quinta-feira, 25 de agosto de 2016

THOMAS MANN E A SEGUNDA-GUERRA.

   Terrível os capítulos sobre a Segunda Guerra. Thomas Mann, exilado na Califórnia, escreve texto sobre texto, divulgando suas opiniões sobre a Alemanha. Para ele, a Alemanha não merece perdão. Ele sente nojo daquele povo que NADA FEZ para tirar Hitler do poder. E que agora, vencidos, dizem estar sendo vítimas da guerra...
   Os alemães não expiaram culpa, não se desculparam, apenas gemiam de dor pelas bombas jogadas pelos aliados. Tentaram adquirir a pena do mundo. Tiveram um papel lamentável e vergonhoso, do começo ao fim. De repente, em 1945, nenhum alemão era nazista. De repente todos foram mártires dos tais nazistas. Mas o que Mann perguntava era: ONDE ELES ESTAVAM EM 1940... Por que não houve resistência por parte do povo germânico ( enorme interrogação ).
   Poucos autores foram tão homenageados como Mann. Impressiona a quantidade de palestras, diplomas, festas, concertos em homenagem ao autor de A Montanha Mágica. E ele usou essa popularidade para abrir os olhos do mundo ao fato de que na Alemanha tudo sempre termina em tragédia e em dor.
   Ainda ontem, conversando com um professor, notei como as pessoas não têm consciência disso. De que minha, sua, nossas gerações ainda pagam o preço pelo horrível mal feito por um palhaço como Hitler. A hegemonia dos EUA, a irrelevância da Europa, a criação de Israel, a corrida armamentista, a descrença radical no homem como ser bom e honrado, a predominância da ciência sobre todo conhecimento, a não fixação na terra, o espírito nômade, tudo está presente em nosso tédio, nosso medo, nossa falta de fé. E tudo isso nasceu no romantismo alemão, no modo alemão de ver a vida e de se relacionar com a Europa. No transcendentalismo alemão nasce a aversão ao mundo, o desejo de destruição da realidade. O fim da história e a recriação do mundo a imagem desse ideal.
  E sobretudo, a vaidade presunçosa do alemão.
  Mann podia dizer tudo isso porque ele era assim. Ele era vaidoso, frio, e na juventude achava o alemão o povo supremo, guia do futuro do mundo. Mas ele mudou na Primeira Guerra. Passou a aceitar a Europa ( menos a França ). Thomas Mann fez um movimento espiritual que a nação alemã não fez. Sentiu na carne o que significava ser alemão.
  Esta biografia, longa, detalhista, escrita por Donald Prater, inglês, não esconde os muitos defeitos de Mann ( ele surge como um supremo antipático ). Foi duro ler este livro, como é duro ler Mann. Ele nos perturba. Toca os nervos.
  Devemos sempre lembrar que em 1940 o inferno esteve aqui. E que por um triz este planeta não foi transformado numa fábrica de arianos, numa máquina de correção militar, num homogênea civilização uniforme. Thomas Mann antecipou isso em 15 anos. Previu essa dor. E entendeu que a vitória tinha de vir. Meia dúzia de ingleses salvaram a civilização humanista. Mas a herança da dor matou esse legado lentamente. É nosso dever lembrar sempre.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

THOMAS MANN

   Thomas Mann mudava de ideia. No começo foi um aristocrata. Defendia a Alemanha e detestava a França. Para ele, ser alemão era amar um poder central e abominar a democracia. Mann via na influência francesa o mal do vulgar, do comum, do banal. Ele desejava a aproximação da Alemanha e da Russia. Era contra a Europa.
   Depois Thomas reviu sua posição. Passou a aceitar o tempo da mudança e depois de 1918 começou lentamente a crer numa espécie de socialismo aristocrático. A Alemanha poderia ser europeia, desde que não fosse francesa. A Europa que ele aceitava era a eslava, aquela da Tchecoslováquia, da Hungria, e a Europa suíça e austríaca. Seu orgulho alemão ainda era exaltado.
   Veio o nazismo e Mann cai na real. A Alemanha se torna o mal. A nação que abomina a civilização. A vida de Thomas Mann, aos 60 anos, se agiganta, ele finalmente sai de sua concha, se arrisca.
   Se tivesse de definir Thomas Mann em uma palavra esta seria: vaidade. E se tivesse de usar uma segunda palavra seria egotismo. Ele não era mal, em sua vida nada há de destrutivo, mas sua visão ia apenas até o espelho. Ele era incapaz de perceber o outro. Cada ato de sua vida, que foi bem movimentada, tinha por foco apenas seu bem estar.
   Nasceu em berço de ouro. Sua mãe era brasileira de Paraty. Julia Mann viveu aqui até os 11 anos. Foi uma dondoca de sociedade na Alemanha, em Lubeck. Thomas foi um jovem vaidoso e nada infeliz. Escrevia. E era homossexual. Conscientemente gay. Mas amava rapazes a distância. Nunca viveu sua homossexualidade em carne, mas a vivia em sentimento e assim se dizia feliz.
   Casou e teve 6 filhos. Erika era uma atriz combativa, selvagem, lésbica. Vestia terno e se casou com o poeta gay Auden ( excelente poeta ), para poder ter a cidadania inglesa em 1935. Klaus era o filho favorito. Escritor, tentou ter o sucesso do pai. Viciado em morfina, homossexual promíscuo. Michael era violinista conhecido. Foi o único filho a brigar com o pai. Esses foram os filhos mais importantes.
  Heinrich, irmão de Thomas, se tornou escritor oposto ao estilo barroco de Thomas. Escrevia rápido, falava abertamente de sexo, era hetero, politico, algo vulgar. Os dois nunca brigaram de fato, mas foi uma relação difícil. Heinrich Mann é o autor de O Anjo Azul.
  Thomas Mann se tornou famoso logo com seu primeiro romance, Os Budenbrook. E desde então jamais teve dificuldades financeiras. Viveu sempre bem, com carros, empregados, viagens, férias. A Montanha Mágica virou sucesso europeu. Thomas cobrava caro por palestras, e os convites não paravam de chegar. Se quisesse ele ficaria rico só com suas aparições públicas. Sua vida teve muito do atual rock star. Excursões cercado de aplausos, fãs, puxa sacos, jornalistas, fotos.
  Todos os seus grandes livros lhe tomaram anos de trabalho. Entre eles escrevia contos, novelas, artigos; trabalhos curtos para nunca sair da mente do povo. Incrível é saber que esses livros gigantescos, difíceis, áridos, vendiam tão bem. Thomas Mann, no tempo de Hitler, era o alemão mais famoso do mundo. E logo começou a fustigar o mais vil líder do mundo. Se exilou na Suíça e depois na Califórnia. Mann amava a Alemanha, mas graças ao nazismo, seu desgosto com o país foi profundo. Hitler destruiu toda a herança cultural alemã e Thomas viu nesse ato o fim irrevogável da Europa. O humanismo teria sido profanado. O mundo a partir daí seria anti-humano, negação de tudo que pudesse lembrar o homem de antes de 1930.
   Thomas Mann não era fácil. Metódico, sempre vestido como um executivo, controlado, hipocondríaco, exigindo silêncio, querendo ser o centro do mundo, distraído, ávido por dinheiro, amante de adulação, se dando uma importância desmedida. Queria ser o Goethe dos novos tempos. E sabia que ninguém poderia ser mais oposto à Goethe que ele mesmo.
   

