terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ALTMAN/ MARTIN RITT/ REX/ CHABROL/ DENZEL/ JOHN WOO/ THE FIGHTER

A FORTUNA DE COOKIE de Robert Altman com Julianne Moore, Glenn Close e Liv Tyler
Quem leu o livro de Biskin sabe que após o sucesso, Altman se dedicou a sempre ser surpreendente. E também a destruir suas chances de ser pop. Mash é uma obra-prima de anarquia, liberdade e humor; mas Altman nunca mais conseguiu chegar perto desse cume. McCabe e Mrs Miller é um maravilhoso western melancólico e junkie, Short Cuts é um dos melhores filmes dos anos 90 ( se não for o filme da década ), mas no geral, a carreira desse diretor de marca e toque tão original foi uma sucessão de filmes que quase chegaram lá. Neste filme, fora o ótimo elenco ( todos os filmes de Altman têm ótimos elencos ) sómente o clima de "deep south" pode manter o interesse do público. O filme é flácido. Nota 3.
PARIS BLUES de Martin Ritt com Paul Newman, Sidney Poitier e Joanne Woodward
Entre 1955/1963 vários filmes foram feitos sobre jazz. O estranho é que os filmes que melhor mostram o que era o jazz, são aqueles que não eram especificamente sobre o jazz, mas sim os que tinham o espírito, a alma da música negra. Filmes sobre assaltos, sobre a publicidade ou sobre tribunais. Este é sobre dois músicos de jazz morando em Paris. Eles se apaixonam por duas turistas americanas que tentam fazer com que ambos voltem para os EUA. Mas isso seria abrir mão de uma carreira. O filme é estranho. Tem 3 atores excelentes, mas nenhum deles brilha, porque seus personagens são muito superficiais. Mas em compensação, tem Paris no auge de sua beleza suja e boêmia. Olhar para aquela cidade cinza, feita de bares, becos e bancas de rua é um imenso prazer. A trilha sonora é de Duke Ellington e há uma cena de improviso com Louis Armstrong que consegue ir à raiz do que significa jazz. Nada mal, mas podia ser muito melhor. Martin Ritt foi um muito importante ( e pop ) diretor dos anos 50/60/70/80, um tipo de Sidney Pollack com consciencia social. Nota 6.
O ROLLS ROYCE AMARELO de Anthony Asquitt om Rex Harrison, Jeanne Moreau, Shirley MacLaine, Alain Delon, George C. Scott, Ingrid Bergman, Omar Shariff
Asquit, diretor inglês rei da finesse, dirige este caro projeto que acompanha a "vida" de Rolls amarelo. São 3 histórias: na primeira ( a melhor ) vemos um tipo de nobre inglês, que ao presentear a esposa com o carro, descobre que ela lhe é infiel. Harrison dá um show de sutileza como esse marido ferido. O momento em que ele diz ( à Jeanne Moreau ), "de agora em diante odiarei cada minuto da minha vida", é momento de alta arte. O segundo episódio, sobre gangster e prostituta em viagem a Itália, é bem mais fraco. No terceiro, vemos o Rolls já velho na segunda guerra. O valor do filme está em sua bela técnica e no excelente primeiro episódio. Nota 5.
THE CRIMINAL de Joseph Losey com Stanley Baker
Que ótimo diretor Losey foi. Americano, perseguido pelo MacCarthismo, reergueu sua carreira na Inglaterra. Seus filmes são sempre duras críticas a sociedade. Aqui, em mundo de gatunos vagabundos, acompanhamos Baker como um presidiário. Na prisão ele é rei. Ao sair, tenta um golpe, mas tudo acaba saindo de seu controle. O filme é sexy, seco, nada "simpático". Stanley Baker faz tudo aquilo que Clive Owen tenta; eis um ator que eu não conhecia e que me agradou bastante. Trilha sonora genial, fotografia de Oswald Morris, elenco inteiramente afiado. Um belo filme sobre o lado podre da Inglaterra da época. Nota 7.
AS CORÇAS de Claude Chabrol com Stephane Audran, Jacqueline Sassard e Jean-Louis Trintignant
Uma entediada "burguesa" seduz moça na rua. Leva-a para viver em sua casa do campo, onde vive um casal gay. Mas surge um amigo que desfaz essa falsa paz. Nouvelle Vague de 1968, ou seja, de sua segunda fase, muito mais radical e muito menos interessante. O filme é seco demais, árido, sem emoção. Essa falta de emoção é proposital, mas o que ganhamos em troca ? O filme acaba sendo apenas uma tese sociológica sem clima ou charme. Nota 3.
INCONTROLÁVEL de Tony Scott com Denzel Washington e Chris Pine
Quem foi o mala que inventou esse estilo de filmagem ? Essa coisa de não nos dar a menor chance de pensar, ou pior, de escolher o que olhar em cada take. Veja como é : se o cara fala e acende um cigarro, a câmera dá close no cara falando, desce ao cigarro e volta ao rosto. O que é isso ? É muito fácil interpretar assim, é muito fácil filmar assim; voce não precisa interagir com outro ator, voce não precisa compor a cena, arrumar um grupo de atores. É tudo feito um a um, pedaço por pedaço. Miséria estética absoluta. Closes, closes e mais closes. Quem inventou isso ? Tony Scott, por volta de 1985 com Top Gun, um filme sobre aviões que passava todo o tempo dando closes no rosto e no braço de Tom Cruise. Aqui vemos um trem descontrolado. E é só. Denzel, ator maravilhoso, nada tem a fazer, passa o filme todo sentado. Uma geração inteira está sendo deseducada. Além de não terem mais a paciência de assistir algo que não as esbofeteie todo o tempo, estão perdendo o dom de olhar. Nota 2.
ALVO DUPLO de John Woo com Chow Yun Fat e Leslie Cheung
Dois irmãos: um é policial, outro é bandido. O bandido tenta se redimir. Woo inventou o moderno tiroteio. Ele é o cara que criou essa coisa de várias pistolas se apontando ao mesmo tempo ( não foi Quentin ) e também a famosa cena da explosão às costas do herói que anda indiferente. Aqui há uma sinfonia de sangue, pulos, tiros, dor e carne estilhaçada. E ritmo. Apesar da péssima trilha sonora ( esse é o grande defeito dos filmes de Hong Kong ) é um absorvente filme policial. Quem me lê sabe: voces estão testemunhando um cara descobrir toda a riquesa de um continente de cinema. Nota 6.
THE FIGHTER de David O. Russel com Mark Wahlberg, Christian Bale, Melissa Leo e Amy Adams
Não é um filme sobre box. É sobre familia. Mas é daí ? Quero dizer, o que está acontecendo? Este filme é ok, mas é um filme de tv. ( Ou o que era antigamente um tipico filme de tv). As imagens são banais, a história muito "humana" e muito simples, e os atores fazem apenas seu feijão-com-arroz de sempre. ( E mesmo Bale, que voltou a Robertdeniromente tentar impressionar com sua transformação física, está apenas ok. Às vezes ele parece um cara interpretando e não um personagem ). Este filme, que é um Rocky I bem piorado ( Rocky I emociona ), não é ruim, não mesmo. Mas concorre a vários prêmios no Oscar. Bem... acho que essa coisa de Oscar já era. Ou o cinema já se foi... as lutas são especialmente mal filmadas. Este filme me deu uma vontade imensa de rever Mean Streets ( quem já teve a honra de ver essa obra-prima de Scorsese sabe do que falo. As cenas de Mark com Bale tentam se parecer com aquelas de Keitel com De Niro e jamais chegam perto ). Quem quer ver um grande filme de box, veja The Set Up de Robert Wise, e quem quiser ver um grande filme... fuja. Mas ele não é ruim, é mediocre. Nota 4.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A FERA NA SELVA - HENRY JAMES ( VIVER NÃO DÓI )

Devastador. Esta novela ( 70 páginas ) do maior escritor americano da história, é devastadora. Qual é o segredo da escrita de James ? Não há como saber, ele dá voltas, vai de ponta a ponta, disseca aquilo que a personagem sente, descreve o que ela pensa, divaga um pouco, dá mais voltas, aprofunda-se, faz-se símbolo e de súbito, clareia tudo. É um modo de escrever, um estilo, insuperável. Apenas Proust ou Stendhal escrevem tão bem. No meio da leitura pensei em quartetos de cordas.
Este livro traz a história de um casal. Um casal que travou contato em Nápoles, dez anos antes. Se reencontram em Londres e reatam sua amizade. Ele tem a crença de que um tipo de "fera" irá saltar sobre seu corpo. Algo de muito cruel e urgente irá lhe acontecer. Por causa disso, ele passa a vida com apreensão e mantém aparência controlada, distante. Ela se torna sua confidente, faz-se uma cumplicidade.
Os anos passam, a situação se mantém ( e nós intuimos que ela o ama com paixão ) e quando ela morre algo de muito terrível acontece. A maldição se cumpre.
Em autor sem gênio seria apenas a história de um homem egoísta e sua relação com amiga que o ama. Em Henry James isso se torna cósmico. Ele jamais nos conta o que está se passando, apenas vai nos dando pistas, nos ensinando a ver, deixando-nos em dúvida e rumando, sem hesitação, para o único e horrendo fim possível.
Não vou, mais uma vez, falar da beleza superlativa da escrita de James. O que vou é citar uma frase deste livro admirável :
" Não seria o fracasso ir a falência, ser humilhado, exposto ao ridiculo, acabar na forca; o fracasso era não ser coisa alguma."
Em meras 70 páginas, esse gênio da escrita, nos exibe sem dó ou afetação, a dilacerada vida de alguém que nada foi pois nada precisou ser. O egoismo inocente dando impotência e morte a um homem tolo, distraído, ausente.
No fim dessas poucas páginas, que possuem peso de saga, está explícita a dor de não se saber como viver. E genialmente, Henry James nos convence que tudo pode ser suportado em vida; a injustiça, a fome ou a violência. Mas que a dor da covardia, de ter se vivido na virtualidade do que iria ser e nunca foi, do que aconteceria e jamais aconteceu, essa dor é a dor das dores, a dor de não se ter um rosto, de, como o personagem percebe tarde demais, nunca se ter chorado uma dor real, nunca se ter deixado estravazar uma emoção inteira.
O livro, lido em duas horas com fome e paixão, é uma obra-prima.
PS : Que bela edição da Cosac Naify ! A capa em cor de mármore ( o mármore fecha o relato ), o texto começando em páginas finas e brancas e terminando em papel negro e grosso. A cada página que viramos o papel vai se tornando cada vez mais escuro, indo do branco ao prata, ao cinza e ao chumbo, e a textura, o peso, cada vez maior. Exemplo perfeito de projeto gráfico que não é apenas bonito, ele se integra ao que se lê. Nota dez. Digno de Henry James.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O GRANDE BAZAR FERROVIÁRIO- PAUL THEROUX

