AS QUESTÕES QUE VALEM A PENA

   Intuições que me acompanham desde sempre:
   - O rosto que vejo no espelho não é o mesmo que voce vê em mim. Eu vejo aquilo que entendo ser eu.
   - Se eu relaxar completamente e deixar minha cabeça fluir livremente, tudo aquilo que está a meu redor irá se dissipar. As coisas e as pessoas se mostrarão como são na realidade: inefáveis.
   - Há no céu um monte de coisas tão absolutamente grandes que não conseguimos ver. Assim como existem galáxias na unha do meu dedo, o que é inimaginávelmente grande torna-se invisível.
   - Só conhecemos aquilo que estamos preparados para conhecer. Toda a arte nos prepara para conhecer a próxima casca da cebola.
   - Assim como "alto" e "baixo", "profundo" e "superficial", "direita" e "esquerda" fazem parte do mesmo plano, e esse plano nos é conhecido como real e opcional, o quarto plano, o temporal, formado por antes, durante e depois, também existe como realidade total. Ou o passado/presente/futuro existe concomitantemente, ou o tempo é uma irrealidade.
   - Tudo o que imaginamos existe. Existiu. Ou existirá.
   - Temos duas opções: ou a matéria criou a vida, ou a vida fez nascer o que é material.
   - Cada célula do meu ser é uma cópia exata do cosmos inteiro.
   - O que existe dentro de mim é real. O exterior é uma suposição.
   - A vida ativa é apenas passatempo.
   - Não faz sentido falar em grande e pequeno, real e irreal, passado e futuro.
   - O que existiu uma vez existe para sempre.
   - Transcendencia é o objetivo da vida.
   - Existem pessoas cegas que crêem na escuridão.
   - Nada surge do nada.
   - Escrevemos nossa vida. Mas somos analfabetos.
   - O homem do futuro é Platão. A caverna é filosofia. Tudo o que veio depois é comentário.
   - Eu não faço a menor ideia do que seja eu. A maior questão é: Como fluidos e carne criam pensamentos?
   Passei a vida achando que todas essas questões fossem loucura.
   Depois pensei que fossem filosofia.
   Poesia.
   E descubro que são física.
   Toda grande ciência é arte. Toda grande arte é filosofia.
   Desde sempre, 1974, 1980.... essas são as questões que me deixam fascinado.
   E descubro que essas são as grandes questões de hoje.
   Viver é perguntar o que não tem resposta.
    - Quando o homem acreditava em bruxas, elas existiam. Quando estávamos certos de haver anjos, víamos. Um dia deixaremos de ver o que hoje vemos.
    - O que me inquieta inquieta voce.
    - Para nosso cérebro, sólido ou imaginário tem o mesmo efeito.
    - A vida é o que pensamos. Pensar pouco é viver menos. Sentir pouco é viver sovinamente.
     Quer viver? Vá onde nunca foi. Leia o que jamais pensou em ler. Veja filmes completamente diferentes de seu costume. Divirta-se com aquilo que voce nunca imaginou. Aumente sua criatividade, expanda seu mundo, indague o que parece não fazer sentido.
     O que faz sentido?

