quarta-feira, 28 de julho de 2010

AMOR PELAS E PARA AS COISAS

Juro que é verdade. Juro que houve um tempo em que voce comprava um sofá ou uma televisão com a IDÉIA de que aquele objeto iria te acompanhar para SEMPRE.
O primeiro aparelho de som de minha vida foi uma vitrola ABC- A voz de Ouro. Por ser toda de madeira nós sempre passávamos lustra móveis Shell. Ela ficava brilhando. Tratava-se de um retângulo onde havia o rádio AM/OC, e o toca-discos, mono. Um alto falante. Para tocar os discos voce abria uma gaveta. O braço da agulha era pesado, verde, de ferro. Nada nela era de plástico. Madeira, ferro e vidro. Foi nesse MÓVEL que ouvi pela primeira vez Beatles, o It´s only rocknroll dos Stones e Diamond Dogs de Bowie. Ao lado havia um espaço para se guardar os discos. Lá ficavam uns 78 rotações do meu pai. Eu e meu irmão os quebramos todos no quintal.
Eu AMAVA o cheiro da madeira que aquela ABC tinha. Adorava ficar olhando a luz de suas válvulas e seu motor pesado. Minha mãe colocava um paninho sobre ela e uns enfeites de vidro colorido. Era um trambolho tosco. Mas era SIMPÁTICO. Esses objetos possuiam caráter, tinham história. Não por acaso, são procurados por saudosos quarentões em feiras de trecos. Ninguém vai procurar seu celular ou seu pc. Nem em 2050.
O primeiro carro de meu pai foi um Opala vermelho, duas portas. Foi comprado com a intenção de se tornar herança. Infelizmente não se tornou. Ao comprar um carro ( assim como uma geladeira ou um fogão ) a primeira pergunta era: ele DURA ?
Mas vou mais longe. Penso nos Dodges cor de laranja com faixa preta ou nos fuscas amarelos. Mais que sinal de breguice, o que havia nesses objetos era o desejo de se tornar diferente, de obter personalidade. O mercado tentava criar um vínculo AFETIVO entre voce e o objeto.
Hoje todos os carros são anônimos. Todos se parecem e todos são da mesmíssima cor. O mercado não quer um vínculo afetivo. Ele deseja a descartabilidade. A pergunta não é : Isso dura?
A pergunta é : É novo?
Levamos isso pra vida. Novos amores, novos amigos, novo emprego, nova casa, nova familia. Seria absurdo perguntar : isso é pra sempre? Não é para se criar um VÍNCULO. Nada é construído com a idéia de permanencia. Aliás, nada pode ser idéia.
A TV também era ABC. Eu gostava de me levantar do sofá e mexer nos grandes e barulhentos botões. Era eu quem passava lustra-móveis na madeira amarela e tirava a gordura da tela de vidro verde. Sobre ela havia um vaso com flores. Ficou no meu quarto depois e acabou sendo levada por uma empregada. Nessa TV nós assistíamos coisas que repassam na TV até hoje. Sabíamos que ela ia durar. Sabíamos que o mundo sempre falaria de Star Trek ou de Coelho Pernalonga. Principalmente : sabíamos que estaríamos sempre juntos. Mesmo que não em carne e osso. E esses objetos seriam nosso cenário. Forever. Como os Beatles e os Stones.
Eu adoro as coisas. Eu não brigo com este mundo de celulares e telas planas. Adoro dvds. O que me deixa "absurdado" é o não-afeto, a completa ausência de vínculo entre eu e meu PC, eu e meu carro. A relação deixou de ser EU GOSTO DE MEU CARRO. Passou a ser EU QUERO ESTE CARRO. Desejo sem afeto, sem amor e sem carinho. Será que as crianças ainda amam seus brinquedos????

domingo, 25 de julho de 2010

O TEMPO E O CÃO- MARIA RITA KHEL ( PARTE II, O CÃO )

