BELEZA - ROGER SCRUTON

   Como vou começar a escrever sobre um livro tão imenso...Apenas 200 páginas, mas vasto, largo, direto e por isso cheio de ideias. Impossível lhe fazer justiça, então usarei a mais kitsch das artes como exemplo para o que quero dizer. O cinema. Vamos lá então...
  Em um mundo onde a experiência do sagrado entra em crise por causa da decadência das religiões, a arte passa a ter a incumbência, imensa, de dar aos homens esse contato com aquilo que seja mais importante: a beleza. Esse pensamento surge apenas na última linha do texto, e para chegar até aí, Scruton nos convence do porque da beleza ser um conceito tão importante.
  Ele não nos diz, de forma proposital, o que é a beleza; nos diz para que ela serve, por que ela existe e como ela funciona. Para Scruton, a busca pela beleza e o prazer com ela é um fato inerente ao homem. Toda cultura, em todos os tempos, produziu artefatos, arte, cerimonias, hábitos revestidos de beleza; e quando essa beleza atinge o grau de sacralidade, se alcança seu pleno poder.
  Nada há de místico nisso. Scruton evita tocar em conceitos como fé ou crença. Um objeto se torna sagrado quando " ele está neste mundo mas não é deste mundo". Trata-se de algo que é único e insubstituível.
  Temos essa experiência ao amar alguém. A pessoa amada, se torna sagrada, ou seja, uma pessoa que não pode ser substituída por outra. Ao mesmo tempo, tudo o que essa pessoa diz ou toca, passa a ter algo de único, de encantatório. Scruton tece então comentários sobre vicio e pornografia que são bastante esclarecedores. A beleza nunca vicia porque ela não dá, jamais, um prazer imediato. A beleza não pode ser comprada, não pode ser automatizada. Ela requer tempo, disposição, tato e seu retorno nunca é garantido. Já a pornografia é garantida. O prazer é imediato, automático e simples. Por isso ele pode se transformar em vicio, é uma satisfação, uma recompensa que se faz em um toque, com um objeto, simples e prático.
  Scruton, falando do corpo, diz que a pornografia nega o rosto, transforma corpos em coisas sem face. Há um ódio ao rosto na pornografia porque é no rosto que vive nossa faceta humana e sagrada. Não existem dois rostos iguais, olhos transmitem sentimentos, desejos, medos, tudo aquilo que a pornografia não aceita, ou seja, complexidades. Para a pornografia, um corpo é uma coisa que produz sexo. E sexo é o corpo.
  Sexo, no mundo pornô, é exatamente aquilo que Freud dizia, que o impulso sexual é um apetite como a fome e a sede, e como tal deve ser tratado. Triste falha! Sexo, no ponto de vista da beleza, é uma dádiva dada à quem merece. Muito mais que fome ou sede, ele requer uma pessoa escolhida, e só aquela que é escolhida. Visto desse modo, o sexo valoriza o ato, dá espiritualidade ao corpo e dignifica quem o usufrui. Torna-se o encontro de dois corpos, únicos e individualizados, que procuram um no outro encontrar sua sacralidade dando ao outro a sacralidade que ele tem.
  Eu disse que ia falar de cinema e acabei nada dizendo. Falo agora.
  Scruton tem amor por música e arquitetura. São suas artes favoritas. Mas ele fala de cinema numa certa hora. Ele diz que o cinema barateia a beleza, a faz ser kitsch e o kitsch é o maior mal do nosso tempo. Kitsch é a emoção que substitui a experiência. Ela empobrece o gosto e amortiza a vida. Explico.
  Digamos que sua casa tenha uma imagem de Jesus e outra de Maria. E voce leve no pescoço um terço. E ainda tenha uma tatuagem de São Jorge no peito. Tudo isso é kitsch. O kitsch é o movimento que se apossa de uma imagem sagrada e a transforma em coisa banal. Por exemplo, vivemos, para nossa grande dor, a vulgarização do funeral, do casamento e do aniversário. Ao serem usados símbolos barateados, ao se repetirem por convenção atos e palavras sem compreensão do que elas significam, se transformou em puro kitsch, aparência sem substãncia, aquilo que era aparência da presença do sagrado.
  O homem precisa desse objeto. E hoje o procura num carro especial, num vestido exclusivo, numa casa isolada. Nada encontra nisso, apenas mais kitsch.
  No cinema, Scruton, para minha grande alegria, cita Ingmar Bergman como um diretor que realmente sabia produzir beleza. Para Scruton, filmes como A Fonte da Donzela e O Sétimo Selo atingem o alvo em cada fotograma. Todos os objetos em cena, cada xícara, animal, janela ou vestimenta, têm um motivo para estar presente, cada cena tem um porque dentro do todo e cada fotograma pode ser enquadrado, os filmes são segundos e minutos de beleza que se sucedem. Como maior exemplo ele cita Morangos Silvestres, o filme que serve para percebermos a diferença entre imaginação e fantasia.
  Imaginação é criar o novo dentro da realidade. Nessa imaginação tudo tem regras próprias e funciona de acordo com a imaginação do criador, o artista. Já na fantasia o que se faz é falsear a realidade, pretender ser real sendo fantasia. É uma verdade que parece morta, porque ela é uma realidade mentirosa. Há milhares de exemplos de filmes assim, desde policiais toscos até pretensas obras sérias que são pura fantasia.
  Outro fato que Scruton destaca, é que na verdadeira obra de arte, sabemos todo o tempo que o que vemos é uma imaginação, uma criação de uma mente, e não a vida real. Estamos diante de um filme, que nos emociona profundamente, mas é sempre um filme, e por isso é belo. Já a falsa obra de arte ela nos confunde e tenta produzir tanta emoção quanto possível. Torna-se um tipo de hipnose onde esquecemos estar diante de uma obra artificial, e tontos, apenas sentimos aquilo que desejam que sintamos.
  Há um preço pela beleza. Quando ouvimos uma obra de Wagner, vemos um filme de Bergman, ou lemos Tolstoi, o autor nos pede várias coisas. Atenção, tempo, calma, disposição, alguma cultura, detalhismo. No kitsch tudo é dado de graça. Voce terá risos, choro, filosofia, pensamentos bonitos, tragédias terríveis, tudo à custo de quase nada e sem o menor esforço. Rápido, destruidor, dilacerador, e , claro, sem nada que dure e permaneça. Ou pior, dando ao expectador a impressão de ter visto algo de belo, quando na verdade o que ele viu foi algo de sensacional. Como rastro, fica o vicio. Nesse regime de emoções baratas, a pessoa passa a exigir isso da vida, ou seja, satisfação imediata. E esse tipo de satisfação somente os vícios podem dar.
  Scruton fala ainda da beleza da natureza, como ela funciona em nós, da beleza dos pequenos objetos que nos cercam, da beleza de uma rua discreta ( ele é inglês, ele ama a beleza discreta ). Não preciso dizer que é um livro belo.é digno de seu tema.
 

