The Epic Of Gilgamesh In Sumerian



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GILGAMESH, AQUELE QUE VIU O ABISMO

   Gilgamesh é meio humano meio deus. Rei de Ur, ele estupra filhos e filhas, é cruel, não tem limites. Da água surge o primeiro homem moderno, feito de barro. Gilgamesh é freado por ele, e os dois se tornam amigos. Juntos vencem lutas, viajam, exploram. Mas o humano morre e descobrindo a morte, Gilgamesh entra em crise. Vagueia pelo mundo. No final, encontra alguma paz ao entender que Ur justifica sua vida.
   Até o fim do século XIX não se sabia desta saga. Então ela é descoberta no Iraque. São 12 tabuinhas de barro com os hieróglifos assírios. Datam de 2000 antes de Cristo. São 1500 anos mais velhos que Homero ou que a Bíblia. Estão para eles como Santo Agostinho para nós. São de uma humanidade velha de 4000 anos. Inimaginável de tão arcaica. Ler Gigalmesh é quase ver o começo do humano.
   Eles acreditavam no dilúvio. Uma parte do épico fala de dilúvio e da arca. A deusa do amor é a mesma da guerra, e a amizade entre homens era muito mais importante que a relação homem e mulher. O sexo era explícito, se transava muito e a prostituta era quase uma sacerdotisa. Não se fala de exércitos. As lutas eram individuais. O homem tinha de ser peludo, barba longa, cabelo longo, pelos no corpo. Havia ainda leões e ursos no oriente e já se destruíam florestas virgens para conseguir lenha. As armas eram de bronze. Centenas de deuses, o mais poderoso era Sharmat, o sol.
  Há um espírito triste no poema. Mas não melancolia. É uma tristeza animal, indolente, que se resolve com sangue. Não há filosofia. A dor da morte se resolve com a ação. Os porquês são respondidos com luta.
  Gilgamesh sumiu por 2000 anos. Não se fala dessa obra após o ano zero de nossa era. E volta a ser lido a partir de 1910. Da introdução não há ideia mais perturbadora que aquela que diz que a escrita não se explica pela evolução. Ela não nasce aos poucos. Ela surge em uma cultura já completa, com verbo, sujeito, rima e sentença. Como isso se deu é impossível saber. Na Babilônia, na China, entre os Sumérios e egípcios, ela não vem como imitação de outra escrita, ela nasce do oral, do zero, do nada. E explode já feita grande. Não há sinal de evolução, de lenta construção. Não há rascunho.
  Gilgamesh é isso.

The Walker Brothers - The Sun Ain't Gonna Shine Anymore - Scott Walker ...



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scott walker, 30th century man, Proms 15



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SCOTT WALKER, UM GÊNIO QUE DESCUBRO AGORA.

