MEMÓRIA DA ÁGUA - EMMI ITARANTA

   Uma menina aprende com o pai a cerimônia do chá. A Europa foi dominada pela China. O clima mudou, faz calor todo o tempo. A água virou um precioso bem de troca. O Estado distribui poucos cantis por semana à população. Os militares mandam em tudo. E a personagem principal percebe que alguma coisa tá errada. Nosso mundo, o de hoje, foi esquecido. Hm...
  A autora é finlandesa e dizem que o livro foi premiado. Mas hoje tem tanto prêmio que dá para premiar todo mundo. Tristinho, dark, chatinho, eu não precisava ter lido este livro, mas quis saber como acabava. Acaba em aberto, para ter continuação.
  Esquece.

CORAÇÃO DEVOTADO À MORTE, O SEXO E O SAGRADO EM TRISTÃO E ISOLDA DE WAGNER. - ROGER SCRUTON.

   Kant, Schopenhauer, Auerbach, Nietzsche, Wittgeinstein, Freud, Merleau-Ponty, Foucault e Girard. Todos são citados várias vezes por Scruton e todos são, ao final, refutados pelo filósofo inglês. Refutados em relação aquilo de que se ocupa o livro, o erotismo e a morte. Uns mais outros menos, todos revelam algo de reducionista ao evitar o tema ou a aborda-lo de uma maneira que o descreve DE FORA e jamais de dentro. Scruton não tem medo. Ele não evita entrar no sentimento e no ato, na fantasia e naquilo que sabemos acontecer mas que não conseguimos entender. Roger Scruton aceita o não-saber. Para ele é isso o sagrado: fazer, aceitar, repetir, seguir, sem jamais entender. Saber que ali há algo que foge ao entendimento e que por isso pode ser puramente ilusório. Mas não parece ser. E por isso ele, o mistério, é confirmado em atos, objetos, lugares que são aquilo que precisam ser. Para Scruton o homem é sagrado. Por mais que o cinismo atual ria disso, ele é.
  Somos corpos reais que se percebem no limite da realidade. Enquanto corpo estamos no mundo, enquanto sujeitos estamos observando o mundo de um lugar que sempre nos parece fora da realidade corporal. É o que nos define como seres não-animais: olhamos para nós mesmos, analisamos o que somos e o que devemos ou não queremos ser ou fazer. Temos escolhas. Ao contrário dos bichos, estamos sempre decidindo, antecipando, planejando. Nosso corpo, real como é uma pedra, se move entre as coisas como ser que funciona por instinto. Nosso eu, colocado à parte do real, olha e tira ideias, cria e lembra.
  Dentro dessa verdade, o Amor-Erótico surge como o momento em que o corpo e o sujeito se unem em um só. Eu amo a pessoa que está naquele corpo. Ao contrário da pornografia, não é aquele corpo que desejo, o que desejo é quem está naquele corpo. A pessoa e o corpo se tornam um só para mim, e eu me torno um só para ela. E, contra a ideia de Freud, de que a paixão era nada mais que um tipo de fome ou sede, algo mecânico e animal, só aquela pessoa pode fazer por  mim o que faço por ela. Ela é insubstituível. Única em um universo.
  Scruton vai em frente e toca na escolha. Para ódio dos modernos, não podemos escolher a quem amar. Somos presos do acaso. Mas podemos escolher como amar essa pessoa que nos surge. E vem daí a ópera de Wagner. Scruton a disseca em texto e música. Lenda vinda da idade média, ela fala de um sobrinho que se apaixona pela mulher prometida ao tio. E ela o ama do mesmo modo. Tudo termina em morte e em vitória do amor. ( Contei a história de um modo bem simplificado ). O que Wagner mostra é que amor e morte são a mesma coisa. Todo amor verdadeiro só pode vencer se encontrar a morte. E essa morte é o modo que o amor encontra de durar para sempre.
  Wagner não acreditava em Deus. Mas amava o budismo. O amor era, para ele, o modo de se deixar dissolver no Nada e a morte se tornava assim uma libertação da ilusão. O amor de Tristão e de Isolda seria profanado se tivesse de viver em meio às exigências do mundo fútil e vazio do dia a dia. Para ele viver puro e perfeito ele precisa morrer.
  Scruton aceita isso e vai adiante. Para ele, esse amor não precisa de um deus para ser sagrado. No olhar que reconhece, na individualidade de cada amante, vive a eternidade da particularidade que só o sujeito pode ter. No amor e na morte o Ser se afirma como sujeito livre. Ele sai do mundo das contingencias, das obrigações, e passa a se mover no mundo das escolhas e dos riscos. Sim, ele não escolhe seu amor, mas como disse, ele escolhe manter esse amor no nível do AMOR CORTÊS, o mundo do amor que significa, que simboliza, que vai além. O amor que nega a fome, a pornografia. ( A pornografia é o desejo que transforma o amado em objeto desfrutável e intercambiável. Ela vive da dessacralização do amor e da ofensa ao corpo ).
  A música de Wagner, sagrada e prova de um eu criador, leva o ouvinte para dentro desse erotismo que, como todo erotismo, coloca os amantes fora do mundo real e dentro do mundo com sentido. Para o casal, só eles existem, só eles são vivos, só eles podem durar. Na morte eles dizem ao mundo que escolheram seu destino. Saíram do mundo dos fenômenos e adentram a liberdade. Deixam de ser dois e se tornam parte de um todo onde não há eu e voce.
  Qualquer um de vocês, se já amou de verdade, sabe do que falo. Por mais ateu, ou cínico ou frio que voce seja, sabe que no amor há a companhia da morte. O mundo inteiro morre para os amantes. O passado morre. O que existe é o amor e o medo de que ele se perca. Há um momento em que sentimos a proximidade da morte. "Se ela se for eu morro".
  Não se engane. Ela se foi e voce morreu.

