TRAFFIC - Paper sun (1967)



leia e escreva já!

UMA LINDA HISTÓRIA DE UMA BANDA MUITO ESPECIAL

  A vida toda estive atrás de uma menina, ela não tem rosto, não tem nome e nenhum número...Ela está dentro de mim...
   Esse o mote de "No Face, No Name, No Number", faixa do primeiro disco do Traffic, 1967. Todo o romantismo inglês explicitado na mais romântica das bandas do lado de lá do Atlântico. Caramba! Como pode isso! Entre She Loves You e o Traffic se passaram apenas quatro anos??? Parecem décadas!
   Em 1966 uma banda chamada Spencer Davis Group estourou com duas canções número 1 nas paradas: I Am A Man e depois Gimme Some Lovin'. No vocal um garoto de 16 anos, Steve Winwood. Começaram a dizer que era o novo Ray Charles ( NÂO ). Se os EUA tinham Little Stevie Wonder, a GB tinha Little Steve Winwood.
   Porém, com 16 anos, Steve já era aquilo que é até hoje, a reencarnação de Wordsworth. Ficou puto por ter virado Pop e se mandou para o campo com uns amigos pouco mais velhos. Lá, em Yorkshire, cercados de vários chás, ácido e muita erva, formaram uma banda de "boas vibrações". Nascia o Traffic.
   Boas energias...inexiste agressividade no Traffic. E abundam erros técnicos. Steve é um grande músico e um hiper cantor. Sabe tocar guitarra, teclados, baixo e bateria. Já gravou discos em que ele toca tudo. E Dave Mason, guitarrista do Traffic era excelente. Mas Chris Wood e Jim Capaldi só ficaram no grupo por serem brothers e terem alto astral. Chris era um desastre no sax, flauta e teclados e Capaldi acabou por desistir da batera e virar um surpreendente bom cantor. Well....continuando...
   Chapados e fixados em símbolos celtas, yoga e astrologia, os quatro assinaram com uma nova e pequena gravadora, a Island. E gravaram um single e um LP. Na produção botaram outro novato, Jimmy Miller. O que rolou? Mais sucesso inesperado!
    Chris Blackwell, dono da Island, acabou sendo o poderoso descobridor de Bob Marley e lançador do Roxy Music, do King Crimson e do ELP. Depois seria a casa do U2. Jimmy Miller fez tanto sucesso como produtor dos três primeiros Lps do Traffic que os Rolling Stones logo o chamaram e roubaram Milller de Winwood. Com Jimmy Milller os Stones gravariam TODOS os seus discos entre 1968 e 1974, ou seja, seus melhores trabalhos. Mas porque Miller fez tanto sucesso como produtor?
   Tenho esses três Lps em vinil e em CD. Tente ouvir em vinil e please, não baixe. Os dois primeiros LPs do Traffic são considerados até hoje uma obra-prima em termos de som estereofônico. São feitos para se escutar com fone de ouvido. Experimente. Os instrumentos ficam o tempo todo dançando entre a direita e a esquerda. Sons aparecem no ouvido esquerdo, voam para o direito e voltam. Ruídos aqui e não lá, lá e não aqui. Um grito aqui. Um solo que vai para lá. É um som espacial, ele anda, caminha dentro da cabeça de quem escuta. É uma arte perdida.
   Steve Winwood é uma pessoa amável. Calma. De sorriso suave. Gravou com TODO mundo. Era amigo de todo mundo. Posso lembrar agora de Eric Clapton, Jimmy Hendrix, Marianne Faithfull, George Harrison, Pete Townshend, e vasto etc. Todos tiveram banda ou gravaram com ele. O Traffic acabou em 1970, voltou em 1971 e voltou a terminar em 1974. Daí a carreira solo. Com 24 anos em 1974, Steve Winwood já tinha quatro bandas de sucesso nas costas e um monte de trips para contar.
   Jim Capaldi mora a trinta anos no Rio. Gravou até com Ritchie. Lança disco em Londres de vez em quando. É maluco pelo Arpoador e pelas mulheres do Brasil. Chris Wood morreu nos anos 80. Dave Mason tentou carreira solo e virou requisitado guitarrista. Seu mais famoso trabalho é no Beggar's Banquet dos Stones. Sim. Algumas daquelas guitarras de aço são dele. E Steve Winwood enveredou pelo Pop. Como ocorreu com tanto ex-maludo hippie, ele assumiu que seu amor maior sempre foi a soul music de Marvin Gaye e de Sam Cooke e foi por essa senda.
   Acabo de reouvir pela milionésima vez o Best Of do Traffic. Tenho esse vinil desde 1979. É um disco perigoso. Há algo de muito escuro nele, de muito onírico e voce pode se perder dentro dele e não voltar nunca mais. Pior, pode não querer voltar. É bonito.
   PS: Postei esse video de Glastonbury em 1971. Jim Capaldi é aquele com o pandeiro no microfone. Winwood está ao teclado, cantando. O show é absolutamente dionisíaco. Enjoy. Voce merece isso!

