O PRAZER DE PENSAR - THEODORE DALRYMPLE. UM PRAZER EM FORMA DE LIVRO.

   Meu primeiro livro deste autor. Na verdade seu nome é Anthony Daniels e nasceu em 1949, Londres. É médico psiquiatra. Trabalhou e trabalha em clínicas. Mas esse nem de longe é o assunto do livro.
   Dalrymple, que esteve aqui no Brasil e foi atração do Roda Viva, proseia solto tendo por fio condutor sua biblioteca. Ele se assume como acumulador. Tem milhares de livros, comprados pelo mundo afora ( ele viaja muito, com preferência pela Africa e América do Sul ). Livros muito raros, livros de sebos, livros rabiscados, assinados, sujos. Ele dá a mais bela explicação do porque um livro ser insubstituível. Kindles e outras ferramentas são apenas isso, ferramentas. Máquinas que executam um trabalho. Ele também descreve o porque do prazer estar ausente no ato de se encontrar um livro raro na internet. O prazer da busca, da averiguação, da caça e do encontro. O prazer de se encontrar um livro tão desejado quando já quase se desistia. ( Tive essa experiência 3 vezes e estranhamente sempre no mesmo sebo. Fiquei anos procurando esses livros e os encontrei entre pilhas de livros ruins, em momentos diferentes, nesse sebo que não existe mais ).
  Dalrymple fala então em cada curto capítulo de um tema. Por exemplo, ele fala de um livro sobre enforcamentos ( seus livros são assim, temas os mais inusitados ). E descobre que a Inglaterra tinha um amor infinito por crimes hediondos. E que a decadência do país começa quando os crimes perdem sua atração por se tornarem vulgares. Inexiste mais o grande crime, o grande bandido, a grande história macabra. E a velha Inglaterra amava isso. Como amava venenos, forcas, cemitérios e maldições. Tudo isso se foi. A Inglaterra, mais que a França, segundo ele, perdeu completamente seu caráter.
  Há mais nesta fascinante conversa. Ele fala da pior, a mais cruel guerra da história, a do Paraguai. Ele esteve em Assuncion. Foi a guerra em que 75% da população masculina de um país foi morta. Em 4 anos. Diz que a culpa foi toda do ditador paraguaio, o homem que queria ser o Napoleão do sul. Então vem um tema maravilhoso. Dalrymple discorre sobre os ditadores daqui e da África dos anos 70. Puro horror. E dá o diagnóstico, simples e brilhante, dos intelectuais que apoiavam esses ditadores. Ressentimento é a palavra básica.
  Doenças tropicais, cemitérios, outros colecionadores de livros, o por que dos jovens não irem a sebos, o fim da cultura do livro, Dalrymple vai lembrando de volumes que caçou, que encontrou, que leu. Livros sobre a asma, sobre vacinas, sobre gado, sobre livros. Fala de canetas, de cabelo, de tintura. E  tem boas sacadas, ou não. Pois o principal neste livro é sua falta de pedantismo, de ambição. Aliás, ele fala sobre pedantismo também!
  Para quem ama livros, ama autógrafos, sebos, coleções, é obrigatório!

OS ANOS 70 FORAM UMA BOSTA.

   Quem me lê sabe que eu tenho um banzo pelos anos 70. Foi a época de meus 12, 13 anos e de bons discos. Mas foi uma bosta de tempo também!
  A gente acha que estes anos, 2016, 2017, são um tempo de violência e de extremismo. Mas os anos 70, creia, foram bem piores. A diferença é que não havia tanta comunicação pra exibir o sangue na nossa cara.
  Nem vou falar do Vietnã. Nem do Camboja. Vou falar que quase todos os países africanos tinham ditadores que matavam por prazer e que se auto denominavam "Imperadores Divinos" ou "Guias do Futuro". Havia uma guerra entre fronteiras, guerrilhas comunistas, grupos de extermínio.
  O pior de tudo é que os anos 70 foram os anos em que a figura do intelectual como líder politico atingiu seu auge. Qualquer garoto de óculos Lennon era levado a sério. Isso mesmo nos EUA e na GB. Hoje eles existem ainda, mas fedem à passado. Naqueles tempos pareciam ser o futuro. As pessoas ainda não tinham enxergado que esses caras são apenas pessoas frustradas por sua desimportância.
  Aqui na Sulamérica, ditadores de direita posavam como machos alfa e eram eliminados por outros mais machos que eles. Pior era que a única alternativa eram machos alfa de barba e boina. O que era a mesma bosta. Fidel ainda era levado a sério. Assim como Mao e Tito.
  Todo país europeu tinha seu grupinho terrorista. Todos eram comunistas e queriam expulsar os EUA da Europa. Eles matavam inocentes pelo bem futuro. Os anos 70 foram auge da criminosa filosofia que diz: Os fins justificam os meios.
  Nos anos 70 tinha terrorismo até no Canadá!
  Sim, tudo era compensado por comédias bacanas, carros grandões e gênios do esporte. Mas foram anos violentos. Muito violentos. E felizmente não existiam câmeras pra preservar todo esse horror pra sempre.