OS 100 MELHORES FILMES FRANCESES E MINHA LISTA DE INGLESES

   Lista dos 100 melhores filmes franceses da revista Time Out-Paris. É muito parecida com a da Le Figaro. E considero-a muito fraca. Se voce quer conhecer cinema, não use-a como guia. Somente a lista de filmes ingleses consegue ser pior. Eis a lista:
1-A REGRA DO JOGO, RENOIR
2-A MÃE E A PUTA, JEAN EUSTACHE
3-LES ENFANTS DU PARADIS, MARCEL CARNÉ
4-PIERROT LE FOU, GODARD
5-OLHOS SEM ROSTO, FRANJU
6-PLAYTIME, JACQUES TATI
7-O DESPREZO,GODARD
8-L'ATALANTE,JEAN VIGO
9-OS INCOMPREENDIDOS,TRUFFAUT
10-A BELA E A FERA,JEAN COCTEAU
Que mais? O Salário do Medo de Clouzot é o 14; Meu Tio de Tati é o 16. Au Hazar Balthasar de Bresson em 18; Marienbad de Resnais é o 23. A bela da Tarde, Bunuel em 28; Acossado em 34; Mouchette de Bresson em 41; O Sol Por Testemunha de Clement em 46 e Joana D'Arc de Dreyer em 50.
O Clair melhor colocado é A Beleza do Diabo, em 66. Hulot de Tati em 94 e A Um Passo da Liberdade de Becker está em 97. Bem....
O que penso?
Sim, são bons filmes, mas tem um monte de coisas que não concordo, claro. Dos dez primeiros mantenho entre eles o filme de Marcel Carné, talvez o maior filme já feito em França. L"Atalante de Jean Vigo pode ser meu filme francês favorito de sempre. E A Bela e a Fera de Cocteau é uma obra-prima. Mas eu colocaria entre os dez Desejos Proibidos de Ophuls, que não se encontra nem entre os 100. Incluiria Bob, Le Flambeur de Melville e A Um Passo da Liberdade, de Jacques Becker. Os outros quatro seriam O Salário do Medo, de Clouzot; O Sol Por Testemunha de René Clement; Hulot de Tati e Joana D'Arc de Dreyer. Não coloco-os por ordem. O primeiro seria de Vigo, os outros em ordem alfabética.
Acho que o melhor Godard não é Pierrot ( que é uma obra-prima). Prefiro Uma Mulher é Uma Mulher ou Viver a Vida. Meus dois Truffaut favoritos não foram citados entre os 100: Beijos Proibidos e No Tempo da Inocência. Esqueceram também Todas as Manhãs do Mundo de Alain Corneau.  Louis Malle e René Clair foram ridiculamente sub-avaliados. Malle merecia mais de 3 filmes entre os 100, teve apenas um; e Clair teria mais de 3 facilmente, colocaram só um e dos menos geniais.
De qualquer modo, a lista do cinema inglês é ainda pior ( leia-a num post abaixo ).
Tomo coragem e digo que em minha lista de 10 deveriam constar:
O Mensageiro de Losey; O Leão No Inverno de Harvey; Beckett de Glenville; Hamlet de Olivier; Os Inocentes de Clayton; Laranja Mecânica de Kubrick; e concordo com as inclusões de The Red Shoes de Powell e Narciso Negro, também de Powell. Os outros dois seriam Os 39 Degraus de Hitchcock e Neste Mundo e No Outro, também de Powell.
Tenho absoluta certeza de que aquele que desejar se alfabetizar em cinema inglês ficará muito mais feliz com esta lista do que com a decepcionante lista da Time Out-Londres.
Enjoy.

A GUERRA IGNORADA

   O que me motiva a escrever isto é um texto de um senhor francês, professor na Sorbonne, texto de ontem na Folha. Falando de modo resumido, ele discorre sobre o islã. Fala dos imigrantes que vivem na Suécia, onde 75% dos estupros são praticados por eles. Pois eles não podem resistir às "Putas suecas", as tentadoras vagabundas que andam na rua sem cobrir o rosto. Vagabundas, bem entendido, que são todas as mulheres tipicas do ocidente. Mas há coisa pior. Existem tribunais por toda a Europa, ilegais, onde mulheres são julgadas de acordo com a religião. Ou seja, eles desconhecem a lei do país que os acolhe.
  O professor, como eu, diz que felizmente ele estará morto no dia em que a Europa se tornar um continente islâmico. Fato certo e previsivel.
  Existe hoje um tipo de policia do mundo. Uma força vigilante que não reconhece fronteiras ou modos diferentes de pensar. Uma policia que mata aquele que ousa criticar sua fé. Um povo para quem democracia ou iluminismo nada significam. E esse povo não para de crescer. E nós, ocidentais, passivos por sermos desprovidos de crença, assistimos a tudo com caras de ovelhas.
  Sentiremos saudades do ocidente. De poder ridicularizar católicos ou protestantes sem pagar com a vida por isso. De poder atacar Israel sem ser colocado em lista de procurados ( Rushdie ).
  Fico pensando nessas meninas pró-Iran, em como viveriam nesse mundo new-islan. Pena de morte se usar qualquer droga, proibição do álcool, apedrejamento por infidelidade ao seu senhor. O anti-americanismo irracional faz de todos suicidas ideológicos.
  Sim, a América banca Israel com uma bela mesada. Mas até hoje não vejo um só sheik do petróleo bancar a Palestina. Investir naquele país. Porque será? Não se enganem, para os Árabes a Palestina é apenas um pretexto. O dia em que Israel desparecer ( isso é previsível ), os palestinos se tornarão os párias da região ( o que sempre foram ).
  Cerca de quatro anos atrás tive um primo esfaqueado e morto em Paris. Infelizmente sou obrigado a dizer que a coisa foi muito óbvia. Ele namorava com sua garota na rua e um bando de árabes mexeu com ela. Ele respondeu e foi morto. A policia nada fez. Tiveram medo de causar tumultos raciais. Eles estão livres em sua lei "sagrada", que nega a lei que seja "ateísta". Detalhe: ele era filho de imigrantes. Portugueses.
   Perigoso escrever o que escrevo. Parece racismo. Mas de onde vem o fanatismo?
   Admiro Rumi, a religião dos sufis. O hinduismo. O budismo. Mas não venha me falar de guerra santa.
   Fico pensando em qual seria a reação dos pró-Iran se um católico francês explodisse uma mesquita no Paquistão porque um indiano falou mal de Jesus. Ou um budista condenar a morte um escritor que escreveu sobre Buda de forma desrespeitosa.
   Estamos em época de tentar adivinhar o futuro. Será um paráiso de vida longa ou um inferno de tédio tecnológico? Esquecemos do mais importante: será o reino do absolutismo. Historiadores do futuro dirão que esta época assistiu ao confronto do ocidente e do oriente. Confronto que se anunciou desde sempre. O vencedor já foi definido. Sentiremos saudades de nós mesmos.