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

DRACULA # ALAN BATES # ISABELLE ADJAN I# KEN RUSSELL # PAOLO SORRENTINO # MICHAEL CAINE #

   A JUVENTUDE de Paolo Sorrentino com Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Jane Fonda, Paul Dano.
Sorrentino terá de conviver com A Grande Beleza para sempre. A gente não quer, mas compara. Este filme é muito bom, mas não tem nunca o alcance da obra-prima anterior. Talvez por ser em inglês e tratar de gente não italiana. Caine, que está brilhante como sempre e humano como quase nunca, é um velho maestro aposentado. Passa férias num hotel de luxo na Suíça. Lá estão seu amigo, um diretor de cinema, sua filha, recém separada, e um jovem ator em crise. O que se discute é a velhice, o tempo e o legado da vida. As imagens são sempre belíssimas, o tempo vai e volta, a memória nunca para de se mover, e as cenas vão do cômico ao trágico e horror. Há uma homenagem linda à Maradona ( sim, creia ), algumas falas brilhantes ( e outras muito piegas ), e um final que é perfeito. Mas mesmo assim sentimos que falta alguma coisa...Talvez seja a comparação ao outro filme...ou talvez a gente não perdoe as 3 ou 4 falas muito ruins...( será o inglês... ). De qualquer modo é um belo filme e Caine raramente esteve tão perfeito.
   AS IRMÃS BRONTE de André Téchiné com Isabelle Adjani, Marie-France Pisier, Isabelle Huppert.
Que tema poderia ser melhor que as irmãs Bronte!!! Filmado na região em que elas viveram, uma imensa planície cheia de vento, frio e verde; o filme consegue ser completamente vazio e sem emoção. Emily Bronte fala como uma feminista cliché, Anne tem o mal humor típico de Huppert e Charlotte parece uma fazendeira da Vogue. O problema básico é ser um filme francês. As Bronte são olhadas de fora, como excêntricas figuras inglesas. O roteiro se distancia e seca toda emoção. Elas se tornam bonecas de cera. As falas viram teses. O filme, sucesso de bilheteria em 1979, nada tem de Bronte. Quer ser tão real que se torna morto. Defeito típico do cinema da França: quando quer ser documental se transforma em tese de laboratório. Quando quer ser fantasia consegue ser real. Os piores filmes do cinema são de lá. Alguns, muitos, dos melhores também. O cinema da França é grande quando quer ser criação livre, é péssimo quando deseja retratar a vida "como ela é".
   GOTHIC de Ken Russell com Gabriel Byrne, Natasha Richardson e Julian Sands.
Ken Russell, o diretor do mal gosto e do gosto ruim, se debruça sobre a noite em que Mary Shelley criou Frankenstein. Então o que temos são: Lord Byron, Shelley, Mary Shelley, Polidori e a amante ocasional de Byron, Claire. Russell junta todos num palácio suíço e sem qualquer medida de gosto ou de equilíbrio, povoa o filme com ópio, sexo, sangue, blasfêmia, péssima música e atuações exageradas. Eu não entendi nada do roteiro, mas penso que não é para se entender nada. É só pra se sentir. E eu senti nojo. O filme é assustador. Começa como uma bobagem tola dos anos 80, com uma trilha sonora mediocre de sintetizador que invade toda credibilidade do filme. Mas depois ele insiste tanto no exagero e na histeria que começamos a nos sentir incomodados. E Russell consegue mais uma vez fazer um filme feio, desagradável, aquilo que ele quis fazer. Esqueça Shelley. Ele não era esse viciado em ópio efeminado e alucinado pelo horror. Ele era bem mais frio. E Byron não era esse diabete dos anos 80, sádico e cheio de frases bobas. O filme me fez pensar uma coisa: em 1820 os românticos eram únicos. Hoje muitos são como eles. Mas sem a novidade. Apenas cópias de seres de dois séculos atrás.
   ESSE MUNDO É DOS LOUCOS ( LE ROI DE COEUR ) de Philippe de Broca com Alan Bates, Genevieve Bujold, Michel Serrault, Jean-Claude Brialy, Micheline Presle.
Uma das melhores trilhas sonoras de todos os tempos, de Georges Delerue. Vi o filme em 1979. Na TV, Adorei. O achei livre. Revi em 2010 e detestei. Achei bobo. Vi mais uma vez agora. É bobo e livre. Mágico. Muito mágico. E ingênuo. Ele tem a ingenuidade de quando foi feito, 1966. E a magia de quando foi feito, 1966. A história: na primeira guerra mundial, uma cidadezinha da França é abandonada pelos alemães. Um soldado escocês é mandado para lá a fim de desativar uma bomba que foi deixada. Enquanto isso os loucos da cidade saem do hospício e elegem o soldado o Rei de Copas. Vemos os loucos assumirem a cidade, cada um tomando para si um papel. O padre, o cabelereiro, a prostituta, o prefeito. O soldado, um ótimo Alan Bates, resiste a essa farsa, mas se apaixona e entra no jogo. Até chegarem os dois exércitos...O filme atinge o alvo. No começo achamos os loucos apenas uma irritante troupe de atores mambembes, depois somos seduzidos por sua fantasia. Quando ele voltam os hospício nos sentimos traídos. Broca teve dez anos de grandes filmes. Este é um deles. Diferente, leve e muito profundo.
   O VAMPIRO DA NOITE de Terence Fisher com Peter Cushing e Christopher Lee.
O primeiro filme da Hammer sobre Drácula. Cheio de clima, a história é centrada em Van Helsing. Ele é o personagem principal. Lee foi o melhor Dracula do cinema. O filme não assusta mais, mas diverte.
 

  

