PAUL MAcCARTNEY POR BARRY MILES.

   Se o rock ou o POP um dia tiveram um gênio, seu nome é Paul, e ele nasceu em Liverpool.
  Sua infância foi sem dramas. Ok, a mãe morreu cedo, de câncer, mas Paul teve a sorte de crescer em meio a tias, tios, primas, irmão, e o pai, com quem ele sempre se deu bem. Eram pobres, mas eram felizes.
  O garoto aprendeu a tocar em casa, começou a cantar e entrou na banda de John Lennon. Foram para Hamburgo, a cidade mais cheia de sexo da Europa. Ficaram famosos lá. Voltaram. Foram recusados pela Decca. A EMI os quis.
  O primeiro LP foi gravado em uma tarde. Inteiro. De uma vez só. O resto é lenda. O que entendemos por POP foi inventado pelos quatro.
  Paul compõe como Mozart: sem dor, sem esforço, sem problemas. E rápido, bem rápido. Alguns clássicos foram compostos em meia hora. Outros em dois dias. Raramente mais que isso. As músicas fluíam. Centenas e centenas. No livro Paul as comenta sem grandes pretensões. Fala coisas como; "Esta é boa", esta foi só pra completar um LP.
  Eu havia lido este longo e delicioso livro em 2001. Releio. Gosto. Muito.
  A vida de Paul foi uma vida, entre 1960-1970, o livro vai apenas até o fim dos Beatles, de galerias de arte, cinema, muitas festas e a procura por novos sons. Lennon estava a maior parte do tempo enfurnado em sua casa tomando heroína. Paul ia pesquisar. Vemos isso em fotos: Paul com Jagger, Paul com Ginsberg, Paul com hippies de Londres, Paul defendendo a maconha, Paul em shows de Hendrix e de John Cage. Geminianamente em movimento todo o tempo.
  O segredo dos Beatles é que eles foram a única banda, até hoje, a ser ao mesmo tempo hiper popular e de vanguarda. Eles eram como Michael Jackson misturado com Brian Eno em 1980. Ou como Madonna com Radiohead em 1996. Vendiam como ninguém, e ao mesmo tempo apontavam as novidades, o futuro. Em meio aos mais encantadores POP, uma colagem sonora, um loop, um solo ao contrário, um quarteto à Bach, um ruído. Entre 63 e 68 eles foram a ponta. Em vendas e em arrojo. Em 69 perderam o pé. No mundo novo de Sly Stone e de Led Zeppelin começaram a ficar apenas POP.
  Leiam.

AQUELE MOMENTO-VIDA EM QUE NÓS ESTAMOS COMPLETAMENTE AQUI E AGORA.

   Eu a desejo.
 E por isso sou agora um corpo. Porque ela é o único corpo que existe. Não há mais dúvida em mim. Eu sou minha pele. Meu sangue. Porque ela é mais que pele e sangue. É um universo completo.
 A vida se torna simples. Estou aqui. Sou um homem que deseja. Meu corpo grita por ela. Mas falemos dos lugares...
 As ruas passam a ser aquilo que são: caminhos. E o passado morre. O tempo é agora, uma corrente de agoras. Tudo leva à ela.
 Consciência do corpo. O apaixonado atrai porque o corpo passa a viver inteiro. Olhos, mãos e boca vivem sua vida em plenitude.
 O corpo vive apenas nos momentos como este: em paixão. No resto do tempo realizamos simulacros de paixão. Roupas, maquiagem, exercícios, brilho intelectual: tudo busca simular o estado de apaixonado. Tudo afugenta eros. Ele só vem quando não é chamado.
 O corpo sabe tudo. Anda pelos dias recolhendo prazeres doloridos. Ele sabe que a paixão termina sempre em morte. Morte do próprio corpo ou mortes várias, simbólicas, reais. E ele sabe, o corpo, que ele existe para isso: paixão.
 Eu a vejo e quero cheirar ela. Entrar nela. Viver dentro dela. Comer ela. Ser dela e ter ela como escrava. Ser como ela é. Fazer dela o que sou. Corporalmente. Eis a verdade da matéria. Fundir-se dois em um. O milagre.
 Durmo menos e não sofro por isso. Nem mesmo posso dizer que alguma coisa aqui é sofrimento. Estou desperto. A vida material, o agora, o preciso instante me é um amigo leal. Ando de mãos dadas com a vida.
 Não falo dela porque sua beleza jamais poderá ser expressa em palavras. O amante não embeleza a amada. Ele revela ao mundo a beleza que sempre foi dela. E nesse processo ele próprio se embeleza.
 Mas há o cheiro. O cio. O sangue no olho. Ela é ruim como uma matilha de lobos. Ela é a natureza real. Morte e parto. Comer e ser devorado. Ela é mulher. Basta de letras!

