O MARTIR E O BODE EXPIATÓRIO

Leio texto de Flavio Gordon, forte como sempre, onde ele diz que o Brasil vive um embate entre o paganismo e o cristianismo autêntico. Como acontece em sociedades sob forte crise ( eu chamaria de esquizofrenia aguda, o Brasil está em transe esquizoide profundo ), as forças do inconsciente pagão irrompem e essas forças passam a ditar a vida diária. Como elas se manifestam? O primeiro sintoma é o desprezo pela razão. O pensamento mágico se torna absoluto e deixa-se de observar o que de fato acontece em prol de uma crença mágica. O que tromba com a crença é desprezado. Segundo sintoma é a violência. Exige-se um bode expiatório, e esse bode deverá ser eviscerado em praça pública. Coloca-se sobre o bode tudo aquilo que não deu certo em sua vida. O bode passa a ser o culpado. E não basta matar o bode, ele precisa sofrer, sofrer muito. Flavio aponta o fato de como Bolsonaro é tratado pelos fanáticos como esse bode. Há todo um ritual pagão de acusação ao bode, prisão, evisceração, sofrimento, injúria e morte. O bode é culpado pela sua fome, pela sua mulher que o trai, pelo crime, por tudo que irrita o pagão. E ao cuspir, apedrejar o bode, magicamente voce sente alívio. Passageiro. Por isso o bode não pode morrer. E mais interessante, não pode haver dúvida. Qualquer sinal de piedade pode desfazer o transe orgiástico. ------------------------------- No outro lado temos os cristãos antigos, amantes da martirização, seguidores do líder que sofre sem parar. Esses conhecem a piedade e não entendem como é possível que pagãos sejam tão crueis. O líder é inocente, e de fato é, portanto não adianta acusar os cristãos de não terem piedade por assassinos ou ladrões, pois a primeira característica do mártir é sua falta de malícia, a ausência de malandragem. O mártir caminha para o sacrifício sem tentar fugir. É como se ele soubesse ser preciso tornar-se o bode expiatório para conseguir vencer. ------------------------- Recentemente, entrevistado por revista americana, o grão sacerdote Alex I, disse ser seguidor de Exu e Xangô. Observa Flavio que os dois são da guerra e não da justiça. Alex se vê como um guerreiro e não como um neutro julgador. Na guerra pagã é preciso o sacrifício do bode. Seu sangue lava o mal. ----------------------- Me incomoda sempre na direita do Brasil a sua passividade tonta. Ela não usa meios sujos, não é esperta, malandra, sacana. Bolsonaro poderia ter calado a boca de meia dúzia de veículos de imprensa com dinheiro e poder. Poderia ter falado aquilo que a classe média chique queria ouvir. Poderia ter contratado marqueteiros. Poderia ter financiado alguns cantores prostitutos. E principalmente, poderia ter feito o jogo dos bancos. Itaú e Bradesco, os que mandam aqui. Mas não. Xucro, sem pensar, caminhou para o altar do sacrifício, sem fugir e sem mudar uma frase do que foi dito. É a alma cristã em 100% de seu fanatismo. Deus assim quis e eu não vou ceder "ao mal". Observe que os dois grupos acabam por não agir na relaidade histórica. A direita cristã passou pelo poder sem deixar herança nenhuma. O Brasil não mudou em nada. E os pagãos, a esquerda, continua no seu transe orgiástico, feito de sexo, roubo, drogas e crenças infantis, enquanto a realidade do Brasil permanece a mesma, sem educação, sem renda, sem paz. ---------------- Se Jung vivesse e estivesse no Brasil ele teria muito o que escrever. O modo como o inconsciente se revelou aqui. A aversão pagã pela culpa, pela piedade, pelo cristianismo e a aversão cristã pela ação objetiva, por jogar o jogo sujo. ( A igreja católica joga sujo desde que se tornou uma instituição política, espero que voce saiba que falo da igreja como espiritualidade pura, abstrata, filosófica ). ----------------- Não haverá reconciliação porque o paganismo e o cristianismo são incomunicáveis. O que pode haver é a volta do paganismo para o inconsciente e o Brasil voltar a fingir ser um país unido e de bom coração. Mas isso eu não consigo crer. A fratura é grande demais e um dos lados terá de aniquilar o outro. Sinto, infelizmente, que o paganismo já venceu e que o destino será a incultura, a incivilidade e a transformação deste território em tribos conflitantes. Voltaremos ao universo do mais forte rouba, a magia existe e quem aponta o mal será destruído. ------------- Não gostou deste texto? Volte a se sentir bem. Fure a barriga do bode e faça-o sofrer um pouco mais. Seu alívio será imediato. --------------- ps: A Alemanha passou por momento igual. O paganismo do nazismo e o bode sendo todo judeu. Como foi resolvido? O transe passou na dor da guerra e na humilhação da derrota. Súbito, todo cidadão que aplaudia a perseguição ao judeu "esqueceu" tudo o que havia feito. Mas, e esse é o grande "mas", a Alemanha nunca trouxe os judeus de volta. A limpeza étnica teve pleno êxito. A cultura judaica alemã morreu em 1936 ao ser transformada em bode expiatório. No sonho da esquerda brasileira há esse paraíso: um Brasil sem um só direitista. Conseguirão?

