PONDÉ

   Houve um tempo em que eu lia e escrevia sobre Pondé. Mas me desinteressei. Tive uma sensação de que ele começava a se repetir e pior, parecia querer criar choque. O texto sobre o Natal, acho que em 2012, me deixou chateado e desisti.
  Agora vejo uma entrevista com ele e fico impressionado. O caminho que ele segue é muito parecido com o meu. Ele vê a absurda pretensão dos "puros", o perigo dos grupos e que, como filosofia, o cristianismo é muito mais sofisticado que qualquer outra corrente de pensamento. Pelo simples fato de que o cristão sério, verdadeiro, se entende como ser imperfeito, falho, e assim ele não pode se guiar por sua própria opinião. A vaidade se coloca como mal maior e o ego como a grande infelicidade. Esse, modo de viver que confesso ainda estar longe de alcançar, seria o caminho virtuoso.
  Me impressiona também o fato de Pondé perceber que ciência é também questão de fé. Você crê no big bang ou na evolução e assim joga todo o resto fora. A dúvida se desfaz. Crer em Darwin ou em Freud se torna um consolo. Idêntico a fé em Deus. Consolo e modo de não se inquietar. Com a diferença de que o cristianismo te dá um código de postura perante a vida, a dor e o próximo. A ciência não.
  E para minha grande satisfação Pondé cita Chesterton, o mais belo dos pensadores! Bem vindo de volta a meu coração homem!

O FIM DO MUNDO

   Tenho amigos de boa cultura que talvez não saibam disto. O que prova como a história tem sido jogada na lata de lixo. E se você não conhece aquilo que aconteceu, sinto muito, você vai repetir o mesmo erro pra sempre.
  Houve um momento, em 1962, em que o mundo poderia realmente ter acabado. A coisa foi tão séria que naquele dia, alertado pela Casa Branca, Frank Sinatra lotou seu avião de comida, pegou os filhos e se preparou para ficar voando, em círculos, pelo deserto, enquanto NY e Washington eram destruídas. E no resto do mundo, aturdidos, as pessoas, sem conseguir entender direito aquilo, se preparavam para a Terceira Guerra Mundial, que seria a última.
  Kruschov, primeiro ministro soviético, instalara misseis nucleares em Cuba. Apontados para a Europa e para os USA. John Kennedy mandar a marinha bloquear a ilha do Caribe. O impasse. Ou os russos tiravam os misseis, ou a ilha ficaria isolada do mundo. Krushov mandou a marinha russa para a ilha. Eles chegariam em 3 dias. A guerra tinha data para começar. A guerra nuclear.
  Se um comandante russo ou americano apertasse um simples gatilho de metralhadora tudo poderia se precipitar. Não era como hoje. Não era o terrorismo que nos dilacera lentamente. Seria um fim rápido. Uma guerra de poucas semanas. E se ela tivesse ocorrido eu e você não estaríamos aqui. Não só URSS e USA tinham bombas de sobra para acabar om tudo. China, França, Inglaterra e a India já as tinham.
   No fim Krushov tirou os misseis. E os USA relaxaram o bloqueio. Foi após esse alivio, alivio meia boca, que explodiu o hedonismo dos anos 65-68. A galera se pôs a viver a vida loucamente. Antes que tudo explodisse.
   Foram anos absurdos. Trágicos e patéticos. ( Falo de 60-63 ). Se aqui a gente tinha Jânio se embebedando e largando o emprego; nos EUA havia Kennedy, para Gore Vidal e Paulo Francis, o PIOR presidente da América até Bush filho.
   Tudo isto que conto está no livro sobre Sinatra. E Sinatra, amigo de Kennedy, está no centro do mundo. Nunca houve, até hoje, um cantor tão poderoso. Com tanta liberdade e tráfego em meio ao alto poder. Sinatra ajudou Kennedy a vencer. Sinatra sempre foi um democrata sincero. Amava Roosevelt, Truman e confiou na família Kennedy. Odiava os republicanos. Odiava Nixon. Mas Sinatra foi porcamente traído.
   O livro nos ajuda a entender a podridão que o Brasil parece descobrir só agora.
   Joe Kennedy, pai de John, fez fortuna vendendo bebida quando bebida era ilegal. Ganhou também com contrabando e cinema. Era um homem duro, rude e muito temido. Ficou tão rico que conseguiu ser considerado um tipo de aristocrata. Vejam só! Seu sonho era fazer de John presidente. John Kennedy era culto, educado, bonito, carismático e louco por sexo. Escreveu dois livros, foi herói de guerra e casou com Jacqueline Bouvier, essa sim, uma verdadeira aristocrata americana. A chifrava com atrizes, putas, cantoras, primas, empregadas, o que pudesse tocar. Ela sabia e sentia vergonha.
  Sinatra se apaixonou por John Kennedy. O americano-irlandês tinha aquilo que Frank não tinha: educação, berço, estilo seguro. Sinatra arrumava mulheres para John. O levava a festas. Hospedava. E nas eleições presidenciais convenceu seus contatos suspeitos a darem uma força.
  Os contatos de Sinatra roubaram a eleição. É duro dizer, mas Nixon foi roubado. Kennedy venceu por menos de 1% dos votos. E a Máfia, pressionando, batendo, fazendo boca de urna violenta, ajudou nessa vitória. Mas...e aí vem um dos mais belos dramas de Sinatra, após vencer Kennedy vira as costas à Frank. Não fica bem para um presidente ser amigo de um amigo de mafiosos. Frank fica doido de rejeição.
  Bela história não...tem muito mais! O livro é obrigatório.