Autor do "Costa do Mosquito", Theroux é um dos autores americanos centrais dos últimos trinta anos. Este livro, escrito em 1973, publicado em 75 ( no Brasil em 2005 ), conta a viagem de Paul através de Europa, Oriente, Indochina, Japão e finalmente, Sibéria. Tudo de trem, pois o grande objetivo dessa viagem é o trem, a sensação da viagem por trilhos, por estações em cidades pequenas, o desfilar das paisagens pela janela, os contatos travados com seus companheiros de trip.
A viagem pra valer começa na Turquia. E logo aí, percebemos o ponto central do livro: o narrador é extremamente crítico, suas decepções são constantes. Da Turquia fica a imagem do mítico Trans-Europe Express, agora sem seu luxo de outros tempos, a imagem de um país confuso, hostil, cheio de "jeitinhos". Ele cruza depois o Afganistão, país que ele diz ser uma ficção, um sub-país ( o livro é de antes do politicamente correto. Theroux chega a chamar um país de "verme do mundo" ).
O melhor trecho do livro ( e mais longo ) é sua viagem por Paquistão, India e Ceilão. As coisas que são descritas chegam ao absurdo pleno e total ( " A India é uma ficção " ). Delhi como cidade que cheira a dinheiro, Calcutá como sordidez sem fim, a fome devastadora, a ganância, os rituais absurdos, a religião sem sentido, crianças se prostituindo, aleijados, esmolas. Voce lê e sente tudo aquilo. Cores, barulhos ( nada é mais barulhento que um indiano ), odores.
A visão de mundo de Theroux é hiper-americana, então vemos o quanto ele julga tudo o que vê em lentes e balança ocidental. Comparar sua visão sobre a India com aquela de Octávio Paz é comparar duas visões completamente opostas. O americano está sempre procurando conforto, comida boa, e indagando o por quê de tudo aquilo. Paz simplesmente mergulha na India. Não julga nada.
Mas eu logo começo a perceber o quanto o mundo mudou de 1975 para cá. Coisas hoje normais ainda o chocavam então. Paul Theroux se surpreende com prostitutas infantis e com a mania oriental do suborno. Para se conseguir qualquer coisa tem de se pagar por fora. Chegamos então a Singapura e outra idéia surge: o mundo do futuro ( que é nosso mundo de hoje ) foi inventado no Oriente. Se voce agora, 2011, quiser saber como será o planeta em 2031, ande por lá.
Em Singapura ele fica revoltado com a mania de receber noticias, correio e propaganda via fax. Ele vê nisso invasão de privacidade, transformação do privado em público, asfixia do original em cada um, conformidade ao todo. Singapura exala dinheiro e controle. As pessoas são presas por pisar na grama, são torturadas por jogar lixo na rua, e o governo, totalitário, vive em função do turista americano, de se fazer uma ilha da fantasia para quem vem de fora.
Chegamos ao Vietnã. Recém saído da guerra. Paul se encanta. Vê as paisagens mais lindas da viagem e percebe que todo o país é um imenso bordel. Tem uma revelação : ao contrário do que faziam Inglaterra e França, os EUA em todas as suas guerras jamais desejou colonizar um país. Os EUA nada constroem de sólido nos países invadidos, nada tentam implantar de definitivo. As guerras americanas são punições a quem não se comportou bem. Guerras descartáveis, irresponsáveis, sem nada de planejado.
Vem o Japão, e é aí que o choque se completa. Apartamentos minúsculos ( hoje não nos chocam mais, se espalharam pelo globo ), trens que correm demais e mal param nas estações, e um povo que corre ao futuro, mas que jamais deixa de ser como no passado. Quadrinhos de sexo e sangue, shows de sexo com tortura e mutilação, a tara por lâminas e por meninas. O japonês assistindo pornografia sem parar, bebendo sem parar, consumindo sem parar. E ao mesmo tempo parecendo calmo, antigo, familiar, tradicional, caseiro. Em 1975 nosso universo de 2011 todo já presente lá. Metrôs cheios, ruas onde ninguém se fala, a solidão em calçadas repletas. E máquinas que fazem tudo e acabam dirigindo a rotina da vida.
E a Sibéria, com sua paranóia pura, lugar mais deprê do mundo, álcool para poder aguentar.
Theroux passa ainda pelo Irã antes da revolução ( época do Xá ) e pelo Sri Lanka com sua fome inimaginável e suas milhares de religiões. O inacreditável Calcutá, sexo bizarro em todo canto.
Ele se choca com o fedor de todo o oriente, com gente nua nas ruas, com crianças sem pais. E ao mesmo tempo com a falta de cheiro do Japão, com uma mulher elegante que recolhe a sujeira de seu cão na rua ( invenção japonesa ), com o vazio absoluto de uma sociedade onde tudo funciona com rapidez.
É um livro delicioso, nervoso, moderno, pegajoso, quente. Paul Theroux sabe escrever e sabe ver.

AS VIAGENS DE GULLIVER - JOHNATHAN SWIFT

Henry Fielding, Laurence Sterne, Dr Johnson, Samuel Richardson, Daniel Defoe, Tobias Smollet e principalmente Swift, o insuperável Swift. Escritores que inventaram o romance como o conhecemos hoje, homens que na explosão da revolução industrial souberam satisfazer um novo público, ansioso por leitura, por letras, por conhecimento. Todos utilizaram a sátira, o picaresco, sexo e escatologia e uma gloriosa imaginação. Pois mesmo no mais inconformado deles ( Swift ) o que se nota é uma imensa auto-confiança, fé em seu poder de escrita, fé no público leitor, a certeza de se estar em momento decisivo da história.
Gulliver é famoso por ser o marinheiro que surge após naufrágio em terra de anões ( Lilliput ). Mas o livro é muito mais que isso. Ele depois vai a terra de gigantes, e no episódio mais "sonhador" do livro, aporta em terra onde homens são cavalos e os cavalos mandam. Na volta a Inglaterra, Gulliver não consegue mais se adaptar a vida entre humanos. A vida em "civilização" lhe parecerá indigna, injusta e os homens exalam um fedor nauseabundo.
O livro, deliciosamente despudorado, nunca faz piadinhas. O humor é cruel, titânico, cortante e doloroso. Swift destila seu famoso ódio ao sistema de classes, ao absurdo das guerras, às convenções sociais, a vida em cidades, e ao recém nascido industrialismo. Tudo isso numa prosa ágil, fácil, saborosa e sem freios. As coisas acontecem, a ação é constante e os comentários do "autor" são sempre certeiros. Voce se diverte, mas correndo ao lado de toda essa fantasia vem um estranhamento, uma sensação de loucura, de desconforto. Quando o livro termina fica um sentimento de esquisitice. Na verdade é o sentimento de Lemuel Gulliver que passa para voce. Como todo grande romance, ele gruda, tatua-se em sua mente, passa a fazer parte de seu modo de ver e de sentir.
Espero ( sentado ) pelo surgimento de nosso Johnathan Swift, o homem que saberá desmascarar nosso bando de deslumbrados inocentes.

CHUVAS IN NATURA

O problema é só um:
Durante 20000 anos fomos um exemplo de bicho adaptado ao meio. Nos adaptamos a todo clima, aprendemos a comer quase tudo ( de cogumelos a carne, de grãos a insetos ) e domesticamos outros bichos para nos servir. Exemplo de adaptação ao meio como a nossa, nem o rato ou a barata.
Mas então, por volta de 1700 D/C, as coisas mudaram. Deixamos de nos adaptar ao meio ( ajustando-o a nossas fraquesas ) e passamos a tentar adaptar o meio a nós mesmos. Criamos a ilusão de que natureza, seja ela biológica ou química, pode ser transformada e recriada ao nosso prazer.
Digamos que antes sabíamos que a chuva chegaria, e respeitosamente nos preparávamos para ela. E agora temos a ilusão de poder enfrentá-la. E assim, deixamos que as coisas se ajeitem.
Não se ajeitam. Construir em encostas e margens de rio, edificar em espaço restrito ou beira de mar, por mais concreto e ciência que voce empregue na construção, um dia cai. E morre gente.
A natureza não irá se adaptar a nosso crescimento populacional. Ela é indiferente a nossa presença.
Olhar o mundo com humildade. Esse é o único caminho.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