Winwood Glastonbury 1971 TRAFFIC



leia e escreva já!

Traffic - 40,000 Headmen



leia e escreva já!

SOBRE O MELHOR FILME ( E A CONDIÇÃO DA ARTE HOJE )

   A principal característica da arte moderna é seu caráter desmistificador. Em 1850 se desmistificava a familia e o dinheiro. Em 1900 a religião e o poder. Em 1930 o sexo e a razão. A arte moderna teve sua função: liberar a criatividade. Pagou um preço: desmistificou e vulgarizou a própria arte. Como bem disse Benjamin, perdeu a aura. Tornou-se uma atividade industrial, como fazer remédios ou carros.
   Pessoas ingênuas, ou que começam a conhecer arte moderna somente agora, pensam que tudo se iniciou em 1990 ou 1980 ( começou com Byron em 1800 ), acham que a imagem de um padre de lingerie comendo um menino, ou uma vagina em close com giletes ao redor, ou mãos sendo trucidadas por formigas, seja o máximo do moderno. Não sabem que são meros símbolos de sintomas espirituais. A arte se tornou campo favorável a todo tipo de cínico ou de desajustado radical. Saiba, todo artista é um desajustado, mas nem todo desajustado é artista.
   O cinema em cem anos viveu como num flash toda a história dos mais de 3000 anos de arte. Tivemos o privitivismo, o gótico, clássicos, romantismo, renascença, românticos e realistas. Tivemos expressionistas e cubistas, naturalismo e abstratos. Agora vivemos o niilismo absoluto. A ironia deixou de ser inteligência construtiva e passou a ser um fim em si-mesma.  Pensar no futuro deveria ser reconstruir e não continuar a destruir aquilo que já é ruína. Mais filmes sobre heróis desesperados, mais filmes sobre mocinhas suicidas, mais filmes sobre taras mentais....tudo isso é pisar sobre pegadas velhas, pintar de novo verniz o que já foi repintado milhares de vezes. A nova arte deve se ocupar de criar e revigorar, nunca de explodir. Tudo já explodiu a muito tempo atrás.
   Os filmes têm se ocupado, faz décadas, de destruir mitos. No começo isso foi ótimo. Era ótimo poder ver um western com um cowboy drogado, ou um romance em que a mocinha era lésbica. Nos dava um sopro de novidade e a liberdade de poder satirizar. O que vale isso agora?
   Mais um filme sobre freiras taradas, mais um filme sobre um vampiro impotente, mais contos de fada irônicos, mais sangue, explosões e amputações. Com Sam Peckimpah havia um sentido anarquista para a explicitação da violência. E agora? Apenas ato mecãnico. Mais do mesmo. Como é mais do mesmo mais um filme de arte com casais que se mordem, adolescentes que se drogam ou vovôs taradinhos. Imagens de crucifixos com sangue, masturbação explícita ou diálogos sobre o vazio...Onde a novidade? É chocante? Para quem? Traz novas ideias? Quais?
   Quando BRANCA DE NEVE derrama uma lágrima ao fim do filme a coisa pega. Um milhão de sentidos e sentimentos revivem. O que?
   Matamos a beleza. Ao vender beijos da bela mocinha e transformar sua maldição em freak-show o filme consegue explicitar o mal de toda arte moderna. Sim relativista, existe um mal na arte moderna. A dessacralização da beleza e do espírito trouxe de troco nossa incapacidade de apreciar e de perceber o sagrado e o belo. Branca jamais irá acordar e é isso que nos comove no fim do filme. Não é mais possível a existência de um príncipe que a desperte e pior que tudo, ela sabe disso. Em 2013 sua maldição será para sempre. O príncipe não virá porque esse príncipe iria rir de sua própria condição, ele não iria crer em Branca, seria um homem cool e homens cool não dão beijos para despertar alguém.
   Desconheço um filme feito de 2000 para cá com tão urgente mensagem. Nada nele é cool, nada nele é chocante. Não há espetáculo, inexiste a ironia. Ele é sério, forte e dolorido, e ao mesmo tempo tem uma simplicidade infantil.
   A Terra foi arrasada séculos atrás.
   Não seria a hora de despertar?