A REALIDADE

As pessoas evitam a realidade. Li um livro sobre isso. De um tal de Keppe que eu não conhecia. Ele me parece um charlatão, mas essa ideia é boa. Acho ele charlatão porque ele não fala o porque de evitarmos a realidade. Consegue demonstrar que realmente a evitamos, mas não diz o motivo. Penso que isso acontece porque o homem é o bicho que teme a morte. Tentamos esquecer dela e para isso criamos distrações. Aterrorizados, somos o único bicho que entende o fim de tudo, lutamos para esquecer a morte e no processo negamos a vida real, a vida onde a morte espreita. Explicação simples, ele evita falar isso e acaba não dando motivo algum. Mas o resto de sua exposição é válida. ------------------ Toda infelicidade decorre da não aceitação da realidade e quanto mais vivemos na fantasia, na imaginação, mais infelizes somos. Toda alegria vive no mundo real, o mundo onde vive nosso corpo. Toda tristeza doentia é fruto de criação cerebral, invenção. Eis a armadilha: desenvolvemos a imaginação para evitar sofrer, e sofremos por perder a vida real. Hoje isso se radicalizou. As pessoas não só imaginam a vida, elas tentam criar uma vida imaginária. Se a realidade é a vida do corpo, e as crianças vivem isso em plena alegria, cada vez mais o corpo é negado, a evidência do que se vê é cancelada em favor de algo criado na mente. Não há a menor possibilidade de alegria nessa condição. Pelo fato, cruel, de que a pessoa passa o tempo todo brigando com o que seu corpo diz. Os olhos dizem: Belo, mas a mente cria um discurso para provar que o belo não existe. O corpo saliva de fome, mas a mente diz que aquilo não é bom para o fígado. O corpo diz quero, a mente dá argumentos para não querer. O corpo vê azul, a mente não aceita e fala verde. -------------- Se voce não entendeu, corpo é seu olho, seu ouvido, sua mão. Corpo é também seu sistema nervoso, seu desejo, seus genes, sua química interna, seus hormônios. Tudo isso fala sem precisar inventar nada e essa liberdade de se inserir na realidade é a única maneira de ser feliz. O corpo adoece e sente dor, morre, sim, isso é triste, mas não é absurdo, não é sem sentido, não é loucura ou neurose. O corpo, como a realidade, tem uma narrativa, um modo de contar o tempo, uma dança. A imaginação apressa isso, ou pior, ignora. Aí a infelicidade. --------------- Então caia na realidade neste novo ano. E não tema ver o que está aí, na sua frente. A verdade.

