PINK FLOYD BBC 1 1967 Astronomy Domine Unedited



leia e escreva já!

O DESESPERO HUMANO ( DOENÇA ATÉ A MORTE )- SOREN KIERKEGAARD

   Antes de falar especificamente sobre esta obra, vale frisar das diferenças cruciais entre Hegel e Kierkegaard, diferenças que dividiram toda a filosofia que veio após seu tempo. O básico é que Hegel acredita na história como coisa universal e ignora o eu. Para o alemão, a história nos faz ser aquilo que somos. Nossas vontades e nosso atos são consequência do nosso momento histórico. O eu pode ser pensado como uma ilusão. Não é preciso ser filósofo para perceber que isso vai dar no marxismo.
   Kierkegaard pensa de forma oposta. O eu é tudo. Estamos presos dentro da dialética que constitui o eu. Esse eu é tudo o que temos e tudo aquilo que podemos experimentar. Porque é para esse eu que sempre olhamos. Como consequência, SOMOS RESPONSÁVEIS POR TUDO O QUE FAZEMOS. Nós escolhemos ser o que somos, desejar aquilo que desejamos e sofrer o que sofremos. Quem lembrar do existencialismo está mais que certo.
   Kierkegaard escolheu e nunca culpou nada ou ninguém. Se sua vida foi sofrida, ele jamais se lamentou. Com seu eu ele fez aquilo que escolheu fazer. Após uma infância de riquesa material e de estudos impostos pelo pai ( com quem nunca rompeu ), ele escolheu uma juventude de prazeres e hedonismo e ao romper com sua noiva, mergulhou no isolamento e na reflexão. Tudo o que ele escreveu foi sentido na carne. Ele escolheu ser seu laboratório vivo. Claro é que isso dá um caráter personalista a sua filosofia. Mas é exatamente isso que o dinamarquês fala, ele diz que cada um experimenta sua própria experiência de eu. Ela é comum a todos nós, mas é COMPLETAMENTE INCOMUNICÁVEL E INTRANSFERÍVEL.
   Falo agora deste livro acima anunciado.
   Ler Soren Kierkegaard nunca é fácil. Ele exige de nós três coisas que nem todos podem querer usar. Comprometimento, disposição ao sofrimento e sinceridade. Todas essas três coisas em relação a si-mesmo. Sua filosofia opta pela vida para dentro e jamais para o mundo. Porque?
   Porque sofremos. Nascemos para envelhecer e daí para morrer. Normalmente estamos doentes ou iremos ficar doentes. Mas vem então a grande sacada do dinamarquês: Toda doença da carne, em homem ou em bicho, tende ao fim. Ela se extingue por si-mesma. Nela habita seu final, seja a cura ou seja a morte. A morte cessa a dor da carne. Mas não a dor do espírito.
   Porque não existe morte para o desespero. Não morremos de desespero. Podemos nos matar, mas isso não o extinguirá pois no ato de morrer por essa via o desespero continuará vivo até o fim. Isso, para ele, é o que mais nos diferencia dos bichos, esse desespero que é uma doença sem CAUSA E SEM FIM. SEM CURA PORTANTO.
   Kierkegaard diz que esse desespero está latente em todo humano. Ele pode ser disparado por um amor que acaba, pelo tédio ou pela doença da carne, mas na verdade o desespero existencial está presente desde sempre. É nossa condição de vida humana. Inescapável. Ou quase isso.
   Mas o que é esse desespero?
   Existiriam dois modos de se desesperar. E primeiro é preciso falar do eu.
   Só temos consciência de nosso eu ao olhar para ele. E esse eu é sempre coisa viva, dialética entre aquilo que se é e aquilo que se deseja ser. Nasce então o desespero. O desespero de se querer DEIXAR DE SER O EU ou A VONTADE VORAZ DE SER OUTRO. E saber, humanamente saber, que sempre se vai ser EU e que nunca, por mais que se deseje, será OUTRO. ( E penso que é um absurdo que um psicólogo sério não leia Kierkegaard ).
   Para ele, sómente humanos sofrem dessa doença sem solução. Mal insolúvel que de certo modo dignifica nossa condição de "ser à parte", "ser responsável" e de ser "em construção". Para ele, esse desespero é a chave para se entender o que seja ser uma pessoa, ser vivo, ser um homem espiritual.
  Vale aqui dizer que muitos negam essa doença e a vivem em forma de tédio e de vazio absoluto. Fogem do desespero pela religião do prazer, pelos sentidos exaltados. Prazeres que morrem e não podem ser vividos novamente. Efêmeros. Morte que se faz a cada gole e a cada trago.
   O desespero que é de todos, é assumido pelo homem em transição. Vem daí a teoria da religião de Kierkegaard, teoria que afirma que só a profunda experiência religiosa pode salvar o homem do desespero. Não entrarei nesse tema. Não é o tema deste livro e o próprio filósofo diz que a verdadeira experiência espiritual não pode ser comunicada em linguagem dos homens. Eu compactuo disso. Voce consegue falar de Deus quando voce procura por Ele. Ou quando O nega. Se voce O conhece é inutil e impossível falar.
   Segundo Kiekegaard, existindo a vida do espírito, toda doença da carne cessa com a morte e deixa de se fazer presente na vida eterna. O desespero permanece. Terrível não? Imaginar que todo o nosso desconforto possa ser "para sempre". É uma conclusão lógica já que se trata de uma dor da alma.
   Para concluir, pois isto é apenas um tipo de fofoca superficial que faço, ele me surpreende ao afirmar que a fonte do medo do homem jamais foi a certeza da morte. Foi sempre o não poder morrer. A dor da carne tem na morte seu fim. A dor da alma, que é o desespero, não aceita a morte. Cada segundo de desespero é uma eternidade. Sentimento que vem do nada, se faz presente e apaga o futuro. Dor que não leva à morte.
   Se tanto os homens primitivos como os homens de hoje encontram na religião a certeza do alivio das dores da carne e das fomes da vida, elas não podem prometer e não prometem, a cura do desespero na outra vida.
   Esse fado humano, essa sina, tem de ser vivida. Aqui- agora e também depois- além.
   A raiz de Kiekegaard, esse filósofo do terrível, se confunde então com a raiz do cristianismo. A vida é dor porque este reino é feito de carência. Jamais seremos completos. Suportar e não se lamentar. Confiar e ajudar. E jamais se esquecer.
   Viver com Dor. Ser gente enfim.