PERSUASÃO- JANE AUSTEN

   Dear Jane
   Eu me envolvi tanto com seus outros livros! Puxa, como torci por suas heroínas e por seus atrapalhados cavalheiros! Me vi dentro daquelas casa de campo e senti o gosto do que eles viviam. Voce tem o dom de dar vida a seus personagens, eles realmente se parecem com gente normal. Melhor ainda, voce sabe ser atemporal. O jogo de interesses e de mal entendidos nos toca fundo. Aprendi a amar seus livros.
   Mas o que aconteceu com este? Sim, eu sei que voce o escreveu já doente e isso talvez tenha te atrapalhado. Anne Elliot jamais nos conquista. Cheguei a me sentir irritado com tanta passividade. O que aconteceu?
   Sim, reconheço aqui seu encantador mundo pequeno, o mundo que voce conheceu. Me conquista algo que poderia ser fraqueza em outro autor: sua falta de imaginação. Tudo o que acaba por acontecer é óbvio, normal. Seus livros são homenagens a vida comum. Nada de vôos de idealismo. O cotidiano sempre. Voce consegue mostrar o que existe de bonito nesse mundo tão banal.
   Só que aqui esse cotidiano é cotidiano demais! Voce esqueceu de dar vida a Anne e a todos os outros. E Bath não ficou parecendo um lugar à Jane Austen. Pena....
   Despeço-me agora e saiba que nossas relações continuam calorosas como sempre.
   De seu amigo
   Anthony Roxy

OS INGLESES, OS FRANCOS, DARNTON, TV E JANE AUSTEN

    O excelente Joe Wright lança em Londres, agora, Anna Karenina. Keira Knightley faz Anna. Pelas criticas que leio, o filme é lindo. Mas nada tem a ver com Tolstoi. O melhor diretor jovem da Inglaterra filmou a obra-prima de Tolstoi após filmar Desejo e Reparação e Orgulho e Preconceito. Voce já vai entender o porque de eu ter escrito isso.
   A Tv às vezes surpreende. Robert Darnton foi entrevistado ontem no Roda Viva. Ele é o melhor historiador do mundo. E agora está digitalizando a biblioteca de Harvard. Fala uma coisa preocupante. Arquivos digitais podem desaparecer. Nada prova que eles vivam mais que um livro impresso. Temos livros de mais de 500 anos. Um livro digital pode sumir no ciberespaço. Um website dura em média 40 dias...
   Darnton é bem humorado, sabe falar e diz, brincando, que vive no ´seculo XVIII. Seus livros sobre o iluminismo são obrigatórios. Não pense que ele condena a internet. Ele é fascinado pelo assunto. Mas avisa: a época do autor como gênio, do homem que cria e sabe tudo está encerrada. Cada vez mais o homem será um ser grupal. Toda obra intelectual será um trabalho em equipe. Seja filosofia, romance ou cinema.
   Logo depois a Cultura passou um doc sobre Merce Cunningham. Trechos de uma obra com música eletrônica e cenário de Andy Warhol. Fascinante.
   Conheço um novo colega. Fez filosofia em Londres. Locke, Hume, Berkeley, Adam Smith.
   Ingleses são diferentes de franceses. Como cerveja e vinho.
   Franceses amam a comida. Ingleses vêm na comida um mal necessário. Preferem o jogo.
   Todo sonho de um francês remete a Paris. Ingleses sonham com casas no campo. Lareiras, xícaras de porcelana e sofás macios e imensos.
   Em maio de 68 franceses foram às ruas gritar por marxismo e liberdade sexual.
   Em maio de 68 ingleses estavam em casa estudando exoterismo, poesia medieval e tomando chás de ervas suspeitas. O protesto era em casa, na cama ou num comicio organizado. Em Paris faziam barricadas.
   Os franceses criam teses, planejam a vida, tecem utopias. E os homens devem se adaptar a elas.
   Ingleses observam a vida e depois tecem teses baseadas no que viram. Suas utopias se adaptam aquilo que foi visto.
   Para um francês a mente é um misto de desejo, preconceito e linguagem. Para um inglês é uma lousa em branco que vai sendo escrita aos poucos.
   Franceses metidos viram intelectuais.
   Ingleses metidos viram professores.
   Na França há o dever de se sonhar com um estado onde todos sejam iguais.
   Na Inglaterra o ideal é que todos possam ser diferentes.
   A França ama Napoleão e o ser que tem um grande destino.
   A Inglaterra ama o industrial que constrói e domina o mundo pelo trabalho.
   Todo francês termina por ser um entediado diante de uma taça de vinho.
   Todo inglês acaba por ser um conservador numa sala cheia de panos e pratinhos.
   Os franceses estão cheios de Descartes, Balzac e Rousseau.
   E os ingleses se entupiram de Wordsworth, Shelley e Keats.
   Um canta o homem politico e as construções da mente abstrata.
   O outro sonha com o campo e constrói o real.
   Ambos amam o dinheiro. Um tem vergonha disso. O outro o esconde.

