Bryan Ferry & Robin Trower - I Put a Spell on You + Will You Love Me Tom...



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ALAIN DELON/ CARY GRANT/ HAWKS/ DORIS DAY/ ANNE BANCROFT/ SPENCER TRACY/ AL PACINO

   O INVENTOR DA MOCIDADE ( Monkey Business ) de Howard Hawks com Cary Grant, Ginger Rogers, Charles Coburn e Marilyn Monroe.
É o primeiro fracasso de bilheteria de Hawks e um dos raros de Cary. Hawks vinha de 15 anos seguidos de sucessos quando resolveu fazer na Fox este roteiro de Lederer e Diamond. Os dois são roteiristas que trabalharam com Billy Wilder, e isso explica muito sobre o filme. O humor tem a grossura despudorada de Billy. Não tem o estilo humanista de Hawks. De qualquer modo o filme é tão louco que diverte, além do que o elenco é sensacional. Cary é um cientista que tenta criar a fórmula do rejuvenescimento. Um macaco cobaia mistura elementos e Cary bebe aquilo sem querer. Súbito ele volta aos 19 anos. Passa a ter o comportamento de um teen. Ginger é a esposa, que acaba por voltar aos 14 anos. Monroe faz uma secretária e este é dos seus primeiros papeis importantes. Ainda gordinha, ela é tremendamente sensual. O final, com Cary voltando aos 7 anos e amarrando um adulto na árvore para tirar seu escalpo é uma mistura de hilariedade com o incômodo do excesso de ridiculo. O filme se equilibra o tempo todo nesse fio, de um lado uma soberba alegria, de outro o ridiculo. As cenas com Ginger passam todas do ponto. Cary mantém a elegância. Um grande ator! Quer saber? Após seu encerramento deu vontade de ver outra vez. Nota 7.
   CARÍCIAS DE LUXO de Delbert Mann com Cary Grant, Doris Day e Gig Young.
Doris é a super-virgem. Desempregada, ela conhece o super rico Cary Grant. Ele tenta a seduzir com dinheiro. E consegue! Mas ela é virgem e defende sua honra. Bem, não poderia haver tema mais antigo. Imagino um cara de 15 anos vendo isso! Belos cenários e um Gig Young hilário como um paciente de um freudiano, não conseguem salvar o filme. Cary parece desinteressado, entediado ( este era o tempo em que ele descobria o LSD ). Nunca ninguém, naquela época, percebeu como Doris era sexy? A voz dela é de erguer defunto! Nota 4.
   STANLEY AND LIVINGSTONE de Henry King com Spencer Tracy, Walter Brennan e Cedric Hardwicke.
As convenções do filme de aventuras foram criadas por 3 grandes aventureiros da vida real: Raoul Walsh, Howard Hawks e Henry King. Todas as técnicas criadas pelos 3 são usadas até hoje. Pode-se enfeitar um filme o colocando no espaço, em outra dimensão ou fazer do mal o bem, mas o esquema é exatamente o mesmo. Aqui temos um dos melhores exemplos. Feito em 1939, o filme mostra Stanley, feito por um brilhante Spencer Tracy, partindo para a África desconhecida, em 1870, atrás do paradeiro de Livingstone. Em hora e meia o filme, com ritmo, tem um pouco de tudo: exploração do desconhecido, humor com o amigo do heróis, encontros inesperados, suspense e depois a edificação e o crescimento do herói. Ele retorna à sua terra como um homem melhor. Até uma cena de tribunal temos. Henry King foi um grande diretor. E como ser de seu tempo, dirigiu de tudo, westerns, comédias, dramas e musicais. Nota 8.
   O RIO DA AVENTURA de Howard Hawks com Kirk Douglas e Arthur Hunnicut.
O dvd tem belos extras. A voz do velho Kirk falando do filme, fotos de Michael Douglas aos 6 anos visitando o pai no set e Todd MacCarthy, um dos melhores críticos, falando do filme. Mas, surpeendentemente, a imagem não foi refeita e a foto está em mal estado. Feito em 1952, é o segundo maior fracasso da carreira de Hawks. O público da época estranhou esta aventura lenta, calma, primeira experiência do estilo Hawks de filmagem, que seria mais bem desenvolvida nos filmes seguintes. Como é esse estilo? Focar nos personagens e não na ação. Veja: aqui temos Kirk como um aventureiro no Oeste que vai com um grupo à procura de peles em terras inexploradas. Sobem o rio e encontram aventuras. Muitas. Mas todo interesse do filme é mostrar o cotidiano, o dia a dia, a personalidade de Kirk e de seus companheiros ( dentre eles um excelente Hunnicut fazendo um velho do mato ). Desse modo a sensação que fica é de pouca ação e de muito papo furado, o tal estilo Hawks. MacCarthy descreve bem, achamos o filme falho, mas quando termina queremos mais. Acabamos por gostar daquelas pessoas e desejamos sua companhia. É isso que acontece com os bons filmes de Hawks, o mais discreto dos mestres. O filme tem falhas sim, mas a gente acaba querendo mais. Nota 8.
