LORD BYRON E AS NUANCES DO ROCK INGLÊS

   A primeira vez que li sobre isso foi no núveo ano de 1984 por Pepe Escobar, e em todos esses 30 anos ocasionalmente continuei lendo outras pessoas tocarem no tema. Agora tomo conhecimento de que até Harold Bloom escreveu sobre o tema, então o desenvolvo aqui.
  Primeiro devo dizer que o sistema educacional de todo o mundo está em decadência. Não há tempo para se desenvolver potenciais e portanto mesmo os poucos países que ainda vêem a cultura como prioridade se voltam para um tipo de educação prática, objetiva, e não ligam mais para a corrente enciclopédica que dava o aluno a chance de saber e escolher. 
  A educação inglesa até os anos 60 era do velho estilo. Muita história, muita arte, línguas e tempo de sobra. Ainda é hoje uma boa educação, se comparada a nossa, inexistente mesmo em escolas de elite onde pouco se lê. Nesse contexto, dar a um aluno de 14 anos a chance de conhecer Lord Byron é dar a ele a chance de encontrar um canal de desafogo de seus sonhos e pesadelos adolescentes. O que Pepe e Bloom falam é que 95% do rock inglês que vale a pena, por ser uma arte que precisa estar sempre em contato com as dores da adolescência, está desde 1965 em forte flerte e dominio do byronismo. O que é o byronismo?
  Byron foi um nobre maldito. Primeiro sentimento: Todo byronista tem a sensação visceral de ser um nobre maldito. Fantasias de se ter sangue especial, de ter sensibilidade exaltada, de ter uma antiga origem artística. Ao mesmo tempo se é um maldito por se odiar o tempo atual. Todo o passado, seja medieval, celta ou os anos 60/70 é visto como tempo de heroísmo. Daí, o byronista passa a ser um crítico, um satirista, um dandy azedo.
  Byron amava mulheres aos montes, talvez homens também. Isso não preciso comentar. Mas atente, é sexo regado a ópio, sedas, incenso, música esquisita, taras e sadomasoquismo. 
  Byron não se aquietava. Viajava pela Europa e seu nome logo se tornou uma lenda. Num tempo em que mal existiam jornais no Brasil, todo poeta mineiro ou paulista amava Lord Byron ( 1800/1850 ).
  Byron morreu jovem lutando numa guerra fadada ao fracasso. Idealista, Byron morreu nas trincheiras da guerra dos gregos contra os turcos. Virou mito. Todo byronista pensa que vai morrer cedo e tem com o tempo uma relação de horror, medo de morrer e medo de sobreviver e ficar velho.
  Byron ia aos limites. Drogas que aumentavam sua sensibilidade, sexo como forma de desafiar a moral, flertes com satanismo e doses grandes de pura maldade ( em São Paulo na época, os amigos byronistas de Alvares de Azevedo chegaram a transar com um cadáver no cemitério da Consolação ). Missas negras se misturam a amor por Jesus.
  Byron era manco e se vestia de modo refinado mas não convencional. Muita seda, veludo, pérolas, diamantes, penas e plumas. 
