terça-feira, 13 de outubro de 2015

O MATADOR- UMA OBRA PRIMA DE HENRY KING

   A história é de uma simplicidade mítica: um matador está cansado de ser aquilo que ele é. A questão: alguém pode deixar de ser a pessoa que os outros querem ver...
  Sob uma melodia soberba e elétrica de Alfred Newman, Gregory Peck cavalga. Ele vai à um saloon e lá, logo reconhecido, tem de se colocar à prova. Essa sua sina. Por ser um pistoleiro famoso deverá, sempre, ser desafiado. Todo jovem maluco quer o seu lugar. A fama de ter morto o grande matador.
  A fotografia de Arthur Miller é absoluta. Ela abarca todo o set e todos os tons de cinza. As cenas são profundas, vastas apesar de claustrofóbicas.
  E há o rosto de Peck. Ele nunca foi um grande ator, mas ele era mais que isso, era uma estrela. Ilumina o filme. Dá luz sendo obscuro. O rosto está cansado. O Pistoleiro não quer mais ser quem é. Há um desejo imenso de descanso nele. E dolorosamente ele quase consegue chegar lá.
  O que faz de um filme uma obra-prima: prazer, vontade de falar dele, interpretações múltiplas, desejo de rever, muitas cenas que se guardam na lembrança. Este filme tem tudo isso. Ele fala da fama, do destino, do julgamento da comunidade, da impossibilidade de se apagar o que se fez.
  Henry King teve uma longa carreira. Começou ainda no cinema mudo e nele ficou famoso. Passou ao falado e acabou por se especializar em grandes filmes da Fox. Ele fazia de tudo: musicais, westerns, épicos, dramas, e muitas adaptações literárias. Com mais de 90 filmes nas costas, óbvio que nem todos são de alto nível. Mas ele conseguiu jamais fazer um filme ruim. Muitos são bons, alguns são ótimos e cinco ou seis são geniais. Quando a produção era cara, complicada, arriscada, se chamava Henry King. E tudo acontecia.
  Aqui aconteceu. Um filme perfeito.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

C.S.LEWIS, ALÉM DO UNIVERSO MÁGICO DE NÁRNIA. ORGANIZADO POR ROBERT MCSWAIN E MICHAEL WARD.

   Poucas coisas foram piores no século XX que a transformação da Imaginação em brincadeira ou brinquedo. Tão ruim quanto, foi a afirmação da Razão como um tipo de fetiche ou de superstição. É disso que trata este livro. Lewis foi um homem de letras, professor, escritor, que lutou pela reconciliação. Ele via nossa vida como um Todo. Imaginação e razão, fé e conhecimento, intuição e experiência, tudo isso unido dentro de uma alma individual. E existindo fora, no universo. A imaginação como um poder central, uma verdade, um conhecimento intuitivo. Mas o livro é muito mais.
  Cerca de 50 intelectuais escrevem sobre Lewis. Cada um pega um tema ( obras, poemas, filosofia, teologia, politica.... ) e analisa Lewis dentro desse campo. Os textos são críticos. Nunca elogios vazios. O que salta desse volume de escritos é precioso. Ele nos faz pensar. Melhora nossa visão. E para mim descortinou todo um campo, imenso, de saber que eu desconhecia. Nosso mundo intelectual, este do século XX ( ainda ele ), desvaloriza e sente imenso preconceito contra todo tipo de razão que leve em conta imaginação e intuição. Nossos gurus são incapazes, e se orgulham disso, de pensar em termos unos. Para eles a razão exclui a imaginação e a lógica mata a intuição. Eles se esquecem que seus gurus, Shakespeare, Giordano Bruno, Montaigne ou Espinoza pensavam no modo harmônico. Eram homens de antes da ruptura que dividiu a mente e a alma em campos desarmônicos. Eram inteiros.
  O livro portanto me exibiu uma série de pensadores que conseguem raciocinar em termos integrais. Procuram aceitar a totalidade. Não são discriminadores. Mas posso falar mais sobre este belo volume. Posso falar sobre a palavra alemã que designa um estado de espírito " Onde desejamos sabendo jamais satisfazer esse desejo, e mesmo assim esse desejo é mais prazeroso que uma satisfação."
Posso falar sobre o ateu Lewis, ateu radical que zombava de Deus, e o modo como ele se converteu, lento e doloroso. Posso ainda contar que sua explicação sobre o porquê da existência do mal é engenhosa e racional, quase convence, e dá um sentido à dor.
  Lewis tem principalmente vários pontos de afinidade comigo, talvez o principal a condenação que ele faz ao niilismo. O mal irremediável que se esconde num certo tipo de arte que transforma o homem em menos que um inseto e faz da vida um estrumeiro. Essa arte é profundamente imoral, pois ela destrói por destruir, nada traz de novo ou de bom. Ela é fácil de fazer, falsa em sua profundidade covarde e fake, tola em sua moral amoral. Posa de tudo aquilo que não é. É lixo.
  Mas não se trata de uma censura. Ela existe e sempre existiu. O problema é que esse niilismo se confunde hoje com A Verdade. É como se toda arte tivesse a obrigação de ser sórdida para ser séria. Ou pior, propagar o mal para poder ser considerada inteligente.
  Inteligência é alegria. Nunca tal qualidade foi considerada uma dor. Hoje é.
  A grande mensagem do livro é essa. A vida é uma alegria. Viver é um sorriso.
  Neste século, nada pode ser mais revolucionário que a alegria.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

