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UM LIVRINHO MUITO BOM: COMO PROUST PODE MUDAR SUA VIDA- ALAIN DE BOTTON
Dizem que no mundo há apenas dois tipos de leitores: os que conhecem Proust e os que não o leem. Aqui, Alain de Botton, um tipo de filósofo pop como há tantos hoje, escreve um bom texto sobre os benefícios que Proust pode trazer à sua vida. Se isso parece surpreendente para voce, isso se deve ao fato de que voce não lê ou não entendeu nada de Proust. Em 2010, mergulhado em mais uma onda de tristeza, eu li o segundo volume de sua obra prima e me senti vivo outra vez. Botton explica o porque disso acontecer. --------------------- Este livro, curto, delicioso, leve, apresenta Marcel como um homem doente. Morto aos 51 anos, em 1922, de gripe, ele passou um terço de sua vida na cama. Os outros dois terços em festas e visitas. Tinha muitos amigos e não era solitário, mas desconfiava da amizade como do amor. Seu pai, que se dizia o mais feliz dos homens, foi médico famoso e seu irmão um soldado condecorado. Já Marcel vivia doente. Asma, prisão de ventre, alergias, dores nos rins, gripes, febres, vertigens. Janelas sempre fechadas, ele dormia com 4 cobertores de lã e mesmo no verão saía com casacos de peles. Com as pessoas sua atitude era sempre a de agradar. Proust gastava fortunas com presentes, com gorjetas, com flores e elogiava todos. Suas críticas ele as guardava dentro de si mesmo. Já como autor, ele se via depreciativamente. ---------------- Sim, eu sou proustiano e após ler este livro o sou mais ainda. O acho infinitamente maior que Joyce. Os únicos que lhe chegam perto são Henry James e Stendhal. ----------------- E voce agora deve estar perguntando: cadê o bem que ele faz? Falo agora, mas não tudo, este livro é fácil de achar. ----------------- Proust nos ensina, acima de tudo, que a vida é uma questão mental. Não importa onde voce vive ou para onde voce viaja, é sua percepção mental que dá o valor de sua vida. E isso tem a ver com VAGAR. Com o tempo. Pegue um carro e trafegue a 80 por hora ao longo de uma avenida. Faça esse mesmo trajeto caminhando a pé. E depois andando vagarosamente. As três experiências serão completamente diferentes, e eu garanto que a mais rica será a mais lenta. Essa uma das lições do texto proustiano: o aproveitar a vida está diretamente ligado ao tempo gasto naquilo que se faz. Quanto mais rápido, menos vivencia. Por isso ler Proust, com vagar, é tão enriquecedor. Ele nos ensina a ver a vida e a sentir a beleza daquilo que nunca havíamos percebido. --------------------------- Proustiano que sou, eu sempre, sem querer, parava para ver a beleza de uma casa velha, comum, vulgar, casa que nada valia como "arte" mas que eu sentia ser ponto de beleza. Essa é uma atitude profundamente proustiana. Observar a beleza de Roma ou de uma pintura de Degas nada tem a nos revelar, porque nosso olhar jamais será puro. Olhamos São Pedro no Vaticano com todas as opiniões dadas por nossa cultura. Olhamos querendo ver o que deve ser visto. O que fica bem sentir e falar. Jamais olhamos como nós mesmos. Por outro lado, a pessoa que tem o poder de olhar "de verdade", verá a beleza de um limão aberto sobre a pia, uma meia de seda jogada numa poltrona ou um cachorro dormindo ao sol. O texto de Proust nos faz perceber isso. O gosto de uma medeleine abre todo o mistério da vida para o narrador. Essa lição do "CAMINHO DE SWANN" é preciosa. ------------------- Mas há mais, muito mais. Proust, segundo de Botton, nos ensina como fazer o amor durar, como cativar um amigo, como ler melhor, como amar a vida, como se portar. Inclusive como não mitificar o próprio Proust. Para isso de Botton usa Cambray como exemplo. Cambray é uma vila onde se passa o início de EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Muita gente vai lá para "sentir" as emoções de Proust. Pois bem, a cidade é comum, nada tem de diferente, é como qualquer cidade do campo normando. O que de Botton diz e Proust ensina é que a emoção proustiano pode e deve ser obtida na sua vila, no lugar onde voce viveu e não em uma vila que nada significa para voce. Nesse momento confesso que ri lendo o livro, pois notei que minha Cambray se chama Caxingui e que Proust entenderia que para mim o Caxingui é muito superior a Cambray. E é. ---------------- Falarei apenas mais uma lição, no livro são nove. A memória é incapturável. Eu posso recordar que em 2002fui à tal praia e que lá amei tal mulher. Que comi um prato de peixe e vi um entardecer roxo. Mas por mais que eu esmiuce esses detalhes, essa memória é sem alma. A alma dessa lembrança virá apemas de modo inesperado, surpreendente. E isso ocorrerá com o encontro com um lença a muito esquecido, uma melodia jamais escutada outra vez, um perfume original. A lembrança racional, evocada, consciente é como uma fotografia, a memória inesperada é um caminhar novamente no passado. Entramos nessa época sem querer e sem saber o porque. ---------------- Por fim, quero dizer que vivemos no menos proustiano dos tempos pois tudo agora é velocidade, desejo imediato e memórias fotográficas. Por isso nossa vida parece e parecerá cada vez mais sem cor, sem sabor e entediante. E sem qualquer rastro de perfume. ------------------- PS. Não ia falar do desejo, mas falarei. Para Proust, o segredo do desejo é mental. Uma mulher rica, que deseja um vestido e imediatamente compra oito modelos desse vestido jamais terá o prazer de uma mulher que DESEJOU esse mesmo vestido, e por não ter o dinheiro, cultivou esse desejo por meses, até poder o comprar. O segredo do desejo é desejar, não obter. E isso é ainda mais forte no amor. Esperar pelo Natal para ganhar um brinquedo é uma experiência muito mais profunda que ganhar o mesmo presente no dia em que ele é desejado. Do mesmo modo, a grande paixão de sua vida será aquela que mais foi adiada, esperada, sonhada. ---------------- Sim, Proust sabia da vida e quando perguntado porque uma pessoa tão infeliz podia ajudar tanta gente, Marcel respondia que um médico se infecta a todo momento e mesmo assim cura seus doentes. Ele tinha absoluta consciência de que ajudava seus muitos amigos com conselhos e com seus escritos, e sabia dolorosamente o quanto sua vida era miserável. Rico desde sempre, cercado de luxo e de amigos aristocratas, e infeliz até morrer. Obrigado Marcel Proust.
A PASSAGEM DO MEIO - JAMES HOLLIS. O SIGNIFICADO DA MEIA IDADE.
Hollis se dá um objetivo nobre: explicitar qual o significado da fase final da vida sem evitar falar do desagradável. Para isso ele começa falando da primeira fase da vida, a infância, época em que muitos permanecem por quase toda a vida. O que caracteriza essa fase é a magia, a preponderância do outro, a dependencia. Tudo existe em função do ego. O pai está cansado por causa de voce, a mãe ri por seu mérito, o vizinho se machucou por voce, o mundo é espelho daquilo que voce pensa, sente e deseja. A segunda fase é chamada por Hollis de fase heroica. É a primeira época adulta. A pessoa percebe que ninguém liga muito para aquilo que ele quer ou sente. Então ele se enche de heroismo e vai à vida. Os pais são deixados e o mundo se abre. Vem então a terceira fase e a segunda como adulto, a fase onde o trabalho passa a ser tudo. A pessoa esquece de seu ego e vive em função de filhos, trabalho, obter segurança. Casamentos caem na rotina, a ansiedade e a depressão rondam, a vida é uma corrida. Na meia idade surge a fase de que o livro trata. Casamento encerrado ou em fase de desilusão, filhos fora de casa, trabalho sem sentido, surge a crise. Para Hollis, e para Jung também, é esse o momento em que a vida pode obter sentido. ---------------- A vida é, até então, uma ação que busca fugir de certos pensamentos e de certas verdades. A morte e a finitude sendo a principal ideia a ser evitada. Na parte final da vida esse tema volta com força total e o ser tem duas escolhas: evitar esse pensamento, mais uma vez, usando para isso bebidas, drogas ou distrações sem fim; ou mergulhar dentro de si mesmo e descobrir, finalmente, quem voce sempre foi. A fase final da vida tem o mais nobre dos sentidos, o encontro com tudo aquilo que voce não pode ser. Ou não quis ser. Para isso é preciso a disposição para a grande viagem, aquela que nos leva rumo à alma. Nessa viagem todas as influências devem ser abandonadas. É doloroso perceber quanta coisa voce quis e fez que nada significavam para voce. O quanto do seu eu era na verdade influência de pais, meio social, arte, moda, país. O quanto sua alma, seu si mesmo foi deixado de lado. E entender aceitando sua sombra, um lado nada lisongeiro de sua alma. ----------------- É preciso perceber que não teremos e não precisamos da ajuda de ninguém. Esse encontro com o si mesmo é uma obra individual e voce tem dentro de sua alma toda força para isso. Através do reencontro com sua infância e juventude, voce revê sua vida e encontra nela aquilo que era o si mesmo e aquilo que não era seu. ----------------- Em 1939, em Londres, Jung disse que na vida moderna somos obrigados a escolher entre ideologias externas ou neuroses privadas. O que ele quis dizer é que somos distraídos por ideologias que nos dão uma paupérrima ideia da vida e de quem somos, e que quando olhamos para dentro somos bloqueados por neuroses que nos fazem fugir. A individuação, processo indesejado pelos tempos modernos, deve ser feito se penetrando no sintoma, lendo sua mensagem, mergulhando na solitude da busca. --------------------- A pergunta que importa, que deve ser feita a partir da meia idade é: Estou ligado à algo infinito? O que é essencial em mim? O que em mim nunca poderá ser de mim tirado por ser maior que eu mesmo? O que eu sou e só eu sou? -------------- Quem não faz essas perguntas não viveu de fato e quem não encontra essas respostas perdeu a essência da sua vida. Cito agora uma frase de Jung: A vida é uma pausa luminosa entre dois grandes mistérios que no entanto são um. ------------- Entre citações de Yeats, Kavafis, Kazantzakis, Rilke é o poeta mais citado neste livro. Ele termina inclusive com um trecho de um poema desse sábio poeta. Eis o trecho: vivo minha vida em orbita crescente, que voam sobre as coisas do mundo, talvez eu nunca alcance a última, mas esta é minha tentativa, circulo ao redor de Deus, ao redor da torre, circulo faz mil anos, e ainda não sei se sou falcão, tempestade ou uma canção. ------------------ Como disse Kavafis, a Odisseia não é uma vitória, é uma jornada. A vida não é um chegar é um caminhar.