Em momentos de doida angústia eu olhava meu cão e o invejava. Via-o deitado ao sol, observando o vazio e absolutamente calmo. Meu cão em casa em minha casa. Meu cão parte de paz em minha vida. Seu tempo é o tempo do planeta e sua vida é a vida de todo cão que houve e haverá. Mas nós, humanos, hoje, somos obrigados a criar nossa vida e nosso sentido todo dia. Nos questionar todo segundo e tentar ser feliz de nosso jeito. Livraram-nos da opressão de família e igreja, mas nada nos deram para nos ajudar.
Narrativa. Nesse livro se fala muito de narrativa. É o que me incomoda no cinema atual. Mostra-se um fragmento de vida, mas não se narra uma história. Não se criam mais os grandes personagens com suas grandes frases e suas grandes histórias. O que nos é dado são recortes de flashs de gente picotada. Nada que nos leve para dentro de nosso espírito.
Claro que há as excessões. Spielberg sempre tentou contar uma lenda. Assim como Coppolla. Mas eles ( a maioria, mesmo quando o filme é bom ) esbarra na dúvida. A questão que os abate: "Alguém ainda crê em narrativas? Alguém ainda sabe as escutar? " E então mesmo filmes que precisavam da fé-narrativa se perdem na falta de habilidade em se contar: Benjamim Button e que tais.
Mas os livros também são assim. Em mundo técnico só se lê livro "útil". Livros que ensinam, biografias exemplares, filosofadas. Ler Proust porque é simplesmente bom. Quem ainda?
O MORRO DOS VENTOS UIVANTES deu tanto sentido a minha vida quanto um ano de análise.
Problema: Khel fala das sociedades medievais onde se trabalha sem pressa, onde o trabalho te dá tempo para devanear, onde a mente flutua durante o trabalho. E onde narrativas são feitas todo o tempo. Contam-se histórias não só após o dia, são narrações todo o tempo. Trabalha-se cantando, contando, sonhando. Problema meu: Eu vivi esse mundo. Parar de sonhar, de recordar, de religar, de devanear, de ligar coisas, é para mim impossível. Mas este mundo me pede isso. Faça, faça, faça, faça!
Quero meu tempo de volta. Ouvir e ver histórias. Longas narrativas, completas, vastas, com pessoas de verdade, multi-facetadas, simbólicas, sublimes. Quero meu tempo para amar. Ver, conhecer, escutar, sentir falta, querer, desejar, tocar, amar. Quero meu resgate.
Garotos se drogam para poder dar um tempo. Como foram treinados a estar sempre fazendo coisas ( ser feliz é estar em movimento ) só se permitem parar quando estão drogados. Um modo idiota de se cessar a correria. Uma pena.
Eu mantenho e preservo. Não quero que derrubem aquela casa porque ela simboliza a derrubada de uma narrativa. Eu revejo meus velhos filmes. Me trazem as histórias arquetipicas de passado e futuro. Me ensinam a ignorar o tempo que escorre e nada significa. Me embrenho em imagens onde antes e depois são uma possibilidade e não uma lei. O tempo não existe em mim. Amei voce agora e amarei voce depois.
Meu cão filosofava. Nick é seu nome. Em seu olho de boxer eu via tudo. O fluir calmo do momento, a paz de se estar em casa, a preguiça tediosa e feliz, o dar de ombros. Não ser dono de si e sim ser parte de tudo.
E é só isso.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O TEMPO E O CÃO- MARIA RITA KHEL ( PARTE I, O TEMPO )

Proust tem o tempo. Ler Proust é como habitar o tempo. Tempo, tempo, tempo, tempo.
Sempre fui obcecado pelo calendário, pela estação. Não existe eu sem relógio no pulso. Tenho ódio pelo que passa, pelo que ignora o que foi, pelo coiso. Ódio e fixação pelo ponteiro.
O mundo virou lugar de coisos. Automóveis. Sacrificamos jardins por mais uma vaga na garagem. Sacrificamos praças por mais uma pista. Cinemas por estacionamentos. Mas é mais que isso. Precisamos ser, NÓS MESMOS, precisamos ser como uma Ferrari ou uma Mercedez. Temos de correr, brilhar, ter aceleração. É obrigatório ser pleno de acessórios. Funcionar. O tempo é o tempo do motor. De zero a cem em poucos segundos. A paisagem voa pela janela e nada pode ser bem visto. O que passa é sombra que corre. O que passou não existe mais.
Pior: voce é carro sem motorista. Voce é o que corre e o que dirige. Tensão e atenção. Pra sempre. A estrada é o mundo que passa. Seus olhos no horizonte. O agora é já ido. Pra frente.
Henri Bergson: A memória é o espírito. Um carro não tem espírito. Não pode ter memória.
A não ser a funcional memória de se saber ligar, engatar e guiar.
O posto de gasolina para um carro é e sempre será, um posto de gasolina. Nada de relevante poderá vir de lá. Para um carro as coisas são o que são.
Mas eu........
A tarde em que fiquei de barriga pra cima, aos 7 anos, vendo as nuvens se dissolverem no calor de janeiro. Alí o tempo não existia. Ele era eu. Se o tempo é espírito, eu me deitava em seu colo. Elaborava minha riquesa. Fui Proust e sua estada na praia, e suas garotas em flor, e sua madeleine.
Mas nós.......
As máquinas nos humilham. Nos põe de joelhos. Uma bomba que cai do céu humilha o cavaleiro experiente e sua espada bem treinada. Um computador humilha nossa velocidade. A rede de amizades via internet humilha minha agenda. As fotos da galáxia humilham nosso planeta. A linha de montagem humilha o artesão e o shopping center humilha a lojinha de bairro.
Mas é pior: todos esses trecos estão mortos. E nós sabemos disso. Humilhados não por um soldado melhor, um homem mais esperto ou um rival muito mais bem dotado. Humilhados por coisas mortas. Pelo que não tem passado.
Voce não pode mais deitar e ver nuvens. Seria algo que te faria sentir fracassado. Um tonto jogando tempo fora. Voce não pode mais sair com os amigos para fazer nada. Voce sai para se divertir. Voce é obrigado a se divertir. Assim como seu filho tem a hora exata para brincar e para descansar. Ninguém assistirá as nuvens no céu.
Estou cansado de dizer: só me interessa o que é pra sempre. Me esparramo pelo tempo. Corro atrás do que não me importa. Meu desejo é adiado até sempre. Um deprimido?
Deve existir um tempo pra mim. Onde eu possa viver com minha alma serena. E meu desejo se apresente em tempo e lugar apropriado. Minha memória é meu tesouro.
Vampiros são moda de um tempo morto. Adolescentes que não mais se permitem ser idiotas. Romances sem ingenuidade e paixões sem adiamentos. É tudo pra ontem. Eu serei ontem.
Heathcliff e Catherine. Se voces são doenças dispenso a cura. Meu momento é todo. O tempo não existe. O que é novo nasce velho e o agora já foi. Diziam que o mundo atual é muito infantil. Jamais!!!! Sofremos de senilidade-juvenil. Falta de coragem, falta de inocencia, falta de frescor.
Todo artista odeia o tempo em que vive.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