BRIAN WILSON- BOGEY- JASON STATHAM- VINGADORES- JURASSIC- BETTE DAVIS

   OS VINGADORES-A ERA DE ULTRON com os vingadores
Não rola. Ele começa já com ação, desinteressante, e rola ladeira abaixo. A história é sobre um super ser que toma a mente do Homem de Ferro. O filme falha no principal: pouco ligamos para os heróis. O primeiro filme da série era bem bom. Este é uma coisa perdida.
  OS ÚLTIMOS CAVALEIROS de Kaz I Kirya com Clive Owen e Morgan Freeman
Você vai achando que se trata de um gostoso filme medieval. Você quer um pouco de ação, heróis e magia pop. Mas então você descobre que o filme foi feito em Taiwan e que desse modo se trata de uma visão oriental sobre a idade média. E que no oriente não houve uma idade média. E que portanto o que temos é um carnaval de misturas mal feitas que tornam a coisa insuportável. Alguns personagens parecem do século XII, outros são de 1700 e alguns de Star Wars. Os nobres são negros, há ainda samurais e odaliscas. Nem Stan Lee foi tão doido. Pior de tudo, a ação é pífia.
  JURASSIC WORLD de Colin Trevorrow com Chris Pratt e Bryce Dallas Howard
Então vocês acham que sou um snob que não gosta de filmes pop...pois eu gostei muito deste. Os efeitos são ótimos, a mensagem ecológica é boa, a ação é bem dosada. Divertido e com suspense. Eis um filme digno. Pode ver que é bem legal.
  JOGO DURO de Megaton com Jason Statham e Hope Davis.
Um cara que trabalha em cassino ganha e perde uma fortuna. No meio tempo ele se mete em várias encrencas. Um filme de ação com aquele tipo de herói perdedor que era moda nos anos 90. Eu adoro. Jason é o melhor ator para esse tipo de filme. Ele nunca parece perfeito e sua voz demonstra fraqueza. Isso o humaniza. É um filme em que tudo é chavão, mas por causa de sua falta de pretensão nós desculpamos e relaxamos. Muito bom.
  AMOR E MISERICÓRDIA de Bill Pohlad com Paul Dano, John Cusak, Paul Giamatti e Elizabeth Banks.
Desde a obra-prima sobre Dylan é este filme a melhor bio sobre um rock star. Cusak e Dano dão um show fazendo Brian Wilson em idades diferentes. O filme não tenta mostrar tudo sobre o líder dos Beach Boys, ele se detém em dois momentos de sua vida: o auge em 1966 e o inferno nos anos 80. Todas as cenas no estúdio de gravação são fascinantes. O que vemos é um gênio louco criando magia. O filme consegue unir pesadelo à encanto. Brian conheceu o inferno e o psiquiatra feito por Giamatti é um dos piores vilões da história. E creia, foi isso mesmo o que aconteceu... Um filme que emociona e nos deixa nocauteados. Tem de ser visto. ( Cusak tem a melhor atuação de sua vida ).
  FLINT CONTRA O GÊNIO DO MAL de Daniel Mann com James Coburn e Lee J Cobb.
Quando James Bond se tornou em 1963, no seu segundo filme, uma mania mundial, imediatamente os USA começaram a procurar sua versão de 007. Dean Martin foi Matt Helm e James Coburn foi Flint. Os dois são gozações. Os USA não conseguiram jamais levar 007 a sério. A série de Martin é puro esculacho, esta é uma tentativa de ser engraçadinha com alguma dignidade. Não funciona. O filme em 1965 era moderninho e sexy, hoje é apenas museu vivo. James Coburn é um ator carismático, quem o viu em westerns jamais esqueceu, mas aqui ele parece apenas um adulto brincando com teenagers. Muito colorido, muito moderninho, ele parece agora apenas chato.
  O ROMANCE DE UM TRAPACEIRO de Sacha Guitry com Sacha Guitry e Jacqueline Delubac
Guitry foi um star na França dos anos 30. Ator, cantor, escritor, dramaturgo, diretor de cinema e compositor. Fez alguns filmes muito relax e muito originais. Veja esta pequena maravilha....Com humor soberbo, conta a saga de um trapaceiro. Da infância até a idade madura. O filme não tem um só diálogo, ele é todo narrado por ele mesmo, à mesa de um bar. Dessa forma, vemos as cenas enquanto escutamos sua narrativa. O efeito, que poderia ser chatérrimo, funciona muito bem. Os motivos: a história é excelente e a voz de Guitry é charmosa. O filme tem cenas sensacionais e dá um prazer imenso. Como sempre falei, a França fez os mais metidos e chatos filmes da história. E também os mais leves e bonitos dos filmes. Este é um souflé! Nota 9.
  3 ON A MATCH de Mervyn Leroy com Joan Blondell, Ann Dvorak, Bette Davis e Humphrey Bogart.
De 1932, da Warner, o filme conta a história de 3 amigas de escola. Uma vira cantora, outra vira manicure e outra alcoólatra. O filme é mal desenvolvido. O roteiro é bem tolo. O mais interessante é que Bette Davis, ainda uma novata, faz escada para Ann Dvorak e Joan Blondell. Pior ainda é Bogey, que aparece só em duas cenas, já fazendo o tipo de bandido que ele tão bem sabia fazer. Os dois parecem de outro mundo em meio a um filme tão datado. Parecem atemporais. Há um menino neste filme, que deveria parecer doce, que me deu instintos assassinos!
 