POSSESSÃO - A.S. BYATT

   A autora Byatt ganhou o Booker Prize de 1990 graças a este livro. O que depõe contra o prêmio.
   Temos aqui a história de um professor de estudos literários que encontra dentro de um livro antigo uma carta de um poeta do século XIX. Com a ajuda de uma professora feminista, ele tenta entender a história de amor desse poeta com uma obscura escritora feminista. Esse enredo vira uma suave história de amor. Escrita do modo mais convencional possível. Apesar da mistura de tempos e dos paralelos entre vidas, é um simples novelão.
   Virou filme em 1997. O filme é menos ruim. O que sempre é mal sinal para o livro.
   Fujam.

Old Grey Whistle Test - Ultravox from 5/12/78



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ULTRAVOX! , UM GRANDE, GRANDE PRIMEIRO DISCO.

   Em 1976 o Ultravox começa a gravar seu primeiro disco. A sonoridade irá lembrar a banda pela qual eles têm profundo amor: Roxy Music. E o acento de exclamação no nome ( ! ), é homenagem a banda alemã NEU!
   Brian Eno produz os caras. Mas larga a produção antes do final para viajar à Berlin, onde vai encontrar Bowie voce sabe pra que. Em seu lugar assume o jovem Steve Lyllywhite, que será o produtor dos primeiros 4 discos do U2. Depois será Eno. A vida é ironia.
  O disco sai pela Island em 1977. Dois produtores, Eno e Steve. E, que azar, é o ano do punk. A banda será chamada de muito velha para ser punk e muito nova para o glam rock. Entre 1977 e 1979 lançam 3 discos. Todos incensados pelos críticos. Todos amados pelos futuros músicos dos anos 80. Todos ignorados pelo público de então, povo que ouvia punk, ska e a new wave de Costello e Ian Dury. Este primeiro disco, Ultravox! antecipa em cinco anos a música de 1981, a música da primeira metade da década de 80.
  John Foxx é o vocal. Ele sairia em 1980. Midge Ure entraria no lugar e a banda estouraria nas paradas com Vienna. Mas este disco é melhor. Bem melhor. Foxx era mais ousado, mais "do mal", mais sexy. O som do disco é puro Roxy. Um Roxy em que Phil Manzanera tocasse menos e Eddie Jobson muito mais. O som do disco é o som do violino elétrico de Rusty Egan. Imagine Ferry cantando estas canções e voce imagina um disco do Roxy de 1976. ( Em 76 a banda não existia mais. Voltaria em 79 modificada ).
  Nick Rhodes diz que o disco é seu favorito. Rhodes fundaria em 1979 o Duran Duran. O Ultravox! é um Duran menos pop e bem mais perigoso. A faixa My Sex é uma obra prima. E termina cortada pelo meio, como Eno faria em Low. Mas o disco é mais que ela. São oito canções tristes. E ao mesmo tempo desafiantes. Ouça.

Ultravox - My Sex (Best Quality + Lyrics)



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AVICENA E O DIA DOS MORTOS.

   A questão que encerra o curso é: De onde vem nossa inteligência, nossa consciência e nosso saber. Eis a base de toda filosofia. Três modos de pensar respondem essa questão: A consciência vem do alto e flui para dentro de nós. Ela nasce conosco e olha o mundo. Ou uma terceira via, que é a de Avicena: ela vem de fora, entra em nós e retorna ao cosmo. Não aceito nenhuma das três, e possivelmente, eu, como voce, partiremos desta vida sem saber.
  Avicena se intrigava com a mecânica do olhar. O que nos faz reconhecer uma flor como parte do reino das flores. O particular como uma fração do universal. O que faz com que reconheçamos o que vemos como O Real. Isso era para ele a inteligência primeira.
  O que me inquieta é não saber como se processa o que faço agora. Um bocado de sangue e carne estar neste momento consciente de si mesmo. E produzindo abstração. A criação do mundo dos números é um fato inescrutável.
  Estou agora aqui. Ali eles estão. Eu sei que esse ele não mais está ali. Pois se ele era apenas máquina, essa máquina deixou de funcionar. Pior ainda, enferrujou e apodreceu. Por outro lado, se ele tinha alma, luz, energia, pensamento cósmico, o que seja, ele também não está aqui, pois seu corpo seria apenas o rádio e não a onda que traz o som. Mas eu, nós, vamos ao cemitério e ficamos aqui. Olho a lápide.
  Fecho os olhos e ouço: pássaros cantam, vozes ao longe, vento nas folhas, minha respiração, passos. Abro os olhos e vejo: folhas no alto, sombra, grama, uma linda mulher, uma família de Quero-Quero. Fecho os olhos e sinto: vida ao redor. Vida dentro de mim. Vida neles. Vida nos passarinhos. Vida exercendo seu poder.
  Paz absoluta então.