O VEREDITO, FILME DE SIDNEY LUMET, PAUL NEWMAN E DAVID MAMET...FINGIR AINDA ACREDITAR

   Roger Ebert gostava de dizer que os alunos de cinema não vêem mais os filmes de Fritz Lang, George Stevens ou William Wyler. E que mesmo de Ford ou Hawks conhecem só os mais conhecidos. Mas continuam vendo muito Hitchcock, Billy Wilder e John Huston. Well, não percebo muito de Huston ou de Wilder nos diretores atuais, mas sei que eles estudam muito o cinema dos diretores americanos que foram oriundos da TV ao vivo dos anos 50. Diretores que davam muito valor a atores e a roteiro, e não tanto a visual e produção. Aprenderam tudo nas peças ao vivo que dirigiam para a CBS e a NBC. Seus nomes são Robert Mulligan, Arthur Penn, John Frankenheimer, Sidney Pollack, Arthur Hill, Mike Nichols, Franklyn Schaffner e Sidney Lumet.  Ver os bons filmes desses homens é como ver os poucos bons filmes americanos que são feitos agora. O livro que fala da renovação em Hollywood, SEX, DRUGS E ROCKNROLL erra ao ignorar esse fato: a renovação começou em 1959, com 12 HOMENS E UMA SENTENÇA.
   Um grupo de críticos fez uma pesquisa e refez a lista dos vencedores do Oscar corrigindo as injustiças históricas. Desse modo, DR FANTÁSTICO vence em 1964 e 2001 ganha em 1968. Em 1982 não vence Gandhi e nem Richard Attenborough é o melhor diretor. Principalmente Ben Kingsley perde o Oscar para Paul Newman. Todos esses Oscars vão para O VEREDITO. Em 1982 ele concorreu a cinco prêmios e perdeu todos para Gandhi. Gandhi é um filme ok, mas o filme de Lumet é mais que isso. É provocador e parece ter sido feito hoje. Todo o bom cinema que ainda se faz está aqui. Cult em escolas de cinema, este é o filme básico para quem quer saber de onde vem o estilo de 2013. Lumet foi um super diretor.
   Já falo do filme. Antes devo dizer que nos extras do dvd vem a história da produção. Dustin Hoffman, Robert Redford e até Frank Sinatra queriam fazer o filme. O roteiro de David Mamet era disputado a tapa. Lumet escolheu Paul Newman. Ele fez o papel de forma tão visceral que ninguém entendeu o porque de ter perdido o prêmio ( na verdade perdeu pela Gandhimania que se fez na época ). Em 1985 Paul ganharia por A COR DO DINHEIRO, típica vitória de consolação. Premiaram o ator certo no filme errado.
   ( Um amigo me recorda: Nenhum ator tem tão poucos filmes ruins como Paul Newman. Pegar na locadora um filme com ele é quase certeza de acerto. Brando, Nicholson, Beatty, Depp, Brad, Clooney, Hoffman, Cruise, todos têm uma coleção assustadora de filmes muito ruins ).
   Newman é um advogado alcoólatra. Que caça clientes em funerais. Fundo do poço. Um amigo lhe dá um caso. Um erro médico que ocorreu durante um parto. Num hospital católico. O advogado que defenderá o hospital é o melhor da cidade. Papel do venerável James Mason. Paul Newman fracassa. Ele faz tudo errado, afinal, é um alcoólatra. Perde testemunhas, se atrapalha, não sabe o que fazer, sente muito medo. Um roteiro assim nas mãos de um diretor ruim viraria um melô ou uma comédia. Com Lumet não. Cheio de coragem, ele jamais negocia com o público. O filme é lento, as falas são ditas devagar, silêncios que dizem tudo entre as falas. Há várias tomadas que são inesquecíveis. Cito duas como exemplo.
   Newman vai ao hospital fotografar a vítima. Numa cena toda muda, ele se senta e pára de fotografar. Olha a moça na cama. E vemos no rosto desse maravilhoso ator o que ELE PENSA. Toma consciência de que ele tem estado errado. Algo precisa mudar. Mas o que?
   Outra cena acontece no escritório após mais um erro do advogado feito por Paul Newman. A câmera fica a meio metro do chão. Na altura dos joelhos de Paul. Paul se lamenta com seu amigo, Jack Warden. E Lumet ousa não cortar, deixa que os dois interpretem sem interrupção. A cena vai e vai e vai. A câmera não se move, não tem música, nada. Apenas texto e dois ótimos atores.
   O fim do filme é perfeito. E surpreendente. Aliás, o filme é perfeito.
   Lembro que no Oscar de 1982 torci por Gandhi. Não queria que vencesse um filme de tribunal, americano e com produção padrão. Gandhi eu vi na época. O Veredito, só agora. Sidney Lumet faz tudo o que o cinema de 2013 faz. Closes demais, iluminação escura e marrom, falas econômicas. Mas há uma diferença, o filme flui. Ficamos duas horas completamente hipnotizados.
   Não é um filme de tribunal. É sobre um homem.
   Uma frase do belo roteiro: Devemos fazer de conta que acreditamos na justiça. Porque se nem isso fizermos, nada fará mais sentido. Se desde o começo acreditarmos na injustiça, se nos acomodarmos e nem tentarmos fingir crer, bem...nada mais terá saída.
   Eu vi este filme a ainda finjo crer no cinema.