BRINQUEDOS

   Algumas pessoas, intelectualizadas, gostam de dizer que brinquedos são ferramentas que nos fazem na infância aprender a lidar com a realidade. Eu prefiro pensar que brinquedos são atores que usamos para aprender a amar. Eles são meios que despertam nossa estética, são focos de nossa atenção, concentração e imaginação. Amamos sua cor, seu peso, sua sinuosidade. Viajamos em suas possibilidades e agarramos sua realidade. Na minha vida poucos amores foram tão fortes como os que senti por meus brinquedos. Abrir o pacote em que eles vinham embalados nada ficava a dever ao ato de despir uma mulher.
  Um elmo de cavaleiro medieval, branco, com uma cruz vermelha. O escudo e a espada acompanhavam, nas mesmas cores. Uma cidade toda feita em madeira, cidade do faroeste, as portas de vaivém do saloon, a casa do sheriff. Ainda sinto o cheiro da madeira.
  Uma locomotiva movida a pilha, que corria e fazia barulho de trem, piscava luzes coloridas.
  Um Fusca vermelho, de bombeiro, que batia nas paredes e voltava, escandaloso.
  Um enorme cachorro marrom de pelúcia, tão grande que eu me sentava nele, como se fosse um cavalo. Desse eu ainda sinto sua presença. Eu olhava sua cabeça, esperando ver sua piscada.
  A noite em que ganhei um Fusca vermelho, dessa vez um desses carrinhos em que se pode montar e andar com pedais. Ele tinha buzina, faróis que acendiam, volante. O plástico duro, frio. Eu olhava apaixonado a luz amarela dos faróis.
  Minha bicicleta, vermelha também, uma Berlineta Caloi, onde aprendi rapidamente a correr sem o apoio das rodinhas de segurança.
   Meus bonecos, pelos quais me apaixonei completamente, um elefante de borracha com chapéu de circo, meu Cebolinha, um cachorro cor de vinho com grandes orelhas caídas, um gato azul, dengoso, com eles eu montava histórias sobre a manhã.
   Tive um Autorama que logo queimou, tive um Forte Apache, uma Corrida Mágica.
   No fim da infância vieram os carrinhos Matchbox, o primeiro um carro de corrida laranja que eu não cansava de olhar.
   Fiz casas com blocos de madeira, o cheiro que eu sempre adorava, construí coisas inúteis com os Pinos Mágicos, pequenos blocos de plástico barato, mal feitos, que me deixavam doido de ansiedade.
   Atirei com pistolas que soltavam flechas com ventosas. Botei fogo em carrinhos de lata. Voei com aviões da segunda-guerra. Colei álbuns de figurinha com cola feita em casa, grossa e com cheiro tão bom que eu queria comer.
  Nos meus cenários, o porão, o quarto, o quintal, o campo aberto e sem muros, brinquei amando e amei brincando. Um exército completo com meus soldados americanos, até bazuca havia. Os tanques dispostos no chão de tacos de madeira, meus joelhos esfolados. Deus meu! Eu não parava de brincar! Com as revistas de minha mãe, com cabos de vassoura, com pedras no chão, na cama, na escola, sozinho ou com meu irmão.
  E depois na faculdade, fazendo peças de brinquedo, gravando videos à toa, inventando coisas pra amar.
  Talvez aqui exista uma bela frase: o amor, a gente inventa pra brincar...

domingo, 21 de agosto de 2016

OLIMPÍADAS DE 2016. NADA DE NOVO NO PAÍS DO FUTURO.

   Brasileiro não gosta de esporte. Ele gosta de torcer. Não apreciamos o esporte, e por isso, não suportamos atletismo. No atletismo todos são colegas e não rivais. Brasileiro acha que tal coleguismo é lorota. Ou falta de garra. Atletas viajam juntos e treinam juntos. Muitos são amigos. O que eles querem é SER O MELHOR e isso é diferente de VENCER O OPONENTE. Uma ética educativa que o brasileiro não entende.
   Nunca houve tocha olímpica tão esculachada. Ela se tornou COADJUVANTE de sua própria festa. O estádio olímpico, retrato de nossa incompreensão ao atletismo, foi jogado lá pro engenhão e o palco maior virou o Maracanã. Esculacho foi pouco. As cadeiras nunca ficaram cheias. Deu tristeza ver Mo Farah correndo apenas para seus colegas. E mesmo Bolt não teve o público que merecia. Foi uma despedida protocolar.
   Phelps foi o cara da festa, mas as piscinas também estava a meia boca. Se a gente tirar os parentes e amigos dos atletas não tinha quase ninguém. E hoje, claro, o basquete dos EUA jogou para casa meia boca. Ingresso caro não é desculpa. A classe média lotaria tudo. O fato é que a gente não tá nem aí pra basquete ou corrida.
  Os americanos ganham porque se divertem em disputar. Phelps se divertiu pacas! Mas é diversão puritana, bem entendido, familiar. A equipe americana tem cara e alma de excursão escolar.
  Foi uma olimpíada triste. Ok, meio triste. Afinal, foi a olimpíada das despedidas. Phelps e Bolt, bye bye, Mo Farah e Gatlin, bye bye. E ninguém novo surgiu. Nenhum fenômeno. Daí uma certa melancolia de fim de era. E as arquibancadas vazias só não incomodam quem se acostumou ao campeonato brasileiro de futebol.
  A coisa mais emocionante que vi foi a disputa épica entre Andy Murray e Del Potro. O melhor brasileiro foi o cara da canoa. Que será tratado como o "brasileiro do povo cheio de garra e força ninguém pode com nós". Ok.
  Adorei o hipismo. E na maratona notei que toda cidade brasileira é igual. O Rio é como SP. É sim! O mesmo mal gosto. A mesma uniformidade em prédios com área gourmet. O que o Rio tem de lindo foi feito por Deus, não pelo brasileiro. O brasileiro apenas tenta estragar aquilo que a criação fez.
  O Brasil ganhou dos meninos da Alemanha. Na verdade empatou. A goleada tá zerada. Ok.
  PS: Volto à vida normal. Foi uma olimpíada sem graça. Só Atlanta foi pior.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O ANO MAIS REVOLUCIONÁRIO DA MÚSICA - ANDREW GRANT JACKSON...LSD, BLACK MUSIC E SURREALISMO

   Esse cara escreve bem pra caramba! Ele consegue contar a história do ano de 1965 inteira abrangendo politica, guerra, revolução negra, sexo, as primeiras passeatas gays, cinema, e muita droga de uma forma leve e ao mesmo tempo completa. Cada capítulo abrange um momento e alguns são emocionantes. Andrew faz ainda uma comparação entre as drogas de 65 e as de 2015.
  Eu acho que o grande ano é 1972, mas o que dizer de um ano que nos deu a seguinte sequência de números 1 da Billboard: my girl, day tripper, help me rhonda, satisfaction, like a rolling stone, eve of destruction, in the midnight hour, i feel good, help, yesterday, get off of my cloud, sound of silence, respect, we can work it out e these boots are made for walking...
  As histórias são fantásticas! A turma de Ken Kesey, Timothy Leary, descrições de viagens de ácido, revoltas negras violentas, a ironia de Dylan, Martin Luther King, o desastre da guerra, como se fazia um disco na época, o pop negro, Warhol, a moda...
  Não vou ficar contando trechos do livro, ele é tão bom que teria que o reescrever. Mas não resisto a dizer que 1965 ecoa em seus sucessos e seus fracassos até hoje. Somos reflexo daquele tempo. Inclusive no modo como nos relacionamos com a internet. Warhol fotografava e filmava tudo obsessivamente, criava 15 minutos de fama para todo anônimo, exatamente como fazemos hoje.
  Leia, leia, leia.