COMO SER FELIZ

Em 1950, aos 24 anos, chegado ao Brasil, meu pai viu seu primeiro filme. Até então, tudo o que ele vira fora sua aldeia em Portugal. Todas as ruas do mundo eram as ruas de sua aldeia e todas as mulheres do mundo eram aquelas poucas que ele vira. Imediatamente, meu pai descobrira que havia um lugar chamado Arizona e que cem anos antes, cowboys andavam pelo deserto. Meu pai nunca havia visto um deserto. Nunca havia visto um americano. Ele nem mesmo sabia que havia gente com 1.85 de altura. Mais importante, meu pai não sabia que havia mulher tão bonita como Rita Hayworth. ----------------------------------- Meu pai, em 1950, assim como acontecera com grande parte da humanidade a partir de 1920, entrava em um univero duplo: de um lado aquilo que era real, que ele podia tocar, sentir na pele, estar dentro, se relacionar, e de outro o mundo da imaginação, aquilo que era apenas luz, inefável, e que entrando dentro de sua mente modificava o funcionamento de seu cérebro. Não haveria volta. Depois viria a TV. ---------------------------- Uma psicóloga diz que nosso cérebro é uma Harley Davidson, ele foi feito para andar a no máximo 80 por hora. É uma máquina que aprecia o entorno, que flui devagar, que absorve em seu tempo próprio. Hoje, com a hiper conexão à tudo, nossa mente se vê obrigada a andar como um fórmula 1. O repouso é a 120 por hora, o desejo corre a 300. Em um dia, vemos mais mulheres que um homem de 1900 via em toda sua vida. Repito, em um dia, na rua, na TV, na Net, vemos mais mulheres que um homem via em toda sua vida. Nosso cérebro é o mesmo, o que o excita não. Mais enervante para ele, essas centenas de mulheres vistas em 24 horas o atraem, porque todas tentam ser atraentes. Algumas estão nuas. Em um dia ele verá mais corpos nus que Casanova viu em toda sua vida. A ansiedade se impõe. -------------------- Quem se recorda de 1960, ou mesmo 1980, sabe, as pessoas eram mais lentas. Andar era menos apressado, falar era mais pausado. Ouvia-se mais. O tempo era mais longo. Se voce duvida basta ver um filme ou uma série de então. O tempo que ali se faz é mais acelerado que o tempo real da rua e se voce acha o filme ou a série lenta, creia, na rua a lentidão era maior. Esse tempo longo era devido ao fato de que ainda se podia desligar a TV. E não ir ao cinema. Na rua, no ônibus, no trem, voce não levava a tela com voce. Nem mesmo o telefone. Então, quando voce estava na rua voce estava na vida real, queira ou não. Andar de ônibus era ouvir os companheiros de viagem, ouvir o motor, ver a rua, sentir o sol na pele, sentir o calor. Cheiros. Seu cérebro entrava no fluir da vida ao redor, real, voce a tocava, a mastigava, cheirava, ouvia. Na praia o relaxamento era total: vozes distantes, cherio de mar, de comida, ondas quebrandO, o cérebro mergulhado no beira mar. Absoluto. -------------------- Voce poderá dizer, mas e daí? Qual o problema? Que se acelere. Que se veja tudo na tela. ---------------------------- Sim, voce pode escolher isso. Pode? Escolhemos o que queremos fazer mas não escolhemos, nunca, o que desejamos. Isso é Schopenhauer. Desejamos nos ligar, nos informar, saber, e desejamos velocidade, tudo rápido, pra ontem. Produzimos. Produzimos muito. E sofremos. Como nunca antes. Por que? Porque o mundo real, pela primeira vez, parece pouco. ------------------------- As pessoas se expõe nas redes sociais porque desejam fazer parte do mundo que parece melhor, o virtual. Voce viu a menina de 18 anos que comprou um iate, voce viu o homem de 40 que fez um bilhão e voce deseja ser como eles. De repente sua vida, a real, não importa mais. Ela parece limitada, lenta, sem emoção. Voce sabe que existe Uganda e viajar para o Pantanal é pouco. Voce viu a mulher fazer sexo no porn videos e sua esposa não sabe transar. Seu pau parece pequeno. A vida dos outros, a que voce vê nas telas, é fascinante, a sua não importa. Dá pra ser feliz? ------------------------- Nossas melhores lembranças da infancia são aquelas em que estamos completamente ligados ao real. Temo que pessoas com menos de 30 anos não tenham tido essa sensação, mas se voce tem 35 ou 40 sabe do que falo. Aos 6 ou 7 anos, voce está no quintal e a chuva está chegando. Voce sente o cheiro dela e a temperatura cai. O ar fica úmido. Pássaros saem voando. Voce relaxa e ao mesmo tempo sente apreensão. Alguma coisa vai acontecer. O céu escurece, tons de roxo e de cinza. Então as gotas começam a cair. Voce corre pra casa enquanto sua cabeça molha. São esses os momentos da infancia que valem a pena. O que aconteceu? ------------------------ Nosso cérebro, seja obra Divina, seja obra da natureza, é parte deste planeta. E este planeta tem seu modo. Nossa mente, como nosso corpo, tem limites. A realidade é o que nosso cérebro é. Ele processa de um modo analógico, biológico, em seu tempo e seu lugar. Ele é envolvido por sentimentos. Ele aprecia, sente, saboreia, e procura conforto. Para esse saborear, esse conforto, ele precisa usar as mãos, os olhos, os ouvidos. Sentir. Com tempo, seu tempo. O tempo biológico e não o digital. ----------------------------- As mãos são parte central do processo e por isso existe uma diferença imensa entre pegar o papel e desenhar com uma caneta e tocar uma tela, a mesma, sempre a mesma, seja para desenhar, escrever ou ver um filme. Há uma diferença de experiência tátil entre procurar, tirar o disco da capa, ligar o aparelho, colocar o disco para rodar e ouvir a música, ou digitar uma faixa na tela. Ir à estante pegar um livro, segurar ele aberto, sentir o cheiro e o tato da folha ou olhar a mesma tela de sempre. O real é sempre uma questão de toque, de habilidade manual, de aprender a pegar. Isso é o cérebro. -------------------------- Voltando a meu pai, ele sempre soube que aquilo que via na TV era apenas TV. Ele falava isso. Só na TV isso acontece. Outra frase dele era: só em filme.... Por ser de uma geração pré cinema, o real estava sempre presente. E esse real lhe bastava. Havia nele a dor de todo ser vivo, mas em meu pai eu jamais identifiquei a ansiedade ou a depressão que são marcas comuns em todos os meus contemporâneos. Eu brigava muito com ele exatamente porque eu não aceitava seu "comodismo", comodismo que hoje sei ter sido a adaptação ao mundo como ele é, real. Eu era e sou agitado, nervoso, neurótico, sempre insatisfeito. Ele dormia relaxado e um bom almoço o fazia ser feliz. Por que diabos ele era assim? ----------------------- Poque até os 24 anos, meu pai nasceu em 1926, ele nunca fora tentado pelo virtual. Seu mundo era sua aldeia e seu mundo lhe bastava. Houve um choque ao ver o Arizona, o Alasca e Ava Gardner, mas sua mente estava ancorada no bom e velho mundo biológico. Ele não imaginava ser John Wayne. Ele adoraria ser, mas ele sabia que querer ser John Wayne era bobagem. E fim de papo. Sua atenção, e aqui encerro este texto, era toda do mundo real. Muito melhor que John Ford era o bife na mesa. Mais excitante era sua mulher na cama que uma estrela na tela. Ir andar na rua era mais bonito que imagens de Star Wars. Porque sua mente, viva no real, sabia TODO O TEMPO: isso é só um filme. ------------------ Lembro que quando eu tinha 13 anos, meu pai achou uma Playboy escondida no meu quarto. Minha mãe nem sabia que mulheres posavam nuas e meu pai veio conversar comigo. A frase que ele mais me falava era: ISTO É SÓ PAPEL. VOCÊ NÃO VÊ PAULO? SÓ PAPEL. Ah meu velho....voce era saudável....que saudade de gente como voce.....