OPHULS/ MORGAN FREEMAN/ CHABROL/ FORD/ LUBISTCH

LOLA MONTÉS de Max Ophuls com Martine Carol e Peter Ustinov
De longe é este o pior filme de Ophuls. Um longo e enfadonho exercício de pretensão. Sabe-se que ele teve problemas com a produção e que sua ambição era a de fazer um filme muito maior. Mas este painel sobre a decadencia de uma cortesã não tem ritmo, não tem gosto, tem falta de tudo aquilo que sempre fez a fama de Ophuls. Uma pena. Muita gente considera este filme um dos maiores da história. Onde? Nota 3.
A DAMA DO LAGO de Robert Montgomery com Audrey Totter
A idéia é arrojada: fazer um policial noir em câmera subjetiva. O herói jamais é visto ( só quando se olha no espelho ) a câmera é o olho desse detetive. Mas essa idéia não funciona. Queremos ver as reações do herói, queremos ver o ambiente onde tudo ocorre, nos cansamos de olhar para rostos que falam olhando para nós. Fato muito interessante: sem a distração de nossos pensamentos, o que olhamos numa conversa é absolutamente banal. O filme se torna árido, mas jamais indiferente. Audrey Totter tem uma sensualidade perversa eletrizante e o enredo tem tanta podridão que nosso interesse se mantém. Mas seria muuuuuito melhor se feito sem a tal câmera subjetiva. Nota 6.
SER OU NÃO SER de Ernst Lubistch com Carole Lombard e Jack Benny
Vamos ver se consigo explicar a história: na Polonia de 1939 ( o filme é de 44 ) uma trupe de atores judeus vê os nazistas invadirem Varsóvia. Sem teatro e na miséria eles acabam ( através de mirabolante e muito bem escrita história ) tomando o lugar dos verdadeiros nazistas e se passando até por Hitler, salvando assim um espião da RAF. O burlesco impera. Lubistch não tem o menor pudor de zombar de nazis em plena guerra. Mas ele também zomba de atores e suas pretensões. O filme é uma delícia! Lombard brilha como a atriz cortejada pelos nazis e Benny é seu marido, um ator-pavão que se torna herói. É impagável. Nota 8.
DOMÍNIO DE BÁRBAROS de John Ford com Henry Fonda, Dolores del Rio e Pedro Armendariz
Um filme muito estranho. Fala de padre que é perseguido em revolução mexicana. O padre é um tipo de martir culpado e as atrocidades se amontoam. É um filme hiper-católico e hiper-carola. Mas algo o redime. A maravilhosa fotografia de Gabriel Figueroa. O México jamais foi tão misterioso, gótico, irreal e infernal. Trabalho de gênio. Mas é um drama muuuito estranho.... Nota 5.
A ÚLTIMA ESTAÇÃO de Lasse Hallstrom com Robert Redford, Morgan Freeman, Jennifer Lopez e Josh Lucas
Hallstrom dirigiu Minha Vida de Cachorro. Ele é muito bom para esse tipo de filme bucólico, sensível, humano. Aqui temos Redford ( muito bem ) como um rancheiro que vive em semi-isolamento com seu amigo ( Freeman ) aleijado por ataque de urso. Jennifer é sua nora, que vai viver lá fugindo de namorado violento. O filme é sobre a reconciliação. É bonito. Fácil de ver, muito bem narrado e todos os atores estão ótimos ( inclusive J-Lo ). Mas, como quase sempre acontece com Hallstrom, falta a criatividade, a fagulha que faz de um filme ok um filme marcante. Nada aqui é ruim, mas nenhuma cena é forte. É bacaninha. Nota 6.
MORTE SOBRE O NILO de John Guillermin com Peter Ustinov, David Niven, Maggie Smith, Bette Davis, Jane Birkin, Angela Lansbury
Hercule Poirot investiga mortes em viagem pelo Nilo. Ustinov está delicioso como Poirot e Niven dá classe ao todo. Mas o jovem casal central, feitos por Lois Chiles e Simon MacKindale, é de canastrice irritante!!!! E ainda tem Mia Farrow como a principal suspeita, hiper-atuando. Um filme que não flui, em que pese a delicia de se ver tantos medalhões. Nota 4.
A ÚLTIMA ESTAÇÃO de Michael Hoffman com Helen Mirren, Christopher Plummer, James MacAvoy, Paul Giammati
Tolstoi em seus últimos dias, tendo seu legado disputado por sua esposa e por seus discipulos. Tolstoi, nos últimos anos de sua longa vida, abriu mão de sua fortuna e de sua arte em pró de sua crença. Ele lançou o toltoianismo, um tipo de pacifismo marxista vegetarianista. O filme mostra os embates entre a condessa sua esposa, que ama o Tolstoi nobre e escritor genial, e o líder do tolstoianismo, que parece estar de olho em sua herança. Helen Mirren brilha. Sandra Bullock ter lhe tirado um segundo Oscar é piada de péssimo gosto. Mas Plummer, MacAvoy e Giamatti, todos brilham, todos se entregam aos papéis invulgares. A cena da morte de Tolstoi é belíssima. E terrivelmente dura. Faltou um diretor de maior ambição, um diretor que criasse cenas de impacto e não apenas que se deixasse levar pelo texto e pelos atores. Hoffman nunca atrapalha, mas também nada cria. Mas, em tempos de gnomos e que tais, é um filme especial. Nota 7.
UMA GAROTA DIVIDIDA EM DOIS de Claude Chabrol com Ludivine Sagnier
O grande Chabrol erra aqui. Veja bem, não é um filme ruim, é apenas um filme sem porque. Uma garota ama um escritor velho e é cortejada por playboy bilionário. E daí? E daí nada. Não há nenhum aprofundamento, nenhuma surpresa, nada de belo ou de diferente. Chabrol não erra, mas e daí? Claude Chabrol é o mais querido dos diretores da nouvelle-vague nos EUA. Ele tem uma sucessão de bons filmes de suspense ( quando critico ele amava Hitchcock ). Mas aqui, aos 82 anos, ele faz um filme inútil. Nota 3.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

