. Vê a controvérsia: o povo odeia a ostentação dos ricos. Dior usa pouco tecido, faz vestidos mais curtos e simples por falta de tecido. Capa, o cara que fotografou gente lutando por pão e liberdade, agora fotografa sedas e veludos.
   Vai a Israel. Mais uma guerra. Solidariedade e socialismo de novo. Hoje, em 2013 pouco se fala disso, mas Israel nasce como kibutz, e o kibutz é a experiência comunista extrema. Tudo é de todos e todos são da comunidade. Judeus chegam de todo o mundo. Judeus pobres, ricos, ignorantes, escuros, louros, famosos, famintos. Um país se faz do nada. E seis nações árabes se unem e atacam. Outra volta à Espanha de 36. Um povo lutando alegremente por terra. Bombas explodindo enquanto crianças brincam se se importar. Velhos e mulheres com fuzis. Israel vence. Derrota o Egito. Vence exércitos oficiais com um bando de civis. Mas Capa percebe e fala: "O que será dos Palestinos? Onde eles irão viver?"
   Esfarrapados de Israel sorriem na vitória. Esfarrapados da Palestina ficam aturdidos. Onde ir?  Logo em seguida o fim do sonho. A ultra-direita de Israel em guerra com seu próprio povo. Capa parte. Chega de guerra.
   Vai ao Japão, onde fotografa o país em reconstrução. Capa diz que o Japão é um país feito para ser fotografado. Ama o povo. A calma. O trabalho persistente.
    Mas Capa está falido. E por isso aceita mais uma guerra. A última. No Vietnã em 1954.
   A França luta contra os vietcongues. E pela primeira vez Capa vai a serviço do lado "errado". Seu coração está com o povo oriental, os muito inteligentes vietnamitas que humilham os franceses com derrotas inesperadas. Mas Capa acompanha as tropas colonialistas. É um trabalho sem coração.
    E é lá que ele morre. Capa pisa numa mina em meio ao arrozal. Será o primeiro fotógrafo morto no Vietnã. Com 40 anos de idade, ele já um mito, comove o mundo. A França será expulsa do Vietnã e os EUA tomarão seu lugar "na luta contra os vietncongues". 
    Robert Capa viveu do idealismo puro da Espanha ao cinismo do Vietnã. Esteve no dia mais glorioso do século ( o fim da guerra em 45 ), e no dia que segundo Eisenhower "Foi o auge dos EUA", o dia D. Capa viu a decadência do mundo, o fim da fé humana, o fim das ilusões. Cansou de lutas, de morte, e de correr. Mas dizia que jamais conseguiria ser pacato, pai de familia, comum. Precisava de adrenalina. Viu demais. Viveu demais. Partiu.
   O livro de Kershaw é maravilhoso.

