UM AMOR FELIZ - WISLAWA SZYMBORSKA

  A poeta polonesa, Nobel de 1996, tem neste momento um segundo livro lançado no Brasil. Diz a Companhia das Letras que ela vende muito por aqui. Li o primeiro lançado e nele descobri uma poeta maravilhosa. Escrevi um texto que foi até que bem lido por aqui. Regina Przybycien traduz poemas tirados de vários de seus livros. Fico sabendo que Wislawa adorava química e lia Darwin. Seus poemas são assim:
  Imagina uma mulher que olha as coisas de verdade. Olha as coisas vendo tudo com atenção, sem julgar, sem adjetivar. Coisas que nos são já indiferentes e que para ela sempre parecem novas. Então ela indaga o que elas são, como são e assim as faz ficarem outras sendo elas mesmas.
  Ela vende e influencia poetas por aqui...acho que sei por que: sua escrita me lembra poetas brasileiros. Não sei se foi obra da tradução, mas lendo-a me peguei pensando em Manuel Bandeira. E até em Manoel de Barros ( mas aí já é viagem minha e só minha ).
  Leio e fecho o livro. E na cama me vejo pensando nas coisas: cães, as folhas, minha mãe, um cobertor, vento, eu aos 18 anos, cabelos, um carro. Toda grande poesia inspira a olhar e a apreciar. Ela faz isso.
 E é clara, simples. E deixa pergunta na boca muda.

FANTASIA....MERYL....CHET....HUSTON.....PORKY'S....GABLE....BARBARA....

