MAIS UMA TARDE ANDANDO POR AÍ...

2020 foi um ano muito estranho. Amigos me acusaram de fascista, amigas se trancaram em casa, minha mãe, por outro lado, nunca na vida saiu tanto e se divertiu como jamais antes. Desço a pé a Gabriel Monteiro da Silva Street. Vejo o que tenho visto nas outras ruas: pessoas do dito povão sem máscara, rindo, brincando, levando a vida. O povo da classe média com cara de medo, passando em carros fechados, máscara no rosto. As lojas estão fechadas. Entro no Shopping Iguatemi. Uma ridícula fila inútil é formada. O segurança mede nossa temperatura. Não sei pra quê. O povo não sente mais medo, as máscaras viraram hábito. Tipo: Se todo mundo usa, porque não eu? Não custa nada usar. Na livraria vejo de cara um livro de um tal Pedro Cardoso. O Agostinho escreveu algo chamado "Como dialogar com um fascista". Well....dialogar comigo é simples, difícil é dialogar com meus seis amigos de esquerda que me mandaram calar a boca e ameaçaram me bater. Eu jamais perguntei o que eles achavam ou queriam obter em politica, eram meus amigos, isso, ingenuamente, eu achava que bastava. Mas não. Eles não suportaram perceber que eu era de outra cor. Para eles eu estou errado e fim de papo. E por estar errado mereço o olvido. ( Hey, sempre quis usar esta palavra! ). Será que o livro do Pedro Agostinho fala deles? Ou fala só de gente como eu, que ousou dar as costas para aquilo que Pedro Cardoso acha? Vejo ao lado um livro de uma tal de Patricia, jornalista, que fala de Gabinetes de Ódio. Será que ela fala de Marilena Chauí dizendo querer matar a classe média? Deve falar do meu ódio. Ela acertou. Eu realmente odeio quem me odeia sem me conhecer. Começo a entender porque aquela livraria está vazia. Não há nada pra comprar. Nada. Fico lá uma hora e não vejo um só livro que me interesse. Pode falir livraria Cultura. Não vou sentir falta de voce. No andar térreo tem uma doceria lotada e nela vejo várias meninas lindas, rindo com suas máscaras de grife. O vírus virou hype. No Eldorado a Saraiva agora é uma Riachuelo. Como um bolo de chocolate absurdo e o café é nota 8. Baratos. Os preços caíram. Gays não foram perseguidos, negros não estão sendo segregados, mas nossa Constituição foi rasgada pelos juízes ontem. O presidente observa. Ele espera que eles se queimem em sua sanha por poder. Na Benedito Calixto 60% das bancas faliram. Não vão abrir nunca mais. O Brasil me surpreendeu. Eu, em abril, esperava saques, fogo, calamidade. Mas o povo, esse povo que anda rindo e construindo prédios ( está se construindo muito por aí...meu bairro está todo em obras ), levou a crise de uma forma que me orgulha. Tenho me aproximado cada vez mais do povo da rua. A classe média me decepcionou muito este ano. DVDS e discos são coisas do passado. Livros também. Este foi o ano em que E O VENTO LEVOU foi censurado. Para quem tem o dvd não faz diferença. A vantagem de ter mídias físicas é que voce não depende da boa vontade da rede. Ano que vem irão proibir todos os faroestes e todos os filmes de guerra. Só deixarei de os ver se os censores do bem entrarem em casa para os levar. Eu adoraria ver o que Roger Scrutton escreveria deste ano. Sei que ele falaria da resistência dos conservadores. O modo como a coisa se inverteu. Hoje somos nós os que não aceitamos o mundo como ele é. Somos nós os desobedientes, os chatos, a pedra no sapato, a mosca na sopa. Vamos perder, isso é óbvio, mas sabemos estar em paz com nossa consciência. Nunca me senti tão eu mesmo como neste ano.