David Bowie - Repetition



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David Bowie Fantastic Voyage



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LODGER- DAVID BOWIE. A VIAGEM. MOVE ON.

   Foi no fim de 1979. Comprei Lodger como um dos meus presentes de Natal. Foi meu terceiro disco de Bowie. Em 1974 eu havia ganho Diamond Dogs. Adorei. E em 2016 continuo a adorar. Depois, em 1978, comprei Station To Station. E notei que Bowie era "um chato". O disco em nada lembrava Diamond Dogs. Era esquisito. As faixas eram longas demais. Com pouca guitarra. E ainda tinha duas baladas triiiistes... Golden Years eu adorei. O resto não. Em 2016 eu gosto muito desse disco perdido e cheio de cocaína. Mas Lodger...
  Lembro muito da primeira escutada. Numa velha vitrola, a cara junto ao disco. A capa me pareceu muito feia. E o som...Que bosta era aquela!!! Instrumentos embaralhados, amassados. Barulhinhos irritantes que estragavam a música. Músicas que pareciam mal acabadas, simples rascunhos, e que terminavam antes da hora. Pareciam curtas demais, e ao mesmo tempo chatas, irritantes, toscas.
  Me deu pena de Bowie. E do meu dinheiro. ( A relação com a música era mais visceral também porque ela custava dinheiro ). Considerei aquilo um fiasco. E uma doença. Chamei de "disco doentio". Asco.
  O tempo passou. E só o descobri em 1984. Quando minha fase "modernete" veio. Ouvindo Marc Almond, Gary Numan, Cocteau Twins, comecei a entender que Lodger era o pai daquilo tudo. ( E depois ao comprar LOW vi que ele era o pai de Lodger ). Flashs sintéticos. Polaroides de estados emocionais. Bombas prestes a explodir. E tudo o que nele me irritava passou a exercer fascínio. Instrumentos diretos, afiados, sons diretos e puros, intuições musicais. E a voz de Bowie, afinadíssimo, pairando indiferente sobre aquilo tudo. Da sublime Fantastic Voyage, passando pelas estupendas Move On, Boys Keep Swinging ou Repetition, tudo é surpresa. ( E um cara como eu era em 1979, ouvinte de Fleetwood Mac e Rod Stewart jamais entenderia aquilo ).
  Muitos fãs de Bowie que conheço acham Lodger o melhor Bowie. Eu não. A carreira de David é tão magnífica que apesar de sua subliminidade, Lodger fica abaixo de Low, de Hunky Dory e de Dogs.
  Posso afinal voltar a falar do gênio com mais frieza. Ele partiu mas seus discos ficam. E Lodger, que acabei de reescutar, é o testemunho de uma viagem sem fim. Mais uma estação David.
  Move On.