O MELHOR FILME DESTE SÉCULO- BRANCA DE NEVE, PABLO VERGER.

   É o melhor filme deste século. Emocionalmente arrasador, com uma complexidade visual arrebatadora, se torna para mim muito dificil falar de uma obra que traz a dignidade de volta a uma arte tão corrompida.
   Dignidade. Não existe ironia neste filme. Tudo nele demonstra um amor profundo ao cinema. São minutos de comunhão, de fé nos filmes. Para alguém que como eu cresceu apaixonado pelos atores e pelos diretores, ver esta magnífica surpresa traz alegria e lembranças. Alguém ainda ama a arte da imagem em movimento. Aleluia!
   Sim, porque aqui temos Cinema. Não importa o que o filme diz, o que ele simboliza, não importa sua literatura ou sua filosofia, o que temos aqui é cinema puro e só cinema. Arte que se ergue a altura da literatura com filmes como este. Arte que não procura ser livro ou pintura, arte que é corte, ação e ritmo. Poesia sem palavras.
   Não recordo quem falou que filmes silenciosos são como sonhos. Os falados são vida acordada. Este filme é um sonho. Por favor, não é um sonho intelectual. Não analise-o! Sonhe junto. Seja feliz.
   Disse que é o melhor filme feitos nos últimos 13 anos. Ele é. Nenhum filme chegou perto da emoção que acabo de sentir. Chorei no começo ( pela beleza estarrecedora do filme ) e desabei no final ( pelo sublime, o mágico sublime, a mistura de beleza com tristeza do final inesquecível ).
   Algumas cenas não são apenas as melhores deste tempo sem cenas belas. São das mais belas de todo o cinema. Toda a sequência do batismo por exemplo. Um delírio de cortes rápidos e contrastes entre sombras e sol, entre véus e pó. Rostos e gestos. Ou a cena mágica no quarto do pai, o encontro entre duas saudades. O filme, como todo poema, nunca teme a emoção, mergulha nela. A gente vai junto.
   Todo o final, desde o inicio do show no circo até o fim do filme é das coisas mais perfeitas que já vi em cinema. Há grotesco, trágico, cômico, belo e horrível, tudo nesses dez minutos finais. E o fim do filme, desde já um dos mais tristes e surpreendentes. Tenho mais de quarenta anos vendo filmes e digo para vocês, poucas vezes senti um nó na garganta tão dolorido.
   Não, não vou falar desse final. Mas é criada absurda emoção com uma lágrima que escorre. Cena de antologia, digna de Cocteau, Murnau ou de Powell.
    Termino testemunhando a beleza do preto e branco. Nele tudo fica atemporal. Tudo fica com aspecto de sonho, de irrealidade. Todo rosto vira obra estética. Tudo fica parecendo "pra sempre". Já na primeira cena, a praça de touros em Sevilha e o povo andando rumo a tourada, somos tomados por essa verdade, o onírico icônico do preto e branco.
    Digno de Dreyer, é um p/b de veludo. Digno de Vigo, é um filme lindo.
    O cinema ainda vive! Olé!