   FANTASIA 2000
A versão de 1940 é melhor. Vale lembrar que em 40 era uma ideia muito original, pegar música e construir imagens ou uma história. Clips antes do tempo. Disney sonhava popularizar a música erudita, mas o filme foi um fracasso. Em 2000 fizeram esta nova versão. O espírito de novidade já se fora, mas existem dois segmentos excelentes. A história sobre Rhapsody in Blue de George Gershwin é deliciosa. São cenas de NY nos anos 30. Além do que, a música de Gershwin é uma das 10 melhores coisas que já escutei. Melhor ainda são as imagens de baleias voadoras ( ver para crer ). Sobre a música de Respighi, imagens sensacionais de baleias que voam no mar, no gelo e nos céus. Temos ainda uma bela sequência de Saint-Saens e a reprise do Aprendiz de Feiticeiro, de Dukas. O resto é mais ou menos... Mas vale muito ver!!!! Nos extras um curta dos anos 50 de Ward Kimball. A História da música em sketches bem humorados. Muito bom!
   FLORENCE, QUEM É ESSA MULHER... de Stephen Frears com Meryl Streep, Hugh Grant e Simon Helberg.
Frears tem uma obra longa e no geral sempre interessante. Nos anos 80 ele fez instigantes filmes sobre o preconceito, comédias azedas, e o sucesso Ligações Perigosas. Talvez seu melhor filme seja The Hit. Nos anos 90 ele fez muita TV e se alternou entre filmes Pop e outros esquisitos. Neste século ele tem mergulhado em estranhas histórias reais ( A Rainha tem vários personagens estranhos... ). Incrível mas esta senhora Florence existiu. Uma milionária que amava a música, tinha sífilis, e queria ser cantora. O filme toca numa ferida funda: aqueles que amam a arte mas não possuem talento. Mais que isso: a diferença entre fazer e realizar. Alguns críticos reclamam da mistura de drama e comédia. Maus tempos estes, essa mistura não é um defeito, é um dom! O filme é muito bom! Divertido, me fez chorar, ridículo, bonito. Tem uma atuação contida e brilhante de Grant, um ator subestimado, revela o ótimo Simon Helberg e dá a Meryl mais uma grande atuação. Florence é patética, Meryl não. Adorei este filme!!!!
   BORN TO BE BLUE de Robert Budreau com Ethan Hawke e Carmen Ejogo.
A música é ótima e quando se ouve My Funny Valentine voce se arrepia. Ethan está bem, mas o filme é menos do que deveria ser. Jazz é joy!!!!! Uma boa fala: Chet diz que se droga porque é bom. Eu gostei do filme, mas penso que aqueles que não gostam de jazz irão achar ele banal. Tem boa fotografia.
   PORKY'S de Bob Clark
Enorme sucesso em 1981, é o pai dos filmes teen grosseiros. Fala de um bando de estudantes à procura de sexo, vingança e risos. Dá ainda pra rir, mas o roteiro é um quase nada. O elenco não vingou. O filme se passa em 1954, mas tudo parece com 1981 mesmo.
   MY GAL SAL de Irving Cummings com Victor Mature e Rita Hayworth.
A história de um compositor dos anos 1890. O filme é alegre, leve, divertido e bem bobo. Apenas mais um musical da Fox... Mature, famoso canastrão, não está mal.
   FOLIAS NA PRAIA de William Asher com Avalon e Funicello.
Buster Keaton, já bem velho, tem algumas cenas, boas. É o melhor filme da "turma da praia", e quem tem mais de 40 anos sabe do que falo. Um filme que é uma peça de pura saudade. Mundo de extrema inocência que não sei se um dia existiu. As músicas são OK.
   FUGA PARA A VITÓRIA de John Huston com Michael Caine, Sylvester Stallone e Pelé.
Num campo de prisioneiros, na segunda guerra, um general alemão ( Max Von Sydow ) , desafia um inglês, Caine, a formar um time de futebol e jogar contra os nazistas. O filme é bem pior do que parece. Huston estava bêbado e o que dizer de Stallone...Pelé atua bem melhor que ele! Juro! O roteiro é constrangedor...
   SONHAREI COM VOCÊ de Michael Curtiz com Danny Thomas e Doris Day.
A história do compositor Gus Kahn deu um filme OK da Warner. Doris Day está brilhante como sempre e Danny é o ator mais esquisito da história ( tem a cara do Luciano Huck ). Curtiz, diretor de Casablanca, leva tudo com a precisão de um relógio.
   SEIS DESTINOS de Julien Duvivier com Charles Boyer, Henry Fonda e vasto elenco.
Excelente filme que acompanha a história de um paletó. Primeiro com seu dono muito rico, até terminar numa favela de negros. Duvivier era um grande diretor francês que foi trabalhar nos EUA durante a guerra. Todas as 6 histórias são boas, algumas ótimas, e o clima é de alegria amarga. Há muito do cinema de Clair e de Carné aqui. Belo!!!!
   BABY FACE de Alfred E. Green com Barbara Stanwyck
Feito antes do invento da censura nos EUA ( 1934 ), o filme acompanha uma moça que transa com todos os homens  que encontra para subir na vida. E sobe, como ela sobe!!!! Stanwyck está sexy e esperta, o olhar de uma vulgaridade absoluta. Mas o filme, curto, não é muito mais que isso.
   ALMAS REBELDES de Frank Borzage com Clark Gable e Joan Crawford.
Um filme muito, muito estranho. Joan é uma prostituta num porto tropical. Gable um presidiário. Ele foge da prisão e ela se junta à ele. No caminho se juntam à um tipo de "Cristo", um fugitivo feito por Ian Hunter. O filme se torna então uma alegoria cristã. Gostar deste filme depende muito de seu espírito. Pode parecer ridículo ou sublime.
 

LOST....PAIXÃO É QUANDO PODEMOS SER AQUILO QUE SOMOS...

  Querido Bryan
                                       Voce conseguiu de novo! LOST é uma canção linda, tão linda que parece sua. Sublime. A mistura de tristeza e de beleza, dor e prazer.
Mas não é só disso que quero falar. Voce sabe, quando a gente ama, se apaixona, a gente se torna aquilo que é de verdade. As pessoas acham que é o contrário, que a gente fica doido quando ama. Não! O nosso normal, o que somos aparece na paixão e só nela.
Então Bryan, voce cantou para tantos amores meus e eu te digo que mais um milagre aconteceu na minha vida! Se voce não fosse voce, eu pensaria que voce agora estaria achando que vou me casar. Mas voce me conhece porque é do meu planeta. Eu apenas a vi, falei com ela e senti, na hora de partir, que ela e eu somos um. E foi só isso. E isso é tudo.
Lost é a trilha desse momento, desta despedida impossível. Eu parto e fico. Ela fica e se vai comigo.
Eu a amo. E com ela, para o mal e para o bem, eu sou eu.
Só isso Bryan.
Espero vê-lo em breve.
Amor, de teu discípulo Anthony R.

