JUSTIÇA SEJA FEITA AO ISLÃ, PRIMEIRA IMPRESSÃO SOBRE A VIDA DE PI

   No originalíssimo livro de Yann Martel, A Vida de Pi, fala-se sobre 3 religiões: o hinduísmo, o catolicismo e o islamismo. Martel defende as três e assim conseguiu me fazer pensar coisas novas sobre esse tema.
   Primeiro o modo como um oriental vê o cristianismo. O que mais os surpreende, e que lhes é incompreensível, é como pode o filho de um Deus ter vindo a Terra como um fraco. Um filho de divindade deve ser poderoso, forte, imenso. Um Deus que é humilhado, incompreendido, e pasmem! Morto!!!! Um Deus que morre!!!! Isso é absurdo!
   Outro fato que eles estranham é a pressa que os cristãos têm. Deus fez o mundo em 7 dias!!!! Para o Oriente o mundo é obra de milhões de anos. E mais, a vida de um fiel é decidida em um segundo, um ato, um pensamento. Orientais têm infinitas encarnações para se refinar, um cristão tem poucos anos e um ato único. Para um oriental, o cristão vive na pressa e num eterno Agora. ( Ah, ele diz que cristãos possuem obsessão por Letras Maíusculas.... )
  Mas o que mais me surpreendeu é a beleza do islã.
  Confesso que é a religião que menos me interessa. Preconceito?
  Talvez Yann jogue uma luz sobre isso.
  Quando vemos imagens do Irã ou do Paquistão, o que vemos? Primeiro: Eles nunca estão sós. Andam em grupos, abraçados, conversando, rindo ou orando, sempre sem a solidão que nos aterra e nos seduz.
   Isso nos irrita. Estamos acostumados a pensar em individualismo como condição de brilho e inteligência. Afinal, até Jesus foi um incompreendido solitário.
   Segundo. Todos se parecem. E é isso. Eles Não Desejam ser diferente. Barbas e roupas brancas. Para serem todos iguais. Nomes próprios que se repetem ( Muhammad aos milhões ), a busca é pela não-individuação.
   Terceiro. A simplicidade. Nada de supérfluo. A verdade está no Alcorão e tudo deve ser simples e claro. Seja o pensamento, a arquitetura, a roupa.
   Se voce unir tudo isso, vida em grupo, anonimato e simplicidade, voce obterá tudo aquilo que nosso complicado e individualista mundo mais nega.
   Fosse só por isso, o livro de Martel já valeria muito.
   Mas o melhor, é divertido pacas!