MASAYUKI SUO/ KATE WINSLET/ MICHAEL DOUGLAS/ LANG/ KEVIN KLINE

   ATRÁS DO CANDELABRO de Steven Soderbergh com Michael Douglas, Matt Damon, Debbie Reynolds e Rob Lowe
Soderbergh consegue algo muito dificil, pegar um tema "brega", exagerado, over, e fazer com que ele jamais caia na ironia, na comédia. Nem drama, nem comédia, jamais frio ou boring. Escrevi sobre o filme abaixo, Liberace foi um superstar queridinho da direita americana. O fato de seu público jamais suspeitar de sua homossexualidade é um mistério. Michael Douglas consegue ser Liberace sem parecer fake. Liberace já era uma caricatura natural, Douglas faz um milagre, consegue deixar Liberace humano sem deixar de ser "Liberace". Damon está ótimo. Natural, não forçado. Na verdade até Lowe está ótimo. Debbie Reynolds está de volta, a mítica estrela adorável de Cantando na Chuva, é a mãe de Liberace. Soderbergh diz que cansou de mendingar dinheiro a produtores idiotas. Será? Vale aqui um adendo: Produtores sempre brigaram com diretores. Ninguém gosta de perder dinheiro. A diferença é que Jack Warner ou Irving Thalberg adoravam filmes. Só sabiam viver de cinema, amavam salas de exibição, atrizes, roteiros, sets. Hoje os produtores mal viram um filme de Hitchcock. É gente que entra no ramo como forma de fazer dois bilhões. Pouco se importam com os filmes, têem outros investimentos, cinema é um entre muitos. Isso faz toda a diferença. São inacessíveis para quem não fala de capital e de dividendos. Mataram o filme médio. Investem em produções caras e jogam esmolas para filminhos minúsculos. O filme médio, aquele tipo de filme que era feito por Hitchcock ou Ford, esse morreu.... Quanto a Liberace, eis um bom filme médio. Nota 7.
   CASAMENTO PROIBIDO de Fritz Lang com Sylvia Sidney e George Raft
Raras vezes vi um filme tão esquisito. Lang diz numa entrevista que tentou fazer um filme educativo, como as peças de Brecht. Usou Kurt Weill neste filme. Fala de uma loja onde trabalham ex-presidiários. O filme fala de segunda chance. Daí vemos um casal que se ama e se casa. Mas ela esconde dele seu passado, foi uma detenta. O marido volta às más companhias e tenta assaltar a loja. Ela demonstra aos bandidos como roubar não dá lucros. Numa lousa ela mostra por a mais b que o lucro de um assalto é muito baixo. E o filme é isso: comédia? drama? lição? O que é? Nenhum diretor icônico errou tanto como o grande Fritz Lang. Morreu correndo riscos, sempre. Este é um de seus maiores erros. Nota 3.
   PARKER de Taylor Hackford com Jason Statham, Jennifer Lopez e Nick Nolte
Será que o veterano diretor de "Ray" consegue fazer um filme de ação? Este começa mal. Sangue demais e nenhum humor. Statham é um ladrão. Traído pelos comparsas ele parte para a vingança. O filme encontra seu tom quando Jennifer entra em cena. Aí ele cresce e se torna mais leve e mais esperto. Ela é uma corretora de imóveis que é envolvida sem querer. Bonita, Jennifer Lopez sofre a maldição das cantoras que querem ser atrizes, é subestimada. Não é pior que René Zellweger ou que Sandra Bullock, mas Sandra e René não cantam, são atrizes "de verdade". Ela traz humor ao filme. A ação melhora, Jason se humaniza. O filme, que era ruim, fica bom. Hackford é competente. Nota 5.