Blind Faith - Sea of Joy

BLIND FAITH, A BANDA

Quando em 1968 um bando de caipiras do Canadá lançou um disco chamado Music From The Big Pink muita gente ficou atônita. Hoje, tanto tempo depois, nós não entendemos mais o que havia de tão diferente em um disco pop. É preciso entender. Imagine que voce tem 22 anos em 1967 e que tudo que voce escuta são coisas como The Doors, Hendrix, Cream, Traffic, Grateful Dead, Love e o soul music da costa leste. A moda era coisas groovy, ou seja, bem louco. Solos de guitarra, efeitos de estúdio, sons orientais, o mellotron, cítaras, flautas, viagens de LSD. Então no auge de tudo isso, tempo em que até Bee Gees e Neil Diamond soavam sob drogas, surge esse disco sem drogas, sem viagens astrais, sem sons esquisitos, sem solos longos, sem nada que lembrasse hippies. Eram canções que falavam de voltar pra casa, ter amigos, formar um lar. Era a sanidade em meio ao caos. Todo mundo, inclusive Beatles, absorveu The Band, e Eric Clapton mudou sua vida para sempre. Desde então toda sua carreira, de 1969 até hoje é uma homenagem à The Band. Sua mudança foi radical e começa aqui, com o grupo Blind Faith. --------------------- Clapton sai do Cream, cheio das ego trip, dos fâs que mal ouviam o som, dos solos de 15 minutos. Cansado, ele começa a fazer jams com Stevie Winwood, o cantor tecladista do Traffic. Ginger Baker aparece e pronto, surge um super grupo. Gravam um disco e fazem alguns shows e como esperado, não dá certo. Ginger continuava na trip hippie de solos longos e Winwood não abria mão das influências groovy. Eric logo pulou fora, se unindo a Delaney e Bonnie, um duo americano raiz. Este disco, caótico, chuta pra todo lado e erra alvos. Nem um produtor fera como Jimmy Miller conseguiu salvar a produção. O som é ruim, flácido, preguiçoso. Eles erram, acham que o som de The Band é light, soft, esquecem que ele é viril, musculoso. Blind Faith passa desleixo onde devia haver feeling. ----------------- A primeira faixa já entrega tudo, o riff, ótimo, precisava de mais ensaio. O vocal, de Winwood, está todo errado. E a batera de Ginger tenta dar beat a um som sem alma. Cant find my way home é puro Winwood. Bela, delicada, quase perfeita. Im all right é uma cover de Buddy Holly e é bem ok. Presence of the Lord é o grande momento de Eric na banda. O solo é sublime. As duas últimas faixas são psicodélicas. Tem até um solo de Ginger. --------------------- Acabei elogiando as faixas, mas todas juntas não funcionam. E a preguiça mata tudo. Um detalhe: a capa do LP é hoje totalmente censurada. Parece que a liberalidade de nosso tempo é de araque.