ONDE ESTÃO AS PESSOAS ORIGINAIS?
Nosso tempo odeia e teme a originalidade. Entre pessoas de 70 ou 80 anos voce ainda encontra "a figura", o excêntrico, mas não nos demais. Nos acostumamos a esperar o que se deseja, a ter aquilo que se pede, a ir ao encontro do que se acha que se precisa; e o inesperado, o desafiador foi abandonado. Em todo carro cinza ou prata, em cada roupa de cor pastel, se afirma o mais do mesmo. Mas também nos bandos que se afirmam como "diversidade" se produz o comum e o vulgar. Nas milhares de mulheres de cabelo rosa e tatuagens fofas, nas barbas que desfilam aos milhões, o que vemos é o fato de que os conhecemos antes de os conhecer. Aquele será de esquerda e como tal terá gostos e opiniões de esquerda. O mesmo com aquele de direita. Já aquela figura, uma trans, será banal até em sua voz, pois todos eles repetem não só discurso como o timbre vocal e o gestual. O que se anuncia como artista será o mais vulgar entre todos. Exporá sua fala decorada e amará aquilo que fica bem ao seu grupo. -------------- Entre os jovens, entre eles que se esperaria o invulgar, a coisa é pior. O medo de ser diferente dita tudo. Eles serão "do grupo". Em 18 anos vivendo entre eles, conto 8 ou 9 almas originais, surpreendentes, ousados. Os demais são repetições ao infinito da mesma vida e do mesmo diálogo. Se a função da vida é se individualizar criando uma alma, então posso dizer que desde a Idade Medieval não somos tão fracassados. E quando falo era medieval não falo do ano de 1.100 ou 800, pois esses foram anos de vida exarcebada, falo daquilo que se pensa ter sido erroneamente toda a idade média: massa de pessoas tementes a Deus e à Igreja e se portando-pensando como fossem uma só personalidade. Substitua Deus por ideologia e igreja por moda e vocé terá o mundo em 2026. --------------- Uma personalidade original é maravilhosa. Ela prova a realidade da alma. Ela possui vida e liberdade. Ela, que não tem consciência de ser original, pois o não vulgar de fato jamais procura ser propositalmente diferente, é uma pessoa que fertiliza. Onde ela está as coisa despertam e acordamos com elas. E talvez aí resida a atual aversão ao original. A pessoa que é ela-mesma nos acorda e nosso mundo ama o sono. Queremos ser zumbis distraídos em sonho desperto. Vivemos na nuvem da inconsciencia, balbuciando palavras sem peso e que mal sabemos para que servem. O original nos tira desse mundo vago onde esperamos e queremos mais do mesmo. --------------- Procure então voce ser diferente. Como? Ousando ser voce mesmo. É ardua tarefa mas nada justifica sua vida de modo mais nobre que isso. E é uma tarefa discreta, silenciosa. Boa sorte.
COMO SER UM HOMEM E COMO SER UM JOVEM
Na enfermaria do hospital. Uma enfermeira, bonita, me dá toda sua atenção. Sou o único paciente. Ela me dá duas injeções e espero. Logo começam a chegar mais pacientes, todos homens. Quatro marmanjos esperando para fazer uma biópsia de próstata. Eu, que sempre falo muito, puxo assunto com meus companheiros. Falo do exame de cólon que fiz vinte anos atrás, do efeito hilário de uma anestesia. Adoro anestesias, todas. Rimos, todos nós. E esperamos. Sou o primeiro a fazer o exame. ------------------- Logo penso na trincheira das antigas guerras. Nos homens fumando um cigarro e esperando, esperando a ação que se adia. As piadas para disfarçar o medo. Homens pensam hoje que lhes faz falta uma mulher, que a felicidade vive nos braços de uma amada, e esquecem que antes de ter a mulher é preciso conhecer o homem, saber ser homem. --------------- Um menino nascia e ia ao campo lavrar com seu pai, seus tios. Ou aprendia a ser sapateiro, vender pão, ou fazer uma ferradura, com seu pai, seu avô, seus tios. Esses homens o levavam ao mundo deles, onde ele sentia dentro de si o apelo da masculinidade. Aprendia a ser ele-mesmo. Na grande mudança que se inicia no século XIX, o menino vai à escola e quando chega em casa encontra a mãe. E mesmo que ele precise trabalhar, não será com seu pai, será entre estranhos. O que seu pai terá para lhe ensinar? Esse pai terá de criar um laço que os una, não mais será uma coisa natural, terá de ser inventada. Os papeis se perderam. ----------------- Meu pai, desajeitado, me levava ao seu trabalho. Mas nada me ensinava. Ele queria me levar porque sentia que tinha de ser assim. Mas já era um homem do século XX, numa cidade imensa, e se perdia no meio do caminho. Queria seu filho a seu lado, queria o tirar de casa, mas não sabia o que falar, como falar, ensinar. O que seria para mim uma honra se fazia um castigo. ------------------- Eu lembro então. Homens, meu pai entre eles, numa mesa fumando cigarros fedidos. A fumaça invadia tudo e um deles tossia. Jogavam cartas e falavam alto. Eu andava no chão, entre os sapatos amarrados, marrons. Eu sentia uma segurança absoluta e queria ser um deles. Porque eram grandes, fortes, imensos. Eram homens. ----------------- Tempos depois, aos 13 anos, meu pai me levou na fazenda de um primo rico. Lá, o primo de meu pai me deu um copo de vinho. Meu pai pediu para ele servir pouco, mas eu pedi para encher. O primo riu e disse: Esse é dos meus! Bebi todo o copo de uma só vez. Quis me exibir e meu pai notou isso. Fiz força para não cair, a tontura veio forte. O primo falou: Já é um homem! ---------------------- Não, eu não era. Sendo um garoto pós baby boomer, eu não queria ser homem. Fui ensinado a odiar homens porque homens faziam guerra e traíam as esposas. Fui ensinado a querer ser jovem para sempre, sempre em crescimento, sempre me auto inventando. Eu consegui ser esse jovem. E o que ganhei com isso?
