trombone com vara
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CARL GUSTAV JUNG , O PROFETA ATORMENTADO. BIO DE PAUL J. STERN
Leio que Stern foi professor em Harvard e terapeuta. Esta biografia de Jung, achada em sebo, 1977, é uma crítica dura ao psicólogo suiço. Stern o trata como um aspirante a profeta e um fracasso em sua tentativa de unir opostos. Alma fendida, Jung nada mais fez que tentar se consolar. Deus foi colocado dentro do inconsciente, fazendo assim com que todas suas visões fossem obra divina. Homem medroso, ele era incapaz de manter uma amizade e tinha ares de arrogancia e impaciência. -------------- Não, ele não tinha hábito de manter relações sexuais com pacientes, ele era um puritano. Filho de pai pastor, seu interesse era religioso e apenas religioso. Vaidoso, ele agradava clientes ricos e sua produção escrita é ilegível. Falta mais alguma crítica? Ah sim, ele trabalhou com nazistas. ----------------- Para que um homem tem o trabalho de escrever uma biografia com tanto rancor? Não é preciso ser puxa saco, mas há que se evitar o uso do fígado. De qualquer modo, e por incrível que pareça, é leitura divertida porque todos nós adoramos uma fofoca. Criticar ídolos é sempre saudável e Jung está longe de ser perfeito, sua insistência na alquimia é forçada, ele evita demais falar de sexo, mas negar a validade e o poder de cura de seu método é exagerar. --------------- Será verdade tudo o que ele diz? Psicologia não é ciência exata e nem mesmo empírica. O que funciona hoje pode ser um erro amanhã. São verdades filosóficas, cabe a cada um aceitar ou não. A pessoa crê de acordo com sua experiência pessoal. Jung é tão válido como é Freud, Lacan ou Binot, depende do que voce experimentou em vida. Minha vivência e minha cultura me fazem pensar em Lacan como um idiota e em Jung como um homem real. E será sempre assim.
IN THE COURT OF THE CRIMSON KING - KING CRIMSON
Tem a fama de ser o maior album prog da história. Não é. ------------------ Comecei a ouvir prog, tinha imenso preconceito, fui amestrado pela crítica punk que odiava prog, somente após meus 50 anos de idade. Então, para mim, todo esse mundo é novidade. Hoje gosto muito, adoro prog. E King Crimson está longe de ser o que mais admiro. ------------------ Este é o primeiro album deles, 1969, e na época foi um choque. Greg Lake cantava e tocava baixo, Robert Fripp fazia seu nome na guitarra e efeito de teclado. Primeira decepção: Fripp sola pouco. O disco é dos teclados, dos sopros, da voz. Estranheza: sim, o som deles é esquisito. Ele varia entre o barulho e o quase silêncio. Usam a variação de volume ao limite. Surpresa: são ótimos em baladas POP. E o baterista é excelente, Ian McDonald. ---------------- Ouvir pela primeira vez um disco com fama de obra prima é sempre complicado, por isso minha crítica pode ser injusta. Eu esperava arrebatamento. Ouço também Islands e Poseidon, dois outros albums do grupo. Há algo de medieval neles. Um lirismo aquoso, sideral e pastoral. E a pesquisa sonora que Fripp desenvolveria com Eno e Bowie. Longe de ser um disco comum, ele me agrada, mas sem a emoção ansiada.
MILES DAVIS AO VIVO NO BLACKHAWK
O quinteto toca no começo dos anos 60 em um restaurante, sim, tem gente que viu Miles tocar a dois metros de si, e entrega uma atuação de gala. O clima é intimista e o trompete de Miles soa como a coisa mais cool do universo. Ele toca suave mas nunca fraco. Seu som é noturno, frio, elegante ao extremo. É o Miles Davis ainda puro jazz. O auge de seu trompete. Hank Mobley é o sax. Tortuoso, ele mostra o que é a tal blue note, o que diferencia o toque do jazz do toque erudito europeu. O acorde é sempre torto, idefinido, floreado, áspero, sem a reta perfeição do classicismo. Wynton Kelly tem o piano cristalino e Paul Chambers é um dos meus top contra baixistas. Observe seu ritmo. Fica fácil se soltar, solar à vontade quando se tem esse ritmo seguro a te apoiar. A bateria é de Jimmy Cobb, um mestre irrepreensível. É um disco perfeito. Solam com naturalidade, nunca demais, sempre o certo. All Of Me é o cume dessa cordilheira de picos. Tem de ouvir pra crer.
