BRASIL, O PAÍS DO FUTURO!

   Um amigo me manda uma matéria em que uma revista conta que o futuro é dos idiotas.
   Qual a nova?
   Se eu der uma de Pondé e falar aquilo que penso, aliás que muitos pensam e que ninguém diz, falo que quanto mais os imbecis tomam o direito de mandar ( através do acesso ao consumo ), mais tudo fica de acordo com esse denominador comum, um denominador quase zero.
   Se eu falo, e acho que voces nem acreditam, que em 1976 a Rede Globo exibia peças de Gogol e Lorca em horário nobre ( Teatro Vivo, 21 horas ) e sinfonias de Beethoven também, isso se devia ao fato de que os mal nutridos não tinham sequer acesso a . A programação da TV mais popular era feita para 5% da população. E mais uns 30% que viam Silvio Santos e Chacrinha.  Uma felicidade hoje eles comprarem TVs, mas essa entrada no mercado não veio acompanhada de entrada na cultura. Então agora eles pedem Ratinho, Pânico, Casé e muito crime-da-vida-real.
   E não me fale do capitalismo. O capitalismo verdadeiro se encontra na Coréia ou na Alemanha. O Brasil nunca conseguiu chegar ao capitalismo de fato. Improvisamos um camelódromo. Somos camelôs. Educação rima com alto consumo. O que aconteceu é que fomos incapazes de mudar a educação. Aliás, nada mudamos, continuamos exportando matéria prima e dependendo de marcas estrangeiras para termos carros, PCs, relógios, remédios, telefones e um imenso etc. A taba manda soja, compramos avião.
  Em Pinheiros, após longos anos, a praça em frente a igreja está pronta. Quer dizer, pronta em "brazilian style". Está velha e decadente antes de terminada. O estado é incapaz de construir alguma coisa que pareça terminada. Tudo fica com aquele jeito de "nas coxas"...um buraco aqui, uma parede suja lá...
  Soube que no Brasil os projetos são desenhados após o término da obra. Ou somos muito espertos ou este país é de uma deprimente burrice. Voce escolhe a alternativa.
  Óbvio que os estádios da Copa ficarão mais ou menos terminados. E que ao fim do evento eles já vão parecer velhos e decadentes. Manutenção não é uma virtude brasileira. Nada de manutenção, que se construa de novo!
  Se o futuro é dos idiotas, podemos dizer que somos mesmo, e sempre fomos, o país do futuro.
  Quando americanos e japoneses estiverem confusos com sua nova realidade, uma realidade feita de improvisos, jeitinhos e desrespeito a acordos, o Brasil surgirá como pioneiro e poderá enfim ditar as regras.

T Rex (Marc Bolan) - Don Kirshners Rock Concert - 1974



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OS QUARENTA ANOS DE QUARENTA ANOS ATRÁS