   Uma das coisas que diferenciam uma pessoa realmente interessada em arte e outras superficialmente ligadas é a pesquisa. Acabo de ler o livro sobre Bowie, e nele, leio que o artista londrino foi sempre interessado e influenciado por Jacques Brel e Scott Walker. Brel, compositor, ator e cantor belga, me é conhecido desde meus 18 anos, mas Walker eu jamais escutei. Ouço falar dele muitas vezes, ele é citado por Thom Yorke e Jonny Greenwood, Damon Albarn e Robert Plant, Pulp e Johnny Marr. E Bowie, insistentemente. Há um momento no livro, logo após a gravação de Heroes, em que Brian Eno aparece na Suíça com Nite Flight, album recém lançado por Scott Walker. O americano fazia então, por sincronia, o disco que Eno queria fazer E NÃO CONSEGUIA. No documentário recente, produzido por Bowie, que posto acima, Eno diz que Walker o humilha até hoje. Nite Flight parece ter sido gravado em 2010, 2020, é do ´século XXXI.
  Scott Walker é americano do interior e formou em 1964 o grupo Walker Brothers. Venderam quase tanto quanto os Beatles e em 1966 se mudaram para Londres. Os Brothers não se chamavam Walker e nem eram irmãos. O som deles, se escutado hoje, e eu os ouvi pela primeira vez ontem, é ainda muito, muito interessante. Orquestral, complexo, ele é pop e nostálgico, cheira a anos 60, e ao mesmo tempo tem uma riqueza melódica e sentimental atemporal. A orquestração é digna de Bacharach ou melhor, de John Barry. Mas o maior valor é a voz de Scott: é um estupendo cantor, seu timbre é aquele que Bowie tentou alcançar e raramente conseguiu, é a voz que Thom Yorke precisava ter e sonhou ter, é a voz etérea, sofrida, composta, forte de um homem.
  Mas a genialidade vem em seus primeiros seis discos solo. Gravados entre 1967 e 1984, os 3 primeiros foram big hits, mesmo com toda sua estranheza, os demais são fracassos de vendas e monumentos de arte. Como os descrever? É como se Morrissey cantasse Beatles com a voz de Tom Jones. Ou como se Bryan Ferry tivesse voz. Ouço e apesar de nunca haver escutado, sinto como se desde sempre conhecesse aquilo. A música de Walker é como um tipo de ambiente ( Eno ), um lugar cheio de mistério, onde a gente mora sem saber que lá está. Dá medo. Muito medo. Scott Walker tem a voz de Jung. Ele mergulha fundo no inconsciente musical e volta à tona com objetos insuspeitos. Tão noturno como Astral Weeks, tão inquieto como Arthur Lee, e sem se parecer em nada com Van Morrisson ou com a banda Love.
  Uma das alegrias da pesquisa curiosa é descobrir gente que sempre esteve lá mas que a gente não via. Scott Walker abre todo um universo vibrante e a ser explorado. Seus últimos discos, de 2004 e 2010, não me agradam. Parece que ele empacou num tipo de monotonia escura. Mas penso que são tristes demais, pesadelos em forma de sinfonia atonal. O que mais posso dizer? Voce tem de ouvir Scott Walker. Ao menos uma vez. Mesmo que voce nada entenda.
  PS: Não é rock. Nada de blues, country ou soul há nele. É filho da canção francesa e alemã. 

David Bowie – Sweet Thing-Candidate-Sweet Thing (Repr.) - Live at the Un...



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David Bowie - BBC Live - Diamond Dogs & John, I'm Only Dancing (January ...