SER ADULTO
Ele entrou no time de futebol americano do college, ou seja, aos 11 anos. Logo no primeiro treino ele quebrou a unha de um dedo. Doeu muito e ele se sentou à beira do campo. Um veterano veio ao seu lado, e sem qualquer desejo de o diminuir, lhe disse: Daqui para a frente só vai piorar. ------------------------- Aquela ferida, o dedo, passou então a ter um sentido. Ele estava entrando no mundo da dor que precisa ser sentida. A infância, a doce proteção materna ( ou em muitos casos, a raiva da mãe ) ficava para trás. Ele estava desprotegido da dor e teria de aprender a tolerar essa ferida. Nesse novo mundo, vasto como aquele campo de futebol, cabia a ele cumprir um papel, ele era um homem. ----------------- James Hollis jogou futebol até os 21 anos e aprendeu muito com dedos quebrados e costelas trincadas. Psicólogo seguidor de Jung, ele sabe que a saída do lar é o momento crucial na vida de um homem. Sociedades espalhadas por todo o planeta sempre tiveram ritos de passagem, o momento em que uma criança se torna homem. É quando ela deixa a mãe de forma simbólica e passa a viver o mundo adulto, mundo composto por feridas, perigos e auto afirmação. ------------------ A unha quebrada de Hollis teve um significado por causa do aluno mais velho que lhe falou uma frase carregada de simbolismo. O problema é que hoje nenhum jovem tem essa sorte. Suas feridas, seja um acidente de moto, uma briga ou um coração partido, serão sentidos apenas como dor inutil, absurdos evitáveis, azares futeis. Não há um velho sábio, uma tradição a ser seguida, um pai atento, para lhe orientar. O jovem, sempre assustado e tentando parecer valente ou frio, irá mergulhar numa confusão em que se misturam saudades da infância, desejo ansioso por carinho, emoções reprimidas e muito medo. Suas dor nada irá lhe contar. ------------------- Estou lendo James Hollis e acho que esse ponto levantado no livro é central para se entender o jovem de hoje. Preso nesse mundo de ninguém, onde ele não é nem criança e jamais adulto, ele se debate e procura se livrar do medo via drogas, sexo, trabalho frenético, ideologias. Escrevo mais em outro post.
AION, ESTUDOS SOBRE O SIMBOLISMO DO SI-MESMO - JUNG
Escrito na fase mais madura de Jung, eis o texto que explicita todo o estudo do self do psicólogo suiço. Demonstrando uma erudição que nos deixa abismados, ele traça um panorama que vai desde 3000 antes de Cristo até o iluminismo. Cabala, gnosticismo, astrologia, antropologia, alquimia, politeísmo, são centenas de citações, de nomes de autores, de teorias, de experiências, de conhecimento. Começando pela simbologia do peixe e do signo de peixes, ele adentra, sem medo, em um universo que fala de deuses do Egito, entidades desconhecidas, sonhos, artes perdidas e livros enigmáticos. Tudo isso com um sentido: o encontro da alma e do self, self sendo a totalidade do ser, condição que poucos encontraram. --------------------- Jung demonstra como tanto o marxismo como o modo de vida americano são dogmas de sociedades que perderam o sentido, estilos de vida que exigem obediência e fé política, no caso da esquerda, ou ansiedade competitiva, no caso americano. Destaco isso em Jung porque em 2026 se fala de esquerda e direita como opostos, mas para Jung eles são o mesmo,apenas com personas diferentes. Ambos negam o individualismo autêntico. -------------------- Jung diz também, e nisso ele se parece com um conservador, que o encontro do consciente com o inconsciente só se dá dentro da tradição cultural do lugar onde voce nasceu e foi criado. Para um ocidental, não há como encontrar o self usando para isso o budismo ou o islamismo. São séculos de cristianismo e milênios de paganismo. Esse é o mar onde nossa alma nada, esse o caldo onde ela se alimenta, esses os símbolos que falam sua lingua. -------------------- O que Jung nos dá é a consciência da riqueza ilimitada que vive dentro de nós mesmos e de como esse tesouro é perdido ao longo de uma vida. Todos temos uma alma para ser entendida e todos temos uma vida que, pricipalmente agora, pede para que a ignoremos. Jung cavou bibliotecas inteiras atrás de apoio às ideias e intuições que brotavam em sua mente e que surgiam nos sonhos de seus pacientes. Nada ele deixava de pesquisar e nesse sentido ele foi livre de preconceitos. Sua curiosidade era sem fim. Este livro é, de tudo que dele li, o mais satisfatório.
O SONHO E O MUNDO DAS TREVAS - JAMES HILLMAN
O que a noite é pequeno, na luz do dia será grande, e aquilo que durante o dia é ínfimo, de noite será gigante. Essa frase é de Jung e serve como guia para esta obra prima de James Hillman. ------------------ Um analista quando decifra o sonho de um paciente, ele supõe o significado do que aparece no sonho. E ao supor, ele arranca a imagem de seu mundo, onírico, e a transforma em coisa do dia. Ilumina, traz ao ego. O ego então absorve a imagem e se expande. O sonho como tal não mais respira. A imagem, que é imagem e não alegoria, que é imagem e não narrativa, desaparece. ---------------------- Sonhos são a imagem da alma e alma vive no Hades. Almas, todas, vivem dentro, dentro da Terra, dentro da mente, dentro do infinito. Cavamos para a encontrar. E com ela encontramos a morte. ------------- Para entender isso é preciso deixar de lado 2000 anos de cultura critã, onde a morte é o oposto da vida, o mal o oposto do bem, onde todo oposto é uma escolha. Aqui morte e vida são uma via unida. Uma pressupõe a outra, uma existe na outra. A morte está na vida, a vida na morte. ------------ Este pensamento não é oriental, é grego, tragicamente grego. Mas, ao contrário de Nietzsche, Hillman não glorifica o heroi. O heroi, ativo, sempre fazendo algo, foge da morte, nega sua alma. Hillman demonstra em Hercules o modo como ele nega toda sua interioridade ao fugir, o tempo todo, de tudo que lembre interioridade. Ele mata, ele limpa, ele ordena, ele faz. Ele não quer morrer. -------------------- Como dizia Sócrates, nada sabemos, nada sabemos sobre a alma e sobre o sonho. Nós estamos nela e não ela em nós. Nossa sombra nos move na realidade que é uma imaginação. Parece complicado? Leia de novo. ------------------ O pai, a mãe que encontro no sonho não é meu pai, não é minha mãe. Nem mesmo é um símbolo de meu pai. É uma imagem psíquica. Devemos entrar no sonho e estar dentro dele. A questão aqui não é Por Que ou O Que, a questão é COMO? Como é meu sonho. ------------------ O cristianismo venceu a morte e transformou os seres de Hades em demonios. Desde então vivemos uma tara por explicações, por clarear as trevas. Nada mais pode ser mistério. Tudo deve ser colocado à luz. A morte é então vencida pela ressurreição, a alma se faz espírito, ela vive no céu, claro. O mundo da morte se torna tribunal. Humano. Ego. ------------- Extremamente insatisfatório descrever o texto de Hillman como aqui tento fazer. Então o que posso falar, para quem se interessa pelo tema, é que leia o livro. Hillman não desmonta a religião cristã nem a teoria de Freud ou Jung, ele aumenta. Recupera o que foi perdido usando o que agora existe. Amplia nossa visão da vida ao trazer a morte de volta ao centro.
ANIMA - JAMES HILLMAN
Chega a ser assustador, porque, afinal, nada há de agradável no encontro com sua anima. Quando ela é pressentida vem uma sensação de pânico e o limite da loucura. O ego, a razão, querem fugir, negar, não notar. Voce jamais verá sua anima, mas voce a sentirá. Fantasia? Hillman, como Jung, não teme dizer: a fantasia é real. Pense melhor: a fantasia é real. Retire toda fantasia do mundo e voce não terá mais mundo. ------------- Voce tem uma viagem marcada e seu joelho doi. Um deus está falando: não vá. Fantasia, sim, é uma fantasia, mas a dor e o joelho são reais. Não vá. Se voce for, vai doer. Muito. Deuses são vingativos. Não os desafie. ------------ O ser que possui anima é um ser vivo, pois ela é a vida. Na China, anima seria a palavra p'o. P'o é traduzido como Fantasma Branco. ----------- Não temos uma alma dentro de nós. Nós estamos dentro da alma. ----------- A vida adquire calor e sentido quando ela é envolvida pela fantasia criativa. Nossa infância parece mais viva por que essa fantasia estava presente. Fantasia é a realidade. A quintessencia da cor do ar. -----------------Consciência não tem a ver com vontade-ego, mas sim com imagens-anima. Antes de criarmos um ego havia algo em nós, alma. No processo psicanalítico, tentamos recuperar essa conexão com a alma através da anima, ponte que leva ao inconsciente onde mora a alma. Esteja voltado ao interior e espere, sem desejar encontrar. --------------- É isso.