AMOR BANDIDO/ BANG BANG/ AVA GARDNER/ WOODY/ KIRK DOUGLAS

   BANG BANG de Andrea Tonacci com Paulo César Pereio
Cinema marginal. Feito em 68, mostra de forma muito livre a saga de um homem só. Mas não. Cenas aparentemente desconexas. Godard mais Bellochio. A cena no táxi é antológica! Pereio mata a pau. Cinema novo o escambau, o lance é o cinema marginal! Tem uma cena em que eles fazem um zapp pelo rádio am. Toca Beatles, Stones, Byrds e Simonal. Bons tempos. Nota sem nota talvez não quem sabe?
   O GRANDE PECADOR de Robert Siodmak com Gregory Peck, Ava Gardner, Melvyn Douglas e Walter Huston
Asfixiante e desagradável drama sobre o vicio do jogo. Tudo gira ao redor da roleta. Peck, que está bem, se vicia por causa do amor por Ava, que o ama porque o faz jogar. Huston é o pai de Ava, outro viciado. Douglas, excelente, não é viciado, é dono do cassino. Ava nunca esteve tão bonita! Nota 6.
   SUA ÚLTIMA FAÇANHA de David Miller com Kirk Douglas, Gena Rowlands e Walter Mathau
A capa do dvd o anuncia como o filme favorito da carreira de Kirk. Apesar de passado em 1962, Kirk insiste no filme em ser um cowboy. É um simplório, nada tem de heróico. Vai para a prisão de propósito para salvar um amigo que lá se encontra. Mas o amigo não aceita fugir com ele. Então ele foge sózinho. Todo o resto do filme trata de sua fuga da policia. Helicópteros e rádios atrás de um homem e seu cavalo montanha acima. O fim é dos mais tristes e dolorosos que já vi. O filme é estranho. Enquanto voce o vê parece apenas ok, quando acaba voce está muito tocado... Nota 7.
   AMOR BANDIDO-MUD de Jeff Nichols com Mathew McConaughey, Reese Witherspoon, Sam Shepard e Tye Sheridan
Estreou esta semana e eu pensei que não passaria por aqui. Se passa na zona caipira dos EUA. Dois garotos encontram um vagabundo numa ilha. Ajudam o cara a sobreviver e vão descobrindo que ele é um foragido da lei. Ao mesmo tempo vemos a vida, dura e solitária, do adolescente. Mathew, ótimo, é o foragido. Ele sempre foi ótimo como galã, se torna cada vez mais um bom ator. Reese está sexy. E Tye, o teen, convence muito. O filme não é ótimo, mas está longe de ser vulgar. Uma mistura interessante de Houve Uma Vez Um Verão com O Mensageiro. Bacana. Nota 6.
   UM ASSALTANTE BEM TRAPALHÃO de Woody Allen com Janet Margolin
O primeiro filme de Woody como diretor. Mal feito. Tem erros de edição e um roteiro caótico. Cenas muito sem graça. E duas ou três muito boas. Aquela dos fugitivos amarrados é soberba. Ele é um ladrão. Rouba, casa, é pego, foge... Como ator Woody era bem mais simpático. Nota 5.
   A MÚSICA NUNCA PAROU de Jim Kohlberg
Esse acho que não vai passar por aqui. É uma história real. Um cara tem tumor na cabeça. Opera e perde toda a memória. Ficamos sabendo que ele é um ex-hippie que fugiu de casa a mais de 30 anos. Os pais cuidam dele e uma médica observa que ele volta a ser ele-mesmo ao ouvir o hino francês. Mas não é o hino que o toca, é All You Need is Love... O que acontece? Ao ouvir músicas dos anos 60 ele volta a ser ele-mesmo em 1970. Pensa ser um hippie e a achar que tudo está em 66/70. Isso faz com que feridas vividas com o pai sejam reexaminadas e os dois acabam por ir a um show do Grateful Dead...o livro em que o filme se baseia é de Oliver Sacks. A direção é quadrada, parece ser um telemovie. Mas o tema é fascinante! Nota 5.
   O VERMELHO E O NEGRO de Claude Autant-Lara com Gerard Philipe, Danielle Darrieux e Antonella Lualdi
Um autor morre uma vez em vida e milhares quando assassinam sua obra. Que filme ruim!!! Nada lembra a obra maravilhosa de Stendhal. Os personagens falam e falam e falam...Quando crítico de cinema, Truffaut destruiu este filme a até levou ao pessoal seu ataque a Lara. Com razão. O filme é uma coisa pesada, chata, velha, morta. Mais um erro dessa coleção de dvds da Folha. Nota ZERO!
   MÚSICA DA ALMA de Wayne Blair
Interessante saber que até 1967 os aborígenes eram considerados na Austrália não-gente. Eram fauna. Este sucesso da filmografia aussie fala de uma girl group formada por aborígenes que vai cantar soul music para os soldados americanos no front do Vietnã. Atenção, é uma história real. Mas, sinto dizer, o filme é sem emoção, frio, chato até. Nota 3.

DIEGO COSTA E O QUE É SER UM PATRIOTA

   Com toda essa coisa do jogador que escolheu a Espanha vem a tona a questão do que é ser brasileiro hoje. Mais que isso, o porque de ninguém estar mais disposto a morrer e matar por um país. ( Mata-se por uma religião ou por vingança pessoal- Iraque, Palestina, Afeganistão...)
   Eu amo o que restou do meu bairro. E amo os valores e o estilo de vida que nele existiam. Não amo a cidade que hoje existe e muito menos o way of life paulistano. Jamais seria voluntário numa guerra por SP, muito menos pelo Brasil. Mas eu mataria e morreria para defender a Serra do Mar de fazendeiros e o mesmo faria por Butantã e Caxingui- de eles ainda existissem- e grifo essa questão.
   Estou lendo a bio de Robert Capa, e já adianto que é a melhor bio que li na vida. De todas as páginas eletrizantes, as melhores são aquelas sobre a guerra civil da Espanha. Morrer alegremente por um estilo de vida. Os homens morriam e matavam na absoluta certeza da missão cumprida, a defesa de seus antepassados e todo um sistema de valores. De seu chão. Hoje isso não mais existe. Vou defender uma cidade que não reconheço como minha? Um lugar que em nada lembra as ruas e lugares que eu amava? Eu já perdi essa guerra para o progresso. Gente estranha vive onde viviam meus amigos. A cidade esqueceu de minha passsagem, morreu para meus passos. Vou morrer pelo que não mais conheço?
   Eu seria voluntário para defender valores que me são vitais. Mas eles já foram perdidos. O que me resta é lutar pelo pouco que sinto ser meu. um animal, meu bairro, a Serra, uma praia.
   Ser brasileiro ou ser francês se torna assim um problema. Como vou lutar por Alphaville que nada tem a ver comigo? Me sinto em casa na Torre de Dona Chama, norte de Portugal, fronteira espanhola, mas me sinto um estrangeiro no Tatuapé. E antes que pensem em esnobismo, me sinto muito estrangeiro em Lisboa.
   Não me venham então falar em patriotismo. O jogador escolheu o lugar onde lhe deram valor. Ele defenderá seus amigos e sua familia, familia que hoje tem vida melhor graças a seu trabalho na Espanha. O que sua Sergipe natal lhe oferecu? Nada.
   Sou estrangeiro em Manaus, tanto como em Belgrado. Não gosto da comida, não gosto do clima e mal entendo a lingua. Mas conheço Miami mesmo sem ter ido lá. Gente como eu sente que New York e Londres são nossas. Mas essa New York e essa Londres deixou de existir lá por 1960. Paris faleceu, mas Roma é pra sempre. Eu lutaria pela Londres da Segunda-Guerra, lutaria contra Hitler, seria voluntário contra a escravidão. Daria tiros em navios que pescam baleias. Mas jamais mataria um argentino que lutasse contra o Brasil por uma questão de fronteira. Jamais.
   Minha pátria é onde se registra minha história. É onde vive quem eu amo. Lugares que me formaram. Cantos seguros. Onde eles estão?