   OS CHACAIS DO OESTE de Burt Kennedy com John Wayne, Ann Margret, Rod Taylor
Wayne em fim de carreira e mais um de seus westerns humorísticos. Bom passatempo numa história que conta a busca por dinheiro roubado. Boa fotografia e quase nada de trama. Nota 5.
   RAÇA BRAVA de Andrew V. McLaglen com James Stewart, Maureen O'Hara, Brian Keith e Juliet Mills
Keith dá um show como um escocês criador de gado no Texas. O filme fala de um boi de raça inglesa, que uma viúva tenta implantar nos EUA. Parece um tema bobo, ele é. Mas levado com bom-humor se torna um gostoso e divertido filme. Stewart se diverte fazendo seu tipo padrão. O caipira bom de cintura. Nota 6.
   LIFE AS A HOUSE de Irwin Winkler com Kevin Kline, Kristin Scott Thomas, Jena Malone
Um homem a morte resolve antes de se ir construir a casa de seus sonhos. Sim, lembra "Viver!" a obra-prima de Kurosawa sobre a morte. E é claro que não chega perto. Mas não é ruim. Kline é sempre um bom ator e aqui ele faz uma bela composição. Seu personagem é um desajeitado, um perdedor, mas nunca chorão. O filme é meio frio. Winkler é um grande produtor veterano que às vezes resolve brincar de ser diretor. Nunca acertou um grande filme, mas também não comete asneiras. Nota 6.
   IRIS de Richard Eyre com Judi Dench, Jim Broadbent e Kate Winslet
Sim, ela é a grande Iris Murdoch, uma das melhores autoras inglesas. A vemos aqui em dois momentos: na velhice, com parkinson, e na faculdade, descobrindo a filosofia de sua vida. Nos dois estágios ela é sempre confiante, radiante e corajosa. Judi Dench brilha intensamente. Nunca sentimos pena de Iris. Ela tem tanta vida que vive a doença. Kate Winslet está muito bem. Sua Iris é uma egocêntrica sonhadora. Jim Broadbent está a altura de Judi. O filme na verdade é todo dele. Emocionante. Nota 7.
   HOLY SMOKE de Jane Campion com Kate Winslet e Harvey Keitel
O pior filme de Kate ( e ela tem muitos ruins ) e o pior de Harvey ( que tem toneladas de lixos ). Ela é uma doidona que é tratada pelo esquisito Keitel. Jane Campion dirige mais doida que os dois, o filme não faz sentido. Se voce quer ver Kate Winslet urinar de pé, este é seu filme. Nota ZERO.
   O SEGREDO DE ROAN INISH de John Sayles
Filmado na costa oeste da Irlanda, em meio aos pescadores, este filme lento fala de uma menina que visita seus avôs. Irá conhecer as lendas do lugar. Quase nada acontece. Mas é bom de ver. E tem uma linda trilha sonora. Nota 6.
   VEM DANÇAR COMIGO de Masayuki Suo
É considerado um dos melhores filmes japoneses dos anos 90. Eu o considero uma obra-prima. Simples, triste, leve, fala de um funcionário de escritório, casado e timido, que resolve ter aulas de dança de salão. Ele e a professora têm um flerte, mas que dá em nada. Ele continua com a esposa. Tudo isso contado de forma velada, secreta, emocionante. É uma obra sobre os amores reprimidos, sobre vidas não vividas, ou então sobre o espírito da beleza e a delicadeza dos sentimentos. No final, há um concurso de danças, momento hilário que casa com a delicadeza do resto. Voce vai se apaixonar pelo filme e pelos personagens. É um filme inesquecível !!!! Nota DEZ!!!!!!!!