DENNIS LEHANE E NELSON RODRIGUES

Nós somos um puxadinho do Partido Democrata dos USA. Toda nossa lacração é cópia, servil, do que os democratas fazem por lá. De um modo pobre, aculturado, ogro, nosso funk é xerox ridículo da cultura do rap de Miami. Nossas pautas esquerdistas, aborto, trans, drogas, é a mesma do Partido de lá. Até a invasão fajuta do Capitólio nós imitamos, até as datas são quase a mesma ( lá dia 5, aqui dia 8 ). A diferença é que os USA possuem ainda um STF isento e um Partido Republicano que garante alguma racionalidade. Se voce usar quatro neurônios vai perceber que a diferença entre os dois partidos é a razão. Os Republicanos se apoiam na tradição da lógica e os Democratas viajam na maionese todo o tempo. Infelizmente aqui não temos tradição nenhuma lógica, então nos úmtimos 30 anos o Brasil é um hospício onde os ladrões tomaram o poder. Mas cara, porque voce está falando isso? Explico. ---------------------- Lehane é o típico irlandês americano de Boston. Sobre Meninos e Lobos virou filme do Clint. Este livro, Coronado, tem alguns contos e uma peça de teatro. O clima é aquele, frio, raivoso, ressentido, pubs e crimes. A linguagem é aquela dos USA branco atual: crispada, seca, objetiva, com gosto de cerveja forte. Gelada. Mal se percebe algum laço familiar quente. Okay? O que acontece é que um brasileiro, que nada tem a ver com essa merda, tenta hoje escrever desse jeito. E pior, viver desse modo. A vida de gangue. A vida de briga. A frieza do sexo sem sentimento algum, apenas a vontade de ejacular. A droga. ------------------------- Nelson Rodrigues é o Brasil antigo, o de 1950, ano em que meu pai chegou por aqui. Tudo em Nelson é paixão. É quente. Ódio, inveja, desejo de posse, tesão, raiva, pecado, muito pecado. As peles escorrem suor. A linguagem faz com que a gente sinta o cheiro dos corpos. Os homens são machos egoístas ou gays disfarçados. Cornos todos o são. As mulheres têm bundas fartas e todas são putas em potencial ou em realidade. Mentem, todos mentem, para si mesmo ou para o mundo. A realidade brasileira está toda alí. A do feijão. Do ônibus. Do batom. Do trabalho ao sol de 40 graus. O bigode. As lorotas. Nelson escreve breve e fácil e sempre como só no Brasil é possível. Não é porutuguês de Portugal. Não é português que tenta parecer cool ( inglês ). É a língua do Rio de então, a língua da classe média de Copacabana. ---------------------- Isso se perdeu neste século. Não há Brasil nos livros e menos ainda no cinema, TV, música. Há uma produção cultural que cria o artificial. Uma favela de gangue de Los Angeles, uma rua de bazar de Miami, sexo como em pornô made in NY. Nossa produção não cheira porque nossa rua, nossa vida se tornou UMA FALSIDADE. Somos um sub puxadinho de Oakland USA. Nossa prosa parece tradução do inglês. --------------------- Nelson seria cancelado hoje. Completamente. Ele era reacionàrio. Um conservador perto dele parece um liberal. Dificilmente ele conseguiria publicar. E emprego em jornal, esquece. Suas peças e textos estão desaparecendo da midia. E quando são levadas a cena se foca apenas no sexo e não na moralidade do autor. Tenta se esconder seu partido. ------------------- Me pego rindo ao ler Nelson. Rindo muito. Ele faz algo difícil de se conseguir, mergulha tão fundo no drama, no patético, que a dor se torna ridícula e brota o paroxismo do humor. Surge o tal brasileiro, ser que não existe mais. O brasileiro, um caldo de vaidade, medo, insegurança, malandragem e prosa rica. O mundo de Caymmi, Cartola, Moreira da Silva e Garrincha. Nelson Gonçalves e Cauby. Zé Trindade e Costinha. Chacrinha e Ary Barroso. Gente que só no Brasil poderia existir. ---------------------- Nelson só existe aqui. E aqui agora não tem linguagem própria e sem isso nada parece único, só possível por aqui. Morou?

