CARRIE/BETTE DAVIS/STEVE MCQUEEN

Tom Horn de William Wiard com Steve McQueen
o último filme de steve é um western de uma tristeza glacial. dá pra notar o avanço da doença que mataria o astro logo após o final das filmagens. ele tinha 50 anos, mas aparentava 70 naquela altura. é triste pensar no que ele poderia ter feito no futuro que não viveu. tinha carisma de sobra e um estilo calado e frio insuperável. mas este é apenas um filme pobre e de pouca razão de ser. 3.
Teu Nome é Mulher de Vincente Minelli com Gregory Peck e Lauren Bacall.
o roteiro de george wells ganhou o oscar daquele ano. é o avô das ditas comédias romanticas. aqui, feita com muita classe e diálogos adultos e leves. peck é um jornalista de beisebol e lauren uma snob designer. minelli leva com seu bom gosto de esteta. nota 7.
Domino de Tony Scott com Keira Knightley e Mickey Rourke.
foi scott, o irmão de ridley o culpado. foi ele quem nos anos 80 criou a mania de filmes cheios de truquezinhos de imagem. atores posando. camera dançando. ar de anuncio de tv. filmes como top gun, fome de viver, dias de trovão e maré vermelha. este filme é dos maiores lixos imagináveis. um monte de movimento que não vai a lugar nenhum, ação sem emoção, cores e sons que existem por existir. um vergonhoso retrato do quanto o cinema se tornou futil. Zero.
Mama Mia!!!!!!!!!!!! de Phyllida Lloyd com Meryl Streep, Pierce Brosnan, Colin Firth, Julie Walters.
produzido por tom hanks. e isto é muito importante : o filme tem o astral de the wonders. que imenso prazer o de se ver meryl streep brincar. que delicia assistir pierce brosnan esbanjar charme adulto pela ilha encantada onde o filme existe. e que deplorávelmente ruim roteiro temos aqui ! será que não podiam criar um mínimo de emoção, um minimo de surpresas ? temos neste a prova do porque de os musicais atuais não funcionarem : os números de canto e dança são jogados na tela sem preparação. o roteiro não cria um gancho, um motivo poético para que a canção se inicie, ela vem de repente. de sopetão. mesmo assim eu senti afeto pelo filme. por meryl, pierce e colin, e por que não ? pela muito subestimada música do abba, que desde a década passada vive sua vingança contra aqueles que não enxergavam nos anos 70 que aqueles suecos eram os herdeiros de phil spector. nota 6.
Vitória Amarga de Edmund Goulding com Bette Davis, Ronald Reagan e Bogey.
bette é uma frívola milionária. adoece. cancer cerebral. dramalhão ? é. mas nada revoltante. o filme flui e bette estraçalha. só vivien leigh em e o vento levou poderia lhe tirar o oscar daquele ano- e tirou. bette mostra egoismo, vaidade, medo, culpa, dor e coragem, ensinando como iluminar a tela. quando ela está em cena o filme brilha. brilha muito. felizmente ela está em todas elas. 7.
Depois do Ensaio de Bergman com Lena Olin e Gunnar Bjorstrand.
é um dos filmes que o genio fez após sua "aposentadoria". conversas sobre teatro, existencia, tempo, morte. não é filme de cinema, é feito para a tv sueca. 5.
Carrie de Brian de Palma com Sissy Spaceck, William Katt, John Travolta e Piper Laurie.
As pessoas que odeiam os anos 70 são aquelas tímidas personalidades que abominam a exuberancia louca que havia então. tudo era super-big nos 70 : carros imensos, cabelões gigantescos, sapatos e lapelas colossais, filmes egocentricos!!! e que felicidade a de uma época que em 3 anos assistiu : O chefão e a conversação/ taxi driver e alice não mora mais aqui / tubarão e contatos imediatos/ guerra nas estrelas e american graffitti/ annie hall e manhattan e nashville com um estranho no ninho. e carrie. um filme do mais exagerado e anos 70 dos diretores: de palma. um diretor que sempre vai ao limite, que não teme o mal-gosto, o exagero e a falta de tato. neste filme, se uma pessoa morre, mais 20 morrem; se uma cena é cruel, mais crueldade é adicionada. o roteiro é péssimo, os atores ( com excessão da comovente sissy ) estão à deriva, a trilha sonora compromete, o papel da mãe é caricatural... mas, funciona! funciona como uma homenagem aos filmes ruins, como uma diversão pop, e para mim, é uma deliciosa comédia de saudável humor-negro. a cena da corda segurando o balde com sangue é puro hitchcock : brian segue a dica do mestre : se o balde apenas caísse sem sabermos que ele iria cair teríamos apenas um susto- mas sabemos que o balde cairá, e vemos a agonia de carrie lá embaixo e esperamos-quando irá cair???? carrie é um filme que feito hoje mostraria visceras e explosões, a camera rodopiaria pelo cenário e os alunos seriam deprimidos sórdidos. de palma tem muito mal gosto, mas filma bem demais. nota 8.
Appaloosa de Ed Harris com Ed Harris, Viggo Mortensen, Jeremy Irons e Renee Zelwegger.
primeiro: o que aconteceu? Jeremy irons surgiu em 81 como possivelmente um novo olivier. após seu oscar em 88 foi relegado a apenas um tipo : o vilão fino e gelado. se tornou um desses atores excelentes e sub-utilizados, como gary oldman, malkovich, willem dafoe, terence stamp. dito isso...o western, de todo tipo de filme é o que mais depende de carisma. trata-se de um tipo de filme que expõe o ator : é seu corpo se movendo. aumentado, isolado, observado. esse ator tem que ser magnético. como o foram wayne, cooper, stewart, clint ou burt lancaster. viris e magnéticos. esse tipo de ator não se forma estudando teatro ou assitindo tv- ele se forma na vida. para o western são necessárias cicatrizes, rugas e uma voz que transmita solidão e coragem moral. no western não existe um homem numa estrada correndo ao sol- no western é O homem correndo NA estrada debaixo DO sol. tudo é amplificado e exposto na sua mais profunda e última realidade. meninos não gostem de westerns. eles não têm celulares/ carrões e computadores. mas o principal é: ele mostra aquilo que seremos ou já somos. este é um faroeste do tipo anthony mann- crepuscular. existe ação e companheirismo. mas é tudo mudo, surdo, meio em vão. ed e principalmente viggo têm bons rostos para westerns, mas falta um pouco de brilho ( quem teria hoje ? ) mas há aquele relacionamento direto, tipo john ford e dá pra ver que todos os envolvidos amam o que estão a fazer. digno, honesto e preciso. 7.

gore vidal, um ensaísta

DE FATO E FICÇÃO de Vidal. Foi lido na década de noventa. O emprestei para alguém que jamais o devolveu. Agora releio esse delicioso livro.
Gore Vidal tem um modo malicioso de escrever, sem papas na língua, sem nove horas. Ele vai direto ao ponto e mesmo assim jamais parece reles ou estúpido. Ele é suave e gentil e ao mesmo tempo duro e incisivo.
Ensaios sobre escrita, cinema e politica : tudo aquilo que ele entende. Entende por ter sido roteirista, politico e um belo autor de prosa e de dramas teatrais.
Scott Fitzgerald é para ele um chorão. Um autor que tem apenas dois ou tres bons contos e apenas um belo livro : Gatsby ( que mesmo assim sofre de absoluta falta de humor ). Gore ve em Scott o mesmo que em Heminguay : autores que devem sua fama ao que foram e não ao que escreveram. Ele alerta que com o avanço do pensamento científico, só o que é de verdade e não inventado importa, e portanto, a vida que um escritor viveu é mais importante que sua obra. Ou seja, nesse mundo pseudo-científico-útil, Heminguay/ Jack London e Steinbeck são mais relevantes que Proust/ Flaubert, Joyce, o que se trata de um absurdo.
Fitzgerald foi roteirista em Hollywood, onde ao contrário do que diz a lenda, ganhava muito bem e nada produzia. ( Huxley, Faulkner, Greene e Dos Passos também foram. )
Depois Gore escreve sobre Edmund Wilson, o melhor ensaísta que a América já produziu. Um grande bebedor de gim ( e Gore alerta sobre o fato de que toda essa geração foi chegada a litros e tonéis de álcool ruim ), e um homem que provou um erro de Freud : Wilson criava muita ficção e crítica e tinha uma imensa vida sexual ativa. Edmund Wilson trouxe às letras americanas os nomes de Verlaine, Yeats, Proust, Flaubert. Viveu até os 75 e era um ferrenho esquerdista ( num tempo em que ser de esquerda exigia coragem, hoje exige cara de pau ).
No terceiro capítulo, Vidal fala sobre Christopher Isherwood. Um ingles que viveu na Berlim pré-nazismo, tipo 1930/35. Um grande estilista que em seus contos descrevia de forma bela e contundente a vida boêmia desse momento único na história. Hordas de americanos e ingleses bem de vida iam à Berlim, onde conseguir um amante homossexual proletário era muito fácil. Nunca existiu um lugar com tal concentração de Homos/ Bis e travestís.
Isherwood foi amigo de Huxley e também escreveu para cinema ( inclusive Hitchcock ). Vidal aproveita para discorrer sobre a perseguição nem tão sutil que autores gays sofriam/sofrem.
O capítulo sobre cinema. Traz uma questão que todos nós nos esquecemos de fazer : afinal, o que faz um diretor ?
Estamos tão condicionados ( desde a Nouvelle Vague- pois foram Godard e Truffaut quando jornalistas que criaram essa crendice ) a ver o diretor como deus que não mais pensamos naquilo que ele realmente faz. Vidal, que esteve lá, conta que o poder do diretor acabou no cinema mudo, época em que imagem era tudo. Quando o cinema começa a falar, Hollywood chama a peso de ouro os melhores escritores e o roteiro passa a ser coração e alma de um filme. Gore Vidal cita Kurosawa, único grande cineasta que teve a humildade de confessar : " um grande roteiro dirigido por um cineasta ruim ainda pode se tornar um bom filme. Mas um roteiro ruim dirigido pelo melhor dos diretores ainda será um filme ruim ".
Diretores/ roteiristas ( Huston e Wilder ) podem ser considerados donos de um projeto, mas devemos sempre entender que um direor pega o projeto já desenvolvido. Atores escolhidos, fotografia, data de estréia, quem fará a montagem.
O livro ainda discorre lembranças sobre Tennessee Willians, outro grande chorão.
Depois temos Louis Aunchincloss ( autror que deveria ser melhor lido ) e um belo capítulo que anuncia o fim da leitura. No futuro todos lerão só o que é útil/ comprovadamente saudável e que garante ser vida real- ou seja- biografias exemplares.
Há um texto sobre Mishima e que me fez recordar como o mundo enlouqueceu por volta de 1970. Mishima, o mais famoso escritor japonês ( não o melhor ) se suicidou praticando seppuku após discursar na tv contra a presença americana na vida do Japão. Um general, por pedido expresso do autor, decepou sua cabeça e a exibiu no alto da torre da tv de Tokyo.
Mishima era um raDICAL de direita que cultuava o corpo. Para ele, a beleza da alma estava na beleza do corpo. Segundo Vidal, ele se mata aos 45 por não querer viver a queda desse corpo pela idade. ( Gore é informado o bastante para nos alertar que no ocidente o suicidio é ato de desespero, no Japão é uma escolha livre. Ato de afirmação. )
Daí temos uma critica àquela turma tão em moda nos 60. Autores franceses que iriam destruir o romance e criar o romance do futuro : romances sem tempo, sem personagens e sem enredo. Deram com os burros na água.
Depois um perfil de Teddy Roosevelt, o presidente dandy que meteu os americanos em guerras vergonhosas e da qual o país paga o pato até hoje.
E vem um maravilhoso texto que fala do ódio que as mulheres devotam aos homens. Ódio que nasce da escravidão milenar pela qual elas passaram. Vidal previu em 61, que a liberação feminina faria com que a vingança viesse : chifres aos milhões, desprezo pelos apaixonados, sexo por sexo, descartabilidade masculina e mulheres de 60 com garotos de 18.
Afinal, durante cinco milenios elas foram a serpente, a bruxa, a danação, a fonte da doença e um animal procriador. No final do livro, um dado :
Talvez, Darwinisticamente, estejamos nos preparando para o fim da vida. Estamos deixando de nos procriar, nos tornando mais homos e menos interessados, estamos nos enclausurando na virtualidade da droga e do sonho ( e hoje no mundo virtual em sí ). Tudo isso parece um fim de ciclo, fim de vida, inicio da despedida. É como se não mais valesse a pena crer na vida.