TOLSTOI, A BIOGRAFIA, ROSAMUND BARTLETT.

   A Rússia não existe. Nem Europa, nem Ásia. A coisa mais sensacional deste ótimo livro é fazer nos sentir dentro da Rússia. E a Rússia não é fácil não! Coisas que só existiam no país. O SANTO-TOLO por exemplo. Pessoas que vagavam pela nação, mendigando, sendo recebidas como santos homens e como tolos ingênuos. Aristocratas culpados. Não havia no mundo aristocratas tão esbanjadores e cercados de luxo como os russos. E ao mesmo tempo, em nenhum outro país acontecia de tantos deles largarem tudo e se tornarem peregrinos pobres. Tolstoi viveu todos os meandros da alma russa. Foi a encarnação daquilo que o país pode ser e será. Penso agora se há na Inglaterra alguém que encarne e alma inglesa. Ou nos USA. Ou na França. Talvez Wagner seja a alma alemã. Mas não há um só artista ou filósofo que resuma em si a alma da França, da Inglaterra ou de qualquer outra nação. Tolstoi é a Russia. E isso é muito complicado.
  O livro começa traçando as raízes da família aristocrata do autor. Pai e mãe têm origens nobres, a mãe com mais dinheiro, o pai com muito história. As primeiras 200 páginas do livro são sublimes. Tios e tias com vidas sensacionais. E alguma dolorosas. E então nasce Liev Tolstoi, em meio a muitos irmãos, parentes, servos, visitas, na imensa propriedade de Iasnaia Poliana. ( Servos eram parte de uma terra. Não podiam ser vendidos, portanto não eram escravos, mas eram parte das terras dos nobres, como eram as árvores e as casas ).
  O jovem Tolstoi usou sexualmente as servas, se apaixonou, caçava, brigava muito, duelou, serviu na guerra. Foi um jovem inquieto, cheio de ideias, dúvidas e excesso de energia. Desde cedo tinha paixão por vida no mato, exercícios. Mas a guerra o mudou. A absurda guerra da Crimeia, a luta contra turcos e ingleses. A Russia era então um esbanjamento. Muito dinheiro usado para o luxo, muita repressão politica e a religião ortodoxa. Tolstoi seguiu a fé de seus pais, por algum tempo. Começa então a escrever em revistas, em jornais. Publica pequenas histórias e logo se torna o escritor mais famoso da Russia.
  Faz amizade com Turgueniev, mas logo brigam. Nunca encontrará Dostoievski. Este admira Tolstoi, mas Liev o ignora. São opostos. Escrever Guerra e Paz é um prazer. Sonia, sua esposa de origem alemã, passa a limpo o texto. A obra estoura e vende muito. Pronto, ele é famoso. Mas existem os servos e Liev começa a mudar.
  A obra de sua vida é fazer o bem aos pobres. Incrível como Tolstoi passa a desprezar sua vida de artista. Ele dá muito mais valor às cartilhas educacionais que redige e imprime que ao seu livro de sucesso. Tolstoi quer educar o povo russo e abre escolas, inventa métodos educacionais, percorre as aldeias. Começa a ser perseguido pelo estado.
  Mas há a escrita. Ana Karienina é um martírio. Tolstoi escreve com dor, com desprazer, como obrigação. E o sucesso é mundial. Karienina se torna o romance mais famoso de seu tempo e Tolstoi o mais admirado dos autores. Mas ele continua a mudar.
  Pensa na morte, entra em crise, cria uma religião. Lança textos e livros religiosos, traduz evangelhos do grego, faz palestras, funda o "tolstoismo". Eis a obra da sua vida.
  Torna-se vegetariano, pacifista, influencia o jovem Ghandi. Comunas tolstoianas surgem nos Canadá, nos EUA, na Inglaterra. Ele prega o fim da propriedade privada, o sexo apenas como reprodução, o fim do estado, o trabalho como bem maior. Trabalhar com as mãos, comer o que se planta e seguir Jesus Cristo. Tolstoi é o guru da Russia e uma das pessoas mais famosas do planeta. E ao mesmo tempo passa a ser odiado pelos ortodoxos e pelo governo russo.
  Ele se abstém de suas posses, se afasta da família. Vive em trapos, como um santo-tolo. Prega a paz e a resistência pacífica. Então vem a Primeira-Guerra, a revolução de 17 e o bolchevismo. Tolstoi é considerado o precursor de Lenin. Lenin o admira, mas Liev é contra o estado, o que cria uma rusga entre as duas filosofias. Tolstoi morre em 1910, numa estação de trem. Seu enterro é um evento mundial e sua casa centro de peregrinação. O livro segue sua esposa e seus filhos até os anos 30.
  A vida de Tolstoi é o desconforto de um gênio com o mundo onde lhe coube nascer. Escrever era pouco para ele. O que ele desejava era mudar o mundo. Acabar com toda a violência. Trazer a verdade do cristianismo para o centro da politica. Dar comida e educação aos pobres. Dignidade a todos.
  Em 2017 ainda matamos bichos para comer bife. Ainda fingimos não ver os rostos de esfomeados. Rezamos sem atentar para nossa mentira fundamental: somos violentos. Educamos sem salvar. Vivemos sem agir. E a Russia, terra que Tolstoi amava mais que tudo, ainda é esbanjamento e luxo.
  Ler Anna Karienina foi um dos pontos fundamentais de minha vida.