GOTTFRIED KELLER E O ROMANTISMO A QUE ESTAMOS FADADOS

   Quanto mais o homem é amassado pelo anonimato, pelo medo ou pelo puro desespero, mais ele tende a reafirmar a presença de seu ego. É simples: se tudo grita a seu redor que voce é um nada, mais e mais voce vai berrar: Eu existo e eu sou Eu.
   Esmagaram toda a história e tudo o que era "homem" no século XVIII. De repente nada era mais o que era certo, tudo virara nada. Que reação poderia nascer a não ser a afirmação desesperada da única coisa que se mantinha " ao lado" ( aparentemente confiável e fiel ), o Ego. Pois veja então....
   Até então a paisagem onde uma criança nascia seria a mesma de sua velhice. E se ele nascia rico, morreria rico, se pobre seria pobre. Ele teria a profissão do pai ou de um tio e se casaria com uma vizinha ou uma prima. Seria batizado, casado e enterrado na mesma igreja. Teria a proteção do mesmo barão e lutaria uma guerra que seria certamente justa. O mundo era conhecido, imutável, confiável e principalmente vivido em grupo. Todos saberiam quem voce era: filho de seu pai.
  A indústria trouxe novos cenários. Fábricas, sujeira, fumaça e a derrubada de bosques. O progresso mudou a vila, o bairro. E seu futuro já não seria o de seu pai. Na fábrica voce não seria filho de ninguém. Voce seria mais um. Estradas, trens, bancos, desemprego, fuga do campo.
  Assustado, o homem precisa se reerguer. Nasce o romantismo. Se voce não é mais filho de seu pai, então será filho de sua nação, da história de seu país, de seu folclore. Seu Ego é seu mundo, e nesse mundo voce cria fantasias. O amor é livre, escolhe e luta, Deus agora é amor, o Amor manda. A vida não é mais algo dado a cada um, ela agora terá de ser conquistada. É imperativo viver e deixar sua marca no mundo.
   Penso que tudo isso sobrevive. Jamais voltaremos ao mundo pré-romantico. Onde nossa vida era do grupo. Assinamos tudo o que fazemos, lutamos para nos afirmar. Somos todos romanticos.
   Gottfried Keller era suiço. Leio duas novelas: O TRAJE FAZ O HOMEM trata de um alfaiate pobre, que por ser belo e bem vestido. vê-se confundido com um conde. A trama segue deliciosa, ele tenta resistir a mentira, mas vai mergulhando fundo e acaba, claro, por se apaixonar.
   A outra novela é ROMEU E JULIETA DO CAMPO, que traz um belo retrato dos camponeses de então. A infelicidade surge entre vizinhos que brigam e a vida de ambos se desfaz em dividas e rancor. Os filhos se apaixonam e fogem. Acabam por ter um destino trágico. No final dessa novela há toda a confirmação do ego romântico. Os dois se amam por uma noite e se deixam afogar, juntos, afirmando assim sua vontade de "eternidade". Se precisam ser conformados a vida familiar, preferem antes morrer.
   Nunca mais alguém se conformaria a ser e ter aquilo que seu pai foi e possuiu. Nunca mais viver seria apenas continuar a "doce rotina" da eternidade. A rotina doce fora corrompida, a inocência se perdera, e como bem sabemos, quando se deixa ir a inocência, nunca mais a reencontramos.
   Aldous Huxley afirma em seu livro " A FILOSOFIA PERENE" que a função sublime da religião é exatamente destruir esse ego, trazer ao ser a conciência de que ele é parte de um todo, de que nada ele pode possuir e que toda posse é dor. Incrível!!!! Com toda sua adoração por magos, bruxas, vampiros, celtas e druidas, os romanticos são dos menos religiosos dos seres. Percebem o mundo como um espelho e ansiam por um amor que é posse egoísta. Alimentam o eu, inflam, sentem pena de si-mesmos, se imaginam como seres hiper-sensiveis e especiais. Deixam de lado toda chance de paz e de serenidade.
   Se nosso mundo é uma ponte ao anonimato, somos todos pequenos romanticos com nossos blogs, nossas bandas de rock e nossos videos bombando. Em meio a bilhões de seres tentamos fazer nosso ego sobressair. Gritamos: Estou aqui ! Sou diferente! Existo!!!!Tenho opinião!
   Huxley e todos os seus santos, gurus e xamãs devem estar com piedade de nós.

J J CALE

JJ surgiu do nada e já meio velhaco. Nunca foi hippie. E penso que nem mesmo rocker. Sempre foi um tipo de cowboy. Todas as suas canções têm cheiro de estrada. TODAS. Mas é uma estrada diferente. Não é a rota 66. É o litoral da Florida, palmeiras e ritmos que às vezes são caribenhos. Mas é um cowboy. Sujo. E sua voz confirma isso. Canta rouco, não é nunca simpático. Não é nunca alegrinho. É sempre sério. E sem choro nem vela.
Nada de rockstar. Não pense em poeta-dylan-cohen-simon-young. Não. Nada disso. JJ é prosa. É Twain. Poe às vezes. Eu adoro JJ e quero ser um dia JJ. Lembro de ouvir JJ em 1985. Onde hoje tem uma praça tinha barracos e campos de futebol. E naquele tempo eu me dilacerava de amor e de desejo e de sexo e de coisas químicas. E JJ era um alivio, um bálsamo. Ele interrompia minha dor e minha doideira. Sem fazer de mim um cara frio ou angelical. Ele me fazia homem. Não tem som mais de homem que o de JJ.
JJ é anti frescura.

JJ Cale - devil in disguise - studio live



leia e escreva já!