COMENTANDO ARNALDO JABOR

   Arnaldo Jabor foi a Veneza e escreveu um texto ótimo. Ele fala de sua visita a museus por lá e depois a Bienal que acontece agora. Tintoretto, Picasso e os Zés de 2013. Jabor conclui que a arte perdeu o porque. Ela continua querendo chocar a tal classe média e conscientizar as massas. Mas, bem diz Jabor, expor um cavalo morto choca alguém? Diante de 10 minutos de qualquer telejornal, a arte consegue ainda mexer com as sensações e despertar indignação? Claro que não. Se a Primeira Guerra assassinou nosso otimismo e se Hitler destruiu nosso conforto, as Torres Gêmeas detonaram tudo aquilo que pode ser pensado em termos de "performance". O grande horror ao vivo em cores. Mas os artistas continuam nessa, tentando produzir horror, perturbação, choque. Pra que? Já estamos horrorizados. A Grande arte seria conseguir sair desse horror sem ser irônico ou criançola. Como? Cabe aos senhores artistas fazer. Se conseguirem.
   Jabor fala da profunda coragem e alegria que havia em Picasso ou em Pollock. Que mesmo ao retratar pesadelos e dor percebíamos a fé na arte, uma esperança no futuro, a certeza em si-mesmo. Estranho esse texto me lembrar disso. A alegria misturada a dor. Tesão puro pelo ato criativo. Exatamente o oposto da depressão. Um desespero por fazer, excesso de energia. Urgência, isso era a arte até a Pop Art. E agora?
   Fácil levar esse pensamento ao cinema. Bergman é a dor bruta e a falta de sentido. Mas ele ainda crê na beleza, na mulher, e em si-mesmo. Assim como Dreyer ou Tarkovski, na aridez e no desespero se encontra a poesia ou a chance de transformação. Mas o que temos agora? Dor que virou maneirismo, dor pela dor, cenas para chocar, a verdade da violência, sangue, taras, neuras e sexo mecânico...Bullshit! Tudo uma grande brochada de artistinhas que nada têm a dizer. Filmes que são lixo mas que todo crítico faz força para gostar, pois atacar esse cinema "consciente e real"seria confessar seu direitismo ou sua falta de consciência. Pois eu repito, tudo Bullshit! Arte antes de tudo é habilidade em fazer, coisa que está muito em falta nas telas, seja em galerias seja em salas de cinema. Tudo tem de ser dark, pesado e doente, para assim poder ser relevante. Relevantinho seria melhor dizer. Na verdade é um modo de disfarçar uma terrível falta de assunto.
   Nessa vontade burra de chocar, a arte perde cada vez mais relevância. Pois diante da noticia de uma criança assassinada ou das cenas de uma explosão terrorista, nada pode parecer mais dark, soturno ou cruel que a tela da TV. Todos sabemos da realidade, a arte deve nos exibir algo mais, algo diferente, vivo, original, transformador. Como fez um dia Michelangelo. Ou Picasso.
   Onde?

UMA RESPOSTA A QUEM NÃO GOSTOU DE MEU TEXTO SOBRE LOU REED ( E SIM, SOU UMA CONTRADIÇÃO )

   Escrevem dizendo da influência nefasta do Velvet e de Lou Reed sobre o rock. De que assim como Dylan, eles estragaram o rock ao deixá-lo pretensioso. OK. Vou deixar as coisas claras.
   Adoro todos os discos do Velvet Underground, menos a faixa All Tomorrow Parties. E de Lou penso que Transformer é imbatível. E gosto pacas de New York, Songs for Drella e bastante de Coney Island Baby e de algumas músicas de álbuns diversos. E concordo, a influência deles é nefasta. A primeira leva de influenciados ( Bowie, Roxy, Iggy ) é genial, mas a partir do Television a coisa começa a ficar hiper deprê. Basta dizer que na década de 80 os Velvets eram considerados maiores que Stones ou Who e tão fundamentais como Beatles. Não por acaso é a década da depressão. 99% das bandas influenciadas por Lou que citei estão longe de minha preferência. Como acontece com o Led Zeppelin, outro ícone que deixou nefasta herança, Lou não tem culpa por seus filhotes. A turma dos desesperados soturnos que vá se curar.
   Mudei nesses anos. Após passar meu desbunde pelo Velvet revalorizei a black music e lembrei de dançar. E prefiro hoje ser um hippie utópico que um niilista inutil. Conheci bandas como Love, Flying Burrito, Soft Machine, The Band, que são tão boas e tão influentes ( o The Band mais ) que os Velvet. Claro que sem o chique citadino glam dos Velvet...
   Meu amor e minha tristeza é pelo cara que esteve no Velvet e fez Transformer ( que é tão de Bowie e Mick Ronson e Tony Visconti quanto de Lou ). Quanto ao  fato de Lou Reed ser um sacana ruim invejoso e mau...So what?
   Falei.