TEMPO PRA LER E TEMPO PRA ESCREVER

Que belo texto de Ignácio de Loyola Brandão sobre livros! Ele fala de suas tardes na biblioteca do interior, na adolescência,a edicão censurada de Dorian Gray que ele leu na época...A luz fraca da biblioteca, o luxo do prédio, das mesas, o prazer de viver imerso nesse tempo "fora do tempo""criado pelos livros.                    
   Também tive meu tempo de vida fora da vida. Também tive minha luz fraca e as sombras deliciosamente confortantes onde eu me acomodava e lia. lia. lia...Em um ano, como aconteceu com Inácio; descobri tudo. Foi Dickens, Balzac, Kafka, Voltaire, Hugo, Tolstoi, Jack London, Pushkin, Hardy, Emily Bronte e Sartre. Eu não vivia aqui e agora, meu tempo podia ser 1770 ou 1900, dependia do que eu lia. Noites lendo, o abajur coberto por um pano para escurecer o ambiente, para parecer que era 1800. me apaixonava pelas heroínas de Bronte e de Dickens, queria ser Heathcliff. O amor era pelos livros, mas eu ainda não sabia. Twain, Stendhal, Dostoievski, Flaubert, tudo conheci naquele ano.
   Depois também adentrei o luxo de uma biblioteca, a do Mackenzie, com seu cheiro velho, as estantes imensas e pesadas, os cantos escuros. Ainda será assim?
    Ao mesmo tempo leio que saiu agora mais uma bio de Jack London. E penso...London foi marinheiro, mineiro, andarilho, aventureiro, viajante. De origem muito pobre, se auto-educou, leu tudo, muito romance e muita filosofia. Adorava Marx e Nietzsche. Esteve no Alasca, na Califórnia, nos mares do sul, tudo atrás de dinheiro e depois de experiência. E, vivendo apenas 40 anos, ainda escreveu vinte livros, mais teatro e contos. Bem, o que pergunto é; onde ele achou tanto tempo?
   Não há como negar; o mundo tecnológico nos encurtou o tempo. Amigos meus adiam a mais de dez anos a leitura dos "grandes livros". Não há tempo para ler ou para escrever. Trabalhamos muito e ao voltar para casa somos abduzidos pela internet, pela TV ou pelo fone. Nada contra, mas voce não vai guardar grandes lembrancas de noites na TV ou de viagens na internet. Eu sinto isso, são vivências pobres. Tempo sem peso, sem grande significado. Tempo roubado.
   Lemos com pressa, escrevemos sem estilo, sem ambicão.
  