ROVERANDOM - J.R.R. TOLKIEN

   Em férias na praia, com sua esposa e seus três filhos, Tolkien inventa para Michael, seu filho do meio, a história de um cachorro que é transformado em brinquedo por um feiticeiro vingativo. Tolkien cria essa história como consolo ao filho, que havia perdido seu cachorro de brinquedo. Era um cachorrinho de chumbo, pesado, pequeno, amado pelo menino que o carregava nas mãos para todo canto. Procuraram na praia por dois dias, mas o brinquedo nunca foi encontrado.
  Depois de narrar a história-consolo para o filho, Tolkien a escreveu mas nunca a publicou. Morto em 1973, a aventura do cachorro Rover vira livro em 1982. É um livro infantil, não procure nenhum simbolismo, nenhuma mensagem, é apenas uma história bem contada. E que alívio, que prazer poder ler linhas tão bem escritas!
  Rover é um cão de verdade que vira brinquedo. E esse brinquedo é perdido na praia. Um outro mago faz com que ele vá para a Lua e lá ele vive aventuras com o Homem da Lua e o Cachorro da Lua. Depois Rover vive um tempo no mar, como cachorro marinho e ao fim retorna a seu dono original, que não é o filho de Tolkien, mas sim o menino anterior à sua condição inanimada.
  A história se desenvolve em meio a cenários simples e maravilhosos, personagens que vão de dragões lunares à sereias e gaivotas que podem voar pelo espaço. É bonito, é fácil de ler e é divertido. Um inesquecível presente para uma criança de 10 anos, um ótimo conto para um adulto que ainda dê valor às coisas da imaginação.

Ray Davies(Kinks) Waterloo Sunset Glastonbury 2010



leia e escreva já!

UMA CÂMERA PARADA E UM CARA DE PALETÓ

   Desde 1968 os londrinos seguem a letra desta canção. Podem não mais lutarem na rua, mas continuam morrendo de tédio e fazendo bandas ( ou sendo DJs ) por não ter opção. Pois no mundo seguro do primeiro mundo, onde se marcha na onda do consumo e gastar dinheiro é tão vital como respirar, Street Fighting Man perdeu a atualidade porque não mais se luta, mas continua um lembrete válido, sinal de nossa prisão.
   Eu nunca havia visto o clip original, e acho que voce também não. Uma câmera no tripé, parada, e Mick Jagger com um paletó largo indo e vindo no meio da escuridão. Não é o Mick dos trejeitos. É o cantor ainda lindamente sem jeito. E ele marcha, anda, volta a marchar, dá um chute, gira como o relógio do tempo, como autômato do século XVIII, não dança e não finge cantar. Aos 24 anos ( !!!!!! ) ele alardeia sua relevância central no momento mais perigoso do século mais fatal.
   Ingleses gostam de dizer que Waterloo Sunset é o hino não-oficial de Londres. Musicalmente ela é mais presente neste século. Centenas de bandas imitam essa sonoridade. E Ray Davies, sempre um conservador, faz uma elegia à velha cidade de Vitória e de Disraeli. Mas Street Fighting Man é o hino do subterrâneo, a memória daquilo que deu errado.
   Esse clip, postado abaixo, é um assombro.