AS AVENTURAS DO SR. PICKWICK- CHARLES DICKENS

   Uma das maiores tragédias da história literária é o fato de Charles Dickens ter descoberto sua consciência social. Quando ele lançou Oliver Twist o estrago estava feito. Ele continuou, claro, a ser um grande autor, cânone da literatura inglesa ( mas não da irlandesa ), gênio criador de personalidades, inventor de rostos e de enredos. Sim, Dickens é tudo isso. Mas o fato é que o Dickens que escreveu Pickwick é uma das felicidades para todo leitor. Um soberbo humorista. Um satirista na bela tradição de Fielding e de Sterne.
   Os Pickwick Papers foram escritos em forma de seriado, como fascículos. Depois veio o lançamento em livro e foi essa obra que fez a fama de Dickens. É um autor que ainda não se enche de lágrimas ao falar de crianças injustiçadas e das misérias de Londres. Ele descreve a lama das ruas, as estalagens obscuras, a imensa Londres labiríntica, mas tudo num viés de humor.
   Quantos tipos ele sabe criar! Em cada página surge um novo personagem, mais uma história, outro clima. Ás vezes surge o horror, às vezes o melodrama, mas logo tudo é satirizado pela presença de Pickwick e seus amigos.
   Pickwick é o chefe de um clube. Seus membros saem pelos arredores de Londres em busca de aventura. Não são aventuras como as de um herói ou de um guerreiro. São aventuras de quatro homens gorduchos e de meia-idade da burguesia inglesa de então. Eles se envolvem em pic-nics, noivos fugitivos, jantares suntuosos, caçadas, excursões aos lagos. E muito mais. Nessas discretas aventuras surgem viúvas vaidosas, ladrões sorrateiros, párocos glutões, virgens fofoqueiras... Pickwick ouve suas histórias, deliciados as podemos ler.
   O bom livro tatua-se em nós. Li Pickwick a treze anos. Andei relendo-o agora. E surpresa! As cenas vão se reavivando em mim. Penso: "Então era neste livro que estava essa corrida de carruagens! Era aqui que falava esse malandro que lembra personagens de Monty Python!" Quem leu guardou sem saber que guardou. Tatuou.
   Pena que o livro termina. Livros assim deviam continuar para sempre. Porque amamos a companhia de sua gente. Queremos tê-los como amigos. Segredo do grande autor ( e dom maior de Dickens ), as personagens nascem e moram em nossa casa.
   Bem- Vindo Sr, Pickwick !

MONARQUIA, PAPA E TV.....bééééééééééééééééé.....

