AS PORTAS DA PERCEPÇÃO - ALDOUS HUXLEY
Em 1954 Aldous Huxley, vivendo na California, resolveu provar peyote, droga extraída de um certo tipo de cactus. Índios americanos usavam essa droga, umas poucas do sul. O que Huxley procurava era compreender o cérebro e a conciência, o que ele encontrou foi o entendimento da linguagem. ------------------- Henri Bergson dizia, Huxley o cita, que o cérebro funciona como um filtro. Servo do nosso corpo, ele joga fora tudo que não esteja comprometido com a sobrevivencia. O peyote, e várias outras coisas, fazem com que esse filtro falhe. Nosso cérebro passa a funcionar livremente. ------------------------ Quando eu era criança me lembro da fascinação que eu tinha pelas COISAS. Uma folha de papel azul me dava uma sensação de eternidade que durava horas. Eu sentia gozoas estéticos com o rótulo do Toddy ou de Neston. As galinhas no quintal me fascinavam e os coelhos me apaixonavam. Havia nas imagens algo de sagrado e é disso que Huxley fala. Sob efeito do peyote, Huxley observa as dobras de sua calça e percebe nessas dobras e nessa cor o segredo inenarrável da vida. -------------- É dificil para voce entender isso? Não há palavras para descrever esse tipo de experiência. Eu compreendo porque recordo com clareza da minha infância. Por que a infância? Porque é nesse tempo que nosso cérebro ainda permite que alguma experiência não comprometida com o utilitarismo ocorra. --------------- Não se engane: a sabedoria, o segredo do universo não se encontra nas outras pessoas. Ele reside no seu contato com as coisas. É preciso esquecer as palavras. É preciso o silêncio. E é preciso ver. ---------------- Huxley passa então a falar dos pintores que viam as coisas, dos fundos negros, dos azuis, das dobras dos mantos. O segredo não está nos rostos retratados, está nos tecidos, no fundo da paisagem. Nos jardins. ---------------- Huxley critica a modernidade por ter prostituído a imagem. O azul sintético vulgarizou a experiência de se ver o azul real e o plástico anestesiou o prazer de se ver o vidro ou a pedra real. Eis a grande mensagem deste pequeno relato, a espiritualidade se esconde na realidade. Para ver a alma olhe um grão de areia. Pois o grão, a folha, a pele, tudo compartilha desta existência, tudo estão aqui neste momento JUNTOS. A areia e a folha estão unidas aqui e assim elas fazem parte da alma. ------------------ Nossa vida, sobrevivência, nos impede de ver. Corremos, falamos, ouvimos, queremos, e não temos como ver. -------------- Recentemente eu estava com um disco, um LP na mão. A capa, linda, era famosa por sua maestria. Foi então, súbito, que percebi nunca ter PARADO para olhar aquela capa de LP. Eu havia visto, sabia que era o rosto de uma pessoa, um fundo claro, meio corpo, mas nunca VIRA DE VERDADE AQUILO. E olhei então. E senti que entrava naquela foto. ----------------------Aos 12 anos, quando me apaixonei por histórias em quadrinhos, lembro que eu ficava admirando as capas das revistas. Olhava os títulos, as cores, os traços e mergulhava dentro daquilo que me deixava imerso em prazer. Peyote? Sim. Huxley diz que o peyote fez com que ele tivesse uma experiência que ele pode ter com seu cérebro sem droga alguma. A droga apenas facilita isso. ------------------- No segundo texto do livro, CÉU E INFERNO, ele diz que a experiência com drogas pode levar a esses dois mundos. Pois no mergulho nos objetos há o risco da perda de sentido, de não se voltar ao normal. --------------------------- Texto simples, Huxley consegue chegar ao ponto.