   MOMENTO DE DECISÃO de Herbert Ross com Shirley MacLaine, Anne Bancroft, Tom Skerrit, Mychail Baryshnikov, Leslie Browne.
Este filme de 1977 tem um recorde. Junto com A Cor Púrpura, é o maior perdedor da história do Oscar. Foram 11 indicações e nenhum prêmio. Na época era moda falar mal dele. Ou melhor, os críticos o detestaram, o público adorou. Hoje a situação é a mesma. Não virou cult. Conta a história do reencontro de duas mulheres de meia idade. Amigas antigas, as duas foram grandes bailarinas. Uma largou tudo ao ficar grávida. A outra persistiu e se tornou estrela em NY. No reencontro se faz o balanço, a briga, a reconciliação. Eu adorei o filme. Assisti sem a menor expectativa e gostei muito. Me emocionei. Ele mostra com sagacidade a questão da idade, da fama e da solidão. E Anne está soberba! A diva é sempre humana, e a mulher é uma diva. A cena da briga entre ela e Shirley foi homenageada em Dancin Days, a novela. Gilberto Braga é um grande fã do filme. A fotografia de Robert Surtees impressiona muito. E vemos a estréia da super estrela e do sex symbol da época, Baryshnikov. Foi indicado a coadjuvante! Faz um bailarino hetero e playboy. Bom. Vemos Marcia Haydée nas cenas de dança, em seu auge como bailarina. Um lindo filme que teve o azar de concorrer nos ano de Annie Hall, Julia e Star Wars. Nota 8.
   UM MOMENTO, UMA VIDA ( Bobby Deerfield ) de Sidney Pollack com Al Pacino e Marthe Keller.
Assisti este filme no cine Astor, em 1978. Senti um profundo tédio. Revendo agora, senti um profundo desgosto. É o pior filme de Pollack, isso é aceito por todos, mas é também o pior de Pacino, e olhe que Pacino fez muito filme ruim. Uma sopa melosa e lenta, metida à filme de arte, sobre um famoso piloto da Fórmula 1. Ele perdeu suas raízes, virou um tipo de robot arrogante. Ao visitar um piloto acidentado na Suiça, conhece uma italiana doidinha que está morrendo...O filme evita o drama e vira um vazio. Tudo é seco e lento. Argh. Vemos James Hunt, Pace e Depailler nas cenas de corrida....que duram cinco minutos!!! Uma enganação...fuja! PS: Keller era um alemã que tinha corpo e rosto, bonito, de Valkiria. Como acreditar que frau Keller é uma italiana maluca????? Aff....ZERO!
   O SOL POR TESTEMUNHA de René Clement com Alain Delon, Maurice Ronet e Marie Laforet
Simplesmente o filme mais chique já feito. Itália em 1960 alcançou um nível de elegância sem ostentação que transparece em cada segundo do filme. Ronet descalço e sem camisa, parece o mais chique dos homens. Delon, com terno claro, com dock sides, com polo, sempre parece modelo da Vogue. Mas, eis o charme, tudo sem formalidade, sem afetação, com certo desleixo. Foi o auge do estilo mediterrâneo, que todos procuram e quase ninguém o revive. Clement consegue, ao seguir o livro de Patricia Highsmith, fazer um filme à altura de suas imagens. Ele é lindo e tem muito suspense. Gostamos de canalha Delon. O ator se confunde com o tipo. Houve ator mais diabólico e bonito? A refilmagem de 1999, de Minghella, colocou Matt Damon como Delon...aff!!! Jude Law era Maurice Ronet. O que era chique virou novo rico, parecia formal e Damon era um teen vestido de adulto. Aqui não! Até a carteira de Delon parece elegante! E temos o final, um dos mais inesperados da história. Um grande filme e um super sucesso de bilheteria. DEZ!!!!!!

