Django Reinhardt - Minor Swing



leia e escreva já!

ANOS 20

   e Então modernos? Ano que vem começam os anos 20.
  E quero saber quem vai ser o James Joyce do pedaço. O TS Eliot do verso.
  Quero ver um novo Bunuel e meu querido Buster Keaton.
  Heminguay e Fitzgerald, e uma nova música popular, uma era do jazz.
  São os anos 20 galerinha, e eles definirão todo o resto de século a ser vivido.
  Bartok e Gershwin.
  Tem algum Proust por aí?
  Um Kafka pelo menos?
  Está em formação um Beckett e um Fernando Pessoa não conhecido?
  Me manda um Picabia, um Dali e um Miró.
  Em que artista invisto?
  Há uma nova Paris ou uma ousada New York?
  São os anos loucos?
  ( são os anos deprimidos melhor dizendo )

ALDOUS HUXLEY, O CHAPÉU MEXICANO E OUTROS CONTOS.

   Houve um tempo, por volta dos anos 20, em que abundavam revistas que publicavam contos. Havia uma demanda constante por histórias, narrativas que falassem da guerra, de crimes, de horror ou de casos de amor. E algumas revistas, The New Yorker era a melhor delas, que pediam arte. Não havia romancista que não tenha começado como contista e Tchekov era o modelo a ser seguido.
   Ainda bem jovem, Huxley lançou vários contos e este livro compila alguns de seus primeiros. Ainda não é o gênio que escreveu Contraponto, muito menos o autor de ficções perturbadoras sobre a distopia do futuro. Aqui seu objetivo é descrever uma personalidade, um caráter e um momento crucial. São leves, agradáveis, bem escritos e graças a Deus, bem traduzidos. Tio Spencer é de longe o melhor conto, retrato afetivo de uma infância e de uma vida que se choca com a verdade do mundo.
  Huxley nunca é desinteressante.

HAROLD BLOOM E WOODY ALLEN, A MORTE MORRIDA E A MORTE EM VIDA.

