sábado, 30 de outubro de 2010

PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO....-KIM-KI DUK

Você um dia amarrou uma pedra à vida.

E o sapo, e o peixe e a serpente foram asfixiados em sua vida.

O sapo que se transforma, o peixe que mergulha na água, e a serpente que se renova.

Voce lhes deu uma pedra para carregar.

E sua pedra, dura/sólida/fria não tardará.



O vazio é uma casa/mosteiro. Pintada e de madeira.

O mundo é um lago onde a casa mora. Água ao redor da casa.

O velho e o menino.

O passado e o presente. O futuro nos dois.

Único modo de ser.



O desejo vem como consequencia. Sobre as águas calmas ele é febre. Cobras que se enroscam.

O desejo é vida e vida é ilusão. Etapa a ser vencida. Sabedoria sem servidão.

O desejo sempre vence. Ele se vai, fortalecido, voce fica, destruído.

A paz do lago está partida. O velho e o jovem são agora dois. A unidade se perdeu.

O mundo de coisas e de palavras chama.



O velho será serpente após o fogo.

O menino será o velho após o desejo.



O peixe será o peixe, o sapo será sapo.

E a pedra será carregada.



O cinema atual só é relevante no oriente. Kim-Ki Duk. Eis um grande cineasta. E mais que isso: um verdadeiro budista. Seu filme é um silêncio que procura um vazio. Não tem ação, apenas espera. Não tem furor, apenas quietude. Não tenta transformar budismo em filosofia existencial ( como fez Bertolucci em O Pequeno Buda ). Ele não olha o vazio de fora, como fizeram Hesse e Schopenhauer. Kim está inserido no vazio.

Conheço a casa cercada por água.

A minha era cercada por um pântano.

Após ficar, inutilmente desperdiçando tempo e fazendo nada, por várias horas lá, eu começava a sentir só o pássaro que voava, a formiga que passava e o capim que se movia.

Tudo que eu pensava era no suor que molhava minha testa e no cheiro da lama que vinha do córrego que serpenteava.

Aquele e aquilo era meu vazio onde eu nada fazia e nada era. Um que estava.

Nunca estive tão vivo.



Nada espere deste filme. Ele é um vazio. Nem bonito e nem feio, nem moderno e nem antigo, não é bom ou ruim, e não tem ação e nem é artístico.

É nada.

Mas perceba: A vida é uma casa em meio a um lago onde um velho assiste um menino.

Por mais que nos cerquemos por palavras, coisas e ações vãs, a vida é um espaço onde a serpente renova, o sapo transforma e o peixe mergulha.

Este filme é precioso.

O BUDA

Agora chove lá fora. E vêm as palavras: pode haver uma enchente, o feriado se foi, chuva é coisa poética, molha meu amor, rega as plantas, chuva é trânsito ruim, chuva ácida, o tempo mudou, a chuva são gotas de água, chuva dos deuses.....
Modo budista de pensar a chuva: chove.
Estou vivo. Irei morrer. Estou amando, o amor pode ser perdido. Estou feliz, toda felicidade deve ser usufruida. Estarei feliz? O que me faz feliz? Satisfazer desejos. Ser livre. O que é ser livre? Livre do que? O que é o desejo? Mas todo desejo é por sí insatisfeito. O kosmos é infinito, mas o que há após o infinito? O que existia antes do primeiro segundo? De onde veio a primeira matéria???????
Modo budista de pensar. ( ).
Vazio.......................................................Vazio.
nem o sim e nem o não
silêncio
Palavras são brinquedos de criança.
Poeira que nos faz fechar os olhos.
mas até mesmo os olhos são parte do jogo.
Pensamos com palavras
Sentimos apenas o que é palavra
mas as palavras são falhas
Porque foram criadas pela ilusão
Nomeamos para deixar de ter medo
Nomeamos para poder lidar
Nomeamos para vulgarizar
sem um nome não há
sem um nome não sei lidar
sem um nome o vazio e o nada
a verdade?

Chove.
Folhas molhadas e ruído de água.
Cheiro que vem do chão.
Pássaro cantando.
Quem chove sou eu
molhado eu
chão eu
Quem canta sou eu
Mas eu sou aquilo
eu sou lá
( )

Buda.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

SONGS FROM THE BIG PINK - THE BAND

Não é pouca coisa.
Num tempo de doidos chapados, eles eram sóbrios.
Em era de solos de guitarra e gritos revoltosos, eles propunham a delicada atitude.
Quando todos eram terminais desesperados, eles trilhavam a esperança da amizade.
E em terra de artistas egocêntricos, tudo o que eles faziam era comunitário.
Não é pouco.
Como diz a Rolling Stone, salvaram almas perdidas na confusão pós-68.
E mais.
Mudaram os Beatles, que após ouvir este disco deixaram de lado o psicodelismo e passaram a fazer canções ( há uma famosa foto em que os fab four os homenageiam ). Desfizeram o Cream, fazendo com que Clapton jogasse fora seus solos e passasse a tentar cantar.
E deram novo significado a todo o rock americano, ao lembrar aos ídolos doidos que tudo na música americana é folclore, raiz, verdade.
Com este disco eles abrem caminho para Leonard Cohen, Neil Young, Van Morrison e Gram Parsons.
Não é pouca coisa eles terem sido a primeira banda a ser capa do Times.
E terem sido os primeiros a ser homenageados em show ( Dylan, Young, Morrison, Muddy Waters, Clapton, Joni Mitchell ) quando a moda de homenagens ainda não existia. Foram filmados por Scorsese e deixaram a banda de lado, se aposentaram, ao sentir que a inspiração se fora ( como Bergman faria no cinema ). Optaram por não explorar seus fãs.
Tudo isso é The Band. Robbie, que toca guitarra como quem toca a mulher amada, com maciez, tato, carinho; Rick e seu baixo sacolejante, Garth enfurnado em efeitos de teclado, Richard com os pianos de buteco e Levon e sua batera de ritmo estradeiro. Todos liderando, todos nos vocais, ninguém como frontman.
Neste seu primeiro disco, gravado na casa de fazenda Big Pink, onde Dylan se recuperava de acidente, eles são mais pó e solidão em grupo que nunca. Eles são o melhor equivalente que o rock já produziu dos filmes de John Ford e dos poemas de Whitman. Tudo é estrada, tudo é casa em comunhão, tudo é pra valer.
Quando a primeira faixa entra, Tears of Rage, voce já sente: nada aqui é comum, mas tudo lhe será familiar. Poucos discos têm uma faixa 1 tão pouco pop, tão pra baixo, tão íntima. Eles choram uma derrota, mas no resto do disco veremos que essa derrota não os destruiu. Faixa a faixa, são onze, eles vão se erguendo, se aprumando, reconstituindo o mito do herói, e dando injeção de ânimo ao combalido rocknroll.
Seu som, escutado hoje não te impressionará por sua originalidade. Foi tão copiado desde então ( e ainda é ) que parece apenas mais uma banda fazendo outra vez esse tipo de som pop. Mas na época de Beatles, Doors e Zappa, em que todo disco era psicodélico, eles foram os criadores desse som. Adulto, masculino e sensível sem ser frouxo.
O que irá te impressionar agora é a beleza das melodias, a nobreza das vozes e a sinceridade de um grupo que transpira verdade em cada segundo de som.
Quando a música Long Black Veil irrompe ( faixa 7 ) voce desaba. Nada em rock soa tão verdadeiro. E trágico.
Ouvir este disco é então ser testemunha de uma cerimônia onde a fé é na força do homem, na inspiração da raiz e na aventura da estrada. Vindos do Canadá ao mundo, The Band será sempre a lembrança do grau máximo de dignidade em música. Pois talvez existam bandas melhores (quais? ) mas nenhuma é tão amiga.

O MELHOR DOS PSICÓLOGOS ( SOBRE A PAIXÃO ) - STENDHAL

Concordo com Harold Bloom ( e tantos outros ), Stendhal é o escritor que melhor analisou a paixão, desde o momento em que ela nasce ( é o único que consegue demonstrar como e porque ela surge ) até sua morte. Apenas Tolstoi lhe faz sombra.
Recordo de momento em minha vida, doente de paixão frustrada, em que comecei a ler O VERMELHO E O NEGRO. Sem muita vontade, achando ser incapaz de concentração, insone. Mas aconteceu a magia: logo em suas primeiras páginas Stendhal me capturou. Alí estava tudo o que eu vivera, eu não estava só. O livro me reergueu e só então percebi o quanto um livro pode ser precioso. Mas o que Stendhal faz é ainda melhor: ele descreve a paixão em profundidade, mas jamais deixa de nos exibir o ridículo que vive ao lado do sublime. Ele não faz sátira, respeita o amor, mas demonstra o quanto nosso sofrimento tem de consciente, de livre-escolha, de masoquismo. Stendhal sabe exatamente onde mora a armadilha.
E sempre é um prazer ler seus livros. A escrita varia entre a alegria solar ( o amor para ele, mesmo se sofredor, é sempre vital, portanto, alegre ) e o sonho. Ele consegue nos fazer mergulhar no delírio da paixão, mas nunca parece "místico" ou poeta, é sempre um realista.
Julien, personagem deste livro, é um frio ambicioso. Ou não? Ele sabe usar o amor, trata-se de um sedutor. Ou não? Essa dubiedade acontece também com as duas personagens femininas centrais. Ficamos em dúvida: aquilo é amor verdadeiro ou é narcisismo? Eles se amam ou se usam para se amar? A vítima é uma vítima ou é uma atriz/autora, presa em sua peça feita de espelhos?
Stendhal usa todos os artifícos do romantismo, mas os analisa, esvazia-os, mostra a bufonaria dos hábitos. Julien paga por seus crimes, mas mesmo o cadafalso é ilusório, teatral, mascarada de convenções.
Como dizem tantos críticos, mais que o amor, Stendhal mostra que é o desejo que sempre nos cega e nos faz errar. E preciosamente, em sua escrita, Stendhal transmite cada meandro, cada fagulha desse desejo, seja o subjetivo desejo pela felicidade, seja o urgente desejo pelo poder. Ele demonstra que amor é carne, é posse, é ter, mas que também pode ser alma, deixar de ser, dar-se e se iludir.
Nietzsche chamava-o de O GRANDE PSICÓLOGO. Percebeu Stendhal que todos os nossos erros nascem de nossa impaciência, que bastava saber esperar e conseguir calar para deixar de errar. Que toda a dor do homem nasce do fato de que somos incapazes de nos aquietar. É urgente que façamos coisas, que matraqueemos, que "vivamos". E toda essa ação, essa falação sem fim nos leva ao erro, principalmente em amor, mundo onde o silêncio e a quietude são regras de ouro.
Tudo o que sofri e tudo o que errei estão em Stendhal. O VERMELHO E O NEGRO, obra-prima de tempo em que o gênio abundava no ocidente, é manual de paixão, auto-ajuda de verdade, monumento à mente sagaz de um homem.
Stendhal sabia tudo.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

OCTAVIO PAZ - UM GIGANTE ( O ÚLTIMO ? )