CHARLIE BROWN SOU EU. OU: A DESCOBERTA DO JAZZ

Um famoso psicólogo ( quem? ) disse uma vez que entre outras coisas, a maior genialidade de Charles Schulz ao criar os Peanuts, foi a de exemplificar os vários tipos de neurose. Em Linus, Lucy, Patty Pimentinha, Schroeder e principalmente Charlie Brown, temos todas as neuroses do tempo moderno. Menos Snoopy, e é aí que o gênio se revela. Nesse meio torto e cinzento ( e pintado com tanto afeto ) Snoopy é a imagem da mente sadia. Esse beagle que dorme e come, que agride quando é pisado e dança sempre que feliz, é a imagem da saúde mental, da boa disposição, e principalmente da criatividade. Pois Snoopy sonha. Sonha em ser um ás da aviação, sonha em ser um legionário. Snoopy é a felicidade.
Charlie sou eu. Eu queria ser o Linus. O Linus é mais esquizo. Mas Charlie sou eu, fazer o que? Eu sempre subi naquele monte de terra e sempre soube que ia perder. E a menina ruiva nunca falou comigo. Sim, Charlie Brown sofre de auto-piedade. Sim, ele é o molde de Woody Allen. Sim, Schulz foi um gênio. Mas tem mais.
Nesse dvd novo há um documentário sobre o autor da trilha sonora, Vince Guaraldi. Se fala que a trilha de jazz dos Peanuts fez com que muita criança se tornasse fã de jazz quando adulto. BINGO! Taí! Se fala da primeira vez em que se ouviu o tema de Linus e Lucy. Aquele piano dedilhado nada infantil ( Peanuts nunca é infantil ), a bateria marcada, a agilidade feliz do compasso. A música se tornou hit e Vince uma estrela ( até morrer cedo, do coração ).
Assisto Peanuts desde os oito anos de idade. E sempre adorei sua música. ( As músicas de Vince são da série antiga. A partir dos anos 70 a coisa se vulgarizou. ) Mas é agora que percebo que aquele foi o primeiro jazz que ouvi na vida. Mais: que tudo o que realmente me seduz em jazz até hoje é meio Vince Guaraldiano. De Monk a Lester. Eureka!!!!! Snoopy dançando ainda é a coisa mais jazz que há.
Numa ilha deserta, se tivesse de levar só um cartoon eu levaria Snoopy. Doeria ficar longe do Pernalonga ou do Patolino. Tenho o Papa-Léguas tatuado no braço. Mas a vida sem Charlie Brown é inimaginável. Como os filmes de Hitchcock, as músicas dos Beatles ou a pintura de Renoir, faz parte de nosso ambiente, de nosso meio, de nosso inconsciente. Enriquece a vida, enobrece a alma, faz a gente até crer em algum motivo para perder.
Eu amo Charlie Brown.