   Pondé falou isso de forma mais Podeniana ontem.
   Volto a Joe Wright.
   Ingleses sempre retornam a Dickens. Ou Jane Austen, Keats, Shakespeare. Os pés firmes na cultura escolar. Um frenesi com a idade média. Não é outra coisa que fez Harry Potter, O Senhor dos Anéis. E um músico pop inglês sempre vai ter seu momento de "menestrel romântico".
   Detrás de um guarda-chuva sempre há um almirante, um pirata ou um bardo.
  

SONG TO THE SIREN- TIM BUCKLEY, A BELEZA LIBERTA

   O momento exato em que voce descobre a beleza. É uma epifania.
   Não conhecia Tim Buckley. Ou melhor, só de ouvir falar. Sabia que havia morrido e era o pai de Jeff Buckley. Mas após escrever sobre a versão de Ferry de Song To The Siren ( e de num lapso dizer ser ela de Nick Drake!!!! ), ouço a versão de Robert Plant, que é melhor que a de Ferry, a dos Cocteau Twins, de Sinead O"Connor, de David Gray....então vamos ouvir a original logo.
   Digito Tim Buckley e vem o video de 1968. Ele canta na TV, num episódio dos Monkees. Logo dos Monkees, meus amados de infância. Ouço a voz de Mickey Dolenz anunciando Tim.
   E o homem canta....e me embebeda em beleza. A voz dele é firme e é pura. Há nela uma qualidade de certeza e de destino. E a música é uma sereia. E penso....
   A melodia é meu barco onde eu navego na mistura de beleza e de horror. Sublime, a doce e amarga lembrança. E eis eu aqui, sim, eis eu aqui nesta canção. Momento em que descobrimos um novo homem. Nele que canta e em quem o escuta. Here I Am....Onde são os limites?
   Milagre. O envolvimento de meu corpo no canto das sereias. Todas elas foram sereias. Todas elas eu esperava. Here I Am....Até onde?
   É uma das mais belas canções. E beleza é animal caçado hoje. Têm ódio do que é belo. Por serem feios. Vomitam sujeira nos rios e depois trancam esses cadáveres em concreto. Ódio mortal do que é belo.
   Porque a beleza lembra aquilo que poderíamos ter sido. Aquilo que fomos um dia. Ou pior, o que nunca nos deixaram ser. Here I Am....Pra sempre?
   A beleza faz nosso sonho falar. Liberta. O animal que nos dá a liberdade.
   Tudo isso eu sinto nos 3 minutos de uma canção de Tim Buckley. O inefável.

Tim Buckley - Song to the Siren



leia e escreva já!

"ENTRE RIOS" - a urbanização de São Paulo



leia e escreva já!

TIME OUT-ENGLAND, OS MELHORES FILMES INGLESES DA HISTÓRIA

1- DON'T LOOK NOW ( O INVERNO DE SANGUE EM VENEZA ) de Nicholas Roeg
2- O TERCEIRO HOMEM de Carol Reed
3-DISTANT VOICES de Terence Davies
4-KES de Ken Loach
5-THE RED SHOES de Michael Powell
6-A MATTER OF LIFE de Michael Powell
7- PERFORMANCE de Nicholas Roeg e Donald Cammell
8-KIND HEARTS AND CORONETES de Robert hamer
9-IF...de Lindsey Anderson
10-TRANSPOTTING de Danny Boyle
   Boyle? Oh God! Transpotting é legal, mas décimo? Don't Look Now é uma obra-prima, mas não sei se esse filme de horror e espiritismo feito em 1973 se manterá em primeiro lugar. Nos comentários à lista se ressalta a definitiva ressurreição de Powell. Ele tem seis filmes entre os 100, sendo cinco entre os 20 primeiros. O autor comenta que o DVD fez com que seus antes menos conhecidos filmes fossem reavaliados. Todos são grandes surpresas. Não posso fazer minha lista, mas desses dez primeiros meu favorito é The Red Shoes. Na lista completa dos 100 filmes surge Stephen Frears como um grande derrotado. Tem apenas um filme entre eles. Assim como Ken Russell, Alan Parker, Chris Menges, Peter Greenaway, todos diretores que tiveram seu momento e o perderam. Felizmente não há Guy Ritchie.