aprendendo a olhar- uma tentativa

Andando pelas ruas desta cidade. Observo cada cor. Noto toda variação de luz que não cessa seu cambio infinito. A sombra que bate naquela parede. Uma folha que se move.
Procuro nada deixar escapar. A beleza está em toda parte. Basta saber para ONDE OLHAR.
Mas ainda SABEMOS ?
Dois exemplos de deseducação do olhar :
Um rosto em big-close. Uma boca linda. Uma bela mão sobre uma bela mesa. Close rápido em seio nú. Um belo mar azul.
Exemplo dois :
Estrada longa com cactus verde musgo. O sol se põe. Corte. Neve cai sobre pinheiros. Corte. Crianças brincam ao anoitecer. Close. Um sorriso.
Tempo de duração dessas duas cenas acima descritas : 1 minuto.
Consequencia : voce ACHA que viu coisas belas. acredita. compra a idéia. o filme vende isso. seus olhos, domados e passivos, olham aquilo que é JOGADO SOBRE VOCE. Não existe escolha. Seu olhar não é educado porque não existe como PROCURAR o belo. voce está passivo.
PROBLEMA CRUEL : VOCE SE ACOSTUMA À PASSIVIDADE. Belo se torna o que parece belo. Não existe escolha. Nada de apreciação. Voce desaprende a olhar e quando algo de genuinamente belo se lhe apresenta - voce não percebe- está cego para a vida.
DOIS EXEMPLOS DE DEMOCRATIZAÇÃO DO OLHAR :
45 minutos de um baile. Imagens amplas, vastas, sempre em movimento. Seu olhar tem A LIBERDADE DE ESCOLHER para onde olhar : o belo décor ? as roupas de época ? o movimento dos corpos que bailam ? as faces dos atores ? a luz de velas e de janelas de autentico cristal ? A CAMERA GENEROSA MOSTRA TUDO E DEIXA QUE NÓS ESCOLHEMOS O QUE APRECIAR. O diretor confia em nosso bom gosto. AO MESMO TEMPO : 8 linhas narrativas se sobrepõe - se voce for muito inteligente conseguirá seguir todas as 8. Uma sensibilidade mediana seguirá 3. HÁ A TRAGÉDIA- um homem realmente nobre perde seu porque na vida. Seus dias se foram MAS ELE SABE E NÓS SABEMOS que ele é melhor que aqueles que lhe tomam o lugar. HÁ A COMÉDIA BUFA- uma bela porém ridicula moça torna-se o símbolo da vulgar beleza que nasce alí. É a beleza burguesa em oposição a nobre beleza anterior. NASCE A LINHA NARRATIVA POLITICA - os novos ricos precisam do lustro cultural da nobrza e da respeitabilidade do sangue azul. Tristemente, o nobre se torna um empregado. SURGE O PURO PRAZER ESTÉTICO - todas as histórias contadas sutilmente. VOCE É CONVIDADO A USUFRUIR CADA MOMENTO. CONVIDADO E SEDUZIDO. Nada é jogado ou imposto. Todo esse drama está no rosto e no gestual de cada personagem. SUA INTELIGENCIA DEVE LER O FILME.
Voce passa então a LER A VIDA, percebendo todo o drama e toda a beleza que se desenrola ao seu redor.
EXEMPLO SEGUNDO:
Neve cai numa praça. Sem cortes. A camera caminha entre brinquedos. Balanços, gangorras, tobogã. É noite. Um velho se balança no brinquedo. Está só. Continuamos sem nenhum corte. Sem trilha sonora. A camera se aproxima da face do personagem. Ele chora. E começa a cantar uma canção que fala do tempo.
Sem qualquer pressa. O diretor, confiando em nosso espirito, deixa a nosso critério o julgamento da beleza ou não de tal cena. SERÁ POESIA OU SERÁ DRAMALHÃO PESADO ? Cabe a nós decidir.
Citei cenas de O Leopardo de Visconti e de Viver de Kurosawa.
Filmes que desenvolvem nosso olhar, nossa inteligencia. Eles nada empurram sobre nós. Educam. Fazem com que percebamos a beleza e o drama da vida do dia a dia. Seus diretores nada vendem. Suas cenas dão a POSSIBILIDADE DA ESCOLHA : para onde vou olhar ? onde está o belo ?
O filme nobre jamais grita : _Olhe que coisa linda!!!!!!!!
O filme nobre apenas diz : _ Olhe...
Voce precisa procurar a beleza nesse filme. Para a encontrar, é necessária inteligencia e refinamento. E quando voce percebe, é como se o artista lhe dissesse : BEM VINDO .

rápidinho-, comentários e notas

.QUEIME DEPOIS DE LER dos Coen. Em ano muito ruim, se destaca fácil. nota 8.
VICKY CRISTINA BARCELONA de Woody Allen. Um tipo de Eric Rhomer pop. Woody acerta na leveza, Scarlet naufraga, Bardem brinca e Penelope estraçalha. nota 8.
AGENTE 86 de alguém que não importa. Uma lástima. nota zero.
THE READER de Daldry. Com Winslet. Kate está caricatural. Sua alemã parece uma alemã feita por uma inglesa. O filme aborrece e agita sempre um cartaz onde se lê : arte! - pois não o é. Trata-se de presunção do pior tipo. Risquem o nome de Daldry do meu caderno. nota 1.
CLUBE DOS PILANTRAS de John Landis com Belushi. Nunca foi dos meus favoritos. Penso que John Belushi nunca fez um filme a altura de seu potencial. nota 3.
YOUNG MAN WITH A HORN de Michael Curtiz com Kirk Douglas, Doris Day e Lauren Bacall. Filme sobre jazz. É baseado na vida de Bix Beiderbecke. Kirk se esforça, mas voce percebe que o diretor não entende de jazz. E nem se interessa. nota 2.
O MAIOR AMANTE DO MUNDO de Gene Wilder. Um tímido americano caipira se torna o novo Valentino. Gene dirige sem inspiração. Parece Mel Brooks de segunda mão. 3.
O IRMÃO MAIS ESPERTO DE SHERLOCK HOLMES de Gene Wilder. nota zero.
EXPRESSO DE CHICAGO de Arthur Hiller com Gene Wilder, Jill Clayburgh e Richard Pryor. Funciona. Muito agradável, é o que chamo de pop honesto. Assume o que pretende e o atinge. nota 6.
CENAS EM UM SHOPPING de Paul Mazursky com Woody Allen e Bette Midler. Um casal discute a relação num shopping. Só isso. O filme é um tipo de análise pop para trintões. Mazursky surgiu em 1970 como enorme promessa. Ficou pelo caminho. Nota 3.
OURO É O QUE OURO VALE de Walter Graham com James Coburn. Faroeste de humor. Mas o pastelão passa do ponto. fuja!!!!!! zero.
SARGENTO YORK de Howard Hawks com Gary Cooper.
York fez enorme sucesso na época da segunda guerra e deu a Cooper seu oscar. Conta a saga de um caipira que se torna herói. Sem querer e sem ter noção do que faz. Ele é um tipo de Garrincha da guerra. Todos que me acompanham sabem do meu amor pelo cinema falsamente simples de Hawks. Quem já tentou fazer qualquer tipo de arte sabe que o mais dificil é transformar o grande trabalho em prazer. Parecer fácil o que é dificil. Hawks sempre consegue isso. Relaxar e deixar rolar. Mas York não me agrada. Há algo de muito carola, de muito falso aqui. Provavelmente Hawks se sentiu pressionado pelo clima de guerra e fez um filme travado. Um anti-Hawks. Gary Cooper está muito bem. nota 3.
A CONDESSA DESCALÇA de Joseph l. Mankiewicz com Bogart e Ava Gardner. Bem... Mankiewicz é o maravilhoso diretor de clássicos como A Malvada e O Fantasma Apaixonado. É considerado um mestre do diálogo, da interpretação. Mas este muito pretensioso filme erra em sua análise do que seria Hollywood. Conta a história de uma espanhola que via publicidade se torna grande estrela. Mas ela é ninfomaníaca e se casa com principe italiano impotente. Bogey está sobrando neste filme. Ava está bonita. Mas o filme não evolui. 3.
A IDADE DA REFLEXÃO de Michael Powell com James Mason e Helen Mirren. Escrevi um comentário mais longo sobre este delicioso filme abaixo. Procure. Se voce achou que o pintor feito por Bardem no filme de Woody é muito chavão, veja James Mason neste filme. Aqui vemos aquilo que um pintor realmente é. Helen resplandece. Sua sensualidade é uma aula para JessicasBiels e NataliesPotmans. Ela é de carne e osso. E brilha como o sol deste filme feliz. Mais uma dentre a dúzia de obras-primas de Powell. Nota DEZ.
O FIO DA NAVALHA de Edmund Goulding com Tyrone Power, Gene Tierney e vasto etc. O livro de Someset Maugham é uma deliciosa novela pop que fala da falta de sentido da vida. O personagem, Larry, volta da guerra traumatizado e roda o mundo atrás do nirvana. Lí o livro já 3 vezes e se trata de um best-seller com suprema habilidade e vasta ambição. O filme pega tudo isso e transforma numa pecinha escolar sobre ciúmes e dor de cabeça. Chato e ofensivo. Um detalhe: Power interpretou dois de meus mais amados personagens : larry aqui e o narrador de O sol também se Levanta. O fato de ele afundar os dois filmes diz muito sobre o que Hollywood é. nota 1.
A FACA NA ÁGUA de Roman Polanski. Trata-se do primeiro longa de Polanski, feito ainda na Polonia num maravilhoso preto e branco. 3 personagens e aquele clima claustrofóbico do qual ele é mestre. ( aliás, Roman já nasce mestre aqui. o filme tem a segurança de um veterano ). Casal dá carona a jovem e o leva para velejar. Nasce o suspense. Todas as enquadrações de cameras são belíssimas, os atores estão muito bem orientados, e a história nunca se trona monótona e nos hipnotiza. Um filme muito barato, muito simples, muito original e totalmente acessível de um diretor que nos daria a obra-prima Chinatown. nota 8.
QUEM MATOU LEDA? de Claude Chabrol com Bernadette Lafont e Jean Paul Belmondo. Crítica escrita abaixo. Leia que vale a pena. O filme é direto, vibrante, profundo e inesquecível. Fotografia de Decae genial e um Belmondo divetidissimo. nota 8.
AS DIABÓLICAS de Clouzot com Simone Signoret. Foi refilmado com Sharon Stone e Isabelle Adjani. Um desastre essa refilmagem. Este é asfixiante, paranóico, muito habilidoso e um prazer absoluto. nota 7.

