TOMAS TRANSTOMER NO BRASIL ( ENFIM )

   Ao contrário da maioria dos estudantes de línguas, eu não creio que um dia a linguagem foi mais viva do que é hoje. Palavras, o verbo, foi criado para tratar de trabalho e da vida em comunidade. Sonhos, sentimentos, intuições jamais couberam em linhas, sentenças, sujeitos e adjetivos. Desse modo, posso dizer que a poesia sempre foi um ato em que tentamos dizer o indizível. Todo poeta faz uma atividade fadada ao fracasso, palavras nunca dirão exatamente aquilo que ele sente dever dizer. Mas na tentativa, falha, ele cria uma terceira possibilidade. Ele dá vida à algo que não é inefável, mas que também não é apenas verbo e objeto.
  Transtomer finalmente chega em tradução. Eu o espero desde 2011, ano em que venceu o Nobel. A editora promete lançar mais obras. Eu aguardo. Me identifico com ele. Suas intuições são irmãs das minhas. Ele nunca é emotivo. É como se ele virasse a esquina antes da emoção fluir. Escreve a sensação que nasce antes da emoção plena. Ele olha e recolhe. Ele vê e escreve. Está aberto aos estímulos, atento às pequenas coisas, mas mantém um certo distanciamento, calma dentro da sensação.
  Sua sintaxe é apurada e seu vocabulário simples. É direto. Não se perde em requintes exibicionistas. Tem o rigor do norte.
  Um poeta maravilhoso.

FLORESTA ESCURA - NICOLE KRAUSS

   Ele começa com uma citação de Kafka. Aquela que diz que nunca saímos do Eden. Que na verdade somos incapazes de perceber isso por não termos comido da árvore do conhecimento. Começo então a leitura.
   São duas histórias que se movem de forma paralela. Uma, em terceira pessoa, conta a história do milionário Friedmann, um advogado que aos 65 anos doa todos os seus bens e despojado, ruma à Tel Aviv. Lá ele se envolve com um rabino meio fajuto, uma produção de cinema caótica e planta uma floresta em homenagem aos pais mortos. A outra história, em primeira pessoa, fala de uma escritora chamada Nicole, que foge do casamento e dos dois filhos, indo à Israel se hospedar no Hilton, onde ficava em sua infância, à procura de seu duplo, seu outro eu que vive no mundo "à parte". Ela é contatada por um ex professor velho que lhe envolve na caça aos papéis perdidos de Kafka. Isolada no deserto, ela renasce. Ou não.
  Nicole Krauss é ainda jovem e é considerada uma das maiores promessas das letras americanas. Judia, o romance tem por tema as obsessões judaicas: o duplo, o renascimento, a culpa, o deserto, o desterro, Davi, a escrita. Não só por colocar duas fotos em meio ao texto, fotos que servem para "provar" a verdade de uma coisa ou de um lugar; seu estilo me lembra Sebald, o genial autor alemão. Como Sebald, Nicole mistura personagens de ficção com outros históricos, narrativas inventadas com fatos comprovados, e faz com que não saibamos, às vezes, se aquilo que lemos é romance ou história, invenção ou jornalismo, mentira ou verdade. Sebald é mais radical. Ele realmente nos faz ficar em dúvida todo o tempo. Krauss pega mais leve. Ela é menos histórica e mais íntima. Nicole é Nicole Krauss?
  Essa literatura do diáfano, do confuso, esse mix de invenção e pesquisa, de fato e ficção, é a coisa mais fascinante que se escreve hoje. É retrato de um mundo que sabe muito e por isso sente não ter certeza de nada. Onde o que é pode ser mais, e o que não é pode vir a ser. Onde tudo é uma possibilidade. Inclusive a não possibilidade de tudo.