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O HOMEM QUE VENDEU O MUNDO - DAVID BOWIE POR PETER DOGGET

   Não é uma biografia de Bowie. O autor analisa todas as canções que o rei dos anos 70 compôs, em ordem de composição, e no processo nos conta a saga do londrino genial naquilo que ele viveu de melhor, a década de 70, segundo o autor, a mais triste das décadas.
   Peter Dogget escreve muito bem. Sua descrição das canções, para quem as conhece, são perfeitas. Ele aponta TODAS as influências, entrega os plágios, descreve o som de um modo saboroso. Temos vontade de correr e reouvir tudo. E descobrir aquilo que nunca escutamos ( muito pouco em meu caso ). Segundo o autor, Bowie amava Judy Garland, era seu maior ídolo, e perto dela vinham Sinatra, Sammy Davis Jr e Marlene Dietrich. Bowie era doido por cinema, por artes visuais, e o rock era apenas o meio onde ele cresceu, o modo natural de se fazer grande. Mas não sua paixão central. Daí sua importância primordial: Bowie é o cara que traz para o rock aquilo que não era do rock. Ele o vê como ator, como performer. É um artista que interpreta o papel de rock star. Ou de menestrel folk. Ou de inovador pop.
  Ele poderia ter sido um folk star até 1970. Sua maior influência era a dupla Simon e Garfunkel. E Neil Young. Ao conhecer Tony Visconti, produtor de gênio, Ken Scott, engenheiro de som mágico, e Mick Ronson, seu guitarrista de blues e arranjador de extremo gosto, Bowie abraçou o rock. E o modificou para sempre.
  Ele era um grande leitor. E em 1970 lia aquilo que aqui no Brasil Paulo Coelho lia. Ocultismo. Cabala. Crowley. Hermes Menegisto. Nietzsche. Impressiona a energia de Bowie. Ele estava sempre em movimento, gravando, compondo, fazendo shows, escrevendo roteiros, indo a exposições, lendo, e se drogando muito. Entre 74 e 76 ele foi o rei do pó.
  O autor desgosta de várias canções de Bowie. Isso dá certa isenção ao livro. Ele acha Transformer de Lou Reed banal, e Raw Power mal é citado. Ziggy, o LP, é visto como importante e criativo, porém, musicalmente pouco instigante. As letras são o foco da genialidade de Bowie. Diamond Dogs é para ele uma obra-prima de invenção sonora. Uma massa de sons, ruídos, harmonias e símbolos ocultistas digno de um feiticeiro. Peter considera Dogs e Station To Station os mais altos pontos da vida de Bowie. ( Low e Hunky Dory vindo em seguida ). O autor destrói Lodger, considerado frouxo, e dá um retrato sublime de Young Americans, o auge da voz de David.
  No final ele fala por alto do Bowie dos anos 80, 90 e 2000. O livro foi escrito um ano antes de sua morte. Outside e Heathen são considerados tão bons quanto Low ou Dogs, mas são irrelevantes. O mundo do século XXI não ouvia mais Bowie. Apenas os fãs. Os clones fizeram dele um tipo de matriz. Um molde. Mas não um cantor relevante. Bowie era um artista para descobertas e não para nostalgia. Quando fez 33 anos, em 1980, deixou de ser um descobridor e se tornou um diluidor. Juntou dinheiro como nunca. Mas o artista já dera seu recado.
  Peter destaca Bowie em 1992, na homenagem à Mercury, rezando o Pai Nosso no palco, ao fim de Underpressure. Para Peter aquele era o verdadeiro Bowie. No mais inadequado dos lugares, no mais inesperado dos momentos, ele larga sua ironia e reza DE VERDADE. Ironia dentro da ironia, a ironia de não ser irônico. A luta de Bowie, luta para ser alguém, não pela fama, mas ser alguém que se possa chamar de PESSOA, acaba no retiro. Seu corpo fraqueja. Ele para de procurar. Encerra.
  Leia o livro e veja a descrição que ele faz do começo de Station To Station. É exatamente o que senti na época ao ser pego de surpresa pelo som esquisito do disco. Não parecia rock. Não era pop. Não era negro. Não era nada. Mas era alguma outra coisa.
  Nunca haverá outro Bowie porque o mundo do rock não precisa de artistas. E quando eles surgem, e Damon, Peter ou Harvey tentam o ser, tudo que podem fazer é estender Low ou Dogs ou Scary em novas frentes. Bowie ao parir a arte no rock, a arte depressiva e expressiva, matou o futuro dessa arte, que precisaria ser sempre nova, mas que por sua causa sempre pareceria derivada. Bowie trouxe ao rádio o que Eno, Lou, Can, Faust, Neu e John Cale faziam para poucos. No processo ele amplificou sua cópia. Vestiu o rock de arte. E vendeu o invendável como estilo e charme.
  Foda.

O RINOCERONTE BRANCO.

   O último rinoceronte branco se foi. Não há mais machos da espécie, apenas fêmeas. Deixaram de fazer parte deste mundo. Testemunhas quietas de milhares e milhares de eventos, durante milênios pastaram pelas savanas e pelas selvas cumprindo seu destino.
  Mas voce pode perguntar: Pra que servia um bicho desses? E eu te respondo: Pra que serviu extinguir ele? O que nós ganhamos com isso?
  Posso dizer o que ganhamos: Vergonha. Maior pobreza animal. A culpa perante a natureza que o criou para existir e desparecer em seu tempo, aos poucos, e sendo substituído por outro rino. Apressamos seu fim, criamos seu fim de forma artificial. Reis da artificialidade, negamos cada vez mais a natureza e nos tornamos estéreis, flácidos, engordados e inchados de ego e de satisfação que não dura um suspiro.
  Eu não perdoo. O fim do Tigre branco. O fim do Tylacino. O fim do Rino. O mundo fica mais vazio e o crime fica sem motivo. Como espécie somos bobos, crianças que matam sem motivo, quebram coisas sem saber para que elas servem. Somos a maior das criações e ao mesmo tempo a mais fútil das coisas vivas.
  Todo animal é nobre por ser apenas aquilo que ele nasceu para ser.
  Somos nobres quando negamos aquilo que aparentemente nascemos para ser. Mas tragado pelo hedonismo babaca e pelo ato sem consequência, nos tornamos nada mais que um predador de barriga cheia. Um execrável excremento.