Bryan Ferry - Lost ( Avonmore )



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LER LENDO

  Ando fazendo curso sobre Hesíodo. Não é fácil. Os gregos e os persas não ficavam quietos. Era guerra o tempo todo! Gente que conspira, que invade, que rapta, deuses que são da guerra, da intriga, ciumentos. Mas não é disso que falo aqui. O professor diz que gregos liam em voz alta. Sempre. A leitura calada, íntima, seria para eles algo completamente absurdo.
  A vida era então toda compartilhamento. Viver em intimidade, ter uma vida secreta, fazer algo em segredo, eram conceitos e hábitos inexistentes. Tudo era em grupo e na comunidade. Inclusive a leitura.
  A partir do século XVII começa a leitura calada, de boca fechada. Ler para voce e não para o outro. Começa então a caminhada rumo ao intimo, ao secreto, ao eu e o mundo como separação. No extremo temos a religião particular. A celebração solitária.
  Para eles nada era pior que o isolamento, o estar só. Penso que a internet e suas redes sociais são um tipo de retorno do hábito grego. Compartilhar. Estar sempre dividindo. O meu grupo e os outros.
  Há muito aqui a pensar.

Bryan Ferry - Shameless



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Soul Train Le Freak Chic



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C'EST CHIC ( QUANDO A MÚSICA SE TORNA FASCISMO )