O LIVRO DO PUER - JAMES HILLMAN
São conferências de Hillman reunidas em livro. Nascido em 1926, Hillman estudou com Jung nos anos 50. Professor em várias universidades americanas, falecido em 2011, Hillman levou adiante o legado do mestre suiço. Aqui temos a oposição entre Senex e Puer. Senex sendo o tipo saturno, pesado, pessimista, antigo, teimoso, construtor, e também astuto, sexual, demoníaco e pai do Olimpo. Puer, mercúrio, é o jovem eterno, irresponsável, veloz, alado, trasnformador, mentiroso, ladrão, auto destrutivo. Em nossa alma viveriam os dois tipos, tendo um predominância sobre o outro. --------------- O texto é vasto, cheio de refências, e espanta o modo como Hillman consegue ser poético sem nunca parecer raso-barateador. Ele não teme ir além. ------------------------------------------ Algumas afirmações me surpreenderam e conseguiram me convencer. Por exemplo, o fato de que todo heroi é heroi para a figura da mãe. Puer sempre, o heroi luta para dignificar a mãe. Isso me surpreendeu pois sempre vi o heroi como aquele que superou a figura da máe. Vale avisar que Hillman não advoga a complexo edipiano como fato central da psique. Para ele, apenas algumas pessoas vivem esse complexo, muitas outras tendo complexos realtivos a Marte, Vênus, Mercúrio, Hercules, Odisseu. Sim, os mitos dos deuses, todos, de toda cultura, são centrais para Hillman. Somos regidos por esses deuses e a crise de sentido de nosso tempo está ligada ao abandono de todo sentido de divino. -------------------------- A cura é a decadência. Hillman vai contra as doutrinas que pregam a paz interior, a unificação. A cura vem do conflito, da complexidade, de se ouvir as várias vozes internas. Aceitar não um Deus, mas deuses, cada um em cada recanto. O puer, para evoluir, deve apodrecer. Ficar doente fisicamente, viver sua queda. Nós não nos livramos dos complexos, eles que desistem de nós. ----------------- Ao dizer que o problema do puer é devido à mãe, a psicologia deu ao puer um complexo materno. O problema do puer não é a mãe, é a oposição senex-puer. O velho e o novo. Quando surge um complexo devemos perguntar a que deus devo sacrificar meu sintoma. ------------------- Há uma bela imagem que Hillman desenvolve: se um aborígene nos perguntasse a que servimos, o que move nossa ida à Lua, nossas cidades imensas, nossas construções, teríamos de dizer que não são os deuses, mas sim o ego asssutado pelo tédio e pelo medo da serpente, a serpente sendo o universo irracional dos deuses e da alma. ------------------- Há já ao final do livro, uma palestra onde Hillman cita E.M.Forster, o grande romancista inglês dos anos 20 e 30. Tentando diferenciar espírito de alma, Forster diz que escritores do espírito escrevem bem e constroem sentidos. Dostoievski, Tolstoi, Dickens são do espírito. Autores da alma se perdem na escrita, seus livros são cheios de digressões. O espírito não possui humor, a alma ri. O espírito é um profeta, a alma fantasia. --------------------------- Outra bela imagem deste belo livro é o contraste entre monte e vale. O espírito vive no monte, seja Olimpo, monte das Oliveiras, o Tibet. Ele vive no alto, no rarefeito, no limpo, no iluminado. A alma é do vale, do escuro, da sombra, do pântano, da névoa. O espírito é uno, a alma é multi. ---------------------- Não pergunte O Que ou Como, pergunte Quem. ------------------- Por fim, falando da Anima, Hillman fala que a alma é história, é passado, é continuidade e o espírito é o agora sem tempo. ---------------- Termino falando de uma cena histórica, crucial, que mudou o ocidente para sempre. O concelho de Niceia que em 835 criou a prioridade do espírito sobre a alma. Como? Houve um conflito entre duas fés. Um grupo pensava que as imagens eram sagradas e o outro grupo dizia que toda imagem era pagã. No concílio, os bispos e o Papa decidiram que as imagens da cruz e dos santos poderiam continuar nas igrejas, MAS elas seriam louvadas como imagens, com a consciência de serem objetos, retratos, ALEGORIAS de uma história divina. Ou seja, retirou-se da imagem seu PODER mágico. Antes, a imagem de um santo era o santo em presença. Um objeto era a morada de um poder real. Agora era somente uma obra de arte, mais nada. Foi nesse momento que a alma se retirou para o inconsciente mais profundo. Ela não mais podia ser vista, presente, diante de seus olhos, numa imagem, ou em um lugar. O espírito no alto e a alma onde? Sem saber, a igreja católica assinava alí o começo de sua dessacralização. O espírito, racional, provável, prático, vencia a alma, obscura, multipla, fantasiosa. ---------------------- O livro, este, de James Hillman, é uma obra prima.
UMA BUSCA INTERIOR EM PSICOLOGIA E RELIGIÃO - JAMES HILLMAN
Na tarde quente de março, era 1977. Enormes ratos brincavam no capim alto. Cheiro de fezes. O suor escorria pela minha testa. A tarde insistia em durar. Momento na vida: sem amigos, sem família, sem nada além. Descobertas. Eu fugia. Criava uma ilha onde só eu existia. Então deu quatro horas e eu saí do mato e entrei na rua. Na calçada, cansado, ouvi o som de um piano. De onde vinha? Varanda de um sobrado, janela aberta no quarto de cortinas brancas. Eu sabia que ela tocava piano e triste, só, fazia música de tarde. Escutei. Nunca a esqueci e nunca amei tanto. ---------------- O livro de James Hillman, junguiano que abriu seu caminho particular, basicamente fala sobre isso. O encontro com a alma. Alma que vive além do inconsciente. Alma que é anima, o feminino que é o eu, self que existe antes do ego ser construído. Eu não ansiava pela triste mulher que tocava piano, ela era eu e encontrar essa mulher é missão para a vida. --------------- Isso independe de querer a encontrar, pois querer envolve o ego e é o ego quem dela nos afasta. A coisa acontece "sem querer". Não adianta amar 100 mulheres pois se voce não amou sua alma não saberá amar de fato. E eu vi minha alma no rosto daquela menina loira que vi passar na rua apenas uma vez e amei para sempre. Freud diria que ela era minha mãe revivida, mas isso reduz meu amor à um mecanismo raso. A menina era símbolo de minha alma, meu feminino que não aceitei, a delicada flor que todo homem traz no coração. ------------------- Olhe para este mundo, o de 2026, e veja tanta gente sem alma. Procurando como idiotas aquilo que não aceitam dentro de si. Correndo atrás de amor, de poder, de tempo, de saúde e não abraçando a flor que é só dele. ------------- Silencie...