domingo, 7 de agosto de 2016

A PARTIDA# BILL MURRAY# CHARIOTS# WHITE SNOW# DRACULA

   A PARTIDA de Yojiro Takita com Masahiro Motoki e Ryoko Hyrosue.
Ele toca cello mas a orquestra onde trabalha fecha e assim ele retorna a sua cidade natal. Lá ele arruma um emprego: maquiador de cadáver. Mas é o Japão e lá essa profissão tem uma importância ritual e estética que não existe aqui. O filme com esse tema poderia ser pesado ou tenso, é antes de tudo leve e relaxado. Mérito da direção mas também de um roteiro perfeito. O círculo se fecha e este filme anda ao redor da morte como vida. A simbologia da pedra nunca foi tão bem explicada. É um filme delicado. O cinema japonês tem um caráter, este filme o exibe. Um dos grandes do século.
   TIRANDO O ATRASO de Dan Mazer com Zac Efron, Robert De Niro e Zoey Deutch.
Começa muito ruim. Depois melhora e a lembrança acaba sendo ok. De Niro é um viúvo que sai com o neto em viagem. Esse neto, super careta, vai se soltar e muda sua vida ao final da trip. O roteiro é óbvio, Zac mostra a bunda o quanto pode, mas De Niro salva o filme. Seu personagem é tão vivo que dá energia ao filme. Ah sim...no mundo de hoje ser livre é se drogar e fazer sexo. Ok. Nota 6.
   BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR de Rupert Sanders com Kristen Stewart, Charlize Theron e Chris Hemsworth.
Bem melhor do que parece. Num clima dark, Branca é a força vital, a natureza e a madrasta é a destruição daquilo que seja vivo, natural, do sol. Isso é desenvolvido com ação e sem nada de pedante ou didático. Cinema americano puro. O cinema que em seu melhor diz muito sem ostentar nada. Envolvente e bonito. Nota 7.
   ROCK EM CABUL de Barry Levinson com Bill Murray, Kate Hudson, Bruce Willis, Zooey Deschanel.
Um lixo. E o mais triste é que desta vez Bill Murray acordou. Mas o roteiro é tão ruim que nada poderia o salvar. Ele é um empresário de rock fracassado que agenda show em Cabul. Lá fica sem sua cantora e se envolve com cantora islâmica que canta Cat Stevens. Willis é um mercenário e Kate Hudson uma prostituta. Ambos estão constrangidos. Levinson foi um diretor bem bom. Vinte anos atrás.
   MOMENTUM de Stephen com Olga Kurylenko e Morgan Freeman
O ponto mais baixo.
   CARRUAGENS DE FOGO de Hugh Hudson
Em 1981 eu assisti ao Oscar. Foi a grande zebra da década. Uma das maiores da história. Naquele tempo ninguém entendeu porque um filme tão bobo vencera o filme de Warren Beatty, Reds. Fácil saber: Beatty era odiado por seus pares, Reds era um filme de esquerda e filmes ingleses sempre agradavam os velhinhos da academia. O filme é chato e o pior de tudo é sua trilha sonora. Foi o começo das horrendas trilhas com synth, moda nos anos 80. Reds é um filme cheio de defeitos, mas medíocre ele nunca é.
   DRÁCULA, O PRINCIPE DAS TREVAS de Terence Fisher com Christopher Lee
Produção Hammer. Dois casais se hospedam em castelo. Lá estão as cinzas de Dracula e ele volta a beber seu sangue...Apenas ok para quem adora castelos e vampiros.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A TAÇA DE OURO- HENRY JAMES. PSICOLOGIA ESCRITA.

   Incrível como Henry James não descreve ambientes. Pouco sabemos de roupas, paredes, jardins ou condições climáticas. Seus livros, cada vez mais, são descrições de mentes falando com mentes e de mentes conversando consigo mesmas. Como Proust, James investiga o funcionamento da mente, dos sentimentos, da razão, da percepção. Ele esmiúça cada pequeno movimento mental, todo sentimento que nasce e que se vai. Quem ler superficialmente dirá que não há ação. Na verdade a ação nunca cessa, as personagens se movem dentro de sua alma, fluem, voam, param, se amortecem e explodem. Dentro de si.
  Henry James planta surpresas e deixa que nós as encontremos. Enquanto os personagens pensam e sentem, as coisa vão mudando de figura ao redor. Ocupados com esse diálogo incessante, eles acabam por deixar de lado a tal "realidade". Eis um retrato da vida.
  Um italiano que vive na Inglaterra, bem adaptado, sem sotaque, se casa com uma inglesa rica. Ao mesmo tempo sua ex namorada, pobre, se casa com seu pai. Como uma observadora, temos uma mulher mais velha, confidente de todos eles. Os temas de James estão presentes: o estrangeiro, a mulher como ser que move a vida, o homem como joguete do destino. Henry James nunca se casou, ele percebe a mulher como ser forte, aquele que faz as coisas, que decide.
  O livro tem 600 páginas e períodos de várias páginas. Não há como desenvolver uma psicologia tão vasta em frases curtas e truncadas. O estilo aqui é sinfônico. Cada pensamento desenvolvido até o fim. Como tema musical. Como harmonia que vem e se esvai. E retorna depois.
  Proust levaria esse estilo ainda mais longe unindo a sintaxe poética ao estilo.
  Ler Henry James é ler um espírito.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

NARRATIVAS

   Observe um casal fazendo sexo. Tire do ato TODA conotação "criada" pelo homem. ( Vamos chamar esse "criado" de tudo aquilo que não vemos nesse ato, ou tudo aquilo que não é explícito nos gestos ). Então, desse ato sexual, vamos abstrair tudo o que lemos, cremos, imaginamos, pensamos. Veremos apenas dois corpos, suando, gemendo, beijando, se esfregando. O ato estará totalmente isento de interioridade.
  Falo isso ao ler texto de Frye. O que diz que todas as narrativas escritas pela ficção estão em seu nascimento já narradas na Bíblia. Os contos bíblicos são a matriz de toda narrativa imaginada. Mas vamos adiante...
  Nossa mente criativa seria então um depósito ou um contêiner de contos, de lendas, de verdades ou não ( aqui não falo de religião, falo de invenção ). Desse modo, tudo o que pensamos e fazemos vem dentro desse "embrulho" imaginativo. Volto ao ato sexual.
  Se voce é ateu, nesse ato, mesmo voce tão materialista, estará pensando esse ato "fantasiosamente". Poderá estar pensando no amor, num filme visto, numa performance pornô, na liberdade do sexo, numa narrativa boêmia...ou até em dois animais transando. Mas o ato mecânico, o aqui e agora do sexo, isso dificilmente lhe será suportável, querido ou dado.
  Vivemos dentro de uma grande narrativa que nos guia e nos envolve. Tudo o que vivemos, pensamos, sentimos tem uma linha narrativa que foi narrada anteriormente.
  Saio de Frye e recuo até Vico e digo que a vida é apenas essa narrativa já narrada em outras vidas. Ao mesmo tempo essa narração é tão tênue, tão limitada que Vico diz que haveria outra verdade que nos é negada ou inalcançável. Uma vida fora e além da narrativa. Livre.
  Toda a arte moderna lutou para escapar. Mas sempre acabou sendo a velha luta do bem e do mal, do amor e da dor, da solidão perante o cosmos, da culpa, da traição e da vingança. Bíblica. E os maiores, Joyce, Faulkner, Mann, Kafka, Dostoievski, Nabokov, Proust, James, são os que melhor usaram essas narrativas em profundidade.
  Penso que ter a consciência dessa narrativa é uma forma de ser livre.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Sedmikrásky (Daisies) - Girls causing a ruckus at night club



leia e escreva já!