AMOR AOS FILMES

   Posso dizer com toda a certeza, que desde meus 20 e poucos anos, nunca tive tão pouco interesse pelo cinema. Mais que em qualquer outra arte, o cinema para mim só existe como paixão enquanto parece ser uma descoberta. Quando eu tinha 14 anos de idade, o cinema era um mundo todo novo. Depois, aos 28, 29 anos, descobri a história mais antiga do cinema. E aos 40, comecei minha coleção de dvds. Com o tempo essa coleção se completou e percebi que 85% dos grandes filmes não eram mais inéditos para mim. Eu planejara ser a hora então de perseguir as novidades, eu passara a ter tempo para o cinema de agora. Mas esse cinema me fez brochar. As manias e os vícios do cinema dos anos 2000 mataram minha paixão e me deram tédio. O cinema morreu. Ele hoje vive como um tipo de passatempo ou uma rememoração daquilo que ele um dia foi. O CINEMA É AGORA AQUILO QUE O TEATRO É DESDE 1900. OU O QUE O JAZZ É DESDE 1960.
  Melhor dizendo, é circo.
  Mas eu vejo filmes ainda. Poucos. Nos últimos meses assisti estes...
  TEMPESTADE, PLANETA EM FÚRIA de Dean Devlin com Gerard Butler, Abbie Cornish.
Mais um fim de mundo. No futuro um satélite nos protege do kaos. Mas ele é sabotado. Butler é o cara que construiu a coisa e vai lá a consertar. Sim, voce já viu esse filme contado de mil formas iguais. Alguém disse que os efeitos especiais já estão em decadência. Eles eram usados para aperfeiçoar um filme. Agora são apenas o mínimo que se espera de qualquer filme. Este é comum. Nem bom nem ruim.
  O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS de Sofia Coppola. com Nicole Kidman, Colin Farrel, Kirsten Dunst, Elle Fanning.
Que filme ruim! Uma refilmagem flácida, tola, capenga, metida a besta, do filme de 1971 de Don Siegel com Clint Eastwood. O original é uma produção esquisita. Um filme de horror, de dor e de medo, em que um soldado confederado é castrado por um bando de mulheres. Clint dá sua primeira interpretação séria, faz um pobre homem ferido que se pavoneia em meio a seu harém, mas que acaba como um objeto quebrado e inútil. Aqui, Sofia, em seu pior filme, pesa a mão no esteticismo árido e o filme não existe. O que era sutil e erótico se torna pesado e falso. Um completo fiasco.
  KINGSMAN, O CÍRCULO DOURADO de Mathew Vaughan com Mark Strong, Colin Firth.
Fraco. O primeiro foi um bom filme, divertido, leve, nada pretensioso. Este é hiper produzido, histérico e se enrola numa história muito forçada. Nada de especial.
  A MALDIÇÃO DA MOSCA de Don Sharp
A mosca da cabeça branca, de 1957, é um pequeno clássico de horror. Foi refilmado por Croenenberg em 1986. Esta é uma continuação do primeiro filme feita em 1965. É ruim. Se perde num romance bobo e não tem uma só pitada de medo. Lixo.
  DESTINATION GOBI de Robert Wise com Richard Widmark
O pior filme de Wise, um diretor que sabia tudo de cinema. A história é fraca, não temos interesse em ver um grupo de soldados na Mongolia.
  BOEING BOEING de John Rich com Tony Curtis e Jerry Lewis.
Feito em 1965, é uma comédia inacreditavelmente machista. Hoje seria impossível de ser feita. Tony é um playboy jornalista que namora 3 aeromoças ao mesmo tempo. Ele mente para a as 3. Jerry vem dos EUA e tenta tirar uma casquinha das meninas. O filme é feito de diálogos maliciosos e de Tony lutando para salvar suas mentiras. Lembro de assistir com meu irmão na TV, por volta de 1976. A gente acreditou que essa seria nossa vida de adultos.
  A PAIXÃO DE UMA VIDA de John Ford com Tyrone Power e Maureen O´Hara.
Ò John Ford ! Este é um dos menos queridos de seus filmes, e mesmo assim ele conseguiu me fazer lembrar da paixão que eu tive um dia por filmes...É a história, simples, singela, ingênua, de um rapaz que passa toda sua vida numa academia que forma oficiais. Juventude, casamento, velhice e morte. Ford canta, não conta, canta sua saga cotidiana e encanta quem ainda crê nesses valores antigos e preciosos. Ele filma fácil. Ele ama seus personagens. Ele é sincero. Amei este filme.
  KIM de Victor Saville com Dean Stockwell e Errol Flynn.
Não, não é nem um terço do que poderia ser. Muito Dean e pouco Errol. Envelheceu mal esta fantasia juvenil passada num oriente de cartoon.
  NUNCA ME DIGA ADEUS de James V. Kern com Errol Flynn e Eleanor Parker.
Começa mal. Muitas cenas com a menina que divide seu ano entre seu pai e sua mãe divorciados. O pai, Errol sendo Errol, é um playboy que adora festas e inventa histórias. A mãe ainda gosta dele, mas está descrente. O filme cresce ao deixar Errol exercer sua suavidade esperta. Ele carrega o filme nas costas.
 