CAMISA QUE PESA

Camisa que pesa: Nada mais bobo para se dizer sobre o futebol. Camisas pesavam na época da falta de informação. O cara ouvia falar de Pelé e dos feitos do Brasil e quando via um bando de desconhecidos usando a blusa amarela tinha a sensação de jogar contra lendas. Zé Maria, Valdomiro ou Dadá viravam jogadores temidos por usarem a blusa pesada. Ninguém de fora do Brasil sabia o quanto eles eram ruins.
Não há mais camisa pesada porque hoje não se joga contra uma camisa lenda, se joga contra um time de jogadores muito conhecidos. O jogo é entre pessoas que se conhecem, que jogaram contra em seus times, ou pessoas que jogam juntas o ano inteiro. A camisa se tornou apenas uma cor, uma lembrança do passado, não mais o único sinal conhecido.
A gente não sabia nada sobre Overath. Apenas que ele usava a camisa da Alemanha. Então ele deveria ser dono da mística da camisa branca. Hoje saberíamos que Overath era um grande meia armador. E provavelmente companheiros de dois ou três adversários. Cruyff jamais seria uma surpresa hoje. O fato da camisa laranja em 1974 não ter peso nenhum ( era mais leve que a de Portugal ou do Perú ), nada significaria. Do outro lado Zagallo e Rivellino veriam jogadores pesados. E não anônimas camisas laranjas.
Como na Euro, a tendência da Copa é ter cada vez mais campeões inéditos. França e Espanha são a tendência. Foram dois inéditos em 20 anos. E teremos neste ano uma final nunca vista. O futebol se globalizou, E o que vale é o aqui e agora. O passado tem de ser conhecido. Mas é  isso. História.

MATADOURO CINCO

Voce ama ou odeia. MATADOURO CINCO é um filme que impressiona de cara: uma máquina de escrever datilografa a história de um homem que está preso numa viagem pelo tempo. E voce estará preso em um filme que viaja pelo dentro de fora, pelo real e pelo imaginário, pelo futuro e pelo passado.
Pilgrim é um bobo. Calado, não muito esperto, ele é preso do acaso. É um soldado na segunda guerra. É preso pelos alemães. Vê uma nave no céu. Cresce na América dos anos 40-50-60. Casa com uma mulher que não ama. É raptado e enviado para o futuro. Descobre o sexo já na maturidade. Vê a destruição de Dresden pelos aliados.
George Roy Hill dirigiu este filme em 1972. Após seu sucesso em Butch Cassidy, ele faz um filme de "arte". Usa o livro de Kurt Vonnegut Jr. Usa a fotografia belíssima de Miroslav Ondrieck ( tcheco dos filmes de Milos Forman ). Usa a música de Bach tocada por Glenn Gould. E tudo isso junto faz deste filme uma coisa deliciosa, engraçada e trágica, muito trágica e muito engraçada.
As cenas se sucedem em cortes. Cenas muito curtas, algumas muito longas. Aquelas no planeta alienígena são as mais difíceis, o que é aquilo afinal? Seria esta Terra vista sob outro foco? O limite como prazer? Ou Vonnegut brinca com a física quântica? E há a beleza inenarrável de Dresden. Vemos o paraíso possível, humano, ser destruído inutilmente pelo homem, que se cria o céu cria o inferno também. Dresden foi tão destruída quanto Nagasaki. A cidade inteira foi arrasada em uma noite. Toneladas de bombas incendiárias jogadas sobre uma cidade que não tinha tropas e nem fábricas. Uma simples vingança. O filme não faz draminha: tudo é mostrado de forma seca. É de uma aterradora beleza. É o centro da vida de Pilgrim, um Forrest Gump sem doce simpatia spielberguiana.
Este filme foi um grande fracasso. Hoje parece obra de gênio. Ele prova o quão miserável é nosso cinema atual.
Em sequência George Roy Hill ganharia o Oscar com Golpe de Mestre.