FORD/ BOND/ HAWKS/ FRITZ LANG/ PAUL NEWMAN/ WOLVERINE

RASTROS DE ÓDIO de John Ford com John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles e Ward Bond
Após assistir e me apaixonar por tantos filmes ( filmes esses que vão desde Buster Keaton e Carl Dreyer até Clint Eastwood e Joe Wright ) se torna impossível imaginar qual meu filme favorito. A última vez que arrisquei essa opinião votei em O Atalante de Jean Vigo, para logo em seguida me arrepender ao lembrar de mais 100 filmes que poderiam ocupar esse lugar. Dito isso, afirmo que Rastros de Ódio, se não é meu filme favorito, é aquele que mais me emociona, mais me ensina e mais importancia tem no desenvolvimento de meu gosto estético. Se voce quer ler sobre ele, há uma critica por aí.... Nota INFINITAMENTE ALTA.
O SATÂNICO DR NO de Terence Young com Sean Connery e Ursula Andress
O primeiro filme de Bond já possui algumas das marcas que o acompanhariam até Daniel Craig. Matar sem pensar e transar com todas as mulheres possíveis sendo as principais. Atualmente a violencia é maior e o sexo é ínfimo. Mas este 007 ainda é feito num estilo que tenta ser Hitchcock. A ênfase é para o suspense e não para a ação pura. Sean Connery nasceu para ser James Bond. Ele é seco e elegante. Como um dry martini. Longe de ser o melhor da série, tem belas imagens de uma Jamaica que não mais existe. Ursula surge aqui como o molde de todas as futuras Bond-girls. Nota 6.
RIO VERMELHO de Howard Hawks com John Wayne e Montgomery Clift
Faroeste lendário de Hawks, que é bom, mas não me toca tanto quanto outros filmes desse diretor imenso. O que se percebe é a esquizo do elenco: John Wayne com seu estilo "antigo" de interpretar e Clift criando o estilo Actors Studio, que é predominante até hoje ( o filme é de 1948 ). Sabe-se que Wayne transformou a vida de Clift num inferno durante as filmagens. Ele não perdia uma chance de zombar de seu jeito efeminado. O que vemos é o estilo antigo de Wayne, estilo em que o ator interpreta o personagem como um ideal, uma visão simbólica do personagem; e o novo estilo de Clift ( que é o precursor de Brando e Dean ) onde o ator procura ser "real", onde se espirra no meio de uma fala, se coça o nariz antes de se montar no cavalo ou se tropeça ao caminhar. Todos até hoje devem a popularização desse estilo a Monty Clift. O filme é o embate entre esses dois mundos e sobre a rivalidade entre cowboy veterano e garoto novato. Hawks conduz com sua leveza habitual. Há quem o considere ( Tarantino e Inácio Araújo entre eles ) um dos três melhores filmes já feitos. Eu não. Nota 7.
O ÚLTIMO PISTOLEIRO de Don Siegel com John Wayne e Lauren Bacall
Em 1976 John Wayne, já tendo apenas um pulmão, lutava contra seu câncer. Este acabou sendo seu último filme, e há quem o considere a mais bela despedida do cinema já vivida por qualquer ator. Quem dirige é o homem que criou Dirty Harry e no elenco vemos Ron Howard, o futuro diretor de Appolo 13, Cocoon e Ed Tv. O roteiro fala de um velho cowboy que se hospeda em hotel para morrer em paz ( tem câncer ). Seu médico é feito por James Stewart. Mas seu passado de vingador não o larga e ele terá de lutar mais uma vez. O filme corria um risco imenso de ser piegas, apelativo, desagradável. Não é fácil, mas acaba superando seus imensos obstáculos. John Wayne não nos dá pena, dá saudade. Nota 6.
SCARFACE de Howard Hawks com Paul Muni e George Raft
O filme original, de 1932. E que filme!!!!! A violência é absurda para a época. Tanta gente é metralhada e o som dos tiros é tão alto que o efeito é de histerismo total. Muni faz o persoangem como uma espécie de simio deslumbrado pela violência ( ele ama o que faz ) e que guarda um amor incestuoso pela irmã. E o que vemos é a escalada desse gangster ao topo, matando, rindo, traindo, ousando. Sua queda é rápida e sem drama nenhum. Hawks dirige em seu modo simples, rápido, sem frescura. Dá uma aula de estilo. Este filme criou Scorsese, Coppola, Tarantino, De Palma, Melville e Walsh. É pouco ? Nota DEZ.
FORTY GUNS de Samuel Fuller
Os criticos de tendencia francesa adoram Fuller. Chegam a chamá-lo de gênio. Eu me irrito muito com ele. Veja este filme: é um western. Mas há uma cena em que seis cowboys tomam banho em tinas e cantam. E não é para ser uma comédia!!!! Em outra cena um cara aponta a arma para outro, e a câmera mostra o outro focando por dentro do cano da pistola!!! Todo o filme é assim, Fuller sempre mostrando o quanto é genial. Me irrita.... Nota 1.
O RETORNO DE FRANK JAMES de Fritz Lang com Henry Fonda
Excelente. O melhor diretor da Alemanha, após fugir do nazismo, triunfa maravilhosamente em Hollywood. Lang tem carreira longa e exemplar. Poucos de seus muitos filmes são menos que ótimos. Aqui vemos o irmão de Jesse James, que tenta ter vida pacata, partindo para matar os assassinos de seu irmão ( eles foram absolvidos pela justiça ). Henry Fonda foi talvez o melhor ator americano. Agora que a América começa a terminar, sentimos a forma como ele encarna o grande americano. Seu olhar e sua voz são tudo aquilo que todo cidadão queria ter sido e ter possuido. A imagem ideal do americano como herói pacifico. Só ele conseguiu fazer isso. O filme é, como são os melhores filmes de Lang na América, sem erros. Se lhe falta o brilho de seus primeiros filmes de denuncia social ( também feitos com Fonda e absolutamente geniais ), ele tem o bastante para despertar um desejo de quero mais. Nota 8.
UM DE NÓS MORRERÁ de Arthur Penn com Paul Newman
Paul Newman entre 1958/1975 dominou completamente o cinema americano. Não teve pra ninguém. Seus concorrentes eram Warren Beatty, Steve McQueen e Robert Redford, mas ele batia todos com facilidade. Depois, a partir de 1970, também bateu em Dustin Hoffman, Jack Nicholson e Gene Hackman. Neste western, do futuro diretor de Bonnie e Clyde, ele tem uma atuação estupenda. Faz o jovem Billy The Kid como um adolescente burro, hiper-ativo, meio desastrado e cheio de tiques. Vemos um bandidinho real em nossa frente, reles, pé de chinelo. Precisaríamos esperar 15 anos para ver outro bandido vagabundo tão bem interpretado ( por De Niro em Mean Streets ). Acompanhamos com emoção a vida tola e vazia desse moleque perdido. O filme, de 1958, foi um fracasso na época. Estava anos adiante de seu tempo. Billy é visto como Clyde em Bonnie e Clyde, um bronco charmoso sem noção do que faz. Nota 8.
WOLVERINE de Gavin Hood com Hugh Jackman
Na falta de atores machos hoje ( Clint Eastwood aos 35 anos seria um Wolverine perfeito ), Jackman se vira como pode. Mas seu Wolverine é pouco duro e nada sujo. Ás vezes se parece com um garoto brincando de ser Charles Bronson ( e Lee Marvin ou James Coburn também nasceram para ser Wolverine ). O filme, que começa bacaninha, depois cai bastante e chega a enjoar. Mas é melhor que o X Men 3, porque ele não tem aquela pretensão anti-racista do X Men. Nunca tenta ser o que não é. Nota 5.
BABYLON AD de Mathieu Kassovitz com Vin Diesel, Gerard Depardieu e Charlotte Rampling
Diesel em papel sob medida para Jason Statham. Não funciona. O filme, que ainda tem Michelle Yeou, é daqueles que mostra o futuro "russificado". Gangues dominam tudo. Kassovitz é o tipo de francês que pensa que ser moderno é ser chocante ( uma das primeiras cenas mostra o herói cortando e comendo um gato frito ) e que fazer arte é ser o mais complicado possível ( que é uma visão jeca. Aquela crença em que tudo que é arte é dificil ). O filme é uma mixórdia que mistura ação com filosofices, misticismos e que tais. Não tem nenhum sentido. Nota 3. ( pelo visual ).
OS REIS DE DOGTOWN de Catherine Hardwicke com Emile Hirsch, Heath Ledger, James Robinson, Nikki Reed, Johnny Knoxville e Victor Rasuk
Maravilhoso. De total simplicidade, retrata a adolescencia como ela é. Um filme para se guardar ao lado de Quase Famosos como retratos perfeitos de uma época de imperfeição. Lindo, lindo, lindo...assista e creia. Voce vai se apaixonar. Nota DEZ, com suavidade....

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

OS REIS DE DOGTOWN ( ETERNAMENTE JOVENS )

Há tempos eu ouvia falar desse filme. Dirigido com volúpia por Catherine Hardwicke ( que depois fez Crepúsculo, o que prova que cinema hoje é questão de equipe ), produção de Art Lison ( de n filmes de Scorsese e Lumet ) e David Fincher. Com Emile Hirsch, Heath Ledger, John Robinson e um ator exuberante, Victor Rasuk. E com a melhor trilha sonora desde QUASE FAMOSOS. Pois ontem eu o assisti....
Skate em 1976 era coisa de boiola. Quem não podia pegar onda, por falta de coragem ou de oceano, andava de skate. Mas andar de skate era como andar de patins, voce flutuava com delicadesa. O filme é sobre o nascimento de uma nova era, sobre quatro caras que mudaram TUDO, e não só o ato de deslizar sobre um shape. Pois como diz o filme: toda revolução vem da rua.
Que revolução ?
Existem lugares no mundo que são O LUGAR. O lugar certo para se estar naquele momento. Paris em 1922. O Village em NY em 1948. Londres em 1965. Barcelona em 1991. E Venice Beach, LA, em 1976.
Porque lá havia um Pier onde se pegava onda. E 3 moleques de 14 anos que não podiam ficar no mar ( apanhavam dos surfistas mais velhos ). Esses "heróis" eram : Tony Alva, um filho de chicanos, pobre e arrogante, Jay Jay, filho de hippie drogada, e Stacy Peralta, um responsável cabeludo, teimoso, tímido. Os três pegaram aqueles skates e resolveram voar. Mas é muito mais que isso !
Heath Ledger, em atuação magistral, faz o doidão-dono-de-surfshop. Ele resolve empresariar os garotos. Cria a Zephyr. Pausa : Em 1977 leio na revista POP, editora Abril, sobre esses caras. Fotos de Jay Jay andando dentro de canos de enchentes. O cara parecia cool, rebelde, nervoso... ele era mesmo tudo isso.
Então os três ( voltando ao filme ) vão a campeonato e causam sensação. Na verdade eles criam o que a gente hoje sabe ser UM CAMPEONATO. Tony Alva tira a música de dentista da pista e bota Iron Man. Acredite, até então rock pesado não era coisa de skate. E na pista ele desliza como se estivesse numa onda. Flutua, voa, dá batidas na crista. O povo fica de boca aberta.
E tudo muda. Os três, de súbito estrelas da midia, criam o conceito de ESPORTE RADICAL. Rock, roupas esportivas, loucura em se atirar, rebeldia. Mas o filme mostra : eles são o artigo genuino. São eles os primeiros a invadir casas de ricaços para usar as piscinas vazias ( sim, eles criam o skate em bowl ), eles dão os primeiros aéreos e inventam a moda skatista : tênis de sola lisa, jeans largado, camiseta velha e camisa de flanela na cintura. Era 1976.
O filme entra então em sua parte amarga. Stacy e Tony brigam por vaidade. E Jay, talvez o melhor deles, mergulha no punk : raspa a cabeça, se tatua, se droga. Mas há uma bela redenção no final. Uma cena lindissima em que eles se reencontram e brincam numa piscina. Skate com poesia, quem resiste ?
Quanto a trilha sonora.... bastava a cena com Old Man de Neil Young, mas como em QUASE FAMOSOS, a trilha chega a ser covardia!!!!
1989 foi um grande ano em SP. Uma multidão de alunos da FIAM enterrou os malditos anos 80. Todo aquele dandismo britanico com seus vinhos brancos e seus blazers foi pro lixão. Discos de Duran Duran e Culture Club nunca mais. Eu fiquei chapado !
Os cabelos voltaram a ficar soltos ( sem gel ) e longos e as camisetas tinham desenhos sujos. Jeans rasgados e caindo na bunda com tênis detonado. Mochilas e bonés amassados. Pulseiras, tatoos e bikes. Deu na TRIP da época : uma foto do bando de Venice Beach, mal encarados.
Essa galera ouvia Black Flag, The X, muito Sonic Youth, Pixies e Janies Addiction. E misturava tudo isso com Beastie Boys, Public Enemy e mais Jerry Lee Lewis, Johnny Cash, John Lee Hooker e Elvis. Liam a revista ANIMAL, muito mangá, Moebius, Alan Moore e Frank Miller. Liam Bukowski, Hammet, Chandler, Poe e tudo que fosse virulento. Grafitavam, tocavam em bandas de punkbilly e alguns ouviam jazz. Criaram a cultura de rua dos anos 90. E sabiam que eram filhos de Stacy Peralta, de Tony Alva e de Jay Jay.
Vieram as bikecross, o snowboard, le parkour, o novo surf ( que leva o skate para o mar ). A moda se tornou "da rua". Tudo mudou. O conceito de ser "radical" se firmou.
E tudo nasceu entre 3 moleques de rua, na suja e mal afamada Venice Beach, por puro fun.
Tão bom quanto este precioso filme são seus extras. O roteiro foi escrito pelo próprio Peralta e nós os vemos aos 48 anos, em reencontro. Stacy Peralta trabalha agora com skate ( foi ele quem lançou Tony Hawk ) e cinema ( tem prêmios como documentarista ). Tony Alva é uma lenda viva. Dono da marca ALVA. E Jay Jay foi preso por posse e tráfico, cumpriu pena e hoje vive no Hawaii. Mas o que mais impressiona é o carisma dos 3. Principalmente Jay. Se eles foram os caras que inventaram o esportista radical, hoje eles são os embaixadores do quarentão moleque.
É lógico que me identifiquei com o filme. Me vi nele, sei daquilo tudo, conheci aqueles caras, assisti a revolução. Mas eu te juro, como cinema, mesmo para quem tem 18 anos e não sabia que skatistas já foram o futuro, ou para quem tem 60 anos, e pensa que esporte é só ginástica, o filme é absolutamente descaralhante !!!!!!