TWELVE DREAMS OF DR. SARDONICUS- THE SPIRIT, ATEMPORAL

   Existem bandas que se negam a fazer parte de qualquer tipo de hype. E nem tomam para si a pose de "alternativas". Ficam num tipo de limbo, pois não são nem pop e nem "arte", não fazem parte de uma tendência e nem tentam ditar novidades.
  Veja o Spirit. Randy California, seu guitarrista, aos 15 anos já fazia jams com Jimi Hendrix e aos 17 já era o lider do Spirit. Mas mesmo com essa raiz, o som dele nunca é o de um guitar-hero. Nem psicodélico. E nem pop-anos-60. Na banda temos ainda seu padastro ( sim, step-father ), Ed Cassady. Um careca, na época já quarentão, e que tocara com Zoot Sims e Dexter Gordon. Ou seja, jazz. Mas o Spirit nunca lembra jazz. Então o que é a banda?
   Tenho cinco discos do grupo e são todos diferentes entre si. O primeiro é plácido, maconheiro; o segundo é mais técnico, frio, e bastante criativo. Este, que agora comento, é sua obra-prima, e vários experts e músicos jovens o adoram. Porque?
   A primeira coisa que se nota é sua atemporalidade. É um disco de 1970, mas poderia ser de 2012 ou de 1992. Principalmente de 92. Em vários momentos a sensação é a de estarmos diante de um disco grunge. Pearl Jam e Stone Temple Pilots. When I Touch You antecipa em 22 anos o som de Eddie Vedder. Mas o disco é mais que isso. Nature's Way, Animal Zoo, Mr.Skin... são várias as músicas que impressionam já de primeira. Variam entre introspecção e celebração, todas são pra cima.
   Entre os amigos de Randy, Neil Young era um dos maiores e na casa de Neil ( nas montanhas ), Randy começou a pensar no disco. O guitarrista de Neil o produziria. Há bastante de Young na sonoridade de algumas canções. Mas é um Neil Young menos angustiado, mais californiano, solar.
   O que causa espanto é o fato deste disco não ter sido um hiper-hit. Todas as faixas poderiam ter sido sucessos. Não foram. O Spirit acabou na vala das bandas cult ( o que não impediu a eleição de Ed Cassady como o segundo batera mais querido do mundo em 70, à frente de Ringo e de Ginger Baker ). Escutado hoje, Twelve Dreams respira como recém nascido.
  No efêmero mundo do rock, nada pode ser mais relevante que isso. O Spirit não é de ontem e nem de agora. É de sempre.

Spirit - I Got A Line on You



leia e escreva já!

A SINGULAR HISTÓRIA DE PETER SCHLEMIHL- ADELBERT VON CHAMISSO, AS DELÍCIAS DA CRIATIVIDADE E O MUNDO SOLTO E RACIONAL DO SÉCULO XVIII

   Belo tempo...tempo das narrativas onde a imaginação corria solta.
   O século XVIII é inalcansável por nós. O romantismo ainda não nascera, então nada de desejos de se confessar, de se expor o ego, de usar o papel como vomitório. Mais que isso. As nações da Europa ainda não se firmavam. Mais que alemão ou italiano, um homem era de Weimar, de Estrasburgo ou de Milão. Isso dava ao continente um aspecto de livre ir e vir. Todos os intelectuais e artistas se expressavam em lingua comum ( francês e latim ) e estudavam em várias culturas. Não havia endereço fixo, voce era súdito de uma ideia e da necessidade. Ora, nesse ir e vir, a criatividade fluia. Em plena adolescência, a razão, longe do cansaço de hoje, florescia em novas possibilidades. Ler os contos ou novelas da época é encontrar mentes em plena alegria criativa.
   Chamisso já faz a transição para a nossa época, a época romântica. ( Sim meu caro, somos ainda todos românticos com nossa obsessão pelo coração e a mente, nossa visão de que tudo é o EU, nosso culto a lideres e gurus, nossa hipervalorização do amor, do ódio; desejos de viagem, de aventura e de poder "viver"...Tudo isso é romantismo, criação de Goethe, Schiller, Keats, Wordsworth e Shelley...Beethoven e o endeusamento de Shakespeare... Napoleão e patriotismo...)....
   Weeellll....voltando: Chamisso, nobre, é cientista, poeta, romancista, viajante, pesquisador. Viaja o mundo, vai aos polos, ao Brasil, ao Pacifico. E vive essa transição. Ainda é um clássico, um nobre do século XVIII, pensa racionalmente, é livre de país e de confissões; mas amadurece no XIX, já tem o germe do exagero de sentimento. Em 1814 escreve esta noveleta. Um sucesso! Se lê muito nessa Europa. Não há cinema ou TV, o que existe é ópera e romance, e a mesa do jogo e do bordel. Do que trata? Em clima de sonho, um homem vende sua sombra ao diabo. Em troca de ouro infindável. Triste destino! Sem sua sombra ele deixa de ser aceito pelo mundo. Se torna um pária rico. Após várias peripécias, se isola como um tipo de estudioso da natureza.
   Várias teorias explicam a sombra. Seria um bom nome? A alma?  Saúde?  Fé?
   Diversão pura, escrito no estilo simples e direto da época, este é um conto ( novela? ) que sobrevive ao tempo, às modas. Encontrando ao fim da vida sua razão e seu alivio no estudo e na pesquisa, o conto acaba por espelhar a vida do próprio Chamisso e mais ainda, a vida de toda uma geração. Leia.
  