IKIGAI, OS SEGREDOS DOS JAPONESES PARA UMA VIDA LONGA E FELIZ- HÉCTOR GARCIA E FRANCESC MIRALLES

Dei de presente para minha mãe este livro de autoajuda. Apesar da bela capa e do viés oriental, sim, é autoajuda. Mas é uma autoajuda menos chata e menos mágica.
Trabalhar por toda a vida é o segredo número um. Trabalhar atingindo o ponto de "fluir", que seja, tirar da simplicidade de seu trabalho um tipo de dança do tempo.
Difícil para mim falar deste livro. Tudo o que ele tem de melhor eu pratico desde sempre. Por intuição. Ninguém me ensinou a meditar, mas eu medito em qualquer lugar, basta ter algum canto quieto. Ouvir o ambiente, sentir o presente, se dissolver no lugar. Não acho nada disso difícil. Fico surpreso quando alguém diz não saber do que falo.
Enquanto voce Lê isto tudo que existe no mundo é voce lendo isto. Um conceito zen que entendo facilmente. E o experimento desde sempre. Não há futuro, não há passado. O que realmente podemos sentir e provar é o agora.
Este momento jamais irá se repetir. Esta pessoa jamais será o que ela é agora. Por isso o amor japonês ao bule rachado, à xícara quebrada: imperfeição da vida, bela sempre, mas jamais perfeita.
Regra segunda: aceite seus pensamentos, mesmo os ruins. São apenas pensamentos. Olhe para eles como aquilo que eles são: pensamentos. O que importa é a ação e pensamentos são coisas para serem vistas. Deixe sua mente pensar o que ela pensar. Não tente mudar ou calar sua mente. Ela própria seguirá seu caminho.
Aprenda, nunca pare de aprender. Fazer a cama pode ser um aprendizado para quem nunca o fez. Varrer a calçada. Escrever uma carta. Há milhares de pequenas coisas para serem aprendidas. ( Bill Gates adorava pintar paredes. Pintar mesmo, como um pintor comum ).
É um livro legal.
PS: quem é Victor Frankl ?

O BRASIL DE 2018 E A ARTE DO SÉCULO XX

   A mania por ideologia que o Brasil vive hoje, uma mistura pesada e rancorosa de politicamente correto, esquerdismo mofado e direitismo de fantasia, me fez, afinal, perceber algo que sempre ocorreu durante todo o século XX: o viés ideológico em toda forma de crítica artística.
  Sim, foi ingenuidade minha, mas crescendo em um país sob censura dura, os críticos de arte não podiam dar nome aos bois, e então atacavam Howard Hawks por exemplo, sem dizer o porquê de tal esnobada. No fim do século, nas décadas de 80 e 90, essa patrulha ideológica arrefeceu, mas agora, na segunda década do século XXI, ela tem voltado. Dessa vez travestida de feminismo, ecologia e de "igualitarismo".
  Hoje há um movimento que volta a desvalorizar os filmes de Sam Peckimpah, de John Ford ou de Clint Eastwood. Dentre muitos outros. São os mesmos que eram preteridos em 1970 em favor de Antonioni, Pasolini ou de Welles. Hoje eu sei que se amava tanto esses diretores ( e Godard, e Cassavetes, e Rosselini, e Varda ) , por serem todos eles anticapitalistas, quando não comunistas assumidos. Nesse mundo patrulhado, Frank Capra era taxado de fascista, e apesar desses críticos gostarem de seus filmes, Capra era sempre considerado um "artista menor".
  A lista de diretores e atores desvalorizados por não serem de esquerda é imensa. Vai de Ford e Hawks à Malle, Chabrol, Clouzot, Bresson e Carné. Muito da "genialidade" de Chaplin se deve ao fato dele ser do PC. Buster Keaton, tão genial como ele, era visto apenas como um americano alienado. Brando era maior que qualquer outro por ser visto como um antiamericano. ( Ele era mesmo? ).
  Muitos foram hiper valorizados por esse perfil PC. Picasso, claro que genial em qualquer tom, foi colocado acima de Matisse ( que seria apenas um burguês colorido ), quando na verdade os dois são do mesmo patamar. Não pense que o status de Frida Kahlo se deve apenas à sua pintura.
  Percebo então, com certo aturdimento, um óbvio que demorou muito a me atingir, a de que a crítica e o valor em toda a arte é muitas vezes poluído pela opinião política. Um artista de direita, como Eliot ou Yeats, tem de ter uma genialidade imensa para poder ser aceito por um crítico de esquerda. Para esse crítico, Sartre sempre parecerá maior que Camus e Genet será mais considerado que Saint-Exupéry.
  Tenho amigos que não conseguem mais ver um filme com John Wayne. Para eles, que antes o assistiam com amor, ele é hoje o símbolo do mal. Em sua mente Wayne é um Trump no faroeste.
  Tenho a certeza que se vivo, Nelson Rodrigues e Paulo Francis seriam atacados o tempo todo, sem parar, e seu valor seria diminuído ao burlesco.
  Uma pena.