BIRD OF FIRE - THE MAHAVISHNU ORCHESTRA
Segundo disco do grupo. Tão bom quanto Inner, seu primeiro album? Não. Seria muito difícil alcançar tanto valor. Mas é um grande disco. Jan Hammer, o tecladista, tem mais destaque aqui. E há uma faixa, linda, que homenageia Miles Davis. Billy Cobham prova mais uma vez ser o maior batera de todos. E John McLaughlin comanda tudo com sua guitarra inacreditável. Muita gente virou músico ao ouvir este grupo e Jeff Beck mudou seu estilo por causa deste disco. Voce deveria se deixar levar pela força, mágica e surreal, desta música que não é jazz nem rock, é atemporal. Depois Jan e Rick Laird sairiam da banda por desejarem mais espaço. Jerry Goodman já participa pouco aqui. Uma pena ter durado tão pouco! John voltaria em 1975 com uma nova Mahavishnu, mas não seria mais a mesma coisa. Foi um momento único, e que agora vemos, não poderia durar. Ouça.
EZRA POUND OS CANTOS
Num de seus imensos livros, Harold Bloom dá uma lista daquilo que é importante na literatura. São centenas de autores e fiquei surpreso ao não ver Pound citado. Poe também não está, mas eu sabia que americanos e ingleses acham Poe bastante secundário. Mas Ezra foi uma surpresa para mim. Leio então Os Cantos, sua imensa obra, um calhamaço de mais de 1000 páginas. E tenho uma confirmação, a obra é uma bobagem sem fim. ---------------- admirável por sua erudição, mas como poema é um nada. Triste perceber que o homem que ajudou Eliot a encontrar seu estilo e que despertou Yeats para o modernismo, tem um valor como criador tão limitado. ----------------- Basicamente a obra é um desfilar de citações, de momentos da história universal, de filosofia requentada. -------------- Então o porque de os modernistas brasileiros o idolatrarem tanto? Não tenho dúvida que muito se deve ao seu esnobismo enciclopédico. Entender Pound e amar Pound dá status de intelectual moderno a quem o segue. Típica psicologia de terceiro mundo. De gente que sente ter de provar seu valor. Sim, talvez não gostar de Pound seja também esnobismo, mas aí iremos entrar numa conversa sem fim. De qualquer modo, senti decepção. Pound no more.
LESTER YOUNG, O REI DO COOL
Lester Young tocava sax. E tinha um chapéu tipo "porky pie". Foi da orquestra de Count Basie, e Basie é meu pianista favorito. O piano de Basie tem poucas notas, apenas as necessárias. Ele não floreia como Oscar Peterson ou Teddy Wilson ou Art Tatum. Basie toca uma nota e isso é exatamente o que faz a diferença. Pouco. E o bastante. Thelonious Monk, meu outro pianista favorito tem o mesmo modo de deixar silêncios nos solos. Eu não gosto de música que não usa o silêncio. Quem enche o espaço de sons tem de saber tudo sobre o silêncio. Repare em Basie, há espaços vazios que dizem tudo. Ele faz um milagre: o silêncio tem ritmo!!!!! -------------------- Lester Young faz o mesmo no sax. E o saxofone é às vezes uma voz que fala demais. Dizem que o sax moderno foi inventado por dois caras: Lester Young e Coleman Hawkins. Hawkins abriu o caminho para o sax que fala muito, que floreia, que vai até o limite; Lester criou o sax que fala menos e fala suave. É a versão em sopro do piano de Basie. -------------------- Quando ele começa a tocar voce logo sabe, é Lester Young, Pres para os amigos. O toque é mínimo, o volume é suave, ele volteia sem ferir, e o principal: Lester toca fácil, nada parece requerer esforço físico. Ele não transpira, ele não ameaça perder o fôlego. Ele toca como quem joga gelo no copo. É simples, é discreto e é absolutamente perfeito. O saxofone na boca de Pres parece um instrumento que só existe para ele mesmo. Há o sax e há o sax de Lester Young. ---------------- Ele define o cool. Fazer muito fazendo quase nada. Chamar a atenção não querendo chamar nada. Intrigar sem querer ser notado. O cool em música passa sempre por Lester. É a voz contida, que nunca se esforça, que faz o mínimo, que mantém a frieza discreta, nunca afetada, simples e sem igual. Depois de Lester veio Ben Webster, Miles, e então o cool virou moda. -------------- Hoje nada é cool porque nada é discreto. Tudo vira hype ou desaparece. ----------------- Lester era amigo de Billie Holiday. E tocou muito com ela. Depois fez alguns discos com grupos pequenos. Ele é, como Bud Powell ou Eric Dolphy, heroi de quem conhece jazz. Escute.