Pretty Things 1965 Live

THE PRETTY THINGS - SILK TORPEDO

Voce nunca ouviu falar dos Pretty Things? São uma das bandas que deveriam ter sido famosas mas nunca foram. Não que sejam undwerground, mas a fama que tiveram nunca foi nem 20% do que mereceriam. Por que? ------------------- Eles surgiram na onda de 1964 e corriam na mesma raia que os Rolling Stones, eram do blues e eram rebeldes. Estouram na Inglaterra com Rosalyn, mas não chegaram aos EUA. Eles tinham um problema que os atrapalhava, o cantor, Phil May. ------------------ May tinha o cabelo mais longo da GB e era gay assumido. Isso em 1964. Selvagem, ele parecia feio, mal vestido, mal educado e tinha uma voz muito wild. Se tornaram uma banda quase: quase famosa, quase explodindo. Desse modo, eles foram a primeira banda de sexualidade dúbia, mas quem levou a fama foram os Stones, foram a primeira banda punk, mas os Kinks são chamados de avôs do punk, e lançaram a primeira ópera rock, PS Sorrow em 1967, mas quem levou a fama foi Tommy do The Who. ------------------------ Falidos, eles insistem e entram nos anos 70 esquecidos. O disco de covers de Bowie, Pin Ups, tem Rosalyn e isso os ajuda ( é um disco soberbo de Bowie ). E em 1974 Jimmy Page, fã do grupo, os contrata para sua gravadora Swann Song. Silk Torpedo é lançado em 1975, e claro, não vende bem. Aqui no Brasil eu o comprei na época, aos meus 12 anos. Como é o disco? Bom pra caramba! Uma mistura pop de hard rock, progressivo, ópera rock, blues, pitadas de folk e letras raivosas. Tme duas faixas com a guitarra de Jimmy Page em riffs à Led Zeppelin, mas nada há de Zeppelin aqui. Não dá pra comparar os Pretty Things com banda nenhuma. Talvez, muito de longe, algo dos Kinks de então, pop ambicioso com variedade de arranjos. Quanto a voz de Phil May...é uma questão de gosto. Experimente. Tem muita coisa dos anos de 1970 que voce jamais escutou e eu sei que vale a pena.

BRIGITTE BARDOT

Entre todas as atrizes que se tornaram mito, BB é de longe a quem tem menos grandes filmes. Para meu gosto, Bardot não fez um só filme classe A, mas eu sei que dirão que Le Mépris de Godard e Viva Maria! de Louis Malle são grandes filmes. Até nisso Bardot foi pioneira, ela se tornou hiper famosa, em 1966 era tanto quanto os Beatles, sendo apenas "uma personalidade" e não uma grande atriz ou grande cantora. Uma celebridade. Por ser bela e por ter uma vida interessante. -------------------- BB lançou algo de novo, a elegancia esportiva. Audrey era formal, Marilyn era sexy em exagero, Sophia muito exuberante, BB era "simples e à vontade". Shorts e camiseta, vestido comum de algodão, calça St,Tropez com blusa de marinheiro. Biquini. BB foi a primeira mulher moderna. Inclusive na sua vida sexual, um drama de paixões escondidas, desilusões, casamentos curtos. ------------ Ela sobreviveu ao seu mundo. E isso nunca é fácil. Como Delon, seu amigo, ela precisou testemunhar a morte do conceito de beleza e de elegância. Hoje não se dá mais valor algum ao que seja simplesmente belo ou ao que pareça elegante. Se procura o excitante e o sensacional. Se houver algo no lado de lá, que BB tenha um lugar de beleza onde ela possa ser feliz.