   Em 1978 fãs do grupo The Who se reuniram num estádio em Cleaveland, e antes de um show de Roger, Pete, John e Keith, juntaram toneladas de discos de discoteque e os destruíram no gramado. Hoje Pete se arrepende e diz que o ato foi fascista, mas na época ele até compôs uma música chamada Goodbye Sister Disco. Eu odiava disco em 1978. Ou melhor, eu queria e DEVERIA odiar disco em 1978. Eu gostava de rock e portanto TINHA de achar disco um lixo. Mas o estranho é que eu assisti SATURDAY NIGHT FEVER oito vezes no cinema e vibrava quando os Trammps tocavam. Mas sentia vergonha. Muita vergonha.
  Lembro que um dia, em 1980, eu e meu irmão, ouvindo rádio, falamos a verdade: Tinha várias músicas disco que a gente adorava! Coisas de Rick James, Sylvester, Cerrone, Giorgio, Trammps, Rose Royce, Celli Bee. E claro, o melhor de todos, Chic.
  Na Enciclopédia do Rock da Rolling Stone, Robert Christgau diz que a disco deu tanto ódio aos rockers por dois motivos muito fortes:
  1- Foi o primeiro movimento pop assumidamente gay, latino e feliz.
  2- Enquanto no rock o amor era dor ou era um tipo de estupro machista, na disco ele era sedução suave e sexy. Essas duas características, não-musicais, eram naquele tempo insuportáveis para jovens acostumados às dores do amor frustrado ou ao machismo de carros velozes e "olhe garota como ele é grande". A disco era democrática, era para todos, era miscigenada, convidava nerds, bichas, velhos, crianças, ricos e pobres, mulheres e homens, travestis, todos para uma grande festa de purpurina, neon e roupas bonitas. Para os cabeludos sujos isso tudo queria dizer só uma coisa: Viadagem conformista.
  Estávamos todos errados.
  Pretos bem vestidos e felizes. Isso era novo. O rocker aceitava negros raivosos ou negros pobres e tristes, ou mesmo a Motown, negros chorando o amor; mas na disco os negros eram MUITO alegres, MUITO sexys, e mais estranho, MUITO chiques...Isso era muito estranho. Eles pareciam mais jovens, mais bem resolvidos, mais felizes que nós! Pior, eles se vestiam melhor! Que coisa esquisita!!!!
  ( Marvin Gaye e Stevie Wonder sempre foram tudo isso, mas gente fingia que não percebia ).
  Então agora, em 2016, pego este disco de 1978 do grupo CHIC. Na época um enorme sucesso. E um dos poucos do movimento que alguns críticos não malharam. Só alguns ( Ezequiel Neves foi um deles ). Rockers diziam que os músicos disco não sabiam tocar. Eles preferiam a habilidade do Kiss ou dos Pilot. Aff.... Se eu fosse músico eu queria ser baixista e se eu fosse baixista eu queria ser Bernard Edwards. Não há baixista melhor no pop ou no rock. Suas linhas melódicas dançam, fluem, pulam, são velozes, nos fazem dançar e ao mesmo tempo são lindas, femininas, sexys. Flea toca parecido, só que Flea é menos sexy e mais punk. Mas a banda, um trio, tinha ainda a bateria de Tony Thompson, um batera que mistura a discrição rítmica-esperta do jazz com a marcação pesada do funk. E completando temos um gênio: Nile Rodgers, o guitarrista mais sacudido e chique do pop, o maior produtor pop dos anos 80, o cara que mudou o rádio para sempre.
  Nile Rodgers nos anos 80 produziria Debbie Harry, David Bowie, Bryan Ferry, Duran Duran, Madonna, Robert Palmer, Peter Gabriel e mais um monte de gente que esqueci ou não quero citar. Porque ele, entupido de cocaína, aceitava tudo e todos e de certo modo ele se tornou um tipo de ditador da moda musical de então. Todo mundo queria ele como produtor-guitarrista-diretor musical. LET'S DANCE! de Bowie foi o disco que abriu o mercado branco para Nile e desde então ele esteve sempre em evidência. ( Bowie e Ferry estavam de olho nele desde 1978 ).
  Na capa deste disco já há algo que muito irritava os rockers de 78: 3 negros e 2 negras muito bem vestidas, tipo Ralph Lauren, numa sala chique e com expressões faciais à Roxy Music. Parecem ricos. Parecem contentes. Parecem de bem com a vida. Não sorridentes. Mais que isso, resolvidos. E o som reflete isso. Ele é suave, muito bem gravado, sacolejante, sem suor e sem lágrimas, os instrumentos soam como cristal, tudo é exato. Artificial, de bom gosto, e negro, muito negro. É um som que faz voce se sentir dentro de uma Mercedez. E ao mesmo tempo no bairro negro. Isso era a disco.
  Difícil escrever sobre o som dos caras. Eles são bons demais. Basta dizer que Bryan Ferry procura esse som até hoje ( e continua gravando com Nile ). Bowie tentou e errou por toda a década de 80. E Madonna deve a ele 50% de sua fama. Seus melhores discos foram feitos com ele. Miles Davis logo entendeu a coisa e percebeu que os caras levavam às massas aquilo que ele era desde sempre. O negro livre. Auto-suficiente. E muito, muito chique.
  Este disco, agora em um mundo menos preconceituoso, é delicioso!

MRS. DALLOWAY - VIRGINIA WOOLF

   Fosse hoje Virginia Woolf seria facilmente salva com um Prozac. Mas então seus nervos, expostos, seriam cobertos com uma capa de serotonina e sua escrita seria bem menos "sensitiva" e muito mais "normal". A gente percebe a tensão na escrita. Não, o livro não é irado, não é negro, não é deprê. Ele é caleidoscópico. Woolf vê ouve e percebe tudo, muito, demais. Não usei a palavra sentir, porque sua escrita nunca é sofrida, chorosa, melada. Ela descreve. Descreve almas, sentimentos, gente. Com uma estranha frieza. Alienada talvez.
  Clarissa Dalloway sai de casa para comprar flores. De noite haverá uma festa em sua casa. Ela é rica, tem cerca de 50 anos, e vive em Londres. É 1922. Fazemos parte de sua caminhada, seus pensamentos confusos, lembranças, vemos o que ela vê. Então o foco passa para Peter Walsh, um ex namorado que a visita. O corte é como do cinema, o ponto de vista muda sem aviso, o livro não se divide em capítulos, é um fluxo só. De Walsh vamos para Elisabeth, a filha, Septimus, um suicida, voltamos a Clarissa, vamos à Richard, o marido, e mais alguns personagens que divagam por Londres, em ônibus, casa de chá, lojas, salas e hotéis. Os pensamentos vão de dores banais, êxtases, lembranças, medos e distrações súbitas. A leitura é uma delicia, uma sopa literária, um quebra-cabeças, um jogo de vozes que se sobrepõe. Solidões interiores.
  Numa coincidência, eu vivo neste momento algo parecido com aquilo que vive um dos personagens do livro. Claro que não direi qual é, isso não importa. Digo isso porque Woolf escreve sobre isso, essa mistura de tempos, vozes, eventos, passos, desejos, temores, mediocridades, ilusões.
  A popularidade de Virginia Woolf hoje se deve à isso. Ela antecipa a sinfonia ríspida em que vivemos. Ainda é moderna ( moderno não é contemporâneo ).