   É duro falar sobre 1974, um ano que dura 40 verões. Isso é inacreditável. Em minha vida tive anos marcantes, 76, 77, 80, 84, 86, 91, 93, 95, 98, 99...sim, todos esses anos são diferentes, têm personalidade, marcam um tempo novo. Alguns tristes, como 77, mas todos importantes. Mas o sabor de 74 é o da descoberta. Foi quando descobri coisas que me deixariam em rota para ser aquilo que sou agora.
  Portanto não vou falar daquilo que só descobri anos depois. Eu não sabia o que era Roxy Music em 1974, ou Woody Allen, Jack Nicholson e Philip Roth. Mas eu sabia de Nelson Motta e de um programa das tardes de sábado chamado Sábado Som. Nelsinho aparentava 18 anos então ( ele já tinha 30 ), e comentava os clips antes de os apresentar. Pink Floyd foi o primeiro. E eu achei um pé no saco. ( Falo de meus 11 anos ). Em outros programas a coisa me agradou mais. Meu irmão pirou com Jean Gennie do Bowie. 
  Sábado era um dia muito especial. Acordava e ia pra sala ouvir rádio. Difusora e Excelsior. Elton John era meu ídolo. Ele tinha 6 músicas de sucesso rolando ao mesmo tempo! Nunca mais vi isso! ( Eram Don`t Let The Sun Go Down On Me, The Bitch is Back, Lucy In The Sky, Sweet Painted Lady, Beannie and The Jets e Ballad of Danny Bailey ), e havia Wings, George Harrison, Ringo e Lennon ( tocava muito Band on the run, Miss Vandebilt, Dark Horse, Ding Dong, Only You, Goodnight Vienna, Whatever gets you thru the night, Dream, Goin down in love ), era TEMPO de Barry White, Stylistics, Billy Paul, Marvin Gaye, Stevie Wonder. Rolava Rebel Rebel do Bowie e Only RocknRoll dos Stones. E mais Alice Cooper, Bad Company, Slade, Sweet, Clapton com I Shot the Sheriff...e muito Secos e Molhados.
   Em 74 minha mãe me disse que éramos ricos. Fiquei contente, mas jamais pensei que iríamos começar a cair em 1975, lentamente, ano a ano. Em 1983 a coisa ia virar de vez...
   Nunca vi meu pai tão contente como naquele ano. Foi quando ele comprou um Opala exatamente como ele queria, vermelho-lotus, duas portas, um tipo de muscle-car brasileiro. Lembro dele trazendo o carro, a lataria vermelho brilhante, imenso, adentrando a garagem e exalando o cheiro de carro novo. Dormi aquela noite dentro dele. Nas noites seguintes ele nos levava para passear. Adorava olhar as luzes dos postes. Cantávamos. O rádio era Bosch-Blaupunkt.
   Nas tardes de sábado íamos a Pinheiros, ao bar do meu pai. A alegria era enorme, raras vezes fui tão feliz. Uma alegria cheia de ansiedade. Porque, consumista que sempre fui, ia ganhar mais um carrinho da Matchbox. Tinha um laranja, um vermelho com hélices, um marrom enorme. Quando não ganhava um carrinho, ganhava discos. Singles, na época se chamavam compactos simples. Chegar em casa e os escutar era um momento de cerimonia. Deitava debaixo da vitrola e ficava olhando o motor girar.
   Em 74 eu comecei a colecionar revistas da editora Ebal. Homem-Aranha, Superman, Tarzan, Batman, Superboy. Ainda posso sentir o cheiro do papel novo, tinta preta, capa em cores. Eu ia as segundas levar meu irmão a escola e na volta comprava revistas. Pelo resto da semana eu iria as reler. 
  Nesse ano fui apaixonado por Josie e as Gatinhas. Melodie. E via Mary Tyler Moore. Meu pai adorava San Francisco Urgente e Cannon.  A TV era toda de séries americanas. 
  Na escola comecei a jogar bola. Sempre muito mal. E tinha uma relação de ódio e admiração pelo cara mais folgado da sala. Chegamos a brigar. Mas eu adorava ir a escola. Sempre adorei. O som de gente ao meu redor, nada é melhor.
  Em 74 fomos a praia. Ficamos num apartamento que tinha uma criação de cabras no vizinho. Foi nesse ano que as meninas começaram a me deixar louco. Eu ficava na varanda todo o tempo, esperando uma menina passar...mas era um desejo envergonhado, sem que eu soubesse o que fazer com aquilo. Eu nem sabia me masturbar!
  1974 foram longas tardes de inverno, na janela vendo a rua, naquele mundo onde quase nada acontecia e onde aquilo que acontecia acontecia pra sempre. Pra 40 anos.
  Minha mãe fez uma promessa. E por isso fomos o ano inteiro em todas as missas de domingo. Eu odiava ter de ir. Era quente, chato, lotado, e eu queria ficar em casa ouvindo rádio. Depois da missa a gente ia na feira. Eu comprava bolachas. Bolachas velhas. Sempre gostei de bolachas velhas. 
  Penso agora que talvez 74 seja tão especial por ter sido o primeiro inverno em que não tive bronquite. Eu dormia muito bem, enfim! Minha vaidade começou a aparecer, comecei a estufar o peito, a me achar forte. A bronquite se foi.
  1975 viria, e tudo o que 1974 trouxe seria desmentido por 75. Mas naquele natal, dezembro de 1974, tive um momento de absoluta felicidade, da certeza total na beleza da vida, de paz completa. Eu estava no centro de uma decisão, no centro de uma familia. Sabia que os caminhos se abriam. E queria todos eles. Pra valer. 
  Hoje, inacreditável 2014, ano em que 100 anos passaram pós 1914, 1914 que inicia o fim das alegrias possíveis, hoje, sinto 1974 vivo em tudo aquilo que me fala de amor.
  Preservo meus amores. Respeito meus amores. 1974 é sempre.