O ARCO-IRIS - D.H.LAWRENCE

Ninguém enfrenta uma folha em branco se não possuir uma grande ambição. Seja de notoriedade, dinheiro, auto-satisfação, relevância.
James Joyce tinha a ambição de abarcar toda a complexidade do século XX. Marcel Proust queria desvendar o interior da consciência. Balzac possuia a ambição de expor toda a sociedade francesa de seu tempo, e Stendhal queria descobrir a gênese de nossos sentimentos. Tolstoi se propôs a tarefa de mostrar o dilema do homem perante sua existência e Eliot queria exibir o vazio espiritual do homem moderno ( e depois indicar sua redenção ). Todos eles tinham talento para cumprir sua ambição. Eles se deram uma missão e conseguiram "chegar lá".
Mas existe outro tipo de autor. O esbanjador. Aquele que se deu uma tarefa menor que seu talento. Este se torna um tipo de gênio do estilo, da maneira de escrever. Henry James era assim. Sua ambição era imensa, a de compreender o homem sem lugar, em transição, mas seu talento era tão vasto que ele poderia ter partido para vôos ainda maiores.
E existe ainda um terceiro tipo de autor. É aquele que se dá um titânico trabalho, mas que apesar de possuir talento, seu dom jamais consegue chegar às alturas de sua ambição. Lawrence é um exemplo dessa sina.
O que ele queria ? Escrever os grandes livros que mostrariam a decadência da civilização ocidental. Fazer o resgate da religião pagã, do xamanismo e do sexo como sagrado ritual de ligação do homem com a natureza. Seus livros têm tudo isso e conseguem nos fazer entender suas idéias. Mas ele é incapaz de nos fazer senti-las. Não sentimos ira, não ficamos desorientados, nada há de mistico ou mágico em sua escrita, e pior, lhe falta sensualidade. Isso porque Lawrence escreve mal. Ele se repete, anda em circulos, procura revelações e não as atinge. Falha. Ironicamente, o autor do sensualismo sofre de impotencia verbal.
Mas isso não significa que ele não seja ótimo. É invulgar, corajoso, ansioso, forte. Mas a ambição que o moveu ( como sucedeu também com Durrel, Heminguay, Fitzgerald ou Updike ) é muito maior que seu talento.
Talvez seja essa a maior infelicidade que um autor possa ter.
PS: Quem quiser conhecer Lawrence não leia este O Arco-Iris, vá direto a Mulheres Apaixonadas. Lá voce vai encontrar essa contradição Lawrenciana em seu máximo. Uma exuberãncia de ideias e de propósitos mesclados a uma certa incapacidade de estar a altura de seus propósitos.

sábado, 8 de janeiro de 2011

ANDAR DE AVIÃO EM 2011

Ônibus com asas. Lembro que andar de avião era ter a sensação de se estar em hotel com asas. Cheguei a ver crianças brincando de madrugada no corredor. E gente indo a Frankfurt com toda a fileira de poltronas vazia.
Havia um jantar grátis com salmão, souflé e charlotte. Sempre que voce queria, a aeromoça trazia whisky ou vinho. A cadeira era reclinada até se tornar cama e dava pra ignorar todos os outros passageiros. Pois é.
A classe c agora pode viajar e antes que me chamem de elitista deixe explicar o que penso.
É tudo uma grande enganação. A classe c ao poder agora viajar, deveria ter o tratamento que havia antes deles subirem. O que está havendo é o REBAIXAMENTO do vôo e não a SUBIDA das classes menos favorecidas. E é em tudo assim. Mas antes vou fazer um adendo:
Se no século XIII era um crime duvidar da igreja e se no século XVI voce era morto por duvidar do rei; me parece que hoje é um tipo de loucura duvidar daquilo que ciência e publicidade ditam ( é uma ditadura ). Tudo o que é dito por um cientista, com apoio da propaganda se torna édito papal ou vontade do rei. Dito isso...
Nunca se escreveu tanto. É uma verdade apregoada pela maioria. Sim, nunca se escreveu tão...mal. E não falo só de quem escreve vose ou fasil. Falo de uma elite que estudou no Dante e na PUC e que é incapaz de acompanhar uma peça de Shakespeare ou entender uma página de Proust. Nunca se vendeu tanto livro...ruim. Não haveria problema se isso fosse porta de entrada para coisas melhores. Voce começa lendo Paulo Coelho ou John Grisham e depois passa a Stendhal ou Houellebecq. Mas não. Começam com Scott Turow e chegam no máximo a Michael Chabon ou José Saramago. Nada mais. E nunca se ouviu tanta música... péssima. O povão ouve funk e sertanejo, músicas que fazem com que os grandes vendedores de trinta anos atrás ( Fabio Jr, Benito di Paula, Alcione ) pareçam finos e criativos. ( Não falando de Roberto Carlos, que é sim nosso Sinatra ).
O que está em processo é uma queda do gosto e da cultura DA ELITE. Assim como acontece com vôos internacionais, o povão subiu um degrau, mas não encontrou nesse novo degrau aquilo que a elite consumia antes. Trouxe seu ambiente cultural para o andar de cima e o povo desse andar perdeu qualquer tipo de referência, 'DEIXOU DE SER ELITISTA".
Se antes havia um desejo de um dia se entender o cinema de Bergman ou os livros de Tolstoi, hoje há uma atrofia de ambição intelectual. A elite se contenta com resumos ou pior, falsificações de bons autores. Se sujeitam a atendimento classe C em restaurantes, lojas, hotéis e shows. E pior, acreditam estar caminhando para mundo melhor, onde ciência e propaganda proverão tudo aquilo que importa.
É hora de um novo Voltaire e de uma nova Bastilha. Viverei para ver isso ?
PS: em julho de 1976 minha mãe ( classe turística ) estava no Galeão quando seu vôo TAP rumo Paris atrasou. Das 22 passou para o meio-dia do dia seguinte. O que a companhia fez ? Hotel no Leblon para todos ( quatro estrelas ) com jantar e café da manhã. Grátis, lógico. Ser tratado assim hoje, só se voce for de Hollywood ou deputado federal.
PS II: Quando falo em Voltaire falo em pessimismo ativo. Alguém precisa dar um safanão neste mundo tão "felizinho". E derrubar o pensamento único da Bastilha.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

SOBRE O DUENDE EM MÚSICA

Feche o quarto e deixe tudo absolutamente escuro. Ligue a música em máximo volume, e de pé, no centro do espaço, ouça-a sem dançar. Fique parado e se voce sentir que vai começar a executar passos de dança, não os execute e não imite nenhum performer que voce viu um dia no palco. Fique quieto, solto, calmo, ouvindo o som.
Quando os americanos começaram a ouvir som de preto ( blues e rocknroll ) lá por 1955, a sociedade entrou em parafuso porque ? Não foi devido ao fato deles falarem errado, não foi pela pelvis de Elvis ( também foi ), ou puramente pelo racismo ( também foi ). O que havia por detrás de tudo isso era o medo, um inconsciente medo. Do que ? Do duende, é claro.
Toda a nossa civilização nos oferece sempre um único modelo de pensamento. O politico/militar, o politico/religioso ou o politico/técnico. Cada sociedade tem o seu. E para se interromper a força destruidora da anarquia, o duende primitivo dessa massa de ex- bárbaros tem de ser asfixiado. Enquadrado. Ele se esconde em nosso inconsciente mais profundo e lá fica, tentando voltar a tona. Drogas, sexo e música, como fazê-lo respirar ?
John Lee Hooker cantando Big Legs Tight.
É macumba. Duende é macumba. Foi isso que apavorou o branco da América de 55. A cerimônia de invocação de Dionisius, a macumba baby. O preto véio.
No centro do quarto eu começo a tremer interiormente. Meu corpo ainda não se move. Mas o grito e a possessão já se fizeram. Balanço e não caio, entro em doideira sexualizada. Não danço, movo meu corpo que é levado por alguma coisa descontrolada dentro de mim. Viagem sem droga. Me jogo ao fogo. Giro, e vou......
Quando a música termina estou esgotado. E solto, livre, inteiro. Isso é o duende.
Brancos também fazem essa macumba. Mas lhes é mais distante, mais dificil de atingir. São séculos demais de romanismos e ciência. Os negros estão mais próximos disso. Para eles o xamanismo foi de seus bisavôs.