o japão, o brasil e um outro mundo

Estudei em escola pública até os 13 anos de idade. Meu bairro, o Caxingui, era formado de casas com longos quintais no fundo. Galinhas, coelhos, limoeiros e couves. Toda casa tinha um porão e todo porão tinha um reino de fantasia.
Em minha escola não havia um só negro. Onde eles estavam eu não sei.
O Brasil parecia distante, ficcional, inexistente. Foi sómente aos 12 anos que falei com um brasileiro. Um mulato, Juscelino, filho da empregada de casa. Aliás, devo a Juscelino a descoberta dos quadrinhos da Ebal.
Em minha infancia, todos os meus amigos eram japoneses. Mauricio, Wilson, Donato e Celso. Todos falavam e escreviam japones. Eram filhos de japoneses e suas casas eram atulhadas de bonequinhas, samurais, pinturas do monte Fuji.
Jogava beisebol na rua com eles. Todos tinham bonés azul-marinho e usavam meias tres-quartos branca bem esticada. Riam muito. Os pais adoravam pescar. E pareciam muito unidos.
Assistíamos Nacional Kid. Ultraman. Samurai Kid. Speed Racer e Super Dínamo. Eu era Hawata nas brincadeiras. Eu pensava que todo o Brasil fosse japonês.
Aos poucos foram surgindo alguns italianos para bagunçar tudo. Eu me sentia mal com sua estridencia, sua falta de tato, sua indiscrição. Mas logo meu lado latino acordou, comecei a me soltar, a falar alto, a relaxar.
O Japão se tornou o império de minha infancia.
O Brasil, hoje, não tem mais japoneses. Tem coreanos e chineses. E eles são bem diferentes. Por isso, sempre me emociono ao ver um ancião nipônico andando na rua. Ele é sempre um viúvo. Leva um guarda-chuva e um jornal da colonia. Cheira a sakê. E tem o porte nobre de um ex-imperador.
O Brasil, hoje, é um país estranho para a criança que fui. E o olho com olhar estrangeiro. Me parece muito sensual demais, muito colorido demais, violento demais, latino americano demais.
Sei que parece uma pequena loucura minha. Mas quanta gente de minha geração é assim sem ter a consciencia do porque ?
Na idade adulta conheci os filmes de Kurosawa, Mizoguchi, Ozu, Oshima, Imamura, Ishikawa... foi como voltar a meu país. Foi como reencontrar meu quarto. E Mauricio, Celso, Wilson, Mario...
Portanto, não me fale da distancia do pensamento japones para o brasileiro. Sempre morei entre os dois.
E de forma lógica, aos 12 anos me apaixonei por Sueli e depois por Marc ia... escrevia hai-kais para elas, sem saber que eram hai-kais. E plantava bambús.
Ainda tento encontrar a beleza dos bambús pingando orvalho em manhãs geladas de maio.
Onde encontrar?

o oscar, um vovô muito chato!

Acompanho o prêmio desde 1976 !!!!! ( caramba ! ). Foi o ano de Rocky e de Faye Dunaway. A entrega acontecia às segundas e durava várias horas. Não existia essa mania de se agradecer agentes, contadores, produtores. E na platéia as câmeras mostravam gente como Jack Lemmon, John Wayne, Laurence Olivier, Gregory Peck, Charlton Heston ou Audrey Hepburn. Uma nova geração se afirmava. De Niro, Pacino, Diane Keaton, Travolta e Stallone. Paul Newman, Warren Beaty e Steve McQueen eram muito quentes ! E Jack já exibia seus óculos escuros.
No ano seguinte ví Annie Hall vencer tudo, Lucas e Spielberg despontarem e o mundo do cinema começar a se infantilizar. Se acomodar ( e com isso reconquistar o público que os anos 60/70 haviam afastado ).
Tive tempo de ver Hitchcock ser homenageado, assim como Bergman, Kurosawa, Fellini. Recordo um aplauso de 5 minutos para Olivier ( num tempo em que só ele, Chaplin ou John Wayne faziam o público aplaudir de pé ). Eu me maravilhava em poder ver na tv, na minha sala, aqueles ícones tão distantes, tão elegantes, tão irreais.
No oscar deste ano, a primeira ovação de pé, tão já em seu final, foi para Sophia Loren e Shirley MacLaine. Finalmente a emoção se fazia notar. Porque até então o que víamos era aquela festinha tipo encontro escolar. Xoxo e morninho.
O que acontece ? Eu mudei ou o oscar mudou ?
Sentí falta de Jack e seus óculos. De Scorsese elogiando algum diretor genial. Sentí falta de ícones. ( e mesmo de estrelas como George Clooney, Johnny Depp ... )
É trágico notar o fato de que as pessoas não conseguem mais vestir um terno e se sentir confortável. E não terem a coragem então de não usar o tal terno escuro. A caipirice impera.
Falar dos prêmios ? O bom moço venceu. A boa moça venceu. O filme dos meninos bonzinhos venceu. Penn é bom ator. Mas Milk é mal cinema. Kate é boa atriz. Mas O Leitor chega a dar vergonha. Slumdog tem talento. Mas erra muito mais que acerta.
O verdadeiro futuro vive nas animações. Wall e foi de longe a melhor coisa nas telas em 2008 ( e o futuro provará isso ). Atores não se tornarão desnecessários : já o são.
A academia não teve os culhões de votar no arrogante e não=bonzinho Mickey Rourke. Sua atuação se tornará clássica. Milk será esquecido ( mas não os outros papéis de Sean Penn ).
Oscar sempre foi propaganda. Mas agora tem um jeito de relações públicas terrível.
E fico tentando reencontrar a emoção de ver Lucas e Spielberg homenageando Kurosawa ou Cary Grant dando prêmio ao amigo James Stewart...
Foi perdida a chance de se fazer justiça a Jerry Lewis. O primeiro ator que conhecí. Um gênio criativo, um gênio da comédia para franceses e alemâes. Mas a academia o esnoba. Como sempre esnobou Chaplin, Buster Keaton, Os irmãos Marx, Cary Grant, Steve Martin, Jim Carrey...
De bom o prêmio para Penelope. Quantos atores foram premiados em filmes de Woody ? Diane Keaton, Michael Caine, Dianne Wiest, Mira Sorvino, Judy Davis...e devo ter esquecido alguém.
Meus indicados teriam sido Gran Torino, Vicky Cristina, Wall e, Queime depois de Ler e talvez Slumdog ou o western de Ed Harris. Mas...
Aplaudiram De Niro de pé. Daniel Craig parece Barney Rubble e Hugh Jackman chegou a dar pena... Nicole Kidman é mais bonita que Angelina Jolie e o vestido de Penelope Cruz era o mais bonito. Que mais ? Dormir é bem melhor !

vicky cristina barcelona e nós dois

Triste será o dia em que não tivermos mais os filmes de Woody Allen. Porque em meio a um mundo cada vez mais infantil, ele, quase sózinho nessa empreitada, insiste em produzir um tipo de cinema sofisticado, adulto e profundamente humanista. Vejamos seu novo filme.
Primeiro fato: todos os personagens são adultos ( mesmo os idiotas ). Nenhum se parece com um cartoon. Segundo fato : nada é feito com a intenção de parecer moderno, ou , nada existe para chocar. Tudo é natural, pois tudo é humano.
Tenho amigos que são como Doug e Vicky. Eles se casaram com pessoas de seu bairro, sua profissão, seu mundinho. São pessoas que jamais podem estar distantes de um celular, um lap-top, dos amigos protetores. Por mais que se droguem, viajem, comprem, nunca deixam de ser aquilo que sempre foram- crianças.
Conheci várias Cristinas. E as compreendo. O amor foge delas. Elas pensam buscar o amor. Mas apenas procuram espelhos, comprometidas com seu destino, sua dor, seu desejo.
Encontrei um único pintor hedonista como o papel de Bardem. Ele sabe. Ele sabe aquilo que artistas como Bergman, Wilde, Kurosawa, Miles e meu querido Kevin Ayers sabem : a vida não faz nenhum sentido. Nada é definitivo, nada alivia nada; e o certo é celebrar isso. Absorver o que há de belo, poderoso, valoroso ,e prosseguir, rindo, celebrando o sol.
Amei uma Maria e quase morremos juntos. E posso então dizer que compreendo o que é o amor verdadeiro. Pois amor de verdade só existe na dificuldade, na diferença, no risco.
Num mundo onde voce não arrisca um amor impossível, ou onde todo desejo é satisfeito antes de se afirmar,bem, nesse mundo o amor se torna um quase nada, um vazio, um compromisso com o já conhecido ( e o já conhecido, o previsivel, não é amor ).
Barcelona é uma mulher linda. Quem não a ama não ama a beleza e a vida. Ama o cinza.
Penelope Cruz... brilha e humilha as outras atrizes. Seu ódio é homérico, sua sensualidade fulgurante, sua presença de rainha. Ela ilumina as cenas e enche a tela de vida. E de trágica sina.
Woody deve ter se queimado muito com a América. Sua visão dos americanos se tornou ferina. Eles são um bando de bebedores de café descafeinado, plugados em maquininhas bobas e consumistas vorazes. Eles são, sabemos disso. ( Há um belo contraste: numa cena vemos o casal bebendo vinho. Surge o noivo com seu copo de café de papelão ).
É um filme melhor que qualquer candidato ao Oscar .
Sua cena final, Vicky e Cristina, andando rumo ao inevitável tédio, rumo à absoluta mediocridade... faz lembrar o Antonioni mais visceral . Allen depura sua influencia Bergmaniana e nos dá toda uma alma, radiografada, em coisa de 4 ou 5 segundos. Me fez chorar...Coisa que nem a novelinha de Fincher/Roth e nem a incrível bobagem de Daldry fez.
É muito mais real e colorido que o filme fashion sobre a India e não pode ser comparado à um lixo como Milk. É um filme fábula. É amargo. É bonito.
Woody Allen se aproxima do fim da vida menos brilhante. Menos engraçado. Porém, muito mais sábio. Bato palmas de pé para este irresistível filme.

porque os irmãos Coen são tão bons

Queime depois de Ler é mais um grande filme dos Coen ( Arizona, Lebowski, Onde os Fracos, Fargo, Barton Fink, E aí meu Irmão ).
Porque?
Primeiro porque os Coen realmente amam o que fazem. Voce percebe que eles assistem filmes ( e os filmes de Preston Sturges e Billy Wilder são óbvias influencias, mas há muito mais ), voce nota que eles amam os atores e amam os personagens. Existe amor por Lebowski, pela xerife de Fargo, pelo vizinho de Barton Fink, pelo casal em Arizona, pelos condenados em Meu Irmão...
Neste filme, tanto a hilária Liptzke ( mais um show dessa adorável e genial Frances McDormand ) quanto o maravilhoso Clooney ( que ator fantástico! Tudo o que ele faz parece tão fácil de ser feito e por isso nos passa tanto prazer em assistir ), são acarinhados, embalados, respeitados pelos roteiristas. Roteiristas que deixam as cenas durarem o que precisam durar e que jamais movimentam a câmera sem que seja necessário.
Segundo motivo de excelencia é o fato de que os Coen são realmente inteligentes e nos tratam como seres pensantes. ( E nisso eles estão quase sós no cinema atual, onde até mesmo filmes pretensamente adultos já vêem com suas conclusões prontas ).
Todo o filme é impregnado de ira, de crítica a tudo aquilo que merece ser criticado. O vazio de um mundo sem relações estáveis, a ansiedade por se reinventar sempre, os aparelhinhos que nos fazem parecer e ser idiotas, a paranóia urbana, a infantilidade de quem não tem porque existir, a futilidade da politica.
Tudo isso é mostrado. Mas, e vem daí sua genialidade, o filme jamais prega. Ele confia em nossa cabeça, e deixa aberta a opção de nossa escolha : se concordamos com aquilo que os irrita, nos divertimos e usufruimos ainda desse poder de critica; se não queremos ou podemos pensar, temos uma diversão excelente. Os Coen fazem filmes que negam tanto bobagens como Batman ou Agente 86 ou filmes engessados e pseudo-profundos, como Sangue Negro e Milk ( tolices artísticas que vêem prontas. Eles trazem bulas : aqui voce deve chorar, aqui voce deve concordar, veja como isto é profundo... ).
No cinema dos Coen tudo é aberto : voce escolhe o que aquilo significa, podendo inclusive nada significar.
Este filme é, inclusive, um anti- Onde os Fracos. Naquele filme todos queriam alguma coisa; aqui há alguma coisa que ninguém quer. Naquele não havia trilha sonora, neste há uma trilha exagerada e invasiva. Poucos personagens em Onde os Fracos, aqui uma constelação de tipos; a aridez do deserto versus a fertilidade do norte americano; o personagem são ( Tommy Lee ) em Os Fracos, sobrevive e dá a conclusão magnifica, aqui o único personagem que ainda tem algum discernimento é burramente executado.
Trata-se de um filme que não se esgota em uma visão e que tende a melhorar com o passar dos tempos ( o que è sintoma de grande arte. Todo grande filme cresce com o passar dos tempos. Todo filme medíocre morre em dois verões ).
Os Coen merecem ser homenageados sempre. Eles olham para mim e para voce com verdadeiro carinho. Nos respeitam, confima em nosso julgamento, em nosso entedimento. Acreditam que somos ou seremos adultos, que não rimos por cenas de banheiro, que não nos impressionamos com um travelling ou uma fotografia amarelada. Eles amam sua profissão. E isso faz com que eu ame seus brilhantes filmes.