ALÉM DOS LIMITES DO OCEANO- MAURICIO OBREGÓN

   O autor, colombiano, foi diplomata e navegador. Também cruzou mundo pilotando aviões. Um desse homens que sentem a febre da ação. Sem deixar de cultivar a erudição. Um tipo de renascentista.
    Eu havia lido este seu livro em 2004 e o reli agora. Fino, cheio de mapas e desenhos, ele fala das primeiras viagens por mar. O inicio é um pouco árduo. Mauricio descreve as estrelas, os pontos celestes que ajudam a navegação em alto mar. Mas as coisas se tornam muito interessantes quando ele passa a falar dos polinésios. Em suas canoas, onde cabem até 50 remadores, eles cruzava o Pacífico. Foram os mais habeis marinheiros de todos os tempos.
   Depois Obregón segue a Argonáutica, o texto grego sobre Jasão, e refaz a saga do herói. Navega do Mediterrâneo ao mar Negro, retorna usando o Danúbio e contorna o Adriático. 
   A Odisséia lhe dá o caminho para Oeste, chega às portas do Atlântico e margeia a África do Norte. Obregón, quando digo refaz, refez mesmo, navegou seguindo as descrições de Homero.
   Por fim, as navegações dos Árabes e Vikings. As longas rotas muçulmanas, da África à Ásia. e os nórdicos, Islândia, Groenlândia e América.  Lenda verdadeira, pois provas foram encontradas.
   Pena ser um texto tão curto!

Tanita Tikaram - Twist in my sobriety (HD 16:9)



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CAT POWER & TANITA TIKARAN

   No final dos anos 80 eu conhecia o grande disco de Tanita Tikaran. Como se feito fosse dentro de uma catedral, ele remete diretamente à Van Morrison. Mas também à Rickie Lee Jones. Cheio de sombras, úmido, a voz dela vem como de cavernas. Ela é quente. 
  O tempo passou e o mundo preferiu virar seus olhos para Bjork, a grande chata. Tanita sumiu do mainstream. ( Existe um mainstream alternativo hiper ativo e duro como aço ). 
  Cat Power tem o mesmo timbre de voz e surge dez anos após Tanita. No fim do século XX. Cat é ainda mais espartana e franciscana. O som é feito de pequenas notas e as canções são feitas só de refrões em busca de um arranjo. Van Morrison outra vez. Só que em clave feminina. Como o irlandês, ela joga uma melodia e discorre sobre ela. São hinos. Cantilenas. Remetem às celebrações de domingos. 
  Uma amiga me presenteou com 3 cds de Cat Power. Ela achou que eu gostaria. Os cds são como ela: melodias em busca de redenção. Delicadezas que insistem em ficar. Sombras impossíveis de iluminar. Bonitas como as maiores mágoas. Longas pernas pálidas e longos olhares despidos.
  Tanita é melhor. Mas Cat me assobia. E anda pela esquina.

Cat Power - Good Woman & Come on in My Kitchen (w/ Buddy Guy - Traffic M...