PIQUENIQUE NA PROVENCE- ELIZABETH BARD...AFINAL, ESSE LUGAR EXISTE MESMO...

   O primeiro contato que tive com essa mítica Provence foi lá por 1992, quando tomei contato com os trovadores do século XII. Ou...espere, foi antes! Nos anos 70 vi um filme do Philipe De Brocca que se passava por lá. Esse filme mostrava uma vila cheia de gente sorridente e sexy, vivendo entre vinho e flores. Depois, já neste século, li os livros de Peter Mayle. TODOS. A Provence de Mayle é um sonho de simpatia. E a vida que ele descreve é bastante privilegiada. Por mais que ele fale de suas aflições com serviços, contas altas e pisos gelados, é uma vida de fartura e de mesas de mármore. Mayle come e bebe. E nada mais que isso.
  Aqui é diferente. Elizabeth é uma americana que se casa com um francês e numa viagem de turismo, já casada, se encanta por uma minúscula casa de vila. Os dois se mudam de Paris para lá e logo ela engravida e tem seu primeiro filho. Além disso, ela é judia e tem depressão. O melhor do livro é isso, Bard compara a vida americana à francesa e a França vence em seguro social, comida e saúde. Além da natureza e do tempo livre. Os EUA vencem na aceitação da religião alheia e em simpatia. Só isso. De todo modo, Bard, que se apaixona pela Provence, tem muito de outsider e mesmo a maternidade lhe é difícil. Ela precisa aprender a ser mãe, a ser francesa e a ser dona de casa.
  É um livro leve, solar, com alguns momentos cinzentos. Elizabeth Bard se mostra muito mais humana que Mayle. Embora Mayle divirta mais. Gostei muito e recomendo este livro lilás.
  Quanto a Provence...recomendo a Bretanha. Vento, seca, muita poeira e muita pedra. Tórrido no verão, gélido no inverno. Caro, bem caro. O "romantismo" que voce espera achar na Provence vive na Bretanha, na Champagne, ao redor de Estrasburgo. A Provence é dura. Encanta ingleses por seu calor. E agora, mais ainda, por ser moda. Mas não é o lugar mais belo da França. Nem o segundo ou terceiro mais belo. Mas...escrever um livro com o nome "COMO VIVER NA PROVENCE" venderia mais que "VIVENDO EM BORDEAUX"...
  É isso.

RUSSELL CROWE* RYAN GOSLING# SACHA BARON COHEN+ AVA GARDNER* LAUREL E HARDY * BURT LANCASTER

   THE NICE GUYS de Shane Black com Russell Crowe, Ryan Gosling
Acho que ainda não passou por aqui este muito, muito, muito bom policial. Não há um só minuto que seja menos que bom, são 150 minutos de completa diversão. É sexy, é irado, é cheio de ação, tem diálogos nonsense, e é muito engraçado sem ser bobo. Tem 3 momentos que me fizeram gargalhar. A história fala sobre cinema pornô, politica, fracasso e bebidas. Crowe é um ajustador de contas, um cara que voce contrata para bater em alguém. Gosling é um detetive doidão que tem uma filha esperta ( uma excelente atriz jovem, Angourie Rice ). Os dois, por acidente, se conhecem e passam a trabalhar juntos numa história de chantagem e assassinatos. O roteiro tem furos, mas quem liga pra isso se o filme funciona hiper bem... Russell trabalha com vontade ( enfim... ) e Ryan está no seu momento, ele é engraçado, tem o dom. Shane Black dirige poucos filmes. Os que vi são sempre inteligentes, leves e muito sedutores. Diálogos, ele sabe fazer ação com bons diálogos. Ah sim, o filme se passa em 1977 e isso me traz uma ideia: Parece que é preciso situar um filme em 77 para ele ter a licença de ser amoral, safo, esperto, com ação sem efeitos digitais, muito diálogo e com cenas sexy-alegres. Why... Se fosse em 2016 tudo isso teria de ser triste ou neurótico...É estranho... O clima de 1977 está perfeito, sem exagero nenhum. Não é de 1977 que rimos, é do belo roteiro ( de Black ). Nota 9.
   IRMÃO DE ESPIÃO de Louis Leterrier com Sacha Baron Cohen, Mark Strong e Penelope Cruz.
Um fiasco. Muito ruim, muito apelativo, sem interesse. Sacha é o irmão hooligan de um super agente. Estão separados desde crianças. E se reencontram no meio de uma ação de Strong. Aff... So What! O tipo proletário inglês de Sacha poderia ser engraçado, é apenas grosso. Um completo desastre. Nota ZERO.
   AS MARGARIDAS de Vera Chytilová com Ivana Karbanová e Jitka Cerhová.
Um filme tcheco de 1966 feminista e muito livre. Faz parte da renascença tcheca, aquele momento de liberdade que em 68 foi esmagado pelos tanques russos. E é um filme moderno, ainda, e ao mesmo tempo muito velho. Moderno por não ter regras, a diretora faz o que quer quando quer. Velho por ser bastante otimista, alegre, uma alegria que hoje nos parece antiga. O que depõe contra nós... São duas amigas que moram onde der, comem enganando velhos ricos e fazem o que dá na cabeça. Acima de tudo elas não precisam de homens. E os usam. Inocentemente. O que encanta no filme são as duas atrizes. Elas interpretam como crianças grandes. Riem de vergonha, improvisam, cantam, fazem beicinho. Uma delas é de uma beleza eslava arrebatadora..Musa. O filme é curto, apenas 80 minutos e é ainda interessante. Uma peça de museu. Nota 7.
   O NAVIO CONDENADO de Michael Anderson com Gary Cooper, Charlton Heston e Michael Redgrave.
No Canal da Mancha, uma barcaça topa com um navio abandonado. O capitão Heston entra nesse navio e lá encontra o capitão Cooper. O mistério se faz: Por que esse navio foi abandonado pela tripulação... Os primeiros 30 minutos são muito bons. Sem diálogos. Depois vira um filme bem comum. Os atores, claro, seguram a atenção. Mas ele se perde no final apressado. Nota 5.
   ZONA PROIBIDA de William Dieterle com Burt Lancaster, Claude Rains, Paul Henreid, Corinne Calvet, Peter Lorre.
Na África do Sul assistimos num pb deslumbrante, a história de um homem que escondeu diamantes de uma mina particular. O filme então mostra o embate entre esse aventureiro, Lancaster, o gerente da mina, sádico, Henreid, o dono da mina, o cínico Claude Rains e uma prostituta francesa, Calvet. O elenco não podia ser melhor. Dieterle foi ator do cinema mudo alemão e imigrou durante a guerra. Fez excelentes filmes de tudo quanto é gênero. Um profissional que sabia tudo de cinema. E sempre usando o clima do expressionismo alemão. Peter Lorre aparece pouco. E quase rouba o filme. Nota 8.
   A DEUSA DO AMOR de William A. Seiter com Robert Walker e Ava Gardner.
Um modesto vitrinista de uma loja imensa se envolve com Vênus, a deusa do amor. Ela vem à terra como uma estátua, que ganha vida quando ele a beija. Sim, é uma fantasia total. E, à beira do desastre, funciona. É um filme que grita por uma refilmagem da Disney. Ava está absolutamente linda. É este o filme que a revelou para o mundo. Walker foi um grande ator de carreira curta. A bebida o levou cedo. Para melhorar tudo, temos Speak Low, de Kurt Weill. Pra quem não sabe, Weill foi parceiro de Brecht em seus musicais. Sabia tudo de música. O filme é uma comédia leve e sublime. Veja. Nota 7.
   O FILHO DE ALI-BABÁ de Kurt Neumann com Tony Curtis e Piper Laurie.
Filme da Sessão da Tarde dos velhos tempos. Não, não é bom. Curtis, um ator sempre simpático, faz o playboy filho de Ali Babá, que perde tudo o que tem por causa de uma trama de um vizir rival. O clima é relaxado demais e a gente percebe todo o tempo ser um filme B. Envelheceu mal. Nota 3.
  ERRADO NOVAMENTE e HABEAS CORPUS de Leo McCarey com Laurel e Hardy.
Stan Laurel foi um gênio. Somente Buster Keaton e W.C.Fields chegam perto de sua genialidade. ( Os Marx eram um grupo que funcionava como grupo ). Laurel consegue ser um pateta sem nunca nos irritar. Consegue ser ingênuo sem nunca despertar pena. E Oliver, o gordo irritado, o completa à perfeição. Foi McCarey quem os burilou e lhes deu o passaporte para a eternidade. Aqui temos dois curtas silenciosos. No primeiro eles devolvem um cavalo à um milionário. No segundo eles procuram corpos em cemitério. Os dois filmes são simples, diretos e ainda engraçados. Os dois são parte do tesouro do cinema.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