PRISCILLA/ FUTEBOL/ POLLACK/ NOIR/ CHRISTOPHER REEVE/ SNOOPY

FALSTAFF de Orson Welles com John Gielgud, Jeanne Moreau, Marina Vlady
Com seu ego mastodontico, Welles mistura duas peças de Shakespeare centrando tudo em Falstaff, o gordo e alegre rufião. O filme é quase incompreensível. Tem uma genialidade: seus cortes. O filme tem tanta agilidade visual que chega a nos deixar tontos. Mas fora isso... nota 4
PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO de Stephan Elliot com Terence Stamp, Guy Pearce e Hugo Weaving
Este filme anuncia fenômeno interessante dos nossos tempos: a transformação do travesti em um tipo de herói infantil. Como provou o big brother, o gay fofo é hoje um tipo de herói para crianças. Se tornou um tolinho inofensivo. Os Dzi-Croquettes devem estar se revirando entre sua escatológica purpurina.... Mundo onde tudo ( sex, drugs e rocknroll ) se torna, cedo ou tarde, conformismo. Bem...aqui está um filme gay sem sexo. É bacana a paisagem dessa absurda Austrália e Stephan sabe dirigir, como mostrou em seu recente EASY VIRTUE, mas é tudo tão fofo, eles são tão crianças que chega a enjoar. Os atores, principalmente o grande Stamp, são inspiradas escolhas, nenhum deles sabe rebolar. E viva o ABBA!!!! nota 5
AUSÊNCIA DE MALÍCIA de Sidney Pollack com Paul Newmann, Sally Fields e Melinda Dillon
Porque este filme me emocionou tanto? Vamos a história: jornalista ( Sally, excelente ) é usada pela polícia. Ingenuamente ela pega notícia vazada e a publica. Isso faz com que a vida do investigado ( Paul ) se torne um inferno. Qual a culpa dele? Qual a culpa dela? Aqui o jornalismo é mostrado em todo seu comércio, ela não consegue parar de produzir notícia, ele acaba por engendrar uma forma engenhosa de colocar todos a nú. Este filme magnífico, vencedor do Oscar de roteiro ( Kurt Ludke ) é dirigido com a habitual eficiência por Pollack e mostra Paul Newman em plena forma. Sua primeira aparição, entrando na redação do jornal, em termos de autoridade e carisma viril coloca até Eastwood no bolso. Há ainda uma perturbadora atuação de Dillon como uma amiga frágil de Newman. Um muito grande filme. Nota 8
EM ALGUM LUGAR DO PASSADO de Jeannot Szwart com Christopher Reeve, Jane Seymour e Christopher Plummer
Um fracasso na Europa e nos EUA, estranhamente este filme se tornou clássico em dois países: Brasil e Japão. É porque essas duas culturas tão absolutamente opostas se encontram apenas naquilo que aqui é mostrado: a crença na influência dos mortos sobre os vivos. Este filme marcou toda uma geração que tem hoje entre 40/50 anos. Fala de volta no tempo, de amor eterno, de fantasmas. Mas atenção: se voce sofreu uma tristeza amorosa séria recentemente fuja dele. É um dos mais deprimentes filmes já feitos. Defende o suicidio abertamente. Só na morte o amor pode viver. No mais, Reeve tinha um rosto tão inocente que chega a comover. Faz muita falta um ator com essa imagem de caráter. Falar dos furos do roteiro de Matheson é como falar dos furos em Batman ou em Matrix, perda de tempo. Este filme não deixa de ser uma refilmagem muuuuuuito empobrecida e simplificada do genial RETRATO DE JENNIE, esse sim, filme que faz de crente até o mais ateu dos cinéfilos. Nota 5
NASCIDO PARA MATAR de Robert Wise com Claire Trevor, Lawrence Tierney e Walter Slezak
Filme noir. O que é um filme noir? Os criticos discutem faz tempo uma definição. Falam de sombras, de mulher fatal, de crime. Mas acima de tudo falam de destino, de ser preso num destino imutável. Aqui temos um dos melhores noir já vistos. E não tem nenhum herói, todos são ruins. Fala de um sádico assassino que se casa com milionária ingênua mas que tem caso com a irmã dessa milionária. O filme é bem sexy: todas as mulheres caem de tesão por ele. Dizem todas que sentem atração por seu jeito do mal. Wise dirige economicamente. O filme não se prolonga em bobagens, as coisas acontecem. Há um maravilhoso detetive feito por Slezak que é símbolo do roteiro: até ele se vende. Uma maravilhosa diversão no gênero mais amado ( e que menos envelheceu ) de Hollywood, o noir. Nota 9.
DUELO DE CAMPEÕES de David Anspagh com Gerard Butler e Wes Bentley
Em 1950, nos EUA, em St. Louis, forma-se um time de soccer. Eles virão ao Brasil, disputar a copa do mundo. Problema: futebol nos EUA é completamente amador. Os atacantes são cozinheiros ou coveiros. Nem uniforme eles possuem. Mas treinam e embarcam. Na copa eles serão protagonistas da maior zebra da história do esporte ( de qualquer esporte ) vencerão o time mais profissional do mundo, a Inglaterra. Uma pena os americanos não amarem o futebol. Uma pena o Brasil não saber filmar aventuras. O futebol mereceria filmes como os tem o box, o beisebol, o automobilismo, o hoquei e até o hipismo. Este filme é decente. As cenas de jogo são boas, e melhor, o Rio de 1950 é muito bem recriado. O jogo com os ingleses, que na verdade foi em Belo Horizonte, é filmado nas Laranjeiras. Os EUA vencerem os ingleses em 50, seria hoje como o time de rugby do Brasil vencer a Nova Zelândia. Ou um time de basquete da Bolivia vencer os EUA. Dá pra entender? Amadores vencendo profissionais famosos. Hoje seria impossível. Na época já foi impossível. Um milagre. Como filme ele é só ok. Faltam atores de mais carisma, de mais personalidade. Se feito com os jovens Paul Newman ou Nicholson seria maravilhoso. Mas vale conhecer este filme, que foi filmado realmente aqui e que respeita muito nosso país. Nota 5
CHARLIE BROWN de Bill Melendez, música de Vince Guaraldi
Saiu o dvd duplo com os primeiros Peanuts para tv. Nada existe de melhor. Schulz era um gênio. É ver e crer. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