A DIFICULDADE DE SER - JEAN COCTEAU, ESSE VAIDOSO.

   Jean Cocteau fez dois dos filmes mais belos que já vi: A Bela e a Fera, que é uma aula de clima onírico e de pontuação de drama; e Orfeu, um dos melhores retratos do sonho em filme. Todos os dois brilhantemente fotografados. Mas Cocteau foi mais que isso! Ele foi designer, foi pintor, poeta, coreógrafo. Esteve no centro do furacão, fez obras com Stravinsky, com Satie, Picasso, Nijinski. Foi amigo de todo mundo. Picasso o adorava e não o suportava. Pois bem...
  Mas eis este livrinho e para o bem e para o mal, ele é francês, muito muito francês. Cocteau se olha, se escuta, se pensa, se exilia de si mesmo para estar mais perto de sua sombra. O livro todo é Cocteau e só Cocteau. Eu detesto esse tipo de escrita masturbatória, cega, auto centrada, sofrida, estéril, pouco viril. Cocteau se apaixona pela sintaxe, se deixa seduzir pela própria voz. Fala para si mesmo e no fim do livro confessa: Fez o livrinho para que ao ser lido, por mim, ele, Cocteau, ressuscitasse. Compor um livro tão cheio de Cocteau, que ao ser lido seria como encarnar Cocteau. Ele diz clara e textualmente: Quem o ler será habitado por mim.
  Essa frase é bela e ecoa nela o clima dos filmes de Jean Cocteau. Mas seria melhor se ela tivesse funcionado. Mas não. O livro é apenas um choramingar sem fim. O melhor é quando ele fala de alguém interessante, por exemplo, as linhas em que ele recorda Proust. Essas respiram, são vivas. Quando ele volta a ver apenas seu rosto, o livro cai. Se fecha e asfixia.
  Proust foi ainda mais fechado que Cocteau, mas a escrita de Proust é espírita, somos tomados por seu mundo e ao ler nos transformamos em Marcel Proust. Cocteau quer o mesmo dom: não o possui. E assim, não nos possui.
  O molde é o de Montaigne, se examinar e contar tudo. Mas Montaigne surge em seu vício vaidoso como um sábio, Cocteau é apenas um vaidoso pretensioso. Sei que estou sendo cruel com um talento imenso como é Jean Cocteau, mas acontece que ele representa aquilo que mais odeio na literatura, a vaidade, a auto exposição sem freio, a ausência absoluta de invenção.
  Talvez aos 14 anos eu amasse este livro. Mas não.