UMA HISTÓRIA DA MINHA VIDA

   Minha relação com a igreja começa já estranha desde cedo. Meus pais não eram casados no religioso e portanto achavam que entrar numa igreja, "solteiros", seria uma afronta à religião. Mas me faziam ir à igreja, aos domingos, com minha tia e meus primos. O que lembro dessa época é o calor, a igreja lotada, pernas de homens de pé, paletós e mulheres com véu. A igreja era a de Santo Antônio, no Caxingui, e a família toda sempre estava lá. Menos meus pais. O Caxingui era um bairro de casas grandes e chácaras, havia um sentimento de pioneirismo. Comunidade. Na calçada, na saída do culto, uma pequena multidão dava abraços e beijos e partia para o almoço do domingo.
  Eu não entendia absolutamente nada.
  Meu quarto era um horror. Quase uma cela da inquisição. Minha mãe o enchera de santos nas paredes. Havia um Cristo com o peito aberto, o coração vermelho exposto, sorrindo; havia uma Nossa Senhora em um altar de gesso, uma lâmpada vermelha acesa noite e dia iluminando sua figura azul. Eu sentia medo. Um medo inconfessável. A luz vermelha me apavorava.
  Fiz a primeira comunhão, fiz a crisma. Gostava do cheiro da Bíblia nova. Gostei de ser o leitor do versículo lá no altar. Mais nada. Um incômodo me cutucava. Eu não conseguia amar à Deus. Mal pensava nessas questões.
  Descobri a morte aos 12 anos, tive minha crise de finitude aos 16, e meu consolo não havia. Por mais que minha mãe falasse de Deus, eu sabia que Deus era somente um consolo para os fracos. E eu era forte. Havia lido Nietzsche. Era socialista. Sabia que a vida era um nada. Lera Sartre.
  Entrei em contato com Freud, e assim sabia o que nós éramos: apenas um ser que deseja. Me acostumei com esse modo de viver. Sentia superioridade perante os bobos. Eu era racional.
  Mas... eu queria crer em amor. Não para crer em Deus, não para vencer a morte, mas para ser feliz. Queria crer que o amor não era apenas vontade de procriar. Tinha de ser mais que isso.
  ...
  O tempo passa então. Décadas. E me encontro numa certa idade. Impossível precisar. E nada tenho para contar. O que devo dizer é que passei para o outro lado. E fazendo isso não me sinto mais feliz, e continuo temendo a morte como sempre temi. O que mudou em mim então que me faz ver a vida sob outro ponto de vista...
 Não tive  nenhuma experiência de quase morte. Não tenho nenhum amigo, namorada, parente, professor ou guru que me falem de religião. De concreto houve a morte de meu pai, brigado comigo. Mas antes de sua morte, oito anos atrás, eu já vinha num caminho que, lento e constante, só tem se tornado cada vez mais claro.
  Eu questiono. Eu me sinto fora de lugar. E ao mesmo tempo sinto fazer parte de algo. Mas jamais fui tão só. Sozinho e sendo parte.
  Continuo longe de Deus. Não sinto amor. Mas ao mesmo tempo sinto um profundo compromisso com a vida, com este mundo, com a continuidade. E sinto, profundamente, o quanto toda verdade não mora na razão.
  Caminho. Apenas isso, caminho uma estrada que não escolhi, vivo uma vida que não construí e sinto uma vontade da qual não dependo para ser. Vejo a vida como um dom. Tento a namorar.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A DOR

   O mundo moderno não aceita a dor. Há a ilusão, presente no consumo, na ciência, na droga, de que a vida sem dor é alcançável. Corre-se para se fugir da dor. Da lembrança da dor, da herança da dor. A ciência procura outro planeta, um planeta zero, um planeta onde não exista história, passado, dor. Casas antigas, monumentos, tudo que possa recordar uma história dolorosa é destruído. Fugimos. O tempo todo engolindo festas, séries, pílulas, sexo, compras, tudo para não sentir, ou para sentir só prazer.
  Mas a conta não fecha. A dor continua existindo. Uma dor cinza, mal aceita, negada, somatizada, emburrecida, pior de tudo: dor sem sentido. Não sabemos mais reconhecer a nossa própria dor.
  E é ela que nos dá humanidade. Nossa dor é aquela que nos diferencia radicalmente dos animais. O humano é o bicho que sofre. Nossa ilusão é voltar a ser macaco. O humano sofre porque pensa. Sabe que morrerá. Mais: o humano sente-se só. Por mais que ele faça sexo, por mais que se case, por mais que ande em grupo, o humano é o bicho que sente o abismo que existe entre seu EU e as coisas ao seu redor. Esse abismo só é transposto pelo amor. Mas amar dói. Sim, o amor é companheiro da dor. ( Mas pode ser vencida essa dor. A dor quando aceita e purgada vence a dor. Esse o preço que ninguém mais quer pagar. )
  Nietzsche errou o alvo. Como um adolescente que culpa os velhos pelo mal do mundo, ele teve a ilusão de que a dor foi inventada pelo cristianismo. A dor sempre existiu, Desde o primeiro homem a pensar na morte. Judeus não criaram a culpa. A culpa vive na consciência de que os olhos dos outros nos julgam. Humanos avaliam seus atos e portanto sentem vergonha e culpa. Nietzsche não queria aceitar a dor. Morreu brigando com sua humanidade.
  Freud, outro adolescente briguento, queria crer que toda dor vem da repressão dos impulsos e do instinto vital. Humanos reprimem seu corpo. Se humanos não reprimissem desejos e instintos seriam bichos. Essa divisão vem da divisão entre corpo e  mente, ou entre corpo e alma. Nosso EU estranha seu corpo. Não aceitamos suas fraquezas e suas necessidades. Fome, doença, dor. Essa divisão não foi inventada pela sociedade. Ela é humanidade.
  No mundo de 2016, o mundo do prazer sem culpa, a religião só é aceita se for uma religião que nos livre da dor. Que resolva problemas. Que nos faça feliz. Nada mais idiota. Nenhuma religião verdadeira livra alguém da dor. Ao contrário, toda religião é um sacrifício. A procura da graça que vem após a vivencia da dor. Ser religioso é aceitar e viver a dor de estar vivo e de ser humano. E dentro da dor sentir o porque da dor de viver.
  O que nenhuma religião ocidental tem a coragem de dizer, não mais, é que religião é dor. Por isso nosso profundo incômodo com o Islã. E com Israel.
  Quando voce sofre porque um bosque foi derrubado, uma espécie extinta, uma rua apagada, seu sofrimento é sagrado. Voce pressente que um pecado foi cometido. A ligação do humano com seu ambiente é a ligação da vida com o sagrado. A terra é voce. A terra é o outro humano que te olha. A terra é onde nossos mortos foram enterrados. É onde suas almas vivem.
  Tudo isso é uma dor. Fugir dela só te leva à essa tristeza cinzenta, vaga, que voce tenta curar com bebida, droga, risos bobos, festas, roupas novas. Encare-a de frente. Tenha a humildade de aceitar sua dor. Ame-a. E ajude o outro, sofrido como voce, a carregar sua dor. Que é sua. Que é nossa. Humana.
  PS: Mais um texto inspirado pelo filósofo inglês, vivo, Roger Scruton.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