Exile on Main Street é todo feito como incessante busca do duende. Foi o escutando, no escuro, que travei meu primeiro contato com ele. E hoje, anos sem experimentar sua presença, sinto-o sem querer ao ouvir John Lee Hooker.
Cuidado com Hooker ! Muito cuidado ! Um duende como Howlin Wolff, Robert Johnson, Miles Davis ou Thelonious Monk. Macumbeiro. Preto vèio com voodoo.
Encontre seu duende. Pela poesia, pela música, pela religião. Iggy achou o seu. Jagger trouxe-o a tona na branquérrima Londres de 63. Hoje ele tem sido vulgarizado em pílulas e performances que são ataques de nervos, jamais manifestações de Dionisio ( a diferença entre um cara tendo um ataque convulsivo no palco e um autêntico duende é o sexo. O duende é sempre sexualizado, bissexual, provocante e sedutor, satanicamente feliz ).
Tente trazer o seu a tona. Sem medo. O universo agradece.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

ROCK É COISA SEXY, CHRISSIE HYNDE

Era sábado e eu e meu irmão fomos ao Museu do Disco, no Iguatemi. Ficava no primeiro andar, hoje é uma loja de bolsas. Tentava se diferenciar da Hi Fi tendo mais importados e alternativos. Bem... então nós fomos lá andando pela Faria Lima, sete da noite, calor, rua muuuito tranquila. No Cal Center tinha três cinemas e se jogava fliperama.
Entramos no Museu e o vendedor veio logo nos indicar uns importados. Era final de 1980. Mostrou Gang of Four, B'52's, Jam e Blondie. Lembro que ele dizia que os discos eram fudidissimos!!!! Meu irmão acabou pegando um extended play do Clash. EP era um formato menor que o LP. Esse disco era feito de dubs, dubs eram faixas de reggae remixadas. Lembro que meus amigos babavam por aquele disco. Longas faixas de baixo e bateria com eco, teclados espaciais, efeitos de estúdio. Uma obra-prima. Se hoje voce tocar ele numa festa, em pleno 2010, neguinho ainda sai dançando.
A grana só dava pra esse importado ( um importado custava cinco nacionais ). Olhamos os lançamentos da WEA e acabamos experimentando Ramones e Pretenders. End of The Century era o disco dos americanos. Phil Spector na produção. Passei ele para uma fita e o ouvia no carro voltando do Objetivo. Recordo que escutando Let's Go fiquei tão chapado que cruzei uma travessa sem olhar e bati o carro numa Kombi. Perda total. O cara da Kombi chegou a ir em casa me ameaçar de morte !!!!
Eu nunca havia escutado Pretenders. Mas na Playboy Ezequiel Neves falava bem da banda. Contava que Chrissie Hynde fora jornalista da NME. Que nascera em Akron, Ohio e fora para Londres aos 18 anos levando na bagagem apenas dois discos : Raw Power de Iggy e White Light do Velvet. Namorara os caras do Clash e agora, aos 28 anos, finalmente, com 3 ingleses doidos, lançava seu primeiro disco: The Pretenders, produção de Chris Thomas, o cara do Sex Pistols e Roxy Music.
A capa do disco já era descaralhante : toda branca com os 4 vestidos de rockers. Chrissie virou obssessão. Aquele cabelo cobrindo os olhos cheios de rimel, a jaqueta vermelha e a calça de couro. Ela era uma Joan Jett melhorada. E a voz, a voz era sexy, muito sexy.
Voltando do Iguatemi, eu e meu brother botamos o disco pra rodar. Surpresa !!!!! Bateria e guitarras pesadas e mal gravadas ( sujas ) tocam juntas como se fossem um batalhão bárbaro avançando. Precious é a música. Veloz, afiada, curta. O lado A tem oito faixas. Todas curtas, agressivas, e acima de tudo, sexys. Chrissie fala de estupros, de usar seus namorados bonitinhos, de amar sexo como brincadeira. Eu deliro. É rock como eu nunca ouvira uma mulher fazer. Nada de cantora sofrida, nada de boneca gostosa, Chrissie é ativa.
No lado B ela divaga. As músicas se esparramam, a banda mostra-se genial ( pena que baixo e guitarra, Peter Farndon e James Honeyman-Scott morressem de overdose em 81 e 82 !!! ). O disco vira uma paixão. Ouço-o e reouço-o. Naquele verão democrático, em que eu escutava de Jorge Ben a Charles Mingus, de Bowie a Kurtis Blow, foi Chrissie quem virou caso sério.
Meu quarto logo tinha poster deles, eu usava uma camiseta com a banda, um broche com a capa do disco e me tornei sócio do fã-clube inglês deles. Eu andava por SP procurando ansiosamente uma menina que se parecesse com ela. ( Tempo errado. Em 80/81 todas se pareciam com Olivia Newton-John. E que ironia, hoje, trinta anos depois, meninas com cara e roupas de Chrissie Hynde se tornaram facilmente encontráveis ).
Formei uma banda que jamais soou como ela. Mas eu tentava ter o visual de Peter Farndon.
Até que ela se apaixonou por seu ídolo de adolescência : Ray Davies, dos Kinks. Os dois moraram juntos e ela quase morreu. Álcool demais. Quando a relação terminou ( e meia banda já morrera em heroína ) , Chrissie Hynde voltou como voces a conhecem, acomodada, senhora, chata. Um quase Rod Stewart versão anos 80. ( Rod foi outro que de rebelde genial se fez senhor chato. E creia, Rod foi insuperável ! ).
Mas o primeiro disco ficou. A prova do quanto eles foram grandes. E o testemunho de que mulheres podiam ser como Keith Richards. Precious.

UM SENTIDO A VIDA : RASTROS DE ÓDIO, O MAIOR DOS FILMES

A tela escura anuncia : Texas, 1865. Um corte e vemos uma porta que se abre. O sol, inclemente lá fora.... Contraste entre espaço escuro/seguro/fechado e espaço claro/perigoso/livre. Como diz Martin Scorsese nos extras desse dvd, só essa cena já basta para exibir a genialidade de John Ford. Rastros de Ódio é o filme mais complexo, mais desconcertante, mais duro de sua carreira de 120 filmes ( !!!!!!!! ).
O tema é o racismo. John Wayne é Ethan, um cara mau. Mas é também o herói ( ??? ) do filme. O centro é seu rosto. Crispado, sombrio, ruim. E Wayne está a altura desse papel. Sua voz é terrível, seu andar é confiante e seu rosto parece escuro, perdido em algum inferno. Como Curtis Hanson lembra, o modo como Wayne diz as falas é coisa de imenso ator. Para mim, esta é uma das poucas interpretações que parecem definitivas. Não poderia ser melhor.
Mas o filme tem outro tema. A relação de Ethan com o jovem personagem de Jeffrey Hunter. Um garoto meio indio. A relação dos dois é de pai e filho, e se tornará ao final de iguais.
O roteiro, estupendo em seus aspectos ricos e vários, conta a história de familia trucidada pelos comanches. Uma menina é levada pelo cacique e Ethan passará dez anos cruzando o país atrás dela. Nessa base é construída uma riquesa sem fim. Ethan esteve anos fora de casa e quando volta, vmos que ele não se sente bem em meio às pessoas. Acontece a tragédia e ele parte. De volta a seu meio, o universo da luta, do espaço aberto, da crueldade, ele readquire um motivo para viver.
John Milius diz que o filme é principalmente sobre isso: que todos nós, por pior que sejamos, podemos dar um sentido a nossa vida. Ethan passa uma década percorrendo o vazio e tem nessa busca seu sentido e sua salvação. O filme é também um profundo relato existencial.
Assisti este que é meu filme mais amado, pela primeira vez, em fevereiro de 1986. Até então eu odiava westerns por dois motivos : eram fascistas, não eram "de arte".
Naquela época, de longe a pior de minha vida, eu sofria o inicio da Sindrome do Pânico. Minha vida estava totalmente no inferno. Lendo a Folha me deu vontade de tentar ver esse filme na Globo. De qualquer modo eu sofria de insonia. Pois bem, desde a primeira cena até o fim, tudo nele me deixou em estado de extase. Toda a explicação de minha crise estava ali exibida. E melhor, o filme deixava claro que eu tinha esperança, que minha vida tinha UM SENTIDO.
Desde então, Rastros de Ódio é o mais amado dos filmes. E o western deixou de ser uma bobagem e se tornou a imagem mais profunda do que significa ser um homem.
Bem.... Na época de seu lançamento ( 1956 ) o filme foi tratado como mais um filme de Ford. Ele já tinha 4 Oscars de direção ( um recorde até hoje imbatível ) mas todos os seus prêmios foram por filmes não-westerns. Naquele tempo como hoje, a academia não estava nem aí para cowboys. Então o filme saiu, não foi indicado para nada e foi mais ou menos de bilheteria. Mas aconteceu o começo do mito quando ele foi exibido na França.
Na França havia uma revista amada por todo cinéfilo sério, o Cahiers du Cinéma. Nela escreviam os críticos terríveis e cruéis chamados Eric Rhomer, Claude Chabrol, François Truffaut, Jacques Rivette e Jean-Luc Goddard. E eis que eles proclamam : Rastros de Ódio é uma obra-prima ! Principalmente Godard passa a defender o filme. ( Em 2005 ele diz que continua a chorar com a hora em que John Wayne diz : - Vamos para a casa Debbie! ")
Reassiti ao filme ontem. Foi a sexta vez em 25 anos. Há dez que eu não o revia. A expectativa imensa e tudo para desmistifica-lo. Mas lentamente se refez a magia. Quando ele terminou, eu estava com os olhos molhados, trêmulo, meio fora de mim. Penetrar nesse filme é sempre uma prova avassaladora. Qual seu mistério ? Na superficie é apenas mais um western....
Scorsese chama a atenção para a fotografia. Ford é famoso por isso. Seus filmes não têm um só take que não seja estupendo. Tudo é gigantesco e talvez seja esse seu maior segredo: ele, como Homero ou Shakespeare, mostra a vida em sua dimensão real, gigantesca. As pessoas parecem plenas, inteiras, completas, e as paisagens, de tirar o fôlego, são um cosmos de profundidade.
Martin diz que uma vez perguntaram a Kurosawa como ele aprendera a captar imagens tão belas, ele respondeu : Tudo está em John Ford.
Penso na maravilha que devia ser assiti-lo em Vistavision. Scorsese diz que hoje não existe nada parecido com aquilo. A imagem era muito alta e muito profunda. Mas ainda dá pra perceber isso em dvd. O filme inteiro tem essa profundidade de campo. Enquanto um diálogo acontece à frente, ao fundo vemos gente passando, cavalos, ação, movimento. Todas as tomadas são ricas, complexas, cheias de detalhes. Sómente Kurosawa conseguia fazer igual.
Ford é famoso por suas cenas de casamentos, cafés e enterros. Ele acreditava que são essas "cerimonias" em grupo que definiam nossa vida. O filme tem todas elas. E Milius destaca a cena do café da manhã logo no inicio. A mesa ao centro, cadeiras ao lado e gente se movendo e falando ao fundo. São doze personagens em cena, todos com algo para fazer e falar, todos dentro do foco, e tudo sem um só corte ou um movimento de câmera. Espero estar enganado, mas hoje, apenas Paul Thomas Anderson ( um fã de Ford ) tenta fazer cenas como esta. Se consegue é outra história, mas pelo menos ele tenta.
Hanson mostra como é mostrada a violência no filme ( e o porque dela ser tão contundente ). Ela simplesmente não é mostrada. Exemplo: Ethan chega onde a familia foi massacrada. Se mostra o rosto de Wayne antes e após ver tudo. Essa é a verdadeira violência que raramente vemos nos filmes: Ford mostra a consequencia da violencia, o que ela faz com quem a testemunha, os efeitos dela. Isso é muito mais devastador e precisa de atores muito melhores. Mostrar uma mulher estuprada é fácil, muito mais duro é exibir o sofrimento de quem viu aquilo.
O filme caminha então, inexorável, ao seu destino. Ethan cada vez mais racista, cruel, brutal. E vem a frase que marca todo o filme: Vamos para casa, Debbie. Uma das três ou quatro cenas mais famosas do cinema. Mas o nervo do filme vem então....
Todos voltam ao lar. Todos com seus pares, sua familia, seu sorriso. John Wayne fica parado à mesma porta do começo da saga. Exita, se volta, e vai. Ele parte sózinho ao deserto, pois ele sabe que aquele não é seu mundo. O filme então se agiganta ainda mais. O mito do homem ali exibido.
Rastros de Ódio nesse momento se faz um filme sem igual. Em poucos minutos ele diz tudo aquilo que os grandes escritores levaram quilos de papel para dizer. A sina do herói.
Ethan foi útil enquanto a selvageria imperou. Enquanto a civilização perigava. Quando tudo se assenta, ele fica sem lugar. Deve partir. E se vai. Assistir esse final é dilacerante. Ethan, personagem que passamos todo o filme odiando, se faz adorável. Está completa a rota do heroísmo.
Quando o filme terminou, na primeira vez que o vi, eu estava salvo. Eu caminhava com Ethan e nunca mais me perdi. Pois havia um sentido em tudo aquilo.
Desde então, percebi reflexos deste filme em dezenas de outros westerns ou não. Taxi Driver é quase uma refilmagem, e Paris/Texas também. Nas listas de melhores de todos os tempos ele não pára de subir ( Finalmente os americanos o colocaram entre os 10 mais ). Não sei se é o melhor filme que já vi. Mas se tivesse de passar o resto da vida com apenas um filme, bem, seria este sem dúvida. É o que melhor me define e melhor me guia. Estou todo lá.
John Ford foi o maior de todos.