UM SENTIDO PARA A VIDA - VIKTOR E. FRANKL
Frankl nasceu em 1905 e viveu até 1997. Aos 15 anos já se correspondia com Freud e aos 16 fazia conferências na Universidade de Viena. Foi prisioneiro de dois campos de concentração e viu toda sua família morrer lá. Fromado em psiquiatria e filosofia. Sua terapia, existencial, é uma crítica à Freud. Portanto se voce segue Freud cegamente, pare por aqui. -------------------- O pensamento de Frankl se baseia todo no amor. Para ele, o amor é a base de tudo que há na mente humana e com ele vem a vontade. A primeira crítica às terapias freudianas e a outras como Rank e Jung, é que elas não levam em conta a humanidade, o que existe de mais humano em uma pessoa. Todas reduzem o homem a uma coisa dirigida por forças incontroláveis. Tratam o homem como máquina, objeto ou bicho. ----------------- A questão da agressividade, por exemplo. Não há algo em mim como uma agressividade que simplesmente procure objetos para os usar como canais de expressão, vítimas. Essa teoria joga fora a intencionalidade. Ela simplefica algo que é real, a agressividade, em algo que existe porque existe e se manifesta porque DEVE se manifestar. Ela simplifica, tirando do homem sua intencionalidade. Frankl diz que o homem odeia ou agride por um motivo e por uma intenção, há uma escolha e uma ação. Ou não. Eu odeio ALGO ou ALGUÈM. Não há uma quantidade de ódio que devo manifestar, não importa porque ou em quem, mas sim algo que me faz ter ódio. Esse ódio é meu. Eu o possuo e não ele me possui. --------------------- O homem, ser autotranscendente, e Frankl nunca fala de religião, procura ir além de si mesmo, esse o sentido da vida. E nessa existência, o amor ou o desejo não é uma simples força que nasce com ele e procura um objeto para poder ser usado. Não se usa o outro para um fim. Para Frankl, o sexo é a expressão física de algo que vai além do físico. A expansão e a expressão do homem. O mal da terapia freudiana, e de outras tantas, é que elas aumentam a neurose que dizem eliminar, na medida em que reforçam a diminuição de homem como dono de si mesmo, como ser que age na vida, escolhe, se expressa e transcende aquilo que ele é. É o amor essa transcendência. Não uma masturbação a dois, mas sim o crescer rumo a algo maior que o ego, além do ego. ------------------ Frankl baseia toda sua terapia na crença de que toda doença mental parte da falta de sentido na vida e que uma neurose, um câncer ou uma fobia, criam um sentido doentio para a existência. Meu objetivo passa a ser vencer a neurose, curar um tumor ou me salvar do medo. Todo sentido, para Frankl, está no outro, sua vida só terá sentido na entrega do seu ego à uma outra pessoa ou a um grupo de pessoas. Todo infeliz é um egocêntrico. Toda saúde é ir além do ego. Isso é o transcender. -------------- Em outro post falo sobre sua noção de tempo, mas cito aqui uma frase de Heidegger, que o visitava ocasionalmente: O que passou, passou, Mas o passado está presente. ---------------- A vida nos faz perguntas que devem ser respondidas, as responder é existir. As respostas que damos são salvas no abrigo do passado, imutável. O presente é a fronteira entre a não realidade do futuro e a eternidade real do passado. ------------------- Quanto ao seu modo de fazer terapia, conto aqui um caso de um paciente seu. Um jovem estudante entrava em pânico toda vez que fazia um exame e por mais que estudasse, não conseguia fazer a prova. Frankl usou com ele seu método. Pediu para ele fazer o contrário: tentar esquecer, ir mal, tentar tirar um zero. ( isso serve para esse caso, o jovem era um bom aluno que não conseguia fazer uma prova ). O jovem então, na hora da prova, escreveu as coisas mais absurdas, compôs uma prova que, segundo ele, faria o professor rir. Um zero, com certeza. E ele tirou dez. Cito esse caso, há vários no livro, porque isso aconteceu comigo, na USP, em 2011. Exatamente do mesmo modo. E também no vestibular, quando fiz a prova para não passar, totalmente relaxado, certo do fracasso, e passei. ----------------- Isso porque a terapia de Frankl é baseada no paroxismo. Voce faz aquilo que acha que não deveria fazer, ou brinca com seu medo O EXAGERANDO até o paroxismo. O que desperta o riso. Na verdade, voce toma posse do seu mal, o usando e não sendo usado. --------------------- A crítica de Frankl à Freud se baseia no fato de que Freud não viveu nada, toda sua vida é uma teoria de alguém que existiu dentro de uma sala. Não sei se a terapia de Frankl funciona, mas também não sei se Jung ou Freud curam alguém, ou se não fazem, apenas, com que se crie um tipo de vaidade dentro da doença. Um se conformar com um esquema feito para acomodar sintomas artificiais. Não sei. --------------------- Como filosofia, toda baseada na escolha e no amor, e principalmente na originalidade de cada ser humano, o que Frankl diz é nobre. ------------------- PS: o amor que Frabkl diz não é o amor cristão. É o amor entre homem e mulher, o amor das canções. Não é caridade cristã, é o sentimento que nos faz esquecer de nós mesmos e pensar no outro. Pode ser o amor pelo bem, pela igreja, mas não necessariamente. Que cada um encontre o seu.
VIKTOR E. FRANKL E A QUESTÃO DO TEMPO
O tempo, para Platão e para Santo Agostinho, é algo artificial criado pela consciência humana. Não haveria futuro, presente ou passado. O tempo seria concomitante. Para explicar melhor imagine uma ampulheta. A areia de cima é o futuro que irá acontecer. A areia do fundo é o passado, que já ocorreu e não pode retornar. O gargalo é o presente. Nossa conciência cria a divisão e vive no gargalo. Para Platão e Agostinho, o tempo é a ampulheta inteira, os três tempos são ilusórios, tudo ocorre ao mesmo tempo, a areia cai, passa e é depositada no mesmo momento ( e ela é ). Pense agora, se o futuro acontece agora, junto com passado e presente, e não conseguimos perceber isso, que poder temos sobre nossa vida? Nenhum. Nessa visão de tempo, tudo está já determinado pois o tempo futuro ocorre agora. O que será já é, e o que foi continua sendo. ----------------- Na visão de Frankl, criada nos anos de 1930, muito antes da informática, o agora é o gargalo, mas o futuro só existe quando passa por esse gargalo. Por que? Porque ele poderá jamais vir a ocorrer. Basta que a pessoa morra ou feche o gargalo. Já o passado, e isso é muito importante, permanece para sempre. Como? Porque é a areia que já passou a existir, ela já passou pelo gargalo e assim se fez real. Depositada no fundo da ampulheta, ela lá permanecerá para sempre, vivida, usufruida, real. Para Frankl, o passado nunca deixa de existir, e mesmo que voce o esqueça, ele permanece salvo. Por isso, nossa vida tem por sentido a construção de um passado que passa a ser um monumento à nossa existência. Tudo que vivemos, fazemos, sentimos, toda dor, prazer, luta, é salvo como parte dessa construção. O passado não pode ser mudado, daí sua verdade. ----------------- Essa visão de Frankl lembra muito o mundo da internet, onde podemos salvar na nuvem tudo que fizemos. Mas ao contrário do que diz Frankl, o arquivo pode ser apagado ou editado. ------------------ Começo a tomar contato com a obra de Frankl agora e devo dizer que sua visão de tempo é a que sempre tive mas não conseguia verbalizar. Nossa vida é uma obra que se realiza no passado. Somos uma fábrica de memória. E é a memória nossa vitória e nossa eternidade. Pois mesmo que ninguém mais lembre de nossa passagem pela Terra, aquilo que fizemos não pode ser apagado, aconteceu, foi feito, o ato permanece. -------------------- Frankl nasceu em 1905 e aos quinze anos já se correspondia com Freud. Formado em psiquiatria e filosofia, aos 16 anos já fazia conferências em Viena. Fundou nos anos 30 um hospital e não fugiu de Viena com a ascensão do nazismo. Judeu, foi preso em Dachau e Auschwitz. Viu seu pai morrer de exaustão e dois irmãos na câmara de gás. A mãe desapareceu. Sobreviveu e na prisão criou sua terapia, a Logoterapia, toda baseada no sentido existencial da vida. Famoso mundialmente, ele rejeita toda psicanálise por ver nela uma desumanização. --------------- Depois explico.
O ERRO QUE ACERTA
Não é a nota que voce toca que é a nota errada, é a nota que voce toca depois que faz com que soe certo ou errado. ----- Essa frase é de Miles Davis. Leia mais uma vez e entenda a profunda abrangência dessa fala. Miles fala de música. Gênios como ele erravam e transformavam o erro em acerto. Voce percebe isso ao vivo. O erro era porta de entrada para outra harmonia. Novo beat. Poucos músicos fazem isso. No rock Jimi Hendrix fazia o tempo todo. Mas, e a vida? Não é seu erro que define sua vida, é o que voce faz depois que transforma esse erro em acerto. Ou confirma o erro. Irremediável. ----------------- A maioria das pessoas insiste no erro e faz dele apenas isso, um erro. Outras tentam o consertar, e fazem desse erro apenas um remendo. Mas o gênio, esse faz do erro um acerto. É o livro que tinha tudo para ser um fracasso, mas que se torna arte. É o filme, todo cheio de erros, mas que dá certo. A pintura, que subverte normas, e vira nova tendência. E é sua vida, aquele erro que abre uma nova rota. --------------- Portanto, quando o erro acontecer, não se fixe nele. Use a criatividade para harmonizar o passo seguinte com o erro. Sem tentar remendar e sem pedir desculpas não cabíveis. Entrando no ritmo e saindo com swing. A batida certa. E dançar.
VEM UM SENTIMENTO
Se desmaiava muito no século XIX. Vemos isso nos livros do romantismo. Será verdade ou não? Provável que seja verdade. Nossos sentimentos estão cada vez mais embotados. Um homem com a minha idade sabe disso. Dou como exemplo a seleção de futebol. A emoção de uma partida é cada vez menor. Assim como se desespera menos em enterros e se protesta menos contra injustiças. Sim, claro que o Irã é excessão. Mas lá não é ocidente. Deste lado a coisa está cada vez mais fria. Uso outro exemplo do futebol. A torcida inglesa. Pesquise no youtube e assista a torcida em 1977. Somos muito menos emocionais hoje. Dizem que na idade média dois amigos ao se encontrar rolavam no chão de alegria. ----------------- Andei hoje, cedo, pela rua Padre João Manoel. Cruzo com muitos judeus ortodoxos levando os filhos pela mão. Todos com seus paletós pretos. Sempre que os olho lembro de Freud e de Kafka. São pesados e os admiro por isso. A vida para eles é grave. ---------------- A rua sobe e eu tenho andado, faz semanas, sem alegria. Não entendo o porque. Mas algo acontece. Vem para mim uma sensação. De onde vem? -------------- Andei sonhando com objetos que encontro debaixo da cama. Meu inconsciente quer me contar algo. E agora, na calçada da rua, eu penso em leva-la a um bar e entendo tudo: eu amo. E Freud, e Jung, e Adler e todos estão certos. A dor e a tristeza é um sentimento não assumido. Eu amo e não quero amar. Eu amo e não posso amar. Mas eu amo. --------------- No final de Manhattan, o filme de Woody Allen, filme que voce deveria ver, ele percebe, tarde demais, que a mulher que ele amava era a menina muito jovem e que por preconceito ele não dava valor. Esqueça a fama de Allen etc e pense no que falo. Ele afunda numa depressão braba ( é aí a cena famosa onde ele lista aquilo que faz a vida valer a pena e Groucho Marx vem logo em primeiro ), e só após essa dor tem a coragem de perceber o que sente. Corre por NY para encontrar a menina que parte em viagem. Lhe confessa seu amor mas ela se vai mesmo assim. E fala à ele a frase que define Allen mas também toda a mentalidade neurótica: Voce precisa confiar mais nas pessoas. ---------------- Welllll..... eu ia falar de mais um livro de E.T.A. Hoffmann que li mas acabei divagando. É um texto de mistério sobre assassinatos. E se desmaia muito nesse texto.