TORNATORE- JASON STATHAM- JOHN HUSTON- DIANE LANE- MALICK- MICHAEL CAINE

   RAÍZES DO CÉU de John Huston com Trevor Howard, Errol Flynn e Juliette Gréco.
De 1957, este é um dos fracassos de público e de crítica de Huston. Mas...que coisa! É um filme muito bom! Ele se passa na África francesa, e mostra um inglês, Howard, excelente, tentando defender os elefantes da matança. Ou seja, o caçador Huston faz um filme ecológico. Isso porque, como mostra o ótimo filme de Clint Eastwood, quando filmou The African Queen, em 1951, Huston teve um arrependimento. Viu que elefantes são sagrados e não podem ser mortos. Neste filme, feito sete anos mais tarde ao seu grande sucesso, African Queen, vemos como ainda era visto como insano aquele que pensasse em defender bichos. O inglês é tratado pelos outros colonos como um louco, um tipo de desequilibrado que prefere animais à humanos. Na época, 30.000 elefantes eram alegremente mortos por ano, isso sem contar os filhotes abandonados à sorte! Huston se preocupou com isso, e este filme, incompreendido então, sofreu por parecer em 1957, bobo. Sem assunto relevante... Os únicos que ajudam o lutador ecológico são uma prostituta, feita pela musa dos existencialista, Juliette Gréco, e um bêbado, feito por Errol Flynn. O filme é poderoso, bonito, e muito atual.
   SECRETARIAT de Randall Wallace com Diane Lane e John Malkovich.
Baseado numa história real, o filme conta a saga de uma mulher que consegue transformar seu cavalo no maior corredor de todos os tempos. O único desde muito, a ganhar a tríplice coroa americana. Eis um filme muito legal, aquele tipo de filme "empolgante" que só o cinema americano sabe fazer. Notei isso enquanto via o filme, o modo como ele vai num crescendo, até o êxtase final. Voce já viu filmes nesse esquema, e quando funcionam são sempre bons de se ver. Voce sabe que o cavalo vai vencer e mesmo assim fica em suspense e emocionado. Malkovich está maravilhoso fazendo um treinador elegante e excêntrico. E Diane nasceu para fazer esse tipo de papel. Ótima diversão!
   O NOVO MUNDO de Terrence Malick com Colin Farrell, Christopher Plummer e Christian Bale.
É uma bela experiência. Na primeira parte Malick nos faz ver o que era os EUA em 1600 com um realismo soberbo. Medo, violência e crueldade. Fome, muita fome. Depois há a história do envolvimento de um índia com dois homens. O filme é longo e lento, e vale à pena. Não espere a filosofia metafísica de Malick, este é para ser visto e fruído.
   FUNERAL EM BERLIN de Guy Hamilton com Michael Caine.
A fama internacional de Caine nasceu com este personagem, o detetive Harry Palmer, um tipo de 007 sem glamour. Palmer tem pouco dinheiro, é feio e suas missões são realistas, ou seja, pouca ação e muita complicação. O filme não é bom. Mas o clima de guerra fria é delicioso. Fico pensando em como esse mundo já me parece antigo. Caine está excelente.
  ASSASSINO A PREÇO FIXO 2 de Dennis Gansel com Jason Statham, Jessica Alba.
Eu adoro os filmes de Statham. São bem editados, nada pretensiosos e ele é um ator muito simpático. Mas este aqui é tão mal escrito que chega a insultar.
  LEMBRANÇAS DE UM AMOR ETERNO de Giuseppe Tornatore com Olga Kurylenko e Jeremy Irons.
Que filme ruim!!!!!!!!!!!!! Como em seu filme anterior, Tornatore fala das aparências, da verdade que pode ser ilusória e da mentira que se sustenta como realidade. Uma moça perde seu namorado e ele deixa tudo organizado para parecer ainda estar vivo. Dio mio! Olga se revela boa atriz e Irons continua fazendo filmes ruins. Tornatore nunca me enganou.
   O RESGATE DO BANDOLEIRO de Budd Boetticher com Randolph Scott e Richard Boone.
Budd era assim: dois cenários e cinco atores e ele te dá em 18 dias um bom filme. O filme B, como este, é o equivalente ao que hoje é a série de TV. Uma equipe de direção e produção fazendo bons roteiros de uma forma decente e direta, objetiva. Neste western de 1958, temos Scott preso por bandidos. O filme inteiro é sua tentativa de se sair bem. Muito suspense, alguma violência em um filme que não é uma obra-prima, mas é uma bela diversão. Tem comentários de Scorsese e de Peter Bogdanovich que botam o filme lá no alto.