terça-feira, 13 de julho de 2010

AS MENINAS DE VELAZQUEZ, A MAIOR OBRA VISUAL DA HISTÓRIA HUMANA

Antecipando o zoom, nosso olhar penetra em sala. Mas não é apenas uma sala. É um mundo. As pessoas nos olham e respiram. E começa assim a sucessão de milagres.
Sabemos todo o tempo que aquilo é uma pintura. Nosso cérebro grita isso. Mas algo escondido dentro de nós balbucia: São vivas!
A vida/morta está para sempre viva naquele retângulo. Respiram os ares do museu do Prado. Eu irei partir, voce irá partir, nossos brinquedos eletrônicos tornar-se-ão pó, e aquela vida/morta estará lá.
Ao canto do quadro há o fundo de uma tela. E um pintor nos mira nos olhos e segura um pincel. Os olhos daquele pintor se movem para dentro de nós mesmos. Segundo milagre: ao penetrarmos naquele ambiente somos penetrados pelos olhos de quem lá está. As três meninas posam ao centro. Uma princesa-criança loura e suas duas amigas. Ao lado das três belas infantas, uma anã retardada nos observa. Ela é a imagem do grotesco. Dois adultos observam a cena ao fundo, mas na verdade nos observam. Olhando o quadro, de súbito nos sentimos nús. E bem ao fundo há um homem partindo por uma porta. Um cão está quase adormecido ao canto e uma criança perturba o quase-sono desse animal. Onze quadros estão enfeitando as paredes desse aposento. E um espelho, bem ao centro, reflete um casal que olha o quadro ao nosso lado. Capturados: estamos agora dentro daquela sala de 1656.
Olhe algum tempo para essa cena e voce estará vivendo com eles. Sua mente se entorpece- desperta e tudo o que existirá então será aquela gente e aquele tempo. Nenhuma imagem feita por mãos humanas tem esse estarrecedor poder. Suga voce para dentro da obra.
Então se inicia um diálogo entre voce e as pessoas. "Desculpe ter entrado sem avisar..." E elas, fantasmas que são, nada podem responder, apenas olham seus olhos e respiram paralisadas. Me vem um pensamento: Quando nosso mundo ruir, esta obra permanecerá. Pois não se trata de pintura, é um feitiço. Aquilo é o mundo real, eu é que sou um simulacro.
Que arte é essa que se perdeu? Observando mais de perto vemos que tudo alí é fumaça, são tênues camadas de tinta. Esfumaçamento da vida, o rosto da menina loura brilha e se avermelha e os cabelos são ouro enquanto sua mão pega um frasco que se move. Sentimos raiva então. Raiva por termos perturbado aqueles seres.
Recordo que é esta considerada a maior pintura de toda a história. O único outro que pode tentar se igualar é Rembrandt com sua Ronda Noturna. Século XVII. Ouro da pintura e da filosofia.
Chego então ao muito perigoso momento em que sinto a tentação de não mais sair daquela sala. Se eles são fantasmas vivos, serei um vivo fantasma e lá ficarei. Quero acariciar o pelo marrom daquele cão imenso e quero ser olhado e olhar os olhares daqueles espectros que respiram. Serei a imagem no espelho de fundo, serei o objeto do pincel que se segura, serei parte daquele mundo suspenso. Há um perigo mortal em toda obra-prima. Elas são maiores que nosso mundo. Têm um canto de sereia que pode enlouquecer. Pois esta obra é mais que sereia, é um oceano.
Agora, na rua de novo, sinto estranhamente que as meninas me esperam para outro dia. As coisas aqui fora parecem vulgarmente mortais, e eu, num quadro, tive visões de dourada imortalidade.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

MEMENTO MORI - MURIEL SPARK

Iris Murdoch, Doris Lessing e Muriel Spark. Das três é Muriel a menos conhecida ( embora seja bastante famosa em GB e EUA ). Das três talvez seja ela a melhor. E nisso nada há de esnobismo, ela é a mais fácil de ler. Murdoch cai às vezes num exoterismo obscuro e Lessing é ambiciosa demais ( para seu dom ), mas Spark tem humor, um maravilhoso e amargo humor inglês, humor de velhinha sortuda, humor de quem viu, não gostou e achou graça.
Durante esses dias copeiros lí Philip Roth e detestei. Se Portnoy é um livro maravilhoso, esse livro sobre a morte de seu pai ( cujo título me escapa ) é um pé no saco. Masturbativo. Lí também o Monsenhor Quixote, de Graham Greene. Greene é autor delicioso, mas escrevia demais. Se Nosso Homem em Havana e O Consul Honorário são maravilhosos exercícios de humor absurdo, este Monsenhor é uma rala lenga-lenga sobre marxismo e catolicismo. Mas Muriel Spark é um prazer. Vamos ao livro.
Escrito em 1959, trata de velhos. Sim, velhos. A jovem Spark, em seu segundo livro fala de velhinhos ricos em Londres. Velhos bem velhos. O menos ancião tem 70 anos. Nada de bons velhotes. O livro os exibe obcecados com testamentos, com fofocas, concorrendo uns com os outros, sovinas, desmemoriados, senis, loucos. O humor transborda. Muriel tem um dom para pegar o banal e sutilmente exagerá-lo. Um livro que poderia ser deprê, é alegre, colorido, vivo e ao mesmo tempo, azedo. É profundamente inglês: os velhos tomam chá todo o tempo, babam por seus pães com geléia e manteiga. Cada um deles tem a ilusão de ser superior, original, todos são ridículos.
Telefonemas anônimos e uma governanta que os manipula. É isso que move o romance. Mas o que impressiona é a simplicidade da escrita de Spark, a facilidade com que ela nos fixa personagens, sua maestria em contar e descrever. Escritora nata. Nasceu para narrar.
As ilhas britânicas fabricam escritores, bons escritores, com a facilidade com que nós produzimos jogadores de futebol, bons jogadores. Não sei se é o clima cinzento que os faz se recolher e contar histórias, ou se é o chá, mas apesar de não ter tantos gênios como a França ou a Alemanha, em quantidade de bons livros, são os ingleses, escoceses e irlandeses imbatíveis.
Muriel Spark é da boa safra dos anos 50/60. Memento Mori é grande prazer.