BEATLES, ELVIS E SINATRA

   Impressiona muito essa biografia de Sinatra recém lançada pela Companhia das Letras. James Kaplan, o autor, além de dar detalhes, deliciosos, sobre o cantor, fala de tudo o que rolava na América de então. E isso faz do livro, 1.200 páginas que são puro deleite, um tipo de filme super produção com o melhor elenco possível.
   Estou na metade, então ainda escreverei mais sobre a obra. O que desejo falar aqui é sobre Lennon e o rock. Quando Elvis surgiu, em 1956, Sinatra tinha 41 anos e estava no auge. Era o artista mais poderoso do mundo. E se irritou profundamente com o rock. E o motivo principal foi a fala. Elvis trouxe ao centro do mundo, pela primeira vez, a voz dos caipiras. Não era a voz de NY, o padrão de Manhattan. Era a voz inculta dos 95%. Sinatra, que lutou bravamente na infância para apagar seu sotaque suburbano-carcamano, se surpreendeu com aquela voz "selvagem e bárbara".
   É aí que entra John Lennon. Kaplan cita uma entrevista do inglês, onde ele diz que em 1956 ele e seus amigos levaram meses para entender o que Elvis falava. O sotaque "americano" era tão forte que parecia outra língua. Os ingleses, que pensavam que o "americano" era aquilo que o cinema e a música popular falavam, não entendiam nada. Mas adoraram. A letra pouco importava. O que era legal era o som.
   Sinatra era artista da Capitol e a dona da Capitol era a EMI. A empresa inglesa ficava doida com o fato de americanos venderem tanto na América e ingleses não venderem nos USA. Em 1955 um tal de George Martin, funcionário da EMI, foi aos USA assistir uma gravação de Sinatra e banda. Ficou doido com o apuro técnico. Voltou a Londres e nos anos seguintes lançou dúzias de novos Sinatras versão UK. Nenhum vendeu na terra americana. Mas em 1963 ele finalmente acertou...
   Uma coisa que nos esquecemos e que foi central na beatlemania era o fato de que Lennon e Paul tinham um sotaque "entendível". As pessoas conseguiam compreender o que eles falavam. Martin foi esperto e deu a eles a harmonia sonora que o rock não tinha.
   O mundo mudou e Sinatra gravaria Beatles no futuro. O rock mudaria e se sofisticaria. Muito graças aos caras de Liverpool.
   PS: como toque final um adendo: a TV dos anos 50 nos EUA....a NBC já transmitia a cores. Alguns shows usavam até cinco câmeras. Transmissões ao vivo das ruas. Mio Dio!!! Como o BR era atrasado!!!!!

HATEFUL EIGHT, UM ERRO DE TARANTINO.

    Tarantino sabe dirigir. Sabe enquadrar, cortar, dá ritmo às cenas. Mas seu estilo, sempre vazio, começa a cansar. Ele sempre nada teve a dizer. Seu mundo é o cinema e só o cinema. Tenho a impressão que ele não teve infância. Nem juventude. Seus filmes revelam uma absoluta falta de assunto. Ele não lê. Parece não viajar. Vê filmes. Muitos. E filma filmes sobre filmes.
    Não, não mudei de ideia. Continuo achando Pulp Fiction genial. Assim como Kill Bill ou Jackie Brown. E sempre disse que eram vazios. Tarantino dirige tão bem que consegue nos hipnotizar filmando papo furado. Mas agora, neste filme, a coisa vai longe demais. Veja bem, o filme é bom de se olhar. É teatro, no sentido de que temos pouca ação, quase nula, e muito diálogo. O diretor tem swing e os atores se esforçam. Mas quando o filme acaba nos sentimos enganados. O que foi aquilo! Nada de história, tudo bobo, humor forçado tosco, para que esse filme...
    Quentin Tarantino é um talentoso diretor de mais de 50 anos que continua fazendo filmes que parecem feitos por um genial talentoso garoto de 18. Isso pode ser ótimo. Se ele tiver um roteiro na mão. Uma história. Mas aqui o que ele tem é apenas uma coleção de maneirismos de faroeste italiano. ( Marquis Warren e Mannix são nomes de um diretor de cinema C e de uma série de TV dos anos 60 ).
   O filme, que não é ruim, é apenas tolo. Uma pena, porque nesse mundo de filmes histéricos ou metidos a besta, um diretor relax como Quentin é sempre bem vindo. Mas aqui ele brincou demais.