FREUD EDIPIANO: ÚLTIMA AULA DO CURSO SOBRE.

   O professor conta para a sala, mais de 50 pessoas, hipnotizadas, a história do mito de Édipo. E percebo como deveria ser mágica a época em que bons narradores contavam histórias de forma oral, ao lado do fogo ou à beira do rio. O foco da história: Édipo como alguém que faz perguntas, alguém que quer saber. ( Evito dizer à sala que minha visão do mito é a de que ele mata o pai= Deus, e esposa a mãe=ciência, e isso leva à sua cegueira; ou então o pai como Deus e a mãe como a natureza física ).
  Tirando o foco do escândalo, o professor nos leva às 3 fases de uma criança: o tempo do "o quê é isso?", depois o por quê, e afinal o não avassalador. Mas, filosofa natural como toda criança é, quando ela pergunta o quê é o mar, não é ao mar físico que ela se refere, mas sim o quê significa o mar. Ele é água e sal, e tem peixes, mas daí vem a questão: "por quê ele existe?". Lembro bem que minhas questões, aos 3 anos, eram básicas: De onde vim, onde eu estava antes de vir, para onde eu ia, e principalmente: Se o amor de meus pais por mim seria eterno.
  Segundo o professor, essas questões são comuns à todas as crianças em certa época de suas vidas. E em certo momento todas elas são respondidas com o Não. Você não poderá ter o amor de seus pais para sempre, você nunca terá certeza de nada, e há coisas que voce jamais saberá. É esse Não que formula a lei da civilização e é esse Não que dá sentido à procura. Mas...
  Vivemos em um tempo que odeia o Não. Achamos que todo não é arbitrário e que tudo pode se tornar sim. Não aceitamos o impossível. Não aceitamos aquilo que não tem cura, não tem solução, não pode ser vencido. Nem a morte aceitamos mais. Pior, mesmo a fase do Por Quê tem sido asfixiada. Nas redes sociais, na mídia, nas conversas, ninguém mais pergunta o por quê das coisas, o que se deseja é saber o quê é. Pontos de afirmação e nunca interrogações. A civilização, no seu geral, e mais que todos o Brasil, está ancorado na fase dos 12-16 meses de idade: "Quê é isso?", sem conseguir ou desejar alcançar o "Por quê isso?".
  Quanto as escolas...Bem, o necessário seria dizer aos alunos Por Quê é importante ir à escola. E NUNCA responder com coisas que nada significam, tipo: Porque precisa, Porque vai ser útil, Porque um dia voce vai entender. Jovens não se importam com aquilo que não tem valor existencial. A matemática terá valor se ela fizer sentido para sua vida e não se ela for apenas útil. O utilitarismo da escola mata o sentido que ela pode ter. Ou deveria ter.
  Saber tudo o que aqui foi dito nada tem de útil.
  Mas faz todo o sentido para mim.