BORN TO BE BLUE, A VIDA DE CHET BAKER, FILME COM ETHAN HAWKE.

   Se voce é fã de Chet Baker vai gostar do filme. E irá se emocionar com uma cena que resume todo o encanto de sua arte. É quando já ao fim do filme ele canta My Funny Valentine.
  Se voce é fã de jazz vai sentir um incômodo. Jazz é acima de tudo vida e todos esses filmes sobre jazz são incapazes de mostrar a festa, a extrema alegria do jazz. Eles se concentram na dor. Sempre na dor. Como se jazz fosse um tipo de angústia. Ou doença.
  Se voce é fã de cinema vai achar o filme ok. E vai pensar, de novo, que o cinema morreu. Os grandes temas são hoje filmes modestos e os grandes filmes falam de bobagens. Voce vai se indagar: Quem vai assistir este filme...Ninguém, ou quase ninguém.
  E dirá que Ethan Hawke não é um grande ator, mas é esforçado e aqui talvez esteja seu melhor desempenho.
  Juro que não falarei de novo do artigo de Matinas Suzuki escrito no dia em que Chet morreu. E nem do documentário de Bruce Weber. O que sei é que a arte de Chet nada tem a ver com o mundo de 2016. E nisso o filme está fora de sincronia.
  Pois se hoje todos são suaves e sussurrantes como Chet, eles são acima de tudo mimados e sem espinha, como Chet nunca foi.
  Vale ver.

UMA IRMÃ, UMA AMIGA, UMA PERDIDA; DESCUBRO VIRGINIA WOOLF E ADORO.

   Virginia Woolf escreve como uma mulher muito, muito sensível. Não do tipo chorosa, mas como um tipo de nervo exposto. Antena. Ela capta tudo a seu redor: cores, vozes, cheiros, vento, calores, movimentos; e une tudo isso a suas memórias, dores, risos, rostos, sons. Vomita esses fragmentos no papel. O leitor que os aprecie como aquilo que eles são: fragmento de vida.
  Ela escreve como Debussy fazia sons. Como pingos de tinta. Organizados. Há rigor na sua escrita. E música. Melodia. Harmonia.
  É uma irmã que descubro só agora. Ela escreve como eu escrevo quando muito inspirado. Os poucos textos meus dos quais me orgulho são como os dela. E só agora descubro isso. ( Talvez a tenha evitado por já saber disso ).
  Talvez se vivesse hoje os remédios salvassem Virginia. Talvez ela os evitasse. Eles iriam obscurecer seu radar. O nervo que tudo captava captaria pouco então.
   Ela completa a irmandade: Proust, Joyce e Kafka. O quarteto modernista. Dos quatro ela é a mais feminina, a mais sintética, objetivamente turva. Proust entra na mente e a vasculha. É uma lente de aumento voltada para dentro do olho. Ele encontra a alma e a admira. Ama. Joyce pega a vida e faz dela uma anedota. Ele ri para não chorar. Como uma mosca, ele voa pelas ruas da cidade e pega um pouco de todo lixo. Une esses restos e tenta criar um monumento. De dejetos. Kafka é a minhoca. Ele sai da lama e se debate ao sol. Seu mundo é escuro e úmido. Seus caminhos levam a mais lama.
  São os modernistas fundamentais. Os que descobriram a cidade, a mega cidade, a sociedade incivilizada, o fim do lar, da família, da igreja. Os grandes negadores.
  Entre eles Virginia é a borboleta. ( Observe que Proust é o único que não é um animal. É uma lente. ) Ela quer voar mais alto e mais forte. Mas voa hesitante. E entre flores lembra da lagarta. E breve, cai.
  Bem vinda Virginia.

