OS PRAZERES E OS DIAS - MARCEL PROUST, A MELHOR DROGA

Não conheço droga melhor que Proust. Ele faz com que sintamos a realidade de um modo totalmente diferente. Após ler um texto seu, cores, cheiros, vozes, tudo parece diferente, mais rico, mais exaltado. Reparamos nos detalhes, sentimos mais e melhor. Mas como toda droga, ele tem um preço e um mal, o preço é exigir que nos foquemos naquilo que ele diz e o mal é que há a melancolia da perda em tudo que ele escreve. ------------ Este livro é o primeiro que ele publicou, aos 23 anos, e estamos longe da saga do Em Busca do Tempo Perdido. Sentimos aqui um quase ensaio do que ele viria a produzir. Mas ainda não é o autor do parágrafos sem fim, dos aprofundamentos radicais, da feitiçaria do tempo. Composto de vários textos, esta obra abrange contos, poemas em prosa, poesia, comentários. Nada muito longo, mas já com uma complexidade original. Proust é incapaz de não escrever bem e de não produzir beleza. Algumas páginas brilham de tanta cor, de tanto perfume. A Morte de Baldassare é uma pequena obra prima e Violante um conto magistral. Já se nota a habilidade de Proust em compor sinfonias de vozes e de sentimentos, harmonias de palavras, climas musicais. A coisa se desenrola diante de nossos olhos e cérebros como fosse um sonho, sonho mais real que a realidade, daí o caráter de droga. Vicia.