sábado, 3 de outubro de 2015

C.S.LEWIS, O HOMEM NÃO É NATURAL

   Estou lendo um grande livro sobre o autor C.S.Lewis. Cerca de 50 filósofos, historiadores e escritores escrevem textos sobre os pensamentos e ideias de Lewis. Quando terminar de ler escreverei algo sobre a obra. O que desejo falar agora é sobre uma ideia central de Lewis que é muito próxima a certas coisas que acredito.
  Ele diz que o Homem não é parte da natureza. Natureza é tudo aquilo que nos cerca. O mundo, o universo são naturais. O homem, sempre intuitivamente sentindo-se fora de lugar, está em meio à natureza, mas nunca faz parte dela. Lewis então desenvolve essa ideia e chega à moral. Explico.
  Se o homem fosse apenas um grupo de células, e se a vida fosse somente um acidente, nada teria nos levado à moral. A hipótese de um costume histórico ou de uma invenção não se sustenta. Nosso mal estar perante o sofrimento, nosso apego a animais, nossa ideia de bem e de mal não se explicam se a vida for vista como acidente. Assim como a razão não se encaixa em um universo acidental. Se fosse o universo apenas uma explosão sem sentido, a razão não teria lugar nesse absurdo inconsciente de sua condição absurda.
  Todos esses pensamentos vão radicalmente contra o mundo pós Darwin. Lewis tem total compromisso com o sentido. E sua mais bela ideia é a que diz que a história tem sido, desde o renascimento, um caminhar reto e resoluto rumo a transformação do homem em desumano. Tudo aquilo que define um homem : moral, razão, alma, imaginação, história, tem sido cruelmente destruído. O homem se faz como um adorador da ciência, e ciência é voltada apenas e tão somente à natureza, àquilo que nos é dado pela vida lá fora. Para poder estudar o homem ela faz do homem mais uma parte da natureza, mais um acidente.
  Lewis diz que nesse mundo sem humanidade, só podem existir 3 modos de viver ( ou de estar ): o absoluto niilismo. O hedonismo radical. E a convivência angustiosa onde se procura desesperadamente um sentido onde ele foi negado. Mas haverá saída...
  Para cima e para dentro. Esse o mote de Lewis. E deixo com você esse mote para ser pensado. Para cima e para dentro.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

SEMENTE DIGITAL

   O peixe sempre voltava. E vendo o peixe se renovar o homem começou a ver a vida como roda. O que vai volta. Mais: tudo brotava após o inverno. A vida nunca termina, ela renasce.
   O homem via a vida como a natureza lhe mostrava, ciclos. A semente nasce e renasce após morrer.
   Mas o homem criou a máquina e com ela tudo mudou. A vida passou a ser vista como a máquina lhe mostra. E a máquina trabalha, se desgasta e vira sucata. Daí o fim das religiões possíveis. A vida se torna um mecanismo que falha e vira pó. Máquina não se renova.
   E então vem mais uma etapa, a vida virtual, limpa, sem ruído. E qual reflexo esse mundo terá no modo como vemos tudo ninguém ainda pode saber. A informática não é natural e também não parece perecível como uma usina ou um trem. Tenho a sensação de que entraremos num mundo sem tempo, sem linearidade, em que tudo será agora sempre. E nisso nossa alma não será destruída como fizeram as máquinas e nem vista como semente. Será uma virtualidade. Nossos corpos como hardware e nossa alma sendo o software. Ou o contrário.
  A se ver.

domingo, 27 de setembro de 2015

A BELEZA SALVARÁ O MUNDO - GREGORY WOLFE

   Para ser fiel ao seu autor serei breve.
 Wolfe é professor nos USA e crê em Deus. Se diz conservador. E explica o que é ser conservador. E lendo o livro entendo que eu sou um também.
 Reagan traiu os conservadores. Ele fez o que um conservador jamais faz: ideologia. Fez com que os USA engolissem um yuppismo fútil. E ainda o exportou para o mundo. Ideólogos pensam. E acham que seu pensamento deve ser dado ao mundo. São incapazes de olhar a realidade. Só percebem o que sua ideologia vê.
 Conservadores apenas deixam viver. Olham o povo e sabem que cada um deseja coisa diferente. E tentam dar alguma ordem a esse povo sempre e felizmente heterogêneo. O conservador ama a vida real porque é nela que mora o conforto. O fogo da lareira, uma sala, comida boa. E a natureza.
 Wolfe fala muito do puritanismo que deu aos americanos a vontade de dominar a natureza. Eles dominam a natureza, não vivem com ela. Vivem sobre ela. No puritanismo Deus é o homem. No catolicismo Deus é a criação. E a natureza é a criação.
 Por fim Wolfe defende a criatividade. Criar é um ato religioso e um mundo que faz e trabalha não dá valor a pura e simples criação. Wolfe defende a criação solta, abstrata, pura.
 Mais que tudo ele defende a civilização ocidental. Fundada numa moral popular ( a cristã ). O relativismo destruiu toda chance de civilidade. Se tudo é relativo tudo é ideologia e se tudo é ideologia tudo é solidão do eu que pensa e não vê. Ou pior, segue.
 Bom livro.