   Estamos tendo a chance de fazer um flash-back à época medieval. O Papa Francisco está entre nós. Ele, assim como sua religião, só fazem sentido se vistas sob o ponto de vista pré-Lutero, pré-Calvino. O catolicismo é religião de Uma única verdade, Uma única Terra e um ùnico Líder. O Papa. Tudo que a igreja romana diz fora desse dogma é verniz. Assim como o Islã, também medieval, o catolicismo prega a conversão e a fé única.
   Adoro Dante e Giotto. Talvez ser medieval seja um elogio. Mas em nosso tempinho transitório onde tudo pode ser verdade e nada é mentira, onde todos querem e ninguém se submete, Nada é mais "antigo" que um Papa.
   Ou um herdeiro ao trono inglês. A familia real britânica é bastante "vira-lata". Se a compararmos com a espanhola eles caem a posição de sub-vira-lata. Houve um momento em que a familia real caiu no buraco. Não havia herdeiro. Para que uma familia católica não voltasse ao poder foi importada uma familia alemã, o ramo de primos em segundo grau, os Hannover. Essa a familia real inglesa, alemães. Desde George, pai de Vitória. Ele nem inglês falava. No meu século, o XX, houve até um herdeiro nazista, Eduardo, o irmão do rei gago feito por Colin Firth no Discurso do Rei. Olhar para Andrew é ver um cara de Hamburgo.
   Caramba! Aprendi tudo isso com Paulo Francis e consegui escrever no estilo curto dele. Waaallll....
   Voce já foi ver Da Vinci e Rafael em SP? Não? Então vá! Outra chance só na Itália.
   Andei dando uma geral em séries de TV. Aquelas que "todo mundo" gosta. Todo mundo...hum...alguém fala mal delas? Acho que não pega bem né? Voce pode ser chamado de snob ou de brega, sei lá. Mas que é estranho é. Parece que ninguém se deu ao trabalho de as olhar com padrão elevado. São comparadas a filmes ruins ou a séries antigas que ninguém recorda. Ora, vamos lá! A fotografia continua a ser um lixo. O que mudou é que hoje 90% dos filmes também tem uma fotografia pobre, cheia de closes e cores frias. O que acontece é que esse povo, analfabeto estéticamente, vai comparar essas séries com o que? Outra coisa que se fala: Roteiros do caraca...hum....bons diálogos, é um fato. Mas é só isso. O único mérito é o de durar menos que um filme de cinema. São dez minutos de bons diálogos e o resto se repete na semana que vem.  Também se fala que "grandes atores" migram para a TV. Kevin Bacon? Charlie Sheen? Sigourney Weaver? Hugh Laurie? São todos atores sem mercado em cinema. Vou acreditar nisso quando Brad Pitt, Johnny Depp ou Robert Downey fizerem uma série de TV. Antes dos 60 anos claro.
   Abram os olhos e parem de crer na propaganda. TV continua a ser veículo de anúncios. O anunciante manda. E mesmo a "Meca da Arte", HBO, depende da vontade de suas centenas de donos de ações e dos anunciantes top. Quanto a FOX, Warner e Sony, elas fazem séries como vendem brinquedos, celulares ou tablets, criam um hype e mandam brasa. Tudo que vi nesses meses foram sets mal iluminados, atores falando baixinho, temas que variam entre doenças e serial killers e sempre um personagem neurotiquinho pra fazer tudo cheirar a coisa original. 
   Então tá Jeeves.
   Tem gente que não lê pra poder ver Saramandaia. Tem gente que não assiste sua caixa de Fritz Lang pra poder ver a novela das nove. Tem gente que deixou de ler pra ver as séries da Universal. Tudo a mesma coisa. Só muda a lingua e a iluminação do cenário. Lixo.
   Mas eles foram espertos. Em 1900 a burguesada queria posar de culta e chique. Como dormiam nas óperas de Wagner se criou Puccini para eles. Era ópera e lhes dava a ilusão de serem cultos e chiques. Espertamente a TV faz o mesmo. Vende lixo como se fosse "coisa fina". Puccini. Nem mesmo Rossini, é puro Puccini. Povo e críticos, esses cada vez mais tentando ser simpáticos, correm como ovelhas.
   Béeeeeeeeee.....