CINEMA DE BAIRRO

Como já disse, o homem do futuro viverá em buracos. A vida ao ar livre será considerada coisa de rudes humanos de 2010. Fecha o Belas Artes.
As pessoas que não viveram a era dos cines de bairro, pensam que gostar do cinema de rua é apenas uma questão de ser contra os shoppings. Nada disso ! A coisa é bem mais complexa.
Além do prazer de se entrar da rua diretamente na sala ( era sempre uma emoção, voce vinha do sol e adentrava, súbito, uma sala escura ( com o lanterninha te guiando ) e fria. E andar na rua era excelente para se falar do filme. O fato era que cada cinema de bairro era um mundo em si. Explico.
Hoje são exibidos apenas dois tipos de filme : o grande sucesso de multiplex e o filme premiado em festival. E é só. Na época do cine de bairro a coisa era bem mais aberta. Os cinemas da Liberdade passavam filmes japoneses que jamais passariam em outro lugar, as salas da Santo Amaro exibiam os filmes de Kung Fu e de Blaxpoitation que não teriam vez na Paulista. Os cinemas de Pinheiros ( eram três salas de rua ) tinham os filmes policiais de baixo custo e as salas mais distantes ( no meu bairro havia uma ) exibiam comédias eróticas da Itália e da França. Os westerns tinham vez na São João e os filmes antigos eram reprisados na praça da República. Na Augusta ( quatro salas ) os filmes americanos alternativos e na Paulista as super produções ( e reprises de "nível". Assisti no Bristol reapresentações de Pinóquio e de Cantando na Chuva ). As salas da Faria Lima ( quatro salas ) eram voltadas aos filmes teen e na Ipiranga ficavam os filmes de adulto. O Belas Artes ficava com filmes de arte. Na Pamplona eram exibidos os romanticos.
Cada sala tinha sua personalidade, seu estilo. Ir àquela sala era saber antecipadamente qual o caráter do filme lá exibido. ( Fora o fato de que voce fazia amizade com a bilheteira, o pipoqueiro e o lanterninha. ) O fim desse tipo de sala combina com a homogeneização dos filmes. Salas iguais para filmes idênticos. E uma imensa produção que não tem onde ser exibida.
A cidade estilo "casa de cupins" nos aguarda.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

MICHAEL POWELL/ LEAN/ HEPBURN/ FRED E GINGER/ CHOW

KUNG FU HUSTLE de Stephen Chow com Stephen Chow
Imenso sucesso na Asia, este filme é o que pode ser chamado de festa de reveillon. Ele é muuuito engraçado e é feito com uma técnica cinemática assombrosa. Chow usa todas as referências possíveis : Tarantino, Keaton, Tati, Scorsese e ainda Fred Astaire ( há bela homenagem a Top Hat ). Sem dúvida é um dos grandes filmes deste milênio. É ver para crer. Nota DEZ!!!!!
OS 5 VENENOS de Chang Cheh
Clássico da Shaw Brothers. Fala de grupo de ex discipulos Shao Lin que procura tomar posse de fortuna. É cada um por si. As lutas são estupendas, os cenários muito criativos e a diversão está garantida. Como já falei, após esse aprendizado de filmes orientais, fica dificil para mim engolir a parte de ação de filmes como Batman, Homem de Ferro e que tais. Nota 7.
O ESPIÃO NEGRO de Michael Powell com Conrad Veidt e Valerie Hobson
Para Scorsese e Coppola, Michael Powell foi um gênio, o maior diretor da Inglaterra. Eu concordo. Todos os seus filmes variam entre o genial e o excelente. Além do que ele fez de tudo : comédia, drama, musical, fantasia, aventura, filme experimental. E culminou com A Idade da Reflexão, o filme mais alegre da história. Este é de seus primeiros filmes e fala de espião nazi que trabalha na Escócia. Suspense hitchcockiano, belo clima de fatalidade, tudo feito com rapidez e simplicidade. Um gênio em seu nascimento. Nota 7.
UMA MULHER DO OUTRO MUNDO de David Lean com Rex Harrison
Mas a maioria acha que David Lean é o maior dos ingleses ( Spielberg e Fincher o colocam nas alturas ). Sem dúvida foi um gigante. Aqui, no começo de sua hiper vitoriosa carreira, ele adapta uma peça de imenso sucesso de Noel Coward....Ah Noel Coward....Nada foi mais pop no final do imperio britânico que Coward ( lá entre 1915/1955 ). Suas peças, suas canções, as frases que ele dizia... Noel era o inglês que todo inglês queria ser. A partir de 1959, quando os Angry Men tomaram a cena, Noel Coward se foi para o limbo. Waaaal....esta peça/filme trata de fantasma de esposa que volta a terra para atrapalhar o casamento de ex-marido. Há ator de comédia fina melhor que Rex Harrison ? O filme é uma efervescente bobagem. Nota 7.
PAT E MIKE de George Cukor com Kate Hepburn, Spencer Tracy e Aldo Ray
Kate e Spencer tiveram um caso extra-conjugal que durou toda a maturidade dos dois. Mas, por ele ser um fervoroso católico irlandês, jamais se divorciou da esposa. A imprensa, que respeitava muito os dois, sabia de tudo mas não divulgava nada ( belos tempos éticos ). O caso só veio à tona quando a esposa de Tracy morreu. Nesse tempo de affair ( que terminou com a morte dele em 1967, foram 35 anos de caso ), os dois fizeram uma série de comédias adultas. O tema era sempre sobre casais de opostos, ela geralmente sendo uma feminista e ele um machão bonachão. Alguns desses filmes se tornaram clássicos absolutos e outros nem tanto. Este, que fala de esportista fenomenal ( Kate ) que se sente insegura quando assistida pelo noivo chato, é dos menos bons. É bacana ver como eram o tênis, o golfe e o basquete na época, mas Cukor está em seus dias de preguiça. ( George Cukor tinha o dom da imagem. Fez alguns dos filmes mais "belos" do cinema. Sabia ser chic, esperto, leve. Mas por ser um grande festeiro e colecionador de arte, as vezes parecia fazer filmes preguiçosos, feitos no piloto automático. Este é desses. ) De qualquer modo, é sempre um prazer ver Kate em ação. Nota 5.
FOLLOW THE FLEET de Mark Sandrich com Fred Astaire e Ginger Rogers
Ele é um marinheiro em folga. Ela é sua ex-noiva. Ele tenta reconquistá-la. Com as músicas de Irving Berlin fica fácil. O filme é dos menos geniais da dupla: é "apenas" delicioso. Ginger Rogers está belíssima e apimentada como sempre. Fico imaginando a alegria que deveria ser em 1937, ver esse filme e em seguida levar sua menina para jantar e dançar.... Nota 8.
TOP HAT de Mark Sandrich com Fred Astaire, Ginger Rogers, Edward Everett Horton
Cenários art-déco em branco. As paredes são brancas, os móveis são todos em branco, o chão é prata, os objetos de vidro. Van Nest Polglase e Carrol Clark faziam esses sets que eram como o paraíso na tela. O filme fala de homem que conhece garota, se apaixona, a perde e tenta a reconquistar. Astaire consegue o milagre: dizer tudo dançando. Para entender a genialidade dos melhores musicais é preciso entender isso : quando a música começa, a alma dos personagens fala. Ouvimos e vemos o que eles pensam e sentem. E ninguém fez isso melhor que Fred e Ginger. Cada passo e cada olhar transmitindo tudo aquilo que voce já sentiu ou viveu com alguém. Isso é magia pura. Este foi o maior sucesso da dupla e salvou a RKO do vermelho. Um dos maiores clássicos do cinema, homenageado em Wall E, em Kung Fu Hustle, em A Lenda e mais uma infinidade de filmes. Ele é sempre usado como " a coisa mágica que ficou do passado lembrando ao homem que viver vale a pena ". Quem fez mais que isso? Nota impossível.
SWING TIME de George Stevens com Fred Astaire e Ginger Rogers
Os críticos mais "sérios" consideram este o melhor filme da dupla. Eu discordo. Acho o mais esquisito. A parte cômica é a menos ótima, porém, a parte musical é a melhor. Jerome Kern fez uma seleção de canções que variam do sublime ao inesquecível. Bojamgles of Harlem em que Fred se pinta de negro e homenageia seu ídolo ( Bill Robinson, o gênio do taps ) é dos maiores momentos da história das telas. Mas tem mais: a cena na neve ( que lindo set ! ) e a hora em que se canta The Way You Look Tonight, quem já amou irá se comover. Mas a magia insuperável nasce quando Fred e Ginger se despedem "para sempre", e tentando reatar ele canta Never Gonna Dance ( para mim, junto com Falling in Love Again, as duas músicas que melhor retratam o amor ). Nesse momento, junto a escadaria em set vazio, Fred consegue em música e dança, transmitir todo o desespero de alguém que percebe o amor partir. É de uma beleza aterradora ! Bergman precisa de duas horas para fazer o mesmo efeito ! ( E Bergman é um gênio ! ). Quando Ginger afinal cede e começa a dançar com ele, voce percebe então : eis a tal "arte americana", a arte puramente da América, a arte de se dizer muito se usando pouco, a arte de se comunicar a muitos um segredo de poucos. O filme, em que pese suas várias cenas erradas, se afirma como um monumento ao sentimento de amor. Nota DEZ.
SHALL WE DANCE de Mark Sandrich com Fred Astaire e Ginger Rogers
Eis o meu favorito ( ou será The Gay Divorcée, que preciso rever ). É o mais tolo de seus filmes, quase um cartoon. E por isso eu o venero. Fred é Petrov, um americano que se finge russo bailarino clássico. Ginger é uma apimentada sapateadora yankee. E vêm os desencontros de sempre: mal entendidos, frases ferinas, muito bom humor e os números que contam exatamente o que eles sentem. A trilha é de George Gershwin... precisa dizer mais ? Todas as canções são clássicos do jazz. Cenários em branco e prata, figurinos chics ao extremo ( os anos 30 são estranhamente a era da depressão e ao mesmo tempo o ponto mais chic do século vinte ). Quando estou chateado e quero me reerguer é fácil : boto este filme pra rodar ! Foi o primeiro da série que assisti ( lá se vão vinte anos ) e foi na época uma revelação. Nota DEZ !!!!!!!!!!!!
CIÚME: SINAL DE AMOR de Charles Walters com Fred Astaire e Ginger Rogers
Ginger sempre brigou com Fred. Ela queria ser uma atriz séria e achava que Fred lhe roubava o mérito. Quando a dupla acabou, ela conseguiu ser a tal atriz séria e logo ganhou seu Oscar em drama. Dez anos depois da separação, eis que os dois se reencontram aqui. E é um filme estranhamente triste ( o único dos dois ). É claro que é uma comédia, mas há algo de muito melancólico em todas as cenas. Eles fazem um casal que se separa porque ela quer ser atriz séria. Fred não a esquece ( na vida real ele jamais foi apaixonado por ela ) e no fim eles se reencontram ( felizmente tem um final feliz ). Ginger está já madura, ainda leve e linda, mas com algo de sério naquela menina dos anos 30. Fred envelheceu bastante. Continuava insuperável ( faria em cinco anos seu grande clássico: A Roda da Fortuna ), mas não é mais o jovem alegre e tolo da década anterior. E tudo isso dá ao filme algo de muito doído: a consciencia da passagem do tempo. Torna-se o único musical trágico da história. Nota 7.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