OS CINCO PONTOS DO MODERNISMO EM ELIOT

   1- A SOLIDÃO DO HOMEM. Separado do que e por que...
  2- A INEXPLICÁVEL ESTRANHEZA DO NASCIMENTO E DA MORTE. Estranheza pressupõe algo de mais natural. O que seria esse natural...
  3- A IMENSIDÃO DO UNIVERSO. Se é imenso e silencioso é insignificante. O vazio do universo serve apenas para cenário de novelas tipo HG Wells.
  4- O HOMEM E O TEMPO. O tempo só tem significado se houver alguma missão ou trabalho a ser realizado. Se a vida é absurda e portanto sem objetivo, então o tempo não tem relação ou importância nenhuma.
  5- A ENORMIDADE DA IGNORANCIA HUMANA. Falta de saber em relação a que. Se o homem nada sabe é de se supor que exista algo a ser sabido. O que seria isso ninguém diz. Se cobramos esse saber é porque alguém deve saber, deter esse conhecimento. Onde e quando...
  Na verdade essas proposições são apenas sintomas e não perguntas ou dúvidas reais.

O USO DA POESIA E O USO DA CRÍTICA - T.S. ELIOT

   Este livro nos apresenta um série de palestras feitas por Eliot em Harvard, entre 1932-1933. Dryden é o primeiro poeta-crítico de quem ele fala. O que Eliot procura é investigar as definições e as utilidades antes dadas ao que seja poesia. No fim, a conclusão é de que não pode haver homogeneidade no que seja escrever ou ler poesia, mas se pode retirar alguns mitos, e é aí que mora o melhor do texto.
  O poeta é influenciado pelo meio e pela memória, e talvez toda criação nasça da lembrança, da reelaboração de memórias soltas. Mas, para lermos e para entender poesia é preciso NÃO procurar encontrar o sentido o que se lê e não ler com o mapa da vida do poeta em mãos. Ler poesia é se jogar para dentro do texto e só levar em conta aquilo que está escrito, nada mais.
  Uma das mais brilhantes teses é a que diz que POESIA NADA TEM A VER COM MISTICISMO OU RELIGIÃO. Claro, há poesia mística, mas a poesia não é uma substituta da experiência religiosa. Eliot diz que com a morte da igreja, sua crise, as pessoas tentam ter vivências religiosas FORA da religião.
  Racine escrevia, como Shakespeare, para a diversão de boas e decentes pessoas. Hoje isso seria considerado banal. O poeta é visto como um tipo de guru ou de xamã, o que é um absurdo. Poetas, a maioria, escreve poesia conscientemente, como trabalho lento, e não como êxtases divinos.
  Interessante observar que em 2016 cobramos experiências religiosas, sem religião, de shows de rock, psicólogos formais, filmes simbolistas, e até de encontros esportivos.
 

A VALISE DO PROFESSOR - HIROMI KAWAKAMI

   Japoneses comem coisas assustadoras. E bebem demais. Este livro, de uma das escritoras mais premiadas do Japão atual, fala de um bar em Tokyo. Lá, uma moça e um velho professor conversam. E comem. E bebem.
  Nunca marcam um encontro, mas sempre se encontram nesse balcão, por acaso, acaso que não é acaso. Ela tem 38 anos e é uma solitária bem resolvida. Ele tem 70, e é formal, rígido, professoral ao extremo.
  Hiromi escreve ao modo nipônico típico: curto, direto, seco. E estranhamente singelo. ( Primeira vez que uso essa palavra. Singelo é uma mistura de beleza simples com delicadeza não afetada ).
  Os dois viajam, caminham, se hospedam em hotel e voltam ao bar.
  E tudo termina como tem de terminar.
  Leia.

FINISHING TOUCHES - ELIZABETH HILLIARD

   Descobri um sebo cheio de ótimos livros de arte. E baratos. Compro alguns, dentre eles esta bela edição de 1992, inglesa, sobre decoração. Quem me conhece sabe que meu mundo se faz pelos olhos. Cinema, fotografia, pintura, arquitetura, tudo que é do olho me interessa. E decoração. Tenho alguns belos livros sobre o assunto e este é um dos mais bonitos e dos mais originais.
  ELE É ORIGINAL POR NÃO SER ORIGINAL.
  Em todos os livros e revistas que vejo, edições de 2000, 2010, de 2016, a grande onda é ser toscano, marroquino, despojado, provençal, minimalista ou orientalista. Todos esses estilos são bonitos, elegantes, fascinantes até. Mas este livro tem o velho e puro estilo inglês. Que é a negação de todos esses estilos citados. Tento o descrever...
  Pouca luz, tudo é penumbra. No chão, pesados tapetes com arabescos ou sólido chão de madeira pintada. As paredes têm uma profusão generosa de quadros, fotos, espelhos, afrescos, papel, tapeçaria. Cortinas escurecem a luz e pesam nas janelas. Há abajures imensos, mesinhas, sofás gigantescos, imensos, fofos, cheios de almofadas de seda, de lã, de damasco. Estantes entulhadas de livros velhos, bolorentos e enfeites: cavalos de louça, soldados de chumbo, flores em vasos, fotos e espelhinhos, ursos, peixes e barcos.
  Portas de madeira lascada, verdes, azuis, laranjas, e poltronas de pano pintado, de veludo escuro, com panos, poltronas pra beber conhaque, pra fumar charuto. E longas mesas de mogno, as paredes frias, sombras e a luz do inverno filtrada na vidraça turva, amarela, antiga. Casas de avós, com cozinhas tímidas, e sólidas, cozinhas com louça onde se pode ver um mar, uma ilha, um sol. Pias de pedra, torneiras entupidas, estanho e cobre, bronze. E nos quartos a cama alta, fofa, anti-coluna vertebral, guarda roupa torto, imenso, esconderijo de mundos perdidos.
   Casa que tem cantos, tem lugares secretos, caminhos de ratinhos ariscos, brinquedos largados, recuperados, teias de aranha, ruídos, cheiros, mistérios.
   Nunca vi casas tão apaixonantes.

