CAMPO DE DOR- ISAK DINESEN ( KAREN BLIXEN ) DO LIVRO: CONTOS DE INVERNO

   Nascida na Dinamarca como Karen Blixen, ela se torna Isak Dinesen ao começar a escrever. Antes disso, casou-se com nobre barão e foi à Africa, plantar café. Após esse fiasco, retorna á sua terra e durante a segunda-guerra lança este livro. Dinesen escreveu romances ( bons ), mas é nos contos que ela se torna grande. Heminguay era um de seus admiradores. E em 1985, Sidney Pollack ganhou todos os Oscars ao dar a Meryl Streep o papel de Isak Dinesen em OUT OF AFRICA ( no Brasil, Entre dois Amores ).
   Há uma frase dela que define o estilo de seus contos: "Não vivemos para procurar a felicidade. O que procuramos é o destino." Dinesen conta histórias. É como se ela se sentasse ao fogo e começasse a narrar. Dá sentido às coisas, as faz sagradas, eternas, elas brilham e vivem. Todos os seus contos são momentos de crise. Pessoas pegas pelo destino e tentando, de forma inconsciente, encontrar sentido. Um casal de irmãos que morre no gelo, um garoto que deixa seu amigo morrer por desejar uma menina, um pianista que de súbito percebe o vazio. Mas me comovo mais com Campo de Dor, um dos mais perfeitos contos que já li.
   Um jovem volta a sua cidade do campo. Primeiro tema: o tempo. Lá ele reencontra aquilo que ele sempre é/foi/será. Nos recantos imutáveis ele revê o sentido, a imensa realidade inalcansável. Segundo tema: seu tio é o senhor de lá. Um velho vaidoso, duro, seguidor de velhas leis opressivas. Nessa figura há a ideia de que a vida faz sentido ao se prolongar de geração á geração. Terceiro tema: o tio faz com que a mãe de um jovem acusado ceife todo um campo para salvar o filho. A velha senhora o faz. Mas morre ao fim. A morte como sentido, como algo que dá verdade e dignidade a vida. A justificação da vida no amor e na morte. O ato da mãe é gravado em pedra e em memória. Quarto tema: o jovem sobrinho confronta a crueldade do tio. Mas acaba por compreendê-lo ao perceber que a vida precisa ser sofrida para ter valor. A cada um compete encontrar sua dor e vivê-la. Sem esse encontro não pode haver valor, virtude, fé ou heroísmo.
   Dinesen demonstra isso em todos os seus escritos. O desperdicio de viver jamais está na dor ou na infelicidade. Está na ausência de drama, de provação. Se o homem existe para achar seu destino, esse destino jamais pode ser um prazer, ele será uma sombra, um inverno e o gelo. Mas vem daí o sentido, pois é ao aceitar esse inverno que o homem pode viver o pleno mudar de estações. A vida para Dinesen é rica, animada, imensa.
   Ela tem uma alma.