GIUSEPPE TORNATORE/ PETER SELLERS/ JOHNNY DEPP/ NEY MATOGROSSO/ SEAN CONNERY

  LUZ NAS TREVAS de Helena Ignez com Ney Matogrosso, Djiin Sganzerla, Paulo Goulart e vasto etc.
Nada aqui tem a ver com a realidade. E tudo é verdade. Eis o cinema! Mal feito, às vezes irritante por sua ambição e suas falas literárias. E ao mesmo tempo fascinante por seu jeito de labirinto onde todos são faunos. Na verdade: O Bandido da Luz Vermelha é o melhor filme brasileiro da história. Este, feito pela musa de Sganzerla, é sua continuação. O mundo mudou, hoje ele é mais violento, mais sem sentido, e mais crente no oculto ( estranho né? ). Em 68 o niilismo era maior e ao mesmo tempo a alegria maior. Fascinante! Ney dá um show! Carisma e o final é duca! O filme é invenção all the time. Mistura tudo. Brasil. Tem candomblé e rocknroll. Tem sexo e patifaria. Sangue com merda. E tudo parece fake, carnaval. Taba. As falas são de doer de tão ruins. Mas as imagens são magníficas. Uma das melhores falas da história: "Sempre sonhei em ter uma padaria em Cuiabá!" Hahahahahahah! Brasileiro é auto-negação. Contradição e jamais assumir nada. Ney é um diabo do ódio. O novo bandido é como são os bandidos de hoje: Nem nome tem... Lembro que quando criança eu acreditava no Bandido da Luz Vermelha. Meus primos diziam que já o tinham visto. Ele matava policiais no Caxingui. Eu botei fé. Ney canta na laje no fim do filme. Viva o Brasil! O cara é o retrato do que sobreviveu. Está com 70 anos! Mais jovem que eu e que tú. Nota Nada. Vou rever. Tem 3 histórias paralelas. Recuerdos, Ney na cadeia-inferno e o tal novo bandidode hoje. Minha alma cativa. Isso é cinema do Brasil. Disse.
   O SOM AO REDOR de Kléber Mendonça Filho
Na verdade é um documentário sociológico sobre um certo povo de uns certos quarteirões. Tudo aqui é real e nada parece verdade. Nunca vi atores tão ruins! Invenção nota zero. O filme é óbvio. Se voce quer ter uma aula de sociologia é aqui. Se voce quer um bom filme, sai correndo. Algumas cenas chocam. Pelo amadorismo. Acho que na faculdade a gente fez coisa mais bem feita hem Léo? Voce sabe, eu exijo um mínimo de competência. E o problema é: Assim como voce não se importa com um bando de dançarinos fazendo um show, o que me interessa nesse povo besta falando texto mal dito e mal ensaiado? Ver isto é tão fora da minha atenção quanto imagino ser Os Miseráveis para voce. Eu simplesmente não consegui me ligar. É muito blá blá blá. Valeu!
   BRANCA DE NEVE de Pablo Verger
Uma saída para o cinema: Vamos voltar a sentir e sem vergonha de ser bonito. O filme é todo superlativo. Imagem, trilha sonora e atores. Diverte e dá uma impressão de melancolia que não passa. Não consigo deixar de pensar nele. Cadê esse príncipe? Acorde menina! Se meus amigos o tivessem visto daria pano pra muita manga. É o melhor filme deste século de filmes banais. Está longe do espetáculo vazio ou do filminho de arte chocante e óbvio. É poesia e se comunica com todo mundo. Lindo. Nota DEZ.
   O FAROL DO FIM DO MUNDO de Kevin Billington com Kirk Douglas e Yul Brynner
Que filme bobo! Kirk, que é a única coisa boa aqui, vive em farol. Um bando de piratas invade a ilha e o filme mostra sua luta contra eles. Tudo dá errado neste filme. A ação parece falsa, a violência é exagerada, os outros atores são lamentáveis. Yul Brynner posa de "Sua alteza real Pirata". Nota 2.
   A MELHOR OFERTA de Giuseppe Tornatore com Geoffrey Rush, Donald Sutherland e Sylvia Hoeks
O diretor de Cinema Paradiso e de Malena faz seu "Hitchcock". O filme, que venceu vários prêmios italianos em 2013 e acho que ainda não passou por aqui, tem algo de Vertigo na obssessão de um homem solitário e neurótico por uma mulher misteriosa. A história se passa no mundo dos leilões de arte e é um filme bom de se olhar. Até agora não sei se o achei bom ou ruim. Há algo de muito tolo em seu roteiro. Eu simplesmente adivinhei tudo desde o começo. Mas há uma bela atuação de Rush, mais uma, e uma participação divertida do grande Sutherland. A menina é linda. E péssima atriz. Até a metade a gente torce, desejamos ver a menina, mas daí a "hitchcockerie" entra em parafuso e a coisa desanda. Nota 5.
   AS ILHAS DA CORRENTE de Franklyn J. Schaffner com George C. Scott e Claire Bloom
Se voce ama o livro de Heminguay, como eu, vai até gostar deste filme. Mas se voce não o leu, ou leu e não gostou, fuja disto. O filme é flácido, lento, sem motivo. Fala de um escultor que vive numa ilha. Recebe a visita dos 3 filhos, pescam e depois vem a ex-esposa o visitar. Ao final, uma tentativa de salvamento a fugitivos nazistas. Schaffner e Scott haviam ganho Oscars em 1970 com Patton, uma das poucas biografias do cinema que conseguem revelar o homem por detrás do óbvio. Uma obra-prima com roteiro do jovem Coppolla. Mas depois disso Schaffner só errou ( apesar do bom Papillon ). O que temos aqui é a linda fotografia de Fred Koenemkamp, o mar azul e a ilha cheia de vento e areia, e uma absoluta falta de emoção. É um filme ruim de que gosto por motivos puramente pessoais. Nota 3.
   EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA de Marc Forster com Johnny Depp, Kate Winslet, Julie Christie, Dustin Hoffman e Freddie Highmore
Não sei se fica claro no filme. Quando James Barrie escreveu Peter Pan ele já era um autor de sucesso. Posto isso...Que lindo filme! Lindo não por seu visual, que é menos do que poderia ter sido, mas pela beleza de suas emoções. Depp nasceu para esse tipo de papel, o frágil sonhador. Sabemos que Barrie era mais viril que Depp, mas e daí? Como artista que é, ele cria o homem que Barrie deveria ter sido. Aqui faço uma defesa de Johnny Depp. Ao contrário de Day-Lewis que só vai na certeza, Depp erra muito, porque se arrisca sem parar. É um maravilhoso ator lúdico, um ator que parece nunca levar a sério a profissão e tenho a certeza de que ele aprendeu isso com seu amigo Marlon Brando. Brincar. Em tempo de melhores roteiros Depp teria mais chances de acerto. O tipo de filme que ele procura, a diversão-excêntrica, não tem bons roteiristas atualmente. Kate não tem muito o que fazer aqui. Julie Christie, a venerável Julie de Doutor Jivago, faz uma mãe odiosa, enquanto Dustin se mostra o rei da simpatia. É dos poucos filmes que consegue mostrar o mecanismo da criação. Forster é um diretor ao velho estilo Hawks, filma de acordo com o roteiro. Um profissional. Deveriam existir mais como ele. Nota 9.
   O RATO QUE RUGE de Jack Arnold com Peter Sellers e Jean Seberg
Filme que era hiper reprisado na velha Sessão da Tarde. Comédia sobre o menor reino do mundo, Grã-Fenwick, que declara guerra aos EUA. A intenção é perder e assim ser reconstruído pelos americanos, repetindo o que foi feito no Japão e na Alemanha. Mas tudo dá errado. Eles vencem sem querer. Sellers faz três papéis: A rainha distraída, o primeiro ministro ganancioso e o herói atrapalhado. Peter Sellers é um dos poucos atores que merece ser chamado de gênio. Jean Seberg iria para a França após este filme. Filmar com Godard um tal de Acossado. Aqui ela está ainda mais bonita. Uma boa comédia. Nota 7.
   O GOLPE DE JOHN ANDERSON de Sidney Lumet com Sean Connery, Dyan Cannon, Martin Balsam e Christopher Walken
Este filme deveria ser refilmado. Pelo que sei, é o primeiro a exibir um mundo todo vigiado por câmeras e gravadores. Claro que são aparelhos ainda primtivos, o filme é de 1971, mas Lumet já percebe o incômodo na profusão de câmeras em elevadores, lojas, entradas de prédios. Sean Connery está sensacional como o ex-presidiário que trama um assalto a edifício. Entre os comparsas vemos o jovem Christopher Walken, é sua estréia no cinema. Muito carisma e o rosto de um jovem hippie muito maluco. O filme é dos anos 70, portanto espere muito realismo, nenhum glamour e um final pessimista. Lumet já exibe sua maestria em cortes e clima, o filme combina bem com Serpico, Um Dia de Cão e Network ( que carreira teve esse Lumet!!! ). Sean rouba o filme. O sexy James Bond prova mais uma vez aqui que ninguém nunca fez machões como ele sabia fazer. A trilha sonora, datada, tem jazz misturado a toques de sintetizador, autor: Quincy Jones. Boa diversão! Nota 7.
  
