PORTAS DA INFÂNCIA. LENDO H.G.WELLS

Portais se abrem no mundo da criança. Todo dia. Depois isso se perde com a educação racional, os horários do dia a dia, a obrigação de viver uma rotina. Mas eles existem. Quem lembra sabe. ----------------- É uma porta que voce repara na escadaria do prédio onde vive sua madrinha e que antes parecia não estar lá. Porta que é pequena demais e ninguém mais a percebe. É a janela do subsolo da casa onde voce vive, janela que tem uma teia de aranha e onde voce sente o apelo de ficar horas ali parado, esperando. É o piso de lajotas coloridas, piso que surge no meio do matagal alto, numa rua que leva à lugar nenhum, um piso de algo que lá havia e não há mais. É a menina que passa e que traz no rosto uma expressão nunca vista antes e nem depois. Mas é ainda o homem de dois metros e cinco de altura que anda com a cabeça lá no alto e que parece pensar coisas que ninguém nunca pensa. O chinês de rosto redondo que tem um problema físico e te enche de medo e surge sempre na rua e na esquina onde não deveria estar. São os milhares de insetos que voam de tarde, no verão, invadindo a cozinha pela janela, zumbindo, e batendo na cara. Aquele aparelho que passou voando enquanto sua mãe conversava com uma amiga, o piloto detrás do vidro, imenso, gigante, e ninguém mais parece ter visto esse veículo que para e me vê. E ainda é o riacho que corre entre árvores e serpenteia adiante e canta suavemente enquanto eu vejo a prata dos peixes quase transparentes. A luz da noite de lua que ilumina o escuro da noite e traz nas sombras uma presença sem forma. O ratinho entre os tijolos do quintal, com orelhas maiores que eu já vi e que parece prestes a falar comigo. É a tela da TV preto e branco onde passam imagens de um homem enfeitiçado que se vê como um bicho e chora na beira do lago. Imagens que ninguém liga de ver, só eu. São as nuvens cantando raios e eu sinto gigantes brigando onde tudo existe mas nada pode ser. São as pernas da menina loira que lava o quintal e corta o pé num prego e uma gota de sangue nasce. Uma criança percebe portais que se abrem para mundos fora do mundo, como o calor que grita lá fora enquanto aqui eu exito. ----------------- Tudo isso vive nos contos de H.G.Wells, seus contos fantásticos que eu não conhecia, contos que não são infantis, são adultos, mas que fazem lembrar de portas que esquecemos. Ele inaugurou um gênero que seria seguido por Borges e Calvino, fãs do inglês, e que trariam a valorização do que se imagina, do que se cria, do que se lembra e do que mora dentro de nós.