TERRENCE MALICK/ FORD/ O DITADOR/ HANYO/ MORGAN FREEMAN/ JOHN WAYNE

   A DIFICIL VINGANÇA de Terry Miles com Christian Slater e Donald Sutherland
Dificil este modesto western passar aqui. Continuam insistindo em fazer faroestes sem ter nenhum conhecimento sobre a mitologia do gênero. Os atores não têm tipos fisicos para o assunto e sua linguagem cheia de Fuck é toda de LA 2012 e não de Dakota 1885. Nota 1.
   NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS  de John Ford com John Wayne, Claire Trevor, Thomas Mitchell e John Carradine
O Homero da América ( Ford ) e seu filme Odisséia. Uma diligência cruza território hostil. Nela vão os personagens icônicos do país: o jogador, o comerciante, o banqueiro-ladrão, a prostituta, uma esposa fiel, o bêbado e o fora da lei. Wayne tem seu famoso close, uma apresentação à eternidade como jamais outro ator mereceu. É uma aventura, é suspense e é um filme-mito. O elenco explode em carisma e Ford filma como quem narra uma saga cantada. É o mais americano dos filmes. Minha professora de literatura diz que gênio é o homem que capta todo o insconsciente de uma país e o traduz em linguagem. É o homem que traduz e batiza uma nação que não se conhecia e não se reconhecia. No cinema é John Ford esse homem. Ele captou a América de 1776 até 1976. Depois de então o mundo de Ford permanece como sonho perdido de uma ideal de país que não mais existe no mundo sólido, mas que se faz eterno e mitológico no universo do desejo. Um filme que não é o melhor de Ford, mas que é insecapável. Nota DEZ.
   A MOCIDADE É ASSIM MESMO de Clarence Brown com Elizabeth Taylor, Mickey Rooney e Donald Crisp
Quem criou este mundo? Tudo aqui é um tipo de paraíso: as casas, as pessoas, até mesmo as dores parecem paradisíacas. Eis o mundo que o século XX, sofrido, desencantado, pobre em sonhos, tolo, sonhou. Como cada vez mais descreio de criações vindas do nada, deve ter havido um dia um mundo parecido com este. Onde e quando eu não sei. Com certeza não em 1948. Liz tinha quinze anos então, exagera um pouco no choro. O filme fala de um cavalo e do sonho de uma menina em vencer um derby. Rooney está ótimo como um ex-jockey. É do tempo em que animais eram filmados como animais e não como pseudo-humanos. Nota 7.
   CREPÚSCULO DAS ÁGUIAS de John Guillermin com George Peppard, James Mason e Ursula Andress
E não é que é bom? Uma surpresa! A história fala de um ex-soldado de infantaria, que na primeira guerra entra para a aviação alemã. Ora, em 1915 aviação era coisa de nobres, de esnobes. Ele não é aceito e passa todo o filme quebrando regras de cavalheiros, sendo ambicioso e afoito, tentando se vingar do despeito com que é tratado. As cenas nos céus, com aviões de época, são maravilhosas. Nuvens, tiros, piruetas, quedas. Chegam a hipnotizar. Uma diversão correta, com belo estudo de um "herói" ruim, egoista e destrutivo. A fotografia de Douglas Slocombe é de arrasar. O diretor prometia bela carreira, mas se perdeu em filmes tolos. Este é ótimo. Nota 7.
   HANYO de Ki-Young Kim
É considerado um clássico do cinema coreano. Um casal contrata uma empregada. Ela seduz o patrão e a vida de todos vira um pesadelo. Um dos filmes mais desagradáveis que vi. Todos são cruéis, brutos, estúpidos. Pequenas violências se acumulam. O filme não é bom. Mal filmado e com atores muito ruins. Mas tem originalidade e em seu país é o equivalente ao que para nós é Glauber Rocha, fundador de novo caminho. Nota 4.
   UM VERÃO MÁGICO de Rob Reiner com Morgan Freeman e Virginia Madsen
Um escritor alcoólatra vai passar um verão na praia. Lá conhece familia de divorciada. Se aproxima das crianças e tudo acaba bem. Reiner teve seu momento ( Harry e Sally ), esse momento passou. Lançado este ano, duvido que passe por aqui, deve ir direto para dvd. Tudo é previsivel, todos se tornam bons com facilidade, tudo se resolve. Mas sei lá, às vezes a gente precisa desses filmes do bem. Relaxa ficar vendo essa gente legal vivendo de um modo legal e tendo um destino legal. Sei lá, de repente a vida é mais isto que um cara se entupindo de drogas e comendo mulheres modernetes na noite. Bem, pelo menos o meu mundo está, felizmente, mais perto disto. Nota 5.
   THE THIN RED LINE de Terrence Malick com Jim Caviezel, Sean Penn e John Cusak
Um amigo me fala que este é um dos filmes recentes do cinema que Pondé mais gosta. Então o revejo. Tinha a lembrança de ser um filme chato. Ele é. De ser apelativamente cruel, e é. Mas agora percebo algo que antes não percebera. Malick é um cristão no sentido medieval e "puro" do termo. O mundo é um horror, os homens se matam, se comem, e em nada mais conseguem crer, Acreditam apenas na força e na dor. Então vivem uma realidade de força e de dor. Um mundo de gemidos, sangue, tiros e solidão extrema. Mas, para quem ainda quer ver, existe a folha que balança, um raio de sol na água, bichos olhando distanciados, praias e crianças. Caviezel ainda pode ver. O mundo dele é o mundo do espirito. Ele não se deixa engolir, não se deixa perder. Para Malick, o que podemos fazer é conquistar nossa alma, ela é nossa potencialmente, cabe a cada um a merecer. Caviezel a possui. Penn talvez um dia a obtenha. O comandante feito pot Nick Nolte é a carne absoluta. Todos os filmes de Malick repetem esse mesmo tom. Este, talvez o mais crú, é o mais dificil. Com certeza foi por este papel que Caviezel se tornou o Jesus de Gibson. Nota 8.
   O DITADOR de Larry Charles com Sacha Coen
Não é cinema. É um programa de Tv. Engraçado? Poucas vezes. Tem a fluência atravancada de Austin Powers. Mas Powers era mais engraçado. Humor rasteiro, de amigos bêbados, fácil de fazer. Basta atirar pra todo lado e pensar que o público é idiota. Tão ruim quanto Borat, ele faz humor sem alegria, risos sem celebração. É o humor pesado, o anti-humor segundo Comte-Sponville. Nota 2.