NUNCA TREZA À MESA - ORIETTA DEL SOLE

   Adultos ainda pegam um livro para ter prazer...Pergunto: Você lê um livro sem nenhum outro interesse a não ser sentir satisfação no ato da leitura...
  Vejo gente lendo livros "leves" que na verdade são livros "de aprender". Aprender a ser feliz, a ser otimista, a encontrar o amor, a ganhar dinheiro. Os best-sellers atuais trazem quase sempre algo de " útil " encartado. É como se um livro fosse obrigado a ensinar ou a provar algo.
  A literatura policial era a última a ser entretenimento sem culpa, mas agora até eles trazem na rabeira o dever de "denunciar" ou de "esclarecer". E a literatura infantil, que já foi terra da repressão educativa, e que depois, graças a gente como Lewis Carroll e James Barrie, se tornou o mundo do prazer sem razão; volta a ser lugar de educar e de ensinar. Um livro para crianças tem de ser um livro que agregue valor a vida da tal criança.
  Então eu digo vivas à Harry e à Frodo!
  Este livro, de Orietta, é apenas um belo livro de uma italiana rica que morou no Uruguai, na Argentina e em SP. Ela fazia arte e recebia gente para comer. Era fútil portanto. E o livro é fútil. E por isso eu gosto. Ele é bonito.
  Cairei em contradição ao dizer que ela nos dá dezenas de receitas de massa. Mas há um adendo: são receitas caseiras, chiques, mas démodé. O foco não é ensinar a cozinhar. É agradar o leitor.
  Livros são caros. Eu exijo que me tragam prazer. O prazer pode ser filosófico, o prazer de saber, de entender e de descobrir. Mas há também o mais nobre prazer " prazeroso", o gosto em ser agradado.
  Que mais livros bobos sejam editados então.

A ARTE DE FAZER UM GRANDE VINHO- EDWARD STEINBERG

   Este livro é uma droga! Muito mal escrito. O autor leva todo o texto em um estilo de jornal que nos deixa enjoados em 30 páginas. É como se o livro começasse a cada capítulo, o texto não flui, ele tranca e se enrola.
  Algumas coisas são interessantes: saber que foram os ingleses, lá no século XVII que criaram a mística do vinho. Saber que então, e até os anos 70 do século XX, vinho fino era só o vinho francês. Principalmente os de Bordeaux e da Borgonha. Ingleses ricos idolatravam esses vinhos e o vinho do Porto. Só eles eram levados a sério em todos esses séculos. Todos os outros, e nisso se incluem todos os italianos, eram vinhos baratos.
  Angelo Gaja começou a mudar isso nos anos de 1960. Aprendeu com os franceses os segredos do grande vinho e começou a aperfeiçoar o Barbaresco. A partir dos anos 80 acontece a revolução. Vinhos da Itália passam a ser objetos de culto.
  Interessante notar que o primeiro vinho a ser considerado fino, fora da França e do Porto, foi o vinho do Reno, os alemães brancos, vinhos deliciosos que foram destruídos nos anos de 1990. Nessa década o mundo se abriu à Califórnia, Espanha, Chile, Austrália...e neste século à Africa, Nova Zelândia...
  O autor descreve o plantio, o trabalho das bactérias, o tempo de vida do vinho, o mercado. E com um tema tão rico ele consegue nos dar um livro chato.
  Uma pena...

The Droids - The Force



leia e escreva já!