LISTAS DE ESCRITORES

   Na internet entro a procurar listas. Compartilho com voce.
   A BBC. Uma lista feita pelos espectadores. Os maiores poetas de todos os tempos:
   1- Eliot, 2- John Donne, 3- Zephaniah ( who? ), 4-Wilfred Owen, 5-Philip Larkin, 6-William Blake, 7-Yeats, 8-Betjeman, 9-John Keats e o décimo é Dylan Thomas. Não conheço Zephaniah e não sei de onde ele é. Imagino que escreva em inglês. Todos são britãnicos!
   Há uma lista de um site alemão. Eis:
   1-Goethe, 2-O Rei David, 3-O Rei Salomão, 4-Shakespeare, 5-Schiller, 6-Heinrich Heine, 6-Holderlin, 7-Rumi, 8-Omar Khayyan, 9-Hafiz, 10-Rilke....E assim a gente percebe o porque da união européia ser um engodo. Apesar da lista alemã se permitir um forte orientalismo ( imigrantes? ) e a inclusão de textos do Velho Testamento, e terem concedido aos ingleses a presença de Shakespeare, lendo toda a lista vemos Kleist e Moricke na frente de Dante, Herder e Storm diante de Homero e o fato de que o primeiro dos franceses é Rimbaud, em 67*. É uma lista totalmente germânica e nunca europeísta.
   Pessoa é o 64, Lorca o 78 e Wallace Stevens o 89.
   Uma lista feita por americanos é pouco mais democrática.
   O primeiro é Maya Angelou ( who? ), o segundo Shel Silverstein ( who? ), e o 3- Neruda, 4-e.e.cummings, 5-Robert Frost, 6-Poe, 7-Emily Dickinson, 8-Ted Hughes, 9-Ezra Pound e o décimo é Oscar Wilde ( sim, ele foi também um poeta ). A relação tem a cara dos EUA de hoje. É politicamente correta, moderninha mas não demais, variada e contempla as minorias. Maya é negra e nasceu em St.Louis. Tem 70 anos. Shel viveu 49 anos, morreu em 1999. A lista completa tem ainda Bob Dylan em 38 e John Lennon em 90. Poesia Pop.
   Para finalizar uma lista de escritores feita nos Eua com a participação de mais de 40.000 pessoas:
1-Mark Twain, 2-William Faulkner, 3-Poe, 4-Heminguay, 5-John Steinbeck, 6-Tennessee Willians, 7-Cormac MacCarthy, 8-Flannery O'Connor, 9-Harlan Ellison, 10-David Foster Wallace ( é o autor de As Pontes de Maddison.... ).  Não se assuste, é uma lista dos maiores escritores americanos da história. Fitzgerald é o 11. Melville o 12 e na sequência vêem Emerson, Dickinson, Eliot, Kurt Vonnegut, Jack London, Salinger, Joseph Heller e Walt Whitman. Li toda a lista. Tem até Sidney Sheldon. E não tem Philip Roth. Saul Bellow é o número 44 e Updike o 81. Lembraram de Gore Vidal: 75. Henry James é o 90 e esqueceram Edith Wharton. E Eugene O'Neill.
   Posso fazer minha lista de americanos?
   Henry James, Fitzgerald, Eliot, Whitman, Saul Bellow, Wallace Stevens, Poe, Faulkner e Edith Wharton.
   Twain é OK, Tom Sawyer foi o segundo livro que li na vida e o primeiro a me apaixonar, mas não é um gênio. Steinbeck é um pé no saco e a fama de MacCarthy sumirá quando ele morrer. Na relação tem ainda muita gente ruim. E felizmente lembraram do excelente John Cheever.
   Pra que servem listas? Pra orientar leituras? Quebrar mitos?
   Em meu caso é pura curiosidade. Revelam um certo momento cultural.
   Tá dito.