Helen Mirren on Vasily Kandinsky



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Matemáticas Kandinsky - Video birografia.m4v



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DO ESPIRITUAL NA ARTE - KANDINSKY

   Abstração. Para Kandinsky ela acontece quando um pintor copia uma floresta, um rosto ou uma cena no mar. Pois a realidade é abstraída da pintura e ela finge ser uma floresta, um rosto ou uma cena no mar.
  Concreta. A pintura de Kandinsky não deveria, segundo ele, ser chamada de abstrata. Pois ela nada abstrai, ela é concretamente aquilo que ela é: cor e forma.
  Mas se um pintor tira de uma paisagem seu motivo para pintar, de onde vem o motivo da nova pintura? Segundo Wassily Kandisnky, da alma. Uma pintura concreta reflete a alma de quem a pinta, isso se ela for pintada com verdade e entrega absoluta.
  Kandinsky criou sozinho aquilo que conhecemos como pintura abstrata. Mais radical que Picasso ou Matisse, ele deu a pintura sua liberdade: uma tela é feita de cor e de forma, nada mais que isso. A cor canta uma emoção, a forma dita um ritmo. Diante de seus quadros vemos a verdade.
  Este livro foi escrito por Kandinsky em 1912. Nele ele explica e defende sua arte. E elogia a música. Para ele, toda arte quer ser música. Porque a música é a mais espiritual de todas as artes. Inexplicável e etérea. Ela nada copia da natureza, ela é pura alma. A pintura que ele faz, ao não copiar nada da natureza, se aproxima da linguagem musical por meio de cor e forma. Suas telas cantam.
  Kandinsky é para mim o maior artista plástico do século XX. E penso que só Paul Klee chega perto dele. O russo pintou a música da alma, e o suíço o sonho do espírito.

Susana Seivane - Himno gallego a gaita



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Cantiga de Maio "O que da guerra levou cavaleiros"



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A IMAGEM DESCARTADA - C.S. LEWIS ( escrevemos para eternizar a vida ).