CLOSTERMANN HOLLAND 1944-45



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O GRANDE CIRCO- PIERRE CLOSTERMANN, MEMÓRIAS DE UM PILOTO DE CAÇA DAS FORÇAS DA FRANÇA LIVRE DA RAF.

   A editora C&R lança livros de guerra no Brasil. Preenche um buraco, esse gênero tem muito prestigio em todo o mundo, aqui mal se encontra. Livro bem cuidado, belas fotos e desenhos dos aviões.
   O pai de Pierre lutou em 1914/1918. Perdeu as duas pernas na carnificina, mas mesmo assim apoia o filho quando ele resolve se alistar como voluntário na segunda=guerra. Familia rica, negócios pelo mundo, Pierre poderia continuar sua vida na segurança do Canadá ou do Brasil. Mas não. Vai lutar na Royal Air Force, a RAF, a aviação inglesa, única força a deter Hitler em 1940.
   A França não. E o livro, o diário real desse piloto, começa com o lamento pelo triste papel feito pela França. Ela não lutou, ela se rendeu. Mas, fora do país, De Gaulle organiza o ataque, franceses das colônias, franceses americanos, lutarão. Pierre estranha a Inglaterra. Mas logo se sente em casa. É 1943. As batalhas de Pierre Clostermann começam.
   O estilo é admirável ! Nos sentimos dentro do avião. Ele sabe descrever a surpresa do inimigo que chega, as batalhas feitas de medo, de suor, frio, confusão. Os aviões se misturam, se caçam, atiram e erram, se perdem. Amigos morrem. Aos montes. Eles levantam vôo de manhã, de tarde, de noite, sentem fome, sentem sono, dor. E o medo que não se vai.
   Pierre odeia a guerra. Ama a aviação. Ao final do livro ele fala de sua admiração pelos ases da aeronáutica alemã. Pilotos soberbos, que venceram 200 duelos. O luto que se abateu sobre a base quando Nowotny, um inimigo, foi morto. Porque acima de tudo eles eram aviadores, irmãos nos ares que deviam lutar. Pierre contrapõe a terrível carnificina da infantaria, com sua lama, seus membros despedaçados, a sujeira, e a guerra nos ares, limpa, fria, elegante, homem a homem.
   Mas sim, ele sente a dor de ter bombardeado cidades. Aviões ainda a hélice, o que os obrigava a ver a explosão, ver o fogo, gente sendo explodida. Guerra olho no olho, se olha o piloto inimigo que atira.
   Numa das folgas Pierre vai pescar. E faz amizade com o dono das terras onde ele pesca. Um velho inglês, de cachimbo e tweed. Esse homem, que janta com ele, morrerá num bombardeio. E Pierre descobre que a esposa e o filho do velho inglês já haviam morrido em 40, ele na batalha da Grã=Bretanha, ela em Londres, num bombardeio. Pierre passa a admirar a Inglaterra. As bombas caem e eles jogam cartas. A casa em chamas e o chá sendo servido em ponto. O fato que Hitler nunca entendeu, os ingleses não saem do costume, a fleuma permanece.
   Pierre não gosta dos americanos. Porque até mesmo Hitler manteve as cidades de pé, nunca bombardeou para arrasar. Os americanos, e os russos, não. Para deixar seus soldados mais "protegidos" eles fazem um bombardeio arrasador. Destroem tudo. Sem pensar, sem remorso. Dresden, Munique, Berlim, Caen, Strasburgo, Dieppe, todas são incendiadas, anuladas, riscadas do mapa. É uma vingança fria, sem honra.
   Churchill e Roosevelt discutiam muito por esse motivo, Churchill queria que se preservasse o máximo possível, Roosevelt ( e Eisenhower ) queriam a aniquilação. Venceram.
   As missões se sucedem. Novos aviões, os nazis lançam o primeiro jato, o primeiro missil, mas é tarde. A guerra em seu fim é desespero. Batalhas aéreas gigantescas. 90 aviões contra 120...Os alemães constroem fábricas subterrâneas, 400 novos aviões por mês, 500, 1000...Mas a Inglaterra não desiste! Spitfires, Hurricanes, Typhoon, os nomes dos aviões são lendários! Pilotados na unha, com sangue saindo do nariz, sem ar, a 25 abaixo de zero!
   Pierre Clostermann sabia escrever. E viveu muito! Morreu aos 92 anos, em 2002.
   Homens como ele? Não mais.