TODA SOCIEDADE AGONIZANTE OU ESTÉRIL TENTA SE SALVAR CRIANDO UM MITO DE REDENÇÃO, QUE TAMBÉM É UM MITO DE FERTILIDADE.
A ESTERILIDADE DO MUNDO BURGUÊS ACABARÁ EM SUICÍDIO.
Esta é a conclusão de O Labirinto da Solidão. Análise de Paz sobre o México. Fascinante viagem entre política, religião, ciência, dinheiro e poesia.
Falar de Octávio Paz não é fácil. Ele foi um gigante! Homem tipo Goethe, Homem que procura saber tudo, mais que saber, compreender tudo. Se temos hoje alguns bons escritores ( Clézio, Coetzee, Doyle, Theroux...), desde a morte de Paz e de Sebald, gigantes não há mais. Octávio tinha a presença.
Cito Pedra do Sol :
AMAR É LUTAR, E SE DUAS PESSOAS SE BEIJAM O MUNDO SE TRANSFORMA
DESEJOS SE ENCARNAM, INTELECTO SE ENCARNA
GRANDES ASAS SE ABREM, NASCENDO NOS OMBROS DO ESCRAVO
O MUNDO É REAL E DEVE SER TOCADO
VINHO É VINHO, PÃO VOLTA A TER GOSTO, ÁGUA É ÁGUA
AMAR É LUTAR, É ABRIR PORTAS, PARAR DE SER FANTASIA NUMERADA
CONDENADA A SENTENÇA DE CORRENTE INFINDA POR SENHOR SEM CARA
O MUNDO SE TRANSFORMA QUANDO DUAS PESSOAS SE OLHAM
RECONHECENDO QUE AMAR É SE DESPIR DE NOMES E ROUPAS (...)
MELHOR TER O CRIME
OS AMANTES SUICIDAS OU O INCESTO ENTRE IRMÃOS
COMO ENTRE DOIS ESPELHOS QUE SE APAIXONAM POR SEUS REFLEXOS
MELHOR SE ARRISCAR A COMER PÃO ENVENENADO
O ADULTÉRIO EM LEITO DE CINZAS, PAIXÕES FEROZES, DELÍRIO
COM SUA HERA VENENOSA, O SODOMITA COM O CRAVO NA LAPELA GOTA DE CUSPE
MELHOR SER MORTO A PEDRADAS EM PRAÇA PÚBLICA
QUE SE DEIXAR VENCER POR PROVAÇÕES QUE ANULAM A SUBSTÂNCIA DA VIDA
FAZEM DA ETERNIDADE HORAS VAZIAS, DOS MINUTOS PENITENCIÁRIAS
E DO TEMPO CENTAVOS DE COBRE E MERDA ABSTRATA.

Esse poema é do Paz de 68, crente nos novos tempos da revolução. Mas logo ele perceberia que essa revolução fez do jovem uma vítima da opressão. Os gritos libertários adotados pelos inimigos e regorgitados como peças de moda.

Uma professora de português, ao ler minha primeira redação, em meu primeiro ano de Fiam, me disse: " leia Octávio Paz! suas dúvidas são as dúvidas dele." Não li. Só o conheci uma década depois.

A PALAVRA POÉTICA E A PALAVRA RELIGIOSA SE CONFUNDEM ATRAVÉS DA HISTÓRIA. (...) MAS O ATO EM QUE O HOMEM SE FIXA E SE REVELA É A POESIA. A RELIGIÃO E A POESIA TÊM ENTÃO ORIGEM COMUM. MAS A RELIGIÃO CANALIZA, INTERPRETA, RITUALIZA, SISTEMATIZA E NOS DEVOLVE ESSA INSPIRAÇÃO NUMA TEOLOGIA. A POESIA ABRE-NOS A POSSIBILIDADE DE EXISTÊNCIA A CADA NASCIMENTO. RECRIA O HOMEM E FAZ COM QUE ELE ASSUMA SUA VERDADEIRA CONDIÇÃO: VIDA E MORTE EM UM ÚNICO INSTANTE DE INCANDESCÊNCIA.

Não conheço definição mais perfeita de poesia. E penso que todo poeta é homem nascendo. Homem vendo a vida pela primeira vez. E penso que todo homem que repele a poesia é homem com medo de nascer ( e de morrer, pois viver é morrer toda hora ).
A religião nos dá essa experiência deglutida. Nos dá esse nascer/morrer com seguro de vida.

Em 1968 centenas de estudantes mexicanos foram mortos em passeata. Protestavam. Eis a interpretação de Paz:
OS EVENTOS DE 2 DE OUTUBRO NA PLAZA DE TLATELCOLO, INVOCARAM, REPETIRAM, OS RITOS ASTECAS: CENTENAS DE JOVENS SACRIFICADOS NAS RUÍNAS DE UMA PIRÂMIDE. O PODER MEXICANO PUNIA SEU PRÓPRIO PASSADO REVOLUCIONÁRIO AO PUNIR ESSES JOVENS.

Paz fala sobre a paisagem da Cidade do México:
ARQUITETURA PARALÍTICA
BAIRROS ISOLADOS, JARDINS MUNICIPAIS PODRES, MONTES DE SALITRE
TERRENOS BALDIOS, ACAMPAMENTOS DE NÔMADES URBANOS
FORMIGUEIROS E CRIAÇÃO DE MINHOCAS
VIAS PÚBLICAS DE CICATRIZES, BECOS DE CARNE VIVA
FUNERÁRIAS, ATAÚDES NAS JANELAS, PROSTITUTAS-PILARES DA NOITE VÃ
ALVORECER, BAR À DERIVA
O ESPELHO ENORME DERRETE
BÊBADOS SOLITÁRIOS CONTEMPLAM A DISSOLUÇÃO DE SEU ROSTO
O SOL SE ERGUE DA CAMA DE OSSOS
O AR NÃO É AR, ESTRANGULA
ALVORADA QUE RASGA CORTINAS
CIDADE PILHA DE PALAVRAS QUEBRADAS
VENTO NAS ESQUINAS EMPOEIRADAS EMBOLA JORNAIS
NÃO EXISTE CENTRO PRAÇA DE CONGREGAÇÃO
NÃO EXISTE EIXO
ANOS SE DISPERSARAM, HORIZONTES DEBANDARAM
MARCARAM A CIDADE EM CADA PORTA EM CADA FRONTE
COM APENAS UM SÍMBOLO $

E Paz viaja: India, Paris, EUA. E em cada viagem traz uma revelação.
Escreve sobre o Budismo:

TODA PALAVRA GERA UMA PALAVRA QUE É SUA NEGAÇÃO. PORTANTO VIVEMOS NA DIALÉTICA. DESTRUIÇÃO E RENASCIMENTO. SIM E NÃO. TESE E ANTÍTESE.
COM O SILÊNCIO DE BUDA CESSAM O MOVIMENTO, A OPERAÇÃO, A DIALÉTICA, A PALAVRA. AO MESMO TEMPO NÃO É A NEGAÇÃO DA DIALÉTICA NEM DO MOVIMENTO: O SILÊNCIO DE BUDA É A RESOLUÇÃO DA LINGUAGEM.
VIEMOS DO SILÊNCIO E VAMOS AO SILÊNCIO. O QUE BUDA EM SEU SILÊNCIO REVELA NÃO É NEGAÇÃO E NEM AFIRMAÇÃO: É SUNYATA: TUDO ESTÁ VAZIO PORQUE TUDO ESTÁ CHEIO.
A PALAVRA NÃO É AFIRMAÇÃO PORQUE A ÚNICA AFIRMAÇÃO É O SILÊNCIO.
A NEGAÇÃO DO MUNDO IMPLICA O RETORNO AO MUNDO, O ASCETISMO É O RETORNO DOS SENTIDOS, A REALIDADE É A CHAVE QUERIDA E TERRÍVEL DA IRREALIDADE.
O CORPO NÃO É JANELA AO INFINITO, É O PRÓPRIO INFINITO.
NÃO SE TRATA DO CONHECIMENTO DO VÁCUO: UM CONHECIMENTO VAZIO.
O SILÊNCIO DE BUDA NÃO É CONHECIMENTO, MAS ALGO ALÉM, É SABEDORIA. UM NÃO-SABER. UM SER DESPRENDIDO, E PORTANTO, RESOLVIDO. QUIETUDE É DANÇA, E A SOLIDÃO DO ASCETA, NO CENTRO DA ESPIRAL IMÓVEL, É IDÊNTICA AO ABRAÇO DO CASAL DE AMANTES NO SANTUÁRIO DE KALI. UM SABER QUE NADA SABE E QUE CULMINA EM POÉTICA, EM ERÓTICA.
A ARTE DE BAILAR ACIMA DO ABISMO.

Releia até que as palavras percam sentido.
Tudo está vazio porque tudo está cheio. Olhe ao seu redor.....
Octávio Paz, em sua busca poética pelo vazio o encontrou. O vazio onde tudo faz sentido porque tudo se resolve. O vazio onde ao cessar a palavra, cessa a dúvida.
Como Ocidental do século xx, Paz tentou essa iluminação através da palavra.
Usou então as palavras em outro sentido, fez poesia.
Não há autor recente com tão nobre proposta.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

ASH WEDNESDAY - TS ELIOT ( E ROXY'S MOTHER OF PEARL)

Aqui Eliot entra em sua terceira fase. Não mais o coloquialismo, não mais o modernismo. Agora ele tenta encontrar o sagrado na vida.
Escreverei sobre este poema sem citar uma só linha de seus versos. Basta saber que Eliot sempre escreve poesia sem poetasiar. É totalmente anti-Vinicius. Nada tem de poeta-das-menininhas. E também nada faz dele um "irmãos Campos". Eliot não faz experiências.
Sem rimas, seu segredo é o ritmo. Tudo que ele escreve é musical. As imagens e as palavras vêm e vão e se repetem como se fossem notas e arranjos. Sua escrita é um tornado.
Aqui ele fala do que?
Dos ossos. Dos leopardos que comeram sua carne. Da árvore seca. E de uma Dama de azul e branco. Deserto.
Mas o texto é otimista. Pois ele não mais tem medo. Eliot entendeu.
ASH WEDNESDAY, de 1930, me faz pensar. Em escolhas.
Escolhemos o dois mais dois como eternamente quatro. E agora pagamos o pato.
Optamos pelo olho e pelo ouvido. A mão e o osso. Enterramos ( no inconsciente? ) o não visível.
Religião virou igreja. Torre de pedra com ritos e mandamentos sem nenhum significado.
E arte se tornou cada vez mais a assinatura de uma vaidade.
Mas já falei tanto disso e me dá tanta preguiça..... Pois o que me motiva é a Dama de azul e branco, a rica simbologia dessa mulher que não se pode ter e jamais será conhecida. Essa imagem de religião verdadeira e de morte gloriosa. Esse sentimento que a arte superior tenta nos fazer rememorar.
Em 1300 a arte toma o lugar do sagrado ( já que a igreja se torna PODER ).
E passa a ser, quando verdadeira, a busca pelo invisível e pelo atemporal. Um sentido para uma vida que passa a negar toda transcendencia, que só crê no provado e comum. É na arte, poesia e música, depois teatro e prosa, que se ora.
Mas agora, de 1800 em diante, também a arte lentamente apodrece. Vai perdendo o dom de engrandecer e de sacralizar. Torna-se uma questão de refazer e de erguer egos.
O dois mais dois se torna a única realidade.
A grande obra hoje é sempre da ciência. O acelerador de partículas, o ônibus espacial, o micro. Nosso engenho está todo focado nisso e sómente nisso. O hiper talento humano não mora na arte, muito menos na religião. Ele é todo matemático, o que existe é o que pode ser medido, pesado e transformado em equação.
Todo o resto é poesia.
Mas é aí que a porca torce o rabo.
Pois não há satisfação nessa lousa e nesse chip. Continuamos os mesmos caras de 1300.
Queremos glória viril. Queremos ser lembrados. Queremos uma casa em paz e um campo de provas. A Dama de azul e branco. Êxtase e transcendência. Vinho e sono.
O dois mais dois nos oferece em troca glória virtual. Esquecimento. A morte da casa e o fim da busca pela sóbria paz. A não-concentração e relativização. Uma dama de preto e de vermelho, sem segredos e sem sacrifícios. Comodismo e eficiência. Pílulas e insônia.
Ouça.
Mother of Pearl, Roxy Music.
Tudo isto está lá. É como She Comes in Color do Love de Arthur Lee. Transcendência no pop. A chance de perfeição. Nosso espírito cantando.
Ouça.
Após Mother of Pearl vem Sunset.
Não há mais chance para nós?