  Preciso dizer mais? Sim preciso, talvez o mais importante, Byron só escrevia sobre si-mesmo. Quando criava personagens como Don Juan, eram retratos do próprio Byron. Se falava da revolução. era uma revolução de Lord Byron. Tudo era um espelho, um eu gigante.
  O rock americano nada tem a ver com isso. Mesmo a relação com as drogas é diferente. Na América a imagem mítica que marca o rock ( menos na vertente Lou Reed Iggy Pop, apesar de em alguns discos eles tocarem esse mundo ), é a do pioneiro. Walt Whitman comparece em inspiração, ideias, imagens e até no visual ( o hippie é Walt Whitman e Thoreau ). Na Inglaterra ( e não na Irlanda ), Byron e depois Shelley se intrometem em tudo. E, em acordo com Bloom, isso é facilmente comprovável, o primeiro a perceber isso consciente e espertamente foi Mick Jagger ( não Keith que sempre sonho/sonha em ser Muddy Waters ). Mick pegou a batida do rock e o clima do pop e vestiu tudo com a luz diáfana do romantismo ofensivo e sexualizado de Lord Byron. Homem/mulher, anjo/diabo, irriquieto/esnobe. Ele criou aidentidade do rock inglês que se manterá na segunda fase dos Kinks e irá adiante com 95% do que vale a pena conhecer. De Stevie Winwood a Morrissey. De Bowie a Paul Weller. 
  Interessante é até mesmo Bloom perceber que os Beatles nunca se sentiram confortáveis nesse modelo. A partir de 1967 eles seguem essa tendência, mas neles isso nunca foi convincente. Eles não conseguiam ser "do mal" e seu visual nunca pareceu andrógino. A teoria é que suas origens seriam tão "Liverpool-classe trabalhadora", que eles simplesmente não conseguiam se sentir um grupo de nobres perversos. O mesmo aconteceu com The Clash e Oasis, para citar os mais relevantes. 
  Claro que ao tomar consciência de que os 40 anos chegavam, Jagger jogou fora todo o mundo de jovem-bandido-glamuroso e assumiu o papel de velho entertainer esperto. Como ele é uma esfinge que jamais revela seu mundo interior, corremos o risco de nunca saber se um dia ele acreditou no mito de Lord Byron ou se o interpretou apenas em público. O que importa é que todos os outros jovens ingleses desde então acreditaram. Acreditaram no romantismo de Morrissey, no dandysmo revolucionário de Paul Weller, na androginia prometeica de Bowie, no esteticismo de Bryan Ferry e no romance dramático de Thom Yorke. Assim como em Nick Drake, Kevin Ayers, Damon Albarn, David Sylvian e num vasto etc.
  Fecho contando que se fosse vivo Lord Byron estaria na Criméia, pronto para morrer pelos rebeldes e com todo um aparato de midia sobre sua ação. 
  Ou, falando num modo John Keats, poeta que era o calcanhar de aquiles de Byron, ele pode estar presente no corpo daquele pássaro que pia sem cansar...