FINALMENTE ALGUÉM VERBALIZA O QUE SINTO DIANTE DA ARQUITETURA DESTRUTIVA DE HOJE

   O problema se chama ADEREÇO. A fachada de uma casa, por mais simples que fosse, tinha marcas de mãos. Algum detalhe, nem que fosse uma lata com uma muda de couve, que bradava ao universo: AQUI VIVE UMA PESSOA! A casa, o prédio, era uma face. Coisa encaixada em coisa como se houvesse lá uma vida em crescimento. Nos prédios antigos há uma raiz e uma ramificação que se espalha no design das janelas e ruma ao topo. A construção procura falar. E fala.
 No bloco de aço e vidro há a monotonia do sempre igual. Cada centímetro é igual ao centímetro do topo. Nada cresce e nada tem rosto. Mas, pior ainda, quando há uma invenção, um arrojo de construção, o modelo é a máquina, a fábrica, e jamais a COISA VIVA. Eis o mal estar que alguns-muitos sentem na moderna cidade. Ela é morta e fala sempre da morte. Não a morte dos cemitérios, muito mais radical, é a morte daquilo que nunca viveu. A absoluta negação da vida e da possibilidade de viver.
 ( R. Scruton ).
 Na fachada de casas velhas abandonadas, nas ruínas, vemos os ecos finais de lugares sagrados que se perdem para sempre.

JEAN-PIERRE MELVILLE ERA UM GÊNIO VIRIL* BELMONDO* DELON* DE PALMA* CARLYLE* CASSEL*

   DOCE VENENO de Jean-François Richet com Vincent Cassel, François Cluzet e Lola LeLann
Dois amigos levam as filhas para férias na Córsega. Daí pra frente não conto. Começa como comédia leve de depois vira drama. Começa muito bom e depois fica mais ou menos. Duas coisas legais: a beleza absurda de Lola LeLann e o não moralismo de um tema que no cinema americano acabaria em morte e vingança. Vale ver. Nota 6.
   A LENDA DE BARNEY THOMSON de Robert Carlyle com Robert Carlyle, Emma Thompson e Ray Winstone.
Um humor muito negro. Muito mesmo. Estamos na Escócia. Tem um barbeiro que não consegue ter vida, é um chato. Há uma série de crimes. E uma mãe hiper suja e perua. Mistura tudo isso e dá neste filme. Meio Tarantino ( antes dele se achar artista ), o filme é sanguinolento, colorido, esquisito e divertido. Surpreendente. Nota 7.
   EXÉRCITO DO PAI de Oliver Parker com Bill Nighy, Catherina Zeta-Jones, Toby Jones, Michael Gambon e Tom Courtney.
Em 1944, numa cidade costeira, um bando de velhos ingleses guarda o país contra um ataque alemão. Um antiquado filminho muito inglês com humor inofensivo e bobo. Não, não é um bom filme. Uma pena, os atores são ótimos. Nota 3.
   PICASSO E O ROUBO DA MONA LISA de Fernando Colomo
Filme ítalo espanhol que ao unir um monte de nomes da arte ( Picasso, Matisse, Appolinaire, Gertrude Stein etc ) pensa fazer algum tipo de coisa esperta e interessante. Não! O filme é uma besteirada. Um filme que fala de arte moderna e é totalmente previsível não pode ser grande coisa.
   TRÁGICA OBSESSÃO de Brian de Palma com Cliff Robertson e Genevieve Bujold.
Nos extras deste dvd um crítico francês diz que este filme de 1976, homenagem de De Palma à Vertigo, é melhor que o filme genial de Hitchcock. Melhor por levar mais a fundo aquilo que Hitch apenas aponta...Arre!!!! Este é um xaroposo e empetecado filme viagem hiper elaborado metido a grande arte. Um porre de uma chatice exemplar.
   O CÍRCULO VERMELHO de Jean-Pierre Melville com Alain Delon e Bourvil.
Uma obra-prima de 1970. Eis o grande tema de Melville: a honra entre ladrões. A amizade entre homens. Tudo aqui é perfeição. Vemos Delon, como um ladrão solitário. Ele ajuda um outro ladrão em fuga da policia. Tudo neste filme une extrema aridez, completa virilidade, com rigor e poesia não aparente. Imensa influência sobre os filmes de Hong Kong. Cada take é uma aula de cinema. Nota MIL.
   TÉCNICA DE UM DELATOR de Jean-Pierre Melville com Belmondo.
Uma complicada trama sobre um dedo duro, um assassinato, policiais e mulheres fatais. Belmondo dá um show como um alcagueta que anda pelo mundo do crime com nervos de aço. Tarantino sabe este filme de cor e não à toa este filme tem passagens que ecoam no episódio de Butch e Fabienne em Pulp Fiction. Muito jazz e muito ritmo e um suspense que explode em seu final sublime. Nota MIL.
   DOIS HOMENS EM MANHATTAN de Melville
Este é ruim. São dois jornalistas tentando encontrar em NY um diplomata sumido. Cenas noturnas de NY em 1959 não salvam este filme de roteiro fraco.

O ROSTO DE DEUS--- ROGER SCRUTON, MEU ROSTO E O SEU.