Behind the Candelabra Trailer (Matt Damon - Michael Douglas )



leia e escreva já!

Elton John- Lucy in the Sky with Diamonds



leia e escreva já!

LIBERACE, FILME DE STEVEN SODERBERGH, ÉRAMOS BREGAS E AMÁVAMOS ISSO.

   Há um certo momento neste último filme de Soderbergh, em que Liberace diz: "As pessoas só percebem aquilo que desejam perceber". É uma frase que vale toda uma filosofia, e ao escutar essa fala percebo o porque de ter desprezado tanto a entrevista no Roda Viva com o tal filósofo estrela, ele falou apenas aquilo que os entrevistadores desejavam ouvir. Marxismo, pscicanálise e críticas fortes a tecnologia, ingredientes que agradarão todo jornalista "consciente" e todo estudante da PUC-USP. Well...devo dizer que este filme corre o risco de não agradar ninguém. Inclusive eu não consigo saber se gostei ou não. Os atores, todos, dão um show. Michael Douglas vira Liberace, esquecemos completamente que aquele é Michael Douglas. Matt Damon demonstra coragem e entrega ao papel muito dificil. E até mesmo Rob Lowe está fantástico como um tipo de Dr.Rey dos anos 70. O roteiro, de Richard Lagravenesse, nunca fica chato, ele anda e anda, e a fotografia, apesar da pobreza do digital, com suas faces sempre avermelhadas e a luz de TV, não incomoda. Mas ao mesmo tempo a gente pergunta: E daí? Porque fazer um filme sobre Liberace?
   Para quem tem menos de 40 anos Liberace é um desconhecido. Como explicar quem ele foi? Bem, o filme não fala de sua história. Ele foi muito, muito famoso. Era amado por toda aquela porção do mundo que amava Elvis Presley-Las Vegas ignorando suas drogas e pelos que ouviam Beatles por sua "doçura", ignorando os experimentos. O mundo conhecia Liberace, o mundo ria de Liberace, ninguém o levava a sério, só seus fãs, que eram milhões e milhões. Rei do hiper-brega, exagerado, velhinhas o amavam por ser um tipo de "filhinho ideal da mamãe", um doce de coco, um bom cristão, um homenzinho do bem. Era inacreditável, mas ninguém percebia sua homossexualidade. Não queriam ver. Não viam.
   Quando Elton John se embonecou e carnavalizou em 1974. era Liberace que ele ironizava. Só que Elton foi além, falou de sua bissexualidade abertamente, em 1976. E viu seus fãs diminuírem em mais de 70%. Gary Glitter também era um Liberace glam-rock, assim como Prince. Mas todos esses tinham algo que Liberace não tinha: Talento. Gênio.
    Liberace dava a seu público aquilo que André Rieu ou os Tenores dão hoje: A ilusão do bom gosto. É um público que não suporta ouvir Beethoven inteiro, mas se pensa "culto" por escutar um pout-pourri de trechos das sinfonias de Beethoven. Jamais ouvem AIDA, mas amam um medley de Verdi com Rossini. Liberace dava a eles essa ilusão, a ilusão do bom-gosto fácil, simples, luxuoso, superficial. O filme exibe o Liberace sexualmente insaciável, vaidoso, meloso e incapaz de auto-critica. Mas também solitário, bom e ingênuo. Douglas merece um Oscar.
    As cenas gays são fortes e isso, devo confessar, me chocou. Soderbergh o lança em boa hora, quando se afirmam os direitos gays. Cenas de cirurgias plásticas também me chocaram. Mas tudo bem, temos belas cenas de shows e um final que é lindo, e que não conto aqui.
    Debbie Reynolds faz a mãe de Liberace!!! Debbie é a estrela de CANTANDO NA CHUVA!!!! Deus meu!!! Adorável Debbie !!!! Explêndida Debbie !!!!!
    PS: QUASE FAMOSOS, DAZED AND CONFUSED, BOOGIE NIGHTS, OS REIS DE DOGTOWN...Quantos filmes fascinantes se passam nos anos 70 ! Suas roupas bregas, os carrões e a absoluta loucura de seu desbundes. Década que criou todo o céu e todo o lixo do mundo de agora. Disco e Heavy-Metal, Funk e Glitter, Rock Alemão e Pop farofa, Folk Amargo e Abba. ..Década onde tudo foi Grande, Exagerado, Ilimitado. Kiss e Queen, Bowie e Neil Young, Kraftwerk e Bee Gees.
     Eu amo filmes desse tempo, e me parece que aqueles que se lembram desse período jamais deixam de o reverenciar. São toneladas de filmes, todos os anos, sobre a época, das Panteras a Starsky e Hutch, The Runaways a Crazy; O Mundo de Andy; Velvet Goldmine,,,....