ROCK IN RIO 2015

   Há toda uma geração mimada que hoje faz rock. A gente nota isso no modo como eles se apresentam. O Sheppard mostrou bem isso. Uma banda bonitinha, da Austrália, imitando o pior do Fleetwood Mac. E não foi ruim. Foi um tipo de bailinho de 15 anos.
   Falei milhões de vezes que o rock é agora outra coisa. Sam Smith é rock. Visto em 2015 ele é rock. Faz soul diluído. Deve ter escutado bastante Jamiroquai. Seal. E Simply Red. Aprender a diluir com diluidores. Duvido que entenda Smokey ou Al Green. Esses caras tinham fome. E tinham fé. Sam Smith apenas canta.
   Elton John foi uma surpresa boa. Estava feliz e trouxe Dee Murray e Nigel Olsson. Solou ao piano. Bastante. E não tocou Honky Cat. Aliás seu repertório é tão rico que dava pra tocar mais duas horas só com hits. Rod Stewart envelheceu bem. Está bronzeado e bonito. Magro  e feliz. E trouxe várias mulheres ao palco. Isso ele aprendeu com Ferry. O show foi curto e ele não cantou as melhores músicas de sua carreira. Foi divertido. Ele sabe viver.
  O Motley Crue mostrou o destino do rock de arena dos anos 80.
  E o Metallica foi chato, melancólico, burocrático. Rock pesado tem de ser sincero. Não dá pra disfarçar. É excelente ou é ruim. O Faith No More foi tédio puro. Tudo neles parece mais do mesmo. Durante dez minutos parece ótimo. Depois vira martírio.
  Hollywood Vampires. Uma banda que fez rock com cara de rock. Tem visual, tem pose e tem festa. Adorei. Tocaram tudo: T Rex, Love, Spirit, Stones, Who....Alice Cooper ainda tem voz e Joe Perry está ótimo. E tá lá o Johnny....o cara sabe.
  Shows de Las Vegas são o grande lance do rock. Luzes, paetês e plumas. Dança. Tom Jones com Elvis. Ann Margret com Minelli. Isso tem sempre. Isso faz dinheiro.
  E tem as bandinhas do bem. Os bacaninhas fofos.
  Nada foi como Jack White. Ou Bruce cantando Raul.
  Foi balada.

The Hollywood Vampires with Johnny Depp at Rock in Rio 2015 Brazil (Full...



leia e escreva já!

sábado, 26 de setembro de 2015

CONSERVADORISMO

   Entram dois garotos no meio da aula interrompendo. Fazem propaganda de seu partido. Vai ter mais uma eleição. Falam e a sala boceja. Se vão.
   O professor comenta. Conta que eles são uma bela amostra da morte da palavra. Tudo o que eles disseram é verdade. Tudo é bem dito e bem intencionado. E tudo é vazio. O que eles falaram poderia ser dito por qualquer um em qualquer lugar. Pior, o que eles falaram é exatamente o que ele, o professor, ouvia naquela mesma sala 30 anos atrás.
   Em seguida ele nos dá um texto de Kafka. São apenas vinte linhas. Nenhuma das palavras é elaborada. A sintaxe é banal e o texto pode ser lido por uma criança. Mas as palavras voltam, nesse texto, a fazer sentido. Elas produzem sentido. E o mais incrível, produzem dúvida e inquietação. Para um ideólogo, é um texto politico. Para um religioso, é um texto judaico. Para um poeta, é poesia. Para um filósofo, filosofia.
  A ladainha da TV, do jornal, do cinema, do livro, das artes perdeu o sentido. Falar de mais uma tragédia é falar sobre o nada. As palavras se gastaram, a imagem se escureceu. É preciso uma nova linguagem. Porque hoje tudo parece piada velha ou mais do mesmo de sempre.
  Salto então para o livro do conservador Gregory Wolfe. Um de seus gurus se chama Niemeyer. Professor do Maine. Antes um fato: esses conservadores foram relegados ao esquecimento pela era Reagan. Os conservadores de Reagan são do mesmo naipe que os esquerdistas. Percebem a pessoa como consumidora, como ser ideológico que pode ser moldado à uma ideia. Ambos olham o mundo como lugar para fazer e não lugar dado para se aprender ao observar. O verdadeiro conservador olha. Reagan modificava ao molde sua cabeça. O iluminismo criou a noção, falsa, de que pessoas e natureza devem se moldar a razão. Esquerda e direita, as duas acreditam nisso.
  O segredo é observar e ver o que é.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

" When things get too serious - Throw in a banana."
                                                                                                              Kevin Ayers.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

E O PROFESSOR FALA DO SÍMBOLO.