Space - Magic Fly (Discomare 1977) video kurtigghiu



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Kas Product - Never Come Back



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Liaisons dangereuses - Los niños del parque



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Brian Eno featuring Snatch "R.A.F"(Red Army Faction)



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Cowboys International - Thrash (1979)



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KRAFTWERK PUBLIKATION, A BIOGRAFIA, uma história sociocultural da música eletrônica feita para as massas. - DAVID BUCKLEY

   Primeira coisa: Causa espanto para um brasileiro ver o modo como os ingleses vêm os alemães. Pontuais, metódicos, frios, bem educados, corretos.
  Segunda coisa: Que eu nunca havia percebido: a assumida habilidade inglesa em vender. O modo como eles pegaram a música dos negros americanos e a empacotaram pra venda. O mesmo aconteceu com o eletrônico. Os ingleses, a partir de 1978, pegam o Kraftwerk e o tornam vendável. Ou melhor, pegam o som dos alemães e com vocais convencionais o tornam inglês. Surge o synth pop, o techno pop. O som da Londres de 1978-1984.
  Este é o melhor livro sobre rock que já li. Porque não é um livro de rock. É sobre o mundo de hoje. Fala sobre sociologia, moda, ciência, dinheiro, comportamento, casas noturnas e o futuro possível. Começa na segunda-guerra, fala do preconceito contra os alemães, sobre a música eletrônica erudita dos anos 40-50, sobre hippies, sobre a Europa e sua música pop, sobre a cena alternativa de Dusseldorf nos anos 70, sobre Bowie, sobre Iggy, cinema, baladas noturnas, hip hop, acid house, industrial, jungle, a imprensa musical, visual de capas de disco, a Factory, Andy Warhol, ciclismo...São 260 páginas de bela diagramação e de muita, muita informação.
  Florian e Ralf são o Kraftwerk. Formaram a banda em 1970. Nasceram em famílias ricas, muito ricas. E tiveram a grande sacada: a Alemanha não tem blues, country, soul, nada. O equivalente alemão à isso é a arte dos anos 20. O cinema de Murnau e de Lang. O expressionismo. A escola da Bauhaus. Brecht. Stefan George. E a música de Stockhausen, Pierre Schaffer. Então, primeiro ainda com bateria e flauta, e depois só com synths, eles criaram a maior revolução da história do pop. Música pop que nada tinha em comum com o rock, o blues, o soul. Sem introdução, sem refrão, sem solo, sem emoção, sem "amor", sem solos, sem suor e em princípio, sem empatia. A coragem foi imensa e os ataques impiedosos. Karl e Wolfgang vieram com a percussão. Todos com formação clássica.
  Ainda hoje há quem chame música synth de "não música". Imagine então em 1972! Os alemães eram odiados ou recebidos com risos. Sua música era coisa de crianças. Uma piadinha. Estariam esquecidos em dois anos. Isso não aconteceu, claro, e em 1974 Autobahn começou a construir seu público. ( Autobahn é seu quarto disco ). Algumas pessoas, muito à frente de seu tempo, perceberam a beleza daquela austeridade, o encanto da simplicidade. Mas não, não vou ficar aqui descrevendo a saga. É uma saga. Saga sem drogas, sem dramas, sem historinhas bobas. Eles evitaram a imprensa, evitaram as fotos, jamais desejaram virar "estrela". Até nisso eram contra o rock normal. Foram mais radicais que o punk. Porque o punk ainda é rock.
   Na extrema lógica do grupo, o robot pode os substituir no palco. o Kraftwerk será eterno, porque quando eles se forem os robots ainda estarão no palco.
   Uma das mais belas coisas do livro é o set do DJ Rusty Egan, de uma casa de Manchester em 1980. São 100 músicas fantásticas que exemplificam o pop de hoje, 2016. Temos ainda o depoimento de Madonna, que os viu ao vivo em 1978 e criou ali todo seu conceito de palco e de som. Buckley nos mostra alguns dos vários "roubos" feitos em cima de faixas do Kraftwerk, e exibe a decadência do pop, a partir do momento em que os sintetizadores se tornam digitais.
   Os momentos epifânicos são vários e acho que a gravação do clip de Trans Europe Express seja o mais lindo.
   Encerro aqui e digo que voce tem de ler este livro.