Frank Sinatra - "Got You Under My Skin" (Concert Collection)



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MAQUIAVEL, GIORDANO BRUNO E ARIOSTO

   Começo este doido ano dentro do renascimento italiano. Dizem que nossa cultura nasceu aqui. Acredito que ela foi adrenalinizada aqui. Tomou novo impulso. Mas ela existia desde 500 ac. ( E neste século ela está sendo sufocada. Mas não vai morrer. Acho... )
   Maquiavel foi irônico. Vivendo em uma sociedade ambiciosa ao extremo, cruel, e participando desse poder, como ministro, conselheiro, formulou em O Príncipe uma espécie de manual do poder absoluto. A maioria, até hoje, pensa que o texto é aquilo que se lê. Não entendem que Maquiavel aumenta e explicita a ambição e assim a critica. A escrita, de uma clareza transparente, se lê com vivo prazer. Ficamos inebriados com o discurso. Aprendemos a escrever melhor, aprendemos a pensar melhor.
   Bruno foi queimado pela inquisição. Não entendemos hoje qual a gravidade. Afinal, ele era crente, nunca foi contra Deus ou Jesus Cristo. Mas ele cometeu uma ousadia indesculpável para aquele tempo: disse que o céu era infinito e que nele mundos sem fim tinham lugar. Ler Bruno é ler uma mente deslumbrada pela descoberta do "ilimitado". Bruno olha o universo e percebe a maravilha. Ele não se assusta, se apaixona. Podemos dizer que Bruno morreu por amor ao cosmos.
   Ariosto escreve uma fantasia de cavalaria sem tirar os pés do chão. Não é realismo ainda, mas aqui, entre cavaleiros, damas, florestas e lutas, nada acontece por magia. Os personagens são gente e agem como gente. Mais que tudo, Ariosto mantém a rima, o metro e a clareza por milhares e milhares de versos. Dá pra cantar.
  Tudo é belo na renascença. Pessoas cercadas de beleza vivendo uma vida nada bela. Deixaram a maior das heranças. Não sei se a merecemos.

DIGNIDADE EM VIDA

   Ele fecha os olhos e suspira. E sabe que sua morte foi a última parte de sua arte. Não escolheu sua partida, mas escolheu o modo como partir. Raros artistas no rock partiram de um modo tão digno. Não conseguimos lembrar de um escândalo. De uma briga. Bowie não teve um momento de vergonha. Não o vimos no palco, alquebrado, tentando cantar. Nunca houve um hotel quebrado. E ele não morreu drogado, bêbado ou abandonado. Se afastou. Saiu de cena. Lançou dois discos. E depois partiu. E conseguiu não ser esquecido.
   Desde 1983 ele não tem um disco de sucesso. E desde 1987 nem um single memorável. Desde os anos 90 sem excursões grandes. E mesmo assim seu mito se manteve. Apoiado na genialidade de sete curtos anos, ele construiu um mundo de fãs e de artistas que lhe seguiram. O perfeito exemplo do artista que vendeu muito menos do que sua fama sugere. A explicação é simples: ele não era apenas um compositor ou um cantor. Bowie era uma filosofia. Sua fama era espalhada pelos seus seguidores. Gente que nunca comprava seus discos era exposta à voz de quem o idolatrava. E mais que tudo, ouviam discos de pessoas que amavam Bowie. A fama era uma teia. Net antes da NET existir.
   A filosofia de Bowie era aquela que desde os anos 80 virou lei : fama é construção. Nada tem a ver com talento. Ser uma estrela é se comportar como uma. Nada tem a ver com sorte ou dom. Rock é show de teatro. Nada de verdade ou de real. Ele foi o primeiro a ter o despudor de falar isso. Depois, nada mais foi a mesma coisa. Para o bem ou para o mal.
  Kurt, Jimi, Jim e Janis eram ingênuos. Acreditaram na fantasia e morreram seguindo o roteiro do rock star. Bowie, assim como Lou, sempre soube que morrer pelo rock era morrer pelo circo. Ele não embarcou nessa. ( O que não o impediu de escapar por um triz....mas conseguiu sobreviver ).
  Morre. E como dizia Shakespeare: "Todos nascemos devendo uma morte à Deus". Morre como quis. Sem alarde. Sem show. Sem contagem regressiva. Acena um lenço da janela de sua nave. Se vai com Lou rumo ao Sattelite of Love.
  PS: Converso com meu amigo Fabio e notamos que o Brasil está muito pouco Bowie. Tomar partido, fazer parte de grupos, dar chilique....Tudo contra a filosofia de David.
  

O PIOR POST DA MINHA VIDA...BOWIE PARTIU...AQUILO QUE QUERIA NUNCA TER DE ESCREVER...