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UMA HABILIDADE PERDIDA...J.R.R.TOLKIEN, O SENHOR DA FANTASIA- MICHAEL WHITE. PORQUE GENTE COMO EU DETESTA O SENHOR DOS ANÉIS.

   Em 1997, numa eleição feita por uma rede de livrarias inglesa, O Senhor dos Anéis foi eleito o melhor livro do século XX. Com profunda indignação, autores modernos expressaram um profundo ódio pela coisa. Uma crítica feminista chegou a dizer:- Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus!!!! Onde chegamos!!!!!, um outro disse:- Tolkien? Não é aquele cara que escreve livros tolos para adultos mentalmente deficientes?
 Suspeitando de fraude, o jornal Daily Mail fez outra pesquisa. Mesmo resultado, com Ulysses em segundo lugar. No auge da raiva, uma associação de leitores cultos da Grã-Bretanha fez mais uma votação. Essa incluindo livros de todos os tempos. Por 120 votos de diferença, Tolkien venceu Jane Austen e deixou Dickens em terceiro. Well...
 O autor desta bio tem uma boa tese. Mais que boa, talvez seja um fato. No modernismo, começado com Flaubert e desenvolvido por Henry James, o estilo importa mais que o enredo. Voce pode escrever sobre qualquer coisa, voce pode escrever sobre nada, contanto que alí haja um estilo próprio, uma marca de autoria, um sinal de voz única. Esse movimento, muito interessante em seus começos, levou a um impasse, o fim do enredo e com ele a morte da habilidade em se narrar uma história. Mais que isso, a incapacidade de se criar personagens. Livros modernos passaram a falar apenas do eu e de mais nada. Para White, Tolkien foi e é tão odiado por jogar na cara de certos escritores sua incapacidade em escrever. Sim, em escrever. Não sabem narrar, não conseguem inventar uma história, não têm o dom de construir livros coerentes em si, ricos de invenção e de personagens, criativos e organizados. Sabem apenas falar de si-mesmos. São impotentes em criação e sobretudo em imaginação. 
  Não precisei ler este livro para aceitar essa tese. Tentei ser um romancista por toda a vida e desisti porque percebi que não sei escrever. Ou melhor, não consigo criar. Tudo o que escrevia eram confissões sobre coisas que vivi, presenciei ou sofri. Escrevo, portanto, aquilo que não gosto de ler. Por honestidade, desisti. Foi assim que me encantei por aquilo que não tenho, e que poucos hoje têm ( e quase ninguém confessa ), o dom de criar. Inventar uma boa história e saber contá-la, de forma clara, encantadora, rica e excitante. Alguns conseguiam unir o estilo moderno a esse dom criativo ( Nabokov, Borges, Bellow ) mas são raros. A maioria finge ter optado pelo hermético quando na verdade são apenas limitados. Jack Kerouac é um belo exemplo de escritor que escreve sem ter  a mínima criatividade. A lista não tem fim. Tolkien ao escrever criou personagens, cenário e narrativa. E assim pareceu ultrapassado em 1954, ano de O Senhor dos Anéis. Tempo em que Camus, Sartre e Moravia eram a moda. O que aconteceu foi a maior zebra do século: um autor conservador, careta, metódico, meticuloso e ultra-católico se tornar o ídolo de adolescentes rebeldes e criativos. 
  A história de Tolkien é fascinante por não ser boêmia. Ele não tinha vicio nenhum, pouco ligava para sexo, detestava tudo o que era moderno e só gostava de livros escritos antes da renascença. Achava Shakespeare fake, Cervantes um chato e Dante um mal exemplo. Amava narrativas antigas escritas em inglês arcaico. Sabia várias línguas nórdicas. Desprezava o francês. Foi professor em Oxford. E tinha uma dificuldade imensa em ganhar dinheiro.
  Sua infância foi um desastre. O pai foi para a África do Sul e Tolkien nasceu lá. Seu ambiente até os 3 anos foi esse, longas estepes quentes. A mãe passava mal no calor e ele voltou à Inglaterra com ela e um irmão. O pai, que trabalhava muito, ficou para juntar mais dinheiro. Acabou morrendo meses depois, com uma infecção. A mãe, muito pobre, foi morar com parentes em casas lotadas. Quando ela se converteu ao catolicismo toda a família lhe virou as costas. Ninguém a perdoou por virar uma papista. Poucos anos depois ela morreria de diabetes. Tolkien sempre consideraria que ela fora morta por abandono, por ódio religioso, por perseguição. 