UMA CARTA PARA LOU

   Eu nunca consegui ser Mick Jagger. Nem mesmo Rod Stewart ou Iggy Pop. Mas voce Lou Reed me revelou que eu podia ser o que eu era. Uma fauna havia pelas ruas. E o lance era saber ver/ saber olhar. E todo mundo nascia, todo mundo um dia ia morrer, mas muito pouca gente vivia. Naquele tempo o Paulinho Boca de Cantor cantava "Quando eu pirar pra lá de Lou Reed". Mas voce nunca pirou! Sua esquisitice, que era muita, estava sempre sob controle. Sua estirpe era a de gente como Bogey. Frio debaixo de uma enorme pressão. Aliás na real voce não tem canções confessionais. Escreve como autor de livro policial. Conta um conto, voce estava nas entrelinhas.
   Diziam que voce era um chato. Marrento, vaidoso. E daí? Quem não é? Uma riqueza interior imensa dá de troco uma dificuldade em ser e estar. Caramba Cara! Gente como voce devia viver pra sempre! Mas talvez a coisa já estivesse concluída. Como diz o Bardo "Devemos uma Morte para a Vida." Voce pagou sua dívida ontem.
   A Factory....o sonho/pesadelo de todo artista destes tempos frios. Usina de produtos que eram arte-empacotada como ironia ao mundo. E a trilha sonora era sua. Viva, Dalessandro, Andy, Jim, John, Nico, Mary, Stirling, Maureen, Paul.... Moda, imagem, parecer ser, ser ao parecer, a imagem como fim...Voces inventaram o mundo das virtualidades, Parecer sendo mais importante que Ser. POP.
   Como alguém como voce morre? A serenidade terá vindo? A nova sensação? O anjo secreto do fim? Ou foi a escuridão suprema e vencedora? Andy está aí? Quando Bowie irá?
   Eu larguei as ruas Lou. Elas se fizeram cinzas. Não têm mais o compromisso do preto. É um tempo de ocres, de pastéis. Tudo o que Rauschemberg não queria. Por falar nisso, já achou Keith e Basquiat por aí? O céu é grafitado? Ele tem um Wild Side?
   Sinto sua falta.
   PS. Agora para nós que ficamos faz mais sentido cantar Satellite of Love.
   Amor, Tony Roxy.

A Walk On The Wild Side



leia e escreva já!

LOU REED, MEU HERÓI

   Todo mundo morre baby, alguns não vivem. Oh God, Lou Reed também morreu!
   A história de Lou em minha vida está toda viva em minha memória. Isso porque eu o conheci já aos 18 anos. Até então, naquele mundo sem internet, eu vira fotos de Lou e sabia do Velvet, mas não tivera a chance de ouvir. Então, em 1981, eu e meu irmão compramos no Museu do Disco, sábado de noite, no Iguatemi, White Light/White Heat. Eu era então um fã de Hendrix, Stones, Traffic, meu irmão, mais antenado, era de Clash, Police e B`52`s. Nossos gostos não batiam. Mas o Velvet nos uniu. Porque aquilo era arte, mas também era punk. Era muito simples, e também muito sofisticado. E tinha a arrogância corajosa do verdadeiro talento. Minha vida mudou naquela noite. Lembro de ter criado em minha cabeça a ideia de que ser um maldito podia ser bom. Comecei a me vestir de preto, e o principal, nada mais me parecia louco o bastante. Perto do lado 2 deste disco, tudo parecia pop. Tive viagens memoráveis ouvindo o disco inteiro, noite após noite. E o melhor de tudo, nada era menos hippie que Lou. E súbito eu me fiz um anti-hippie. Um mundo de arte avant-garde se abriu para mim. O Velvet ia do dadaísmo a arte-pop, de John Cage a Stockhausen. Perto deles os Stones eram castos, os Beatles hiper-conservadores e Zappa um chato.
   Esse meu desabrochar ingênuo me levou a bad trips e a um tipo de niilismo insuportável. Mas logo passou. E então descobri Transformer e o que era bom ficou melhor.
   Nestes anos de Trombone com Vara devo ter falado duas vezes de "melhor disco da história". Dei esse título a Low de Bowie e me contradisse ao lembrar de Exile on Main Street dos Stones. O mais constante em meu coração é Transformer, porque ele mistura os dois, Low e Exile, e ainda oferece algo mais. A ironia glitter. O disco tem rocknroll como Exile, guitarras rascantes e razantes como Keith, mas também tem aquela coisa fria e sob controle de Bowie e o som chique, limpo, sexy e noturno que Lou desenvolveu na época. De Vicious até Good Night Ladies, tudo lá é arte, é rock, é glam e é ironia. A capa de Mick Rock, a guitarra de Mick Ronson, os backing vocals de Bowie, tudo é superlativo. Como diria Ezequiel Neves, "descaralhante"!
   Foi o disco que abriu o caminho para o nascimento de minha persona TONY ROXY. As noites no Satã, vodka e lixo, eram Transformer.
   Falar dos filhos do Velvet e de Lou? Quantas laudas? De Television a Joy Division, de Cars a Roxy Music, de Smashing Pumpkins a Talking Heads, Cowboy Junkies e Echo, Jesus and Mary Chain, Ultravox, Suede...Bandas de preto, moços contidos e cool, baladas com sons desafinados, barulho, confusão, escuro, niilismo e poesia, muito noise...Sonic Youth, Pixies....
   Meus amigos sempre piravam quando eu lhes tocava The Gift ou Waiting from my Man...ou viravam fãs ou abominavam. Mas nunca a indiferença. Mal eu sabia que a reação era a mesma em todo o mundo. E que, como disse um repórter da Rolling Stone em 1981, pareceu sempre que os poucos caras que ouviam Velvet Underground montavam sempre uma banda. Porque Lou nos liberava, fazia com que a gente botasse tudo pra fora, pirasse a caísse na estrada.
   Lou agora foi pro céu de Rimbaud, de Poe e de Leadbelly. 
   E a gente fica aqui. Waiting From My Man... 
  