   Lewis não foi um autor de livros juvenis. Ele foi também um autor de livros infantis. Mas, assim como Tolkien foi um linguista em Oxford e Cambridge, Lewis foi um professor de literatura medieval nas duas instituições. Este é seu último livro, uma coletânea de uma série de palestras dadas em 1963.
  O objetivo do livro não é falar de literatura. É tentar aproximar o mundo medieval de nossa época. Jogar ao lixo preconceitos e mostrar como era a cultura medieval. E ele me surpreendeu muito. Ao contrário do senso comum de 2017, a idade média NÃO FOI um tempo de improviso e de falta de ordem. O homem medieval tinha um profundo amor pela ordem. Sua grande paixão era catalogar, listar, colocar tudo em uma hierarquia. Desse modo, havia a hierarquia da guerra, o catálogo do amor, o modo certo de se escrever, a maneira de ver a vida. Lewis fala da catedral, da igreja, dos anjos, dos livros, da zoologia, da geografia e do espaço sideral.
  Ao contrário do que se pensa, a Terra era considerada redonda, mas centro e periferia do Cosmos. Centro por ser o alvo das influências planetárias; periferia por ser o lugar menos elevado do Cosmos. A Terra era "morta" por não se mover, os planetas eram considerados "animais", seres viventes que influenciavam mas não dirigiam a vida do homem. ( Sim, isso é astrologia ). Talvez a imagem mais bela do livro de Lewis seja essa: O homem medieval via o espaço não como um lugar "lá fora", mas sim um lugar "lá dentro". O espaço era cheio de luz, de anjos, de planetas vivos, de estrelas animadas, de sons, de movimentos. O espaço era olhado como "o alto", o ponto mais perfeito e elevado. O espaço era festa, objetivo de vida, vida absoluta. Daí se deduz que esse homem via a morte como ilusão, a vida era a condição natural do cosmos. Cada planeta vivo em sua órbita, cada espaço escuro, noite de um dia luminoso, cada estrela reino de anjos.
  Homens letrados medievais tinham um profundo amor pelos livros. Para eles tudo que era escrito era "verdadeiro". Se Platão escreveu, mil anos antes, sobre os hermafroditas, então esses seres são uma verdade. Não importa se eles existiram ou não, por terem sido pensados e escritos, eles são parte do mundo. O mesmo se dá com a história. Heitor ou Ajax existiram pois estão na Ilíada. Eles fazem parte da história e a história existe para divertir e para ensinar. Se desconhece o conceito de informar. O que importa é ensinar e divertir.
  Esse mundo se revela, desse modo, pleno de interesse. É um mundo onde tudo importa. Cada pedra e cada animal, cada texto e cada lenda oral, tudo tem algo a ensinar e a dizer. Então o autor medieval escreve com paixão sobre aquilo que a vida é. Nossa dificuldade em os ler é o fato de acharmos que eles "perdem muito tempo" descrevendo o trivial. Esquecemos que isso ocorre porque para esses autores tudo na vida é digno de espanto. A descrição de uma fonte, de uma fada ou de uma parede é tão importante quanto a vida de um rei ou um santo. Tudo é da vida e tudo DEVE SER HOMENAGEADO. A escrita medieval é sempre uma homenagem, a vontade de eternizar o mundo na escrita. O que se escreve é o que se sabe, o que se sabe é amado.
  Lewis diz que um escritor medieval sentiria pena de um autor moderno. Acharia uma pena ele ter de inventar histórias. Isso lhe mostraria que o mundo deveria ser indigno de ser homenageado. O medieval pegava o que já existia e o descrevia. O atual imagina e descreve sua imaginação.
  Não falarei dos anjos pois esse não foi o assunto que mais me seduziu neste muito interessante livro. Termino dizendo que talvez voce tenha pensado que a biografia seria então um tipo de literatura medieval. A resposta é sim e não. Sim porque ele pega o real e vê interesse nisso. Mas essa biografia só terá esse espírito medieval se tiver por objetivo "ensinar e maravilhar". Uma biografia puramente jornalística está tão longe da idade média como o cinema de ação está próximo desse espírito.
 

UMA AULA SOBRE FREUD QUE HABILITA FREUD PARA MIM ( SE É QUE FREUD FOI ASSIM ).

   Vamos direto ao ponto: Nossos instintos estão relegados à simples função vegetativa. Nossos olhos piscam, nosso estômago digere, nosso coração dispara ao sentir medo. E então, falemos do medo. O medo é instintivo a qualquer animal. E quando se sente medo ou se foge ou se ataca. Mas não o homem. Nosso medo precisa ter um porque, precisa ser entendido, combatido e refletido. Então não será mais um instinto, será uma série de narrativas, uma história. O homem é então o único animal que transformou o instinto em palavras. Não se sente medo, se sente medo "de algo", "de um certo modo" e "porque tal coisa representa tal perigo". Conheço bem o medo, não o escolhi à toa. Quando vivenciei o medo sem porque, puro instinto solto, só voltei a sossegar ao saber o porque e o como desse medo "irracional".
  O homem não nega o instinto. Ele simplesmente o perdeu. Na verdade amamos o instinto, idealizamos a vida instintiva, usamos a palavra a toda hora, mas eles foram educados, racionalizados, contidos, e quando as palavras, a razão toma o instinto, ele morre.
  Um aluno pergunta se a linguagem não seria "instintiva". Não, pois instinto não se aprende, e o bebê aprende a falar. ( Instinto é aquilo que não se aprende, que não varia em tempo e lugar, que é comum a todos os homens em qualquer tempo, e que se faz sempre do mesmo modo, sem evolução ou variação. Por exemplo, todo leão caça do mesmo modo, todo lobo vive na mesma ordem social, todo elefante cria os filhos do mesmo modo, todo gato mia nas mesmas situações, não importa se em 500ac ou 2017, todos fazem tudo sempre do mesmo modo ).
  Outro aluno pergunta se os bichos seriam felizes. A resposta é que se ser feliz é viver de acordo com seu sistema vegetativo, sim, animais são plenamente adaptados e felizes, DESDE QUE não tenham contato com humanos, pois nós reprimimos seus instintos.
  Ver um gato dormir, um sabiá comer, um tigre caçar, é ver um ser plenamente livre, em uso completo de tudo aquilo que ele é. Um homem jamais terá essa chance, pois ele dorme pensando, come sonhando com outros planos ou desejos e não caça, e se o fizesse teria montes de vontades e medos misturados ao ato. Nunca somos plenos, pelo simples fato de que pensamos.
  Mas esse fato é inescapável, portanto, podemos viver razoavelmente bem apenas pelo uso das palavras. Se somos "amaldiçoados" pelo conhecimento, é esse conhecimento nossa maior arma. O que nos tirou do Eden é ao mesmo tempo nossa salvação.
  Mas há um fato que se sobressai cada vez mais: nossos instintos, tão fracos, precisam cada vez mais de motivação-pulsão. Comer precisa de variedade, temperos, novidades; o sexo precisa de aditivos, rotatividade, brinquedos, clima; e o próprio instinto de viver e de sobreviver passa a necessitar de motivações, metas e respostas. O sexo instintivo não requer troca de parceiro, ou climas ou imagens; idem para a fome ou a vontade de viver. O instinto requer satisfação simples, e se possível sem variação. Um leão será feliz com a mesma carne por toda a vida e um boi cruzará com qualquer vaca. Mas o homem, com seu instinto fraco-domesticado-mudo ( instinto não fala ), precisa de pimenta e de erotismo.
  As palavras nos levaram ao paradoxo do suicídio, à anorexia, ao tédio e a depressão. O paradoxo de querer morrer, de recusar comida, de sentir vazio perante o universo e a não sentir desejo cercado por coisas que se desejou.
  A linguagem fez de nós ETs em nosso mundo e estrangeiros em nosso corpo. A minhoca em seu jardim está em casa. Completamente em casa. Já nós, quando dizemos "casa", criamos um conceito de "casa", e perdemos essa "casa" para sempre.
  Nosso mundo é feito de palavras. E por isso voce está aqui e nunca ali.