A speck in the cosmos: the inner frontiers of Raoul Walsh’s Pursued



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RAOUL WALSH

   O cinema de ação foi criado por 4 ases e um coringa. Os 4 são William Wellman, John Ford, Michael Curtiz e Raoul Walsh. O coringa é Howard Hawks. Hoje é aniversário de Walsh e sem saber disso vi ontem um filme dele. The Tall T. não é um dos grandes filmes de Raoul, mas é um bom filme. O que o deixa um pouquinho gasto é seu humor fora de lugar. Dos cinco nomes citados, apenas Hawks tinha humor natural. Os outros quatro sempre são leves, mas jamais engraçados ( mesmo que Ford tente, ele consegue atingir o dom da alegria, mas não nos faz rir, mas em cenas de brigas ou em família nos faz felizes ).
  Walsh é o mais velho deles. Começou como ator nos anos de 1910, ficou cego de um dos olhos em um acidente, e com tapa olho de pirata, passou à direção. Nos anos 20 fez 3 grandes clássicos de aventura. Seu Robin Hood é ainda o mais animado. Walsh inventou um tipo de cinema de ação todo centrado na comunidade. Ford destaca o indivíduo, Wellman dá foco à dor e à absolvição, Curtiz é aquele que luta por ser impessoal e Hawks é o mais pessoal dos cinco. Curtiz seria o ancião contando uma história e Hawks o jovem que a vive sem se apressar.
  Walsh dá um panorama geral, depois destaca uma ação. Em seguida escolhe o herói e planta sua prova de superação. Vem o desenvolvimento da personalidade e então a chegada do grande teste. Esse esqueleto está presente em todos seus filmes de ação. Vemos onde e quando se passa o filme, depois vem a ação que vai repercutir por todas as duas horas de espetáculo. Em seguida somos apresentados ao herói e acompanhamos seu cotidiano. Se anuncia a volta da grande prova e então vem o risco e a vitória. Ao final, o novo começo.
  Um filme de ação ruim apresenta uma cena de ação inicial sem qualquer significado. Ela acontece sem qualquer peso e sem história. Mata-se, corre-se ou foge-se sem qualquer consequência futura.
  Um filme ruim não apresenta seu ambiente. Mal entendemos onde e quando a coisa acontece. E pior que tudo, vemos o herói apenas em ação. Ele não se torna uma pessoa, ele é somente um tipo de máquina de ação.
  Pior de tudo, a prova final não existe. O filme ruim tem tantas provas que nenhuma se torna definitiva. Cada ação nada significa porque todas são transitórias. Elas nada resolvem. São um tipo de dança sem propósito.
 Walsh sabia construir a ação por instinto. Ele havia sido caçador, pescador, marinheiro e mineiro. Tudo isso até os 20 anos de idade. Ele vivera cenas de ação. Não as aprendera no cinema, as sentira na vida. Desse modo, ele as construía como coisas reais, e não como a fantasia de um mundo sem tempo e sem lugar. Cada ato tem um peso e cada peso tem um preço. Tudo leva à um fim. Um destino ou uma conclusão.
  Quanto a moral da história, ela não existe. Walsh conta uma aventura. E ele pensa que a moral está na aceitação dessa aventura. Mais nada. Para ele, viver é agir. E mais nada.