JJ Cale [Old Friend]



leia e escreva já!

TSUGUMI - BANANA YOSHIMOTO

   Ela é da minha geração e é uma das grandes escritas do Japão de hoje. Seu nome verdadeiro é Mahoko, adotou Banana porque ela adora as flores de bananeira. E no Japão banana se chama banana. É uma das muitas palavras de influência portuguesa.
  Eu amei este livro! Conta a simples história de uma garota de 18 anos que passa férias em Izu, uma praia japonesa. Lá, ela convive com sua prima, Tsugumi, uma garota que fala o que pensa, é agressiva e tem uma doença que pode a matar a qualquer momento.
  O enredo é apenas esse. O mar, manhãs, um namoro, a volta do pai ausente, amizade feminina, cães. Mas tudo é contado de um modo tão simples, tão sincero, tão bonito, que a gente se encanta e se apaixona. Tsugumi é já uma das minhas paixões ficcionais. Uma personagem má, cínica, doentia e sedutora ao extremo. Dona de uma inocência celestial. Linda.
  Cada capítulo traz uma pequena aventura das amigas, e cada aventura é uma mistura de excentricidade e vida comum, banal. Habitamos aquela cidade, a pousada, e também a casa em Tokyo, onde se passa uma parte do romance. Yoshimoto escreve claro, solar como o verão que ela descreve tão bem.
  Leia este livro. Leia neste verão.
  E quantos livros voce já leu em que ao final a autora te agradece por tê-lo lido...Só no Japão mesmo.

Nine (2009) Penelope Cruz - A Call From The Vatican (Full Scene HD)



leia e escreva já!

NINE - CLOONEY - TIM BURTON - KEVIN SPACEY

   JOGO DO DINHEIRO de Jodie Foster com George Clooney e Julia Roberts.
Quando Clooney faz filmes conscientes, típicos da esquerda americana, ele vira um chato. Aqui ele denuncia a tv. O filme é tão divertido quanto o noticiário de segunda-feira.
   O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES de Tim Burton com Eva Green e Terence Stamp.
Burton está sem estilo. Ok. O filme é comum. Tem um problema sério: os personagens são sem sal. A batalha final, num parque, é legal. Fala de um garoto desajustado que encontra uma fenda temporal.
  VIREI UM GATO de Barry Sonnenfeld com Kevin Spacey, Christopher Walken e Jennifer Garner
Sonnenfeld já foi um diretor bem bom. Perdeu toda a mão de uns anos pra cá. Esta é uma comédia muito sem graça. Spacey é um milionário sem coração que vira um gato pra aprender a ter bom coração. Pois é...
   NINE de Rob Marshall com Daniel Day Lewis, Penelope Cruz, Marion Cotillard, Judi Dench, Kate Hudson e Nicole Kidman.
Se voce esquecer Oito e Meio talvez dê pra gostar deste filme. A fotografia é belíssima, os cenários lindos e Penelope Cruz está no momento mais sexy de toda sua carreira. Ela rouba o filme com facilidade. Mas...como esquecer Marcello Mastroianni...Day Lewis faz com que a gente sinta saudades de Marcello! Oito e Meio é mais bonito, mais sexy, mais profundo e muito, muito, muito mais vivo. Este não é um filme ruim. Não é mesmo! Mas Fellini...