CS LEWIS DIZ O QUE FOI A IDADE MÉDIA.

   Contos e poemas fantásticos são uma parte da idade média. Assim como peças religiosas. O que Lewis destaca, em suas últimas aulas, é que o ponto central do pensamento medieval é o desejo de ordenar, catalogar, salva o universo. ( Salvar no sentido que hoje damos a "salvar um texto ou uma foto no arquivo de nosso computador ). Lewis diz que nenhuma invenção moderna deixaria o homem medieval mais feliz que a enciclopédia. Com sua ordem, índice e abrangência, ela pareceria ao medieval a realização suprema de um sonho.
  O homem medieval amava o livro. E acreditava em tudo que estava escrito. Para ele, se estava num volume, era uma verdade. Mas esse homem conhecia textos que se negavam, que brigavam entre si, e daí vinha a vontade de os ordenar, de construir um pensamento, um sistema que os abrangesse, em ordem e sem conflito. Essa é a raiz de toda filosofia medieval, a ordem, a classificação, a criação de um tipo de sistema onde tudo se encaixa. Hierarquicamente.
  Esse PANO DE FUNDO, preste atenção nessa frase, PANO DE FUNDO, criou a ordem heráldica para a guerra, criou o amor cortês para o sexo e toda a cerimônia da igreja para a religião. Um pano de fundo feito de ordem, ritos, deveres, costumes, a serem usados a fim de dar um sistema coeso àquilo que antes lhes parecia caótico.
  A Divina Comédia é o ápice desse modo de pensamento, a transformação do além em um sistema ordenado, mecânico, coeso, infalível. Longe da ideia popular, de que o homem medieval era um tipo de beberrão infantil, ele era um amante de sistemas, um buscador de ordem, um construtor de catedrais.
  PANO DE FUNDO. Lewis diz que se o pano de fundo de toda obra medieval é o sistema, no século XX é Freud. Toda obra traz as teorias de Freud como pano de fundo, como um tipo de cenário onde o drama acontece. Interessante ele observar, e acertar, que logo esse pano de fundo poderia ser trocado por Einstein. Ou seja, a relatividade e a ciência como pano de fundo às obras da arte e do pensamento.
  Outro fato é que Lewis conta que toda grande obra vai contra esse pano de fundo. Desse modo, Freud seria destruído pelos grandes pensadores ou artistas, assim como os sistemas seriam corrompidos por Shakespeare após a idade média.

trombone com vara: É PRECISO APRENDER A VER?

trombone com vara: É PRECISO APRENDER A VER?:     Crianças sabem ver. Olham.    O vidro gordo de Toddy. A cor marrom e a tampa de lata. O rótulo com a cara de um menino que ri. As letr...