  A vida de Tolkien passa a ser uma confusão. Mora com parentes. Alguns menos ruins, outros terríveis. Ele e o irmão mais jovem ( 3 anos de diferença ), vagam como ciganos, mudam de casa sem parar, e estudam. Um padre os ajuda e esse padre se torna um novo pai para eles. Tolkien consegue passar em Oxford e sua vida será para sempre acadêmica. 
  Se enamora de uma moça 3 anos mais velha, Edith. Têm um longo noivado. Tolkien luta na Primeira Guerra,conhece as trincheiras, vê amigos morrerem, fica doente, consegue sobreviver. Se casa e será pai de 4 filhos. Amoroso, sua vida passa a ser uma luta por dinheiro.
  Escreve de noite. Narrativas épicas sobre um mundo de fantasia. Deixa sua imaginação fluir. Escreve muito, corrige muito, reescreve. Lança O Hobbit e faz sucesso. Não aproveita a maré e demora 17 anos para lançar outro livro. O Senhor dos Anéis sairá apenas em 1954, após mais de uma década de escrita, correção, dúvidas, negociações. Um sucesso imediato, a saga toma novo impulso em 1966, quando estudantes universitários o descobrem. Mais uma geração de fãs surge aí. Desde então novas gerações se sucedem e o livro nunca mais deixa de vender. São 120 milhões até 1995. Após os filmes, mais 10.
  Tolkien morre em 1973. Rico, mas ainda sovina. Discreto, com medo da fama, sem entender o porque de tanta adoração. 
  Como homem Tolkien era um daqueles ingleses que não mais nascem. Um homem que adorava conversar com outros homens, inseguro com mulheres, o tipo que considera o máximo de alegria ter um cachimbo aceso e uma poltrona quente ao pé da lareira. Passava noites com seu grupo de amigos ( C.S. Lewis era seu melhor amigo ), discutindo livros, religião ( Lewis era protestante até a medula ), aulas. Tolkien não tinha o menor interesse por politica, música ou arte em geral. Odiava comida francesa, adorava cerveja preta, tinha um excelente dom para as aulas, e nunca foi visto sem o cachimbo na boca. Falava com ele pendurado no lábio. Seu mundo era seu escritório, a coisa mais importante era o catolicismo. Rezava muito, acreditava no poder da fé e ia muito `a igreja. Era ecológico antes do termo ser moda, ficava bravo quando uma árvore era derrubada, tinha aversão a carros, TV e toda máquina. Vivia suspenso no mundo imaginário do século XI ou XII. E escrevia todo o tempo.
  Terminando a leitura fica a impressão que, assim como aconteceu com Chagall, por méritos próprios, Tolkien foi um grande vencedor. Não no sentido material. Vindo de uma infância de desamparo, de pobreza e de dor, ele, com a força de sua mente, venceu. Foi professor na maior das universidades e de quebra eternizou seu nome nos corações de milhões de leitores. A sorte nunca fez parte desse ganho. Na verdade ele venceu o azar. 
  Quanto a minha opinião. O título que usei foi propositadamente enganoso. Eu odiava os filmes dos Anéis sem os ter visto. E odiava Tolkien com o orgulho idiota de jamais o ter lido. Era como se ao dizer ODEIO TOLKIEN eu declarasse ser invulgar, culto e adulto, tudo ao mesmo tempo. Estranho fenômeno esse, ao NÃO fazer algo ( ler Tolkien ) me torno um leitor melhor. Uma verdadeira asneira de nosso tempo. Preconceito de classe. 
  Comecei a mudar no momento em que percebi que minha leitura estava travando. Lentamente eu perdia o prazer da leitura. Meu preconceito, a vontade que me foi imposta de só ler o que fosse ""relevante, único, brilhante"", dava ao ato de ler o sabor de coisa fria, estéril e ocasionalmente mórbida. 
  Lembro de quando isso mudou. Foi com Sherlock Holmes. E em seguida com os livros de Jeeves. O prazer de se acompanhar uma trama, de se conhecer personagens bem criados, de sofrer surpresas, de se crer naquilo que se lê, me salvou do abismo do desprazer. Reconquistei a magia da leitura. Foi uma sorte.
  Desde então respeito e invejo, assumidamente, todo criador. Admiro o dom, arcaico e primordial, que alguns poucos têm de nos fazer viajar através das palavras. De poder recuperar a hora da história ao pé do fogo. 
  Esse dom não tem explicação. E esse presente não tem preço.