sábado, 10 de julho de 2010

MEL BROOKS/ BRESSON/ TRUEBA/ DAVID NIVEN/ MONTY PYTHON

BANZÉ NO OESTE de Mel Brooks com Cleavon Little, Gene Wilder, Madeline Kahn
O grosso humor de Mel Brooks. Ele não perde a chance de esculachar, de fazer uma cena cômica, mesmo que essa cena revele mal gosto ou infantilismo. Seu objetivo é um só: fazer rir. Aqui ele não perde chance. Destrói o western. É a história de um xerife negro. Mas também é a história de uma filmagem na Warner. Kahn faz uma hilária imitação de Dietrich e Gene Wilder copia o Dean Martin de Rio Bravo. Uma zona. Nota 6.
MONTY PYTHON E O CÁLICE SAGRADO de Terry Gilliam e Terry Jones
Cleese, Idle, Jones, Palin e Chapman...adoro esses caras! A cena dos cocos...existe alguém que não a conheça? Mas aqui há um problema: quando assisti este filme a primeira vez não conhecia a série de TV. Agora, tendo visto toda a série, percebo que aqui há somente uma repetição para aqueles que não viam a BBC. A série é marco histórico de humor, este filme é apenas um souvenir. Nota 6.
VIDAS SEPARADAS de Delbert Mann com Burt Lancaster, David Niven, Rita Hayworth, Deborah Kerr, Wendy Hiller
Baseado numa peça de Terence Rattigan. Fala de um hotelzinho a beira-mar. Seus hóspedes: um coronel mentiroso que é descoberto, um alcóolatra, uma solteirona dominada pela mãe... Os atores estão fantásticos. Mesmo Rita convence como a bela mulher que começa a envelhecer. Talvez o menos bom seja Lancaster, um pouco "forte" demais para seu personagem em crise abissal. David Niven venceu o Oscar com este papel. O coronel é uma atuação muito comovente. Vemos, quando descobertas suas fantasias, uma personalidade se desnudar totalmente, um homem regredir aos medos da infância e um grande ator tocar fundo nosso coração, nossa piedade. É maravilhoso. Benditos atores ingleses! Será o chá? Nota 7.
GAROTA DOURADA de Antonio Calmon com André de Biase, Bianca Byington, Sergio Mallandro, Andrea Beltrão, Alexandre Frota
É isso mesmo. Sergio Mallandro e Alexandre Frota no mesmo filme. E que filme! Tem diálogos risíveis, uma "história" sem sentido, toques de misticismo pré-Paulo Coelho e faz rir em cenas de romance juvenil. Praia, ultra-leve, surf, biquinis. Bianca impressionantemente linda! O filme é bom pra se ver em grupo, rindo. Hiper trash. Nota...........
E SUA MÃE TAMBÉM de Alfonso Cuarón com Gael Bernal, Diego Luna e Maribel Verdú
Dois amigos adolescentes. As namoradas vão para Roma e eles viajam com esposa do primo de um deles. Cruzando o México eles perderão a pureza ( de espírito ) e adentrarão, amargamente, a idade adulta. O filme é lindo. Os atores fazem milagres, são felizes, espontâneos, leves. As estradas passam e vemos os contrastes do país, contrastes que eles não percebem. Há uma cena ao som de Brian Eno que é cortantemente crucial. Muitas cenas de nú e de sexo. Um filme invulgar. Um filme para se apaixonar. Nota 9.
SEDUÇÃO de Fernando Trueba com Fernán Gomez, Ariadna Gil, Miriam Aroca, Penelope Cruz, Jorge Sanz
Uma coisa estranha. A primeira cena, em plena revolução espanhola, é genial. Mostra um genro matando seu sogro. Em poucos instantes se exibe o absurdo da revolução. Mas, que estranho, é uma cena "feliz". Coisas de Espanha. O filme tem visual de vida, de sensualidade, de cor e de calor. Fala de desertor que pede abrigo em casa de velho solitário. Solitário nada, ele recebe a visita das 4 filhas. O desertor passa a dar a cada uma delas tudo o que elas querem. De certa forma ele ama todas as quatro. É um namorado para uma, traveste-se para a menina-homem, recorda o falecido marido para outra e termina por se casar com a mais jovem. Tudo no filme é vida. Padre que joga cartas em bordel ( e se mata com livro de Unamuno na mão ), a volta da mãe das meninas com amante francês, o noivo ultra-católico, o vinho e a comida. È um belo filme feito em maravilhosos lugares. Uma recordação: este filme ganhou o Oscar de filme estrangeiro em 93. Ao agradecer o prêmio, Trueba disse: - Se acreditasse em Deus agradeceria à Ele; mas como não acredito, agradeço a Billy Wilder". No dia seguinte Trueba recebeu um telefonema: "-Fernando? Aqui é Deus!" Era Billy ao fone. Dá pra se ver muito de Wilder neste delicioso, malicioso, apimentado filme. Nota 7.
PICKPOCKET de Robert Bresson
O mais cristão dos diretores adapta o enredo de Crime e Castigo ao mundo dos batedores de carteiras. Ele quer sua redenção. Há algo de santo neste ladrão pobre, franciscano. O filme é original, o cinema de Bresson evita a emoção. Ele faz os atores não atuarem. Quer que não nos distraiamos com a interpretação. O que Bresson quer é que absorvamos, com absoluta atenção, sua mensagem. A salvação, tema de todo seu cinema puro. É um filme anti-enfeite, anti-artifício. Anti-Hitchcock então. Mas bem filmado, bem editado, soberbamente profissional. Nota 7.