Midnight Special-LaBelle "Lady Marmalade"



leia e escreva já!

lipps inc funky town 1979 HD 16:9



leia e escreva já!

Chic - Good Times (Tilt 1979)



leia e escreva já!

NÓS ERRAMOS E PEÇO PERDÃO ( OUTRA VEZ )

  Imagine um cara que em 1977 está ouvindo Lynyrd Skynyrd. E também Led Zeppelin, The Who e Eagles. Então ele vê na TV um negro de um metro e noventa descendo uma escada. Esse negro está maquiado, tem um leque e se move como uma bicha. Que reação esse cara vai ter...Pior de tudo: esse gay canta as alegrias do amor físico. ALEGRIA.
  Cena dois. Uma garota é, em 1976, louca por Peter Frampton, Paul MacCartney...então ela vê uma mulher, desajeitada, rebolando como uma prostituta das mais baratas. Ela pede mais sexo, more more more, e pela primeira vez essa menina do rock vê uma puta barata na TV.
  Mais uma cena. Dois irmãos do Brasil, que ouvem Stones, Rod e Purple, acham cômico uma música besta que fala de macho man. Mas ao ver o clip num domingo de noite se sentem estranhos...tem uns caras rebolando, um bigodudo vestido de couro preto, um índio meio pelado...que é isso!
  Pela primeira vez na história do POP ( se a gente ignorar o jazz, pois o jazz nunca foi POP ), a música do bordel se tornou mainstream. Sim, porque o que mais nos incomodava na disco era o fato de seu amadorismo e seu sexo barato, muito barato. E feliz. No rock sexo é sempre dor, ansiedade ou desafio. Na disco ele era uma noite no puteiro. E esse local tinha além de suas meninas desajeitadas, bichas, muitas bichas alegres e sem vergonha.
  Como reagiu o mainstream, eu incluído...COM ÓDIO! Um ódio que voce, que tem hoje 30 anos, não pode nem imaginar... tanto ódio que os fãs chegaram a juntar 3 toneladas de discos de disco e os destruir dentro de um estádio de beisebol. Mas esse ódio era do que...
  Alegria, latinos, negros, gays, todos felizes e se exibindo...isso não pode!!!! E a acusação foi aquela de sempre, ISSO NÃO É MÚSICA! Claro, não se podia assumir o preconceito de raça e de sexo...
  É música sim! Os caras cantavam e tocavam muito bem e os arranjos, alguns, são coisa de gênio. Longos arranjos de violinos, de baixo e de percussão. Lindo!
  Madonna e Prince, espertamente, pegaram tudo da disco, deram um banho de loja e o deixaram aceitável para muitos dos ex raivosos. Mas nos anos 80 já havia algo de neurótico na coisa, a AIDS, a repetição de algo que fora espontâneo, alguma coisa parecia fake em 1986. Hoje, 2017, Beyoncé e que tais continuam a repetir a festa. Mas quanto mais o luxo aumenta menos feliz ele parece.
  Em 1976 os loucos tomaram os negócios. Raivosos e idealistas tomaram via PUNK. Deslumbrados e festeiros via DISCO. Foram quatro anos fantásticos! ( Hoje os loucos tomam as rédeas em casa, e isso não causa nada de novo ).
  E eu, em 1978, ouvindo Kiss, Aerosmith, perdi a festa...
  ( Mentira! Eu ouvia disco e ia à Banana Power escondido... ).