   E não é que o professor que tanto entende de Freud, de alemão, de holandês, de dinamarquês, também se revela alguém que compreende e consegue fazer o mais materialista dos alunos entender o que seja o "símbolo" ...
   Quando uma obra de arte, seja texto ou imagem, tem um significado oculto, mas que é revelado aos poucos e para alguns escolhidos, temos uma "alegoria". O Paraíso Perdido de Milton é uma alegoria. A Divina Comédia de Dante é uma alegoria.
   Porém, quando uma obra tem uma linguagem, uma imagem, que nem mesmo seu autor consegue a explicar, essa imagem se explica por si-mesma, e acende em cada pessoa um significado particular, aí temos o "símbolo". O símbolo não pode ser explicado. Ele diz uma coisa, simples e secreta, a cada um. Digamos que ele fala aquilo que as palavras não conseguem dizer. Ele se situa além da linguagem e antes da história.
   Baudelaire fala por símbolos. Assim como Rimbaud. Você pode os traduzir, mas a sua interpretação nunca é a definitiva. O símbolo é inesgotável.
   Isso não significa que o símbolo é superior à alegoria. Milton é maior que o simbolista Verlaine. Mas Verlaine rende mais discussão. Whitman nunca é simbolista. Mas o americano é maior que Leopardi, que usa símbolos. ( Aliás, americanos têm uma enorme dificuldade de lidar com símbolos ).
  A religião é toda símbolo. Mas a igreja é alegoria. Ela tenta dar sentido único a coisas inesgotáveis como a cruz, a pomba ou o milagre. Toda a história de Jesus Cristo é um símbolo, portanto atemporal, inesgotável e particular. Não se traduz em discurso, ela é como um suspiro. A igreja a toma para sí e a traduz. Faz do símbolo uma alegoria e mata sua evolução.
  O marxismo fez o mesmo com a história, a psicanálise com o inconsciente, a crítica literária com a prosa. Pegaram o particular e o transformaram em alegoria universal.
  O símbolo é a prova de que o tempo nada é daquilo que achamos saber. Ele flui através do futuro ao passado e reflui ao presente, renasce a cada nova leitura e nega o certo e o errado. Como diz Gregory Wolfe, a arte abstrata, Kandinsky, Klee, são os verdadeiros artistas, porque eles criam aquilo que passa a existir a partir do nada. Quando Klee pinta uma "coisa" ele a cria do absoluto vazio. Ao contrário de Rembrandt ou de Vermeer que nada criavam, na verdade copiavam, genialmente, aquilo que já existia no mundo, artistas com Marc ou Miró inventam símbolos que surgem do nada e com nada anterior se parecem. São criadores de fato, como criadores foram os homens que desenharam mandalas, símbolos celtas ou intrincados labirintos hindus. Nesse sentido, que não julga mérito, julga criação, Cézanne é o primeiro criador a surgir desde o século XV. Entre Giotto e Cézanne todos foram imitadores.
  Entendeu my friend.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

CONSIDERANDO TODAS AS COISAS- GK CHESTERTON

   Artigos de jornal escritos por Chesterton por volta de 1907. São textos enxutos que nos ensinam a raciocinar. O brilhante autor inglês comenta tudo, e sempre com seu humor afiado, leve. E profundo. Os temas vão desde livros de autoajuda, à política parlamentar. Chesterton tem posições claras: ele leva sempre em consideração aquilo que o povo ama e deseja. Ele dá belas estocadas nos aristocratas, demagogos, falsos artistas.
  São tantas frases e conclusões brilhantes que prefiro não destacar nenhuma. Leia o livro, ele saiu agora e é fácil de achar. Todos os artigos são interessantes e não perderam sua atualidade. Ele percebe o ponto tolo de coisas que parecem certas e superiores. Diz que para se saber para onde vai o mundo basta se observar aquilo que o povo lê, pensa, vê. Os intelectuais vivem em um mundo fechado, morto, auto referente. O povo, bem ou mal, constrói o futuro. Erram, acertam, mas são eles que nos informam a história. Chesterton é um democrata radical.
  Não resisto é digo que sobre os livros de auto ajuda ele diz que eles promovem o culto religioso ao dinheiro, reduzem todo o sucesso da vida ao ganho monetário. E são escritos por fracassados que nem mesmo sabem escrever. É nessa linha a filosofia de Chesterton, ele joga diante de nós o lógico que insistimos em não ver.
  Este livro evita o lado religioso de Chesterton. Ele deixa claro seu catolicismo, mas acima de tudo é um racionalista lógico, demonstra que tudo é uma questão de querer acreditar, seja ciência ou história. E defende a moral humana contra o sofismo. Existem regras que são certas porque funcionam. E nenhum exercício mental consegue as cancelar. Matar sempre é um mal. Mentir também.
  Mais escritores deveriam ser como este moralista. Chesterton nos faz espertos e alegres.