New York, New York - On the Town



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A FELICIDADE EM FILME, OS MAIS FELIZES DOS FILMES

   Pegaram FANCY FREE, uma obra genial de Bernstein e Jerome Robbins e transformaram neste filme impactante. Criticos snobs da época torceram o nariz, afinal não respeitaram toda a obra-prima, mas caramba, que filme bom!
   A primeira cena, com a música de Lennie Bernstein, já conquista qualquer cara de gosto refinado. Um trabalhador se lamenta por ser segunda-feira. De um navio descem marinheiros em férias de 24 horas. Um luminoso marca o tempo:: segunda, 7 horas...
   New York, os 3 marinheiros andam pela cidade e cantam. É excitante, é feliz, é wonderful ! Gene Kelly é um entusiasmado rapaz que se apaixona pela Miss Metrô. Jules Munshin é um grandão que só pensa em garotas e Frank Sinatra faz o tipo de papel que ele fazia nos anos 40, um ingênuo desprotegido. A cidade, gloriosa, é percorrida pelos amigos e pelas mulheres que eles vão conquistando pelo caminho, uma taxista e uma antropóloga. Nesse frenesi alegre e atlético, o espectador acompanha o espírito do filme: alegria sem ironia. É o mais feliz filme já feito. 
   Sucesso em seu tempo, curto e direto, sem muita pieguice, e com um final perfeito, UM DIA EM NEW YORK é uma obra-prima de Gene Kelly e Stanley Donen. A primeira direção dos dois.
   Fariam alguns poucos anos mais tarde SINGIN IN THE RAIN.
   O cinema tem duas cenas que são seus emblemas: A cena no chuveiro de Psycho e Kelly dançando na chuva. Quem foi feliz sabe, quem é feliz sabe, aquela dança simboliza tudo o que sentimos aos nos descobrir felizes. Kelly canta, pula, chuta a água e em toque de sublime delicadeza termina a cena dando seu guarda-chuva para um senhor molhado que o agradece. A felicidade ignora a chuva, ignora o guarda, ignora a elegância ( é uma dança deslegante ), e se dá a um anônimo. Como Kelly e Donen conseguiram fazer algo de tamanha perfeição? É uma prova palpável de que milagres existem.
   Mas há mais! Bem mais!
   Make em Laugh, com Donald O`Connor é absurdamente alegre. Dança que faz rir, um artista dando o máximo e chegando ao pós-limite. Há Debbie Reynolds no simples e leve All I Wanna Do, lindo momento como noite de natal. Linda, ela, leve, brilha. Fadas existem?
   Uma subtrama séria ronda o filme: O quanto somos esmagados pelo star system. Nossos padrões são altos e irreais demais! Queremos ser charmosos como Fred Astaire, elegantes como Cary Grant, bonitos como Gary Cooper, másculos como Bogart e dispostos como Erroll Flynn. Esses os moldes, voce pode substituir pelo astro de seu tempo, Clooney, Pitt, Depp, Butler, MacConaughey... O padrão é muito alto, e ficamos frustrados.
   Mas nada impede que cantemos Good Morning! Tenho amigos que piram com essa cena! Como não pirar?
   No Oscar de 94 Stanley Donen finalmente ganhou seu Oscar. E dançou com ele! Se Kelly era o perfeccionista ( e são dois filmes absolutamente perfeitos ), Donen foi chique e feliz. 
   Um musical precisa de pelo menos três momentos tipo "Arrasa Quarteirão", aqueles apogeus em que o público se levanta e aplaude. Em que o show explode. Pois estes dois filmes têm mais de 6 desses momentos.