Velvet Underground - I´m Waiting For The Man



leia e escreva já!

BEATLES

   Chapante esse doc sobre os Beatles que postei abaixo.
Veja!

Beatles Stories (Doc)-parte 1



leia e escreva já!

PETER JACKSON/ A BELA ADORMECIDA/ ISABELLE HUPPERT/ WC FIELDS/ JOHNNY DEPP

   INFERNO NO FAROESTE de Roel Reiné com Mickey Rourke, Danny Trejo e Anthony Michael Hall
Talvez seja o pior filme deste século. Uma gororoba que mistura western, inferno, muitos palavrões e aquela coisa de macho que só Peckimpah e Tarantino conseguem fazer. Rourke joga sua carreira no lixo pela segunda vez. Faz o papel do Demo. O filme tem acordes de guitarra mexicana, milhôes de cortes por minuto e mulheres bonitas com cara de 2013 em pleno século XIX. ZEEEEEEROOOOOOO!
  UMA AMOR TÃO FRÁGIL de Claude Goretta com Isabelle Huppert
Uma menina tímida vai passar férias na Normandia com uma amiga. Lá ela conhece um estudante. Namoram. Mas tudo dá errado. Isabelle Huppert, muito jovem, aparentando ter 15 anos, está em casa, faz aquele tipo triste e isolado que se tornaria sua especialidade. Gordinha, ela tem cenas de nú simples e naturais. Foi aqui que ela se revelou. O filme é bonitinho e pode dar tédio. O suiço Goretta desapareceu nos anos 80. Nota 5.
   MADRE JOANA DOS ANJOS de Jerzy Kawalerowicz
É considerado um clássico do cinema polonês. Na época medieval, um jovem padre vai exorcizar um grupo de freiras que foram possuídas por Satã. Ele deve se mudar para o convento e as salvar. O diretor usa a técnica de Dreyer, crê no que mostra, as imagens se tornam quase documentais, belas de tão austeras. Voce não tem escolha, ou fica bocejando ou embarca fundo naquele mundo de horror. Nota 6.
   THE LONE RANGER de Gore Verbinski com Johnny Depp, Armie Hammer e Tom Wilkinson
Gore Verbinski fez O Ratinho Encrenqueiro. E apesar de seus sucessos com O Pirata do Caribe e que tais, O Ratinho é seu melhor filme. Porque Gore nasceu para fazer cartoon e isso fica provado aqui. Massacrado pelos críticos, injustamente, este é um bom filme se for visto como um cartoon. E cartoon, quando bom, é uma maravilha. Este não é um bom cartoon, é um cartoon ok. Mas nunca é chato. Diverte e até faz rir. Porque fracassou? Por ser um western. E também por ter um herói fraco. Indeciso. Cheio de boas piadas, luminoso e simpático, pode ver numa tarde de verão que vale a pena. Críticos? Estão cada vez mais rancorosos e distantes do público. Precisam voltar a ver Hawks e Sturges. Nota 6.
   A FROTA DE PRATA de Vernon Sewell e Gordon Wellesley com Ralph Richardson
Feito durante s segunda-guerra e produzido por Michael Powell, tem o grande Richardson como dono de um estaleiro holandês que fabrica submarinos para os nazistas. Na verdade ele os sabota. Eletrizante, cheio de suspense, o filme é simples, patriótico no ponto exato. Pouco conhecido, devemos so dvd o seu resgate. Eis o bom lado da tecnologia, sem o dvd como alguém descobriria esta pequena jóia? Para quem não sabe, Ralph Richardson foi o primeiro ator inglês a receber o título de Sir. Era um tempo em que esse título valia ainda muita coisa. Hoje até cozinheiros viram Sir. Nota 7.
   IT'S A GIFT de Norman Z. McLeod com W.C.Fields
O grande Fields! O humorista que a América adorava odiar... O gorducho ranzinza que odeia crianças, mulheres e cães...Aqui ele recebe uma herança e compra uma plantação de laranjas. O filme, anárquico, mostra seu cotidiano infernal e depois a ida à Califórnia. As cenas na estrada e uma outra onde ele tenta dormir na varanda são geniais. Junto a Buster Keaton e aos Irmãos Marx, Fields reina. Nota 7.
   FÉRIAS FRUSTRADAS de Harold Ramis com Chevy Chase, Beverly D'Angelo e John Candy
Acho que todos já viram...aquele filme da família babaca que viaja de carro para um parque de diversões e tudo dá errado. Feito em 1983, tem piadas que hoje seriam censuradas ( a do cachorro e a da velha que morre ). Não é mais tão engraçado, mas tem seus momentos. Principalmente a inesquecível corrida aos brinquedos ao som de Chariots of Fire. Nota 5.
   O SENHOR DOS ANÉIS de Peter Jackson
É um grande filme, uma grande diversão e uma maravilha para se olhar. O elenco tem pontos muito altos ( Viggo Mortensen, Ian McKellen, Andy Serkis ) e alguns falhos ( Orlando Bloom ). Mas no geral ele merece todo seu sucesso. Tocou em algo muito querido e necessário do público, a necessidade de heroísmo. Peter Jackson conseguiu orquestrar a história complexa e jamais deixa nada solto ou sem direção precisa. É um trabalho digno de David Lean ( mas não de Kurosawa, que fazia épicos mais crispados ). Jackson consegue fazer um épico possível para o público de hoje, tem a beleza e a calma de Lean com a ação e a produção fantasiosa de agora. Ele jamais corre demais e nunca apela. Nada de câmera rodopiante, cortes demais ou vísceras sanguinolentas. Jackson narra o livro e vence sempre. O principal é: mergulhamos naquele universo. Quando a saga termina queremos mais. Nota DEZ.
   A BELA ADORMECIDA  de Walt Disney
Nos extras ouvimos comentários de John Lasseter. É o longa que modificou a Disney. E até hoje é exemplo de animação e de cenários. Cada fotograma é uma pintura medieval. Há muito para se olhar, cores deslumbrantes e detalhes que nunca terminam. Levou 6 anos para ficar pronto e toda criança que o viu em tela grande nunca esqueceu. Talvez seja o último dos grandes desenhos da Disney pré-O Rei Leão. Um absurdo em detalhismo e cuidado. Nota DEZ.