   Te dará um incômodo chato se eu te disser que meus olhos estão vermelhos e inchados...que eu ando chorando por um cara que nunca me conheceu e a quem eu nunca vi de perto...Mas esse é o milagre da arte meu amigo, a gente ama alguém por nos ter dado muito, mesmo que sem querer ou saber.
   Não há nada a dizer sobre o artista Bowie. Todo o rock feito depois dele é outro. Nunca mais foi ingênuo. O teatro entrou na coisa com ele e nunca mais saiu. Se você desconfia da sinceridade de um rock star você deve isso a David.
   Mas todo mundo sabe disso. E eu não quero cair no banal. Eu lembro das mortes de Lou, de Miles, de Kevin, de Lennon...e esta está sendo a pior. A morte, essa maldita, ela nos leva a todos, mas eu não consigo a aceitar. Pobre planeta...cada vez mais vazio.
   Prefiro falar de uma tarde em 1974. Em que um menino de 11 anos viu um clip de um inglês chamado Bowie. Na Globo, anunciado por Nelson Motta no programa Sábado Som. Fazia sol e meu irmão de 8 anos estava comigo. Ele cantou The Jean Gennie e minha vida mudou.
   Ali estava um cara muito diferente. Não era um hippie cabeludo de jeans falando de amor. Não era um cara tentando me assustar falando de vampiros e de morcegos. Nem mesmo um cantor ao piano fazendo gracinhas e falando de amor. Não. Era um cara com roupa estranha, rosto maquiado e fotogênico, cabelo laranja, e cantando como se aquele blues fosse apenas "uma besteira". Não havia suor. Nem lagrimas. Ele não parecia sofrer e nem se esforçar. Sem eu notar ele me ensinava que a vida era uma PERFORMANCE.
  Isso eu carrego pra sempre. E penso nos caras da minha geração que se perderam exatamente por isso. Nós, sempre com  a ideia da performance, passando sempre a impressão de que estamos fingindo, brincando, sendo um pouco fake.
  Agora ele se foi. E estranhamente noto que o mundo tem voltado a negar a performance. Nas redes sociais todos querem ser DE VERDADE....Veementes, duros, sérios...e acabam sendo tão fúteis em sua pretensão...
  Foi isso que Bowie me mostrou. Que um cara sobre um palco ou um palanque não merece ser levado mais a sério que um cara na plateia. O publico é o star.
  Descanse em paz David. E ...espere por mim....

David Bowie - Starman (1972) HD 0815007



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MICHELANGELO, UMA VIDA ÉPICA - MARTIN GAYFORD

   Torturas. Mais torturas. Guerras. Espanha contra Roma. Roma contra Firenze. Milano contra França. Firenze contra todos. Traições. O duque trai o Papa que trai o rei que trai o cardeal que trai o rei que é traído pelo Papa. Assassinatos. Pai envenenado pela esposa que é esfaqueada´pelo amante que é queimado pelo namorado. Sexo. Muito sexo. Homens velhos amam meninos. E nesse caldo de sangue, doenças, fedor, gozo, medo e fúria vive o gênio.
   Michelangelo não ligava para efeitos de luz. Nem para a natureza, a paisagem. Não pintava retratos. Ele só se interessava por homens nus. Religioso, quase puritano, ele via Deus na beleza. O corpo humano como a mais alta criação divina. E o corpo masculino como o reino da força, da nobreza, do caráter e da transcendência.
   Poeta. Michelangelo além de escultor, pintor e arquiteto foi poeta. Dos bons. E em seu trabalho se percebe que seu mundo não teve mulheres. Apenas Vittoria Colonna. Uma paixão intelectual. Ele amava com intensidade a jovens rapazes bonitos. Mas há a possibilidade de que tudo fosse platônico. Isso porque o gênio era além de católico temeroso, um platônico convicto. Para ele tudo aqui é imperfeição. Lembretes de um universo perfeito e divino que vive além.
  Ele era terrível. Amava a solidão, dado a fúrias, irredutível, perfeccionista, desconfiado, chorão radical, paranoico, descumpridor de custos e de prazos, mas jamais mentiroso. Tempo terrível esse em que ele viveu. De corpos dilacerados em praça pública. Religiosos belicosos, luxuriosos, ambiciosos. Tempo de bancos, de acordos secretos, de vaidade ao extremo.
  Nenhum artista foi tão rico, tão famoso, tão adulado, tão preocupado. Puritano que amava a nudez, amoroso e violento, dava fortunas a amigos e ao mesmo tempo, trilionário, vivia como pobre em mansão vazia de luxo. Esse foi Michelangelo, fascinante ser humano que Gayford descreve muito bem.
  Meu livro do verão.