1966 lady jane-rolling stones.mpg



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The Rolling Stones Play With Fire 1965



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O QUE ELES POSSUEM HOJE?

   E Patti Smith vai ao X da dor: "Nos meus downs eu tinha Rimbaud e Mick Jagger, eu tinha Virginia Wolff e Dylan, tinha Walt e Cocteau, eles me davam alegria, confiança, paz e objetivo. O que nossos jovens têm agora? Um novo tênis, uma dose de heroína? Uma trepada, um novo carro? O que restou para eles se erguerem e confiarem na vida?"
   Durante anos e anos, longe dos discos e longe dos palcos, Patti e Fred moraram em cabanas, hotéis baratos, casas pequenas. Vivendo dos direitos da versão que Springsteen gravou de Because the Night, quase duros, sempre perto do mar, ela e Fred ( ex-guitar dos MC5 ), criaram o filho Jackson. Ela escrevia, lia, cozinhava, nadava. Ele pintava, navegava, cozinhava, esculpia. Quando Jackson estava pronto, eles voltaram...

Patti Smith - Horses & Hey Joe



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AS MELHORES ENTREVISTAS DA ROLLING STONE ( BONO, JOHNNY CASH, COPPOLLA, OZZY, BRUCE...)

   As entrevistas são editadas para caber num livro médio. Isso tira todo o sabor delas. Ler este livro é como ver uma série de trailers de filmes que voce gostaria de assistir. Nada acrescentam. Portanto é um livro ruim e eu não costumo citar os livros ruins que leio ( creia, são muitos ). Mas vale a pena dizer que umas 3 ou 4 entrevistas valem a pena. 
 O livro começa com Pete Townshend, que em 1968 foi o primeiro entrevistado da revista. O repórter foi num show do Who e Pete não quebrou a guitarra. Intrigado, o jornalista perguntou a ele o porque. Veio desse papo a primeira entrevista da RS. ( Bons tempos em que uma estrela se deixava entrevistar de improviso ).
 John Lennon é very ugly. A cabeça dele estava um lixo em 1970. Ele se auto-glorifica. Sou um gênio, desde criança eu sabia disso e por aí vai. Pobre Paul que precisou conviver com esse pseudo-Goethe de Liverpool. É a figura mais ridicula de toda a história do rock. Mas, como ele fez meia dúzia de canções realmente boas, vou crer que aquele foi um momento de doença mental ou o que for. 
  Jim Morrison fala de álcool. Phil Spector é hilário. E tem ainda Bill Clinton, o Dalai Lama, Bill Murray, Tina Turner, Eric Clapton, Ray Charles, Brian Wilson, Keith Richards, Neil Young, Joni Mitchell, Kurt Cobain, Axl, Eminem e um vasto etc. Todas chatíssimas! Mas...
  Jack Nicholson fala de quando descobriu que sua irmã era na verdade sua mãe. George Lucas conta da sua expectativa para o lançamento de seu novo filme, Star Wars, e conta que seu objetivo é fazer com que o cinema americano saia da depressão dos filmes descrentes dos anos 60/70 e volte a acreditar em cowboys, heróis, que os jovens de 1977 tenham de volta a fé que ele viveu nos filmes de Erroll Flynn e John Wayne. Mais que isso, seu sonho é ter lojas onde tudo isso se conjugue: filmes, quadrinhos, bonecos e jogos sobre esse mundo de heróis. George sem perceber, tem nessa entrevista o insight sobre 2014.
  Leonard Bernstein é sempre cool. Fala de seu amor pela música. Há uma hilária conversa entre Truman Capote e Andy Warhol. Truman foi encarregado de escrever sobre o tour de 1972 dos Stones, mas não escreveu, então a revista manda Andy para saber o que houve. Truman gostou dos shows, mas não sentiu inspiração. Os dois se derramam em elogios a Jagger, mas o charme da coisa está em sua conversa sobre tudo e sobre nada. Os dois conversam passeando por NY, gravador ligado e sentimos a presença de Capote e Andy. Uma delicia!
  Mick Jagger impressiona. Ele conta que odeia se expor. Simples assim. As pessoas que façam o que quiserem, mas ele não gosta de falar de si-mesmo. Acho incrível e ao mesmo tempo noto que isso é verdade. Não há grandes fatos sobre a intimidade de Mick nesses 40 anos. Ele parece se expor no palco mas é teatro, máscara. Mick é um típico inglês vitoriano, reservado e familiar.
  Falei de entrevistas divertidas, mas agora falo das únicas entrevistas que revelam alma, vida, dor e poesia.
  Patti Smith é linda. Sei, ela parecia um garoto magro e agora parece uma bruxa. Leia o que ela fala e voce vai se apaixonar por ela. Patti conta sua história com Fred, seu marido, o que eles faziam nos anos 80, seu começo nos anos 70, sua vida com Mapplethorpe, a morte desse amigo genial, lentamente, de AIDS. O que ela pensa das novas bandas, sua poesia. São apenas cinco páginas que te tocam. Eis uma Dama. Eis algo que pode se aproximar da verdadeira genialidade.
  E lemos a entrevista de Bob Dylan feita em 2002. Raios caem do céu. Dylan fala como um velho que viu tudo. E não dá pra não dizer: é como escutar Walt Whitman em 2002. 
  Mas então? Falei tão bem de algumas entrevistas...então o livro é bom! Não. São 40 entrevistas. Destaquei 5. OK?