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ANOS 90- MODA E BELEZA- CLIPS E ESPORTES

O livro dos 50 anos da Ilustrada, após os intelectuais anos 80, explica e exibe os anos 90.
Vamos lá!!!!
Erika Palomino entra na Folha. E surgem os Andrés, todos filhos pop de Pepe Escobar. Mas são os anos 90 ( que começaram em 89 ) que lançam a ditadura da página de moda. Desde então, e para sempre, viver bem será estar em páginas da Elle ou da Vogue.
No começo foi bonito. Havia um belo senso de beleza superficial. O belo que se justifica pela aparência. Beleza é só pele e casca, e daí? Esse é o slogan desse tempo. Todos querem ser bonitos.
Na noite é tempo de Sra. Kravitz e do Hells. Hedonismo após o pesadelo deprê dos anos 80. Mal sabíamos que isso levaria ao vazio....
É tempo de moda. Novas marcas e novos nomes: Galliano, McQueen, Diesel, Dolce e Gabbana, Versace, Gaultier ( sei que não surgiram nesse tempo. Mas é aí que se tornam gurus ).
Tempo das Uber-model: Linda Evangelista, Cindy Crawford, Claudia Schiffer.
E já havia os sujos Pixies, Janies Addiction e Sonic Youth; mas este é o tempo dos super clips. Os clips belos como fotos de Richard Avedon, clips "fresquíssimos", dirigidos por alguns dos melhores fotógrafos de moda ou pelos futuros cineastas de filmes moderninhos. São clips pelos quais me apaixonei na época ( essa é a última vez em que corrí atrás de novidades ). Clips que hoje, pós-Nirvana, são irrecuperáveis.
O luxo de Madonna cantando Vogue, Chris Isaak dirigido pelo gênio Bruce Webber em Wicked Game, US3 e sua estética de rap com cool jazz, C and C Music Factory e seus grafismos extra cool, o Soul To Soul que dava toda a atenção ao visual, e que tinha um líder que se assinava Jazzie B., Bryan Ferry e a elegãncia espanhola de Mamouna, um clip de luxo ostensivo e de cafonália estilosa, e principalmente o clip símbolo da época: Being Boring dos Pet Shop Boys, hino ao prazer da carne, a beleza de jovens ricos, a pele perfeita. Being Boring é um tratado filosófico. E é mais um de Bruce Webber ( que fez um doc sobre Chet Baker que é o sublime levado ao inferno ).
É nesse começo de anos 90 que temos o auge da moda skate e surf. De luxo, claro. Bermudões e camisas coloridas, leves e soltas. Como disse, o que podemos falar desse tempo é sempre MODA E VISUAL. NBA e seus tênis. Chicago Bulls e Hornets.
Valoriza-se o jazz, por seu aspecto visual e não por sua revolução; valoriza-se a escrita de Scott Fitzgerald, Auden, Wilde, Forster, Evelyn Waugh, por causa de seus ambientes chic, sua decadência bonita, seu "visual" elegante.
No cinema se fala em Audrey e em Montgomery Clift. Porque? O visual, lógico!
Cinema de Terry Gillian, de Bertolucci, de Ridley Scott e de David Lynch. Experiências visuais de Soderbergh e de Van Sant. Imagem. Tudo é imagem.
Mas essa "década" dura apenas 6 anos.
O grunge assassina tudo isso e traz a feiúra metal unida aos valores hippies. Ser tosco e sujo se torna padrão. Os clips partem para a tosqueira ( Loser e Even Flow ). Até as bandas inglesas deixam de ter "visual" e os eletros passam a cultivar o não-visual. A excessão é o Prodigy.
Todo esse glamour jamais seria recuperado. Grupos de rock hoje têm sempre a imagem dos anos 70 em mente. Seja punk, metal ou glitter. Toda banda flutua entre Led Zeppelin, Clash ou T.Rex.
Os clips da época são recuperados, de modo muito mais histérico e raso, pelo pop: Black Eyed Peas, Beyoncé ou Shakira. Mas é como comparar Madonna com Lady Gaga.
Foram anos muito divertidos! O que importava ( como diz Being Boring ) era ter 19 anos, porque aos 19 nada enche o saco, tudo é bonito e voce nunca é chato.
PS: Esqueci do cara símbolo da época, e que foi massacrado no tempo de grunges "feios": George Michael e seu clip Freedom. Lá estão Cindy e Linda e Claudia e Naomi. Lá tudo é bonito e sexy. Lá a vida se parece com jazz e Audrey e Clift e um poema de Auden.
E tudo acabou em policia e banheiro.....
Entendeu?

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER- MILAN KUNDERA

É o vômito de uma derrota. Mas Kundera não escreve vomitando. Ele é autor que escreve sempre sob-controle, sua escrita é estranhamente fria. Isso explica seu imenso sucesso em 1984/85. Em tempo blasé, nada é mais aparentemente blasé que este livro. Suas frases são como objetos de estilo em apto moderno.
Mas é só aparência. Por trás de suas frases distantes há a emoção dilacerante de uma derrota. A derrota da mais linda das revoluções: a primavera de Praga. Movimento libertário ( feito de sexo e arte ) que foi esmagado pelos tanques russos e se tornou no Ocidente uma palhaçada de marketing. A primavera de 68 nada teve de midiática. Foi o sonho de um socialismo humanista. De uma politica não científica. Foi absoluto desastre. Traumatizante derrota.
No livro Teresa é o símbolo do povo tcheco. Ela acorda para a vida tarde demais, é usada e entra em noia. Termina descobrindo a paz de se "cultivar seu jardim" ( como dizia Voltaire ).
A livre Sabrina é o espírito de 68. Ela a nada se prende e bate asas, vai à California, onde assiste a derrota como estrangeira em terra de estrangeiros.
Mas quem é Thomas? Esse médico que se humaniza e parece ser derrotado, mas que também aprende a cultivar seu jardim? Thomas é Milan? Thomas é o leitor? Não importa. Ele é um médico, um homem feito para ajudar, para curar, para servir. A escrita de Kundera é curativa. Neste relato ele se cura e tenta curar almas que se tornaram estéreis.
Há uma frase de antologia: " Se o paraíso é um círculo, onde o tempo não se esvai mas é repetição de prazer, os cães, em sua doce e não-ambiciosa rotina, vivem no Eden do não-tempo." Esse cão é Karenin ( homenagem a Anna Karenina ). Morre com um tumor.
O nome Karenin não é em vão. Este livro tem muito em comum com a obra-prima de Tolstoi ( o melhor livro já escrito? ). A vida de Kitty e Lievin antecipa a vida de Thomas e Teresa. Tolstoi adivinhou a vida possível.
Hoje nada é mais fora de moda que Kundera. Ele não é exagerado. Não é drogado ou sujo. É sempre elegante, distante, preciso.
O filme de Philip Kauffman ( diretor da obra-prima Os Eleitos ) é tão bom quanto o livro. Tem Daniel Day Lewis e Juliette Binoche ( perfeitos ). Quem amou o livro amará o filme.

sábado, 23 de outubro de 2010

ALTMAN/ LEONE/ FORD/ STEVE MCQUEEN/ MAX VON SYDOW

ERA UMA VEZ NO OESTE de Sergio Leone com Henry Fonda, Jason Robards, Claudia Cardinale e Charles Bronson
Impressiona e muito. Raros filmes são tão bonitos de se olhar. Cada gesto e cada ângulo de tomada é um primor. Apesar de por vezes cansar ( é longo e lento ) não conseguimos desistir de o acompanhar. Seus primeiros trinta minutos são das melhores coisas ( em termos de diversão ) da história da arte. O final deixa saudades. Após ver este filme, o Bastardos de Tarantino lhe parecerá bem menos atraente. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!
ONDE OS HOMENS SÃO HOMENS de Robert Altman com Warren Beatty e Julie Christie
Foi Pauline Kael quem disse que este filme é como viagem de ópio. Revendo-o agora percebo isso. As vozes vêm não se sabe de onde, todos os diálogos parecem distantes, murmurosos. As imagens são embaçadas, desfocadas, estrábicas. Tudo no filme se parece com sonho, é um tipo de longo devaneio sobre o fracasso e sobre a melancolia de se viver sem ninguém. Beatty ( excelente ) é um pseudo-malandro, que chega a vila do Alasca ( o filme tem muita neve ) e monta um bordel. Interesses capitalistas irão lhe destruir. Warren está comovente, seu tipo é de uma doçura/malandrice cativante. Julie faz uma puta pretensiosa e esperta. Sem coração. A trilha sonora é feita por canções de Leonard Cohen. São amargas baladas sobre a solidão e a estrada. Cortam nosso coração, são de uma beleza absurda. Todo o filme é como a música de Cohen: bela preparação para o fracasso. E o filme, feito no auge do sucesso pop de Altman, foi um proposital fiasco. Altman desejou destruir sua chance de ser mainstream. Conseguiu. O filme é das coisas mais originais já feitas. Nota 8.
O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA de John Ford com James Stewart, John Wayne, Vera Miles, Lee Marvin e Edmond O'Brien
Este, que é o último grande filme de Ford, trata de dois tipos de herói. O individualista e o comunitário. Stewart é o senador que vai a enterro de velho amigo. Conta-se sua história. De como ele foi um jovem advogado e de como foi ajudado por Wayne, que faz o solitário e duro herói cowboy. O filme chora o fim desse tipo de homem, o homem que fez os EUA. Stewart é o homem politico, o homem da lei, do futuro. Há muito de elegia neste filme e tem a famosa frase: Se a lenda é melhor, que se publique a lenda! Mas não é um tipo de western que empolgue. Ele é muito mais uma revisão de todo o Ford que uma obra vital e criativa. De qualquer modo, é adorado por todos os fãs de western. John Wayne está soberbo e o filme peca por usá-lo menos do que queríamos. A cena do incendio é o ponto alto. Nota 7.
FUGINDO DO INFERNO de John Sturges com Steve McQueen, James Garner, Charles Bronson, Richard Attenborough, James Coburn
O rei do cool se tornou rei neste filme. Steve McQueen faz um prisioneiro de campo nazista que é conhecido por ser o rei do cooler ( solitária ). O filme é isso, prisioneiros que tentam fugir e alemães que tentam impedir. Dirigido com profissionalismo, o filme vai crescendo conforme avança e sua hora final é extremamente empolgante. É mais um dos top 20 de Tarantino. É este tipo de filme que faz falta hoje: muito popular, simples, sem nenhum tipo de enfeite, mas de produção cara, divertido, sem grandes tolices, que vale cada centavo gasto. É dos filmes mais queridos dos anos 60 e foi grande sucesso. Nota 8.
O MENINO E O SEU CACHORRO de LQ Jones com Don Johnson e Jason Robards
Como lançam este dvd? É um muito obscuro filme doido dos anos 70 que exemplifica o ponto de piração que a época chegou. Em mundo do futuro, destruído pela radiação, um garoto anda pelo deserto com seu cão. O cão fala, e fala como um muito prático e ranzinza conselheiro. O garoto o usa para conseguir mulheres, que são estupradas e descartadas. O cão quer comida, e no fim o garoto lhe dá uma moça para comer. Um pesadelo mal feito e muito doentio. Nota 1.
ANUSKA de Francisco Ramalho Jr. com Francisco Cuoco e Jairo Arco e Flexa
Um jornalista se divide entre o mundo politizado do jornal e o mundo da moda de sua paixão, Anuska. O tema é bom, o filme é inacreditávelmente amador. Simplesmente o diretor não sabe como contar uma história. E ainda tem patética homenagem a Jules et Jim!!!!! ZERO!!!!!
O LOBO DA ESTEPE de Fred Haines com Max Von Sydow e Dominique Sanda
Baseado em Hesse e tendo o bergmaniano Sydow no elenco. O ator é o certo, o filme é errado. Não li o livro, mas dá pra notar que tudo se torna confusão neste filme que não tem uma só cena criativa. Um blá blá blá sem fim. Andam por bares e cabarets, mulher oferece sexo e por aí vai. Incompreensível. Nota ZERO
THE HIT de Stephen Frears com Terence Stamp, Tim Roth e John Hurt
Grande Frears!!!! O talentoso diretor de Ligações Perigosas, fez em 1984 este muito bom policial. É sobre dedo-duro que é caçado na Espanha por enviados do dedurado. O filme é a viagem pela Espanha dos dois assassinos e do capturado. Conseguirão executá-lo em Paris? Os três atores estão excelentes. Stamp, ex-sex symbol inglês que optou pela boemia, faz um blasé dedo-duro. Nas mãos dos executores, ele jamais demonstra medo. Hurt faz o calado matador. Frio. E Roth, bem jovem, é o bandidinho novato, bobo e afobado. O filme é diversão de primeira linha ( apesar de barato ). Frears sabe tudo. Nota 7.
DUPLO SUICIDIO EM AMIJIMA de Masahiro Shinoda
A nouvelle vague de Godard fez com que brotassem nouvelles vagues mundo afora ( foi o último movimento em cinema a fazer isso ). Tivemos uma nouvelle alemã, uma brasileira, australiana e até a japonesa. Na Alemanha ela se caracterizava pelo seu esquerdismo radical, e no Japão por sua fascinação por morte e sexo. A nouvelle vague made in Japan é toda calcada nisso: sexo e morte. Este filme fascinante e original trata disso. Uma paixão sexual que leva a morte. As imagens são belíssimas e desde seu incio vemos que o filme é especial. Nota 7.
FILHOS DE HIROSHIMA de Kaneto Shindo
Moça volta a Hiroshima. Estamos em 1951. A cidade é ainda uma cicatriz. Ruínas e gente abandonada. O filme é quase um documentário. Fortemente influenciado pelo neo-realismo italiano. Nota 5.
O VINGADOR de F.Gary Gray com Vin Diesel
Continuo tentando. Este trata de policial que tem a esposa morta por traficante e parte pra vingança. As cenas de ação são tão rápidas que mal se vê o que acontece. Mas o filme não é ruim. A gente assiste sem sentir tédio ou sono. O único problema é que depois que ele termina nada resta para ser recordado. Será que ninguém sabe mais escrever diálogos bons em filmes de ação??? Nota 5.
RAW DEAL de Anthony Mann com Claire Trevor e Dennis O'Keefe
Um dos primeiros filmes de Mann, é um noir barato que funciona bem. Um cara foge da prisão com duas mulheres: sua garota e a outra. Uma é do mal, a outra é do bem. Com trama tão frágil, é construído um sólido filme sem uma cena fraca. Rápido e viril. Cinema noir com suas sombras, suas noites quietas e seus tipos perdidos. Muito cigarro e carrões. Uma tremenda diversão! John Alton fez a foto contrastada. Nota 7.