OUVIR SINATRA É ATO DE REBELDIA
O mundo de 2025, profundamente doentio, passa a ideia de que não existe verdade, que o certo é relativo e que tudo pode ser feito e aceito, desde que seja "para o bem". Que bem é esse? Aquele ditado por quem detém o poder cultural. Aí está a loucura. Tudo é free e tudo é válido, DESDE QUE DITADO PELA CULTURA WOKE. Eles pergam uma liberdade DELES MESMOS, uma liberdade que tem dono. --------------- O que isso tem a ver com música? Tudo. A trilha sonora oficial deste tempo é tão falsamente livre quanto sua política. Há um limite muito estreito onde se pode fazer o que será um hit. E aquilo que foge desse padrão será considerado insignificante. E que música é essa? A repetição do mesmo, uma monotonia de timbres e ritmos, uma espécie de hipnose que impede a apreciação e com ela o pensamento livre. Tenho um aluno de 16 anos fã do Tim Maia. Ele me surpreendeu ao dizer que hoje não existe mais "instrumento". Que toda a música é feita com uma batida programada e mais nada. A riqueza de sons e a variação de andamentos se perdeu. Pior, todas as vozes parecem ser a mesma ( e são ). ------------------- Então voce coloca Sinatra com Basie e a primeira coisa que voce nota: a virilidade. Nada no mundo woke é mais odiado que a virilidade pois ela é perigosa por ser violentamente individualista. Os metais soam como machos que andam na rua com um cigarro nos dedos. E a voz de Sinatra surge como a confirmação de uma VONTADE. Mesmo quando sofre, ele sofre como homem. Mas há mais. --------------------- A arrumação. Neal Hefti fez os arranjos e ele é o cara do Batman...Batman...Batman....ou seja, ritmo a serviço do punch. Ouvimos um grupo de homens tocando em arrumação, tocando em ordem e ao mesmo tempo soltos, livres, à vontade. Eis aquilo que nosso mundo jogou fora, a ordem dando base para a liberdade. Livre com segurança e dentro de uma força que mantém a própria liberdade. É isso que torna o cool possível. Ordem e liberdade ao mesmo tempo, unidas e fazendo sinergia. Somar ordem e liberdade traz como resultado segurança. Voce é livre dentro de um padrão que mantém suas certezas. Isso foi destruído em 2025. -------------------------- Cigarros, mulheres, jogo, bebida, amigos, carros, ternos. Esse o mundo de então, 1962. Há um tipo de pseudo cool de 2025 que usa tudo isso para parecer cool. Mas é uma farsa. Porque nem ele mesmo crê nos valores que eram agregados à esses objetos. São hoje apenas brinquedos e não modos de viver. Voce fuma, bebe, joga, anda com mulheres e dirige um Cadillac para parecer cool e não porque é natural em voce. ------------------- Ouvir Sinatra é um ato de rebeldia hoje.
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