SOBRE BIOGRAFIAS CENSURADAS, BEAGLES E BLOCS PRETOS

   Deve ser dificil ter 70 anos.Principalmente quando voce foi símbolo da juventude. Mais dificil ainda deve ser passar mais de 50 anos tomando whisky e jogando bola no sol. Cercado de puxa-sacos. A cabeça do Chico deve estar uma zona. Todo mundo sabe que gosto de Gil e que alguns discos do Caetano acho muito jóia rara. Mas a cabeça deles, por culpa de outros produtos, tipo azeite de dendê, também está pra lá de Marrakesh. E então eles, numa típica confusão que mistura preguiça, medo e amizade, resolvem ouvir o que Roberto Carlos tem a dizer...Qualquer um sabe que Roberto bota Elvis Presley e Michael Jackson no chinelo. Vive em Zanzibar faz tempo. Fique claro, eu adoro Roberto Carlos. Adoro sua voz e algumas múiscas que ele fez lá por 1970 são obras-primas do pop alto nível. Mas ele é um zumbi hoje. E vive num mundo de puxa-sacos e esotéricos freaks também. Eles querem censurar suas biografias? Não sejam tão duros com eles! Ignorem os vovôs. A verdadeira vilã se chama Paula...
   Quanto aos beagles...Isso é a marcha da história baby. Não venham me chamar de racista pelo que vou falar. Uso o exemplo dos escravos e esses escravos podem ser brancos e amarelos também. Todos temos antepassados escravos, escravos dos gregos, dos celtas, dos romanos, dos chineses...O que digo é que daqui a cem anos nossos descendentes acharão tão revoltante o modo como tratamos os bichos como achamos a escravidão hoje. É o caminho natural. Irão olhar nossos matadouros com horror e pensarão "Como a gente de 2013 podia aceitar isso?" O cômico, e esperado, é que assim como os escravocatas usavam o motivo econômico como fato que devia manter a escravidão, falavam que libertar os negros deixaria o país falido, os anti-beagles falam que prescindir de bichos atrasaria a ciência. Ora! Pura preguiça! O Brasil, como foi no caso da escravidão, está ainda um século atrasado. Os animais terão direitos reconhecidos. Esse é o futuro, nossos netos irão ver e nos criticarão por nossa demora.
   Quanto aos black-blocs, eles são a torcida organizada das ruas. Sujam a moral onde botam as patas.
   E é só.