David Bowie's lost 1973 Top of the Pops performance of The Jean Genie



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SOBRE A EXPO DE BOWIE NO MIS...BOA PARA VOCE, QUE NUNCA FOI SEGUIDOR DE BOWIE

   Ver uma exposição com trilha sonora é sempre bom, melhor ainda se for David Bowie nos ouvidos. Então eu entro e a coisa começa meio fria com um ar condicionado ao máximo e a fase pré-Ziggy em telas. Logo percebo, a exposição não é sobre Bowie o músico, é sobre Bowie o cara da moda. Como aceitar uma expo sobre um cara central no rock ( de sua altura só Dylan, Jagger, Lennon e olhe lá ), que tem apenas uma guitarra? Onde estão as guitarras de Mick Ronson, Robert Fripp, Carlos Alomar, Steve Ray Vaughan? Como levar a sério uma expo que dá mais destaque aos estilistas de seus ternos e fantasias que a Andy Warhol e Lou Reed? Não há uma só referência a Fripp, Lou, Marc Bolan ou Mick Ronson. Brian Eno só aparece como ser secundário, nada sobre Tony Visconti e Iggy está lá, mas pra que? 
   Então percebo que aqui não é lugar para quem, como eu e meus amigos, amamos David Bowie. Aqui é para quem já ouviu falar do artista e quer saber quem ele é. Esses gostarão da exposição. Irão sair achando que Bowie é maior que Damon Albarn, talvez até maior que o Bono!!! Aff...
   Mas nós, eu, que acompanho David desde 1974, desde ouvir Sorrow a primeira vez numa rádio AM mono e ficar enfeitiçado pela voz clara e confidente e o arranjo elegante e estranhamente sensual ( óh Mick Ronson, como eras genial ), para nós e para mim aquele Bowie da exposição não mostra nada do cantor, nada do rock star e apenas arranha sua importância social.
   Falo agora do que se pode pescar naquelas paredes frias do MIS.
   Na sala das telas circulares, que nos envolvem nas imagens e criam um efeito inebriante de presença, não de Bowie presente, mas da nossa presença em Bowie, Jean Gennie explode em blues-gay e sexy. Pois bem, são dois clips que se misturam, a versão de Mick Rock, que vi em 74 num Sábado Som na rede Globo que mudou toda a minha vida, e uma versão de Jean Gennie ao vivo, em palco da BBC. Nessa versão, com platéia, vejo dois garotos desajeitados dançando. Dançando não, tentando dançar. Os cabelos sujos, devem ter 13 anos de idade. Os rostos felizes, com sorrisos de êxtase. Os quadris duros tentam se soltar e os braços serpenteiam contra sua rigidez inglesa. Esses dois garotos aparecem por cinco ou seis segundos. E exemplificam aquilo que a exposição nunca exibe: o alcance libertário social de Bowie. Aliás Jean Gennie atinge um fogo que chega a ofuscar toda a exposição. Eis o tal do rocknroll !!!
   Há um bilhete que Christopher Isherwood escreveu para David. Para quem não sabe, Isherwood foi um escritor americano que imigrou para Berlin antes da segunda-guerra. Lá ele conheceu a loucura dessa Berlin e a descreveu em contos e romances. Um deles deu origem a Cabaret, o filme famoso de Bob Fosse. Cabaret foi hiper sucesso em 1972 e influenciou Roxy Music e David Bowie. Quando David vai para Berlin ele vai atrás da lenda de Isherwood. E a encontra. Me emociono ao entrar no ambiente Bowie em Berlin. Quadros pintados por David, o disco de Iggy, e a suprema coisa das coisas, o synth que foi usado em LOW. Um texto diz que o synth era de ENO e que ele deu-o para Bowie recentemente. ENO diz que ainda hoje nada consegue repetir aquele som. Olho as teclas azuis, ele todo vem dentro de uma mala tipo 007. Chaves, plugs, entradas, osciladores...Fico fascinado. Os timbres espaciais, fantasm'aticos, funebres, excitantes de LOW nasceram naquela mala. 
   Nada mais pode ser dito depois disso. 
   As chaves do apto em Berlin, um Gitanes rabiscado, Sense of Doubt... Coleto fagulhas da expo do MIS. Coleto as letras e a grafia elegante de Bowie, coleto o tamanho Peter Pan das roupas, coleto sons que passam. Mas Bowie fica ausente do MIS. Faltou sujeira, faltou rock, faltou poesia, faltou perigo. 
   Valeu.
cam 

A HISTÓRIA DO MUNDO EM 100 OBJETOS- NEIL MACGREGOR, MAIS DE CEM MOTIVOS PARA LER E PARA VER.