   Na antiguidade grega quem ia contra o senso comum era condenado ao ostracismo. Tipo de morte em vida, o cidadão grego era expulso da cidade e seu nome era esquecido. Nada mudou. Apenas o senso comum flui em ondas de acordo com a maré da década. Oscar Wilde foi perseguido por deixar ser exposto seu caso com Bosie, Ezra Pound por defender Mussolini. Hoje, divididos que somos em pequenas tribos virtuais, somos perseguidos pela tribo X enquanto a tribo Y nos adora. No mundo da arte, digamos que seja a tribo W, há um libertarismo limitado. Voce pode ser gay. Voce pode ser comunista. Voce pode ter uma religião oriental. Mas por favor, não venha defender a civilização ocidental branca hetero do século XX. Voce será exorcizado.
 Woody Allen, como todo homem criativo, é uma alma complicada. Não tenho certeza de nada do que ele faz entre 4 paredes, mas sei que tipo de arte ele fez. E sei qual o alvo de seu humor. Ele sempre defendeu a mulher liberal, democrata, pós feminismo. Sempre amou o intelectual da universidade, o cara culto e neurótico. Em seus filmes não há o menor traço de ranço racista, de machismo ou de violência. O que ele nos dá é um mundo civilizado. Talvez, para os tempos de hoje, civilizado demais.
 Se ele seduziu sua enteada, pouco me importa. Me importaria se houvesse qualquer sinal de estupro ou de dor. Não é o caso. Eles se casaram e parece que viveram bem por vários anos. O que não é o caso da ex, Mia Farrow. Mas também não posso falar de Mia. Tudo que sei é que ela nada produz em arte e só foi grande ao lado de Woody Allen.
 As pessoas não se contentam mais em absorver arte e fruir cultura. Elas querem saber tudo. E acham, como diria Paulo Francis, "de forma Jeca", que a vida pessoal do outro é podre e a delas mesmas é "democrática". Meryl Streep se tornou uma ditadora "do bem", e o Oscar é hoje um ridículo "clube dos diversos que são todos iguais". Woody Allen é perseguido por ter sido simplificado. Ele é visto por esses míopes coloridos, como apenas um "macho abusivo". Então posso dizer que Oscar Wilde era somente uma bicha engraçada, Henry James um frustrado esnobe e Paul Gauguin um pedófilo colonialista.
  Não há personalidade grande sem grandes "pecados". O artista do bem é um banana. Todos têm alguma tara, todos são egoístas, todos são esquisitos. Inclusive os artistas negros, mulheres, do terceiro mundo.
  Em 1920 Fatty Arbuckle era o comediante mais famoso do mundo. Mais que Chaplin ou Keaton, ele era o cara. Aqui no Brasil ele era conhecido como Chico Boia. Acusado de estupro, por uma menor, ele foi a tribunal, condenado, e morreu pobre e esquecido. No auge dos dvds, seus filmes nunca foram reavaliados. Nesse caso concordo. Ele foi um criminoso julgado e condenado. Fez um ato de violência real. Repugnante. Não foi condenado por não fazer parte do senso comum ou por falar algo que foi contra o esperado óbvio. O caso é diferente. É penal.
  O futuro esquecerá o homem Woody Allen e apreciará o liberalismo humanista de filmes como Manhattan e Annie Hall. Acontecerá com ele o que ocorre com TS Eliot ou Nabokov: a arte deles é tão boa, que por mais que os juízes do bem gritem, eles não podem ser esquecidos.
  Harold Bloom foi um dos primeiros a alertar o mundo sobre a ditadura do politicamente correto. Ele já em 1989, dizia que se dava mais valor a uma pintora mexicana tetraplégica por ela ser mulher e doente, e não por pintar melhor. Que Sylvia Plath era um mito por ser esposa de um suposto machista egoísta, Ted Hughes, e não por ser melhor poeta que o marido ( Ted Hughes é bem melhor ). Havia e há até o delírio de se achar que a força criativa era Zelda Scott e não Scott Fitzgerald ( qualquer bobo sabe que Zelda prejudicou a escrita de Scott ). Bloom teve a coragem de dizer o óbvio: que se julgue a obra pelo que ela é concretamente e não pela alma inocente ou não de quem a construiu. Nelson Rodrigues estaria esquecido se fosse americano. E aqui? Já está?
  Dante está sendo esquecido por ser apenas um macho europeu, além do que católico, e há idiotas dizendo seriamente que Shakespeare era mestiço, gay e fumava maconha. ( Juro que li isso ). Será que Cervantes era um asteca perdido na Espanha?
  Recentemente uma revista inglesa publicou os 50 poetas mais importantes da língua inglesa. Esqueceram William Blake. John Donne. E injustificadamente, John Keats ( ??? ) e John Milton ( !!!!! )...em compensação havia uma enorme quantidade de mulheres negras "oprimidas"...Elas são boas poetas? Não posso julgar pois não as li. São mais relevantes que os quatro homens citados? Deixo que voce pense sobre isso. A boa nova é que choveram cartas defendendo John Keats.
  Bloom morreu velho e fora de moda. Woody Allen está vivo e fora de questão. E eu não ligo pra isso. A arte é bem mais forte que o tempo. Ela vencerá.

OS ELEITOS - ALEX KERSHAW. A BATALHA DA GB.

   Não, não confunda com o excelente filme de 1983 sobre os homens que quebraram a barreira do som. Em comum, apenas o ato de voar. Alex Kershaw escreveu uma boa biografia sobre Robert Capa e então este livro me pareceu bom. Não é não.
  O tema é maravilhoso. Em 1940, cinco americanos ignoram a neutralidade americana e se alistam na RAF, a força aérea inglesa. Isso era crime nos EUA, e portanto eles fogem para o Canadá e de lá vão à França e por fim à Londres. Nenhum deles é militar. São apenas jovens que sabem pilotar aviões. Nenhum deles sobrevive à guerra. Morrem em combate e só após Pearl Harbour é que os EUA entram na guerra.
  Pois bem, com um tema desses, o livro consegue ser truncado, chato, repetitivo, boçal. Como pode isso? Então percebo o porque. Tradução porca! As frases sem sentido se acumulam, verbos repetidos à granel, frases que não fluem, toscas, sujas. Creio firmemente que ele foi traduzido em algum programa de computador, e tenho certeza que não foi revisado.
  Então me desculpe Kershaw, mas eu na verdade não li seu livro. O que li é um amontoado de palavras que se atropelam e cansam a leitura de qualquer um.
  Pena.