O MAIS HORRENDO LIVRO JÁ ESCRITO: SOB O SOL DE SATÃ- GEORGES BERNANOS

   Mouchette é uma menina de 16 anos. Grávida, ela pressiona seu velho amante a assumir o filho. Mata-o. Acaba por abortar. Dentro dela vive um demônio.
   Um ignorante, bruto, ríspido camponês é um santo. Ele sofre sem parar. Tem dúvidas, o medo lhe corrói a alma. Não dorme, vive em pesadelos. Num estrada encontra o diabo, que é um homem que deseja lhe ajudar. Depois encontra Mouchette, que o desafia, e a qual ele vence. O padre-camponês-santo não sente força, sente piedade. E essa piedade destrói Mouchette que se mata.
   Passa o tempo e ele é reconhecido como santo. Mas continua em agonia. O mundo é dor, é medo, é desejo que não tem fim. Ele quer morrer. Deus está na morte, está na distância. Satã vive no coração de todo homem...
   Foi Pondé quem me chamou a atenção para este livro. A mensagem é clara: Deus está perdendo a guerra, o mundo é do mal. Esse é o catolicismo puro, duro, dificil, triste. O livro, lançado em 1926, surpreendente sucesso na época, é o mais cansativo, deprimente, árduo que já li. Kierkegaard perto dele é diversão. As mais duras conclusões de Heidegger ou Freud são alegres piadas de criança. Bernanos vai ao âmago, vai ao inferno. Santo é aquele que vê o mal, que sente o mal, que agoniza a todo segundo.
  Georges Bernanos se dizia um não escritor. Dizia não escrever, antes, desabafar. Escrevia em trens e cafés, pois assim podia erguer a vista do papel e ver gente, escapar do transe de seu texto. Páginas que parecem escritas com sangue, com desespero, com faca.
   Maurice Pialat filmou este livro em 1983. Bresson filmou 3 livros de Bernanos. O catolicismo francês sempre foi o mais seco, sofrido e conservador. A vida deve ser pobre, deve ser o extremo da simplicidade. Todo excesso, todo riso, todo conforto é obra de Satã.
   Ler Bernanos é sufocar, se afogar, morrer para a vida, negar o mundo, odiar o sol, submergir no horror. Após este volume estou pronto para ler qualquer coisa. Nada pode ser mais terrível. Se ele estiver certo, tudo o que vemos, sentimos e pensamos é engano, mentira e jogo da maldade pura.
   Que Deus tenha fé em nós é questão respondida. Perdemos tudo.