Sylvester - You Make Me Feel (Mighty Real) - 1978 (By Lázaro)



leia e escreva já!

Andrea True Connection - More,more,more (Musikladen Live Performance) Or...



leia e escreva já!

O PRAZER DE PENSAR - THEODORE DALRYMPLE. UM PRAZER EM FORMA DE LIVRO.

   Meu primeiro livro deste autor. Na verdade seu nome é Anthony Daniels e nasceu em 1949, Londres. É médico psiquiatra. Trabalhou e trabalha em clínicas. Mas esse nem de longe é o assunto do livro.
   Dalrymple, que esteve aqui no Brasil e foi atração do Roda Viva, proseia solto tendo por fio condutor sua biblioteca. Ele se assume como acumulador. Tem milhares de livros, comprados pelo mundo afora ( ele viaja muito, com preferência pela Africa e América do Sul ). Livros muito raros, livros de sebos, livros rabiscados, assinados, sujos. Ele dá a mais bela explicação do porque um livro ser insubstituível. Kindles e outras ferramentas são apenas isso, ferramentas. Máquinas que executam um trabalho. Ele também descreve o porque do prazer estar ausente no ato de se encontrar um livro raro na internet. O prazer da busca, da averiguação, da caça e do encontro. O prazer de se encontrar um livro tão desejado quando já quase se desistia. ( Tive essa experiência 3 vezes e estranhamente sempre no mesmo sebo. Fiquei anos procurando esses livros e os encontrei entre pilhas de livros ruins, em momentos diferentes, nesse sebo que não existe mais ).
  Dalrymple fala então em cada curto capítulo de um tema. Por exemplo, ele fala de um livro sobre enforcamentos ( seus livros são assim, temas os mais inusitados ). E descobre que a Inglaterra tinha um amor infinito por crimes hediondos. E que a decadência do país começa quando os crimes perdem sua atração por se tornarem vulgares. Inexiste mais o grande crime, o grande bandido, a grande história macabra. E a velha Inglaterra amava isso. Como amava venenos, forcas, cemitérios e maldições. Tudo isso se foi. A Inglaterra, mais que a França, segundo ele, perdeu completamente seu caráter.
  Há mais nesta fascinante conversa. Ele fala da pior, a mais cruel guerra da história, a do Paraguai. Ele esteve em Assuncion. Foi a guerra em que 75% da população masculina de um país foi morta. Em 4 anos. Diz que a culpa foi toda do ditador paraguaio, o homem que queria ser o Napoleão do sul. Então vem um tema maravilhoso. Dalrymple discorre sobre os ditadores daqui e da África dos anos 70. Puro horror. E dá o diagnóstico, simples e brilhante, dos intelectuais que apoiavam esses ditadores. Ressentimento é a palavra básica.
  Doenças tropicais, cemitérios, outros colecionadores de livros, o por que dos jovens não irem a sebos, o fim da cultura do livro, Dalrymple vai lembrando de volumes que caçou, que encontrou, que leu. Livros sobre a asma, sobre vacinas, sobre gado, sobre livros. Fala de canetas, de cabelo, de tintura. E  tem boas sacadas, ou não. Pois o principal neste livro é sua falta de pedantismo, de ambição. Aliás, ele fala sobre pedantismo também!
  Para quem ama livros, ama autógrafos, sebos, coleções, é obrigatório!

OS ANOS 70 FORAM UMA BOSTA.