INTOCÁVEIS/ TIM BURTON/ MIB III/ JOHN WAYNE/ LANG

   SOMBRAS DA NOITE de Tim Burton com Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Eva Green, Helena Bonham-Carter
Dificil falar deste filme. Foi injustamente desprezado. Não é ruim e não é nada bom. Ele é tolo, inacreditávelmente infantilóide e sem graça. Mas ao mesmo tempo há algo nele que convida a diversão. Talvez seja o belo visual gótico-cafona, talvez uma atuação tão ruim de Depp que se torne interessante. O roteiro, péssimo, fala de um homem enfeitiçado e que séculos depois volta como vampiro. Boa lembrança de Burton em abrir o filme com o Moody Blues e sua nights in white satin. Um dos filmes mais mal feitos de Burton....E com tudo isso, eu ainda assim gostei. Nota 6.
   UM parênteses: Zero-ridiculo, 1-péssimo, 2-fraco, 3-medíocre, 4- uma pena, 5- razoável, 6-médio, 7- bom, 8-um ótimo filme, 9 grande!, 10- sensacional, Obra-Prima- único.
   UM GOSTO DE MEL de Tony Richardson com Rita Tushingham
Adorei. Num p/b muito cinzento, vemos a história ( ou apenas um flash ), na vida de uma mocinha pobre, feia e sem graça. O que a redime é sua raiva e sua juventude. É a Londres que já tinha os Beatles, mas ainda não sabia disso. 1961. Ando vendo sites de cinema, e num deles há uma critica em que um idiota chama este filme de "chatice desinteressante". Nunca vi respostas tão iradas dos leitores. O tal critico não tolerou a exibição de um passado inglês que não casa com aquilo que ele quer imaginar ser sua história. É uma Londres feia, suja e de gente que discute todo o tempo. Escrevi mais sobre este filme logo abaixo. Destaque para a trilha esquisita de John Addison. Nota 7.
   MAN HUNT de Fritz Lang com Walter Pigeon e Joan Bennet
O filme foi feito em plena segunda-guerra, antes da entrada dos EUA na guerra. Temos um inglês que é pego na Alemanha no momento em que ia atirar em Hitler. Ele foge e na Inglaterra, agentes alemães tentam trazê-lo de volta. O filme começa muito bem, mas tem um problema, o roteiro. Dificil aceitar a facilidade com que os agentes nazistas trabalham em Londres. Lang era um excelente diretor, às vezes genial, mas não era Hitchcock. Inexiste suspense. Nota 5.
   OS COMANCHEROS de Michael Curtiz com John Wayne e Stuart Whitman
No começo dos anos 60, John Wayne era o astro mais famoso do mundo. Mas não era um dos de maior prestigio. A crítica preferia Lancaster, Peck, Newman, Quinn ou Brando. E pior que isso, Wayne estava falido. Chegou a fazer cinco filmes em um ano para tentar se reerguer. E já com o câncer que o levaria quase vinte anos depois. Este é o último filme de Curtiz, diretor mítico de Casablanca e dos hits de Erroll Flynn. É um western cômico, sobre caçador de recompensas e vendedores de armas mexicanos. Nada de especial, mas nada que envergonhe a carreira de Wayne. Nota 5.
   HOMENS DE PRETO III de Barry Levinson com Will Smith, Tommy Lee Jones e Josh Brolin
O primeiro foi maravilhoso. O segundo muito chato. Este é irregular. Toda a primeira parte é sem ritmo, sem humor, parece forçada. Melhora depois graças ao bom tipo de Josh Brolin. Smith volta a 1969 para salvar seu amigo Lee Jones. Estranho, foi-se o bom humor. O filme chega a ser triste. O contraste de 69 com 2012 não é explorado. Temos a impressão de que nada havia de diferente então ( a não ser o tamanho maior dos gadgets ). Nota 4
   WATCHMEN de Zack Snyder
Comprei esse dvd a séculos mas não me animara a ver. Ei-lo. Começa prometendo muito. Um visual deslumbrante e um clima de filme noir anos 40. Além do bom uso da música de Dylan. Mas logo se revela seu problema número um: a falta de um bom herói. Não há ninguém que nos interesse. E depois nasce mais um problema, vemos que toda aquela complicação é só para disfarçar a mensagem simplória: a América é um lixo. Mais uma dessas peças que tratam dos males do país ao mesmo tempo em que vendem o modo de vida americano. Ele fala mal da América sendo hiper-americano. Uma contradição, um golpe de publicidade como tanto se faz. Se voce quer ser anti-americano, tenha a coragem de criar ou seguir um estilo não-hollywoodiano. Machismo, violência, crime, tudo glamurizado. Nota 1.
   INTOCÁVEIS de Toledano e Nakache com Omar Sy e François Cluzet
Cássio Starling escreveu na Folha que este filme trata o negro como macaco. Mentira! Omar Sy dá um show como um africano da periferia de Paris. Um homem que começa como um malandro desajustado e que aos poucos percebe que dá pra tentar se dar bem sendo um cara do bem. O filme é antiquado, conservador e banal. Essa história de homem rico e triste que descobre a alegria com alguém pobre é velha como um filme de Julia Roberts. Mas há um mérito não desprezível aqui: o filme evita a chantagem melô. Nada de ceninhas pra chorar. É triste, mas não é chorão. Aliás, podiam ter tirado a péssima trilha de pianinho tipícamente noveleiro. Fenômeno na França, parece que vai bem aqui. Filme comum que com certeza será refilmado e destruído em Hollywood. Nota 5.
   PARAÍSOS ARTIFICIAIS de Marcos Prado
Poucos filmes tem personagens tão babacas. Tudo aqui é um porre de classe média em seu pior aspecto. Ele é falso, vazio, sem porque e mal intencionado. Todas as cenas chegam a constranger. O diretor parece ter o dom de sempre escolher o pior enquadramento. O tipo de filme que deseja ser moderno e acaba sendo apenas um péssimo produto. Zerão!