porque o agente 86 é tão ruim

O agente 86 espelha de forma exemplar toda a ruindade que insiste em atacar o cinema feito nestes tempos acéfalos. Mostro alguns dos motivos.
Um crítico fez uma exaustiva pesquisa e chegou a seguinte conclusão : quando num filme, uma tomada dura menos que 8 segundos, nosso cérebro não consegue articular conceitos sobre tal cena. Com menos de 4 segundos, não conseguimos sequer pensar sobre o que está sendo mostrado.
Em seguida ele cronometrou cada tomada, cada corte, de vários filmes. Em média, o tempo entre os cortes, hoje, é de 4 segundos. Armagedon chega aos 3 segundos e Pearl Harbour aos 2,5 segundos. Os filmes de Woody Allen chegam a ter 15 segundos...
Porque isso ? Dois são os motivos principais : Primeiro o fato de que os produtores acham que o público é idiota. Acham que não suportaremos ver duas pessoas conversando sem que aconteça um corte, outro corte, um zoom, uma tremida de camera, um efeito de som. Segundo, a insegurança dos diretores. Eles não confiam em sua própria habilidade ( e na de seus atores ) e maquiam qualquer cena com todo tipo de adereço que distraia o público do que possa dar errado.
Agente 86 é uma comédia tola. Uma comédia onde não há uma só frase memorável. Um filme que chega ao cúmulo de enfeitar um diálogo com 4 posições diferentes de camera ( sem que haja nenhum motivo para isso ).
Há uma cena de briga entre o 86 e um tal de Dwayne ( um ator que faz Arnold parecer Olivier ). O que é mostrado ? Uma parede, uma face, mãos, chão, algo caindo, um olho, um tombo. Voce viu a briga ser encenada ? Observou a habilidade dos stunts ? Voce não viu nada. E engoliu passivamente, sem tempo de pensar sobre o que aconteceu.
Qual a interação entre os dois agentes ? Uma relação que poderia ter dois ( só dois, please!!! ) diálogos, tem apenas momentos abortados que nunca vão adiante ( e que fazem o romance entre Fred Flintstone e Wilma parecer adulto e profundo ). Anne Hathaway, uma atriz elegante e bonita, que consegue parecer inteligente ( o que é raro ), passa todo o filme com um ar de : help me!
Quanto ao tão elogiado Steve... por favor! Basta assistir aos extras para se ver o quanto ele é ruim!! Nos extras ele "imita" sotaques e modos de se comunicar. A maneira como ele faz um italiano é tão ruim, tão sem graça, tão idesculpável que chega a ser cruel com o próprio ator. Dá vergonha.
Ao final, o filme tem uma interminável sequencia de ação toda picotada para parecer ágil. Não interessa mais. O filme já se perdeu.
As pessoas precisam ir ao cinema.
Em seu tédio e sua aversão a ler ou caminhar pela cidade; elas necessitam de duas anestesiantes horas no escuro. Elas vão ao cinema para comer pipoca, beber Coca e sentir que "fizeram algo". O que o cinema lhes dá ? Imagens que acompanham a pipoca, que complementam a bebida e um torpor- tolo que as envia de volta para casa com a sensação de que "estiveram em algum lugar".
È muito pouco o que elas pedem. E mesmo assim, os produtores lhes dão menos.

contra a culpa, contra a falsidade, pela vida

A IDADE DA REFLEXÃO é um filme que Michael Powell fez quando sua carreira já havia ido pro buraco. Trata-se de seu último filme. Modesto, barato e de uma alegria deliciosa.
Mas quem foi Powell ? Ele surgiu no cinema britânico por volta de 1940. Nessa fase, de enorme sucesso crítico e comercial, seus filmes eram os melhores fotografados, muito ambiciosos. Filmes que caminhavam no fio da navalha, com seus temas arriscados/ espinhosos. Mas, graças à seu superior talento, acabavam vencendo.
Senão vejamos : Powell filmou uma super-produção inglesa sobre as Mil e uma Noites ( com um colorido impressionante e efeitos especiais que sobrevivem lindamente ); outro filme era sobre a vida de um antipático coronel do exército imperial ( 3 horas que passam em prazer, numa biografia de extraordinária riqueza ); outro filme versa sobre as dúvidas vocacionais de uma freira frente à cultura do oriente ( filme suntuoso, belíssimo e com cenas de descomunal força ) e ainda um musical metidíssimo sobre o conflito entre arte e realidade. É pouco ? Powell ainda tem capas e espadas, óperas e comédias. Mas...
Em 1960 sua carreira foi destruída com o fracasso absoluto de Peeping Tom, filme sobre voyerismo, sadismo, invasão de intimidade. Um filme cruel, duro, cínico e muito adiante de seu tempo. Michael Powell parou por 8 anos.
Volta em 1968 com este Na Idade da Reflexão. James Mason produziu e é o ator central. Helen Mirren estréia no cinema ( já era atriz da Royal Shakespeare Co. ). O que é o filme ?
Um pintor, talentoso mas nada genial, entediado, vai viver numa ilha isolada da Australia. Num barracão, ele e seu cão. Lá ele conhece uma menina que pesca lagostas e as vende para ele. Ela posa. A avó da garota, bebada, morre num acidente e o pintor descobre que gosta da menina. O filme não é nada mais que isso. Mas como Powell filma essa ilha ?
Ele nos faz, através de cortes inesperados e rápidos, viver dentro daquela ilha e a sensação que temos ao ver o filme ( e eu já o ví 5 vezes ) é presenciarmos aquilo que deveria ser o paraíso. Mas atenção : a cabana é suja e minúscula, a menina é uma caipira gordinha e os habitantes da ilha são australianos comuns. Não há aquela alegria de pasta de dentes/ anúncio de margarina; não há a imagem de uma ilha tropical tipo Aruba. Não. Powell vai mais fundo : a alegria do filme está na absoluta ausencia de culpa em seus personagens. O pintor não vence a culpa porque ele nem sequer cogita em senti-la. A menina ( uma Helen Mirren fantástica. Ela esbanja sensualidade inconsciente ), também vive como pode e deseja, e a culpa não faz parte de sua vida.
Todo o filme é profundamente belo, daquela beleza natural, sem artificialismos, e isso faz com que cada fotograma transpareça prazer e sensualidade.
Nos anos 80, Martin Scorsese confessou ter em Powell um ídolo e ao organizar uma mostra de todos os seus filmes em NY, resgatou Powell para o centro do mundo. Ele morreu vingado.
Hoje, ao lado de Hitchcock e David Lean, Michael Powell é considerado o grande diretor da história do cinema britânico, um diretor sem medo, sem travas e profundamente culto.
Este filme, A IDADE DA REFLEXÃO, se feito hoje, traria o gosto amargo da culpa, do preço a pagar, ou seria destruído com uma injeção de humor grosseiro.
O cinema pode ser muito feliz. Este filme nos diz isso.

concerto para piano número 20- Mozart

Todo começo de noite eu passava em frente àquela casa. Alguém mais parava para olhá-la ? Creio que não... eu mesmo não saberia dizer se aquela luz era real. Velas, fogo de lareira, o que iluminava aquela janela ? Uma luz que parecia nada iluminar.
A banca de jornais vendia livros. Livros encapados em couro preto com lombadas douradas. Eu os admirava de longe. Meu hálito voava na já noite de maio. Eu era só. Inescapavelmente solitário.
Os ônibus passavam quentes e com suas janelas embaçadas pelo calor de vários corpos apertados. Meu coração tinha pressa. A janela do casarão prometia alguma canção.
No domingo de manhã, manhã gelada e de vento, um deserto na avenida larga, uma febre ansiosa na minha semana, a vontade de ir logo em algum lugar. Descí do táxi e comprei alguns- vários fascículos. Um deles : Mozart.
Sózinho sobre um tapete de lã vermelha e verde. É final de tarde. Ninguém em casa. Na janela alguns raios de sol. Eles caem sobre um sofá de tom cor de vinho. O que eu quero ?
Primeiro um acorde.
O mais heróico dos acordes. Que é isso ? Esse acorde é forte e fala comigo. Sim ! Fala comigo e grita dentro de mim. Ele diz e imperiosamente ordena : Viva.
Outro acorde vem. Mais baixo, mais suave, ele ronda pelas vielas e pelas sombras. As sombras daquela avenida, daquele mundo e daquela janela amarela. A música ronda pela sala, gira entre todos os cantos e súbito eu não existo mais.
Agora eu sou aquela melodia.
E vejo, alí, nos raios de sol, toda a vida que viverei : Os dias, as noites, os vazios. Me enxergo como um homem que ainda serei. As visões. Amarelas. Orvalhadas.
Percebo que aquela música possui um sentido. Cada nota é impregnada de uma rota e todas essas rotas se completam. Sómente no século XVIII poderia haver Mozart, pois naquele tempo tudo tinha sentido- tudo era uma certeza! Seja a igreja, seja o canhão, tudo era certo. E esta música é a música da certeza- música que grita e sussurra : eis um gênio/ eis a vida/ eis o que vale a pena/ eis o homem.
Quando o piano entra, num dedilhado que é uma ode à mais genuina beleza, eu, orgulhoso ateu, passo, sempre que o ouço, a crer em Deus. Pois este piano, que me faz chorar, só pode ser obra de alguém que foi feito à imagem do divino. Não há como negar : é transcendente.
Pausa....................................
Ao se iniciar o segundo movimento. Ocorre o milagre. A beleza em estado puro : a beleza em música.
Nada pode ser mais doce, belo, calmo, eterno, amoroso.
Vejo a mulher que se esconde por detrás daquela janela de luz amarela. Ela é o consolo da vida. Ela é a anti- morte. O anjo salvador. O primeiro colo ao recém-nascido. O sorriso de seu primogênito. A melodia, sinuosa, enrola-se ao redor de todo sonho que sonhei e de toda ilusão que desposarei. Me seduz e me leva. Ao magnifico vazio.
Se eu morresse nesse momento teria uma vida justificada.
Mas o movimento se encerra. E já nasce a saudade daquele primeiro toque do dedo na tecla que iniciou este momento: é a saudade da menina que se sentava na fila da frente. Da lambida de seu primeiro cachorro. Da primeira primavera neste mundo.
Eu não consigo crer que Mozart tenha um dia existido. Seu mundo é tão superior ao mundo que conhecemos que sua existencia é impensável.
Mas há o movimento final. Um convite à luta. A jamais deixar de crer. A união de carne e alma. A tudo que vale a vida e a morte. Eu olho essa música- ela é visível. Eu a olho e a amo. Ela é o mundo que sonho para mim. É o mais belo ideal e o cume máximo da criação humana.
Este concerto ilumina todo túmulo onde jaz a deseperança e o medo.

