FLAMENGO

   Gente da minha geração, que viu Zico jogar, vê o Flamengo de uma outra maneira. Vemos ele como o maior clube do Brasil. Não, não me aporrinhe. Sou torcedor do Santos e perdi um campeonato, em 1983, para o Flamengo. Gerações vêm o mundo a seu modo, e assim como para quem tem 70 anos o Botafogo é um time grande, para quem tinha nascido nos anos 60, o Flamengo era o maior.
   Entenda novinho e novinha, o Liverpool sempre foi o maior time da Inglaterra, e talvez voce ache, pelos últimos anos, que o Chelsea ou o City são maiores que ele. Se, e somente se, eles continuarem ganhando títulos, até digamos 2030, eles serão tão grandes quanto. Cada um enxerga o mundo de seu ponto de vista temporal, por isso é bom saber história. Amplia seu mundo.
   A vitória do Flamengo é tão importante hoje como foi o mundial de 81. A Libertadores e o Mundial nada significavam aqui, e foi o Flamengo que trouxe de volta a moda de ganhar esses torneios. Agora, em 2019, ele nos lembra que futebol é espetáculo. Show. Diversão.
   O Santos de Neymar já poderia ter nos lembrado disso, mas com uma torcida mediana e cobertura de imprensa ínfima, a coisa passou batida. Um time como o Flamengo, fenômeno nacional, obriga todos a ver o óbvio: futebol pode ser bom de se ver, não só de torcer, e técnico faz diferença.
   Técnico de futebol nunca é muito considerado no Brasil. Culpa da imprensa, que sempre viu todo técnico como um Zagallo, o cara que fala frases motivadoras e dá as camisas no vestiário. Lembro que sempre que nascia um técnico com ideias ele era ridicularizado. Foi assim com Claudio Coutinho. Cilinho. E mesmo Telê Santana. Hoje eles elogiam as ideias diferentes do Mister, mas nunca tiveram paciência com Carpegianni. Nos últimos 25 anos vivemos a glória so boring de técnicos ao velho estilo gaúcho: raça e contra ataque. Mais vale um chutão pra frente que uma tentativa de tabela. Nesse mundo, tanto faz se o cara se chama Muricy ou Abel, Filipão ou Mano, Cuca ou Levir, todos são o mesmo, gaúchos em estilo, falastrões em alma. Luxemburgo foi a ideia que traiu seu criador. O ego o venceu.
   Vejo muito menino de escola surpreso. OH!!!! MAS O FLAMENGO É ASSIM? Eu explico pra eles: Sim, ele é assim. Imenso. Com alguma organização ele cresce como souflé e domina o cenário como Juventus. A tendência é a torcida aumentar ainda mais.
  Quanto ao meu time.....weeelllll preguiça de falar dele.....

O QUE A ESQUERDA É

   Eu gostaria de escrever sobre a política brasileira mas não há o que dizer sobre. Então me veio uma constatação: desde pelo menos os anos 80, mundialmente, as pessoas que mais se interessam e discutem política vivem em um mundo que morreu faz muito tempo.
  Elas ainda acreditam que ideologia define o mundo, quando na verdade, ideologia define apenas um molde, uma forma de adaptar e formatar seus pensamentos. Ideologia hoje é uma ferramenta. Um ícone que dá uma guia para seus textos. E seus pensamentos. Quase uma gravata que enfeita seu visual. Apenas perfume.
  Na velha política, ideologia era economia. E, como dizem os marxistas, dinheiro é vida.
  Então posso falar de governos como Trump ou Bolsonaro. Como ensinou Thatcher, em um tempo em que não havia internet, ou seja, Maggie não foi blindada por seus seguidores, o que define um governo são índices financeiros. Se o presidente falou mal de Cuba ou não comemora o dia do nascimento de Stalin, isso só importa à classe média festiva que posa de filósofo cabeça. Política é, desde pelo menos 1981, economia. E nesse mundo hiper realista, gente de esquerda tende a durar dois verões e viver apenas da propaganda de seus pares. Por definição, o povo de humanas nada entende de economia e se orgulha de não saber fazer contas. O que resta à eles, em politica, é fazer barulho. À direita sobra o dinheiro, ou seja, o que interessa.
  Administração e economia se complicaram muito. A velha tese, que a Argentina vai implantar mais uma vez, de que tudo se resolve com mais impostos e salário mínimo maior, se mostrou simplório. É o tipo do cálculo de quem estudou sociologia ou letras. E como são apenas criadores de narrativas, quando tudo dá errado e dará, inventam uma lenda do porque tudo não deu certo. É o que a esquerda tem feito: gastar o dinheiro feito pela direita. Quando a grana acaba, volta a direita para botar as contas em dia.
  Cada vez mais a esquerda parece ser aquilo que talvez, desde o movimento romântico, em 1810, ela sempre foi : Meninos mimados em revolta contra o papai burguês. Eles querem quebrar a cristaleira. Fumar sua maconha. E poder transar com quem quiser. Ou com o que quiser. E por favor, vamos socializar essa mesada!