O RIDÍCULO DA ARISTOCRACIA HOJE ( E A FALTA QUE ELA PODERÁ FAZER )

   Converso com uma nova amiga, professora de filosofia. Esperava dela a mediocridade de um monte de dogmas, mas não. A definição de seu discurso é não possuir nada de definitivo.
   É levemente cômico, pra não dizer ridiculo, ser aristocrata hoje em dia. Guiar-se por valor e não por popularidade é sempre mal aceito. E por aí vai a conversa.
   Na Rede Globo, às 21 horas de sexta-feira, era exibido um programa que trazia óperas de Wagner e sinfonias de Beethoven. Veja bem, na Globo. Porque? Porque apenas meia dúzia de privilegiados viam TV? Não, a TV já atingia 80% da população. Porque a Globo era lider sem concorrência? Não, havia a Tupi e a Record. O motivo era que o público consumidor, que pagava o anunciante, era composto de uma "elite" que queria assistir Wagner na TV. Ser um aristocrata é pagar o mico de sentir saudades desse elitismo.
   O mesmo no cinema. Se um sucesso de bilheteria ainda podia ser cantado e dançado, se Bergman era pop, isso se devia ao fato de que era uma aristocracia intelectual que dominava as páginas culturais. O cinema tinha Trapalhões e filmes policiais de Charles Bronson, mas Kurosawa e Fellini causavam uma ressonância nem sonhada por Cronenberg ou Lynch. Porque apenas uma elite mandava em revistas e jornais culturais.
   Hoje a TV Globo ( e NatGeo, Sony, Fox ) precisa agradar uma imensa massa consumidora de seus anunciantes. Os jornais precisam tratar Batman ou Prometheus como arte, porque para o novo consumidor, eles são aquilo que ele pensa ser arte. É o povinho que vai no Masp ver Caravaggio e acaba por babar no Renoir.
   Se antes as letras das músicas eram mais sofisticadas e se Hesse ou Huxley eram best-seller, isso se devia ao fato de que só aristocratas liam e compravam LPs. Na atual democracia a massa lê. A literatura e a música servem seus paladares.
   Democracia é uma coisa complicada. Voce pega todo mundo e os une pelo mínimo denominador comum. Daí o fato de que nunca mais teremos nada de aristocrático. A língua do mundo tornou-se a língua da massa iletrada. E como essa massa tem mais filhos, a coisa tende a piorar.
   Mas eu vivi na ausência de democracia, e odiei ser comandado de forma explícita. Eu quero ler o que quiser, falar o que desejar e escolher o que me apetecer. Churchill dizia que a democracia era cheia de falhas, mas era o sistema menos ruim. Não nos esqueçamos de que no mundo de Stalin ballet era pop e em Praga tudo era preservado. Mas quem quer a volta de Stalin e da bota comunista sobre os tchecos?
  Daí a encruzilhada do espirito aristocrático. Odiar a extrema vulgaridade do mundo atual e jamais desejar a volta daquilo que já morreu tarde.
  Saudosismo. Causa espanto ao nobre que a palavra saudosismo seja hoje um palavrão. Aristocratas amam tudo o que é velho, amarelado pelo tempo. Seu inimigo é o novidadeiro, aquele que só vê e ouve aquilo que acabou de sair. O aristocrata está sempre atrás das raízes, do pedigree, dos ancestrais. Se Jack White tem Son House como mestre, ouçamos Son House. Se Almodovar ama Douglas Sirk, vejamos Sirk. É o estilo Debret de todo aristocrata. Só confiar no que é novo após seu envelhecimento em barris de carvalho. ( Debret é o imenso alfarrábio britãnico que traz toda a genealogia das familias de sangue azul ).
   Mas toda essa conversa é absolutamente inutil. E cômica em sua altivez ridicula. Pois lentamente até os pretensos aristocratas dão o braço a torcer e se pegam cantando Beyoncé e vendo filmes de Jason Statham. A ditadura, sedutora-suave-insistente, do anti-aristocrático, do novo, da arte sem aura, acaba por vencer, por baixar as resistências, por domar.
   Ainda virá um tempo em que Michael Bay será chamado de grande cineasta e Paulo Coelho de grande autor.