a teoria dos ciclos de william butler yeats

O grande poeta Yeats escreveu todo um livro sobre suas crenças. Através da mediunidade de sua esposa, o poeta recebeu a seguinte teoria. ( Que por ser bastante complexa, transcrevo apenas uma ínfima parte ).
O mundo caminha em círculos concêntricos. A cada 500 anos atingimos um apogeu e após mais 500 anos, sua antítese-decadência.
A alma, em suas várias encarnações, também varia entre sua luz e sua escuridão.
Assim sendo :
Em 2.500 ac temos um apogeu. O código de Hamurabi, as maiores pirâmides do Egito, estudos de astronomia e matemática.
500 anos mais tarde, a queda : invasões e confusão de línguas e de tribos.
Em 1.500 ac um momento de luz : Moisés e as tábuas da lei, Tutancamon no Egito, o apogeu da cultura cretense e o nascimento da civilização chinesa.
1000 ac, a treva : queda do Egito e invasão da babilonia.
500 ac. O mais brilhante e decisivo momento da humanidade : ao mesmo tempo, andaram na Terra : Buda- Confúcio- Sócrates. Apogeu de Atenas com Péricles, o teatro de Ésquilo e Sófocles. Nasce o taoísmo. Nasce a ciência como tese e antítese. Os celtas se organizam. Roma tem seu nascimento. Dario e Xerxes.
Ano 0. A treva. O sacrificio de Jesus. Nero em Roma. Queda de Atenas. Confusão na India e China.
Ano 500 de nossa era. Brilho : A igreja católica começa a unir o ocidente. Maomé no oriente. Apogeu da cultura árabe. Bizâncio é o centro da Europa.
Ano 1000. Trevas e confusão. Alta idade média. A Europa se divide em feudos.
1500 de nossa era : Solar. Descobre-se a América. Nasce o protestantismo. A renascença cria a ciencia e a filosofia modernas. O homem se torna o centro do mundo. O sentido de comércio e progresso nasce aqui. Os bancos e a arte humanística.
Ano 2000: trevas. Fim do humanismo. Confusão tribal. Morte da arte feita para o homem.
Yeats morreu em 1939. Para ele, a primeira guerra era o aviso da era caótica que viria no final do século vinte. O que ele diria se houvesse vivido mais cinco anos ?

as mais belas

Uma revista americana elegeu a mulher mais linda da história do cinema ( americano ). Sem surpresa : Audrey venceu. Porque ? Pergunta voce, Óh novato desconhecedor do que há de melhor.
Eu respondo : Audrey lançou, num tempo em que o padrão era Ava Gardner, a mulher magra, amiga e de cabelos curtos. Um tipo que ela lançou sózinha em 1952 e que é atual e copiado até hoje.
Mais ? Ninguém tinha sua elegancia. Qualquer camiseta lhe caía como Givenchy. Ela passava inocencia, dignidade, muita feminilidade e tinha o dom de fazer o mundo parecer mais bonito. Melhor.
Que mais ? Era a versão feminina de Cary Grant.
E tinha um rosto lindo. Perfeito. Limpo, saudável, otimista. ( E pensar que esta belga passou fome na segunda guerra, apesar de sua origem nobre ).
Angelina Jolie ficou em segundo lugar.
Deram o segundo posto para a atriz menos " Audrey" possível.
Em terceiro ficou a atriz que eu considero de longe a mais bonita da história : Grace Kelly.
Grace nasceu na mais tradicional família da Philadélfia. Se tornou atriz por tédio.
Se voce assistir JANELA INDISCRETA voce perceberá que seu primeiro close É O MAIS LINDO RETRATO FEMININO DE TODA A HISTÓRIA DO CINEMA AMERICANO. Ela é tão linda que chega a fazer mal. Chega a ser irreal.
Mas Grace era bem real. Namorou todos os atores com quem contracenou. E se casou com o principe de Monaco. O cinema nunca foi sua paixão.
Se tornou mito com cinco anos de carreira. Uns 10 filmes, se tanto. É o mais iinacessível retrato da beleza, da riqueza, da perfeição em forma feminina. Não há comparação possível.


quando o cinema frances é bom, ele é ótimo!

Dois filmes, dois momentos, dois mestres.
Primeiro: Henri Georges-Clouzot. Diretor massacrado pelos críticos da nouvelle-vague. Hoje é considerado um mestre. Tem uma obra-prima : O Salário do Medo. Uma aventura digna do melhor cinema americano. Mas hoje eu falo de outro filme : AS DIABÓLICAS. Magistral diversão. Porque ?
Uma escola. Um casal. O marido tem por amante uma professora. A esposa tem um caso com a mesma professora. As duas se voltam contra o marido. E mais não posso contar.
O clima é opressivo. E depois se torna de um suspense hitchcockiano. Voce se pergunta em estado de hipnose : e agora ? o que vai acontecer ? Um final chocante. Fantástico.
Segundo : Claude Chabrol. Um diretor da nouvelle-vague. Ainda na ativa. São 50 anos de uma carreira exemplar. 50 anos !!!!!! Imagine Aronofsky ou Daldry filmando em 2049 !!!!!!! ( começaram por volta de 1999... cinquenta anos mais : 2049 ! Tempo pacas ! ).
QUEM MATOU LEDA ? É o nome do filme. Fotografia em cores de Henri Decae. É um dos filmes mais bonitos que já ví.
Na Provence. Um castelo restaurado. Um pai que trai a mãe com a vizinha. Na cara de todos. O filho é um voyeur. A filha uma sonsa que namora um aproveitador hedonista. Leda será morta. Leda é a vizinha.
Momentos de genialidade : Jean-Paul Belmondo. Quem tem mais de 40 anos sabe : Belmondo foi tão famoso quanto Tom Cruise. Mas era muito muito muito simpático. Jovial, sorridente, e fez filmes melhores que Cruise. Sim- a Europa tinha super-stars !
Belmondo entra ( ele é o aproveitador ) em cena : pede comida à mãe. Invade o quarto da filha. Come como um porco. Rí. Vive.
Veja a cena em que ele dirige um Jaguar por Aix. Ele fala com os transeuntes. Acena para as moças bonitas. Canta. Corre. Tudo em um minuto. Câmera na mão. Figurantes que encaram a lente. Então o clima muda : O pai e a amante passeiam pelo campo. Um clip brega e meloso.
Belmondo bebe num café. Com seu amigo desempregado. Uma fanfarra desfila pela rua. Genial : Belmondo improvisa : corre atrás da fanfarra e arrasta seu amigo. A cãmera continua a filmar e esse acidente é usado por Chabrol. Não é editado. Eu vibro : eis a transcendencia do tempo no cinema !!!!!
Bernadette Lafond é a empregada. Pura sensualidade. Pura canastrice adorável . É um símbolo. A eterna musa.
Como nunca irei parar de repetir : os franceses de 1960 têm uma elegancia não- formal despojada que o mundo jamais tornou a igualar. Veja os sapatos de Belmondo. O paletó cinza com blusa preta. O corte de cabelo. Estamos a séculos da bermuda com havaianas, da cueca com jeans caindo, do mulambeiro como ícone ( ou pior : o pimp de Miami ).
O filme é policial. O filme não tem um tiro. É suspense. Mas não dá nervoso. Dá prazer.
Viva Chabrol. Num movimento que tinha Goddard e Truffaut, quem durou foi Chabrol. E Resnais.
Leda é puro luxo, calma e prazer. Aprecie.

criação- um livro de gore vidal

Fazia muito tempo que não me apaixonava tanto por um livro. CRIAÇÃO foi lançado por Vidal em 1982 e logo se tornou um sucesso. Do que trata ?
Em 500 ac. um senhor de 75 anos conta sua vida. Ele é persa e tem um belo desprezo pelos gregos. Através de sua história ficamos sabendo o porque de a civilização grega ter causado muito mal para nosso mundo, como erros cometidos por Xerxes e más escolhas de Dario mudaram o futuro da humanidade para sempre.
Num texto simples e cheio de humor pessimista, Vidal faz deliciosas fofocas. Ele desbanca Sócrates e Anaxágoras, eleva Pitágoras e nos dá um retrato colorido do que seria o mundo persa. Mundo que os gregos difamaram sempre.
Na segunda parte nosso herói serve Dario na India e temos todas as religiões pré-budistas muito bem explicadas. Gurus e charlatões são exibidos com todo seu ridiculo e com toda sua eterna atualidade.
Depois a China é explorada e acontece o retorno ao mundo do ocidente. Nosso herói volta transformado, sem poder mais encarar o tempo, a religião, a história do mesmo modo.
Todos os mitos fundadores são avaliados, todos os " e se... " da história são cogitados e no final percebemos algo de muito perturbador :
Se a vida tem por única função a obtenção da sabedoria... e se a sabedoria só pode ser obtida pelo afastamento daquilo que é futil, vazio, temporal... se a vida só pode ser verdadeiramente usufruida em quietude, solidão e calma... neste mundo de ruido, comunicação desenfreada e invasão de intimidade... em que absorvemos toneladas de conhecimento inutil e estamos sempre presos ao tic tac do momento... onde a sabedoria ?
Creio firmemente ( e foi a única coisa que aprendi em 35 anos de leituras ) que a maneira de transcender o tempo e a sina da existencia é obter contato com aquilo que nos convida a transcender o mundo real.
Quando olho uma tela de Chagall, quando ouço Satie ou leio um verso de Eliot estou indo além do lugar/ tempo/ espaço que ocupo. Estou entrando na esfera daquele iogue que meditou em 500 ac., do poeta que pensou sobre o espirito em 1770 ou do músico que ainda virá.
Pois se o tempo, ao contrário do que os gregos nos legaram, não é uma linha reta, mas sim um circulo perfeito, onde o começo mora no fim e todo final antecipa o começo, é através da obra de arte perfeita, do testemunho dos homens que enxergaram além das aparencias, que podemos nos aperfeiçoar, crescer, inspirar e vencer o tempo e a morte.
No tempo de hoje, que nos dá o acesso a toda essa riqueza, é obrigatório a qualquer homem comprometido com a vida e o viver, usufruir, mergulhar, compreender esses tesouros do tempo eternamente presente.
Sons, cores e palavras daqueles que guiam a eterna e imutável alma humana pela dor e pela loucura de se viver.