sábado, 12 de setembro de 2015

SÁBADO- IAN MCEWAN

   A ideia dominante na escrita atual: se você escrever detalhadamente TUDO o que você faz, sente e pensa; você automaticamente terá escrito um grande romance. Uma bobagem pensar assim. Primeiro: Essa afirmação dá a falsa certeza de que escrever é mais uma questão de paciência que de criação. Segundo: O caminho para entediar o leitor fica aberto. Terceiro: A verdade, a realidade é impossível de ser capturada. Principalmente por meios verbais.
  Ian McEwan conta um dia na vida de um neurocirurgião. Um sábado em que esse médico, rico, bem sucedido, quarentão, casado, pai de dois filhos, acorda de madrugada e vê um avião cair em Londres. Na sequência ele sofre um leve acidente de trânsito, joga squash, faz um jantar e recebe o sogro, poeta famoso, para jantar. Nessas 24 horas de agitam, dentro desse homem, lembranças, medos, desejos, pensamentos comuns, dúvidas, ansiedade. Well....eis a receita de mais um livro chato. De mais um dos milhares de sub-Ulysses. A saga do homem moderno. Mas, que sorte!, aqui há uma ressalva: Ian tem talento e sua escrita, fluida, sinuosa, simples sem ser fácil, salva o romance. Ele é lido com prazer. O médico, um homem racional, objetivo, científico, nunca parece caricato. Sem ser uma personagem "encantadora", muito menos um herói, nós o acompanhamos com interesse. E dentre seus charmes está o dom que ele tem de explicar tudo através da geografia do cérebro. Ele conhece o órgão, seus segredos, sua massa, desconhece muito, quase tudo, da vida. As coisas o surpreendem e sua saga é essa, descobrir que as consequências de seus atos são incompreensíveis.
  Nunca tão genial como em Reparação, este livro é uma linda escolha. Leia.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

JIM BROADBENT- MAGGIE SMITH- VINCENT PRICE- ELSA LANCHESTER- WELLMAN- FARROW- MANKIEWICZ

   LE WEEK END ( FIM DE SEMANA EM PARIS ) de Roger Michell com Jim Broadbent, Lindsay Duncan e Jeff Goldblum.
Nick Drake canta Pink nos créditos finais. E a última cena tem o trio central imitando Samy Frey, Anna Karina e Brialy na mítica dança desajeitada em Bande a Parte de Godard. Dito isso você poderia pensar que este é um filme moderninho. Não é. Ele é adulto, sério, bonito e maravilhosamente bem interpretado. Um casal inglês de meia idade vai à Paris para reavivar sua relação. Mas tudo dá errado. No processo encontram um amigo do marido, vão à festa, mudam de hotel e falam falam e falam. O roteiro, de Hanif Kureishi é inteligente. Os diálogos são espertos e sempre parecem naturais. E tudo é levado por um Broadbent patético, frágil, carente, e mesmo assim simpático; e uma Duncan insatisfeita, ácida, ansiosa e ainda bonita. Eles pedem uma chance para viver. Os atores, apaixonantes, lhes dão vida. Jeff está cômico, a gente adora ele. O filme é bem melhor do que eu esperava. É grande. Nota 8.
   VICE de Brian A. Miller com Bruce Willis, Thomas Jane e Ambyr Childers.
Uma ridícula mistura de Blade Runner com Ano 2020. O filme é assustadoramente ruim. Chega a ofender de tão fake. Burro. Bruce se aposentou. Ele tem feito filmes, mas está aposentado. Passa o tempo todo como um boneco. Ele é o dono de uma empresa que usa androides para realizar os sonhos dos clientes. Uma androide foge. O visual tem o pior dos anos 80 e o roteiro o pior deste século.
   MINHA QUERIDA DAMA de Israel Horovitz com Kevin Kline, Kristin Scott Thomas e Maggie Smith.
Desagradável, é um drama sobre uma vida fracassada. Kevin herda do pai uma casa em Paris. Mas a casa tem mãe e filha como moradoras. Ele só poderá tomar posse da herança após a morte da velha. Parece comédia...não é. Negro e árido, antipático, o personagem de Kevin é tão derrotado que chega a causar repulsa. É um filme sem prazer. Mas não de todo ruim, pois tem ótimo elenco e uma tentativa de ser profundo. Faz parte da onda de filmes que falam da maturidade. Onda que deverá aumentar cada vez mais com o envelhecimento da população mundial. China e Índia, países ainda jovens seguram os filmes teen, a Europa e parte dos EUA faz muito que passaram da idade média dos tens. Dou um 4 para este filme.
   O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD 2 de John Madden com Maggie Smith, Richard Gere, Bill Nighy e Judi Dench.
Tudo errado. O primeiro filme foi uma bela surpresa, mas este parece histérico, forçado, exagerado. A história nunca engrena, o humor é duro e as cores carnavalescas. Esqueça.
   O SOLAR DAS ALMAS PERDIDAS de Lewis Allen com Ray Milland e Ruth Hussey
Casal de irmãos compram uma casa numa praia deserta. Mas a casa tem um segredo...Que filme estranho! Não é um grande filme, mas causa uma grande impressão! Ele tem algo de muito doentio nele, parece o interior da mente de um neurótico. É feio, rígido, desagradável. E um pequeno clássico dos filmes de horror. Nota 7.
   O RELÓGIO VERDE de John Farrow com Charles Laughton, Ray Milland, Maureen O'Sullivan e Elsa Lanchester.
Um grande filme com um roteiro maravilhoso. Ray é um executivo entediado que pede demissão. Mas sem perceber ele é envolvido num assassinato. O filme mostra sua desesperada tentativa em se manter limpo. Há um clima de paranoia em todo o filme. Farrow, um diretor sempre esquisito, cria cenas inverídicas, mas sedutoras. Laughton está asqueroso, e Elsa Lanchester rouba o filme como uma artista sem talento e muita confiança. Uma diversão diferente, um filme original. Nota 8.
   CARAVANA DE MULHERES de William Wellman com Robert Taylor, Denise Darcel e John McIntire.
Wellman foi um diretor heroico. Sempre ousado, ele foi um dos inventores daquilo que conhecemos como cinema de ação. Aqui, já veterano, ele faz um western original. Um homem conduz uma bando de 100 mulheres, através de território de índios e clima hostil, até a Califórnia, onde irão se casar com um bando de pioneiros. O filme, sem nenhuma trilha musical, capta e amplifica os sons da viagem: rodas, cavalos, panelas, vento, vozes. Tudo fica como um tipo de documentário de ficção. Nada tem muita ênfase. As coisas acontecem, sem preparação, pouca cinematografia. Um filme que fracassa, é pouco interessante; mas ao mesmo tempo é um triunfo, Wellman consegue fazer acontecer. O filme é o que ele quis que fosse, um anti-western. Nota 6.
   O SOLAR DE DRAGONWYCK de Joseph L. Mankiewicz com Gene Tierney, Vincent Price, Walter Huston e Anne Revere.
Mankiewicz foi um privilegiado. Seu primeiro filme já é uma produção classe A. Após dez anos como produtor e roteirista, ele começa sua carreira de sucesso na direção com este prazeroso filme sobre maldição, sedução e diferença de classes. Daí para a frente ele ganharia quatro Oscars e faria mais de cinco clássicos do cinema ( A Malvada entre eles ). Gene, a mais linda das atrizes, é uma ambiciosa filha de agricultores que em 1844 vai morar com um primo rico. Lá ela irá cuidar da filha desse primo. Mas ele logo se torna viúvo e se casa com ela. O primo é feito por Vincent Price. E é este filme que definiu seu futuro. É hipnótica a sua atuação. Ele se equilibra bravamente entre o sublime e a canastrice. A voz sempre majestática, o olhar pura maldade. O filme, uma diversão sem fim, é clássico dos clássicos. A ver e rever sempre. Nota 9.