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PODRES DE MIMADOS - THEODORE DALRYMPLE.

   Coloque um broche com o símbolo do combate ao câncer de mama e se sinta então parte de elite "que se importa". O livro bate forte e convence nessa característica única de nossa época: o respeito ao "fraco" e ao "oprimido", e a consequente vaidade que nasce de ser alguém que se importa com o fraco e com o oprimido.
   Dalrymple mostra de forma clara e lógica, que ao se importar com africanos famintos, chineses oprimidos e negros explorados, acabamos por não nos importar concretamente com nada. Defendemos um prisioneiro na Guatemala, mas não conseguimos ajudar nossa mãe, que sofre com a solidão no quarto ao lado. Nos indignamos com a repressão policial na favela, mas não nos indignamos com o modo como nosso pai é tratado no ônibus lotado. Nos tornamos então uma pessoa tão justa, tão correta, tão indignada, tão "boa", que não temos mais espaço interno para ser "apenas" uma pessoa real e presente. Mas nossa vaidade, essa está a salvo, pois estamos todo o tempo "do lado do mais fraco".
  Dalrymple conta alguns casos famosos deste século. Escritores que se fingiram de oprimidos e assim alcançaram o sucesso, pessoas que foram consideradas do mal por não exporem suas dores pessoais ao público. Hoje é muito mais fácil publicar e vender se voce tiver o único mérito de ser parte de uma "minoria perseguida", ou por dizerem a "sua verdade de violência e de miséria". Um escritor "apenas" branco, homem e europeu, se não for viciado, ou meio doido ou gay-sofrido, terá uma imensa dificuldade em ser publicado e comentado. O público leitor foi convencido que "vida real" significa dor e violência, sofrimento e horror, alguém que venha de um meio apenas normal será considerado um "alienado". E ao ler as experiências terríveis de pessoas oprimidas, o leitor, elite envergonhada, se sente "conhecedor da vida real e apoiador das nobres causas". O apelo do livro não mais é a beleza ou a arte da escrita, é a pura vaidade de ler e se pensar do bem.
  Somos parte de um tempo em que a vida privada está submetida ao público. Assim, uma pessoa sensível tem de chorar em público, sofrer às claras e se indignar com exagero. A discrição, que antes indicava elegância e cultura, hoje é tida como "coisa de gente fria, sem coração". É preciso nunca perder a chance de se emocionar, de exibir o coração, de se fazer de criança desprotegida, de perder a pose. Uma celebridade pode ser um crápula, mas se apoiar a causa certa e mostrar algum sofrimento em rede de TV, pronto: ele será mais um cara do bem.
  Dalrymple mostra o começo de tudo isso com o romantismo em fins do século XVIII, o momento em que perder a sofrer passou a ser "viver". Só vive quem sofre e quem sofre é uma vítima da sociedade repressora e má. Pois no âmago de todo romântico vive a certeza de que "todo homem é bom, a sociedade é que o faz mal". Portanto, nada mais heroico que ser uma vítima, ou seja, um sofredor oprimido. Desse modo, de forma lógica, todo homem ou mulher feliz e bem adaptado seria o opressor, uma pessoa que está de acordo com a sociedade que faz dos homens seres maus.
  Estamos no reino em que o mérito é não possuir mérito. " Vejam! Sou pobre e tive câncer, sou um campeão!" Dalrymple pergunta: Campeão do que? Os politicamente corretos não percebem que ao dar tanta atenção a pessoas com vitórias normais, eles próprios admitem que nada esperavam dessa pessoa.
  Nossos artistas são aqueles que trazem o estigma de serem vítimas e não gênios talentosos. Sylvia Plath, Frida Kahlo, Modigliani, Mahler, são ícones acima de tudo por terem sofrido perseguição, doenças ou se matado. Foram vítimas antes de serem artistas.
   O mundo nunca foi tão "bom". E ao mesmo tempo nunca houve tanta violência injustificada. Ele liga os dois pontos. A liberação das mulheres, justa, abriu as comportas para a loucura do ciúmes, genético e biológico, dos homens. A glorificação do gueto, compreensível, levou ao estilo gangster como algo de desejável e sexualmente atraente. Tratar viciados como vítimas indefesas, o que nunca foram, leva a passividade do próprio junkie. Despejar dinheiro em países pobres, o que seria bom, leva a criação de uma elite corrupta e violenta. E o pior de tudo: tratar as crianças como anjos que sabem por instinto o que é melhor para elas mesmas levou à falência da educação mundial. Educar se tornou vergonha igual a oprimir e julgar é hoje um pecado sem perdão.
  Em apenas 200 páginas, Dalrymple dá uma clara mensagem sobre o prazer em ser uma vítima que tomou conta do mundo. Amamos lamber feridas em público, adoramos nos importar com os cachorrinhos sem lar e os índios sem terra. Somos todos bons, e cada vez mais, que pena, crianças e iguais.
PS: É falado sobre a mentira de que a segunda guerra foi a pior guerra da história...a maior chacina da história foi nossa....a guerra do Paraguai matou 95% da população masculina de uma país inteiro.
Mas, adoramos pensar que somos herdeiros da pior guerra da história. Toda guerra é ruim, e a segunda foi mais um crime numa história que não tem fim.
 