Inácio Araújo, Michael Chabon e Gore Vidal

A Folha publicou uma matéria sobre Michael Chabon. Parece que finalmente começam a levá-lo a sério por aqui. Ele escreveu Garotos Incríveis- que se tornou um dos meus filmes favoritos. O livro é tão bom quanto o perfeito filme de Curtis Hanson ( onde Michael Douglas dá um show ). Sua escrita é absolutamente viciante, deliciosa, pop, cheia de habilidade. Voce deve e precisa ler. Legal é que ele adora O Grande Lebowski !!!!!!! Pois Lebowski é o tipo de história que poderia ter sido escrita por ele mesmo.
Michael Chabon tem um gosto parecido com o meu. Muito parecido.
Assim como Inácio Araújo. Que diz sentir profundo tédio com Wong Kar Wai. Ora, isso é lógico. Um homem que ama os filmes de Hawks, Clint e Ford não pode ser enganado pelo doce perfume enjoativo de Kar Wai.
Me perguntam se ando lendo ou se apenas vejo filmes. Weeellllll.... descobri e me viciei em Sherlock Holmes. Um prazer. Finalmente entendo o porque de Georges Simenon ter sido tão famoso ( voce o conhece, não ? Bem, seu pai o leu. Autor belga, morreu nos anos 90. Livros de crime e mistério. Muito clima. Muito existencialismo pop. Ópio em forma de texto. ) Leio também Gore Vidal. O livro se chama Criação. 800 páginas hilárias e cheias de estilo superior. Ele situa o texto em 500 antes de Cristo. Grécia/india/China e Persia. O momento em que o mundo que conhecemos nasceu. Porém Vidal tira uma de tudo. Desmistifica a democracia, a filosofia, os deuses.
Gore Vidal é aquilo que um dia foi conhecido por aristocrata americano. Americanos bem-nascidos, bem-educados, finos e snobs. De família de senadores do século 19, ele prórpio tentou ser presidente nos anos 60/70. Vidal é anti-democrático ( como era Paulo Francis ) pois ele via no voto a porta de entrada da plebe decadente ao palco do mundo. A democracia tende a nivelar tudo por baixo ( cada vez mais baixo ). Para Vidal, a América foi grande enquanto foi governada por uma aristocracia bem formada e bem pensante ( Jefferson e etc. ) e teve em Kennedy seu último representante. Ele escreve como um nobre. Como alguém que está acima da vulgaridade. Mas escreve com verve, e portanto é delicioso.
Neste cada vez mais jeca e bárbaro mundo, ler Vidal, Chabon, Evelyn Waugh, Graham Greene é obrigatório.

the wrestler, um filme de Darren Aronofsky

Trata-se de um quase documentário. A câmera não desgruda de Mickey Rourke. E ele funciona não só como personagem; é também o cicerone daquele mundo. Mundo de derrotados ( ? ).
O estilo de direção é simples, sem qualquer afetação ( e carente de alguma criatividade ). Mas funciona. É um estilo pobre que exibe a pobreza de vidas tolas, vazias, erradas. Mas que ainda mantém alguma humanidade.
O filme não é com Mickey Rourke. Não é para Mickey Rourke. O filme é Mickey Rourke.
Aquele que foi um grande símbolo sexual ( por quanto tempo ? 2 anos ? 3 ? ), hoje se parece muito com Luciano do Valle !
O filme me fez recordar David Lee Roth...
Marisa Tomei está maravilhosa. Mas Mickey... ele brilha...
A produtora do filme se chama Wild Bunch. No Brasil, o filme Wild Bunch se chamou " Meu Ódio será sua Herança ". Velhos cowboys lutando para não desaparecer.
O filme é simples como Bresson. E não foge do óbvio. Nada nele surpreende. Nada.
Quando tocam " Sweet child o' Mine "... é lindo...e quando ele voa na última cena... entra Bruce com uma nova canção... daquelas que só Bruce sabe e pode fazer.
Ao contrário do muito tolo filme de Roth, Marshall e Fincher; e do muito vazio filme de Boyle; este é um filme de verdade. Nota 8.

SLUMDOG MILLIONAIRE/WILDER/TRUFFAUT

Que saudade do tempo em que comprei meu dvd ! Como foi magnífico o tempo em que comprei as caixas dos Marx, do Tarzan, do Bogey !!!!! Como foi delicioso colecionar Hitchcock, Lang, Ford. Descobrir os tesouros: Vigo, Clair, Murnau...
Invejo a inocencia de quem tem tudo isso para descobrir. Mas, vamos lá...
SLUMDOG MILLIONAIRE de Danny Boyle.
Fiz uma enorme força para adorar este filme. Danny é um cara legal, o filme está causando alguma sensação, quero gostar dele. Mas... após 10 minutos de encerrado voce o esquece. Porque ? Porque este filme padece de nada ter a dizer. Sua técnica existe enquanto ele roda. Depois que ele pára, nada fica. É como um corpo sem alma.
A influencia de Cidade de Deus é óbvia, como também o exibicionismo do camera-man. Toda tomada é elaborada, moderninha, diferentex. A câmera não trabalha em função da história, ela existe por si-mesma, presa em seu narcisismo futil. As crianças são ok, e a cena inicial ( na verdade a terceira cena ) da queda na bosta é muito bem ritmada. Mas depois cansa, e o filme parece muito mais longo do que é.
Me diga alguém : quem lançou a obrigatoriedade de que toda cena deve ser gravada como se a câmera estivesse dentro de um barco em mar agitado ? Pra que ? Eu quero poder olhar as cenas, pensá-las, observar o trabalho dos atores. Mas não: lá vem a onda tsunami, as cenas chacoalhando atrás do trio elétrico, a rapidez que nada mostra e nada conta, os cortes rápidos que impedem qualquer pensamento. Uma chatice esse jeito de filmar!!!!!
Mas o filme se salva pela simpatia dos atores. Nota 6.
A PRIMEIRA PÁGINA de Billy Wilder com Jack Lemmon, Walther Mathau e Susan Sarandon.
O texto de Ben Hecht e Charles MacArthur é um clássico. Aqui ele é filmado pela terceira vez. Este, um dos últimos filmes de Billy, foi massacrado na estréia e se tornou um dos seus grandes fracassos. Injustiça! O filme é de uma maravilhosa leveza!!! Todos os diálogos ( ferinos, duros, diretos, brilhantes ) pulam como bolas de ping-pong e os atores que os dizem ( cheios de alegria e vontade de atuar ) se divertem com a lucidez da coisa toda.
Espertamente, Billy liga a máquina e deixa o show rolar ( em sua biografia ele conta várias vezes gostar de diretores que dirigem sem chamar a atenção ao seu próprio trabalho ). Duas horas de completo prazer. nota 8.
O MORRO DOS VENTOS UIVANTES de William Wyler com Laurence Olivier, Merle Oberon, David Niven.
O livro é infilmável. Como filmar a paixão obsessiva ? Como ?
Wyler é um grande diretor ( o mais premiado da história, ao lado de Ford ), mas falta ao filme a paixão louca que o livro tem. Olivier está correto, mas Merle é um completo desastre! É como dar Macbeth para Ben Affleck. Fotografia estupenda do mestre Greg Tolland. nota 6.
O MUNDO EM SEUS BRAÇOS de Raoul Walsh com Gregory Peck e Anthony Quinn.
Caraca! Quanta ação! Walsh foi uma das figuras mais míticas da velha Hollywood. Tapa-olho na cara, megafone na mão, começou como ator ( nos filmes mudos ) e ao perder uma vista virou diretor. Antes disso fora aviador e corredor em Indianápolis ( o legal é que os caras do cinema antigo não sonhavam em ser autores, portanto não eram ratos de cinemateca- eles viviam e tinham muita coisa pra contar ). Este filme tem brigas, viagens, traições, muito mar, socos e bebediras. nota 8.
MY BLUE HEAVEN de Herbert Ross com Rick Moranis e Steve Martin.
Martin passa todo o filme imitando De Niro. Mas colocar Moranis no papel principal... ele é um grande vazio na tela! Roteiro de Nora Ephron, ou seja, ruim. nota 1.
O AMOR CUSTA CARO de Joel Coen com George Clooney e Zeta Jones.
Assiti no cinema em 2002 e desgostei. Errei. É uma bela comédia frívola. Bons diálogos, boa direção, boa diversão. Clooney dá um show e mostra ser o Cary Grant de sua geração. 7.
UMA JOVEM TÃO BELA COMO EU de Truffaut com Bernardette Lafond, Charles Denner.
O maior fracasso de François. Mas não é tão ruim. Uma comédia doida, bastante amoral, corrida e até histérica. Os primeiros 30 minutos são excelentes. nota 4.

o melhor momento da música pop

Pessoas com pouco conhecimento tendem a " achar " coisas. O " achismo " faz com que elas pensem que na música pop dos merry-sixties os únicos rivais dos Beatles fossem os Stones. Essas pessoas confundem sua prórpia ignorância com a verdade.
Primeiro que os Stones eram cumpadres dos Beatles. Segundo que os rivais declarados eram os Beach Boys. Terceiro que em termos de vendas eram os negros das gravadoras Stax e Motown quem vendiam tanto ou mais que os ingleses.
Quem eram esses pretos? Eles eram vozes estratosféricas ainda não alcançadas, vozes treinadas em coros de igreja, vozes calejadas pela perseguição policial. Eram as vozes de Marvin Gaye, Otis Redding, Aretha Franklyn, Smokey Robinson, Arthur Conley, Sam and Dave, Al Green, e do master mor : Wilson Pickett.
Um vídeo do Youtube dá uma bela idéia do que foi o som negro : Pickett, ao final de um show, tem o palco invadido pelos fãs, enquanto canta FUNKY BROADWAY. A câmera, pega de surpresa, treme e se sacode, entre rostos que suam, riem, gritam, se aturdem. Brancos e negros dançam juntos, num tempo em que Steve Cropper e Duck Dunn apanhavam na rua por serem brancos sulistas e tocarem com " pretos sujos ".
São os melhores três minutos que já tive o prazer de ver em qualquer tipo de midia. Voce escuta a pura espontaniedade de gritos e de risadas autenticamente reais. Voce ouve a voz de Pickett raspar e rasgar e não perder o feeling e o groove. Voce vê os metais exalando fogo e a banda inteira pulsando como sangue e como fúria de viver. É poderosamente real. É maravilhosamente sublime. É loucura pura e a pureza de existir livre. É tudo!
Assistam se quiserem viver/existir/ser/estar. Mas assistam de joelhos, assistam com velas acesas, peçam proteção à Wilson e orem pela música.


AMEM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

o melhor humor da história de hull-on-trent

Surgindo debaixo da cama de um casal que faz as pazes ( após brigarem por causa da visita de uma dupla de vizinhos palhaços ), um apresentador sisudo de telejornal apresenta um debate sobre o seguinte tema : HÁ VIDA APÓS A MORTE ? com muita seriedade ele apresenta os debatentes : um filósofo que acabou de morrer; um padre ainda fresquinho e um teólogo conservado em formol. O debate é feito e o programa concluído.
Em seguida, numa loja de selos, o imperador Julio Cesar tenta comprar chá. No meio da discussão, um escocês sovina tenta vender um sketch por uma libra.
Um tocador de orgão toca um acorde- pelado- enquanto o apresentar anuncia algo completamente diferente: A SAGA DE NJORD, HERÓI DA ISLANDIA. Apresenta-se o filme e ele é interrompido por um mendigo que tenta chegar em Canterbury-upon-the-thames com um patinete.
Duas donas de casa, tomando chá e passando roupa, discutem Pascal e Sartre. Uma discorda da outra e acabam indo à Paris ( que fica num distrito de Surrey ) encontrar Sartre para tirar a dúvida. Sartre é uma nuvem de nicotina e uma baguete amanhecida.
Isto é o CIRCO VOADOR DO MONTY PYTHON ( que um dia, na faculdade,prestei tributo escrevendo O CIRCO VOADOR DO MONTE PITÚ ). Jamais houve humor melhor. Nada foi ou é mais anárquico, saudável, viciante, inspirador. Após assistir toda a série ( 9 discos ) meu nível de exigência humorístico se torna perigosamente alto.
John Cleese ( sempre sério e contido. o homem-militar, o nazista, a vovó ranzinza), Eric Idle ( o chato, o apresentador de tv russo- impagável, o filósofo do futebol), Michael Palin ( meu favorito-o juiz gay, o eterno pelado, o mendigo, a dona de casa moderna), Terry Jones ( o mais atarefado, o cantor que pensa ser Trotsky ), Graham Chapman ( o eterno Brian ) e Terry Gilliam ( o freak das animações ). Foram gênios e dignificaram o país que criou o humor satírico, o país de Laurence Sterne, Dickens, Coward, Evelyn Waugh e Wodehouse.
Tudo que escreví ou escrevo em humor é Pythonesco, sua genialidade desconhece preconceitos, limites, pudor.
HIP HIP! HOORAY!

urubús

A salvação do mundo está num MARAVILHOSO URUBÚ AMARELO.
Meu querido Kevin Ayers lançou um dia a filosofia da Banana. Pois eu acredito no URUBÚ.