O MARTIR E O BODE EXPIATÓRIO
Leio texto de Flavio Gordon, forte como sempre, onde ele diz que o Brasil vive um embate entre o paganismo e o cristianismo autêntico. Como acontece em sociedades sob forte crise ( eu chamaria de esquizofrenia aguda, o Brasil está em transe esquizoide profundo ), as forças do inconsciente pagão irrompem e essas forças passam a ditar a vida diária. Como elas se manifestam? O primeiro sintoma é o desprezo pela razão. O pensamento mágico se torna absoluto e deixa-se de observar o que de fato acontece em prol de uma crença mágica. O que tromba com a crença é desprezado. Segundo sintoma é a violência. Exige-se um bode expiatório, e esse bode deverá ser eviscerado em praça pública. Coloca-se sobre o bode tudo aquilo que não deu certo em sua vida. O bode passa a ser o culpado. E não basta matar o bode, ele precisa sofrer, sofrer muito. Flavio aponta o fato de como Bolsonaro é tratado pelos fanáticos como esse bode. Há todo um ritual pagão de acusação ao bode, prisão, evisceração, sofrimento, injúria e morte. O bode é culpado pela sua fome, pela sua mulher que o trai, pelo crime, por tudo que irrita o pagão. E ao cuspir, apedrejar o bode, magicamente voce sente alívio. Passageiro. Por isso o bode não pode morrer. E mais interessante, não pode haver dúvida. Qualquer sinal de piedade pode desfazer o transe orgiástico. ------------------------------- No outro lado temos os cristãos antigos, amantes da martirização, seguidores do líder que sofre sem parar. Esses conhecem a piedade e não entendem como é possível que pagãos sejam tão crueis. O líder é inocente, e de fato é, portanto não adianta acusar os cristãos de não terem piedade por assassinos ou ladrões, pois a primeira característica do mártir é sua falta de malícia, a ausência de malandragem. O mártir caminha para o sacrifício sem tentar fugir. É como se ele soubesse ser preciso tornar-se o bode expiatório para conseguir vencer. ------------------------- Recentemente, entrevistado por revista americana, o grão sacerdote Alex I, disse ser seguidor de Exu e Xangô. Observa Flavio que os dois são da guerra e não da justiça. Alex se vê como um guerreiro e não como um neutro julgador. Na guerra pagã é preciso o sacrifício do bode. Seu sangue lava o mal. ----------------------- Me incomoda sempre na direita do Brasil a sua passividade tonta. Ela não usa meios sujos, não é esperta, malandra, sacana. Bolsonaro poderia ter calado a boca de meia dúzia de veículos de imprensa com dinheiro e poder. Poderia ter falado aquilo que a classe média chique queria ouvir. Poderia ter contratado marqueteiros. Poderia ter financiado alguns cantores prostitutos. E principalmente, poderia ter feito o jogo dos bancos. Itaú e Bradesco, os que mandam aqui. Mas não. Xucro, sem pensar, caminhou para o altar do sacrifício, sem fugir e sem mudar uma frase do que foi dito. É a alma cristã em 100% de seu fanatismo. Deus assim quis e eu não vou ceder "ao mal". Observe que os dois grupos acabam por não agir na relaidade histórica. A direita cristã passou pelo poder sem deixar herança nenhuma. O Brasil não mudou em nada. E os pagãos, a esquerda, continua no seu transe orgiástico, feito de sexo, roubo, drogas e crenças infantis, enquanto a realidade do Brasil permanece a mesma, sem educação, sem renda, sem paz. ---------------- Se Jung vivesse e estivesse no Brasil ele teria muito o que escrever. O modo como o inconsciente se revelou aqui. A aversão pagã pela culpa, pela piedade, pelo cristianismo e a aversão cristã pela ação objetiva, por jogar o jogo sujo. ( A igreja católica joga sujo desde que se tornou uma instituição política, espero que voce saiba que falo da igreja como espiritualidade pura, abstrata, filosófica ). ----------------- Não haverá reconciliação porque o paganismo e o cristianismo são incomunicáveis. O que pode haver é a volta do paganismo para o inconsciente e o Brasil voltar a fingir ser um país unido e de bom coração. Mas isso eu não consigo crer. A fratura é grande demais e um dos lados terá de aniquilar o outro. Sinto, infelizmente, que o paganismo já venceu e que o destino será a incultura, a incivilidade e a transformação deste território em tribos conflitantes. Voltaremos ao universo do mais forte rouba, a magia existe e quem aponta o mal será destruído. ------------- Não gostou deste texto? Volte a se sentir bem. Fure a barriga do bode e faça-o sofrer um pouco mais. Seu alívio será imediato. --------------- ps: A Alemanha passou por momento igual. O paganismo do nazismo e o bode sendo todo judeu. Como foi resolvido? O transe passou na dor da guerra e na humilhação da derrota. Súbito, todo cidadão que aplaudia a perseguição ao judeu "esqueceu" tudo o que havia feito. Mas, e esse é o grande "mas", a Alemanha nunca trouxe os judeus de volta. A limpeza étnica teve pleno êxito. A cultura judaica alemã morreu em 1936 ao ser transformada em bode expiatório. No sonho da esquerda brasileira há esse paraíso: um Brasil sem um só direitista. Conseguirão?
A REALIDADE
As pessoas evitam a realidade. Li um livro sobre isso. De um tal de Keppe que eu não conhecia. Ele me parece um charlatão, mas essa ideia é boa. Acho ele charlatão porque ele não fala o porque de evitarmos a realidade. Consegue demonstrar que realmente a evitamos, mas não diz o motivo. Penso que isso acontece porque o homem é o bicho que teme a morte. Tentamos esquecer dela e para isso criamos distrações. Aterrorizados, somos o único bicho que entende o fim de tudo, lutamos para esquecer a morte e no processo negamos a vida real, a vida onde a morte espreita. Explicação simples, ele evita falar isso e acaba não dando motivo algum. Mas o resto de sua exposição é válida. ------------------ Toda infelicidade decorre da não aceitação da realidade e quanto mais vivemos na fantasia, na imaginação, mais infelizes somos. Toda alegria vive no mundo real, o mundo onde vive nosso corpo. Toda tristeza doentia é fruto de criação cerebral, invenção. Eis a armadilha: desenvolvemos a imaginação para evitar sofrer, e sofremos por perder a vida real. Hoje isso se radicalizou. As pessoas não só imaginam a vida, elas tentam criar uma vida imaginária. Se a realidade é a vida do corpo, e as crianças vivem isso em plena alegria, cada vez mais o corpo é negado, a evidência do que se vê é cancelada em favor de algo criado na mente. Não há a menor possibilidade de alegria nessa condição. Pelo fato, cruel, de que a pessoa passa o tempo todo brigando com o que seu corpo diz. Os olhos dizem: Belo, mas a mente cria um discurso para provar que o belo não existe. O corpo saliva de fome, mas a mente diz que aquilo não é bom para o fígado. O corpo diz quero, a mente dá argumentos para não querer. O corpo vê azul, a mente não aceita e fala verde. -------------- Se voce não entendeu, corpo é seu olho, seu ouvido, sua mão. Corpo é também seu sistema nervoso, seu desejo, seus genes, sua química interna, seus hormônios. Tudo isso fala sem precisar inventar nada e essa liberdade de se inserir na realidade é a única maneira de ser feliz. O corpo adoece e sente dor, morre, sim, isso é triste, mas não é absurdo, não é sem sentido, não é loucura ou neurose. O corpo, como a realidade, tem uma narrativa, um modo de contar o tempo, uma dança. A imaginação apressa isso, ou pior, ignora. Aí a infelicidade. --------------- Então caia na realidade neste novo ano. E não tema ver o que está aí, na sua frente. A verdade.