Ultravox - Sleepwalk (Live St Albans 16.08.1980) HQ



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Ultravox - Vienna - Live 1983



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VIENNA=ULTRAVOX. O TEMPO PASSA...

   Estranho. Para onde foi a emoção? Aos 22, 23 anos eu me emocionava profundamente com este disco. Agora eu o acho bonito, mas não arrepiante. Seria porque eu evolui? Mas então porque um disco como Magic, de uma cantora chamada Cheryl Dilcher, um disco pop, comum, que eu amava aos 15 anos, hoje me comove como sempre comoveu? Magic não é melhor que Vienna. Será que encontro uma resposta satisfatória?
   Acho que sim. O garoto que amou o disco de Cheryl aos 15 anos era um garoto que desejava de um disco apenas aquilo que Magic tem, música e diversão. E isso ele sempre vai ter. Músicas de um pop festivo, às vezes tristonhas, sempre simples. O que eu buscava em Magic no ano de 1978 continuo obtendo em 2015. Vienna não. Porque?
   Em 1984, ano em que comprei Vienna ( ele é de 1980 ), os críticos mais interessantes se chamavam Pepe Escobar, Matinas Suzuki e Luis Antonio Giron. Nos textos de Pepe ele citava Keats, Huysmanns, Cocteau e Miró. Matinas falava de brumas londrinas, chá na madrugada e dores suicidas de amor. Já Giron escrevia como quem pinta porcelana, com extremo cuidado. Essa é a chave. Todos eles partiram, à partir de 1989/90 para outros campos. Giron foi escrever sobre música erudita e literatura, Matinas se debruçou sobre tecnologia e futurologia e Pepe foi viver fora, escreve sobre tudo, menos rock. Os três eram apaixonados pelo rock e pelo pop mais britânico dos anos 80, pop do qual Vienna é um belo representante. O que houve?
  Aos 22 anos eu tinha em Vienna a porta de entrada para um mundo novo. O mundo que ia da primeira geração romântica até Andy Warhol. O disco prometia o acesso, fácil e simples, ao mundo da Arte. identifiquei isso na primeira vez em que ouvi, anos depois, uma banda como Radiohead. Ele facilita a entrada na Arte, mas sem ser Arte. O ouvinte sente toda a emoção de coisas como poesia, pintura abstrata, cinema japonês e romances modernistas, SEM PRECISAR TIRAR OS FONES DO OUVIDO. ( Basta dizer que em todo o ano de 1984 eu li apenas 5 livros ). O que acontece então?
   Com o tempo eu conheci a fonte, o artigo genuíno, a tal Arte, e as emoções refinadas que Vienna parecia conter empalideceram. O que eu sentia escutando o disco agora sinto, de uma forma muito mais complexa, lendo, vendo ou ouvindo outras coisas. Vienna ficou lá. Foi trocado.
   Isso não pode acontecer com, por exemplo, o Led Zeppelin. Ou mesmo Bowie. O que eles dão só em música pop ou rock podem dar. O meu amor por eles sempre foi puramente musical e rock`n`roll, no caso do Led, e no caso de Bowie, musical e estilosa. Bowie era um dos artigos autênticos que Vienna anunciava. A emoção de ouvir Beatles ou The band permanece porque amamos ""apenas""suas canções. Em Vienna eu amava a música, mas essa música simbolizava e anunciava mais do que ela era. Essa é a tragédia de tudo que se torna passado sem volta.
  Mas é bonito. 