O DISCO FAVORITO DE MACCARTNEY: PET SOUNDS, A OBRA TRÁGICA DOS BEACH BOYS

   Quando Paul lançou RAM, um de seus melhores discos, em 1970, muita gente se surpreendeu com a foto de capa: Paul e um carneiro. Não ficariam tão surpresos se soubessem que PET SOUNDS era seu disco favorito. Além do que, Paul sempre falara que God Only Knows era a mais bela canção de amor já feita. Pena que a paranóia de Brian Wilson tenha destruído sua carreira. Ele via Paul como um rival e apenas como um rival. O engraçado é que os dois eram "almas gêmeas", os dois gênios em melodia, em arranjos, em conseguir fazer do pop algo de sinfônico, de usar tudo o que um estudio oferece para aumentar o som. Os dois são também igualmente assexuados, apoliticos e donos de uma certa infantilidade ingênua, dado que os enriquece e não limita. Os dois viveram em mundo à parte, mundo feérico em que Paul jamais perdeu a chave de retorno e no qual Brian perdeu não só a chave como a consciência de lá estar. Falei que são gêmeos? Engraçado...ambos são do signo dos irmãos atados, gêmeos ( Dylan também é, o gêmeo amargo e mal-humorado ). Filhos de Maio/Junho, como são Morrissey, João Gilberto, Prince, Yeats, Lorca, Whitman e Pessoa....Mas este não é um texto astrológico!
   Phil Spector inventou o estúdio como instrumento. Em suas luxuriantes produções feitas em 1962, 63, 64... ele usava uma instrumentação absurda, wagneriana: trompas, timpanos, flautas, harpas, orgão, saxes, violinos, xilofones, acordeon, tubas....tudo para fazer musica pop e tudo soando como uma coisa coesa, única, ritmada e sutil. É desse produtor que Brian Wilson aprendeu tudo, o single Good Vibrations é o apogeu de seu talento e o lp Pet Sounds é a sinfonia de Brian.
   Não é rock. Os Beach Boys sempre tiveram dificuldade com esse rótulo. Desde Surfin USA, o que eles faziam era Pop. Burt Bacharach, Gershwin e as pop songs das bandas vocais negras dos anos 50 foram suas influências. I Only Have Eyes For You tem tudo aquilo que Brian faria. Brian, lider e cérebro do grupo, não se encaixa no rock porque nada nele remete a raiva, ao sexo ou a ação adolescente. É música polida, educada, de bom-tom, o que ele procura nunca é o dissonante, ele procura ( e encontra ) a beleza, a pura beleza. Mas, que surpresa, a gente percebe uma fissura nessa beleza, uma nota de angústia. Brian quer crer no sonho teen da Califórnia solar, mas topa em cada manhã com a névoa fria de San Francisco.
   A música de Pet Sonds é TomJobiniana. Brian, como Paul, não consegue ser "feio". Naturalmente ele harmoniza. Combina os sons, enriquece, aumenta, suaviza, arredonda. Ele usa montes de instrumentos, dúzias de timbres e o que poderia soar como uma tempestade, tem sempre o som de uma cantiga, de uma canção de ninar. A bateria não é usada para dar ritmo, ela pontua as emoções da música, o baixo não estilinga, ele embeleza a harmonia, a guitarra não sola ou cria riffs, ela comenta. Há uma canção, minha favorita, I Know There's An Answer, em que ele mistura banjo e sax. São dois instrumentos impossíveis de misturar. Mas Brian os casa a perfeição. O banjo não soa como banjo e o sax não se parece com um sax. Como ele faz isso?
   Se o pop-rock teve gênios, Brian Wilson é um gênio. Ele criou um estilo só dele, voce percebe que aquilo é de Brian só de escutar dois acordes. E levou esse estilo ao limite da criação. Após Pet Sounds só podia lhe restar o silêncio. Aturdido pelas vozes e melodias que ele não conseguia transformar em partitura, Brian se fechou para o mundo e passou a ser a nota dissonante do pop, em uma vida que jamais produziu dissonância.
  Pet Sounds é trágico.

O FIM DOS BEATLES É O COMEÇO DO LZ.