domingo, 6 de setembro de 2015

O OLHO IMÓVEL PELA FORÇA DA HARMONIA- WILLIAM WORDSWORTH. O POETA DA NATUREZA.

   É um grande chavão dizer que Wordsworth é o grande poeta da natureza. Mas nada pode ser mais verdadeiro que isso. O inglês funda o romantismo inglês, e se na Alemanha ser um romântico significa ser um místico e na França ser um revolucionário, nas ilhas ser romântico é amar a natureza. E nisso ninguém se compara a Wordsworth.
  Romancistas, filósofos, dramaturgos, contistas, cronistas, historiadores...e poetas. São os fazedores de versos aqueles que mais amamos. Nossa relação com eles é a mais visceral. Admiramos romancistas, nos exaltamos com filósofos, mas nos apaixonamos por poetas. E são eles os símbolos das nações. Goethe, Dante, Camões, Whitman, Hugo, Pushkin, cada um é a alma de um país ( Único adendo é a Espanha que tem Cervantes como sua alma maior ). E eu sou fiel a meu amor, Yeats é meu poeta, alma da Irlanda. Mas Wordsworth é tão grande quanto o irlandês, se não for ainda maior.
  Ele leva a alturas abissais a relação do homem com a natureza. Esse amor apaga a dor porque apaga o individualismo. Nega o tempo, faz do presente a eternidade. O homem só é feliz na natureza. Reação a transformação do industrialismo, a fuga dos camponeses rumo às cidades, o poeta canta e dá luz àquilo que ele intuía: o fim de um mundo. O poeta é aquele que faz a memória viver. Como ele diz: O poeta olha para trás e para a frente. ( Não olha o agora ).
  Ele canta a criança também, essa invenção romântica. Criança antes era apenas um aprendiz de adulto. Aqui ela se torna um ser sábio, alguém que sabe mais que o homem. "A criança é o pai do homem". Outra missão do poeta, fazer da criança uma presença constante e central.
  Wordsworth é o mestre de Whitman. Ambos cantam a estrada aberta. A diferença é que o americano vive na América, claro, e isso significa mais espaço aberto e a fé na democracia. O inglês, europeu sempre, é mais cotidiano, mais voltado ao passado, tem um traço de saudade que inexiste em Whitman. Ambos são curativos, saudáveis, otimistas, confiantes, vivos.
  Wordsworth é um de meus cinco poetas favoritos. Eu amo seu modo simples de falar, as imagens que só ele vê, a ligação que ele estabelece com a água, o céu e as pessoas do campo. Ele caminha e sente e canta e vive. Se maravilha, recorda, sonha e canta mais. Percebe como uma criança, sente a novidade, continua, persiste. E assim nos reabilita.
  Na bela tradução de John Milton e de Alberto Marsicano, este é um livro precioso.