The English Beat - Get A Job/Stand Down Margaret (Live at US Festival 9/...



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The English Beat - Mirror In The Bathroom (Live at US Festival 9/3/1982)



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I JUST CAN`T STOP IT!- THE ENGLISH BEAT ( politica na ilha )

   No tempo de Clash, Police e Costello o que vendia ( na Inglaterra ) era ska. O movimento, chamado de Two Tone ( branco e preto ) misturava festa com o desejo socialista. Era tempo do começo da era Thatcher, ela batia forte na classe operária e o bando do ska botava fogo nas passeatas diárias. A ilha estava em convulsão. Os brancos da esquerda se uniram aos negros pobres de Brixton e juntaram tudo: deu no Two Tone. Pra mostrar a ideologia, roupas pretas e brancas. ( Me dá banzo do tempo em que visual era uma atitude politica ). A direita mandou os new romantics pra rua. Anti-ideológicos, deslumbrados com o glamour, amantes da nova Inglaterra made in USA, os romantics faziam um som que falava de noite, frio, viagens espaciais e bissexualidade. Sim, filhos de Bowie e de Ferry. Sim, a direita os amava. A esquerda....não. Os romantics venceram a guerra. No som houve um empate.
   Aqui falo de The Beat. Da trinca suprema foi o de menos sucesso. Mas menos sucesso em 1980 ainda é muito sucesso. Se o Madness era o que mais vendia e os Specials os mais radicais, The Beat tinha a pegada mais rock. É ska, mais ska que aquilo que foi feito na retomada do ritmo, nos anos 90 pelos americanos, mas é um ska com velocidade de punk, o que não acontecia com os outros dois. O disco que cito é seu auge. Depois viria o comercialismo maior e as brigas.
   Poucos discos possuem um som de baixo tão poderoso. Ele comanda tudo e ele pipoca nos ouvidos como uma bala ricocheteando em ravina. Seus pés  vão tentar acompanhar esse baixo coriscante, não conseguirão, irão morrer tentando. David Steele é o nome do cara. E tem a bateria. Essa é tipo pulga. Ela pula para onde voce menos espera. A velocidade no chimbal é alucinógena. Nesse contexto a guitarra poderia ser esquecida, mas não. Duas guitarras, uma se dedilha, a outra faz chung chung.... Tá feita a coisa. Mesmo após o arrastão de tantos anos de dance music, este disco ainda é soberba e aliciantemente dançante. E o discurso é punk. Punk estilo The Jam. De partido. Uma festa.
   Eu estive por lá. Em 1982. Vi as meninas de laranja e verde, minis e óculos escuros, no verão, bebendo os últimos goles do ska. Vi os new romantics começarem a dominar tudo, e transformarem a ilha nessa pasmaceira que dura até hoje. Acabaram com todo o fabianismo, toda a tradição de Shaw e Keynes e jogaram tudo ao ar. Londres optou pela festa de luz e droga. Deixou de lado a festa na rua, de ska e tambor.
   Escuta isto. 1978-1983 foi o penúltimo orgasmo da música inglesa. The Beat foi um de seus centros. Enjoy.

O POVO DESAPRENDEU A OUVIR. E AGORA DESAPRENDE A OLHAR.

   Uma conversinha rolou. De atroz burrice. Comparar Cisne Negro com Birdman.
   Qualquer inteligência mediana há de notar que o primeiro é um horror.
   E o segundo uma piada.
   Posto isso, entenda como quiser.