   Neil MacGregor é diretor do British Museum. Este livro, todo ilustrado com fotos perfeitas, é lançamento da editora Intrínseca, que o editou luxuosamente. Nele o autor escolhe 100 objetos do acervo do museu e conta histórias, de como o objeto foi encontrado, o que ele significa e principalmente a história daquele objeto em relação a história do mundo em seu tempo de fabricação. Ou seja, é uma obra, que em linguagem acessível, conta a história do homem, da arte, da ciência e da civilização, tudo ao mesmo tempo, em seu contexto e com surpreendentes revelações. Um primor.
   Para voces terem uma ideia de seu alcance, falo dos dois objetos do acervo que o autor crê serem os mais centrais representantes deste 2014. Um cartão de crédito, objeto que mais que a internet engloba todo o planeta, revoluciona os negócios e virtualiza o dinheiro, e uma pequena bateria solar chinesa, portátil. Ela possui uma lâmpada que se exposta por oito horas ao sol pode iluminar uma sala por 100 horas, e tem também uma entrada para celular e PC. Mais que tudo, este objeto democratiza o acesso a energia e abre as portas de um mundo de energia limpa e renovável. Mais além, traz a possibilidade de energia para tribos, ilhas, desertos, florestas. 
  A história do homem é a história do homem caminhando pelo globo. Saindo da África ( Sudão, Kenya, Congo ) e se dirigindo a Egito, India, Irã e Iraque. Daí para a China, Mongólia, Sul da Ásia, Europa. Mais além, Rússia, Espanha, sul africano, Japão, Inglaterra, Suécia. Depois vem América, Oceania, e agora vivemos o limiar da última fronteira, os Polos sul e norte. Habitar o gelo.
  Feito de surpresas, observamos que a história do mundo passa muito mais pela Ásia e pelo Oriente que pela Europa. Nos deslumbramos por India, China e Irã. Vemos a civilização chegar a Peru e México, e nos embasbacamos com a cultura africana negra, descobrindo então que o Sudão era muito mais que selvagens de filmes de Tarzan. Milagres sobre milagres, saltos sem fim, a saga começa a dois milhões de anos, com o primeiro sinal de objeto feito por um humano ( um machado ).  Me comove olhar aquele objeto e pensar no homem que o fez. Aturdido, com medo? Ou cheio de orgulho? São tantos os objetos que impressionam, tantas as associações possíveis. As pinturas feitas nas cavernas, provas que nos levam a criação do inconsciente, a consciência do dentro e do fora criada nas longas noites de uma época de gelo sem fim. O que era aquela pintura? A lembrança? Uma dor?
   Cachimbos para drogas silvestres, rostos de deuses, múmias. Tempo inimaginável, quem eles eram? O autor diz que eram homens como nós, os mesmos desejos, medos, modos de sentir, falhas e poderes. Mas ao mesmo tempo os objetos mostram que eles eram outros homens, jeitos de ver e de entender perdidos para sempre.
  A China e sua precisão. Uma verdade perturbadora, os protagonistas são centrais desde sempre. Mesmo países pobres como India e Irã são centrais a mais de 10.000 anos. O livro abre mentes, Roma e Grécia estão aqui, mas está mais a Pérsia, o Egito, os Vikings e os Hindús. India, a única sociedade que tentou se fazer sem guerra e sem religião oficial. Uma fascinante história que se desenrola por milênios.
  Vemos então que a Europa é pouco. Um navio de ouro, fascinante, mostra que enquanto portugueses e espanhóis se abarrotavam de ouro americano, os alemães desenvolviam a ciência e abasteciam a Europa de livros. Mudamos? Herdeiros dessa civilização, nós mudamos?
  A Inglaterra se torna centro apenas em 1800. Através da guerra, guerra contra espanhóis, holandeses, chineses, africanos, alemães. Guerra pelos mares, pelos rios, pela terra e pelo mercado. Uma história interessante: o chá se populariza na Inglaterra em 1800. Toma o lugar da cerveja e do gim como bebida nacional. Porque? Porque não ficava bem para o país mais rico do globo ser uma terra de beberrões em pubs cantando aos berros e abraçados em irmandade bêbada. Nasce artificialmente o mito do inglês frio, comedido, fechado, bebedor de chá, e é decretada a morte de uma nação que até então fora conhecida por ser bárbara, calorosa, exagerada e briguenta. Ou seja, a extinção de uma raça por vias ideológicas pode ser tão cruel quanto a morte de uma tribo.
  Não quero ficar discorrendo indefinidamente. Leiam o livro que é bem fácil de achar. Meu objeto favorito é um conjunto de homens e bichos chineses de porcelana. Cores como aquelas jamais vi em lugar algum. Nem os italianos de 1400 conseguiam aqueles tons. Dá vontade de olhar para sempre.
  Se Neil MacGregor fosse um poeta ele diria que a história do globo é a história da busca por beleza perfeita. Pela absoluta perfeição.
  É o que gosto de pensar.