A TRÉGUA - MARIO BENEDETTI

   No Uruguai de 1960, um homem de 50 anos, prestes a se aposentar, sim, a aposentadoria era aos 50, pois se vivia até os 60, se enamora de uma colega de trabalho. Ele tem 3 filhos adultos e é viúvo. Ela tem apenas 25 anos. Claro que eu me interesso por esse tema ( quem me conhece sabe o porquê ), mas o livro é bem chato.
  O autor usa a forma diário, então lemos esse namoro dia a dia. Mas não é esse o problema. A linguagem é pobre e os pensamentos do homem são banais. Não senti a menor afinidade com nada no livro. Suas inseguranças não me fizeram simpatizar com ele e seus pensamentos profundos são xucros.
  Este livro, 120 páginas, é considerado o melhor produto de um autor importante. O que posso registrar ainda é que o li sem nenhum prazer. Terminei ontem e já começo a o esquecer.
  E é só.

CARTAS PERSAS - MONTESQUIEU

   Em 1725 Montesquieu nobre francês, lança este best seller ( sim, foi um imenso sucesso então ). Cartas Persas é uma obra em que o autor cria uma correspondência entre príncipes persas que viajam à França. Eles comentam aquilo que observam e ao mesmo tempo recebem notícias de seu reino. Na Pérsia tudo se resume as intrigas entre eunucos e escravas, na Europa tudo é hipocrisia e vaidade.
  Montesquieu aproveita para demonstrar os erros do catolicismo, da moda, dos poetas e dos intelectuais. Várias são as cartas memoráveis. O retrato que ele faz de Espanhóis e portugueses é perfeito: Homens que se acham superiores só por terem a pele clara, e que por isso passam a vida sentados, sem trabalhar, pois o trabalho é indigno de brancos.
  Ele aponta ainda um fato pouco reparado: o colonialismo empobreceu os países colonialistas. Portugal e Espanha se arruinaram na América, pois a despesa sempre foi maior que o lucro. Holanda e Inglaterra enriqueceram por comerciar e não colonizar.
  Mas há bem mais! O autor explica o porque do apogeu de Roma e a pobreza da Italia e adverte que o primeiro sintoma da decadência é a diminuição da população.
  Montesquieu defende o protestantismo, o divorcio, a liberdade, a união em torno de um líder. Seu raio X da Inglaterra é sublime: País de gente impaciente, ativa, trono forte com reis sempre fracos, o que garante a força da instituição e não da pessoa´.
  Livro central do grande século da luz.

MAIS UM NABOKOV: O DOM.

   Este é dos anos 30 e é bastante ambicioso. Uma auto biografia fake, o livro mistura xadrez com borboletas ( dois amores de Nabokov ), com o início da vida de um emigrado russo na Alemanha pré nazista. O estilo é elaborado ao ponto da quase saturação. Elitista. Saboroso.
  Longo, tem no capítulo 2 o seu maior momento: o autor descreve e narra a vida de seu pai. Um homem que explorava o mundo atrás de espécies raras de borboletas. Um tipo de nobre muito em moda no fim do século XIX, o "homem de ciências". ( Penso em nosso Dom Pedro II ). Apaixonado por conhecer este mundo pela via científica, esse homem não mede esforço para ir onde seu desejo de saber o manda. O filho, o autor, ama esse pai sem nenhum pudor. O pai de Nabokov, sabemos, foi bastante assim.
  Os demais capítulos, são poucos e são imensos, nos seduzem com a exposição de um universo que não existe mais. Sinto pena por Nabokov não ter visto a morte da URSS. Ele amaria ver Leningrado retornar a São Petersburgo. E seus livros serem finalmente lá editados. Mas não houve tempo, ele morreu em 1977, aos 78. Teria de ter chegado aos 90.
  Um escritor tem de ser muito bom para conseguir me fazer sentir prazer em ler páginas e páginas sobre borboletas. Ele consegue. Jamais leia um autor deste tipo, mestre na arte da escrita, esperando a fascinação de um enredo. O fascínio aqui nunca está no que se conta, está no como se conta. Pouco importa o motivo, o que queremos é ler palavras. Palavras que se transformam em sentenças, que harmonizam como música e metamorfoseiam-se em borboletas ou peças de xadrez. Ou um quarto barato em Berlin.
  Ah! As personagens, muitas, são maravilhosas!