ILUSTRADA PÓS-TUDO- MARCOS AUGUSTO GONÇALVES

50 anos de Ilustrada.

Meu primeiro jornal foi o JT ( Jornal da Tarde ). Telmo Martino foi meu primeiro jornalista herói. Neste livro falam dele: Telmo mostrou a São Paulo o que era um aristocrata de Botafogo. Ele tirava uma de tudo. Dava apelidos que pegavam. Detestava tudo que não era Botafogo. Eram os anos 70. E nessa época, culturalmente, SP não existia. O BR era Rio e Bahia.

Tarso de Castro foi pra Folha. E o ar começou a circular por lá. Depois vieram Nelson Rodrigues e Paulo Francis. E quando chegam os anos 80 vem a molecada da USP. Molecada mesmo. Gente de 22 anos botando banca de diretor. Podia-se escrever sobre tudo. Sem a pressão do mercadão. Como fala Pepe Escobar, era um jato na mão de um moleque.

Não havia infra. Não tinha nem máquina de escrever pra todo mundo. Nem ar condicionado. nem salário digno. Mas se trabalhava por tesão. Até 14 horas por dia.

Já falei muito sobre a cena paulista desse tempo. Meu bode de sair de noite hoje é o tédio de quem conheceu essa noite de 82/85. No Carbono voce assistia o filme Performance e depois dançava tecno. Enquanto um cara grafitava a parede ao seu lado e outro se picava no banheiro. Voce nunca sabia o que esperar daquela noite. Mas sabia que sempre ia acontecer. Era o despertar pós-repressão. Louca euforia. A gente tinha a absoluta certeza de ser absolutamente moderno. Ninguém era mais moderno que eu. Um ego do tamanho de uma estrela. E todo mundo queria fazer arte.

No Satã cuspiam repolho na gente. E alguns iam de dinner jacket ( voce chama de smoking? ). Rolavam umas poesias que eram vaiadas. Bandas punks e dancinhas pop. Gays montados e drogas a vontade. Na rua voce era abordado por bêbados decadentes. Video-makers. Tirava-se a roupa no porão. Vomitava-se. Depois do Satã tudo na noite me parece careta.

Mas havia o luxo dos jardins. E se é pra se ter luxo, tem de se ter garçon. Toda balada tem de ter garçon e chapelaria. E banda tocando no fim de noite. E café da manhã quando amanhece para os que ficaram. Antes de sair voce cria seu tipo. E o tipo que mais faz sucesso é o suicida terminal. Todos são Rimbauds.

Gente vinha de Paris ou de Toronto para cair na noite de SP. Era o underground do mundo. Um esgoto com cheiro de maconha e de Chanel 5. Quanta frescura!!!! Eu cheguei a sair com um ramo de orquídeas nas mãos!!! Pra que e porque? Pourquoi pas? Eu tava triste e era bacana ser triste e raivoso.

A Ilustrada ajudou a criar tudo isso. Os caras chegaram botando banca e todo mundo lia. Não havia internet, então voce lia o papel. E era bombardeado por informação afirmativa. Os caras partiam pro pau. Pau em Caetano, pau na tv, pau no cinema brasileiro, pau na mpb, pau puro. As reações eram a base de socos. Voce tinha de ler tudo isso. Voce não ia na internet procurar o que te interessa. Voce tinha de ver e absorver tudo. E os caras falavam muito. O texto era longo, com letras pequenas. E o design do jornal mudava todo dia. O título podia vir em japonês, colorido, no rodapé ou à esquerda. Podia até não ter título. E os que escreviam foram os melhores.

Fico assombrado com o fato de que alguns textos que li a mais de vinte e cinco anos ainda me acompanham. Tem no livro um texto de Flavio Rangel que saiu em julho de 78 !!!!! E eu me lembrava dele!!!! Fala do bebê de proveta e de Marx, Freud, Einstein. Do quanto o homem tem diminuido. Fala do bilhete que George Sanders ( ator ) deixou ao se suicidar ( "encheu" ). E tem uma frase que mudou minha cabeça: " Deus morreu, Marx morreu, Freud morreu, e eu mesmo não estou passando muito bem."
E nos anos 80 chegam os meninos recém formados. Caio Túlio Costa, Otávio Frias, Matinas Suzuki ( um gênio! ), Marcos Augusto Gonçalves, Inácio Araújo, Barbara Gancia, Pepe Escobar. Os caras botaram Foucault, Lacan e Hannah Arendt no jornal. Faziam crítica de um disco pop citando Cioran e Kierkegaard. Misturavam Clash e Blondie com Faulkner e Derrida. Era um jornalismo elitista, esnobe, ultra culto e diário. Quando Chet Baker morreu, Matinas podia escrever dezenas de laudas sobre seu amor por Baker. E como eles escreviam!!!!
Foi o tempo em que Humphrey Bogart se tornou moda. Assim como o cinema noir, a nouvelle vague e os livros policiais baratos. Mas eles misturavam esse pop com a turma alemã ( Adorno ), com as novas bandas inglesas ( foram eles que inventaram a moda de que Londres é o máximo ), a moda japonesa ( Comme les Garçons ) e a tecnologia de ponta. Era um futurismo que unia tempos. Tudo podia e eu ia junto. A Ilustrada era educação que pirava.
Eles atacavam o Estadão, o Rio, a Bahia, e adoravam jazz, cinema e beats.
Ruy Castro e Sergio Augusto vieram. Já veteranos, se sentiram em casa. Sergio foi o melhor crítico de cinema que já li. Me ensinou a amar musicais e westerns. Ruy contava histórias sobre BB, MM e CC. E sobre Billie Holliday e Frank Sinatra. Tudo podia desde que fosse trés chic!!!
Texto que não esqueci ( de agosto de 85 ) by Matinas Suzuki ( o grande ):
"Chamo de juveniilismo a um disperso, mas cada vez mais popular, movimento de negativismo que se espalha pelos jovens de SP."
E vai Matinas por montes de laudas discorrendo sobre a "moda" paulista de se ser melancólico, de se negar tudo, de se vestir de preto. Ele cita de Cyd Charisse à Lyotard, do rock londrino à Lebrun, e chega a bela conclusão: tudo é uma forma oca de sedução. E em mundo de sedutores, em que todos tentam seduzir, não pode haver contato real, pois inexiste o seduzido. E tome Helio Oiticica, Arrigo Barnabé, Julio Bressane. E tome eu lendo tudo isso, esse monte de referências e indo procurar saber o porque de Matinas citar Oiticica, quem era esse tal de Lyotard e porque Cyd era tão fascinante.
Coluna de Paulo Francis, 1986. Sei ela decorada.
" Adoro Pd James e Rendell, mas nada é melhor que Proust e Stendhal.....a humanidade não resiste a muita verdade.....amigos profundos só os temos na nossa geração.....leio a noite e gostaria de ir para o sul no inverno, isto é Saul Bellow, um poeta." Francis, meu patriarca, vai nesse texto de Fidel a Janio, de Edmund Wilson a Wall Street, de Eliot a Pinter. Quem lia isso? Eu lia, meus amigos da FIAM liam, todo mundo comentava todo dia. Uns odiavam, outros amavam, todos liam e reagiam. E Francis atacava baianos, Lula e o feminismo. O que ele teria a dizer de Tiririca e de Chavez?
Caetano na Folha falando de Francis: É uma bicha amarga. Bonecas travadas são danadinhas.
Como eu disse, se brigava muito. O mercado ainda não nos disciplinara.
Os dez melhores westerns por:
Paulo Francis: Warlock de Dymytrick ( vou escrever só o number one de cada um ), Sergio Augusto: Rastros de Ódios de Ford, Inacio Araújo: Onde Começa o Inferno de Hawks, Ruy Castro: O Homem que Matou o Facínora de Ford, Pepe Escobar: Johnny Guitar, José Trajano: Shane, Renato Pompeu: Winchester 73.
Perry White ( Casseta ) escrevia lá. Em 86 ele deu de título: AJOELHOU TEM DE GODARD.
E eis o irritante e glamuroso Pepe. O cara que é imitado por todo crítico moderninho até hoje.
Eu odiava Pepe Escobar. Tudo o que ele escrevia ia contra o que eu pensava. Basta ver isso:
Em julho de 84 ele diz que Michael Jackson é Jesus Cristo. Que o filho Dele voltou à Terra como neguinho gênio, com ginga e com mensagem de prazer. Hoje eu acho esse texto maravilhoso, mas na época eu não tinha o humor para entender. Pepe era assim. Ao escrever sobre o Clash citava anarquismo e Lenine, ao falar do The Who tascava um Cioran e um Camus. Para ele a noite de SP era como Londres em 67, aquela coisa Mick e Marianne Faithfull, a vida era meio Paris 1925, meio Montmartre e Cocteau.
Texto dele: " No principio era o tédio. Depois foi criado o Punk."
É fantástico o estilo de Pepe! Leiam:
"...Imagem congelada. Foco. Guitarrista abre linha de fogo. Mergulho na pressão. É a bateria. Executores/carrascos. Música nua acariciada por velocidade. Júbilo maníaco...."
Isso é crítica musical. É esse o modo de ouvir e sentir que mais me influenciou. Mesmo que naquele tempo eu tanto o odiasse ( porque não o entendia ).
Mais dele:
"...Johnny Rotten dissolve todas as contradições pelo abandono. Lautreamont e Rimbaud..."
E havia Nicolau Sevcenko. Isto ele escreveu em junho de 86. E me marcou para sempre ( também a decorei )
" Saiu... os corações mais trêfegos já podem se tranquilizar, podem jogar no lixo todo o estoque de valium e diempax, dar folga a unhas e cigarros. Já se pode trocar a insonia pelo pesadelo: até que enfim saiu o novo disco dos Smiths!......." E para falar desse disco Sevcenko fala de Nietzsche, de Yeats e de muito Oscar Wilde.
Vem Marcelo Coelho, que em entrevista de agora ( 2008 ) diz que a história realmente terminou. Que tudo em arte já foi feito, não há mais o que possa chocar. Que só nos resta a eterna repetição, citações sobre citações.....
E é IMPOSSÍVEL outro momento como a da Ilustrada dos 80. Pois além de a arte ter se tornado pura mercadoria, a pulverização da informação tornou inviável um tal agrupamento de talento.
O cara que quer ler sobre Clash vai ler só sobre Clash. Não vai querer saber nada sobre Adorno ou anarquismo. A informação é hoje só informação, não mais educação.
FIM DA HISTÓRIA.
Franceses, agora, fazem greves e protestos. Sempre eles.
Mas veja: eles não pedem uma nova politica, um novo mundo, uma revolução. Pedem que tudo fique como está. Eles pregam a não-mudança.
Em todo movimento, hoje, há o medo. Medo de sonhar e de errar.
A história acabou. O mundo é isso. Vivemos o máximo dos máximos. Todo o nosso caminhar era para chegar aqui.
Os anos 80 foram a constatação desse fim.
Lendo-os hoje os acho arrogantes, tolos, esnobes, anglófilos, e surpresa, escreviam mal, sem clareza.
Mas tinham coragem, brilho, idealismo, ingenuidade, fé no leitor, FÉ NA INTELIGÊNCIA DO LEITOR. O Jornal não devia ser útil. Devia ser vivo. E era. Como era.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