O SENHOR DOS ANÉIS COMPREENDIDO

   Para os gnósticos a Terra é um campo de batalha. O Mal, presente em toda a matéria, é combatido o tempo todo pelo bem, presente no espírito. Egoísmo, crueldade, desejo de poder, ambição, esses os componentes do mal. Coragem, honra, auto-sacrifício, espírito de grupo, esses são os dons com que se combate esse mal. A Guerra acontece, desde sempre e sem tréguas, na Alma de cada Homem.
   Chesterton, com seus amigos C.S.Lewis e Tolkien, fez parte no começo do século XX do movimento de resgate do cristianismo primitivo, corrente essa que tem muito do gnosticismo herege. Quando assisti pela primeira vez a saga do Anel eu nada sabia. Para mim se tratava apenas de mais um pastiche que misturava Star Wars com Excalibur de John Boorman. Eu não sabia que Excalibur e Star Wars é que derivavam de Tolkien. E que Tolkien fazia tamanho sucesso por intuitivamente ir ao cerne de uma necessidade humana: Transcendência.
   Você pode sentir Transcendência em graus variáveis. A maioria passa pela vida sem repetir mais de uma vez. E a primeira é sempre na infância pré-linguagem. Você pode procurar, inconscientemente, essa sensação em filmes, na visão do cosmos, em música ou numa droga. Em viagens de aventura, no Amor, ou até mesmo no sexo ( talvez a forma mais procurada hoje e uma das mais falíveis ). Saiba que por mais material que essa busca seja, o fundo é sempre o mesmo: Liberação do fluxo da vida, livre fluir das imagens e dos sentimentos do espírito, uso de toda a potencialidade que todos sentimos ter. Sim, a religião sempre se propôs a dar essa transcendência. As Igrejas, são a droga sintética dessa busca. Não há receita, não há regra. Cada um que ache seu caminho. O fim é o mesmo: o Bem.
   A Saga do Anel fala disso. Frodo carrega ( como Cristo ), o Mal do Mundo nas costas. Recebe uma missão não desejada, sofre tentações, dúvidas, quase desiste. Mas ele é Bom. E seus discípulos o ajudam.
   Peter Jackson conseguiu fazer um filme cheio de conteúdo e ao mesmo tempo cheio de ação. É uma saga digna de David Lean. Filosófica e com um senso de beleza maravilhoso. E o principal, a obra atingiu em cheio uma necessidade do público, e quando isso ocorre temos o fenômeno, o filme que consegue atingir crianças, adultos, analfabetos e cultos, homens e mulheres. Para quem busca profundidade em filmes filipinos, dinmarqueses ou mexicanos, eis aqui o cinema pop em alto grau cultural. Há muito mais o que pensar e discutir aqui que em toda a obra daquele geniozinho óbvio e plagiador.
   O mal em nós junta hordas escuras e procura fazer de sombra tudo o que nos é mais caro. Cabe a cada um unir forças e os combater. Creia, a luz existe e ela é aquilo que chamamos de inspiração, fé, criatividade, transcendência.

O SENHOR DOS ANÉIS SOB A VISÃO DE UM MEDROSO

  Medo. Esse é um sentimento que conheço bem demais. Medo de morrer, medo de mudar. Amores controláveis, drogas sem perigo, criatividade sob restrição. Medo de perder o controle, medo de pirar, medo de deixar de ser o que se é. Medo de não voltar pra onde estou seguro. Isso posto...
  Lutaram por mim. Foi pela familia, pelo clã, pela fé e pela nação. Coisa conservadora essa, não é? Mas foi assim. Guerras que viraram o rumo da história e que me fizeram ser quem sou, conhecer o que sei. Guerras que preservaram um mundo e aniquilaram um outro. E eu sou a consequência disso tudo. Se os persas tivessem vencido os atenienses...se os mouros tivessem destruído o cristianismo....se Roma perdesse de Cartago...se Hitler tivesse vencido....se a América tivesse sido colonizada pelos vikings...eu não existiria. E nem voce. E quase tudo aquilo que amamos.
   Portanto respeite aqueles que morreram por voce. Isso posto...
   Tenho aniquilado meu medo. E percebo afinal que meu inconsciente quer o meu bem. Mesmo que de um modo que seja um segredo. Um sussurro. Mais que isso, percebo que essa é a grande jornada, para dentro e para fora, ao mesmo tempo e refletindo um no outro. Sabendo que o encontro é sempre assustador. Sabendo que após o medo nasce a verdade e depois a luz. O bem. Lutar pelo bem, pois ele precisa de nossa luta. O mal vive por si-mesmo.
   A idade-média é a época do dominio do insconsciente sobre a razão. Mistura que bem conheço, mistura de medo, glória, luta, miséria e maravilhas. Dentro de nós tudo ainda é medieval. Creio que ainda será por muito tempo.
   Então a razão nega esse tempo. Ignora. Teme. E sempre volta a ele.
   E eu sempre amei tudo o que sou e tenho medo. Meus medos são minhas guias para o que amo de verdade. Posto tudo isso....
   O filme de Peter Jackson e de Tolkien é sobre isso tudo.
   maravilhoso.