   Quando em 1975 meu irmão e eu escutamos pela primeira vez o Led Zeppelin II, pensamos que ele tivesse sido gravado em 1975. Era uma reedição, e no selo do vinil vinha gravado o ano:1975. Quando descobrimos que na verdade era um disco do pré-histórico ano de 1969 ficamos abismados. ( Eu e ele ainda éramos crianças em 75. 1969 parecia a idade-média ).
   Já tinhamso na época discos dos Beatles, Roberto Carlos, Pink Floyd e Monkees. 1969 era para nós sons como Come Together ou ABC com os Jackson Five. Guitarras de 69 deveriam ter o som de John Fogerty no Creedence ou de Jimi Hendrix em Hey Joe. Mas o som do Led em 1969 parecia antecipar o gigantismo de 1975. Ao lado dos hits de 69, coisas ótimas mas datadas como Sugar, Sugar ou Crimson and Clover; a banda de Plant, Page, Jones e Bonham parecia ter muito mais em comum com os tempos de Queen, Aerosmith e Kiss. Bem, na verdade eles pariram a década de 70. E o hard-rock dos 80, infelizmente, também. E ainda o dos 90, 2000, 2010 e um etc sem mais fim.
   Há uma bela teoria que diz que os Beatles terminaram não por brigas de Paul e John ou apuros na Apple. Na verdade eles perceberam, genialmente, que a onda era outra e que aos 27, 28 anos, eles começavam a ser chamados de vovôs. Sly Stone, King Crimson, James Brown, MC5, faziam com que os 4 de Liverpool parecessem antigos como Elvis. E as vendas caíam sem parar. Os Jackson Five, o Blood Sweat and Tears e principalmente os Creedence Clearwater vendiam mais. Assim como Pelé, eles souberam quando encerrar o sonho.
   Se antes a bateria de Ringo podia ser comparada a de Charlie Watts ou de Keith Moon ( a mesma sonoridade, o mesmo timbre ), se os solos de George ainda tinham tudo a ver com a escola Chuck Berry de Keith Richards ou Dave Davies, agora, com o Led, tudo isso parecia muito velho. A`^enfase das bandas dos 60 era criatividade e beleza, agora o parâmetro era potência e técnica.
   Assistir essa apresentação dos Led em 1969 é ver o futuro em ação. Apesar do choque que é ver Plant ainda belo e com excelente voz, ou Bonham ainda com a energia pré-alcoolismo, o choque verdadeiro é perceber que de Jack White a Red Hot Chili Peppers, passando por Jeff Buckley e Stone Temple Pilots, toda banda com alguma virilidade dos últimos 40 anos bebeu na fonte Zeppeliniana. ( Excessão, óbvia, ao punk, a antítese da tese ledzeppeliniana. Para o punk, o rock cessa em Yardbirds e Kinks ).

LED ZEPPELIN LIVE 1969 Part 1



leia e escreva já!

AS QUESTÕES QUE VALEM A PENA

   Intuições que me acompanham desde sempre:
   - O rosto que vejo no espelho não é o mesmo que voce vê em mim. Eu vejo aquilo que entendo ser eu.
   - Se eu relaxar completamente e deixar minha cabeça fluir livremente, tudo aquilo que está a meu redor irá se dissipar. As coisas e as pessoas se mostrarão como são na realidade: inefáveis.
   - Há no céu um monte de coisas tão absolutamente grandes que não conseguimos ver. Assim como existem galáxias na unha do meu dedo, o que é inimaginávelmente grande torna-se invisível.
   - Só conhecemos aquilo que estamos preparados para conhecer. Toda a arte nos prepara para conhecer a próxima casca da cebola.
   - Assim como "alto" e "baixo", "profundo" e "superficial", "direita" e "esquerda" fazem parte do mesmo plano, e esse plano nos é conhecido como real e opcional, o quarto plano, o temporal, formado por antes, durante e depois, também existe como realidade total. Ou o passado/presente/futuro existe concomitantemente, ou o tempo é uma irrealidade.
   - Tudo o que imaginamos existe. Existiu. Ou existirá.
   - Temos duas opções: ou a matéria criou a vida, ou a vida fez nascer o que é material.
   - Cada célula do meu ser é uma cópia exata do cosmos inteiro.
   - O que existe dentro de mim é real. O exterior é uma suposição.
   - A vida ativa é apenas passatempo.
   - Não faz sentido falar em grande e pequeno, real e irreal, passado e futuro.
   - O que existiu uma vez existe para sempre.
   - Transcendencia é o objetivo da vida.
   - Existem pessoas cegas que crêem na escuridão.
   - Nada surge do nada.
   - Escrevemos nossa vida. Mas somos analfabetos.
   - O homem do futuro é Platão. A caverna é filosofia. Tudo o que veio depois é comentário.
   - Eu não faço a menor ideia do que seja eu. A maior questão é: Como fluidos e carne criam pensamentos?
   Passei a vida achando que todas essas questões fossem loucura.
   Depois pensei que fossem filosofia.
   Poesia.
   E descubro que são física.
   Toda grande ciência é arte. Toda grande arte é filosofia.
   Desde sempre, 1974, 1980.... essas são as questões que me deixam fascinado.
   E descubro que essas são as grandes questões de hoje.
   Viver é perguntar o que não tem resposta.
    - Quando o homem acreditava em bruxas, elas existiam. Quando estávamos certos de haver anjos, víamos. Um dia deixaremos de ver o que hoje vemos.
    - O que me inquieta inquieta voce.
    - Para nosso cérebro, sólido ou imaginário tem o mesmo efeito.
    - A vida é o que pensamos. Pensar pouco é viver menos. Sentir pouco é viver sovinamente.
     Quer viver? Vá onde nunca foi. Leia o que jamais pensou em ler. Veja filmes completamente diferentes de seu costume. Divirta-se com aquilo que voce nunca imaginou. Aumente sua criatividade, expanda seu mundo, indague o que parece não fazer sentido.
     O que faz sentido?