UMA QUESTÃO DE HAVAIANAS E DE COCA COLA

Até 1989, eu sei, eu estava lá, esquerdistas não iam ao McDonalds. E não bebiam Coca. Lembro de meu professor de cursinho dizendo que devíamos beber guaraná, jamais produtos da direita americana. Esquerdistas eram machos. Hiper realistas, eles não acreditavam em nada que não fosse real, sólido, visível. A imagem do militante era a do operário, o homem que lida com aço, ferro, constroi coisas que são uteis. A mulher era igual, a camarada operária. Mas o real deu errado em 1989 quando a URSS caiu. O real provou na vida prática que o socialismo não funcionava. Bastava olhar e ver com seus olhos. Todo o mundo da esquerda afundou ( menos Cuba e Coreia do Norte que se mantiveram estática e a China, que espertamente manteve o regime em termos filosóficos e políticos, mas mudou a economia aplicando doses estatais de capitalismo sob controle ). Uma revolução mental e depois de propaganda mudou a esquerda, já que o mundo real os traiu, viva o desejo, viva a fantasia, viva a ilusão. Explico: Se a economia pode ser cruamente exposta por fatos, números, dados, vamos negar tudo isso como irrelevante. Nossos argumentos serão atados ao sonho, ao querer é poder, ao eterno porvir, ou seja, a fé. Uma inversão ocorre durante a década de 90, a direita se torna cinetífica, a esquerda irreal. ---------------- Isso fez com que chegassemos ao paradoxo de 2025. A esquerda nega a ciência todo tempo, a direita a defende. Como? Simples constatar. Todo tipo de terapia exotérica, crendice paspalha, fé sem base alguma é imediatamente encampada pela esquerda. Eles passaram a amar religiões esquisitas, drogas absurdas, ciências alternativas ( ciência alternativa é sempre questão de fé ), no extremos passaram a crer que uma pessoa sem útero e que jamais teve a experiência da menstruação e jamais engravidará, é uma mulher como qualquer outra. Por que? Porque ele quer. No extremo eles apelam para a tese da alma feminina. Ora....esquerdista falar de alma já prova que estão perdidos e se formos falar em alma devemos entender que não existe alma feminina, e nem masculina. O que define nosso sexo é nosso corpo, e ele tem ovários ou testículos, o resto é questão psicológica e não biológica. Voce pode ser um homossexual, e não há mal algum nisso. Voce pode ser um homem com sensibilidade totalmente feminia, mas será sempre um homem feminino e nunca uma mulher. Isso é ciência, isso é biologia simples, banal, mas esse FATO cria uma conversa raivosa na esquerda. Por que? Por causa de 1989, do divórcio feito com o mundo real. Se a ciência econômica deu errado, não existe mais ciência nennhuma. ------------------------------ O mesmo acontece com vacinas que não precisam ser testadas ( eu quero porque eu creio que ela funciona ), história ( eu creio na história que me é confortável e não naquilo que está registrado ), cotidiano ( eu vejo o que devo ver ou aquilo que confirma o que eu desejo ver, não observo com isenção ), informação ( eu idolatro o que valida o que eu já imaginava e desprezo tudo que seja contrário ao que quero crer ). --------------------- Toda essa situação cria um beco sem saída esquerdista, pois, sendo uma questão de desejo ou de fé, tudo que a esquerda fizer será imediatamente justificado, não importando jamais o MUNDO REAL. Detalhes "futeis" como corrupção ou mentiras, coisas atreladas à realidade, não farão parte do que interessa, pois o interesse será sempre o de COMBATER O MUNDO REAL, A VIDA SÓLIDA DA MATÉRIA. ----------------- Se formos levar ao lado psicológico, será obvio que tudo isso vem da negação do princípio paterno. O império do pai, que é o mundo lá fora, da luta para sobreviver e o mundo da lei, foi abandonado, e mais que isso, odiado. A esquerda procura, em desespero, viver no mundo da mãe, onde o Estado dá leite e colo e a vida se torna um brinquedo sem cobrança. ------------------------ O que estranho e falo aqui é que não era assim. A direita era acusada de crer em Deus e de usar isso como Fantasia que tudo resolvia. Era direita que negava a ciência, crendo em Deus e alma e a esquerda era dura, fria, científica, sem nenhum tipo de fé ou de religião. Eu respeitava essa esquerda porque ela era lógica, corajosa, destemida. A atual é de uma tolice atroz. Pegou o pior da diretia e adaptou a sua ideologia a transformando num mingau aguado onde inexiste virilidade ou coragem. ---------------- Eu falei virilidade? Inexiste na massa esquerdista e em seu pior militante, o esquerdista chique. Mas a casta dirigente, aqueles que realmente comandam, donos de bancos, o líder do partido vermelho, esses sabem fazer. São esquerdistas do velho estilo, machos, duros, sem fantasia. Souberam encampar as modas exotéricas, as fés new age, os desejos absurdos de uma massa de perdidos iludidos e assim refundar a esquerda como a ideologia do EU POSSO TUDO. -------------- Mas creia, nas salas dos partidos, eles sabem: o mundo real é o mundo do dinheiro, da força, da briga, e eles usam seu exército de idiotas como bem entendem. .

A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO - ANDRÉ GIDE

Prêmio Nobel, muito famoso, Gide era lido por todo século XX. Homossexual em um tempo em que ser gay não dava mídia à ninguém, ele foi um homem de coragem. Conheceu Wilde e Proust na juventude e viveu até os anos de 1950. Figura central da cultura francesa, conseguiu se manter à parte. Não era de grupo nenhum. Talvez por isso Gide é agora meio deixado de lado. Nossos leitores só entendem o mundo como blocos que se chocam. Uma alma livre como a dele parece coisa sem sentido. ----------------- Escritor entre 1890-1910, aqui temos contos, curtos, de Gide. O estilo é precioso. Gide escreve como ourives, cada palavra é um diamante em uma colar. Os temas são decisivos, aquele momento em que a vida e o amor se afirmam ou deixam de existir. Dentre esses contos, o mais longo e melhor é o que dá título ao livro. A parábola bíblica recontada em estilo esteticista. A volta do filho, a volta da alma pecadora à Deus. A volta ao lar. O ser ferido que retorna. Júbilo. Aceitação. Mas também dor e mal entendido. É belo. muito belo.