RED 2/ MATO SEM CACHORRO/ LUC BESSON/ MINELLI/ BO WIDEBERG

   RED 2 de Dean Parisot com Bruce Willis, John Malkovich, Helen Mirren
Um grande elenco numa diversão interessante. Humor de menos ( o primeiro Red era bem mais engraçado ), boas cenas de ação. Pode ver sem medo. Nota 6.
   MATO SEM CACHORRO de Paulo Amorim com Bruno Gagliasso e Leandra Leal
Uma comédia muito boa. Bruno, ótimo, é um cara timido que se envolve com Leandra ( linda e simpática ), uma radialista. Um cachorro os une. Eles se separam, e Bruno rapta o cão. O filme é cheio de personagens vibrantes e exala simpatia. Gabriela Duarte quase rouba o filme como uma alcoólatra boca suja. Muito ritmo na direção de Amorim. Nota 8.
   MUITO BARULHO POR NADA de Joss Whedon
Whedon é um roteirista quente. Estreia como diretor nesta coisa que usa o texto de Shakespeare em cenário e tempo chic de 2013. Fica tudo very strange. Ralph Fiennes fizera igual com Coriolano, texto do bardo em tempos de agora. Duvido que alguém consiga digerir. Nota 1.
   ELVIRA MADIGAN de Bo Widerberg
Um grande sucesso dos anos 60 que se conserva mais ou menos. A trilha popularizou o concerto 21 para piano de Mozart. As imagens, campestres, são lindas. Mas o filme é frio. Fala de casal, ele um soldado, que tenta se amar em paz nos anos de 1880. Mas ele é um desertor...O diretor sueco usa climas de Truffaut, improvisa. Quando uma cena tem um acidente feliz, ele a usa, não a corta. Mas apesar de bonito, é um filme distante. Nota 5.
   A FAMILIA de Luc Besson com Robert de Niro e Michelle Pfeiffer
Muita gente elogiou esse filme sobre familia mafiosa que se refugia na França. Os filhos e a mulher não perdem o costume, continuam sendo hiper-violentos. Achei o filme desagradável, chato, sem porque.
   YOLANDA E O LADRÃO de Vincente Minelli com Fred Astaire
Em que pese o lindo technicolor e a bela produção da MGM, o roteiro é tão bestinha, tão boboca que não há como gostar deste musical. Fred, para piorar, canta e dança pouco. Nota 5.

FRANK- JAMES KAPLAN, O INFERNO

   Abaixo eu escrevi sobre toda a primeira parte do livro de James Kaplan sobre Frank Sinatra. A segunda parte é o inferno. A partir de 1946, ou seja, após a guerra, o gosto médio americano muda. O grande centrão do país, o interior profundo, passa a ditar as regras e o que faz sucesso é menos sofisticado, menos urbano, mais simples. Cantores como Perry Como, Eddie Fisher, Frankie Laine...Como aconteceu com o Brasil a partir de 1990, o povão começa a ter acesso a cultura, e a cultura que eles consomem é a mais simples possível, quase infantil. Sinatra não quer e não pode se encaixar nesse mundo. Então ele desaba. E como nada vem só, tudo começa a desmoronar.
 Ele se apaixona por Ava Gardner. No começo tudo é lindo. Mas logo começam as brigas. Nesse terremoto, ele se separa de sua esposa ( o que gera a ira de 90% das mães americanas ), estreia um show de TV que é um fiasco, perde seu contrato de cinema e é acuado pela imprensa por suas ligações com a máfia e com a esquerda americana. Capacho de Ava, falido e sustentado por ela, despedido da gravadora, desesperado. Tenta se matar duas vezes, vaga solitário pelas ruas...
 Ava desiste dele. Dorme com contra-regras, atores, atletas e toureiros. Principalmente toureiros. Frank tenta a reconquistar. Patético. Ela faz dois abortos que o revoltam. ( O segundo não era dele, mas ela não conta...). Ava se torna a atriz mais quente do mundo. Sinatra o cantor que ninguem mais quer. 
 ( Uma frase de Humphrey Bogart para Ava nos bastidores de um filme que fizeram juntos: " Todas as mulheres querem dar pra Sinatra e voce prefere dormir com um cara que usa capa e sapatilhas!").
 Uma nova gravadora, a Capitol, tem um jovem diretor. Com menos de 30 anos, esse garoto fez a moral ao ser incumbido de criar um selo de discos infantis. O cara cria o Bozo! E estoura. Em seguida ele chama Nat King Cole, e faz dele um sucesso. E Frank Sinatra aparece, o cantor que ninguem mais queria. Alan Livingston, esse o jovem produtor, traz Sinatra e Nelson Riddle para os arranjos. E a coisa acontece. Nasce o cantor que conheceu o inferno, a dor,   nasce o homem forte, o cara que venceu o mal. Las Vegas, que nasce naquele tempo, se torna seu QG, Sinatra passa a ser o icone do big boss, o modelo a ser copiado, o cara que pode tudo, o adulto, o juiz, o fodao.
 Sinatra renasce. A maior volta por cima da historia da musica popular. Do desemprego ao topo do mundo. De novo.
   Ao mesmo tempo vem o cinema. Ele ganha o papel em A Um Passo da Eternidade ( sem a ajuda da mafia, com ajuda de Ava ), e leva o Oscar. O cara que toda Hollywood gostava de odiar vence. Porque ele mereceu, apenas por isso. As pessoas sabem que Sinatra tem tudo de um filho da puta: vaidade, infidelidade, teimosia, egoismo; e tambem genialidade, vulnerabilidade, timidez, generosidade e a VOZ. The Voice. Ele.
  A ultima cena do livro: Frank com seu Oscar, em 1954. Anda pelas ruas de Los Angeles, madrugada, com o Oscar em maos. Sozinho. Feliz. Novo. Aos 39 anos. 
  Um grande livro.