HOMENAGEM À ROBERT CAPA

Deem-me uma guerra para lutar. Mas que seja justa, que eu possa atirar em nazistas. Libertar judeus e ciganos, me sentir vivo.
Me deem uma cidade em ruínas para reconstruir. Unida por ter vencido um inimigo. Eu quero vizinhos em abrigos onde se dividem coisas que são poucas. Deixem-me querer pouco.
Eu quero viver e o homem, falemos a verdade, nasceu para a ação.
Para onde foram meus partisans? Onde morreram os bolcheviques? Confederados e cruzados, onde estão? Me canso de lutar em telas ou de me jogar em abismo ( amarrado ) tentando uma emoção.
Essa molecada que se entope de crack e fica por aí gastando energia no mal. Lhes falta onde viver. É só isso, e é terrível de dizer. Nos falta um campo de batalha onde provar a vida e o valor.
Quero inimigos e poder odiá-los.
Para assim poder amar meus companheiros.
Quero proibições e perigos.
Para poder os derrotar.
Meus partisans, onde foram?
Se tudo vale, nada tem valor. Se tudo é relativo, nada é de verdade.
Vejo essas fotos de Capa e os rostos que nelas estão. Por que eles parecem tão de verdade? E por que tantos rostos de hoje parecem ser tão falsos?
Quero o cheiro de corpos reais, e a falta de jeito de quem nunca posou.
Uma guerra justa para ser vencida. Ser o tigre em seu jangal.

ROBERT CAPA NA TV CULTURA

Cartier-Bresson e Robert Doisneau são mais conhecidos. Man Ray é mais artístico e Richard Avedon glamuroso, mas Robert Capa foi o maior. A tv Cultura, em seu atual renascimento, exibiu ontem um suscinto e belo documentário sobre esse herói da objetiva.
Capa cobriu guerras. A revolução da Espanha, a chinesa, a segunda grande guerra, a revolução do México. E sempre esteve contra o fascismo. Foi o único fotógrafo no desembarque do dia D. Ele estava lá, desceu em meio as balas, na areia e no frio. Entrou em Pequim e fotografou discursos e tiroteios. Seu ditado era : se a foto não saiu boa, foi porque não me arrisquei o bastante.
Amava a vida. Bebia e namorava muito. Bom conversador, sorridente, um tipo latino. Suas fotos têm a força de literatura completa. Cada foto é uma narrativa sobre aquele fato. Voce as olha e imediatamente ouve a história. Serão eternas.
O maior momento de Capa foi a libertação de Paris. Nossa geração, penso eu, jamais terá idéia do que foi aquilo. Imagine um dia em que todos saem à rua para celebrar a derrota de um inimigo comum. Mais que isso, o final de um terrível pesadelo. Penso que nunca mais comemoraremos a derrota de um inimigo. Pois nunca mais poderemos crer na vitória. Milhões de pessoas nas ruas, cantando, chorando, rindo, se beijando. Milhões de pessoas completamente felizes. Sem qualquer pudor. Me é, nos é, inimaginável. E aconteceu a tão pouco tempo.....
Após a segunda-guerra Capa foi para Hollywood. Para descobrir que o mundo falso do cinema lhe era insuportável ( o que não o impediu de ter um caso com Ingrid Bergman. Mas ela era uma estrela anti-Hollywood ). Mesmo assim, Capa tem belas fotos de Hitchcock, Ingrid, James Stewart, Cary Grant e George Cukor. Mas seu lugar era Paris.
Volta e cria a Magnum ( nome tirado de uma champagne ). Com Bresson e outros, é criada a primeira agência de fotógrafos. Eles vendem suas fotos aos veículos que desejarem. São donos de seus narizes. Sebastião Salgado é hoje membro dessa agência ( que sempre tem apenas dez ou doze participantes ).
E Capa vive. Festas, casos, jazz. Até que é chamado pela revista Life para fotografar o Vietnã. Os vietnamitas lutavam contra a França. Tentavam se libertar. Capa foi. Tirou fotos assombrosas. E morreu por lá, ao pisar numa mina. Tinha trintae oito anos.
Os vietnamitas queriam o enterrar em Hanoi. Mas foi levado para New York.
Não haverá mais espaço para novo Robert Capa porque hoje temos um bilhão de fotógrafos fotografando tudo. Isso é bom. Posso brincar de ser Capa. E sei que meu mundo estará para sempre vivo nessas imagens que não param de se reproduzir. Democracia.
Mas por outro lado, em meio a essa massa imensa, se existir um talento tão forte quanto o de Capa, ele será imediatamente subjugado pelo clamor dessas imagens que não cessam de brotar. E pior, nosso olhar, sempre instigado e confundido por cenas que não páram de chegar, não será mais educado por outro olhar, um olhar mais apurado, treinado e sábio. Na bilhanesca quantidade de imagens, todas terminam por ter o mesmo valor : a irrelevância.
Nisso a geração de Capa foi privilegiada. Como aconteceu com o cinema e a música da época, é uma geração que teve a sorte de ser a primeira e ao mesmo tempo a última. A primeira a conhecer a comunicação global, e a última a ter o tempo necessário para se desenvolver e ser apreciada.
Tenho em casa um livro de Robert Capa. Fotos da Espanha, da China e da grande guerra. E das festas em Paris. São como textos de Heminguay ou páginas de Proust. Tudo está lá. Tudo. Mas o que mais se percebe é a força de quem tirou essas fotos. Se em Bresson percebemos a ordem e a suprema maestria do francês, e se em Doisneau vemos a poesia e a fé do fotógrafo, em Capa não paramos de notar, em toda foto, a coragem, a virilidade, a confiança de quem as produziu.
Robert Capa foi um Homem.

O FILÓSOFO E O CACHORRO

Admitir que nada se sabe ( e citar Socrates ) é sempre uma forma de se desculpar por sua obtusidade. Ainda mais quando se diz que ninguém é seu herói. Ser "humilde" e ao mesmo tempo vomitar teorias sobre macacos e lobos é tão esquisito quanto falar que macacos são interesseiros. Simios não entendem a vida em termos morais. Eles apenas tentam se defender do perigo e para isso procuram a proteção do grupo. Lobos são muito mais fortes, e apesar de também viver em grupo, eles podem lidar mais facilmente com o medo.
Macacos, como nós, são acima de tudo covardes.
Confundir religião com política é um erro que todo "intelectual" superficial faz. Igreja é politica, religião é outra coisa. É o que nos diferencia de macacos. Ter fé em prescindir da fé, ou melhor, ter fé na inteligência racional, o velho e mofado cartesianismo.... percebe a incongruência ? No fim é tudo uma questão de querer se acreditar, seja em Marx, Jung, Kierkgaard ou em seu próprio ego.
Eu tinha 28 anos de idade quando escrevi um texto dizendo que meu cão, Nick, era um grande filósofo. Seu delicado imediatismo me ensinava o que era a vida. Gostava de acreditar ( tinha fé ) que ele pensava e tinha chegado a uma simplicidade proposital. Eu dormia com ele e o observava. Hoje sei que minha relação com ele era de afeto.
Nosso lado macaco é nosso lado "romano". Aquele nosso ser hiper-social, falador, medroso, e que quer ver apenas o óbvio. Nosso lado que vive em função do agora e que está preso na retidão da história e nos desejos do estado. Não temos nenhum lado lobo, muito mais interessante é dizer que temos um lado tigre. Pois é o tigre o verdadeiro oposto ao macaco. Absolutamente solitários, absolutamente silenciosos, totalmente misteriosos. O tigre é nosso lado pagão, celta, bárbaro, mistico. É ele que não pode se comunicar, não admite viver em grupo e vê a vida como emaranhado, círculo sobre círculo, selva indiana ( jangal ).
Macacos são cotidianos, simples, sem segredos.
Tigres são além da vida, complexos, cheios de perigos, fugidios.
O tal autor fala obviedades sobre obviedades.... todo best-seller é sempre macaquice.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