aritmética do futuro ( pessimismo já ! )

Paulinho se casou com Marcinha. Os dois são burrinhos e vulgares. Os dois têm cinco filhos. E soltam suas crias no mundo. Como bichinhos.
Lopes casou com Mirela. São neuróticos. Estudaram filosofia, história e psicologia. Resolvem não ter filhos e torram sua grana em bebida e viagens pra Europa.
Dos cinco filhos de Paulinho, um consegue se formar em computação. Ele tem dois filhos. Os outros quatro ( um borracheiro, uma dançarina de funk, uma dona de casa, um balconista e um cambista de bicho ) tiveram no total dezesseis filhos. E aí...
E aí que são dezesseis novos consumidores das piores besteiras que o mundo pode oferecer. Serão 16 fãs do big brother, dos novos filmes imbecis, de pagodes e afins, de revistas de fofocas e séries de tv. A burrice- sempre alegre e deslumbrada- caminha a passos aritméticos rumo ao futuro. Se hoje é assim, se prepare, amanhã será bem pior. Vejamos.
Entrei, em 1985, numa faculdade famosa pelo número de maconheiros e pela facilidade de ingresso. Na época que entrei, metade da escola lia Bukovski-Kerouac-Ginsberg e a outra metade lia Heminguay-Kundera-Pessoa. Quando saí, quinze anos depois, encontrar alguém que soubesse quem eram esses autores se tornava muito difícil.
É saudosismo de quarentão ? Claro que sim. Porém o trágico é que esse pessoal ( que hoje tem 15/18 anos ) aos quarenta vai ter saudade do que ?
As revelações daquela época eram Renato Russo, Cazuza, Roger e Herbert Vianna ( não gosto de nenhum deles, mas os caras sabiam o que dizer ). Agora é o que ?
Qualquer cara do futebol da faculdade ou dos campeonatos de surf ( que eu adorava ) sabiam quem eram Fellini ou Bunuel e acompanhavam as revelações ( Lynch, Ridley Scott, Jarmusch, Wenders ). Hoje acompanham Homem-Aranhas, Batmans, Potters, e um eterno parte 2,3,4...
Tem muita coisa boa hoje. Muita. Mas são menos do que aquilo que o futuro prometia. Alguma coisa desandou. Alguma coisa se tornou muito fake.
As pessoas estão sendo ensinadas a esperar o mínimo de tudo. Voce pede seu Big Mac e ele vem pequeno e murcho. Voce finge acreditar que ele é o que a tv prometia. E engole feliz.
Voce finge que aquele ridículo bonequinho, feito com modernos meios digitais, se parece com a vida real. Afinal todos dizem que parece real. E engole. Não percebendo que os cenários parecem brinquedinhos de criança e que a função do cenário digital é a de baratear custos ( nunca é opção estética ).
Voce é treinado a engolir, a acreditar, a participar da onda.
Então surge um novo presidente. E sua expectativa é tão baixa que mesmo ele jamais tendo falado ou escrito nada de relevante, mesmo ele nunca tendo demonstrado nada de muito brilhante ou original, bem... voce o engole como um novo lider carismático. Afinal, voce suportou uma besta no poder por 8 anos- sem jamais protestar de verdade- apenas se lamentar como um velhote sem fibra.
E suas exigencias vão pro buraco. Voce consome a nova série de tv que é um engodo completo. E assiste passivamente, acreditando que ela é o máximo de novidade possível ( e de certo modo é ). Voce compra um apartamento feito para durar 10 anos. Mas voce acredita que ele tem uma arquitetura realmente luxuosa ( quando na verdade esse luxo é um barateamento de materiais ) e voce lê coisas que no dia seguinte voce mal lembra do que se tratava.
E então, o pior dos piores, a menina que voce sai tem de ser uma perfeita atriz pornô. Pois voce não tem tempo, saco e sutileza para conhece-la, aprofundar-se, viver com ela. Voce está educado para engolir, não para apreciar.
Engole esperando emoções imediatas, rápidas e pré-digeridas. Gozos simples e funcionais.
Os netos de Paulinho ( 37 pimpolhos ) se tornaram galos de granja. Engolem, botam e ciscam e cacarejam numa linguagem limitada e sempre igual.
Pois eu sou o urubú dessa história.

histórias pra boi dormir-will self

Para quem não sabe, Will Self é um escritor inglês com cerca de quarenta anos e que publica desde os anos 90.
Sua linha é satírica, dentro daquele estilo que nasceu com Sterne e Swift e tem nos Monty Python geniais representantes. Voce cria uma situação cômica e vai gradativamente aumentando o absurdo até chegar ao completo disparate.
O estilo de Will Self é maravilhoso. Ele alterna frases chulas com outras escritas com grande maestria e elegância. Vai do minimalismo ao quase barroquismo sem jamais parecer afetado ou tolo.
O livro é composto de duas novelas que versam básicamente sobre confusão sexual, inversão de papéis e o absoluto vazio do tempo que corre.
Por falar em tempo, vale a pena citar esta frase :
" ... Juniper tem um senso de história cultural tão amplo quanto o porta-luvas de um fusquinha. E para esse tipo de gente, cada novo modismo adolescente parece ser tão significativo quanto o declínio do Antigo Regime ou a espansão do império russo sob Pedro, o grande."
Detalhe importante: a tal Juniper tem trinta anos.
E é aos trinta, acossados pela sombra da maturidade, apavorados com as responsabilidades de ser adulto, aniquilidados pelos primeiros sinais de idade, que, feito fúteis consumidores de bagatleas pueris, nos jogamos a qualquer coisa que prove ao mundo e a nós mesmos que continuamos jovens, antenados, atualizados, fresquinhos e novinhos.
Nada mais trintão que adorar toda novidade!
Nada mais velha Inglaterra que novos modismos!
Isso tudo está em Will Self, mas isso faz lembrar meus trinta anos. E pasmem! Fui assim!
Recordo que na época eu somente escutava rap, grunge e coisas como Happy Mondays, Stone Roses, Inspiral Carpets, Charlatans, Soup Dragons. Mas o que eu amava era Beastie Boys, Public Enemy, Beck, Red Hot, De La Soul, Cypress, coisas novinhas em folha ( na época ).
Era voraz leitor da Trip, Fluir, Rolling Stone; e adorava Seinfeld, Frasier, Mad about You.
Achava, exaltadamente, que Pulp Fiction era o melhor filme de toda a história do cinema, seguido de perto por Assassinos por Natureza e Singles.
O melhor ator do mundo era sem dúvida Gary Oldman ou Johnny Depp. Eu ria por já ter levado a sério musicais ou westerns...
È... nada mais antigo que ter trinta anos...querer ser novo sempre e acabar sendo um arremedo de adolescente...

GINGER ROGERS/ROGER RABBIT/WANDA/RIO LOBO/ STEVE MARTIN

En cas de Mal-heur de Autant-Lara com Jean Gabin e B.B.
Que bomba insuportável ! De todas as grandes musas do cinema ( Marlene, Garbo, Rita, Ava, Marilyn, Deneuve, Loren ) ninguém fez piores filmes que Bardot. Foi contra este tipo de lixo que Godard e Truffaut se ergueram. Nota zeroooooooooooooooooooooo!
Vivacious Lady de George Stevens com Ginger Rogers e James Stewart
Agradabilíssima comédia. O tipo de roteiro que Clooney, Reese, Spacey, Hanks, Os Coen, dariam a alma para ter. Passatempo que não te chama de idiota. 7.
The Rocky Horror Show com Tim Curry e Susan Sarandon.
Finalmente assisto o mitico Rocky Horror. Curry tem uma das maiores atuações do cinema. Sua entrada em cena, como o vampiro ultra-glitter-marc bolan-gay é antológica! Se Velvet Goldmine tivesse algum senso de humor ele seria assim. No mais, espero que voces saibam a história deste musical: um fracasso na estréia que se tornou cult, ficando vinte anos em cartaz na mesma sala, onde os fãs assistiam interagindo com a história. Há quem o tenha visto mais de cem vezes. Nota 6.
Um Rei Em NY de John Landis com Eddie Murphy e Arsenio Hall.
No período 73/93 se fizeram toneladas de grandes/excelentes comédias. Esta é uma das melhores. Todos já a viram, todos já gargalharam. Puro prazer e uma atuação histórica de Eddie lembrando o melhor de Alec Guiness. As cenas na barbearia e na igrja são antológicas.
Inesquecível. Nota 9.
Uma cilada para Roger Rabbit de Robert Zemeckis com Bob Hoskins e Christopher Lloyd.
Todos conhecem este filme. Resistiu ao tempo? Sim, resistiu, e é essa o único julgamento válido a qualquer obra de qualquer arte : resistiu ao tempo? nota 7.
Um Peixe Chamado Wanda de Alexander MacKendrick com John Cleese, Kevin Kline, Jamie Lee Curtis e Michael Palin.
Ele começa devagar. E vai crescendo, ficando cada vez mais doido, mais exagerado, atingindo ao final um frenesí de loucura e humor irresponsável. O trabalho de Kline beira a perfeição e todo o elenco brilha estupidamente. nota 8.
Alien de Ridley Scott com Sigourney Weaver, Tom Skerrit e John Hurt.
Segundo filme de Scott. Bela carreira tem esse inglês. No teste do tempo, Alien sobreviveu? Mais ou menos. Não provoca medo ou nojo, pois nos acostumamos a pornografia de visceras e sangue aos borbotões. Mas mantém seu clima claustrofóbico e a elegancia de uma direção enxuta e matemática. nota 7.
Rio Lobo de Howard Hawks com John Wayne.
Último filme de Hawks. É seu pior. Um western comum em que só se destaca a simpatia de Wayne. nota 5.
Longa Jornada Noite Adentro de Sidney Lumet com Kate Hepburn, Ralph Richardson, Jason Robards e Dean Stockwell.
A terrível peça de Eugene O'Neill levada inteira por Lumet. O filme é muito desagradável, árduo´,cruel, sem concessões. Mas há Kate. Mágica. Em minutos ela passa da estrema fragilidade para pura maldade egoísta; de jeito de criança para uma velha anciã. Tudo feito sem qualquer esforço. por ela o filme vale ouro. ( robards também dá seu show de sempre, como o filho alcoólatra ) nota 6.
Star Wars de George Lucas com os dois robots e mais alguns robots de carne e osso.
O filme que inaugurou a total simplificação do cinema ( com Tubarão ). Os atores estão interpretando como se fossem robots, os robots são os astros. O texto chega a ser ridículo e algumas falas com sua pseudo filosofia oriental, beiram o ridiculo. Tudo é infantil, jogado na tela sem qualquer senso de elegancia, ritmo ou psicologia de personagem. Lucas ( péssimo diretor) mal sabe cortar as cenas. Então o porque do sucesso?
Star Wars surge no auge do cinema deprê, intelectualizado, paranóico. Dá ao público a estética infantil da publicidade, o clima de tv e a profundidade das hq. A música de Willians, a foto de Gil Taylor e a batalha final ( uma obra-prima de montagem ) resgatam suas gritantes falhas. Para o bem ou para o mal, este filme antecipa tudo que se fez nos últimos 30 anos. 5.
O Panaca de Carl Reiner com Steve Martin.
A melhor comédia de Martin ( o que não é pouca coisa ). nota 9.
Oliver! de Carol Reed.
Reed é o genial diretor de vários filmes ingleses sobre o sub-mundo londrino, sobre a vida dos pequenos malandros derrotados. O chamaram para dirigir este imenso ( longo, caríssimo ) musical. Venceu quilos de oscars em 68, derrotando o 2001 de Kubrick. Mais uma das papagaiadas do prêmio. Este musical é tudo aquilo que um musical não pode ser : pesado, arrastado, sem simpatia. Mas faz cair o queixo sua cenografia: john Box ganhou o único oscar justo com seus imensos cenários. Uma maravilhosa Londres vitoriana, cheia de córregos, pontes, vielas, barracos e centenas de figurantes. O tipo de cenário que hoje seria inviável. Fariam tudo digitalmente, barateando os custos e frustrando sensibilidades mais afinadas. É o cenário que Tim Burton não pode fazer em seu último filme. nota 4.
A Roda da Fortuna de Joel e Ethan Coen com Tim Robbins, Paul Newman e Jennifer Jason Leigh.
Chatíssimo filme. Os Coen quando tentem fazer algo profundo sempre se tornam chatos. Perdem a leveza e o humor se torna óbvio. nota 2.
A Culpa é dos Pais de Vittorio de Sica.
Vittorio entendeu o que os homens são. Ninguém no cinema conseguiu como ele, mostrar a dor sem culpados, a injustiça sem vilões, como fazemos o mal sem perceber e como sofremos sem poder evitar a dor. Seus filmes são peças de música, poemas de água e fogo, encadeamentos lógicos e simples daquilo que a vida sempre é e sempre será.
Este é seu primeiro grande filme. Uma criança perdida entre seus pais. A total incomunicabilidade que existe entre o adulto e a criança ( mesmo que o adulto a ame, ela sempre será INACESSÍVEL). O filme dói, o filme exalta, faz recordar e é absolutamente delicioso. Mostra como ser criança é dificil, como ser pai é errar sempre, como amar é em vão, como a solidão é constante. Um filme de hoje e de amanhã, o sonho de Salles, Meirelles, Almodovar iranianos e chineses. Só não leva dez por ser modesto, um ensaio para as quatro obras-primas absolutas que Vittorio faria em seguida. nota 9.