Frank and Ella - Lady Is a Tramp



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Frank Sinatra Fly Me To The Moon



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URINA, SUOR E GOZO, FRANK, A BIO DE SINATRA ESCRITA POR JAMES KAPLAN

   Ele veio ao mundo via fórceps. E ganhou com isso uma cicatriz e uma orelha torta. Pior, foi jogado na pia, enquanto o médico tentava salvar a mãe. Filho único, era vestido como um pequeno Lord. Se tornou um grande pentelho. O baixinho nojento, com mania de limpeza. Com mesada grande ( Nunca foram ricos ), comprava roupas e amigos. O cara com medo de solidão, aquele que pagava sorvetes e hamburger pra todo mundo. Vaidoso e delicado e ao mesmo tempo explosivo. Complicado? Veja o resto...
   A mãe, uma italiana brava, fazia abortos e era conhecida em toda Jersey. Abortos e partos. O partido democrata, sabendo de sua fama no bairro a chamou para ser cabo eleitoral. Ela mandava. Uma mafiosa quase. O pai era um banana calado.
  Sinatra era mimado pela mãe, e apanhava dela também. De porrete.
  E tinha a voz. Dois fatos importantes. Sinatra era filho de italiano. E ser filho de italiano era ser negro. Eram chamados de escuros. Sinatra irá romper com isso. Tinha orgulho, muito orgulho.
  E havia Bing Crosby. O jovem Sinatra amava Crosby. E Crosby foi o maior cantor do mundo. Até surgir Frank. Crosby foi o primeiro a cantar suave, a saber usar o microfone. Mais que isso, Crosby tinha inteligência na voz, tinha ritmo, tinha gênio. A América o escutava e queria ser como ele. Inteligente, fino, educado e esperto.
  A vida de Sinatra parece ficção. Frank Sinatra desde cedo quis ser Sinatra. E tudo o que ele quis ele fez. Planejou cada passo. E cumpriu. Ia ao Harlem ver o jazz. Billie era seu modelo. Conseguir ser quente como ela. Cantou em rádios, em bares e foi crescendo. Cantou na banda de Harry James e aí a coisa começou a crescer. Viagens pelo país inteiro, de bus. Hotéis e mulheres, muitas mulheres. Sinatra era anormal, tinha um pau muito acima da média. Brigas com Buddy Rich, o batera estrela.
  Vai para a banda de Tommy Dorsey, a mais hot da época. E começa a roubar o show. Então muda tudo. É o primeiro cantor a sair de uma banda e se fazer solo. Um imenso risco. Vence. O que ele tinha?
  Frank Sinatra tinha aquilo que ninguém teve até então. Sua voz não era apenas bonita. Ele não cantava somente bem ou muito bem. Ele tinha sentimento. Passava fragilidade. Tudo o que ele cantava era de verdade. Frank Sinatra foi o primeiro cantor a interpretar as letras. Ele as estudava, as compreendia profundamente. Se preocupava em sentir o que o autor sentira. E milagrosamente conseguia passar isso ao público. Era mais que um cantor, era um fio que unia música a ouvinte. E sempre com extrema sinceridade. No palco ele se transformava. Se antes estivera briguento, chato, frio, distante, ao começar a cantar se tornava AQUILO QUE ELE ERA, frágil, vulnerável, e muito concentrado.
