PARA OS QUE AMAM DEMAIS...SIREN - ROXY MUSIC

Um carro tem seu motor ligado e parte acelerado. Esse é o primeiro som do primeiro disco que escutei do Roxy. Todos os seis primeiros discos deles são sublimes, de qual falar ? Falo do quinto, que foi meu primeiro. Tem Jerry Hall na capa, vestida de sereia. Ferry a namorava na época. Casal glamour. Mas ela foi à um show dos Stones e Jagger a fisgou. Foram então quatro anos negros para mr. Ferry. E um longo casamento entre Hall e Mick....
O disco.
Love is the drug. O Roxy cria com Bowie, e quase ao mesmo tempo, a dance-music branca. Isso é love is the drug. O baixo de John Wetton domina a faixa. Ela é como seda. Um cadillac negro rodando de madrugada. Música deslizante, mas que não é retrato do que virá. Love is the drug é a risonha descoberta do amor. Mas para Ferry, o amor sempre dói e já nasce saudade.
End of the line. É um piano tocado só pra voce. E a voz.....a voz de Bryan....é o próprio ato de amar. Bryan canta com voz de fado português, de canção celta, de Chet e Piaf...de corações aviltados. Ouvir end of the line é como navio partindo pra lugar algum, é um lenço ao ar. Canção que traduz a paixão em seu final, a morte da vida, e uma beleza inatingível. Uma pausa para o piano no meio da canção...quando a voz de Ferry volta voce chora. End of the line são lágrimas sem fim e sem motivo. Meu paraíso final e´aqui. Se eu pudesse eu viveria para sempre neste end of the line. O final da jornada : o piano e sons de fundo. A beleza nos consola. Só a beleza salva. End é a beleza. Aos 14 anos resolvi ser fiel a End of the line. Cumpri.
Sentimental fool. Começa como loucura terminal. A guitarra de Phil Manzanera toca agudos e desafinamentos. A banda entra então redimindo essa folia esquizo. Quando a voz desaba é uma melodia de amor apaixonado. Que se traveste no hino dos tolos. Sim, bobos de amor. Pagando o pato. Mas creia, a música vira outra coisa, se torna uma queixa, uma descrição de musas, um caminhar a cadafalso. Todo o disco é bela dor de amor. O Roxy só pensa em termos de beleza.
Whirlwind. É a típica canção do primeiro Roxy. Cinemática confusão de imagens glamourosas. Caleidoscópio e carrossel. Uma festa exagerada de musicalidade e de fogos no céu. O brilho no olho da amada amante. Um espoucar de rolhas e cascata de espuma champagnolante. O solo de Phil é soberbo e a música é toda soberba. O Roxy é para muito poucos.
She sells. Tardes de sol com vento e a lembrança detalhada de tudo o que ela falou. Quando ela cruza meu olhar o céu é já. A canção é pop assumidaço ! Quem dança ? Termina em mais um hino. Este celebra a alegria doce. Este chora a tristeza orgulhosa. Porque toda beleza é dor ? Porque toda alegria é sarcasmo ? O Roxy cria a alegria dolorida e a beleza sarcástica.
Could it happen to me ? Aqui o céu se revela. Medievais sopros e a voz divaga. Ferry é o cavaleiro que volta ferido. Quando descobri o quanto a arte pode ser beleza eterna. Foi aqui. Foi aqui que nasceu tudo ! Tão simples e absurda. Os erros que cometi jamais seriam perdoados e meu futuro estaria em seu inicio, dormindo. Aqui.
Both ends burning. Tocou as três da tarde de um maio de 1976 na rádio Difusora. Fazia sol. A gente não esquece. Foi a primeira vez que escutei o tal de Roxy Music. Dois meses depois eu comprei este disco. Por causa de Both ends burning. Em 2010 eu ainda estou burning!!! 34 anos !!!!!!!! Ela ainda é cristal sobre veludo negro. O synth de Eddie Jobson sibila como vento em morros uivantes. Ainda canto alto fazendo backing para mr. Cool. Em 1976 eu parei meu jogo de botão para escutar a canção no Motorola vermelho e branco. Imaginei um amor perfeito só meu. Continuo burning.
Nightingale. Sempre amei janelas que dão para quintais. E sempre parei para escutar pássaros. Eis a janela e a ave : nightingale. Paul Thompson domina com doida bateria. Pequena canção assobiante ? Não. Há algo de oriental aqui. Uma tapeçaria é o disco. Aqui tece-se a lã do prazer. Andy Mackay toca oboe. O arranjo é a Arábia do delírio. Mas é amor. A voz com violinos é o êxtase. Voamos sobre todos os rouxinóis. Keats !!!!!!!!!! Única certeza da vida : Vale sim a pena viver !!!!
Just another High. O final. Desde seu primeiro acorde : céu. Ferry anjo e ajoelhado, reza ao amor. Não há maior hino a fé no amor. Um crazy guy. Crer no amor. Crer no céu. Crer no calor da paixão. E chorar. Permanecer no hello e no goodbye.... o solo é aceno de conhecimento. Bryan aos 25 anos no auge da poesia. Mergulhando no abismo do futuro fanado. Nada é certo e tudo é claro aqui. Just another high é o próprio amor. Oh como é bom ver voce.... just another crazy guy...... uma menina eterna e um cara doido desde sempre........
Siren é sim canto de sereias perdendo todo marinheiro de ondas vazias. Disco hino, disco guia, memória e estrela cadente. Siren é milagroso.