  
  

FEITIÇO DE AMOR E OUTROS CONTOS- LUDWIG TIECK

   Tudo aquilo que aprendi sobre o que seja o romantismo aqui se encontra em sua primeira e mais explícita versão. O maravilhoso da criação, o inusitado tratado como corriqueiro e a irrupção do sublime. Medo e desejo, morte e amor, essa a receita.
   Phantasus foi lançado em 1810. Este volume que tenho em mãos traz uma parte de Phantasus. Sete contos em que o fanta'stico surge em toda folha. Foi quando de seu lancamento um grande sucesso. Tieck tornou-se mais popular que Goethe e influi em todo o movimento artistico da Alemanha. Amigo de Schlegel, Novalis e Brentano, sua longa vida foi sempre a busca do surpreendente. Vamos aos contos.
    O Loiro Eckbert da' o tom. A solita'ria vida nos bosques, a sina maldita, a vida que vira sonho, e o sonho pesadelo. A montanha como obsta'culo a ser vencido. Assustador, o livro e' para invernos gelados.
   A Montanha das Runas da' muito medo. E muito prazer. Ler Tieck nos faz reencontrar o prazer da narrativa. Ele escreve como um avo contando coisas ao canto do fogo da lareira.
   Os Elfos e' meu favorito. O fatalismo cruel da humanidade, o azar, o desconhecimento. Mais que tudo, este conto magistral adverte o castigo advindo da indiferenca a natureza, do negar nossa parte bicho, nossa parte irracional. Uma obra-prima.
   Feitico de Amor entre todos o mais triste. Melancolia e loucura. Tieck descreve o que hoje seria um caso de mania depressiva. Aqui se faz magia. Para ler como delirio.
    O Ca'lice e' o mais belo. E o u'nico com final realmente feliz.
   Termina o volume com Eckart Fiel, sonho medieval de virilidade.
   Lemos como quem sonha e o fato destes contos terem sido em 1810 aquilo que hoje seria um best-seller, serve para testemunhar o bom ni'vel do primeiro romantismo. ( Mas vale dizer, o romantismo tardio seria uma fonte do pior dos piores ).
   Hedra Editora, facil de achar, compre e leia nas suas noites de melancolia.