Vivien Leigh on Waterloo Bridge...Para crer no Amor....



leia e escreva já!

Killer Joe - Official Red Band Trailer



leia e escreva já!

HAMLET/ CROENENBERG/ VIVIEN LEIGH/ BUDD BOETTICHER/ KILLER JOE/ ROCK HUDSON

   KILLER JOE de William Friedkin com Mathew McConaughey, Emile Hirsch, Thomas Haden Church, Juno Temple e Gina Gershon
Maravilhoso prazer. Uma comédia hiper violenta ou um policial noir irônico? Hirsch quer matar a mãe e contrata o matador Mathew. Mas não tem como pagar e dá a irmã como prêmio. Amoral, macho e auto-gozador, este é um filme que começa ameaçando imitar Tarantino. Mas vai além. É o filme que Tarantino faria se fosse mais adulto. Mathew está excelente, assim como Gina e Haden Church. Friedkin estourou em 1971 com os Oscars de filme e direção para Operação França, o filme que inventou o moderno policial. Filme que é imitado até hoje. Depois Friedkin fez O Exorcista. Daí enlouqueceu de cocaina. Para homenagear O Salário do Medo, de Clouzot, gastou tanto na refilmagem que quase faliu a produtora. Desde então ele é um diretor de pequenos filmes invulgares. Freidkin aparece muito em entrevistas. Sua cara entrega seus problemas com Hollywood: É hiper-arrogante. Este filme tem a cena mais sexy que os EUA apresentam em anos. Ficou pouco tempo em cartaz, claro. Corra e veja. É muito bom. Nota DEZ.
   DURO DE MATAR 5 de John Moore com Bruce Willis
Acho que vi esse filme. Acho que vi porque as cenas de ação são tão editadas, tão desfocadas e tão tremidas, que voce pensa ter visto, mas nada viu. Na verdade o filme joga em sua cara um monte de flashs de explosões e pedaços de coisas. Boa maneira de NÂO se exibir a pobreza de cenários e a falsidade de atores em virtual. No futuro seremos todos cegos. E surdos. Só teremos sensibilidade para o muito alto e para imagens em movimento. Bruce está ausente, nada tem a fazer. O roteiro é banal. Pior Duro de Matar de longe. Nota ZERO.
   MÚSICA E LÁGRIMAS de George Sidney com Tyrone Power e Kim Novak
Datado, velho e cansado. Esse é o Cinemão dos anos 50, um tipo de cinema que morreu. Tudo é hiper-exagerado, limpo demais, lustroso. Conta a história do pianista Eddy Duchin, seu sucesso e suas tragédias. Foi um grande sucesso. Kim nunca foi tão linda e Tyrone é uma estrela. Mas é absolutamente nostálgico. Aconselho a que fujam. Nota 2.
   A PONTE DE WATERLOO de Mervyn LeRoy com Vivien Leigh e Robert Taylor
Clássico atemporal do cinema romântico. Quer saber o que é o tal Amor? Veja este filme. Num P/B cintilante, conta a história de soldado que se apaixona por bailarina. Mas a guerra os separa, ela passa necessidades e vira prostituta. O reencontro, anos depois, é maravilhosamente bem dirigido. O filme corta seu coração e apesar de tudo nunca parece apelativo. O final é digno do belo filme que é. Vivien, a Scarlet de ...E O Vento Levou, a então esposa de Olivier, está lindíssima. O rosto magnífico e a voz, talvez a mais bela voz do cinema. Compõe o personagem com delicadeza infinita. Filme imperdível. Nota DEZ!
   UM FIO DE ESPERANÇA de William Wellman com John Wayne, Robert Stack e Claire Trevor
Começa muito ruim. Uma forçada apresentação dos personagens no balcão do aeroporto. Esta filme inaugurou um novo gênero de cinema, o filme sobre acidentes. Aqui é um avião que perde o motor e tem de atravessar o Pacífico com seus passageiros. Wayne, contido, discreto, é o co-piloto. O crítico Leonard Maltin nos extras do dvd diz: Um novo público vai estranhar. A ênfase aqui vai para se contar a história e não para as sensações e os efeitos. Well, essa é a chave de todo o cinema clássico. Antes se contava uma história, hoje se corre atrás de uma sensação sensacional. Este filme depois se acerta, Wellman nos faz aceitar as várias histórias de cada passageiro. Um filme de sucesso em seu tempo que visto agora é ainda ok. Nota 6.
   SEMINOLE de Budd Boetticher com Rock Hudson, Anthony Quinn e Richard Carlson
E não é que funciona? Promete pouco, parece um western de rotina em que Hudson faz um oficial começando a servir na Flórida. Mas então a coisa pega quando entra em cena seu chefe, um major que odeia todos os índios. Vem então uma travessia pelos pântanos brilhante. Passamos a odiar o tal major. Odiar muito! Hudson defende os índios e é considerado traidor... Rock Hudson está ótimo. Se Vivien Leigh tem a melhor voz do cinema, talvez Hudson tivesse a melhor voz masculina. Boetticher nunca deixou de ser um diretor classe B. Hoje tem um grande fã-clube. Nota 7.
   ENCONTRANDO FORRESTER de Gus Van Sant com Sean Connery, Anna Paquin e F. Murray Abraham
Antigamente Sant ainda fazia alguns filmes mais normais. Conseguia contar histórias. Este filme, em que Connery é um escritor solitário, é dos seus mais simples. Ninguém é doente e Sant não tenta provar nada. Agradável, tem um Connery esbanjando autoridade. Carisma puro. Nota 5.
   A MOSCA de David Croenenberg com Jeff Goldblum e Geena Davis
Revejo este divertido filme da melhor fase de David. Não é tão bom quanto o original, de 1958, mas mantém algum suspense. Goldblum é um ponto fraco. Geena um ponto forte. David adora mostrar coisas nojentas. Pra quê? Nota 6.
   HAMLET de Kenneth Branagh com Kenneth Branagh, Julie Christie, Kate Winslet, Derek Jacobi, Charlton Heston, Gerard Depardieu, Jack Lemmon, Robin Willians, Billy Crystal, Richard Attenborough e John Gielgud.
Talvez seja o mais exuberante elenco já reunido. Mas está longe de ser um grande filme. Branagh, no auge da vaidade, fez o único dos inúmeros filmes sobre Hamlet, em que todo o texto está preservado. Ou seja, são 3 horas e meia de filme. A versão de Olivier é muito, muito, muito melhor. E mesmo o Hamlet de Zeffirelli em que Mel Gibson ousa fazer Shakespeare é melhor. Claro que é legal ver Julie como a mãe e Kate de Ofélia. Mas devo dizer, a vaidade de Kenneth cansa. Nota 5.