HOSPITAL BONITO

   Os ladrilhos do chão, brancos, são do tipo colmeia. Não via esse modelo de piso desde os anos 60. E noto que a construção de todo o prédio cheira à anos 40. As escadas são largas, o corrimão creme é pesado, de pedra. O Hospital onde estou foi maquiado, a impessoalidade do gesso e do aço, mas em seu esqueleto se percebe aqui e ali a beleza amarelada de seu tempo de nascimento.
  Estou na Mooca, um dos mais lamentáveis locais da cidade. Mas que estranho, o que percebo é a beleza doente de restos que estão se partindo. Como as janelas de um mosteiro por onde passo, construção hoje tão inútil como eu. Minha mãe está no quarto 512, e dentro do quarto, mais que seu rosto tranquilo, o que percebo é a cor bonita que vem da janela.
  No corredor, largo, com janelas de vidro grosso, vejo um jovem numa cadeira de rodas. Mongoloide se dizia antes. Não sei qual seu novo nome. As pernas, gordas, estão presas em meias elásticas. O rosto, vermelho, enorme, com papada, está caído. A mãe vem para seu lado e imediatamente sua expressão muda. Ela lhe dá um beijo na testa e o rapaz ergue os olhos para ela. Vejo naquele olhar a ansiedade obediente de um cão. E nisso nada digo de indigno, antes o elogio. Ele a olha como se visse nela sua humanidade possível, sua chance de vida, sua espera compensada. Há ali, na minha frente, neles, um entendimento, uma união do tipo só possível entre nós. Humanos. Nos olhos vive uma alma e ela se desnuda para mim porque eu a olhei.
  Ao mesmo tempo duas faxineiras falam alto e riem enquanto lavam o banheiro. Objetos de plástico são esfregados com fúria enquanto uma delas faz fofocas em progressão. Volto ao quarto de minha mãe. Uma ambulância a levará para outros exames em outro hospital. No caminho vejo fábricas que dizem mistérios, moradores de rua com cachorros muito espertos, montes de cacarecos em confusão pastosa e converso com o motorista que conta sua vida em um sotaque que é zona leste em erres e falta de esses. Falo com todos nesse hospital: com a bela japonesa que levou sua avó de 95 anos para fazer um curativo na cabeça. A velhinha, com 140 de altura, sai do hospital rindo e ao falar comigo faz um alongamento de coluna. Ela é um elfo. Vejo uma bela loira que de saia justa espera a mãe que foi fazer uma série de raio X. Uma dupla de amigos velhos troca dicas sobre novos modelos de celular. Minha mãe, numa cadeira de rodas, pensa na sua cachorrinha sozinha em casa.
  Da janela vejo os telhados claros do mosteiro. Ao longe a feia trama de viadutos e ruas sem qualquer planificação estética. Minha alma, sede, busca não o significado, mas a dignidade da beleza em todo canto, mesmo nas escadas frias de uma saída corta fogo. O rosto de minha mãe me vê entrar no quarto e não sorri. Mas eu sei que na sua constância ela é um sorriso. Somos os fortes e ela me conta que seu pai andava à cavalo por duas ou três noites, sem descansar, atrás de lobos, de bruxas e de trabalho. No frio dos montes nús, na geada de madrugadas sem ruído, ele ia com roupas sujas, rasgadas, e ao ficar doente se curava com bebida quente que fervia até virar xarope.
  Há uma ferida dentro dos meus olhos. Ela faz com que tudo que eu veja pareça bonito, nobre, puro e bom. Mas ao mesmo tempo, tudo virá chaga quando toco.