SOMOS TODOS ARLEQUINS - VLADIMIR NABOKOV

   Escrito em 1974, já em sua velhice, este livro, meio auto biográfico, mostra mais um tipo de Nabokov.
 Fascinante autor, ainda não li dois livros dele que fossem parecidos. Li dois bastante ruins, li três geniais, e ainda mais dois "apenas" ótimos. Este é um dos ótimos.
 Aqui ele conta as memórias de um refugiado russo. Vadim é escritor de sucesso, professor universitário nos USA e se casou várias vezes. O que ele mais lembra aqui são seus casamentos. O primeiro termina em tragédia, outro vira pesadelo, mais um que se torna uma piada e um novo casamento que promete ser bom. Há ainda a relação com uma filha. ( Estranho mundo o nosso. O personagem, não há como evitar, parece ter uma relação carinhosa demais com essa filha...incesto? Ou estamos educados e amestrados a ver doença em ato sem conotação sexual? ).
 Vadim é esnobe, hedonista, vaidoso, preconceituoso e brilhante. E terrivelmente sexista. Não é simpático, é interessante. E tem queda, outro problema neste século, por ninfetas. Penso em como um rapaz médio ou uma garota mediana, irá reagir ao fato dele "adorar" quando Dolly, uma sua vizinha, senta-se em seu colo insinuando uma nascente sensualidade. Detalhe: Dolly tem 10 anos...Quando ela chega aos 22 ele é seduzido pela antiga criança.
 Disse que Nabokov cria livros diferentes. Mas eu menti. Nabokov nos faz bons mentirosos. Seus livros são sempre o mesmo. Sexo é o centro e há sempre um homem muito vaidoso perdido em seus pensamentos. Esse homem tem uma cultura clássica, vasta, e é russo. Anti bolchevique, ele tenta sobreviver em meio às delícias do ocidente. Não tem lar. Não tem raiz. E é seduzido pela jovem ninfa: a América. Linda, tola, alegre, saudável e limpa.
 Acho que voce não vai encontrar este livro para venda. Mas vale à pena. Nabokov escreve como se letras fosse notas musicais. É um estilo grande, exibicionista, faminto.
 Ele corre o risco de ser enterrado e banido de nosso mundo diverso e igualitário. Nabokov lembra um tipo de homem que as pessoas querem fingir nunca ter existido. Eu adoro ele. E não tenho problema algum quanto à isso.
 

GÊNIO?

   No último dia do Rock in Rio tem King Crimson. E a banda é massacrada pelos ditos críticos por ser elitista. Oh God!
   Neste tempo de "democracia do gosto" se instaura o "pecado do elitismo". O King é chato. Ok. Mas criticar elitismo? Seria hoje o Velvet Underground chamado de metido à besta? É pecado exigir do público cultura e discernimento?
   Postei video do Glenn Gould. Pianista canadense, morto precocemente em 1982. Ele tocava para si mesmo. Pegava Bach e o explorava ao vivo. Reduzia a velocidade, empacava numa nota, mudava timbres. Ia fundo em cada aspecto do compositor. Para ele o público deveria se esforçar para o acompanhar. E essa é a palavra: esforço. Me parece que qualquer pedido de esforço hoje seria elitismo. Parte-se da ideia de que o público é idiota e assim deve ser respeitado em sua folgada idiotia.
   Genialidade é sempre desconforto. Há gênios felizes, mas não existe genialidade democrática. O gênio exige aperfeiçoamento. É para poucos. É aristocrático.
   Claro que King Crimson não é genial. Mas ele exige um mínimo de concentração. De senso musical. E isso irrita os inconcentráveis sem senso.
   A burrice é a fé do século.

Django Reinhardt CLIP performing live (1945)



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Glenn Gould-J.S. Bach-The Art of Fugue (HD)



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Mozart conoce música de Johann Sebastian Bach



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CÂMERA OBSCURA - VLADIMIR NABOKOV

   Odiei. Abominei. Detestei.
   Escrito quando Nabokov vivia em Berlin, quero crer que este livro foi escrito apenas com o desejo de conseguir algum dinheiro. É um tipo de Anjo Azul em versão russa. Homem rico e casado se envolve com menina ( 16 anos ), pobre, bonita e desinibida. Ele afunda em solidão e claro, é humilhado. Há o mérito de nuançar a menina, ela não é apenas má. Tem seus motivos. Mas não há nada do inventivo Nabokov aqui. É um livro terrivelmente pop. Prevemos tudo o que irá ocorrer, a história corre em seu caminho comum e banal. Odiei ver o mago Nabokov, mago da linguagem, dos climas mágicos, da sensibilidade, percorrer esse circuito best seller vulgar. Não há jogo de escrita, não há refinamento, não há surpresa nenhuma.
  Curto e bobo, joguei ao lixo o livro assim que terminei de o ler. Raras vezes fiz isso na vida. Minha reação irada revela o amor que tenho pelo autor.