OS 100 MELHORES FILMES FRANCESES E MINHA LISTA DE INGLESES

   Lista dos 100 melhores filmes franceses da revista Time Out-Paris. É muito parecida com a da Le Figaro. E considero-a muito fraca. Se voce quer conhecer cinema, não use-a como guia. Somente a lista de filmes ingleses consegue ser pior. Eis a lista:
1-A REGRA DO JOGO, RENOIR
2-A MÃE E A PUTA, JEAN EUSTACHE
3-LES ENFANTS DU PARADIS, MARCEL CARNÉ
4-PIERROT LE FOU, GODARD
5-OLHOS SEM ROSTO, FRANJU
6-PLAYTIME, JACQUES TATI
7-O DESPREZO,GODARD
8-L'ATALANTE,JEAN VIGO
9-OS INCOMPREENDIDOS,TRUFFAUT
10-A BELA E A FERA,JEAN COCTEAU
Que mais? O Salário do Medo de Clouzot é o 14; Meu Tio de Tati é o 16. Au Hazar Balthasar de Bresson em 18; Marienbad de Resnais é o 23. A bela da Tarde, Bunuel em 28; Acossado em 34; Mouchette de Bresson em 41; O Sol Por Testemunha de Clement em 46 e Joana D'Arc de Dreyer em 50.
O Clair melhor colocado é A Beleza do Diabo, em 66. Hulot de Tati em 94 e A Um Passo da Liberdade de Becker está em 97. Bem....
O que penso?
Sim, são bons filmes, mas tem um monte de coisas que não concordo, claro. Dos dez primeiros mantenho entre eles o filme de Marcel Carné, talvez o maior filme já feito em França. L"Atalante de Jean Vigo pode ser meu filme francês favorito de sempre. E A Bela e a Fera de Cocteau é uma obra-prima. Mas eu colocaria entre os dez Desejos Proibidos de Ophuls, que não se encontra nem entre os 100. Incluiria Bob, Le Flambeur de Melville e A Um Passo da Liberdade, de Jacques Becker. Os outros quatro seriam O Salário do Medo, de Clouzot; O Sol Por Testemunha de René Clement; Hulot de Tati e Joana D'Arc de Dreyer. Não coloco-os por ordem. O primeiro seria de Vigo, os outros em ordem alfabética.
Acho que o melhor Godard não é Pierrot ( que é uma obra-prima). Prefiro Uma Mulher é Uma Mulher ou Viver a Vida. Meus dois Truffaut favoritos não foram citados entre os 100: Beijos Proibidos e No Tempo da Inocência. Esqueceram também Todas as Manhãs do Mundo de Alain Corneau.  Louis Malle e René Clair foram ridiculamente sub-avaliados. Malle merecia mais de 3 filmes entre os 100, teve apenas um; e Clair teria mais de 3 facilmente, colocaram só um e dos menos geniais.
De qualquer modo, a lista do cinema inglês é ainda pior ( leia-a num post abaixo ).
Tomo coragem e digo que em minha lista de 10 deveriam constar:
O Mensageiro de Losey; O Leão No Inverno de Harvey; Beckett de Glenville; Hamlet de Olivier; Os Inocentes de Clayton; Laranja Mecânica de Kubrick; e concordo com as inclusões de The Red Shoes de Powell e Narciso Negro, também de Powell. Os outros dois seriam Os 39 Degraus de Hitchcock e Neste Mundo e No Outro, também de Powell.
Tenho absoluta certeza de que aquele que desejar se alfabetizar em cinema inglês ficará muito mais feliz com esta lista do que com a decepcionante lista da Time Out-Londres.
Enjoy.