EZRA POUND

Aqui no Brasil, graças aos irmãos Campos, achamos Pound maior do que ele realmente foi. Quem acompanha as resenhas/textos/antologias de poesia moderna achará que Ezra é do tamanho de Yeats, Eliot ou Stevens. Que nada!
Pound fez um troço bem estranho: ele pegava um poeta arcaico, tipo Arnaut Daniel ( séc. xii ) e escrevia como ele escrevia. Entenda, não era uma citação ou uma homenagem, Pound se tornava aquele autor, e escrevia no estilo, com a sintaxe, com o sentimento e com o tema daquele autor.
Ele foi assim em toda sua primeira e melhor fase. Cada poema é um poema "escrito" por algum poeta antigo. Depois, com Os Cantos, ele passa a misturar tudo. Ele se torna um mix de autor chinês com provençal, grego e latino. Um vale tudo.
Mas às vezes ele é grande. Embora a gente nunca saiba se aquela bela frase é uma tradução, uma adaptação ou criação própria.

"TUDO PROS DIABOS! TODO ESTE SUL JÁ FEDE A PAZ!
ANDA CACHORRO BASTARDO, A MÚSICA!
SÓ SEI QUE VIVO SE OUÇO ESPADAS QUE RESSOAM.
MAS AH! COM OS ESTANDARTES OURO E ROXO E VAIR SE OPONDO
POR CIMA DE AMPLOS CAMPOS ENCHARCADOS DE CARMIM
-UIVA MEU PEITO ENTÃO DOIDO DE JÚBILO!
..... QUANDO A TORMENTA MATA A HORRENDA PAZ.
..... NÃO HÁ VINHO COMO O SANGUE E SEU CARMIM!"

"CARNE DE FAUNO É NOS DEFESA
COMO A SACRA VISÃO
TEMOS POR HÓSTIA A IMPRENSA
O VOTO POR CIRCUNCISÃO"

Pond é pela maior parte do tempo essa nostalgia de idade medieval. Essa saudade do homem-como-homem, da vida como prova de valor. Mas esse saudosismo, tão século xx, é tragado pelo seu excesso de citações, de cultura erudita, de febre por absorção. Pound acaba cansando, é um excesso de energia, de vigor e ao mesmo tempo, um peso de esnobismo dandy, daquela coisa de americano querendo ser mais europeu que o europeu ( que nunca foi tão europeu assim ). Essa sindrome de emigrados americanos, se deu certo em James e em Eliot, não dá tão certo em Pound. Ele joga fora seu americanismo e coloca no lugar o desejo de ser chinês/provençal e francês. Desejo febril. Não satisfeito.

"O QUE AMAS DE VERDADE PERMANECE
O RESTO É ESCÓRIA
O QUE AMAS DE VERDADE NÃO TE SERÁ ARRANCADO
O QUE AMAS DE VERDADE É TUA HERANÇA VERDADEIRA
MUNDO DE QUEM, MEU OU DELES
OU NÃO É DE NINGUÉM?
(...)
QUE MESQUINHOS TEUS ÓDIOS NUTRIDOS NA MENTIRA
ABAIXO TUA VAIDADE
ÁVIDO EM DESTRUIR, AVARO EM CARIDADE
ABAIXO TUA VAIDADE, EU DIGO, ABAIXO
(...)
AQUI O ERRO TODO CONSISTE EM NÃO TER FEITO
NA TIMIDEZ QUE VACILOU.

Em páginas assim, Ezra Pound fala de si mesmo. E se torna maior.
Fosse um pouco menos "culto", teria Pound sido imenso.

"APRENDE COM O MUNDO VERDE O TEU LUGAR
NA ESCALA DA INVENÇÃO OU DA ARTE VERDADEIRA
ABAIXO TUA VAIDADE
O ELMO VERDE SUPEROU TUA ELEGÂNCIA
DOMINA-TE E OS OUTROS TE SUPORTARÃO
ABAIXO TUA VAIDADE"

ANCESTRALIDADE, OPS!

Um amigo ( que sempre que escreve sei que é para apontar um erro. O que é muito bem vindo ), aponta um cochilo que dei no texto abaixo. E assumo o mea culpa.
Errei de palavra! Quando digo que Freud cria sua teoria como forma de sublimar sua briga com o pai me empolgo e solto uma bobice: a de que ele negou seus ancestrais. A palavra ancestral deveria ter sido substituida por sangue.
Freud além de Totem e Tabu é o cara que revitalizou Sofocles ( Edipo ). Mas o que desejei dizer ( e não deixei claro ) é que ele tenta todo o tempo resolver seu mal estar diante de seu passado próximo ( pai e judaísmo ) abstraindo-se em ancestralidade distante ( válida, necessária, porém, menos dolorida ).
A primeira vez em que estive na terra de meus ancestrais ( norte de Portugal ), aceitei e passei a amar meus avós. Senti o orgulho de ser neto deles. Revivi uma coisa meio celta, meio árabe, meio visigoda que há naquela região. Mas jamais consegui aceitar ( quem dirá amar ) a herança mais imediata, a herança lusitana e o amor de meu pai e minha mãe.
Me é muito mais simples amar um cavaleiro medieval de 1300 nascido lá, que o homem que se chamou Manoel e foi meu pai.
Assim como é mais fácil me assumir gnóstico-budista-ateu, que um mero católico em dúvida.
Penso que o genial e corajoso Sigmund ( que foi figura importantíssima em minha vida ) fez, como bom neurótico, esse desvio. Colecionou objetos do Egito antigo e sonhou com gregos e romanos, mas jamais resolveu seu impasse com pai, mãe e sinagoga. Negou uma raiz substituindo-a por outra.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

PONDÉ, ANCESTRALIDADE. UM GOL DE PLACA.

Abrãao, Freud, Nietzsche, Montaigne e Hume.
A Bíblia ( o Velho Testamento ) nos mostra que o homem não é confiável. O homem mente, rouba, mata, é injusto. Pondé começa seu texto por Abrãao, e diz que todos somos ancestralidade, e que nossos patriarcas são também os autores que nos marcaram. Eu incluiria que a Bíblia também nos mostra que Deus não é justo ou injusto. Que Seus designios nos serão sempre incompreensíveis.
Freud disse a Pondé que o homem é barco em mar de destruição. Acrescento que Freud, como a religião, é questão de fé. Voce escolhe crer em Freud e aceitá-lo. Ele é consolo de ateus. Freud foi um ateu inconsolável que criou sua nova religião. Pseudo científica. Freud brigou com o pai por ciúmes da mamãe. Ao romper com sua ancestralidade perdeu-se.
Nietzsche lembra-nos que o verdadeiro homem não é ovelha. Ele demole a passividade cristã. Mas é profundamente religioso. Nietzsche sofre da nostalgia pagã. Quer crer em Dionisio. Ele, que foi um inibido herói, louva a força moral e física.
Nietzsche fez de mim um solitário. Contra os rebanhos. Sejam rebanhos existencialistas, rebanhos da moda ou rebanhos de igreja.
Sacada genial de Pondé: o ceticismo de gregos, de Montaigne e de Hulme abala a fé. Fé na ciência e não na religião, como pensam os que entenderam mal. Como crer na razão? A ciência cada vez mais se parece com um brinquedo oco e fútil, a razão nos leva onde? O que nós realmente sabemos? Qual a segurança que a razão nos dá ou deu?
A parte em que Pondé fala de Pascal e Agostinho é melhor ainda. Ser otimista hoje é ser mal-caráter ( concordo ). Ser cristão como uma luta contra a natureza humana. Mas não luta contra impulsos sexuais, como o século XIX dizia, mas sim contra os impulsos da vaidade e do orgulho. Da inveja. O homem como ser que inveja Deus ( o pai ? ).
Adiciono: o homem como ser ressentido com TODOS os pais. Ressentido com Deus, com Abrãao, com Platão, com Dante, com Shakespeare, com Tolstoi, com Proust. Invejoso de gigantes. Tentando sempre demolir, denegrir, difamar, diminuir o que é gigantesco a seu ínfimo tamanho.
Pondé fala de Dostoievski. Pondé diz que Dostoiévski vai radicalmente contra a "ciência auto-estima". A iluminação não está no mergulho na luz, mas sim na sombra. Só ao se esmagar o orgulho se atinge a humildade e a vontade de viver. O que me recorda algo em que penso muito: todo neurótico é obcecado por sí-mesmo. Uma vaidade e um orgulho umbigal. Cegueira pela luz e pavor da sombra.
Rosenzweig: a metafísica é consolo de quem teme a morte. O que deve nos guiar não e´a esperança mágica em milagres, mas sim a consciência de que somos nós um milagre em sí.
SOMOS UM MILAGRE CAMINHANDO ENTRE O PÓ. O que posso acrescentar a isso? Os poucos momentos de absoluta felicidade que vivi foram sempre confirmação disso. Deuses e pastores não fazem milagres, o milagre é a vida ao nosso redor. Eu aqui e voce aí, a vida só vale a pena com essa certeza, somos O milagre.
E Pondé recorda Otto Maria Carpeaux ( o homem que escreveu as melhores páginas sobre música que já lí. E que voce tem a obrigação de ler ). Otto dizia: Quando o espírito se ergue o corpo se ajoelha. Posso desenvolver isso: Quando fui a missa de sétimo dia de meu pai senti uma certa emoção. Mas me é impossível ajoelhar na igreja. Fico de pé em meio aos fiéis ajoelhados. Não concordo com aquela prova de "ovelhice". Mas segundo a frase de Carpeux, é meu espirito que não consegue se erguer, e portanto, meu corpo não se ajoelha ( claro que a maioria se ajoelha por automatismo. Ou não? ). Orgulho e vaidade. É a verdade. Sou vaidoso demais para me ajoelhar. Porque?
Nelson Rodrigues. Pondé o coloca nas alturas. Assim como meu "ancestral patriarca" Paulo Francis ( sem Francis quem educa a atual molecada que lê jornal ? ). Francis percebeu que todo intelectual seria desde então um medroso e um mentiroso. Teria o medo de ser diferente, de ser único, e mentiria advogando verdades nas quais nem ele crê.
Tocqueville, que percebeu que a democracia seria a tirania da maioria e que essa maioria é sempre burra. O grande homem definharia no mundo democrático, pois ele seria abominado pela maioria idiota.
E afinal Burke. No mundo da moda, onde tudo deve ser novo e de agora, nega-se a ancestralidade. Porém a sociedade é uma comunidade de almas de ontem, de agora e de amanhã. Somente vivendo nesse arco de ancestrais é que o homem se faz homem. É assim que ele vence a banalidade que nos destrói.
E Pondé termina esse magnífico texto dizendo: "quem conhece sua ancestralidade, mesmo caminhando no vale das sombras, nunca fica só."
Uma vez, conversando com um amigo, perguntei o que nos daria hoje uma pessoalidade, um dom individual. E é neste texto que está a resposta. Em mundo que nos obriga a parecer único, jovem, alegre e sempre querendo se reinventar, a humanidade estaria em ser apenas mais um. Está na humildade de se reconhecer como filho, como neto, como descendente de um passado que jamais morrerá. E como elo que traz o futuro que será continuação desses patriarcas vivos para sempre. A única chance é essa. Descartar o orgulho da falsa coragem. Pois a maior das coragens é se reconhecer falível, ignorante, antigo, nada moderno, não renovável e assustado.
Humano então.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