A VIRGEM

   Se existe algo na iconografia católica pelo que tenho o maior respeito, é sua simbologia ligada a história da civilização. Voce não precisa ser crente para perceber o valor de um símbolo. Basta ser um iniciado. Existem centenas de ateus que reconhecem  a riqueza do que falo. Vamos aos fatos.
   O catolicismo nasce como corrente patriarcal. Em sua origem, Pai, Filho e Espirito Santo regem toda a fé. Não há´nada de feminino na igreja. Com o correr dos séculos, correntes pagãs começaram a se fazer mais fortes. Sábios esclarecidos logo perceberam que havia algo ali. Por mais que os homens fossem "domesticados" pelo catolicismo, persistia neles um desejo natural, uma ligação com mitos arcaicos, com paganismos que louvavam a mãe-Terra. E foi um movimento popular, e em principio herege, que trouxe o mito da Virgem Maria para o centro do catolicismo. A igreja oficial, em profunda crise, foi obrigada a aceitar esse novo fato ( e até hoje tem dificuladade em aceitar o possível casamento de Jesus ).
   O que isso simboliza? Porque Virgem?
   Ela é a Deusa, a mulher sem homem, capaz da vida, sem mistura. Não há moralismo aqui. Ela simboliza a Terra antes do homem, o mistério da Natureza, que virgem, sem nossa mão de homem, produz vida, produz luz, produz tudo o que há. O culto a virgem é, de forma arcaica, o culto a natureza, a chuva, ao que é sem precisar de nossa ação. O que é Puro. O que está fora do tempo e da corrente do Homem.
   Dái meu profundo respeito. Minha compreensão. E meu entendimento sobre o que Ela significa e de onde ela vem.
   Tem coisas em nosso mundinho fofo que não servem para brincadeiras. Essa é uma delas.

PELA PRIMEIRA VEZ ME DOU O TRABALHO DE ESCREVER SOBRE UM DISCO RUIM: OLYMPIA-BRYAN FERRY, ODE AO TÉDIO

   Quem me conhece sabe que sou um Roxy Music fã. Mas esse disco de Bryan, seu mais recente, chega a causar vertigem de tão ruim. Pior que ele ( dentre os outrora nobres do pop ), só os últimos de Paul MacCartney.
   Ferry se repete. Até aí nada de mais. Todo artista tem um estilo e o domina. Faz variações sobre o mesmo, cria novas interpretações. Mas aqui ele se repete ao ponto do plágio. Faz cover de si-mesmo. Olympia é mais uma releitura, pobre, de Avalon, último disco do Roxy, de 1982. Os mesmos backing vocals, o mesmo acúmulo sinfônico de instrumentos, a cadência black, o bom-gosto límpido. E um bando de convidados estelares: Flea, Eno, David Gilmour, Dave Stewart, Groove Armada, Jonny Greenwood, Chris Spedding. E a voz lânguida repetindo gemidos e temas de sempre. Chega Bryan! Cansou.
   Há tempos que todos sabemos, um artista médio tem cinco anos de inspiração. Um acima da média, dez anos. Um genial, quinze. Não mais que isso. Depois é a habilidade de repetir o já feito sem cansar o fã. Aqui Bryan cansa. É impossível ouvir o disco inteiro.
   È sabido que uma das grandes habilidades de Ferry sempre foi a de fazer covers. Em sua carreira temos dezenas deles, inclusive discos só de covers. Aqui ele canta Traffic  de uma forma banal. Mas acerta com Nick Drake. Song To The Siren é de chorar de tão bonita. Uma pérola, pena que jogada em meio ao lixo. Emoção, gosto, sabedoria, luxo e sinceridade. Tudo está aqui. Ferry deveria tê-la guardado para seu próximo disco só de releituras de outros autores.
   Eu compreendo que um grande artista tem o direito de continuar exercendo sua arte. Deve ser um prazer cantar, compor, juntar arranjos. Mas é preciso saber a hora de calar. Concentrar-se no palco, dar shows, encarar e dar prazer aos fãs. E não lançar novas bobagens.
   Pena.