A PAREDE BRANCA

Olhando para a parede de todos os dias, ela já não lembra direito o que realmente aconteceu. O olho está ferido, um braço foi deslocado, mas não importa mais. As vozes, familiares, são agora estas ao seu redor e não mais as amadas vozes antigas. Faz quanto tempo? --------------- Às vezes surgem imagens. Ela estava na rua, havia pessoas ao seu redor. Um sentimento de que era importante estar lá. Finalmente ela se engajara numa causa. Talvez eles conseguissem sensibilizar a população, fazer com que mais gente se unisse a eles. Mas o que mais? Por que aquele homem dissera que ela fazia parte de um grupo terrorista se tudo que ela fizera, por toda a vida, fora dar aulas? Nenhum tiro, nenhuma bomba, nenhum ferido, nem mesmo fogo fora ateado a nada. Por que a xingavam de terrorista? ------------------- O cansaço a matava. Ter 64 anos e estar aqui. Olha aquele homem ali, ele vai morrer, tem diabetes...mas o pior é aquela moça, ela chora dia e noite com saudade dos 3 filhos. ---------------- Ela pode lembrar? Será ainda permitido lembrar? Fora com as amigas. Não dava para aceitar aquela derrota. Quem sabe elas conseguiam fazer com que o exército obrigasse uma recontagem de votos? Então nós fomos lá. E surgiu um general. Ele pediu para que entrassemos num ônibus. Iam nos levar pra casa. Quando parou era a prisão. 14 anos. Eu vou morrer aqui. Por ter estado numa praça. ------------------ A parede me olha e diz que não sou mais humana. Sou apenas uma terrorista anônima. Eu aterrorizei alguém. Quem? Eu não consigo lembrar de ter ferido alguém. Eu não me lembro de ter nem mesmo empurrado ninguém. Nós ficamos lá, protestando. Alguns entraram dentro do prédio, eu não. Não teve fumaça. Ninguém jogou pedra. Mas me disseram que o juiz nos chamou de grupo armado. E a única arma que vi na vida foi a faca com que eu fazia postas de peixe. ---------------- A parede é branca e é todo meu mundo. Um moço enlouqueceu ontem. Levaram ele não sei para onde. Todos os dias. Eu posso lembrar? Será que matei alguém e não me lembro?

BETTIE PAGE

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ELLERY QUEEN, ERLE STANLEY GARDNER E O PRAZER DA LEITURA

Faz anos que não me obrigo a ler nada que não me dê prazer. Foram os livros de Conan Doyle que me despertaram isso. Wodehouse também. Claro que não leio best sellers idiotas, eles não me dão prazer nenhum, a escrita ruim me enerva, mas se posso ler coisas classudas e populares, por que não? Quando falo aqui de Proust ou de James pode ter certeza que sinto prazer em os ler. A coisa flui e as imagens nascem com naturalidade. --------------- Nos viciamos em livros policiais, são os citados acima, porque eles nos dão prazer, e o prazer vem de nossa necessidade, natural, de narração. Amamos uma história bem contada e que faça sentido, e a beleza do estilo, se voce a exige, vem do quanto voce leu em sua vida. Um leitor básico se satisfaz com uma boa HQ ou um Paulo Coelho, um leitor mais experiente exige algum estilo, boa escrita, mais arte na articulação do todo. Bons romances policiais são exemplarmente articulados, tudo faz sentido, os personagens têm uma cara e a narrativa nos leva pela mão. --------------------Ellery Queen era um psudônimo e na verdade alguns dos livros escritos sob esse nome eram na verdade escritos em grupo. Em sua época, anos 30-60, eram considerados má escrita, pobres e vulgares. Venderam muito, aos milhões e lidos hoje parecem bons. Nosso nível de exigência caiu tanto que parecem quase arte. São do tipo " descubra quem é quem", a trama é complicada e o ambiente é aquele tipo Mike Hammer. Já Erle Stanley Gardner foi advogado e seu heroi é um advogado que descobre a verdade. Muito absorvente, queremos saber quem matou e porque e isso só é revelado no tribunal. Os livros de Gardner eram vendidos até em postos de gasolina ( eles tinham uma estante que vendia livros ). Era uma época em que o tempo que hoje é gasto nas redes sociais era usado para ler livros. Charmoso é a palavra que define Gardner. Perry Mason era o nome do heroi e ele foi até série de TV. De sucesso.