EM SÃO PAULO À MODA DE ORHAN PAMUK

   Escrevo agora sobre minha cidade à moda de Pamuk. Istambul NADA tem a ver com São Paulo, mas tem muito a ver...
  A ruptura em SP não se deu com a perda de um império. Foi a perda de uma ilusão. A cidade cresceu na ideia de ser uma filial europeia em meio a falta de estilo e de elegância brasileira. SP negava o Brasil. Não se pensava negra como a Bahia e nem tropical como o Rio. Também não era fechada entre montanhas como Minas e nem caipira como era o sul do país. SP sonhava ser Milano.
  Esse sonho se desfez a partir da década de 70. Os negros saíram da periferia e tomaram o centro da cidade e depois os bairros mais classe média. As favelas cresceram e então veio a imensa onda vazia que baixou sobre a cidade. SP não era Milano. Nem Napoli dava pra ser. SP era Brasil.
  Mas não é. Porque o Brasil também se "esvaziou" com SP. E se Istambul vive na tristeza de não ser Europa e não poder voltar a ser Império Otomano, o Brasil vive o pesadelo de não ser Europa ou Miami, e ao mesmo tempo ter deixado de ser Brasil.
  O que era então esse Brasil?
  Sigo os passos de Pamuk: Como ele, eu também sinto fascinação pelos restos da São Paulo de 1920 até 1960. O pouco que ainda vive de uma cidade que era dividida entre os ricos muito chiques e os pobres bem caipiras. Nesse mundo perdido, o mundo brasileiro, eu respiro em paz e feliz. E penso que todo brasileiro traz dentro de si esse ser que sente melancolia por alguma coisa que se deixou perder.
  Um mundo feito de muita preguiça, sem hora pra voltar pra casa. Mundo de botecos onde todo mundo sabia o nome de todo mundo e onde se tinha crédito na caderneta. Mundo de macumba, de igrejas em festa, de fogueira e de namoros no escuro das ruas. Rádios ligados alto, jogo do bicho, cães vadios e vendedores de bijú. Papagaios no céu, bolinha de gude e futebol de capotão. Pescarias e sono na rede. Café e bolo de fubá. Um Brasil longe do Brasil de hoje, longe da Europa e dos EUA, longe de qualquer pretensão a ser protagonista. Portanto, sem ansiedade.  
  Hoje o que vemos é um país perdido numa briga que não é dele. De um lado os PC e de outro os Reacionários. Uns querem uma ideologia de esquerda à americana, ou seja, politicamente correta e libertária; os outros querem a preservação de algo que eles nem sabem o que é: família e religião.
  Ambos não entendem que o que eles precisariam era reencontrar o modo brasileiro de viver. Entendam, modo de viver, de sentir, de querer; não falo de um isolacionismo bobo e burro, falo de alma, de costume de deixar ser. Consumir filmes americanos, rock inglês, livros japoneses, mas saboreando tudo ao modo brasileiro, o modo lânguido, meio ingênuo meio malicioso, o jeito brasileiro de ser.
  Então não me interesso por essas ruas e esses prédios que são cópias mortas de coisas de segunda do primeiro mundo. Me interesso por aquilo que SÓ EXISTE AQUI. A entrada daquela padaria ( padaria que era uma coisa que só aqui existia ), o jardinzinho daquele sobrado, os 4 andares daquele hotel derrotado e sujo, o sabiá sobre o ipê. Recantos de uma cidade que não é Istambul e não é Miami nem Sevilla. Lugares como Engenheiro Marsillac, a Serra do Mar, a Cantareira, as ruas esquecidas de Pinheiros, da Lapa, do Brooklyn ou da Vila Mariana. Ruas que só existem aqui e não em Londres ou em Montevideo.
  Meu ódio por SP é proporcional ao amor por essas ruas.