AS ILHAS DA CORRENTE- HEMINGUAY

   Heminguay teve uma influência tremenda em minha vida. E sobre a vida da América, claro. O SOL TAMBÉM SE LEVANTA é o que li mais vezes, mas este vem logo em seguida. Há uma diferença radical entre os dois. O SOL é do jovem Heminguay. É considerado seu melhor livro, escrito nos anos 20 e talvez melhor que o Gatsby de seu rival cordial, Fitzgerald.
   AS ILHAS DA CORRENTE é de sua maturidade e tem a fama de ser um dentre os vários livros "problema" de Heminguay. Eu adoro esse livro, tanto que já o reli mais de 4 vezes. Até a receita de um almoço descrito no livro eu fiz e faço. Mas aqui vale um senão.
   Adoro esse livro porque o personagem central vive onde eu queria viver, e se comporta de uma maneira que incorporei como "minha". Quando um leitor se identifica com uma personagem fica um pouco comprometida sua avaliação. Críticos deveriam confessar isso mais vezes. Eles podem adorar um livro, ou um filme, apenas pelo fato de que o herói da coisa é aquele que ele pensa ser ou adoraria ter sido. O público em geral se guia sempre, ou quase sempre, por esse padrão. Mas quem ganha dinheiro para escrever sobre estilo e criação deveria tomar mais cuidado. A VERDADEIRA grande obra tem um pouco de cada um de nós e ao mesmo tempo cria seres que são únicos.
   Desse modo, se me identifico com o Heathcliff do MORRO DOS VENTOS UIVANTES não há o mesmo tipo de problema, pois todo homem apaixonado se identifica com Heathcliff e ao mesmo tempo sabe que nunca é Heathcliff. Enquanto percebe ser Heathcliff ele sente que Heathcliff não pode existir pois está além do humano. Ele é arte.
   Isso não acontece aqui. Ao contrário de Jake Barnes, que no SOL é universal, o escritor que vive numa ilha deste livro é particular. Um belo personagem, não uma obra de arte, ele é incompleto. Quem não se identificar com ele não verá valor neste livro. Por outro lado, para sentir a grandeza do MORRO não é preciso identificação com Heathcliff.
   Mas há belo valor em se criar um personagem que toca a alguém. Que tocou um brasileiro de 20 anos e que ainda toca o mesmo cara aos 50.
   O livro fala de um escritor, ácido, que vive numa ilha perto de Cuba. Não é uma ilha isolada. Ele tem amigos lá, e amigas. Seu grande amigo é um drunk radical. Então ele recebe a visita de seus 3 filhos. Pescam em alto-mar. Acontece uma tragédia e ele reencontra sua ex-esposa. O enredo é esse, mas não é isso que me interessa. O que me seduz são seus tempos vazios. Heminguay descreve comida, fala de drinks e de iscas. É esse lado "desimportante" que releio. O cotidiano vulgar da ilha.
   Foi exatamente esse lado "vazio", esse divagar, que fez a ira da crítica e fez do livro um fiasco. Eu adoro. Jamais vou achá-lo tão bom como O SOL..., mas é um livro que sempre estará comigo.
   Não é coisa pouca.

GLASTONBURY FAYRE (1971,UK) part - 1



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GLASTONBURY E O MUNDO É DAS MULHERES ( E SERÁ QUE ELAS GOSTAM DISSO ? )

   Imagens de Glastonbury em 1971. É o segundo ano da coisa. O "dono" do festival, agora, em 2013, ainda é o mesmo. Mas tudo mudou. Pra pior? Pra melhor? Sei lá.
   Vejo as imagens. Fato primeiro, as pessoas com 18 anos pareciam mais velhas. Ninguém tem cara de "vitaminado" ou de "malhado". São pessoas feias. Sujas. Os corpos parecem flácidos, mal cuidados. Os cabelos são imundos.
   Fato segundo. Voce não vê duas pessoas parecidas. Rostos e roupas possuem uma variedade absoluta. Isso choca e é um dos fatos que mais me deixa abilolado nas escolas onde vou: em 2013 todo mundo se parece. Existem cerca de quatro "tipos" e todos se encaixam nesse padrão. Tem o barbudo boa gente, o tímido de óculos, o delicado de camisa e o black descolado. As variações dentro desse padrão são mínimas. A tendência é a coisa ficar cada vez mais igual. Na minha escola temos só dois tipos!!!! O moreno magrinho de boné, do funk, e o cabelinho empastado, de preto, do rock. E é só. Até gays, que eram hiper criativos hoje seguem um tipo padrão. Puá!!!!
   Fato três. Glastonbury era menos show e mais experiência. O centro do evento era a "celebração do solstício de verão". Toda a coisa girava ao redor de mitologias celtas, bruxarias exóticas e as tais "expansões da mente, dude". Na verdade o palco era secundário. A banda fazia a trilha sonora para a "coisa". Hoje Glastonbury é apenas mais um festival de rock. Onde até velhos milionários tocam.
   Fato quatro. Nessa coisa dionisíaca o som ia pra onde desse na telha. Toda banda tinha de saber improvisar. O músico sentia o "astral" e ia nessa direção. E quem ditava o astral era a platéia. Hoje a banda dirige o povo. Ela cria o astral que é sempre uma festa de teens. Não existe perigo algum. Tá tudo dominado.
   Fato cinco. A Tv transmite ao vivo. Sem chance de alguma coisa fora da programação.
   Fato final. As bandas tocam bem agora. E são profissionais. E bonitinhos. So cute and so cool. Do bem, sempre. Viva!
   PS: Em 1971 mamãe teve medo. Hoje mamãe me leva lá.
   Sobre as mulheres.
   Toda banda é para as meninas. Fora o metal mais radical, tudo hoje tem por alvo as meninas. São letras com emoções femininas e que falam coisas gracinha. Ecologia, neuroses, amor, medo, esperança, dor. Há uma ausência de temas "machistas". Carros, estradas, velocidade, bebidas e mulheres fáceis. No rock? Por isso que adoro rap. O rock virou som de castratti.
   OK, tou sendo bobo e radical. Tem excessões. Claro que tem! Mas 90% é só um cara "sensível" chorando suas mágoas. Elton John hoje seria considerado um cara feliz e Donovan seria viril.
   O mundo se feminilizou, estava falando sobre isso com um cara que tem uma banda. E no fundo as mulheres morrem de ansiedade. Não encontram mais homens-homens ( não sou esse cara ). Ficam com barbudinhos sensíveis ou bebedores de cerveja compreensivos. Elas namoram esses caras. Gozam?
   Vi um Chevy 1971 na rua. Em 1971 todo carro parecia ser carro de malandro. Transpiravam sexo. Liberdade. O carro era fálico. Hoje eles são redondinhos como bundinhas de bebê. Carros de familia.
   Né não?