FILMES NOIR, ALTMAN, DR WHO E OUTRAS COISINHAS MAIS

   RINCÃO DAS TORMENTAS de John Boulting com Richard Attenborough
Graham Greene escreveu uma obra-prima sobre um psicopata bandido que espalha violência em Brighton. É um filme extremamente invulgar. Richard tem uma atuação brilhante e o filme é perturbador. Greene gostou do filme e ele se tornou um pequeno clássico inglês.
   O AMANHÃ QUE NÃO VIRÁ de Gordon Douglas com James Cagney
Rápido e direto, eis um filme policial do velho estilo, simples e cheio de fúria. Cagney dá um show como um bandido que foge da prisão e volta logo a vida de crime. Vaidoso e violento, seu personagem é repulsivo. O filme é muito divertido.
  SANGUE DO MEU SANGUE de Joseph L. Mankiewicz com Edward G. Robinson, Richard Conte, Susan Hayward.
Quase uma obra prima. Mankiewicz foi roteirista e produtor nos anos 30 e 40, e esta é uma de suas primeiras direções. Um drama realista com altas doses de simbolismo, ele fala de um pai-mafioso que tem um filho favorito. Esse filho é preso e ao sair da prisão enfrenta a traição dos irmãos invejosos. Os atores brilham e o filme nos prende, é grande, sério, magistral. Um ano depois Mankiewicz receberia seu segundo Oscar por A Malvada.
  SEM SOMBRA DE SUSPEITA de Michael Curtiz com Claude Rains
O box 9 de Filmes Noir continua em alto nível com este filme do diretor de Casablanca. Rains é um radialista que é suspeito de assassinato. Um filme de suspense, cheio de clima. Muito bom.
  CILADA MORTÍFERA de Irving Lerner com Vince Edwards
Eis um filme duro de classificar. Voce vai achar que ele é um lixo ou uma maravilha. Lerner fez um filme barato que bebe nos filmes franceses policiais que se faziam então. É um filme boêmio, jazzy, cheio de estilo, seco e muito cool. Ou talvez seja apenas um filme muito amador.
  O PERIGOSO ADEUS de Robert Altman com Elliot Gould e Sterling Hayden.
Talvez seja este o melhor filme de Altman. Há uma alegria que paira sobre este filme, uma leveza que ilumina cada cena. Altman pega Philip Marlowe e o imagina na California de 1974. Ou seja, é o detetive moral de Chandler em meio ao sexo livre e às drogas da época. A primeira cena do filme, Marlowe e seu gato fujão, é deliciosa! Elliot Gould faz um detetive que transita pelo mundo new age da época como se estivesse sonâmbulo. Ele fala sozinho, não toca em mulheres e não gosta da violência. O filme, grande como todo filme de Altman, é original.
  RENEGADOS ATÉ A ÚLTIMA RAJADA de Robert Altman com Keith Carradine
Um bando de caipiras ladrões dos anos 30. Altman foca no dia a dia banal deles. São burros, são pobres, são limitados. E sujos. O filme tem ar de saudade, de foto amarelada. É bonito e é diferente, bem diferente. Feito em 1974, ele tem o estilo dos filmes feitos 40 anos depois.
  DENTRO DA NOITE de Raoul Walsh com George Raft, Ida Lupino, Humphrey Bogart e Ann Sheridan.
Uma obra prima. Raft é o ator principal, Bogey na época ainda não fizera O Falcão Maltês. Os dois são irmãos donos de um caminhão e a primeira parte do filme é um maravilhoso quase doc sobre a vida nas estradas. Bem realista, o filme mostra lanchonetes, policiais, cargas, toda a vida de trabalhadores pobres das rodovias. Depois Walsh se concentra numa trama de assassinato e ciúmes, o filme vira um drama noir. É um dos melhores filmes de um cara que dirigiu mais de 80 produções. Grande diversão!
  DR WHO E A GUERRA DOS DALEKS de Gordon Flemyng com Peter Cushing
Feito em 1965, este filme aproveita o sucesso da série da BBC. Mas é um filme pobre e meio brega. Uma decepção colorida.
  A DIVORCIADA de Robert Z. Leonard com Norma Shearer, Chester Morris e Robert Montgomery
Uma esposa pega o marido no flagra e  se divorcia dele. Este dramalhão deu um Oscar à Norma Shearer, uma das estrelas dos anos 30 menos lembradas hoje. Mas ela foi grande! Se casou com o produtor Thalberg e ao ficar viúva desistiu do cinema aos 30 anos. Ela era sexy e pudica ao mesmo tempo, a voz era linda e seu estilo ainda era meio cinema mudo. Exagerado. O filme é bem antiquado.
  UMA ALMA LIVRE de Clarence Brown com Norma Shearer, Lionel Barrymore e Clark Gable.
Uma moça mimada, filha de um juiz, tem um caso com um bandido. Gable esbanja mal caratismo e machismo e Norma está bem sexy. O filme é moralista, claro, mas ao mesmo tempo estranhamente safado. Não é muito bom.
 