ROCK NA ALEMANHA OCIDENTAL

   Faust, Neu, Can, Kraftwerk, Amon Dull, Nektar, Tangerine Dream, Karthago, esses alguns dos nomes do Krautrock. Posto um documentário da BBC. Gritos usados como instrumento. Enquanto uma bateria repete um beat, um músico varre o estúdio: eis a música, o beat e o ruído da vassoura que vira melodia. Um japonês fala enquanto o ritmo se repete. Rock sem riff, sem solo, sem refrão. Viagens espaciais. Como diz um deles, nem Inglaterra e nem EUA. E nem Alemanha: Space. Outros mundos, alucinações. 
  Radicais. O auge do terrorismo europeu. Bombas como mensagens. Barulho como poesia. O exagero sideral do romantismo. Além do óbvio. Em 1968 o rock já parecia esgotado. Eles foram além. Ninguém nunca mais foi tão além.
  Iggy aparece no doc da BBC. Em uma ilha tropical. Iggy sempre foi antenado e em 1975 já pirava com esses sons. "Porque era diferente. Nada de rocknroll ou de country..." Eram elegantes, frios, rebeldes, loucos, inesperados, monótonos e viciantes.
  E são os avôs do que se faz de mais esperto hoje.
  Veja.

LEONARDO DI CAPRIO/ MATHEW MCCORNAGHY/ BRUCE DERN/ BEN STILLER/ JULIE CHRISTIE/ ROCK HUDSON

   NEBRASKA de Alexander Payne com Bruce Dern, June Squibb, Stacy Keach e Bob Odenkirk
Ao contrário de seu costume Payne não fez o roteiro deste filme sem nenhuma concessão. Em preto e branco deslumbrante, acompanhamos um momento na vida medíocre de um velho. Ele crê em prêmio de loteria e tenta de todo modo viajar para receber o pretenso prêmio. O filho fracassado o leva de carro. Lento, com algumas cenas de humor amargo, é um daqueles filmes que nos anos 70 se fazia aos montes. O tal "pequeno grande filme". Bruce Dern, eterno coadjuvante, tem aqui seu segundo melhor papel ( em Amargo Regresso ele teve o papel de sua vida ). Payne está construindo uma bela carreira. Nota 7.
   A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY de Ben Stiller com Ben Stiller
Talvez o pior filme deste ano. Uma hiper-pretensiosa comédia sem graça nenhuma e sem conteúdo algum. Walter Mitty sonha acordado. O filme tenta fazer graça no contraste entre sua vida de loser e seus sonhos. O tema é bom, mas Stiller não tem mérito algum nisso, Mitty foi filmado anteriormente nos anos 50. Stiller causa antipatia de tanta vaidade. ZEROOOOOOO!
   LONGE DESTE INSENSATO MUNDO de John Schlesinger com Julie Christie, Peter Finch, Alan Bates, Terence Stamp e Prunella Ramsome.