   O rosto é aquilo que faz de nós seres distantes dos objetos. Por causa dele, de sua individualidade e de sua mutabilidade, sentimos uma insuperável distância dos animais. Bichos não têm rosto. Apenas no mundo da Disney. Ou quando os enfeitamos com nosso olhar amoroso.
  Um corpo, mesmo o corpo humano, é objeto. Olhamos para um corpo sem cabeça como olhamos para uma coisa. Esse corpo pode ser belo ou feio, grande ou pequeno, mas nada diz. Um corpo desperta apenas dois sentimentos: indiferença ou desejo de posse. O corpo sem rosto é quase o mesmo que a comida. Fome que pode ser saciada por qualquer outro alimento.
  O amor é rosto, porque ao contrário do alimento, da comida e da fome, somente aquele único rosto pode saciar meu amor. O amor individualiza a pessoa. Só ela é o que ela é. O corpo é intercambiável. O rosto jamais.
  Em nossa sociedade astros pop escondem o rosto por detrás de óculos ou numa pose "de gato morto". O rosto torna-se um vazio. Modelos de passarela usam o rosto como fantasma. E pior que tudo, na pornografia o rosto só aparece para ser humilhado, profanado, escarrado. Vivemos a ditadura do corpo e a negação do rosto. E isso se liga diretamente a negação da individualidade, da alma, do sagrado. O corpo é animal. O rosto é o mistério, e por isso, é o rosto o centro do erótico.
  Roger Scruton desenvolve com simplicidade e clareza esse argumento. Ele baseia suas ideias em pensadores: Kant, Platão, Merleau-Ponty, Hegel, Wittgeinstein...Scruton desmascara a neurociência, a psicanálise, o marxismo. Para ele todas essas "ciências" são como brinquedos, fáceis de usar e de fantasiar com elas. Elas alimentam a ilusão. Mas trazem um perigo: a transformação do homem numa "sopa química", num acidente genético, num símio que pensa que sabe, numa máquina de desejo.
  Sabemos que algo em nós não aceita a sopa e a máquina. Sentimos que o rosto é mais que o corpo. Que o eu é único, particular, ilimitado. E que esse eu só existe perante um "você", o outro rosto, também mistério e particular. Para Scruton o ato de ser humano se explica pelo EU, a identidade que não existe em nenhum animal, o ato de observar a si-mesmo. O eu vive no limite, à margem das coisas, fora do mundo, fora inclusive do corpo. O eu olha de fora, percebe, sente, decide, analisa. Fora, fora e dentro, indefinido quanto a lugar e tempo.
  Um livro de 200 páginas de um autor central de nosso tempo e que só agora, agora que a direita deixou de ser um palavrão, começa a ser lido neste Brasil véio. Bem vindo ingleses. Vocês sabem pensar.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

ROGER SCRUTON

   Meu amigo Léo. Que maravilha esse livro do Roger Scruton ! Bom ler um cara vivo que fala como um mestre. Ele é um dos maiores intelectuais conservadores do mundo. Inglês. Diz que a filosofia inglesa se baseia na discussão que busca a verdade. E que existem filosofias que aumentam a nuvem da confusão.
  Scruton fala aqui de religião. Sem ortodoxia. Aliás, ele tem um pensamento, dentre vários, brilhante: "Toda crença que persegue seus desafetos não tem certeza de sua verdade". Ele cita o marxismo e o freudismo como exemplo de fés inseguras.
  Ele fala de rostos. E critica a pornografia, imagens sem rosto, mais que isso, que odeiam a face humana.
  Ainda estou na página 50. Mas caramba!!!! É bom pacas!

terça-feira, 19 de julho de 2016

LLOYD COLE.Chelsea Hotel.



leia e escreva já!

I'M YOUR MAN, A VIDA DE LEONARD COHEN- SYLVIE SIMMONS

   O Brasil se tornou um país tão chato, que penso que um colega meu da USP poderia ver na vida de Leonard Cohen apenas um caso de um privilegiado burguesinho, que sem se preocupar com dinheiro passou todo seu tempo sem saber como vencer o tédio existencial. Esse colega ainda acrescentaria que Leo foi um alienado, tendo passado indiferente a décadas de revolução social. O mundo dele foi apenas seu próprio umbigo. Mais o coração e o pênis.
   Eu escutaria esse colega falar e diria que ele está certo. Nada do que ele disse é mentira. Leo foi apenas isso. Também. Mas, como sempre ocorre com o modo raso de pensar, meu amigo esqueceu, ou não percebeu, diria que evitou perceber, que o umbigo, o coração e o pênis de Cohen podem ser os mesmos de toda uma população. E que para certos artistas, falar de si-mesmo é falar de uma nação.
  A vida de Cohen é movimentada. Mas não é interessante. Talvez seja a falta de talento da biógrafa ( a mesma de Gainsbourg ). Cohen viaja, pensa, foge, tem N amores, medita, pira, mas a impressão que temos é a de que ele evitou viver. Escrevi acima a palavra "foge". Leonard Cohen fugiu todo o tempo. Ele fugiu da fama, de compromissos, fugiu o quanto pode da paternidade, fugiu do judaísmo e do budismo e do hinduísmo. Ele evitou hippies mas também a turma de Warhol. Fugia do Canadá, de LA, de NY e da Grécia. Fugiu da mãe. E ao mesmo tempo foi profundamente ligado a tudo isso que citei. Cohen nunca corta laços, ele os acumula. Amizades para sempre. Amores para sempre. Ele diz em entrevistas não olhar para trás, ele não precisa fazer isso, ele nunca deixou nada atrás de si.
  Do livro as melhores histórias são as da meninice. E depois o começo, com Judy Collins, David Crosby e até Nico e Jackson Browne. Não sabia que ele tomava LSD. E não sabia que ele era tão deprimido ( coisa de judeu...acho ). Conheço bem a depressão e entendo o medo de compromisso. A sensação de que tudo vai acabar um dia. Para que então começar se vai acabar... E ao mesmo tempo o amor pela solidão, o pavor de depender, e a incapacidade de romper laços. Leo tem tudo isso. Me veja às vezes nele. Mas a música de Cohen é do tipo que eu jamais faria. É desanimada. Entenda, Leonard Cohen é real, um talento imenso, um escritor que fez pop, e isso é muito raro. Mas ele é pai de um monte de gente chata que bebeu em sua fonte. Cohen autorizou cantores ruins e tristes a confundir tristeza com talento e má voz com sinceridade.
  Meu primeiro contato com Leo foi já neste século. Na trilha sonora do filme de Altman, McCabe e Miss Miller. Até hoje acho a melhor coisa que ele fez. Antes eu apenas o conhecia por nome. Pensava que ele fosse um tipo de Randy Newman mais amargo. Não. Cohen é um religioso. Sua obra é uma prece e sua obra uma ode bíblica. Ele canta para Deus e só para Deus. Há interioridade verdadeira nele. E nada menos americano que interioridade, daí seu sucesso tardio por lá. ( Não esqueçamos que as religiões americanas são todas "para fora". Elas cantam e berram, evitam o silêncio ).
  Estranho Canadá. Neil Young, Joni Mitchell, The Band...se tivesse de escolher uma palavra para definir todos eles diria solidão. Ou, mais ainda, ético.
  Não é um bom livro.