ESQUIMÓ

Esquimós nunca falam eu. É estranho pensar, na língua deles não existe a palavra eu e consequentemente, meu. O " eu quero " se torna " ele Tony quer ", o " meu desejo " é dito " o desejo daquele Tony ".
Nosso mundo é língua/palavra. Como pensa quem não se vê como ser único e sim como ele ? É provável que olhem a vida e vejam nela parte de sí. Não um " eu e aquilo ", mas um " ele é aquilo ".
Os esquimós crêem que Deus é um urso. O mundo foi criado pelo urso e para o urso. O urso é o eu. O homem é o homem, ele- o homem.
Nesse modo de pensar, nada é de ninguém. Eles não são donos de nada, inclusive de suas esposas e filhos. As mulheres podem se divertir com vizinhos e os amigos podem pedí-las emprestadas. Os filhos são criados pelo iglú onde moram.
Daí voce pode pensar : - E daí ? O que um esquimó criou de útil ?
E eu te digo : - Já notou que a necessidade de criar, de progredir, só nasce na falta de alguma coisa ? Só cria quem precisa, quem sente uma necessidade.
Quem sabe o esquimó não esteja pleno ? ( Até alguém o convencer de que ele precisa de um Samsung prateado ).
Os esquimós fazem sexo às gargalhadas. Eles transam rindo. Isso revela muita coisa....
Mas se o urso é Deus, como pode um homem-esquimó matar um urso ?
Lí em algum lugar que a tragédia do homem urbano é matar animais inconscientemente. Voce devora hamburgers e bifes sem saber o que são. Voce não sabe, mas sua alma sente isso.
Os esquimós criaram um belo modo de sublimar essa culpa ( e onde eles vivem, ou voce mata ou é morto ), eles têm a certeza de que TODO ANIMAL MORRE ALEGREMENTE. O esquimó não caça o bicho, ele é que resolve se dar em sacrifício feliz.
Se o urso-deus criou o mundo, nada mais natural que ele se dar como alimento para seus filhos, sua criação.
Em nosso mundo não há nada que chegue perto de tão bela justificativa para a morte. Nós comemos hamburger porque é bom e os animais que se fodam.
Fico pensando em quantas possibilidades de vida e de entendimento da vida nossa mente comporta. Quantos deuses podem ser criados e quantas palavras não poderiam ter deixado de existir ou novas combinações não poderiam fazer novo sentido.
Um mundo sem o conceito de " eu sou " é um mundo completamente alheio a nosso entendimento.
" Ele é Tony " significa em última instância a sábia constatação de que a vida não é nossa, de que ser Tony é ser um papel fora de nós-mesmos e de que a alma interior, único eu-válido, é parte, e não indivíduo, de um grande bicho universal.
Ver um urso perdido em gelo, à deriva, é ver a perdição de um deus.