COMO SER FELIZ
Em 1950, aos 24 anos, chegado ao Brasil, meu pai viu seu primeiro filme. Até então, tudo o que ele vira fora sua aldeia em Portugal. Todas as ruas do mundo eram as ruas de sua aldeia e todas as mulheres do mundo eram aquelas poucas que ele vira. Imediatamente, meu pai descobrira que havia um lugar chamado Arizona e que cem anos antes, cowboys andavam pelo deserto. Meu pai nunca havia visto um deserto. Nunca havia visto um americano. Ele nem mesmo sabia que havia gente com 1.85 de altura. Mais importante, meu pai não sabia que havia mulher tão bonita como Rita Hayworth. ----------------------------------- Meu pai, em 1950, assim como acontecera com grande parte da humanidade a partir de 1920, entrava em um univero duplo: de um lado aquilo que era real, que ele podia tocar, sentir na pele, estar dentro, se relacionar, e de outro o mundo da imaginação, aquilo que era apenas luz, inefável, e que entrando dentro de sua mente modificava o funcionamento de seu cérebro. Não haveria volta. Depois viria a TV. ---------------------------- Uma psicóloga diz que nosso cérebro é uma Harley Davidson, ele foi feito para andar a no máximo 80 por hora. É uma máquina que aprecia o entorno, que flui devagar, que absorve em seu tempo próprio. Hoje, com a hiper conexão à tudo, nossa mente se vê obrigada a andar como um fórmula 1. O repouso é a 120 por hora, o desejo corre a 300. Em um dia, vemos mais mulheres que um homem de 1900 via em toda sua vida. Repito, em um dia, na rua, na TV, na Net, vemos mais mulheres que um homem via em toda sua vida. Nosso cérebro é o mesmo, o que o excita não. Mais enervante para ele, essas centenas de mulheres vistas em 24 horas o atraem, porque todas tentam ser atraentes. Algumas estão nuas. Em um dia ele verá mais corpos nus que Casanova viu em toda sua vida. A ansiedade se impõe. -------------------- Quem se recorda de 1960, ou mesmo 1980, sabe, as pessoas eram mais lentas. Andar era menos apressado, falar era mais pausado. Ouvia-se mais. O tempo era mais longo. Se voce duvida basta ver um filme ou uma série de então. O tempo que ali se faz é mais acelerado que o tempo real da rua e se voce acha o filme ou a série lenta, creia, na rua a lentidão era maior. Esse tempo longo era devido ao fato de que ainda se podia desligar a TV. E não ir ao cinema. Na rua, no ônibus, no trem, voce não levava a tela com voce. Nem mesmo o telefone. Então, quando voce estava na rua voce estava na vida real, queira ou não. Andar de ônibus era ouvir os companheiros de viagem, ouvir o motor, ver a rua, sentir o sol na pele, sentir o calor. Cheiros. Seu cérebro entrava no fluir da vida ao redor, real, voce a tocava, a mastigava, cheirava, ouvia. Na praia o relaxamento era total: vozes distantes, cherio de mar, de comida, ondas quebrandO, o cérebro mergulhado no beira mar. Absoluto. -------------------- Voce poderá dizer, mas e daí? Qual o problema? Que se acelere. Que se veja tudo na tela. ---------------------------- Sim, voce pode escolher isso. Pode? Escolhemos o que queremos fazer mas não escolhemos, nunca, o que desejamos. Isso é Schopenhauer. Desejamos nos ligar, nos informar, saber, e desejamos velocidade, tudo rápido, pra ontem. Produzimos. Produzimos muito. E sofremos. Como nunca antes. Por que? Porque o mundo real, pela primeira vez, parece pouco. ------------------------- As pessoas se expõe nas redes sociais porque desejam fazer parte do mundo que parece melhor, o virtual. Voce viu a menina de 18 anos que comprou um iate, voce viu o homem de 40 que fez um bilhão e voce deseja ser como eles. De repente sua vida, a real, não importa mais. Ela parece limitada, lenta, sem emoção. Voce sabe que existe Uganda e viajar para o Pantanal é pouco. Voce viu a mulher fazer sexo no porn videos e sua esposa não sabe transar. Seu pau parece pequeno. A vida dos outros, a que voce vê nas telas, é fascinante, a sua não importa. Dá pra ser feliz? ------------------------- Nossas melhores lembranças da infancia são aquelas em que estamos completamente ligados ao real. Temo que pessoas com menos de 30 anos não tenham tido essa sensação, mas se voce tem 35 ou 40 sabe do que falo. Aos 6 ou 7 anos, voce está no quintal e a chuva está chegando. Voce sente o cheiro dela e a temperatura cai. O ar fica úmido. Pássaros saem voando. Voce relaxa e ao mesmo tempo sente apreensão. Alguma coisa vai acontecer. O céu escurece, tons de roxo e de cinza. Então as gotas começam a cair. Voce corre pra casa enquanto sua cabeça molha. São esses os momentos da infancia que valem a pena. O que aconteceu? ------------------------ Nosso cérebro, seja obra Divina, seja obra da natureza, é parte deste planeta. E este planeta tem seu modo. Nossa mente, como nosso corpo, tem limites. A realidade é o que nosso cérebro é. Ele processa de um modo analógico, biológico, em seu tempo e seu lugar. Ele é envolvido por sentimentos. Ele aprecia, sente, saboreia, e procura conforto. Para esse saborear, esse conforto, ele precisa usar as mãos, os olhos, os ouvidos. Sentir. Com tempo, seu tempo. O tempo biológico e não o digital. ----------------------------- As mãos são parte central do processo e por isso existe uma diferença imensa entre pegar o papel e desenhar com uma caneta e tocar uma tela, a mesma, sempre a mesma, seja para desenhar, escrever ou ver um filme. Há uma diferença de experiência tátil entre procurar, tirar o disco da capa, ligar o aparelho, colocar o disco para rodar e ouvir a música, ou digitar uma faixa na tela. Ir à estante pegar um livro, segurar ele aberto, sentir o cheiro e o tato da folha ou olhar a mesma tela de sempre. O real é sempre uma questão de toque, de habilidade manual, de aprender a pegar. Isso é o cérebro. -------------------------- Voltando a meu pai, ele sempre soube que aquilo que via na TV era apenas TV. Ele falava isso. Só na TV isso acontece. Outra frase dele era: só em filme.... Por ser de uma geração pré cinema, o real estava sempre presente. E esse real lhe bastava. Havia nele a dor de todo ser vivo, mas em meu pai eu jamais identifiquei a ansiedade ou a depressão que são marcas comuns em todos os meus contemporâneos. Eu brigava muito com ele exatamente porque eu não aceitava seu "comodismo", comodismo que hoje sei ter sido a adaptação ao mundo como ele é, real. Eu era e sou agitado, nervoso, neurótico, sempre insatisfeito. Ele dormia relaxado e um bom almoço o fazia ser feliz. Por que diabos ele era assim? ----------------------- Poque até os 24 anos, meu pai nasceu em 1926, ele nunca fora tentado pelo virtual. Seu mundo era sua aldeia e seu mundo lhe bastava. Houve um choque ao ver o Arizona, o Alasca e Ava Gardner, mas sua mente estava ancorada no bom e velho mundo biológico. Ele não imaginava ser John Wayne. Ele adoraria ser, mas ele sabia que querer ser John Wayne era bobagem. E fim de papo. Sua atenção, e aqui encerro este texto, era toda do mundo real. Muito melhor que John Ford era o bife na mesa. Mais excitante era sua mulher na cama que uma estrela na tela. Ir andar na rua era mais bonito que imagens de Star Wars. Porque sua mente, viva no real, sabia TODO O TEMPO: isso é só um filme. ------------------ Lembro que quando eu tinha 13 anos, meu pai achou uma Playboy escondida no meu quarto. Minha mãe nem sabia que mulheres posavam nuas e meu pai veio conversar comigo. A frase que ele mais me falava era: ISTO É SÓ PAPEL. VOCÊ NÃO VÊ PAULO? SÓ PAPEL. Ah meu velho....voce era saudável....que saudade de gente como voce.....