O OSCAR SEMPRE FOI POLÍTICO, MAS ESTA POLÍTICA NADA TEM A VER COMIGO.

   Nos anos 30 o Oscar ajudava Hollywood a parecer culta. Sua política era premiar filmes que parecessem "alta cultura". Mas essa cultura era sempre pop, pra não dizer jeca. Se premiava filmes baseados em livros, em peças ou grandes biografias. Os atores vencedores eram aqueles que pareciam sérios. Por isso Erroll Flynn passou em branco.
  Nos anos 40 a politica era ser "politico". A esquerda de então, um tipo de jornalismo denunciativo, tomou o poder e foi tempo de filmes "sérios". Mesmo que religiosos. Como reação, nos anos 50, e até 1965, grandes produções tomaram a dianteira. Se premiava o tipo de filme longo, difícil de ser feito, caro, hiper glamuroso.
  A partir de 66 surge a nova Hollywood e a onda era parecer jovem. Filmes nervosos, filmes com final irônico, filmes amargos, filmes anti grande produção. Essa onda afunda mais ou menos em 1980, com o fracasso de bilheteria de seus diretores e a febre Spielberg-Lucas. Nos anos 80, esquisitos, se premia o filme grande que tenta fugir ao normal. Isso invade os anos 90, uma esquizofrenia que vai de Coração Valente à Amadeus.
  Pela primeira vez desde 1976 não vi o Oscar. E nem sei quem venceu ou perdeu. Isso porque pessoas como eu foram excluídas da festa. Mesmo sem ver a cerimônia, imagino que foi um tipo de convescote entre iguais celebrando uma diversidade falsa. Filmes bonzinhos e "de mensagem" devem ter vencido. Filmes "do mal" foram ignorados. Mal sabem eles que sua babaquice radical nada mais é que um tipo de espírito Disney. Bambi e Peter Pan em doses de Dumbo.
  Dessa politica eu estou totalmente fora.

O DOM, ROMANCE DE VLADIMIR NABOKOV

   São as impressões de um jovem poeta russo morando na Berlim dos anos 30. Na verdade ele é um vulcão de lembranças, sensações, sentimentos, medos, desejos, raivas e sonhos pesadelos. A escrita de Nabokov, um exibicionista aristocrático, é hiper rebuscada. Se ele pode escrever 70 linhas por parágrafo, porque não aumentar para 90?
   Eu adoro esse estilo, um modo de narrar que não facilita nada para o leitor e que mostra o dom do autor em sua plenitude. E este pensamento me faz pensar nos autores que são muito famosos e pouco lidos. Qualquer pessoa de cultura média conhece Nabokov de ouvir falar. Assim como são famosos Joyce, Proust, Beckett ou Eliot. Mas a questão é: Voce leu esses autores? Gente como Nietzsche ou Kafka são famosos e sabemos que são lidos. As edições em banca de jornais provam isso. Dostoievski e Tolstoi são famosos e continuam sendo lidos. Mas e Nabokov? A editora Alfaguara tem lançado seus livros, mas acho quase impossível que mais de 5000 pessoas, número ridículo, leiam este livro.
  Nabokov, assim como Joyce, deve sua imensa fama à censura. Lolita fez dele um astro, e essa obra prima do humor é seu livro mais acessível. De longe. Sua escrita jamais deixa de ser refinada, é um aristocrata escrevendo para seus pares. É sempre um grande escritor, mesmo em seus excessos.
  Se 5000 pessoas lerem este romance então serão 5000 aristocratas da leitura. É um belo número em termos de sangue azul. Mas diante de sua fama, é quase nada.