SOMETHING ELSE- THE KINKS ( OS INVENTORES DO BRITISH ROCK )

Existem algumas bandas inglesas que venderam muito nas Ilhas, que são lá tão pop quanto Beatles ou Stones, mas que por diversos motivos não estouraram nos EUA e consequentemente não tiveram jamais uma popularidade mundial. Penso em T.Rex, penso em Faces e Gary Glitter. Mas a principal banda, que teve uma carreira mundial abortada nos EUA e que apesar disso é um mito em London Town, são os Kinks, a banda do mito Ray Davies.
Mas no inico não foi assim. Em 1964 You Really Got Me estourou na América. E também mais duas outras canções, no mesmo ano. A partir de 1966 eles desaparecem das paradas Billboard, mas continuam sendo reis na GB e criam a partir daí aquilo que conhecemos até hoje como O ROCK TIPICAMENTE INGLÊS, o rock tea party, o rock labour party, o rock umbrella.
Something Else sai em 1966 ( o melhor ano do pop? ). Lidera paradas em Londres, mas em NY chega apenas ao 111 lugar. Porque?
Primeiro por uma mudança de gravadora. Eles vão para uma companhia de fraca representação mundial, mas o principal fato é que em 66 nasce o rock psicodélico, o folk hippie e a banda "solo de guitarra". Os Kinks não são nada disso. Jamais são muito loucos, nunca foram hippies e tocam de forma muito simples. São banda de roupas elegantes, comentários irônicos e nenhuma ingenuidade, e principalmente, de imensa nostalgia. Os Kinks fazem rock, mas ficariam bem na época do rei Eduardo.
Várias pessoas ou bandas desde então, revelam sua paixão por Ray Davies. The Jam, XTC, Squeeze, Elvis Costello, Chrissie Hynde, David Bowie e mais tarde, Blur, The Verve, Supergrass, Oasis e Pulp. E hoje, todo rock britânico que não tenta se parecer com um garoto irado da California.
Eles inventaram esse rock com sotaque british, que tem algo de sonolento, de gramados em fim de tarde. Que falam dos bons tempos ( que sempre se parecem com tempos ruins ), que ironizam a política e que jamais perdem o estilo. São safados, mas é uma safadeza pouco sexy, é uma coisa mais intelectual. São dandys. E ficam todo o tempo satirizando os dandys.
Coloco o disco.
David Watts foi regravada por todo o mundo. É como um double decker bus sem freios. Tudo o que é o tal de rock inglês está aqui. Pa pa pa pa pa pa pa pa!!!! Os Small Faces nessa mesma época os seguiram. Mas foram Ray Davies e seu irmão Dave quem criaram isto.
Death of a Clown cantada por Dave, é um triste balada british. Nada tem de Dylanesca. Há quem a considere obra-prima. É de um sabor ácido e nostálgico. Chega ao patetismo.
Two Sisters. É um som de rádio ecoando na cozinha daquelas tristes casas de tijolos londrinas, todas iguais. Nessa cozinha, Prunella passa roupa enquanto o bebê dorme no berço. Chove frio. A canção, melancólica e linda como só ingleses ERAM, tem cravo dedilhado e bateria marcial. O que MacCartney começaria a fazer em 67, Ray Davies faz aqui.
No Return. Sol em gramado verde. Ray toma seu chá. Nada é mais chá com leite que Davies e os Kinks. Paz absoluta.
Harry Rag. Aí está, o rock fish and chips. Mais Monty Python impossível.
Situation Vacant. Festa, festa, festa!!!!!!!
Love Me Till The Sunshine. Dave canta. Som de mods. Som de jovens com paletós e lenços no pescoço ( foulard ). De piteiras. De Mini-Cooper. Os caras tinham estilo!
Lazy Old Sun. Sim, pode ser psicodélica. Mas à moda Kink. Anuncia os Stones de Satanic. O psicodelismo londrino é urbano. Nada tem de volta à natureza. É um chá do chapeleiro louco.
Afternoon Tea. Ouçam isto junto com David Watts. Voces entenderão exatamente o que eles inventaram. ( Quem falar em Paul e George estará errado. Ray veio antes com este estilo de som e este tipo de comentário irônico ).
Funny Face. O piano dá todo o clima do disco inteiro. Não é disco de guitarras. É de vocais e de arranjos. Mas não a riqueza de Brian Wilson ou dos Beatles pós-67. É um tipo de arranjo nú, mínimo, simples. O que importa é o tal estilo. O andar de guarda-chuva em rua úmida.
End of The Season. Uma obra-prima insuperável. ISTO É ROCKNROLL???? Não. Isto é rock-inglês. Percebe a diferença? Kinks sendo completamente Kinks. Os Hippies os chamavam de caretas gozadores. Depois, a partir de Bowie foram justiçados: célula original de todo o pop britânico.
Waterloo Sunset. A música que fecha os shows deles até hoje. Ao vivo, era cantada pelos Oasis, Blur e Charlatans. È uma ode ao fim do "império". Termina sendo um lindo comentário sobre todo e qualquer final.
Não ouça Kinks em dias de sol. No lusco-fusco de uma tarde sem luz, numa manhã com neblina, sim. Mas não pense serem eles trágicos! Nunca! Embora caiam muito numa "doce melancolia", eles jamais perdem o humor, o dom da sátira, essa coisa de verem sempre os dois lados de tudo.
Se eles lamentam o fim da era eduardiana, eles riem do ridículo dos eduardianos. E se eles são uma banda de rock, que criou um dos riffs mais básicos e geniais do rock, são também a mais anti-rock das bandas, com seus comentários "maduros" e seu modo sob-controle de compor.
Se voce começar a ouvi-los hoje ( triste voce ) pensará que já ouviu som como o deles milhares de vezes. Sim, já ouviu. Mas lembre-se de uma coisa: ELES FORAM OS PRIMEIROS. Tiveram o genial insight de misturar aquela coisa de caipiras americanos com o chá e a erudição afetada de Londres. Deu no que deu. Esse som, enquanto foi temperado com o humor decadentista e a ira do partido trabalhista foi brilhante. Depois, sem a cultura européia e sem a ira, fez-se essa modorrenta coisa sem espinha e sem verdade. Os Kinks repetidos ao infinito e sem razão de ser....
Mas isso não é culpa de Ray Davies, Dave Davies, Mick Avory e Peter Quaife. Ladies and Gentlemen....Something Else by The Kinks !

sábado, 16 de outubro de 2010

O HOMEM DO VIOLÃO AZUL- WALLACE STEVENS ( PARA QUE SERVE A POESIA )

Cito.
" E O HOMEM DISSE: AS COISAS SÃO COMO SÃO
SE MODIFICAM SOBRE O VIOLÃO..."

"ENTÃO A VIDA É ISSO: AS COISAS COMO SÃO?
ELA TATEIA SOBRE O VIOLÃO..."

Cito mais alguns versos, a esmo.....

"....A POESIA
MAIS DO QUE A MÚSICA HÁ DE OCUPAR
O VAZIO DE UM CÉU SEM HINOS..."

" A TERRA NÃO É TERRA, É UMA PEDRA
NÃO A MÃE QUE SUSTENTAVA O HOMEM NA QUEDA"

Wallace Stevens.
Cito essas frases na esperança de passar para voces algum tipo de tema desta obra-prima. Mas é impossível. Há uma tal quantidade de temas em suas 33 estrofes, que é impossível ficar satisfeito com umas poucas citações. O que posso dizer então? Pois eu preciso falar alguma coisa sobre esta pedra. Pedra que é pai e mãe.
A partir do momento em que o mundo perde sua fé ( seja em deuses ou em heróis ) a poesia tem a missão de ser remédio. Um elixir que poucos querem tomar e que menos ainda sabem apreciar. Não me satisfaço com poetas "belos" ou poetas "rebeldes".
Poetas precisam contar o segredo. Compor os altares, as orações e os paraísos ( e infernos ) de nossos restos de pensamentos. Os poetas são necessários, úteis, vitais; mas não todo e qualquer poeta. Sómente os que se lançam a nomear a vida. A ir além do que se escreve. A dar sentido a tudo. Ou morrer tentando.
Stevens consegue. Como Eliot conseguiu. Versos que são rezas possíveis. Usando sua rigorosa razão ele chega ao paradoxo. Descrendo de tudo, das palavras e de sí-mesmo, ele dá sentido. Para o poeta ( perfeito ) essa razão é o ato de criar.
Pois para Stevens a vida é coisa criada. Não existe o real, existe um real inventado. E mais:
Tudo o que passa por nós é nós. Torna-se interpretação de nossa mente. Criado.
E como ele escreve bonito... são sóis e luas, e o mar e a terra, e cores e espelhos, e vento e sono. Não se precisa entender tudo, o que é preciso é se deixar ser penetrado pelas palavras, pelas imagens, pelo som e pelos sentidos. É preciso dormir/acordar e sonhar/racionalizar os versos. Criar sentidos no ato de se ler um caminho entre caminhos. Milagrar.

"O QUE HÁ NA VIDA ALÉM DAS IDÉIAS QUE SE TEM?
AR BOM, MEU BOM AMIGO, O QUE HÁ?"

O que pode nos dar sentido além da poesia?
Ler Wallace Stevens é preciso.

Stevens foi bem sucedido homem de negócios. Escrevia escondido. Publicou pela primeira vez já aos 44 anos. Vendeu pouco. Mas não há poeta melhor.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

ERA UMA VEZ NO OESTE- SERGIO LEONE, PODERIA SER O MELHOR FILME DA HISTÓRIA?