  Nesse processo as mulheres se apaixonavam por ele. Amavam sua fragilidade. E também os olhos que pareciam fortes. Um misto irresistível de força e dor. Foi o primeiro cantor a fazer com que milhares de meninas gritassem por horas sem parar. Foi rocknroll antes de Elvis. Histeria, excessos, festas, drogas, birita. E muito sexo. As mulheres queriam casar com Bing Crosby. Com Sinatra elas queriam ser putas.
  Espinhos existiram muitos. Dois filhos que ele mal via. A culpa por chifrar a boa esposa. Duas prisões por sedução de menores ( rock até nisso ). O preconceito racial. E o pior, por não ir para a guerra passou a ser odiado pelos soldados. "Nós morrendo aqui e ele comendo a Lana Turner..."
  A imprensa de direita o persegue. O FBI começa a investigar sua vida. Odeiam seus amigos italianos. Seus amigos judeus. Suas opiniões. Isso mesmo, Frank Sinatra lia muito e tinha ideias. Ia as escolas fazer palestras contra a segregação. Gravou discos pró-união racial e religiosa. O menino que só andava com puxa-sacos, o cara que tomava 6 banhos por dia, o chato perfeccionista que explodia com uma brisa de verão não convidada, o neurótico sempre nervoso e insone, era um homem que na verdade enfrentava uma oposição tremenda. Direita, militares, racistas, caipiras, todos odiavam aquele italiano escuro baixinho e convencido amigo de comunas. Mas, muito antes dos Stones, Sinatra podia ter dito, "Voces me odeiam mas suas filhas adoram!"
  Um empresário foi ver um show seu em 1940. Logo ao chegar ele percebeu que em meio aos gritos e desmaios se sentia um cheiro conhecido...o que era mesmo? ....Orgasmo!!! Cheiro de mulher! O teatro estava impregnado desse odor. As meninas gozavam nas calcinhas enquanto viam Sinatra cantar. Num tempo de teatros sem ar-condicionado, o cheiro era sufocante. Urina. suor e gozo. A América mudou para sempre.
  Esse o primeiro Sinatra. Bem mais tarde Ava Gardner, a idade e muitas desilusões mudariam Frank e fariam nascer o chefão, o super-macho. Mas isso fica para outro post...

MICHAEL SCHUMACHER

   E enquanto corvos esfregam as mãos escrevendo manchetes e retrospectivas sobre um defunto ainda vivo, o cara em coma respira. E sonha sonhos que serão para sempre esquecidos.
   Uma vida vale pelo que dela foi feita. Um piloto chegou ao seu máximo e parou. Mas a vontade de ousar não morre. Como um viking seu Valhala era a crença em morrer lutando. Se as pistas nada mais tinham para ele, o mundo ainda era um campo de batalha. Um nórdico feito para a luta.
   E essa morte, se vier, será morte escolhida, nobre despedida. Em luta, sempre!
   E enquanto isso pilotos sem brio e frustrados covardes esfregam as mãos com suas lamentações bem ensaiadas.
   Filho de uma cultura latina, Senna morreu como um cristão numa cruz. E Gilles se foi como um celta enlouquecido. Mas Michael, se partir, irá numa barca em chamas rumo ao mar.
   A vida vale por aquilo que fizemos. O que tiramos de mais particular para nosso espírito. O que levamos conosco para sempre.
   A pedra em meio a neve o encontrou sorrindo...



NATAL

Pode chamar de consumismo, mas eu sinto saudade daquele monte de gente na rua batendo sacolas contra sacolas, sacolas cheias de compras de natal.
As filas doidas nos caixas e os pacotes embrulhados com fitas.
Se o natal se tornou puro comércio, que seja pelo menos um grande comércio!