FILME CULT

   Filme de arte só será cult se em seu lançamento tiver sido um fracasso. Mas eu acho que mesmo assim não será um cult de verdade.
  Isso porque a mais bela característica do cult é ser atemporal por acidente. O autêntico cult é feito sem querer. Não existe cult feito com a intenção de ser cult ( muita gente faz com essa ideia, mas jamais consegue porque a gente percebe o fake em tudo ).
  O filme nasce como apenas mais um filme, passa meio despercebido, alguém o revê anos depois, e descobre que ali há algo de muito diferente. Vira cult quando um grupo grande pessoas concorda com essa descoberta e passam a citar esse filme como um tipo de sabor adquirido.
 Groundhog Day é um cult absoluto. Em seu tempo causou algum impacto, mas foi tratado como apenas mais uma comédia de Harold Ramis. Mas então algo estranho aconteceu. Primeiro os psicanalistas e depois os religiosos, principalmente os rabinos, descobriram o filme. Os cinemaníacos vieram em seguida.
  Voce conhece o filme. Bill Murray é um meteorologista de tv mal humorado e egoísta que vai à cidade do interior cobrir o dia da marmota. Mas acontece algo estranho, o dia se repete ao infinito. Todo dia ele acorda para viver mais uma vez o mesmo dia. O mesmo tempo, as mesmas pessoas falando as mesmas coisas. Tudo igual. Positivamente isto não é uma comédia.
  O filme incomoda muito e chega a causar angústia. Murray vai do puro desespero, ele se mata várias vezes, ao cinismo, ele usa a repetição para ganhar dinheiro e sexo. No final, numa cena de aterradora beleza, ele começa se curar ao descobrir a morte do outro. Morte contra a qual ele nada pode fazer.
  Psicanalistas logo notaram que o filme exibe o processo de análise como poucas vezes o cinema pode mostrar. Murray, como um analisando, revive no presente a memória, e passa a viver essa lembrança de todos os modos possíveis. O dia, eterno dia, pode ser visto como prisão, como dor, como angústia, mas também como apreciação, chance de recomeço, auto conhecimento.
  Já para os religiosos há a ideia preciosa de que sim, os dias são iguais, mas se voce souber enxergar o que há de sagrado neles, nenhum dia será como o outro. O pecado maior é exatamente não perceber que cada dia é a chance de se fazer algo de novo. Nunca tentado antes. Um dia é apenas uma tela, sempre uma tela, mas voce pode pintar algo de único sobre essa tela.
  Há muito o que dizer sobre esse filme. Desde o fato de que todos nós vivemos dias iguais, e nos esquecemos disso, até o fato de que eles são iguais para que possamos ter um mínimo de segurança para então poder tentar o novo.
  É o melhor desempenho na vida de Bill Murray e o filme toca fundo nossos piores medos.
  Veja.

Django Reinhardt - Minor Swing



leia e escreva já!

ANOS 20

   e Então modernos? Ano que vem começam os anos 20.
  E quero saber quem vai ser o James Joyce do pedaço. O TS Eliot do verso.
  Quero ver um novo Bunuel e meu querido Buster Keaton.
  Heminguay e Fitzgerald, e uma nova música popular, uma era do jazz.
  São os anos 20 galerinha, e eles definirão todo o resto de século a ser vivido.
  Bartok e Gershwin.
  Tem algum Proust por aí?
  Um Kafka pelo menos?
  Está em formação um Beckett e um Fernando Pessoa não conhecido?
  Me manda um Picabia, um Dali e um Miró.
  Em que artista invisto?
  Há uma nova Paris ou uma ousada New York?
  São os anos loucos?
  ( são os anos deprimidos melhor dizendo )

ALDOUS HUXLEY, O CHAPÉU MEXICANO E OUTROS CONTOS.

   Houve um tempo, por volta dos anos 20, em que abundavam revistas que publicavam contos. Havia uma demanda constante por histórias, narrativas que falassem da guerra, de crimes, de horror ou de casos de amor. E algumas revistas, The New Yorker era a melhor delas, que pediam arte. Não havia romancista que não tenha começado como contista e Tchekov era o modelo a ser seguido.
   Ainda bem jovem, Huxley lançou vários contos e este livro compila alguns de seus primeiros. Ainda não é o gênio que escreveu Contraponto, muito menos o autor de ficções perturbadoras sobre a distopia do futuro. Aqui seu objetivo é descrever uma personalidade, um caráter e um momento crucial. São leves, agradáveis, bem escritos e graças a Deus, bem traduzidos. Tio Spencer é de longe o melhor conto, retrato afetivo de uma infância e de uma vida que se choca com a verdade do mundo.
  Huxley nunca é desinteressante.