Nos fartos comentários deste dvd, feitos entre outros por John Carpenter e John Milius, é dito que esta "ópera" de Leone é o primeiro filme pós-moderno. Pois, pela primeira vez, um filme é feito tendo por base não a vida ( ou a literatura ) mas sim, o próprio cinema. Entenda, não se fala de refilmagem, que isso sempre houve, mas de um tipo de filme que nega a vida; tudo o que ele mostra não é a tal vida, mas sim o cinema. Desse modo, Leone jamais tenta criar situações reais, mas sim situações de cinema; o céu que vemos não é "o céu", é céu de filme. Ele não procura nos convencer de que aquilo é a vida, todo o tempo ele fala: é um filme! Portanto, Sérgio faz o primeiro filme de Lynch, de Almodovar, de Tarantino e de tantos outros.
E tinha de ser em forma de western, pois nenhum gênero é tão cinema quanto o faroeste. Não existia teatro western, literatura western, pintura de faroeste, óperas de cowboys. É o cinema que cria esse tipo de arte, de espetáculo. Quem ama o western ama o cinema, quem o ignora, tem amor por outra coisa ( filmes que são livros ou filmes que são teatro ). E Leone amou o cinema com uma paixão sublime. Este filme o atesta.
Foi um grande fiasco em 1968. No fantástico ano de 68, ano de 2001, de If, de Amor em Fuga, de The Wild Bunch, de Kes e de Partner. Os americanos odiaram sua lentidão e seu tamanho. Uma crítica o chamou de "O cacto e o Tédio". Mas, um cinema na França ( e é Alex Cox nos extras quem diz isso, chamando os franceses de "nação de cinéfilos" ), o exibiu durante quatro anos!!!! Logo ele se tornou cult, e hoje há quem o considere um dos maiores filmes já feitos.
É Carpenter quem chama a atenção para seu modo "japonês" de usar o tempo. Como nos grandes filmes do Japão, o tempo aqui não passa, ele escorre. Todas as cenas são longas, são exauridas, observadas ao máximo, distendidas. Voce termina sentindo outro tipo de tempo fílmico, silencioso, quase zen.
O filme começa. O início é puro "Bastardos Inglórios", só que bem melhorado. É o mesmo tipo de som, a mesma amplidão, o mesmo suspense. A primeira coisa que impressiona é o tamanho das imagens. Ver esse filme em tela grande deve ter sido um inenarrável prazer. Se um dia voce tiver a chance, corra para vê-lo. Tonino Delli Colli, dos filmes de Pasolini, fez a fotografia. Não consigo lembrar de algum filme com melhor visual. Closes imensos ( penso nos olhos azuis de Fonda em tela imensa, nas rugas de Robards ) e cenas vastas, horizontes sem fim, desertos vermelhos e amarelos, poeira voando. O filme é tão belo visualmente que chega a dar vertigem. E a cenografia, com seus barracões de teto aberto, seus objetos cuidadosamente dispostos, lembra o melhor de Visconti e de Ophuls.
E começa o filme.... Os primeiros trinta minutos são dos melhores momentos que já ví em cinema. Três pistoleiros esperam um trem. Silêncio quebrado por ruídos. Os atores são atores de John Ford, a situação é típica de clássicos do western, mas o modo de filmar é outro. São trinta minutos para se ver trinta vezes. E com eles, aprender tudo sobre cinema. Pois neles há humor, ironia, suspense, violencia, arte e até mímica de cinema mudo. Não conto o final dessa primeira cena. Veja-a.
A primeira aparição de Henry Fonda também é histórica. E entenda, Fonda era o mais nobre dos atores americanos. A imagem da integridade, do americano como ele gostaria de ser ou de ter sido. Pois aqui ele é um cruel assassino, e seus olhos azuis funcionam como texto sobre a violência. Outra surpresa, o filme dura quase três horas, e tem apenas quinze páginas de diálogos. É quase imagem e música. Mas suas poucas falas são todas marcantes. O roteiro é de Dario Argento e de Bernardo Bertolucci.
Ennio Morricone fez a trilha. Muita gente considera-a a melhor trilha da história do cinema. São quatro temas musicais. Acho que o próprio Ennio fez trilhas melhores, mas há uma grandiosidade aqui, um operismo tão irônico, e ao mesmo tempo nobre, que sim, é tocada a raia da genialidade. Mas considero a trilha de THE GOOD THE BAD AND THE UGLY melhor.
Claudia Cardinale faz o papel central. Falar de sua beleza é chover no molhado, mas há uma cena.....Claudia desce do trem e entra na estação, a câmera se ergue e pela primeira vez vemos a cidade em construção. Entra a música de Ennio. É uma cena tão perfeita, tão bela, de tanta riquesa estética, que imediatamente pensamos: Eis o maior filme da história do cinema! Eis a mais bela das cenas! Quando em seguida Claudia anda de carruagem e percebemos que estamos em Utah, no Monument Valley de John Ford...bem, não existe chance de ficar com os olhos secos. É uma homenagem a Ford tão bonita, tão sincera, tão reverente e respeitosa, que como amantes de Ford, nos sentimos homenageados também. É como se Sergio falasse : "Voces Fordmaníacos estão certos! Ele foi um gigante! Vejam suas pegadas aqui!"
Mas há mais. Jason Robards faz um bandido. Robards foi rei do teatro sério dos EUA. E fez bela carreira em cinema ( ganhou dois Oscars nos anos 70 ). Foi alcoólatra e casado com Lauren Bacall ( ex-senhora Bogart ). Sinta a responsabilidade do homem: foi ele quem tomou o lugar de Bogey! Bem....Robards tem também sua cena perfeita. É ao final, com Claudia, quando com olhos chorosos, ele diz à ela que uma mulher bela tem a obrigação de dar essa alegria aos homens. Para voces meninos, Jason Robards é o velho que está morrendo em Magnólia ( e cinéfilo como sei que PT Anderson é, sei que ele deve amar este filme e esta atuação ).
Charles Bronson faz o "Harmonica". É o único "quase herói". Movido por vingança. Esse papel poderia ter sido de Clint Eastwood, ou de James Coburn. Mas Bronson não faz feio. É sujo e bruto como exige o papel. Acabamos gostando dele. Mas eu adoraria ver Clint ou Coburn duelar com Fonda!!!!
Não nego que o filme às vezes cansa. E sentimos vontade de correr o dvd. Mas ao mesmo tempo, desde seu primeiro momento, sentimos estar vivendo um momento especial. Quando ele termina, melancólicamente, estamos gratos pelo talento de Sergio Leone. È preciso ser longo, é necessária sua lentidão. Seu tempo "oriental" é o segredo de sua riquesa.
E só no fim seu tema se desvenda. É sobre o final do herói. O fim dos últimos individualistas. Vemos o que se torna a América: uma miscelânea de trabalhadores indios, brancos, chineses e negros. Massa de gente anônima. Os "mavericks", os últimos puro-sangue, os cavalos selvagens se vão. O tempo do homem auto-suficiente, do ser que se define pelo que pode ser e pode fazer termina. Sendo parte da cidade ou se isolando no mato, o homem que surge é parte de um todo.
Sua mensagem torna-se ode de profunda melancolia. O herói que é herói por ter nascido assim, e não por seguir um papel, ou o bandido que é mal por ser o mal, eles deixam de existir. Tudo se torna algo que remete a algo que remete a algo. Como é este filme, que remete a tantos outros faroestes. Mas que é de infinita beleza, autêntica nobreza e exuberante amplidão.
ERA UMA VEZ NO OESTE não é o melhor ou maior filme já feito.
Mas se alguém pensar isso, quem vai poder negar?
Com este filme, Leone diz aos americanos: - "Valorizem seus westerns! Eles possuem uma grandesa infinita!" Desde então, gerações e gerações de movie stars tentam fazer "o seu western". De Ed Harris a Russel Crowe, de Christian Bale a Tommy Lee Jones, de Kevin Kline a Richard Gere. Mas não é mais tempo de seres perdidos e solitários, de estradas que vão do vazio ao nada. Sergio Leone conseguiu o que queria. Deu ao faroesta status de arte nobre.
PS: Quem for assisti-lo. Atenção aos closes nos rostos. Voce nunca mais verá rostos assim. Eles são continentes. Leone amava seus atores. Coisa de italianos......