   Quem me lê sabe que eu tenho um banzo pelos anos 70. Foi a época de meus 12, 13 anos e de bons discos. Mas foi uma bosta de tempo também!
  A gente acha que estes anos, 2016, 2017, são um tempo de violência e de extremismo. Mas os anos 70, creia, foram bem piores. A diferença é que não havia tanta comunicação pra exibir o sangue na nossa cara.
  Nem vou falar do Vietnã. Nem do Camboja. Vou falar que quase todos os países africanos tinham ditadores que matavam por prazer e que se auto denominavam "Imperadores Divinos" ou "Guias do Futuro". Havia uma guerra entre fronteiras, guerrilhas comunistas, grupos de extermínio.
  O pior de tudo é que os anos 70 foram os anos em que a figura do intelectual como líder politico atingiu seu auge. Qualquer garoto de óculos Lennon era levado a sério. Isso mesmo nos EUA e na GB. Hoje eles existem ainda, mas fedem à passado. Naqueles tempos pareciam ser o futuro. As pessoas ainda não tinham enxergado que esses caras são apenas pessoas frustradas por sua desimportância.
  Aqui na Sulamérica, ditadores de direita posavam como machos alfa e eram eliminados por outros mais machos que eles. Pior era que a única alternativa eram machos alfa de barba e boina. O que era a mesma bosta. Fidel ainda era levado a sério. Assim como Mao e Tito.
  Todo país europeu tinha seu grupinho terrorista. Todos eram comunistas e queriam expulsar os EUA da Europa. Eles matavam inocentes pelo bem futuro. Os anos 70 foram auge da criminosa filosofia que diz: Os fins justificam os meios.
  Nos anos 70 tinha terrorismo até no Canadá!
  Sim, tudo era compensado por comédias bacanas, carros grandões e gênios do esporte. Mas foram anos violentos. Muito violentos. E felizmente não existiam câmeras pra preservar todo esse horror pra sempre.

ROVERANDOM - J.R.R. TOLKIEN

   Em férias na praia, com sua esposa e seus três filhos, Tolkien inventa para Michael, seu filho do meio, a história de um cachorro que é transformado em brinquedo por um feiticeiro vingativo. Tolkien cria essa história como consolo ao filho, que havia perdido seu cachorro de brinquedo. Era um cachorrinho de chumbo, pesado, pequeno, amado pelo menino que o carregava nas mãos para todo canto. Procuraram na praia por dois dias, mas o brinquedo nunca foi encontrado.
  Depois de narrar a história-consolo para o filho, Tolkien a escreveu mas nunca a publicou. Morto em 1973, a aventura do cachorro Rover vira livro em 1982. É um livro infantil, não procure nenhum simbolismo, nenhuma mensagem, é apenas uma história bem contada. E que alívio, que prazer poder ler linhas tão bem escritas!
  Rover é um cão de verdade que vira brinquedo. E esse brinquedo é perdido na praia. Um outro mago faz com que ele vá para a Lua e lá ele vive aventuras com o Homem da Lua e o Cachorro da Lua. Depois Rover vive um tempo no mar, como cachorro marinho e ao fim retorna a seu dono original, que não é o filho de Tolkien, mas sim o menino anterior à sua condição inanimada.
  A história se desenvolve em meio a cenários simples e maravilhosos, personagens que vão de dragões lunares à sereias e gaivotas que podem voar pelo espaço. É bonito, é fácil de ler e é divertido. Um inesquecível presente para uma criança de 10 anos, um ótimo conto para um adulto que ainda dê valor às coisas da imaginação.

Ray Davies(Kinks) Waterloo Sunset Glastonbury 2010



leia e escreva já!

UMA CÂMERA PARADA E UM CARA DE PALETÓ

   Desde 1968 os londrinos seguem a letra desta canção. Podem não mais lutarem na rua, mas continuam morrendo de tédio e fazendo bandas ( ou sendo DJs ) por não ter opção. Pois no mundo seguro do primeiro mundo, onde se marcha na onda do consumo e gastar dinheiro é tão vital como respirar, Street Fighting Man perdeu a atualidade porque não mais se luta, mas continua um lembrete válido, sinal de nossa prisão.
   Eu nunca havia visto o clip original, e acho que voce também não. Uma câmera no tripé, parada, e Mick Jagger com um paletó largo indo e vindo no meio da escuridão. Não é o Mick dos trejeitos. É o cantor ainda lindamente sem jeito. E ele marcha, anda, volta a marchar, dá um chute, gira como o relógio do tempo, como autômato do século XVIII, não dança e não finge cantar. Aos 24 anos ( !!!!!! ) ele alardeia sua relevância central no momento mais perigoso do século mais fatal.
   Ingleses gostam de dizer que Waterloo Sunset é o hino não-oficial de Londres. Musicalmente ela é mais presente neste século. Centenas de bandas imitam essa sonoridade. E Ray Davies, sempre um conservador, faz uma elegia à velha cidade de Vitória e de Disraeli. Mas Street Fighting Man é o hino do subterrâneo, a memória daquilo que deu errado.
   Esse clip, postado abaixo, é um assombro.