"Finding Gobi" - The Amazing Story of A Courageous Little Dog (2017)



leia e escreva já!

Cliff Young



leia e escreva já!

PROCURANDO GOBI - DION LEONARD

   Dion Leonard nasceu na Austrália e é corredor de maratonas extremas. Mora na Escócia e suas provas favoritas são aquelas que cruzam desertos. Já correu no Kahalari e no Saara. Em 2016 foi correr em Gobi, no nordeste da China. 240 km a pé. Montanhas, areias sem fim, dunas, e até um pântano.
  Ele fala, brevemente, de sua infância dura e solitária. E de seu casamento com uma corredora. Parte Gobi adentro. No caminho, vinda do nada, uma cachorrinha vira lata começa a seguir Dion. Entre os dois nasce uma cumplicidade. Ela corre e corre e corre com ele. Debaixo de 48 graus. Na tempestade. No mato. Toda esta primeira parte do livro é muito boa. Sem enrolações e jamais humanizando o bicho, Dion escreve uma bela aventura. A camaradagem entre os competidores, o sofrimento físico, a beleza de correr, está tudo lá. Ele batiza a cachorrinha de Gobi.
  E ela desaparece numa grande cidade da China. E aqui o livro cai. Vira paranoia. Vira burocracia. Vira medo. Não estraga nada eu dizer que Gobi é reencontrada. Ferida. E tudo termina com ela vivendo em Edimburgo, com o casal. Feliz. O livro está pronto para virar filme. E o filme pode ser bem bom, como o livro é, até a página 120.
  De qualquer modo é bacana ler sobre a sociedade australiana e a comunidade de super maratonistas. E sobre Gobi, uma vira lata que veio do nada.

AQUELE ASSUNTO CHATO QUE NINGUÉM FALAVA E AGORA VIROU BANALIDADE.