terça-feira, 12 de outubro de 2010

MARLON BRANDO/ KUROSAWA/ LANG/ WISE/ CLINT EASTWOOD/ LEE MARVIN

O TIRANO DA FRONTEIRA de Anthony Mann com Victor Mature
É o primeiro filme de Mann que não me satisfaz. Por um motivo muito óbvio: não gosto de westerns sobre a cavalaria. Adoro faroestes que falam sobre cidades em crise, sobre solitários cowboys, sobre corrida do ouro. Mas todos aqueles que mostram a cavalaria me entediam. Para piorar, este se apoia no talento inexistente de Mature. Nota 3.
BRILHO DE UMA PAIXÃO de Jane Campion com Abbie Cornish e Ben Whishaw
John Keats para moçoilas. Campion transforma Keats em EMO. Belas imagens e algumas belas páginas recitadas. Melhor ler o gênio romântico inglês. Nota 1.
DUELO SILENCIOSO de Akira Kurosawa com Toshiro Mifune e Takashi Shimura
Eis um Kurosawa que eu nunca vira. É de seus primeiros filmes e é a primeira reunião com Mifune. Fala, em cenário cheio de sombras e que exemplifica o Japão detonado pós-guerra, de um médico, que ao ser contaminado pela sífilis, abre mão de seu noivado e até de seu desejo sexual. É o trágico levado a seu limite. Mifune, com máscara impassível de médico que atende de graça os necessitados, mostra já o dom que lhe daria a imortalidade, ele faz muito com pouco. Sua explosão de dor, em cena quase ao final, nos corta o coração. É mundo sórdido, mas nunca nos deprime. A medicina é um dos temas recorrentes de Kurosawa. Sempre vista como mundo de abnegados. É um filme invulgar, Kurosawa foi o maior. Nota 8.
UM RETRATO DE MULHER de Fritz Lang com Edward G. Robinson, Joan Bennet e Dan Dureya
Quem nunca viu um noir de Lang está perdendo um dos maiores prazeres do cinema. Fico imaginando como seria, numa São Paulo de garoa e paletós, assistir este clássico em algum cine perdido da Lapa. O vapor subindo do pipoqueiro de rua, os táxis na saída, os cigarros no saguão... Este filme é perfeito. Um professor casado se envolve em assassinato e com mulher fatal. Todo o filme é pleno de suspense, de destino inexorável e...milagre! Lang usa um dos finais mais banais com maestria. O final tinha de ser aquele, só poderia ser esse. Bennet, máscara bela de sensualidade, e Robinson, um ator que consegue ser simplório sem ser cômico, são tão certeiros quanto o filme, mas é Dureya, um vilãozinho pé de chinelo, que rouba o filme. Exemplo perfeito do que era um filme pop da década auge de Hollywood. Nota DEZ!!!
O MITO de Stanley Tong com Jackie Chan e Tony Leung
Acho Chan um dos atores mais mal-utilizados dos anos 90. Ele merecia melhores filmes e ter estourado no Ocidente mais cedo. Este muito ambicioso projeto se perde em idas e vindas no tempo e nos continentes. Não era mais fácil ter feito uma boa chanchada com lutas? Mas não! O roteiro nos enche a paciência com seu espiritismo de araque, sua love story infantil e efeitos especiais pueris. Uma chatice!!!!!! Nota 1.
O DIA EM QUE A TERRA PAROU de Robert Wise
O clássico, infinitamente melhor que sua refilmagem ( como infinitamente melhores são os originais de A Guerra dos Mundos, A Máquina do Tempo e O Planeta dos Macacos. ) Um filme muito barato, mas com efeitos eficientes, e uma mensagem pacifista sem pieguice. Wise não perde tempo com nada supérfluo, toda tomada é em função da história, nada é enfeite ou exibicionismo. Robert Wise foi um dos grandes, seja em western, sci-fi, horror, musical ou drama. Faltou a comédia nessa carreira vitoriosa ( com dois Oscars por West Side Story e por A Noviça Rebelde ). Nota DEZ.
O CAVALEIRO SOLITÁRIO de Clint Eastwood
Eastwood tem filmes tipo Hawks e tipo Kurosawa. Quando faz um Hawks ele é relaxado, usa roteiros semi-improvisados e parece sorrir enquanto dirige. Quando é Kurosawa ele fala de heroísmo, de honra e filma de modo mais crispado. Cavaleiro Solitário é em seu tema e roteiro totalmente Kurosawa. A cidade de mineradores se parece com as vilas japonesas e sentimos todo o tempo que aqueles cowboys se tornarão samurais. A camera olha a rua através de janelas, como faz o mestre japonês e há aquele solene toque de vingança e de coragem. O tema é de vila oprimida que vê surgir um vingador que os redimirá. O duelo final é excelente. Clint tem um de seus mais tipicos personagens e é uma diversão soberba. Lançado em 1985, este filme seguiu a sina de todo filme de Eastwood até Os Imperdoáveis : a critica chamou-o de lixo, o público universitário o esnobou e o povão lhe fez justiça. Era um tempo em que filme bom tinha de ser europeu ou um americano com "grande tema", tipo Amadeus, Gandhi ou O Último Imperador. Clint Eastwood viveu o bastante para ser justiçado. Ele é o máximo e é o último dos ícones. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
OS PROFISSIONAIS de Richard Brooks com Burt Lancaster, Lee Marvin, Robert Ryan, Claudia Cardinale e Woody Strode.
Brooks foi um dos diretores machos de Hollywood. Aqui ele faz um quase-western sobre bando de bandidos que é contratado ( o bando ) para salvar a esposa de rico ferroviário de seus raptores mexicanos. É um Dirty Dozen mexicano. É mais um filho de Os 7 Samurais. Mas, com um elenco como esse ( ver Burt pular e sorrir, ver Ryan ser durão e sofrido, e ver Lee Marvin ser Lee Marvin... quanto prazer! ) e a direção segura e firme de Brooks, tudo flui em emoção, ação e reviravoltas bem urdidas. Claudia foi milagre da natureza: em cinco anos ela trabalhou com Fellini, Visconti, Monicelli, Brooks, Leone, Blake Edwards e Richard Quine. E que bela ela foi!!!!!!! Nota 7.
A FACE OCULTA de Marlon Brando com Marlon, Karl Malden e Ben Johnson
Única direção de Brando, foi caríssimo e imenso fiasco. Graças a essa péssima experiencia, ele nunca mais pensou em dirigir. O filme, que começou com Kubrick, é longo, muito longo, cheio de cenas belíssimas, mas que poderiam ter sido evitadas. Foram meses e meses de filmagens, meses de edição e uma recepção gélida de público e hostil de crítica. Com o tempo foi se tornando um semi-cult ( é um dos top 20 de Tarantino ). Não deixa de ser um western doido: há toda uma sub-trama gay e sado-masoquista na história de ex-comparsas de crime que se traem. Marlon faz um "herói" bastante esquisito, rebolativo, glamuroso. Mas é sem dúvida um filme invulgar e que deve ser conhecido. É vasto, corajoso, ousado e muito belo. Como Brando foi. Nota 7.

domingo, 10 de outubro de 2010

FRITZ LANG, O MAIS RANZINZA DOS DIRETORES

Monóculo, longa piteira, sotaque carregado, fama de ser cruel com seus atores. O estereótipo do "diretor alemão" é em Lang a verdade. Ele é conhecido por ter sido antipático, egocêntrico e tirânico. Mas também é famoso pelos filmes que fez. Vários históricos, muitos eternamente atuais e alguns perfeitos.
Mas ele raramente é o diretor favorito de alguém. Porque Fritz Lang não tem cenas redentoras, ele nada possui de adocicado, a poesia fácil e identificável é desconhecida em seus filmes. O que vemos em todos eles ( mesmo nos ruins ) é a marcha do destino, o caminhar de homens e mulheres ao desastre. O final, mesmo quando os bons vencem, é sempre amargo. Em Lang as vitórias são temporárias, o fracasso impera e o que se paga pela breve alegria ilusória é coisa muito inflacionada.
Lang se torna famoso na Alemanha Nazista. Seus filmes mudos têm apenas Murnau como rival. E estamos falando de tempo em que Lubistch, Leni, Ulmer, Pabst, Wiener por lá trabalhavam. METRÓPOLIS cria o que até hoje se conhece como sci-fi e é seu filme alemão mais conhecido ( mas não o melhor ). DER MUEDE TOD, gótico e assombroso, pautado pelo lúgubre, poderia ser esse melhor, mas há ainda DR. MABUSE. Então ele filma OS NIBELUNGOS e lança, já no sonoro, M-O VAMPIRO DE DUSSELDORF, uma absoluta obra-prima. Nessa história sobre um assassino de crianças que não consegue controlar sua tara, vemos Peter Lorre num dos mais dilacerantes papéis já vistos. M permanece como filme à prova de tempo.
Goebbels chama Lang para dirigir todo o cinema nazi. Lang faz as malas e foge. Na França faz o belo LILLION, um filme à Clair.
Nos EUA ele se faz rico, famoso ( muuuuuito famoso ) e detestado por colegas e atores. Sua imagem é péssima, seus filmes, excelentes. FÚRIA é o primeiro. Um filme que combate o linchamento. Com sombras expressionistas, ele é uma prova de força, de caráter, de um diretor que já estreava em seu novo país se sentindo em casa.
Vem a primeira obra-prima americana : VIVE-SE SÓ UMA VEZ. Henry Fonda como um desempregado que cai no crime. Nunca o cinema mostrou o crime como destino de forma tão cruel. Fonda, em comovente atuação, não consegue escapar de sua sina. Uma porrada no estômago é este filme. Vêm então dois westerns. Se não são dos melhores do gênero, provam, para orgulho de Fritz, que um europeu pode entender de cowboys. Quando começa a guerra ( a segunda ), Lang lança filmes anti-germânicos. OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM é perfeito. Filme de extrema tensão, lembra Hitchcock ( muitos comparam os dois. Seus filmes jamais se parecem, o inglês tem humor, mas sua filosofia é a mesma ).
UM RETRATO DE MULHER e ALMAS PERVERSAS são dois exemplos de direção e de elenco. Os dois mostram a ruína de homens que se envolvem com mulheres erradas. Ambos arrebentam os nervos de quem os vê. Mas há um detalhe: Lang jamais deixa de entreter. Seus filmes são pura arte européia, têm vigor existencial, criatividade, arrojo, mas nunca perdem de vista a diversão. São pop, sempre para todos os tipos de público. O cinema compartilhado ainda não havia sido criado.
O SEGREDO DA PORTA CERRADA e MALDIÇÃO são dois filmes baratos. E mesmo assim, são dois exemplos de clima. Sombras e trevas.
Vêm os anos cinquenta e nele encontraremos uma obra-prima do filme noir: OS CORRUPTOS, um policial pessimista, onde podemos ver a completa ruína de um homem bem intensionado. Tudo é crueldade, tudo é decepção e desconfiança nesse assombroso clássico.
MOONFLEET mostrava um novo e último Lang. Filme de aventura, um tipo de cinema juvenil com tintas obscuras. Seus últimos filmes são alemães, sci-fi e filmes à James Bond. O círculo se completava.
Todo o pessoal da Nouvelle-Vague soube lhe fazer justiça. Godard chegou a o escalar como ator. Viveu mais treze anos em aposentadoria, morrendo rico e velho, cheio de fama e de louvor. Mas jamais foi indicado a Oscar, jamais venceu Cannes e isso mostra muito do que significa o cinema.
Quando um cinéfilo pensa em Fritz Lang ele não pensa num herói ( como Ford ou Hawks ) não pensa num poeta ( como De Sica ou Clair ) e nem num grande contador de sagas ( Kurosawa ou Kubrick ), não tem a criatividade de Godard ou de Hitchcock, e nem é belo como Murnau ou Ophuls. Ele é ácido, frio, sombrio, sem humor, e ao mesmo tempo é sedutor, hipnotizante e jamais chato ou pedante. Fritz Lang é o cinema em seu lado menos hipócrita, menos condescendente.
Lang era feito de aço.

OS LIVROS DE TRUFFAUT

Relendo os livros que Truffaut escreveu. Tem uma frase que o norteia: "Me interessam os filmes que demonstram o prazer ou a agonia de se filmar. O que fica no meio não interessa."
François Truffaut ( assim como Godard, Rhomer, Chabrol e Rivette ) foi crítico dos Cahiers. Se cansou de ver filmes engessados, sem vida, e resolveu fazer seus próprios filmes. Portanto, François começou como jornalista. Polemista. Agitador.
Não concordo com o desprezo que ele tem por Clément, por Clair e por Becker. E abomino o ódio que ele tem de John Huston. Mas seu mais belo texto é um mea-culpa. Convalescendo, Truffaut descobre a genialidade de John Ford, diretor que ele não achava tudo isso. Eis na maturidade e já famoso, Truffaut enxergando a maravilhosa simplicidade do mestre americano. François diz: " Ford faz poesia mas não é poeta. Ford é um gênio modesto."
Acho que François exagera os elogios à Lola Montés. Max Ophuls é ótimo, mas não esse filme. Assim como vejo exagero nos elogios a Renoir.
Mas sua homenagem a Vigo é comovente. Assim como é certeiro o modo como ele analisa Lang, Capra, Lubistch e Hitchcock. Ele era um escritor que exalava prazer. Há verdadeira alegria no modo como ele propaga a descoberta de Aldrich, Lumet ou Fuller. Seria maravilhoso ter alguém como ele escrevendo sobre Tarantino ou sobre os irmãos Coen.
Críticos hoje ( com poucas excessões ) gostam de parecer blasé. Temem o amadorismo que pensam poder se revelar no ato de se amar um filme ou um ator. Críticos hoje não têm o prazer ou a agonia de escrever.
No final, a definição do que seja um "autor" é perfeita:
É aquele que sem saber como e sem o querer, está sempre, no modo como coloca a câmera e seus temas, dando pistas sobre sua alma. Mas atenção! O grande autor sempre se dá desafios. Ele varia seus objetivos e se propõe soluções. O grande autor não nos dá apenas grandes filmes. Ele é uma grande obra.
Dreyer tem então destacado o modo como ele filma o "branco". Os brancos de Dreyer como prova de sua fé e de sua genialidade. E Bergman mostra faces como ninguém. Ele penetra nos rostos e nos olhos e revela almas inteiras.
São visões assim, definitivas, que fazem a leitura valer a pena.
PS: François reclama da mania do close ( em 1969 ). Penso no que ele sofreria agora, em ver filmes-tv, closes e mais closes e nenhuma grande cena aberta.
O cinema encolheu. Não existem mais apaixonados como Truffaut.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

BLOG DO INÁCIO ARAÚJO

Quem quiser ler tudo o que penso sobre cinema ( nem tudo, 80% ) leia o blog do Inácio. A crítica demolidora que ele escreve sobre A ORIGEM, do muuuuito enganador Nolan, é impagável !
Arte é pegar o complexo e torná-lo claro e transparente. Nolan pega o banal e o complica até torná-lo falso. E ainda paga o mico de ficar explicando e reexplicando o seu próprio filme!
Inácio sabe tudo!