sábado, 5 de setembro de 2015

RABINDRANATH TAGORE

   Tagore foi tratado pela Europa, principalmente pelos ingleses, como uma espécie de messias. Ele era o poeta que anunciava a poesia nova, a poesia da alma. Tagore desfilava pelas cidades como arauto a anunciar a verdadeira filosofia da poesia do século XX. O poeta deveria voltar a ser o visionário, o homem encarregado de unir o mundo visível ao mundo invisível.
   Logo o Nobel lhe foi dado e Tagore se tornou cada vez mais inatacável. Contra a transformação do planeta, cada vez mais sólido e mecânico, havia o mundo de Tagore: a Índia. Promessa de espiritualidade. Ele caiu como benção sobre a alma de simbolistas, impressionistas e até mesmo dos modernistas. Tagore era uma espécie de homem do passado mísitico, vivo e entre nós.
  O tempo o colocou em esquecimento. A onda indianista dos anos 60 já o ignorou. Tagore de repente parecia comum. Esqueceram que para o ocidente ele foi o primeiro. Uma pena. Sua poesia continua sendo linda e sua filosofia ainda é sem falha. Ele fala do mistério. Um mistério compreensível. Não é hermético, é confiantemente sóbrio. Sábio.
  Compro este livro, uma coletânea de versos, e me deleito lendo poemas ao acaso. Sua voz canta e acalma. Atemporal.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

CRÍTICA LITERÁRIA FREUDIANA, UMA AULA LINDA.

   Uma aula soberba sobre crítica literária. O professor, o mais enciclopédico possível, nos dá uma visão do modo psicanalítico de se analisar a literatura. Para tanto, ele nos traduz termos germânicos, conta fatos da vida de Freud, e exemplifica as interpretações que o homem de Viena dava a certos autores.
  A aula é fascinante e percebo, com alegria, que superei a muito essa visão empobrecedora freudiana. Sigmund foi um grande cara. Mas seus problemas emocionais ( uma resistência doentia em baixar a guarda e aceitar os limites da razão ), além de um narcisismo que via em todos um espelho de si-mesmo, fizeram de suas teorias uma espécie de consolo racional explicativo para todos aqueles que temem a vida. Ele dá farrapos de teorias jamais provadas, joga hipóteses maravilhosamente bem engendradas, pílulas de liberdade redutora para os que morrem de pavor do não-explicável.
  Fã extremado de Goethe, ele sonhava em ser o titã do século XX. E ao mesmo tempo invejava Goethe por ser tão "alemão". De tudo que o professor disse, destaco dois temas dentre vários.
  Freud achava que o impulso criativo nascia de um sofrimento. A dor fazia com que um homem criasse. Essa é uma visão assustadoramente não-imaginativa. Freud tinha uma bela imaginação, mas ele acreditava que sua imaginação era a verdade. Pensava então que esse mistério, a arte, era um tipo de compensação. Incrível ele ter escrito tamanha tolice. Existem artistas felizes assim como existem infelizes que trabalham em banco. Glamurizar a tristeza é jogo feito por todos, artistas ou não. Há artistas que são absolutamente livres, há pessoas reprimidas que não criam arte ou fantasias. Difícil comentar uma teoria tão pobre.
  Pior é a teoria do "medo de ser enterrado vivo". Essa neura, que atacou Poe, Kafka e Chopin, dá ao sofredor a obsessão de se imaginar enterrado e acordando no caixão. Um pavor imenso. Freud dizia que isso era o medo de voltar ao útero, o medo de estar vivo num buraco....como diria Francis: Well....
  Existe uma outra tentativa de explicação que conto aqui:
  O medo de ser enterrado vivo é, lógico, medo de ser colocado dentro da Terra. Paralisado num caixão, no escuro, você não pode fugir, está numa armadilha. Escuro é contrário a luz, luz é sinônimo de razão, estar no escuro, preso, é como perder sua luz e sua liberdade, ou seja, a razão. Medo que nasce em pessoas que não aceitam sua condição terrestre, essa neurose joga na mente da pessoa a surpresa de se ver como é: terrestre, limitado, preso na vida que nasce do chão, joguete nas mãos do destino, falível.
  Contrária da volta ao útero, essa fobia é medo do futuro e do presente, sentir-se preso a sua condição amarrada, no escuro dos instintos. Nada de mamãe. Nada de infância. O contrário disso.
  Quero deixar claro que o professor falou, e muito, sobre as teorias de Sigmund e não a criticou, a crítica é minha. A aula era sobre teoria freudiana e não sobre crítica à essa teoria.
  Ele nos falou ainda sobre um sonho de Da Vinci, em que através dele Freud chega a conclusão de que ele era gay. E também uma lembrança de Goethe, em que lendo esse texto Freud descobre ser Goethe muito amado pela mãe. O doutor se via quase como um deus. Descobrir tudo sobre alguém que você nunca viu, analisar uma personalidade inteira via um simples fragmento escrito ( Freud nunca leva em conta a mentira da criação ), é mais que uma análise, é um milagre! Da Vinci era um tipo de rival de Freud, um gênio que queria saber tudo, e o vienense o desqualifica numa visão preconceituosa. E Goethe era sua anima, ele luta para ver coincidências entre os dois.
  Muito divertida essa aula.
  PS: Dedico este texto a meu amigo Léo.