O SIMBOLISMO NA ARTE E A RUPTURA ENTRE DOIS UNIVERSOS- ANIELA JAFFE

   Cada época recebe sua dose de liberdade, e nem mesmo o mais criativo dos artistas pode transpor esse limite. Frase de Kandinsky. Ele, o homem que criou a arte abstrata, arte livre que só poderia ter sido criada em seu tempo ( 1910 ) e que antecipou a primeira guerra em quatro anos. Pois todo grande artista é arauto de seu tempo. Ele revela o espírito inconsciente que rege a história. E o que Kandinsky nos disse? Ele exibiu a divisão que passou a vigorar desde então. De um lado a arte realista, toda fincada na solidez da matéria, na realidade unilateral dos sentidos, e do outro lado a arte do inconsciente, toda voltada para simbolos, para a realidade não aparente, busca de verdades misticas, miticas e atemporais. Se até o século XIX ainda se podia encontrar arte realista misturada a arte simbólica ( Cézanne, Gauguin, Turner ), agora a divisão se faz absoluta. Como diz Jung, a ruptura moderna entre mundo exterior e inconsciente se torna abismal.
   Jackson Pollock irá levar isso aos limites do transe. Seus quadros dispensam a consciência, pintura feita em delirio. Estranha e maravilhosa coincidência, as pinturas produzidas pela alma de Pollock são idênticas aos intrincados labirintos da matéria mais microscópica. Na arte abstrata os limites são sempre o infinitamente pequeno e o cosmos em seus limites. Seria nossa mente um espelho do universo?
   O fascínio e o desprezo que a arte abstrata desperta na maioria das pessoas, liga-se muito ao fascínio e ao medo que o inconsciente produz. Há quem olhe para Klee e nada consiga sentir. Como uma porta fechada, suas imagens perturbadoramente simbólicas e arcaicas podem ofender e provocar risos, medo e incompreensão, cegueira, ou a sensação de aventura, que é seu maior tesouro. Klee foi o pintor moderno que mais chegou longe. Seus quadros conseguem fazer o caminho ideal, a consciência conseguindo construir uma ponte segura até o inconsciente. Klee traz de dentro de sua mente as imagens mais básicas do que seja humano. Imagens da grande mente do universo.
   Ao mesmo tempo Marcel Duchamp percebe a dignidade, o espírito, a fala nobre do objeto inanimado. Duchamp salva o objeto desprezado do lixo onde ele estava e o investe do poder espiritual de um tótem. Magicamente ele dá ao lixo o estado de sagrado. A mensagem é clara, Duchamp ao abrir as portas de sua cabeça percebe a vida como condição do mundo. Investe de dignidade a tudo. Garrafas, urinois ou trapos, tudo pode e deve ser vivo. Mas a guerra que chega faz o movimento contrário. Transforma a vida em lixo. Rouba a dignidade do mundo. E cria a grande cisão entre os universos. A dualidade do consciente e do inconsciente, do sólido e do abstrato, da matéria e da alma. Desde então a união se tornou quase impossível.
   Alguns insistem. Schwitters faz uma catedral de lixo. Recolhe papel e latas e constrói uma catedral de 3 andares. Mas agora a abstração tem ares de desespero. De um lado a tristeza e a falta de sentido de um mundo em que só o que é material existe. Onde a vida se torna máquina de repetições previstas. E de outro o espírito acossado pela inutilidade aparente de suas palavras. Como protesto a alma se radicaliza. Pollock pinta sem uso da intenção, é puro inconsciente. O acidental se faz arte. A droga pinta e canta.
   Marc Chagall conserva sua fé. Como fala Sir Herbert Read, Chagall jamais tirou um dos pés da sua infância, da pureza de sua aldeia, das histórias de sua familia, dos sonhos de sua comunidade. Read está certo. Como comentou Jung, Chagall conseguiu manter sempre a união equilibrada entre os dois pólos, ego e inconsciente, matéria e alma. O grande trauma do ocidente, a morte de Deus, nunca o preocupou. Daí a felicidade presente em suas obras. Quadros onde tudo é muito real e ao mesmo tempo onírico. Sem o desespero de Pollock, Chagall conseguiu fazer a alma falar e pintar.
   O grande teórico sempre foi Kandinsky. Eis sua fala..."A importância de todas as grandes obras não repousa nas suas imagens, na superficie, mas sim na raiz das raízes. No conteúdo místico da arte." E ele ainda diz..."O olho do artista deveria estar sempre voltado para seu interior, e seu ouvido para sua voz íntima. Esse é o único modo de dar expressão ao que a via mística pede". Kandinsky descrevia seus quadros como uma visão espiritual do cosmos. Música de esferas, harmonia de cores e de formas.
   Paul Klee, talvez meu artista favorito, acrescentava que essa visão mística só será válida se for construída com alguma estrutura. Eis aí a colaboração entre consciência e inconsciência. "'E missão do artista penetrar o mais fundo possível naquele âmago secreto onde uma lei primitiva sustenta seu crescimento. Que artista não desejaria habitar a fonte central do espaço-tempo? Esteja ele situado no cérebro ou no coração da criação, é de onde todas as funções extraem a seiva vital que as sustenta. Coração a palpitar, somos levados cada vez mais para baixo, em direção a fonte primordial. O ventre da natureza, a chave secreta de todas as coisas".
   Essas palavras são de Paul Klee e nunca li nada melhor sobre a ansiedade criativa, a aventura que acomete todo o artista verdadeiro. O confronto com perigos, lugares sem nome. Anjos e risos de deboche. A aventura de nascer.

O AMOR E MARC CHAGALL

   Quando a vida diminuir e o tempo parecer te apertar meu amor, e as coisas parecerem sólidas demais, pesadas e mortas, Olhe para Marc Chagall e renasça. Veja que tudo voa e o Amor vem, sempre vem.
    Lembra da mensagem que todo bicho pode dar, lembra da cidade azul, relembre de nosso dom.
    Chagall nunca fechou a porta, nunca dividiu sua alma em duas, nunca rompeu com nada do que era dele mesmo. Ele sabia ouvir e sabia olhar. Entendia os sinais. E voava.
    Quando voce sentir medo, amor, olhe para o galo, a cabra, a vaquinha que voa...e saiba então de onde surge a palavra Deus.

Marc Chagall & l'Amour



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