Épico inglês feito no auge da popularidade de seus atores. Schlesinger, vindo de filmes ousados, faz aqui seu filme tipo David Lean. Cheio de belas paisagens, conta a história de uma dona de terras que é cortejada por três homens. Um soldado mulherengo que lhe desperta desejo, um velho amargo e rico que se casa com ela, e um trabalhador simples e persistente, que salva seus negócios. Julie está belíssima, leva o filme com facilidade. Os 3 homens são muito bem escalados, Stamp é o soldado, Alan o camponês e Finch o homem amargo. Dificil saber quem está melhor. Um lindo filme. Nota 9.
   O CLUBE DALLAS de Jean-Marc Valée com Mathew McCornaghy, Jennifer Garner e Jared Letto.
E Mathew levou seu Oscar. Ele está ótimo como um cowboy machista que tem aids. Com a doença ele muda e se torna um cara melhor. Valée fez um filme maravilhoso e emocionante: CRAZY. Este é apenas comum. Um tipo de telefilme. Só isso. Nota 5.
   INSIDE LLEWYN DAVIS de Joel e Ethan Coen com Oscar Isaac, Carey Mulligan, John Goodman, Justin Timberlake
Os Coen são talvez os diretores americanos de quem mais gosto ( claro que falo dos vivos ). Este filme, que não se parece com nada do que fizeram, apenas os cenários lembram algo de sua obra, tem um grande defeito: Oscar Isaac. Sem nenhum carisma. Mas, por outro lado, não será proposital? Afinal, esta é a história de um cantor folk que quase chega ao sucesso. Não chega porque ele se revela um desastrado, teimoso e até mesmo petulante tipo. Ou seja, um cara feito para perder. O filme se equilibra num fio muito perigoso, ele quase cai na pura chatice e consegue fugir da comédia ( ele tem tudo para virar um pastelão ), é um trabalho de direção muito sutil, dificil de manter. Eles conseguem. Mas é um filme seco, sem emoção. Gostamos, mas não queremos nunca ver de novo. A trilha sonora é muito boa, de T, Bone Burnett. Nota 6.
   O LOBO DE WALLSTREET de Martin Scorsese com Leonardo di Caprio, Jonah Hill, Margot Hobbie, Jean Dujardim e Mathew McCornaghy
Uma porrada. Febril, engraçado, amoral, o filme demonstra a genialidade de seu diretor e de todos os envolvidos. Scorsese faz, com prazer e com facilidade, tudo o que quer. Vai do drama ao pastelão, do suspense a farsa, com supremo savoir faire, know how, sabedoria. Uma aula de cinema, uma obra de um mestre, do maior diretor vivo. Aos 70 anos, Martin exibe um vigor que faria a maioria dos jovens diretores passar vergonha. Um muito grande filme, é, com A Grande Beleza e Branca de Neve de Pablo Berger, os grandes filmes de 2013. Nota DEZ.
   A ESPADA DE DAMASCO de Nathan Juran com Rock Hudson e Piper Laurie
Nos tempos pré-TV, o cinema mandava sózinho. E produzia toneladas de filmes B. Eram filmes simples, alguns muito bons, outros ruins. O objetivo era preencher as telas todo o ano, afinal, as pessoas iam ao cinema 3 vezes por semana em média. Este é um filme da Universal estilo 1001 noites. Rock Hudson ainda não era uma estrela e o filme dá pro gasto. Nota 5.