O SEGREDO ESTÁ NA COR
No livro sobre drogas que li, Portas da Percepção, Aldous Huxley, é dito pelo autor que a cor é a entrada para o mundo do "lado de lá". Ao final do livro Heaven and Hell, Huxley fala claramente que existe um mundo pós morte e que esse mundo, sem ego, é feito de cor. Assim, muito mais que Rembrandt ou Constable, artistas que Huxley admira sobre todos, é Matisse o homem que chegou mais perto do que seria o mundo do além. --------------- Isento de drama, sem ação, sem a definição rígida de espaço, de isto e aquilo, é um universo de cores puras, fortes, vivas. Huxley chega à isso através de sua própria mente, nas provas com peyote. Aquilo que ele vê são cores puras, que parecem explodir em potência. Ele não vê pessoas ou coisas, ele vê cores. O cérebro, livre das amarras da razão, bombardeado por noradrenalina, pode ser o que ele é de fato, real. A realidade ao nosso redor é isso, cores aterradoras, infernais e celestiais. Estáticas e unidas em um todo. Matisse. Buda e O Livro dos Mortos. --------------- Tenho uma mãe demente. Sofrendo de alzheimer, ela está hoje com 5 anos de idade, em termos mentais. Ou seja, por um momento que será breve, ela está livre da camada racional-escolar-utilitária da mente. E eu vejo. na minha frente, o que acontece com ela diante da cor. Andando na rua, ela para e entra em êxtase diante de flores vermelhas, diante de rosas amarelas, ao ver um pássaro laranja. Minha mãe é capaz de ver o céu em um inseto azul. Ela nunca foi assim, ou melhor, não era assim desde que eu lembre de a conhecer. --------------- Eu fui assim aos 6, 7 anos. -------------- Ando lendo sobre hedonismo e descobri que sofro de Hedofobia, medo mórbido do prazer. Não vou revelar a voces o porque e como é isso, basta falar que não consigo ter prazer pleno com nada. Minha paixão pelo hedonismo é aquela de quem não conhece o que ama. Hoje acordei as 11 da manhã. Estou tentando ser um pouco mais solto, despreocupado, hedonista. Ao lado de minha cama há uma máscara africana que comprei em 1999. Abro os olhos e me obrigo a olhar para ela por 3 minutos. Ela é de um verde profundo, uma mistura de abacate maduro com um sapo. Há traços de laranka e de vermelho. Lentamente começo a sentir calma, vagar, lentidão. Desacelero. E vem o prazer. Fazia anos, muitos anos, que eu não acordava sem o sentimento de levantar da cama depressa pois há algo a se fazer. Para gente como eu é preciso um esforço para não se fazer esforço. E garanto, 90% da minha vida foi um prazer incompleto, uma broxada. -------------------- Há também uma pequena máscara balinesa em meu quarto. E vejo vermelho e branco, traços em preto puro, laranja claro, amarelo canário. ------------------ Saiba então que olhar longamente uma obra de Matisse é uma terapia espiritual. E é por isso que sempre fui fascinado pelos grandes coloristas. ( Van Gogh não. Há mensagem ali. Ele é muito pouco abstrato ). Não se iluda. O paraíso não é uma aventura e nem uma dança. É uma cor.