Steve Winwood - CAN'T FIND MY WAY BACK HOME (Live)



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TRAFFIC - Paper sun (1967)



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UMA LINDA HISTÓRIA DE UMA BANDA MUITO ESPECIAL

  A vida toda estive atrás de uma menina, ela não tem rosto, não tem nome e nenhum número...Ela está dentro de mim...
   Esse o mote de "No Face, No Name, No Number", faixa do primeiro disco do Traffic, 1967. Todo o romantismo inglês explicitado na mais romântica das bandas do lado de lá do Atlântico. Caramba! Como pode isso! Entre She Loves You e o Traffic se passaram apenas quatro anos??? Parecem décadas!
   Em 1966 uma banda chamada Spencer Davis Group estourou com duas canções número 1 nas paradas: I Am A Man e depois Gimme Some Lovin'. No vocal um garoto de 16 anos, Steve Winwood. Começaram a dizer que era o novo Ray Charles ( NÂO ). Se os EUA tinham Little Stevie Wonder, a GB tinha Little Steve Winwood.
   Porém, com 16 anos, Steve já era aquilo que é até hoje, a reencarnação de Wordsworth. Ficou puto por ter virado Pop e se mandou para o campo com uns amigos pouco mais velhos. Lá, em Yorkshire, cercados de vários chás, ácido e muita erva, formaram uma banda de "boas vibrações". Nascia o Traffic.
   Boas energias...inexiste agressividade no Traffic. E abundam erros técnicos. Steve é um grande músico e um hiper cantor. Sabe tocar guitarra, teclados, baixo e bateria. Já gravou discos em que ele toca tudo. E Dave Mason, guitarrista do Traffic era excelente. Mas Chris Wood e Jim Capaldi só ficaram no grupo por serem brothers e terem alto astral. Chris era um desastre no sax, flauta e teclados e Capaldi acabou por desistir da batera e virar um surpreendente bom cantor. Well....continuando...
   Chapados e fixados em símbolos celtas, yoga e astrologia, os quatro assinaram com uma nova e pequena gravadora, a Island. E gravaram um single e um LP. Na produção botaram outro novato, Jimmy Miller. O que rolou? Mais sucesso inesperado!
    Chris Blackwell, dono da Island, acabou sendo o poderoso descobridor de Bob Marley e lançador do Roxy Music, do King Crimson e do ELP. Depois seria a casa do U2. Jimmy Miller fez tanto sucesso como produtor dos três primeiros Lps do Traffic que os Rolling Stones logo o chamaram e roubaram Milller de Winwood. Com Jimmy Milller os Stones gravariam TODOS os seus discos entre 1968 e 1974, ou seja, seus melhores trabalhos. Mas porque Miller fez tanto sucesso como produtor?
   Tenho esses três Lps em vinil e em CD. Tente ouvir em vinil e please, não baixe. Os dois primeiros LPs do Traffic são considerados até hoje uma obra-prima em termos de som estereofônico. São feitos para se escutar com fone de ouvido. Experimente. Os instrumentos ficam o tempo todo dançando entre a direita e a esquerda. Sons aparecem no ouvido esquerdo, voam para o direito e voltam. Ruídos aqui e não lá, lá e não aqui. Um grito aqui. Um solo que vai para lá. É um som espacial, ele anda, caminha dentro da cabeça de quem escuta. É uma arte perdida.
   Steve Winwood é uma pessoa amável. Calma. De sorriso suave. Gravou com TODO mundo. Era amigo de todo mundo. Posso lembrar agora de Eric Clapton, Jimmy Hendrix, Marianne Faithfull, George Harrison, Pete Townshend, e vasto etc. Todos tiveram banda ou gravaram com ele. O Traffic acabou em 1970, voltou em 1971 e voltou a terminar em 1974. Daí a carreira solo. Com 24 anos em 1974, Steve Winwood já tinha quatro bandas de sucesso nas costas e um monte de trips para contar.
   Jim Capaldi mora a trinta anos no Rio. Gravou até com Ritchie. Lança disco em Londres de vez em quando. É maluco pelo Arpoador e pelas mulheres do Brasil. Chris Wood morreu nos anos 80. Dave Mason tentou carreira solo e virou requisitado guitarrista. Seu mais famoso trabalho é no Beggar's Banquet dos Stones. Sim. Algumas daquelas guitarras de aço são dele. E Steve Winwood enveredou pelo Pop. Como ocorreu com tanto ex-maludo hippie, ele assumiu que seu amor maior sempre foi a soul music de Marvin Gaye e de Sam Cooke e foi por essa senda.
   Acabo de reouvir pela milionésima vez o Best Of do Traffic. Tenho esse vinil desde 1979. É um disco perigoso. Há algo de muito escuro nele, de muito onírico e voce pode se perder dentro dele e não voltar nunca mais. Pior, pode não querer voltar. É bonito.
   PS: Postei esse video de Glastonbury em 1971. Jim Capaldi é aquele com o pandeiro no microfone. Winwood está ao teclado, cantando. O show é absolutamente dionisíaco. Enjoy. Voce merece isso!

Winwood Glastonbury 1971 TRAFFIC



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