BRUNO BETTELHEIM E A INFÂNCIA
Estou lendo o livro de Bettelheim sobre os contos de fadas. E adianto aqui uma bela informação. Crianças acreditam e devem acreditar no mundo anímico, mundo onde tudo é vivo e tudo pode falar. No mundo dela, animais sentem como humanos, pedras podem ser vivas, o sol nasce porque ele quer e cada dia é povoado por anjos, fadas e mistérios. Pois bem, se esse universo é violado por uma adulto, se ele não pode, por alguma razão, se plenamente uma criança, na idade adulta ela irá compensar essa perda. Como? Sendo a caricatura de uma criança. Crendo em ganomos, magia, astrologia, no querer é poder. --------------- Vejo diante de mim um homem de 40 anos. Ele usa uma blusa do Snoopy e bermudas listradas. O cabelo tem uma franja roxa e na mão ele carrega um livro sobre o poder das fadas. Tenho a certeza que ele teve pais que o obrigaram a aprender inglês aos 3 anos, ciências aos 5 e ser responsável aos 6. Ou pior, ele foi exposto ao mundo cru do sexo aos 7. Esse homem abobado, pronto para crer em qualquer bobagem que um adulto lhe diga ( sim, pois a mais trágica característica do adulto infantil é que ele crê em tudo que um adulto lhe diz, desde um cometa que irá bater na Terra, até o mais delirante socialista cínico ), esse homem de ursinho na mão ou essa mulher que parece uma pubscente aos 50 anos são aqueles que pautam o poder que domina o planeta hoje. Pautam, mas não comandam, isso porque os Soros, Putin, Trump ou Gates da vida foram crianças infantis e são adultos bastante realistas, tão realistas que sabem que ninguém é mais fácil de ser dominado que um adulto criança. Alguém como Musk sabe lidar com o mundo real porque viveu a fantasia quando ela estava presente em seu cérebro infantil. Entenda, um artista genial tem um pé na infância porque ele recorda o que viu aos 4 anos, ele viu porque viveu lá. Isso é totalmente diferente de um adulto que sente saudade de uma infância que ele nunca teve e chora com Bambi idealizando a criança que ainda vive nele porque jamais pode existir de fato. ------------------- A grande meta desta geração é poder ser criança para sempre. Penso que não pode haver meta mais vazia de sentido que essa.
O JOGO NA TERAPIA
Não é fácil viver em meio ao jogo de interesses que é a vida. Interesses afetivos, financeiros, desejos de segurança, de pertencimento. Somos mamíferos, precisamos do outro para existir. Dentro desse jogo, aprendemos desde muito cedo, a usar uma estratégia, e essa estratégia pode ser chamada de máscara. A máscara é aquilo que somos na presença de um outro, do público. Ela é tão cômoda, tão ajustada que acreditamos sermos apenas ela e nada mais. --------------- Aprendemos, observando, a agradar papai. A ter dele aquilo que desejamos. Ou de mamãe. Mas podemos também, por decepção, aprender a evitar papai. A se manter livre dele. Usaremos uma estratégia e provavelmente a levaremos vida afora. -------------------- Seremos o CARA ENGRAÇADO. Ou então o CARA QUE AGRADA-SEDUZ. Poderemos fazer o AMIGO ÚTIL ou o DOIDO. O que importa é que assim que recebemos um ganho com essa estratégia nos acomodamos nela e não mais iremos a largar. Em pouco tempo passamos a crer que somos uma estratégia e não um conjunto imenso de possibilidades. ---------------- Na minha adolescência ser rebelde era ter como estratégia, ou máscara, o SER ROQUEIRO. Cabelo comprido, jeans, cigarro, moto ou prancha de surf. A partir daí havia todo um jogo bem definido. Por ser do Rock, eu era deste modo e não daquele. Hoje esse rebelde usa cabelo azul e tem sexo indefinido. A consequência é a mesma: ele adotará um código rígido e se sair desse código irá perder o GRUPO, deixará de ter um papel "seguro" naquele palco. ----------------------- Acabamos reféns de nosso hábito. Como autômatos bem programados, paramos de reagir naturalmente e agimos automáticamente. Dentro do papel habitual. Para ser amigo de João devo continuar sendo o que sempre fui. --------------- Quando eu tinha 24 anos precisei ir à terapia pois meu papel na vida havia sido rasgado. Eu não queria mais aquela estratégia. Lembro que meu terapeuta me disse algumas vezes : " voce não precisa ser o paciente mais interessante do mundo". Por que ele dizia isso? Eu não entendia então. Hoje sei que eu criara uma estratégia: ser interessante sendo um neurótico complexo e bem esquisito. Era mais um papel e ele logo percebeu. ------------------ No espaço da terapia voce não precisa de um papel e a terapia funciona quando isso ocorre. Se voce é no jogo do mundo um ser charmoso, lá voce pode dispensar esse charme. Se voce é o engraçado simpático, não há porque ser dentro daquela sala de terapia. Voce pode e deve ser um nada de nada, para então começar a ser, talvez, voce mesmo. --------------- Mas por que isso acontece na terapia? -------------- Explico. Voce joga na vida para não perder o que possui e vir a ter o que precisa ( ou acha precisar ). Então, sem notar, voce segue um caminho fixo. Com Isabela sempre serei o amigo compreensivo porque sei que com ela "funciona". Desse modo não vou perder Isabela. Com minha sala de curos de história sou um intelectual satírico, pois sei que eles adoram isso e assim eu os "conquistei". Se eu não for assim, se eu mudar, posso OS PERDER. Ou seja, perder meu lugar seguro. --------------- Com o terapeuta não. Por mais chato, tolo, agressivo, inutil, inconsequente que eu seja, daqui a uma semana ele estará lá, na mesma sala, do mesmo modo, com a mesma disposição. Claro que eu o pago para isso, e o ato de pagar faz deste jogo um jogo limpo. É por dinheiro, mas por saber que ele não irá faltar eu me libero. Não preciso o seduzir. Eu o pago. ----------------- Lentamente vou me acostumando a esse novo jogo, onde eu não tenho obrigação nenhuma, apenas a de pagar, e assim não necessito ser o que sempre fui. Posso ser outro, talvez, com o tempo, me torne EU MESMO.
OS DOIS NEURÔNIOS
Há gente que tem apenas dois neurônios, e por isso enxerga tudo em termos de SER contra ou SER a favor. Explico. ---------------- José mora em Goiás. Nada contra. Ele pegou seu carro, e foi prestar ajuda aos moradores da cidade do Paraná que sofreu a tragédia do tornado. José é bolsonarista. Como pensa o ser com dois neurônios? Sou contra bolsonaro, portanto, sou contra esse tal José. Foda-se ele. A mesma coisa acontece com Pedro. Ele ajuda cães abandonados. E o cara de dois neurônios é contra Pedro porque ele votou em Lula. --------------- Para entender um ser humano, tentar o conhecer, são precisos bilhões de conexões cerebrais e mais uma imensa dose de intuição e de educação. Sim, voce tem todo direito de odiar qualquer um dos dois, mas dê motivo para isso, um bom motivo. --------------- Pensar em termos de contra ou a favor é pensar em termos de futebol, sou contra o Vasco porque sou Flamengo. Fim. Isso serve para torcer, mas não para julgar nada. -------------- Falei em julgar? Eis um belo exemplo! Juizes julgam, mas no STF eles torcem sempre. Tanto que eu tenho a certeza de que voce sabe o veredito antes do julgamento começar. Aliás, até a pena já se sabe. Eles a anunciam em jantares cheios de risos. --------------- Usar dois neurônios também favorece sua paz de espírito, paz hipócrita, mas é um tipo de paz de avestruz. Se centenas de pessoas estão presas por terem invadido um prédio público, sem armas, sem feridos, e pegaram 14 anos de pena sem direito à recurso, voce fica em paz e nem sente pena ao pensar que eles são DO OUTRO LADO e portanto, inimigos. Veja, voce não os conhece, voce não os individualiza, são como ratos, todos iguais. ------------------ Por outro lado, voce pede a individualização de gente armada que atirou na polícia. Voce grita para que cada um fosse julgado individualmente. Na realidade voce apenas torce, não pensa. Eles são dos meus, e são dos meus porque meus rivais não gostam deles. Fim. ----------------------- Eu gosto de Jung. De Henry James e de Nabokov. Adoro Bergman. Cinema francês e Bartok. Bergson e Wittgeinstein. Bebo e nada tenho contra erva em si, odeio o modo como ela é vendida. Sexualmente não creio em fidelidade. Não tenho religião definida. E sou bastante anti esquerda. Porque usando meu cérebro vejo que ela nunca funciona, e no caso brasileiro, é tragicamente mentirosa e desonesta. Me identifico com Milei e Meloni. Acho Trump um cara eficiente e sei que Bolsonaro foi apenas um bobo e isso não é crime. Mas veja, se voce tem dois neurônios eu sou apenas UM CARA FASCISTA. Não interessa meu discurso ou o que faço. Pouco interessa minha história e minha moralidade. Eu sou Vasco e voce é Flamengo. Vamos morrer nos ofendendo. --------------------- Para quem se interessar, a teoria dos dois neurônios é de Olavo de Carvalho, aquele cara que foi me ensinado ser um perigoso nazista e que ao o conhecer descobri ele ser antes de tudo um humanista cristão. Olavo adivinhou tudo que aconteceria no Brasil após a queda da Dilma. Na mosca. --------------------------- Humanos são complexos. Conheça-os antes de os julgar.
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