NO PAÍS DAS FADAS - H.G.WELLS

Seria bom, e deveria ser o correto, se ler fosse sempre um prazer. Nós sabemos, que principalmente na adolescência, ou perto dela, lemos obras para sermos cultos e essas obras não são necessariamente prazerosas. Depois começamos a ter prazer, algum tipo de prazer, mesmo quando lemos Kant ou Vasari. Mas sabemos, sempre, que o maior prazer em leitura é aquele provocado pelo texto criativo. E quando falo criativo não falo da criatividade linguística de Joyce ou de Eliot, falo do ato de criar histórias. O maravilhamento. -------------------- Wells consegue fazer isso em todos os contos aqui reunidos. Sim, todos. E cada um deles aponta um alvo. O primeiro, chamado NO PAÍS DAS FADAS, pode lhe parecer infantil por seu título. Mas ao o ler voce logo vê que nada há de infantil. Ele é desencantado e seco. O OVO DE CRISTAL inspirou Borges a escrever O Aleph. Em poucas palavras, todos os contos são curtos, Wells nos faz ver um mundo. A PORTA NO MURO deve algo à Jung. Fala de quando topamos com o inesperado que leva à ruptura com o consciente. Como conto é uma obra prima. Já A ESTRELA é o único que remete ao estilo em que Wells é mais famoso, aquele da ficção espacial ou temporal. O FALECIDO MR.EVELSHAM é uma obra perfeita de horror. Ele realmente dá medo. A LOJA MÁGICA deve ter inspirado A Fantástica Fábrica de Chocolates, e OS INVASORES DO MAR daria um maravilhoso filme apocalíptico. O breve relato chamado O QUARTO VERMELHO cria horror sem uso de sangue ou de violência. NO FUNDO DO ABISMO é aventura maravilhosa. O CORPO ROUBADO tem o estilo de Conan Doyle em chave bem mais irracional e por fim temos JANELA INDISCRETA, conto que inspirou o filme de Hitchcock, mas aqui em estilo vitoriano e sem mulher nenhuma. ----------------- O que une todo esse material é o estilo "estranho" de Wells. Um ateu que fala de acontecimentos irracionais. Inexplicáveis. Todas as histórias terminam sem conclusão e sem verdade absoluta. Obra de mestre.