TOP HAT - MARK SANDRICH

A partir do momento em que se coloca alguém como Daniel Day Lewis num musical ( Nine ) ou Renee Zellweger ( Chicago ), está provado : falta talento musical no mundo. ( Os dois são bons atores, mas sabem cantar ? Sabem dançar ? Têm carisma de entertainer ? )
Top Hat é um dos top 5 de Astaire. Por que ? Vamos explicar.....
Música. Quem a faz é Irving Berlin e se voce não sabe quem é Berlin...bem, sinto por voce. Berlin é um dos cinco grandes inventores da musica popular americana. Um cara que foi e é regravado sem parar ( por Billie, Sinatra, Ella, Chet, Sarah, Harry, Norah, Anita.... ). Impossível alguém não conhecer pelo menos meia dúzia de músicas dele. Pois bem, aqui estão as melhores. Cheek to Cheek, Lovely Day, Top Hat... e cantadas por Astaire que foi quem as popularizou primeiro. E o que são essas canções ? Classe baby, classe. Elas são melodias sobre a alegria do amor e também sobre como sofrer a dor de amar sem perder a consciencia da beleza de se estar in love. Mais que isso ? Aula de elegancia, harmonia e infinito.
Dança. Fred Astaire trabalhou com Hermes Pan no filme, e Ginger Rogers dança com ele. Fred é etéreo, nada nele é sexy. Ginger é pimenta, tudo nela é sexo. Eis a perfeição. Fred leva a dança ao cúmulo do sublime, Ginger o traz de volta a terra. Ela era uma atriz esfusiante ( e linda ) e ele era... um anjo ? O segredo de se entender o musical está lá explícito : na dança eles conseguem nos mostrar tudo aquilo que sentem. A forma como ela vai cedendo e se dá em Cheek to Cheek é dos momentos que justificam o cinema.
Cenário. Van Nest Polglase e Carrol Clarck. Coisa de gênio. Tudo é completamente de fantasia. Hotéis pintados de branco e creme, vidro e tapetes ( brancos ). Se o paraíso tem algum design é este : os quartos dos hotéis dos filmes de Astaire/Rogers. A Veneza que aqui aparece não tenta ser Veneza. É a Veneza da RKO, de Van e Carrol, é a cidade de Fred e Ginger. O céu.
Roteiro. Desencontro amoroso. Ele conquista garota, perde a moça, a reconquista. É só isso. Mas os diálogos são espertos, leves, "champagnosos". Pipocam como bolhas de bebida ( nunca como tiros ). E são ditos por Everett Horton, Erik Blore e Eric Rhodes, atores coadjuvantes de talento cômico, elegantes e excêntricos, amáveis.
Direção. Mark Sandrich segue a frase de Astaire: ou dança a câmera ou danço eu. E então a câmera abre o foco e não corta. Ele dança sem edição. Nada mais anti-MTV, o cara tem de dançar de verdade, nada de cortar. Eu contei, acontecem takes de um minuto sem um corte, sem um movimento de câmera, nada. O que se move é o corpo.
Produção. Pandro Berman. Top da RKO. Sets do tamanho de aeroportos. Plumas, pratas, limusines e todo o talento que o dinheiro podia comprar.
O que dá tudo isso ? Duas horas de diversão absoluta, de contato com mundo superior, de refinamento espiritual, de aprimoramento do gosto. É pouco ? Onde se encontra esse talento hoje ? Não em Penelope Cruz ou Richard Gere. ( Volto a dizer, seus talentos são outros ).
Foi a décima vez em que assisti este filme. Mal posso esperar pela próxima !

domingo, 2 de janeiro de 2011

FELIZ 2011 - O CINEMA DOS SONHOS

Tendo o mesmo aspecto onírico que a poesia, o cinema dos anos 30 é absolutamente simbólico e arquetípico. Mesmo quando ele procura ser "vida real" , mantém sempre o espírito de sonho, de atemporalidade e de vida inconsciente ( pois não é nosso inconsciente atemporal ? ). Não tendo nada a ver com a crueza do mundo real, ele fala diretamente com o que há de mais profundo em nós. Seu reino é a alma do homem. Se voce perdeu, ou jamais teve, acesso a esse seu universo, esqueça o cinema dessa época. Não é para voce.
Para se usufruir do privilégio desse mundo, é preciso relaxar. Esqueça a adrenalina do cinema atual ou a "arte" dos anos 50/60. O cinema da golden age é paisagem e vinho raro, aprecia-se, ama-se, aprende-se.
É absolutamente classe AA. Espiritos mal educados jamais conseguirão compreender seu valor.
Tudo nele é luxo. E luxo de verdade ( luxo que remete a mármore e seda, e não a aço e fibra sintética ) não excita, acalma. Mesmo seus dramas policiais, suas denúncias sociais, possuem esse aspecto de luxo, de segredo para poucos, de nascimento de um sonho. E ele deve ser amado, nunca admirado, porque admiração pressupõe razão e amor fala ao instinto. Instintivamente amamos aqueles filmes porque eles parecem ter sido feitos com naturalidade, sem forçar, ao sabor do vento. Os rostos que lá vemos são os patriarcas e matriarcas da arte das telas, e seus cenários possuem a tênue irrealidade da vida imaginada, desejada, sonhada.
Aprendia-se a ser homem com Gary Cooper e como se abordar uma mulher com Clarck Gable. Henry Fonda demonstrava o que significava ser nobre e Errol Flynn a ser leve. Cary Grant dava aulas de elegância enquanto William Powell mostrava como ser charmoso e feliz no casamento. James Cagney mostrava aos durões como ser mais durões e Humphrey Bogart instituia o cool. Groucho Marx ensinava a ironia e o nonsense e Spencer Tracy o machismo tranquilo. Em todos esses atores, ensinados a ser estrelas pelos fortíssimos estúdios e produtores de pedra, havia a total ausência de carnalidade, de fedor, de neurose ou de fraqueza. E sobre todos eles, vivia o mais irreal dos astros : Fred Astaire.
O mundo que criou Astaire é o mundo que não conhecia a bomba atômica, a poluição, a droga e o campo de concentração. Astaire nasceu quando ainda se podia viver na completa ignorância da maldade e do crime. Viena ainda não havia sido esquecida.
Em quarenta anos de carreira nada em Fred Astaire é menos que perfeito. Ele esteve em muitos filmes ruins, mas em cena, ele sempre foi Astaire e isso era um tipo de mensagem vinda não se sabe de onde, a nos dizer : Hey, os homens poderiam ter sido assim ! Perfeitos. O nascimento de um novo Fred Astaire é tão impossível quanto o nascimento de outro Shakespeare. O mundo que o criou está completamente passado.
Mas nossa alma, nosso inconsciente ou o que seja, que não reconhece tempo ou distância, continua sendo atingido, embalado, hipnotizado pela cadência musical dos filmes desse período. É uma espécie de religião ( os poucos amantes desses filmes se comportam como se fossem fiéis a um tipo de deus/ deuses ). Os filmes desse tempo jamais voltarão a ser POP, mas serão para sempre MITICOS.
E é maravilhoso para mim voltar a ver esses filmes. Após duas semanas de filmes dos anos 2000 ( alguns excelentes, muitos ruins, mas todos febris, neuróticos, nervosos, sem transcendência ), é uma felicidade, inimaginável para os não iniciados, reencontrar esses ícones, reencontrar o rumo, a poesia, o sentido, a paz. Assito ontem a FOLLOW THE FLEET, que nem é um Astaire dos melhores, e me vejo sorrindo todo o tempo, vendo o mundo como coisa maior, mágica, sublime. Reencontro os rostos de Ginger Rogers e de Randolph Scott e revejo linhas de poesia em forma de cinema.
Quando Fred pega Ginger e canta dançando LET'S FACE THE MUSIC AND DANCE, todo o segredo da vida é exposto. Tudo fica claro, nitido, simples e melhor, fácil. Eu merecia isso em ano que começa.
Se um dia existiram santos sobre a terra, Fred Astaire foi um deles. O bem que ele faz é milagre.

sábado, 1 de janeiro de 2011

KUNG FU HUSTLE - STEPHEN CHOW

Quantos filmes voce já assistiu que te deixaram feliz com a vida ? Este é um deles. Feito em 2004, pelo maior star do oriente ( Chow ) ele é uma carinhosa sátira e também homenagem, aos filmes de kung fu dos anos 60. E é, principalmente, a melhor comédia da década.
Nos anos 30, a Quadrilha do Axe aterroriza um bairro proletário da China. Mas não sabem eles que alguns dos moradores são velhos mestres Shao Lin. Só isso ? Não, há muito mais. Todos os persoangens são criações geniais. Não há preguiça em sua gênese, o que existe é muita inspiração. Vemos o herói ( Chow ) que é um valentão que não sabe lutar; seu amigo balofo e uma vendedora de sorvetes muda. Há a senhoria que só grita e tem um cigarro enfiado na boca, o marido, tipo ridiculo de conquistador barato; o barbeiro de bunda de fora e o alfaiate gay; o lider dos axes, estiloso, que tem cena de dança hilária, o velho assassino de chinelos e careca.... há tanta criação no filme, tanto prazer em fazer ( e em agora assistir ) que fica dificil transmitir sua riqueza.
Posso garantir que seus primeiros vinte minutos são das melhores coisas que já vi no cinema dos últimos trinta anos. Velocidade, surpresas, colorido, e uma trilha sonora vibrante e puramente chinesa. Como diz Roger Ebbert, é uma mistura de Tarantino com Pernalonga, mais Buster Keaton e Jackie Chan. Há de tudo aqui, arte superior e tolice de cartoon, sangue e risos, dança e filosofia. E depois desses vinte minutos, quando já nos acostumamos com tanta criatividade, relaxamos e usufruimos do resto da festa.
Só agora, no fim da década, é que vejo o que perdi : filmes de Hong Kong, Taiwan, China, Coréia, Malásia, Cingapura e Tailândia. Todo um continente preso em nosso preconceito ( ou preguiça de procurar ). Filmes Pop como os americanos não conseguem mais fazer. Sem medo, sem pretensão, sem preguiça.
Será Stephen Chow o melhor diretor do mundo ?
Não sei se ele é melhor que os Coen ou que Tarantino. Não sei se ele é tão fascinante como Scorsese ou se tem uma marca autoral como Eastwood. Também não posso saber se ele é tão inquieto como Aronofski ou Almodovar. E se ele tem a gana de Arau ou de Frears. Mas o que eu sei é que nenhum deles é MELHOR DIRETOR que Stephen Chow. Diretor no sentido de saber fazer um filme, entender da técnica, da montagem, do roteiro e da cor. Fosse americano ou inglês, ele dominaria facilmente Hollywood. Talento tão pop e tão brilhante não há.
Nunca é tarde para descobrir coisas novas, e este filme é absolutamente NOVO. Ele não entende o novo como colocar telas de computadores no filme e fazer a câmera tremer. Ele não procura ser novo abusando de efeitos ou enchendo a trilha de pop music. Nem comete a bobice de confundir novidade com video game ou tédio deprê. Ele sabe que o novo, o que só nosso tempo pode ter, é o carnaval de referências, a irreverência plena, a elétrica criação sem pudor algum. Um caldo onde tudo cabe e tudo é válido. Um caleidoscópio chinês. Uma feira de contrabandos. Isto é novidade, isto é jovem. Delicie-se....
Stephen Chow é o máximo.