   Leio que o suicídio já á a terceira causa de mortes nos EUA. Banalizou-se. Aqui, no país da banana, onde trabalho entre crianças e jovens pobres, faz muito tempo que me acostumei com meninos e meninas "treinando" suicídio. Eles cortam os braços quando estão muito tristes ou muito nervosos. Sentem alívio ao fazer isso. Já não me choca mais. Mas ainda procuro as ajudar.
  Nunca tentei me matar. Fingi uma vez, mas acho que esse "teatro" não conta. Foi um ato consciente para tentar fazer uma ex voltar. Nunca mais faço isso. A dor que vi no rosto dela me curou de toda mentira. Não minto mais. Mas vamos ao tema:
  A primeira onda de suicídios da modernidade foi por volta de 1810. Mas tenho dúvidas se essa onda foi assim tão "onda". Acho que foi uma moda entre pretensos poetas. De qualquer modo, foi um sinal. O individualismo em extremo pode dar na hiper vaidade, no superhomem de Nietzsche, ou numa corda com nó. Vivemos um tempo que nos pede a fazer três movimentos fatais: ser original, querer todo o tempo, esquecer o passado.
  Ao lutar por ser único caminhamos para o alto da montanha. E como somos únicos, lá não haverá mais ninguém. No máximo um pobre ou uma pobre serviçal. Ao querer e desejar todo o tempo teremos a recompensa do vazio. Se queremos sem parar estaremos insaciáveis para sempre. Será uma fome sem razão. E ao esquecer o passado jogamos no lixo toda a referência que nos diz de onde viemos, quem somos e a quem devemos. Sem esses laços nos tornamos barcos sem leme e sem ancora. Livres sim, mas sem rumo e sem descanso.
  Bourdain é o símbolo desse mundo. Livre, aventureiro, sempre querendo coisas novas. Sem rumo.
  Mas tudo talvez seja ainda mais simples.
  Eu tinha uma amiga de minha mãe que se chamava Dona Mabília. Velha, muito velha, a casa dela era sempre a mesma. Seja em 1972 ou em 2001, era a mesma horta, os mesmos móveis, as mesmas fotos nas paredes. Até os programas que ela ouvia no rádio eram os mesmos. Quando minha mãe estava triste ela ia à casa de Dona Mabília. Faziam chá e falavam das plantas. Quando eu estava triste ia lá. E sentia que nada mudara. Que a vida continuava a mesma que sempre amei. Era um colo. O calor de uma voz amiga. O cheiro da cozinha fria e imensa, com um fogão Walig e uma geladeira Frigidaire.
  Não há mais colo. Na dor não existe mais uma casa para se ir. Onde ver que a vida continua a mesma, familiar, amiga, conhecida. O aumento de suicídio se liga à diminuição de Donas Mabílias. De avós que cantam, de avôs que fumam charuto, de pais que dão bronca e mingau quente. Ao fim dos bares-casa, das praças-memória, dos cantos-recantos.
  Não estou idealizando. Não penso na figura do avô sábio ou do pai forte. Sei que são raros. Falo da simples existência dessas figuras. Do cheiro da cama do avô. Da loção de barba do pai. Mesmo que frio e ausente, lá está ele. Falo do colo da mãe. Mesmo que ela só fale tolices, o colo está quente, está o mesmo de sempre. Falo do sentimento de que a vida tem uma história, um acontecer corrente, um fio de vidas.
  Podem dizer que estamos construindo uma nova vida, uma nova família, uma nova realidade. Mas assim como o feijão é sempre o mesmo, a água só existe uma e sonhamos de noite os mesmos sonhos dos gregos, a necessidade de um avô rotineiro, uma mãe que canta enquanto cozinha ou de um velho tio esquisito, não muda.
  Somos macacos, somos humanos, somos espírito: precisamos de um lugar seguro para fugir. E de braços conhecidos para nos salvar.

SAIU UMA COLETÃNEA DE WALLACE STEVENS.

   Dos grandes poetas americanos do século XX, Stevens é o menos conhecido, e para muita gente é o maior. E olha que a concorrência é enorme, de Marianne Moore à William Carlos Willians, de Robert Frost à ee cummings, de Pound à Eliot, o século XX foi imenso para os EUA. Stevens deveu, talvez, sua relativa obscuridade, ao fato de não ter tido vida de artista. Foi um executivo de seguros bem sucedido que escrevia apenas nos fins de semana. Não frequentava meios literários e publicou após os 40 anos. Mas sua poesia, amada pelos mais finos literatos, irá permanecer para sempre.
  Ela não é fácil. Se voce ler tentando encontrar um sentido irá se desesperar. O modo mais simples de ler Stevens é ler e se deixar levar pela sucessão de imagens. Ao final do poema, voce sente que entendeu alguma coisa muito abstrata e muito original, mas esse entendimento permanecerá vago, incomunicável, apenas e tão somente seu.
  A dificuldade não vem do vocabulário. Stevens não usa palavras difíceis e nem fica citando autores que poucos conhecem. A dificuldade vem da imensa riqueza das imagens. Stevens voa velozmente de luz à sombra, do branco ao negro, da alegria à dor. Cada verso é um universo e mora aí seu segredo: ele é completamente material.
  Stevens usa apenas os órgãos dos sentidos, descreve apenas o mundo real, sólido, e crê firmemente que este mundo, o visível, é tudo o que existe. Um cético portanto! Mas não! Ele crê e ama a imaginação e a partir da criatividade, que para ele é baseada no mundo real, sólido, palpável, ele embeleza e dá profundidade ao mundo sensível e sólido. Para Stevens não há Deus ou anjos, mas mesmo assim há beleza e dignidade no mundo. Ele transforma pela via da imaginação um lápis numa fonte de sentido, uma manhã numa maravilha e um rosto numa intriga. Realista, mas jamais corriqueiro.
  Poeta da vida como ela parece ser ( para ele da vida como ela é ), Stevens tem uma maravilhoso sabor de sala bem arejada, de maçãs no pomar, de leite com biscoitos. E, em que pese a aparente vulgaridade dessas imagens, ele faz, sem dificuldade, delas um monumento.