enquete britanica ( filmes de todo o mundo )

O instituto britanico reuniu críticos e diretores e fez duas eleições.
Melhores filmes e melhores diretores.
Os críticos elegeram como melhor diretor da história:
Orson Welles.
Em segundo Hitchcock. Depois vem Godard, Renoir, Kubrick, Kurosawa ( é o 6, vá lá...), Fellini, Ford, Eisenstein e Ozu.
Já os diretores de todo o mundo escolheram:
Orson Welles em primeiro.
Depois vem Fellini (quem faz filmes sabe o quanto ele era especial ), Kurosawa ( 3 ! Que bacana!!!!!), Coppola, Hitchcock, Kubrick, Wilder, Bergman, Scorsese, Lean e Renoir.
A lista dos diretores é melhor.

Daí os críticos escolheram os melhores filmes.
Deu Kane.
Depois vem O Chefão de Coppola. Oito e Meio de Fellini, Lawrence da arábia de Lean, Dr.Fantástico de Kubrick, Ladrões de Bicicleta de Sica, Vertigo de Hitchcock, 7 Samurais de Kurosawa, 2001, e filmes de Wilder, Tarkovski, Ozu, Bergman, Chaplin.
Os diretores escolheram:
Kane.
Em segundo Vertigo de Hitchcock.
E depois A Regra do Jogo de Renoir e mais Coppola, Ozu, Kubrick, Murnau, Fellini, Kurosawa, Ford, Dreyer com Joana Darc, Godard, Vigo, Bresson, Keaton e Mizoguchi.
O que notamos?
Que entre os diretores o cinema europeu ainda dá as cartas.

filmes favoritos de tarantino e etc

No site do BFI ( instituto britânico de cinema ), há uma lista com os dez filmes favoritos de vários diretores. Vamos a elas...

Quentin Tarantino:
Seu filme favorito é o western de Sergio Leone, The good,the bad and the ugly. Genial e agora vejo quem é realmente Tarantino. Seu segundo favorito é outro western, Rio Bravo de Howard Hawks. Depois vem Taxi Driver, Jejum de Amor- que também é de Hawks, The great Escape de John Sturges com Steve McQueen, Carrie de De Palma . Uma lista que é a cara de seus melhores filmes. Ação, bons diálogos e senso de humor.

Gore Verbinski:
Chinatown, a obra-prima de Polanski com Nicholson dando show é seu filme número um.
Depois vem Coppolla com A Conversação, Dr. Fantástico de Kubrick, O Leone The good, the bad...., O trágico McCabe de Altman, O mensageiro do diabo com um Robert Mitcuhm assustador, Tarkovski, O Criado de Losey e Comboio do Medo de Clouzot. Uma lista de muito bom gosto.

Bertolucci:
Tem um gosto muito diferente do meu. Seu escolhido é um Renoir- A regra do jogo. Daí vem filmes de Mizoguchi ( gênio ), Rosselini, Godard, Ford, Lynch, Chaplin , Welles.

Denys Arcand:
Escolheu o fantástico Ladrões de Bicicleta de Vittorio de Sica.
Em seguida vem Kane, Bunuel, Fellini com oito e meio, Ford, Rosselini, Kurosawa e Bergman.

Lumet:
Seu favorito é Os melhores anos de nossas vidas de William Wyler. Depois temos Fanny e Alexander de Bergman, O Chefão de Coppolla e Ford, Dreyer, Kurosawa, Kubrick.

Mike Newell elegeu:
The Apartment de Billy Wilder o the best ( e vemos que em toda sua carreira ele tem tentado fazer algo igual ), depois temos Fanny e Alexander, e filmes de Renoir, Malle, Visconti, Hitchcock e Ford.

Michael Mann:
Apocalypse de Coppolla é seu favorito. O segundo é Potemkim de Eisenstein. Daí vem Kane ( seus filmes são todos filhos de Kane ), Dr. Fantástico, Fausto de Murnau, Resnais com Marienbad, Ford, Scorsese e Peckimpah. Um gosto de artista.

Richard Linklater:
Seu número um é Robert Bresson com Pickpocket ( que surpresa !!!!! ). Tem um gosdto bastante intelectual, mais Bresson e ainda Bergman e Bunuel.

Sam Mendes:
Kane é seu filme. O segundo é Fanny e Alexander e depois O Chefão, Crepúsculo dos deuses, 2001 de Kubrick, Taxi Driver, Vertigo.

Milos Forman:
Péssimo gosto. Apesar do mágico Amarcord de Fellini ser seu favorito ( o que é ótimo ), o resto da lista é absurda com American Graffitti em segundo.

Cameron Crowe:
Qual o favorito de Cameron? The Apartment de Billy Wilder e dá pra notar como seus filmes tentam ter o encanto suave/amargo desta obra-prima. Em segundo ele coloca Renoir com A regra do Jogo e depois temos La Dolce Vita de Fellini. Manhattan,e filmes de Wyler, Mulligan e Ashby completam a lista.

Scott Hicks:
Tarkovski domina sua lista. E ainda temos Bergman, Pasolini, Kieslovski, Scorsese e Fellini.

Jim Jarmusch:
Esse tem muuuuuuuuuuito bom gosto. Seu favorito é L'Atalante de Jean Vigo! Em segundo Tokyo Story de Ozu e a lista tem Nicholas Ray, Melville com Bob le flambeur, Murnau, Buster Keaton, Bresson, Kurosawa com Os 7 Samurais, Griffith. É uma lista que PODERIA SER A MINHA.

Win Wenders:
Tokyo Story de Ozu é seu favorito. O segundo é Rastros de Ódio de Ford. Mizoguchi, Kurosawa, Herzog, Hawks completam a lista.

Mais detalhes acesse o site.

american film institute e bfi

O site do AMERICAN FILM INSTITUTE é obrigatório para quem gosta de cinema. Entrando nessa página, vejo que eles acabam de fazer uma nova eleição dos cem melhores filmes americanos da história. E que delícia ! A lista, que era razoável, melhorou muito! Comédias ganharam mais espaço e Chaplin, Ford, Keaton, Irmãos Marx estão muito mais valorizados.
Cidadão Kane continua sendo o melhor e O Chefão de Coppolla se tornou o segundo, jogando Casablanca para terceiro.
VERTIGO, aquele que considero o maior filme já feito na américa, subiu 52 posições e é o número 9.
Luzes da cidade, o maravilhoso poema de Chaplin subiu 72 e se tornou o 11. Vejam como as justiças tardam mas chegam : Rastros de ódio de Ford, o filme mais importante de minha vida, subiu simplesmente 84 posições e saiu de um ridículo 96 para um mais justo 12 !
A estréia mais alta é de Buster Keaton. O mítico A General ( que não é seu melhor filme, mas é o mais técnico ) é o 18.
Felizmente filmes superestimados como A Primeira noite de um homem, Sindicato de Ladrões e A ponte do rio Kwai caíram todos de posição. Enquanto o western High Noon subiu chegando a 27.
Os filmes de Huston caíram todos, e Fargo, o melhor filme dos Coen, saiu da lista.
O senhor dos anéis- a irmandade, estréia na posição 50, e Rocky sobe 21 chegando a 57.
Nashville de Altman estréia finalmente em 59, e Mash se mantém em 54.
Duck Soup é justiçado e entra na lista. Esta obra-prima de McCarey e dos irmãos Marx é o 60, e o maravilhoso é que mais dois filmes deles estão entre os 100.
Um filme pouco conhecido do genial Preston Sturges, Sullivans Travels, estréia na posição 61. E Cabaret do mágico Bob Fosse é 67.
Quem tem medo de Virginia Wolff estréia em 68, e A Última sessão de Cinema se torna o 95.
Laranja Mecanica cai várias posições ( ótimo ) e Annie Hall sobe.
Spartacus aparece pela primeira vez entre os cem, assim como Titanic e Toy Story.
Faça a coisa certa aparece em 96 e Aurora de Murnau em 82 ( merece muito melhor posição ).

ELES ELEGERAM AS MELHORES TRILHAS e Star Wars de John Willians venceu. Acho essa decisão óbvia e preguiçosa. Mas...
O vento Levou de Max Steiner é a segunda e Lawrence da Arábia de Maurice Jarre a 3.
Daí vem Psycho de Bernard Herrmann ( que é a melhor ), O Chefão de Nino Rota; Vertigo de Herrmann.

A MELHOR CANÇÃO é Over the rainbow do Mágico de Oz, decisão não de todo errada. Mas considerar As times goes by pior que rainbow é bastante discutível. Goes by É a melhor.
Na lista ainda temos White Christmas ( que não ficaria mal como a melhor também ), Moon River, e a maravilhosamente comovente When You Wish upon a star do absurdamente bom Pinocchio.

HÁ UMA LISTA DE COMÉDIAS e eu discordo dos dois primeiros.
Quanto mais quente melhor venceu outra vez. É uma comédia que adoro, mas jamais a consideraria a melhor. Assim como Tootsie é um excelente filme, mas a segunda melhor ? Não.
O quinto colocado, Duck Soup, ficaria melhor em primeiro.
Na lista temos ainda Banzé no oeste de Mel Brooks em sexto, Uma noite na ópera dos Marx em 12, Levada da Breca de Hawks é o 14 e há ainda Um peixe chamado Wanda, Ghostbusters, Arizona nunca Mais, Harvey, Quero ser Grande...
Os anos 80 ( graças a geração SATURDAY NIGHT LIVE- Chevy Chase, Steve Martin, Dan Akroyd, Bill Murray, Eddie Murphy, Martin Short, Belushi, e um imenso etc ) foi excelente para a comédia e esta lista reflete isso. Faz justiça a uma histórica geração.

MELHORES MUSICAIS
Cantando na Chuva venceu. Alguma surpresa? Ele é alegre, criativo, inesquecível.
West Side Story, que é arte em alto grau é o segundo. Penso que My Fair Lady é meu musical favorito. Aqui ele é o oitavo.
Sete Noivas para sete Irmãos, que é meu segundo favorito, é o 21.

FILME DE PAIXÃO
Venceu Casablanca.
E o vento levou é o segundo e West side Story o terceiro.
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as listas completas voce encontra em americanfilminstitute.com