ESPANHA

Cruzei os Pireneus e era madrugada escura. Parado em estalagem me servem um sanduíche. Uma baguette de um braço de comprimento. Pão duro, seco, e dentro um recheio de omelete, jámon, queijo e azeitonas. Um sanduíche monstruoso para cada um de nós. Para beber não havia água ou suco de nada. Vinho apenas. Um galão de vinho incrivelmente ácido.
Então continuar o caminho. E ficar surpreso ao notar que em Bilbao às duas da manhã as crianças ainda jogam bola na rua e as mães estão sentadas à fresca para fofocar. Ninguém dorme no verão da Espanha. Entenda, não se trata de balada, é vida familiar na madrugada. E quando amanhece a paisagem é desértica. Planície sem fim. Sem árvores, sem estradas secundárias, um vazio. Poderia ser outro planeta. Poderia ser outra época. É a Espanha.
Na cidade, uma da tarde tudo fecha. Tudo mesmo! Lojas, cinemas, barbearias, supermercados. Volta a abrir às quatro. Falo dos anos oitenta. Não sei se a Espanha hoje se americanizou. Se já se instituiu o almoço de 45 minutos. Mas até 1989 havia a siesta. Voce ia trabalhar às 10 e parava às 13. Voltava às 16 e saía às 22hs. Um espanhol não podia trabalhar oito horas diretas sem o sagrado direito de ficar 3 horas à mesa. Pegos de surpresa, nós turistas, portas cerradas em nossa cara, íamos almoçar longamente. Ou puxar um ronco no hotel. Lá a vida começa às 23 horas.
Espanha... foi a mais selvagem das colônias romanas. Não se entregava nunca. E depois se tornou mais Roma que a Itália. Berço de imperadores. Foi califado muçulmano. E se fez mais árabe que a Arábia. E quando católica foi mais beata que o Vaticano. A Espanha tem honra. Se é para ser alguma coisa, ela é até a morte.
E então tinha de ser ela a criar a mais revolucionária das descobertas: a América. Para voce ter uma idéia: descobrir um mundo insuspeito seria o equivalente, hoje, a encontrar vida em outro planeta. A Espanha inventa coisas esquisitas como a Argentina, exóticas como Cuba e mortais como o México. E ainda faz do sul dos EUA o espírito da nação mais rica do século vinte. Com a riqueza das américas, os espanhóis fazem o que todo bom espanhol faz com dinheiro: gasta. Torram fortunas em luxo, em festas, em guerras ridículas ( da qual saem sempre perdedores, olé! ). Mas não perdem a pose. Enquanto ingleses e alemães desenvolvem educação e indústria, os fidalgos espanhóis fazem procissões, conquistam senõritas e duelam pela honra.
Espanhóis que são mais dandys que os ingleses, mais sexys que italianos, mais briguentos que franceses, mas que, estranhamente, não são idealistas como os alemães. Na Espanha a vida é a verdade. É real, é crua, é sangue e fogo. Não é abstração. Tourada.
Não seja hipócrita! Fosse eu um boi eu preferia morrer lutando em arena, sem anonimato, que ser trucidado entre azulejos e em fila indiana. Como boi eu prefiro ser touro. A Espanha escolheu isso.
País da guerra civil, momento decisivo do século vinte. Pois se é para ser o mais católico dos povos, é também em Espanha que vivem os mais anti-católicos dos seres. Lá, quem é contra os padres cospe em igrejas e seduz freiras. Se peca. E vem a revolução. Queimam-se igrejas. Padres enforcados. Amor livre. Todos devem comer todos. Vale tudo. E vem a reação: hiper-conservadores criam o paredão. Pai mata filho. Filho mata avô. Na Espanha se decide o futuro do mundo. Se os socialistas vencem, o mundo será anarquista. Se vencem os conservadores, o futuro será fascista. É uma guerra como nunca mais se verá. Americanos, alemães, ingleses, canadenses, todos se alistam como voluntários. Homens e mulheres do mundo querem pegar em armas e defender a liberdade. Os governos fecham os olhos. Governos não defendem a livre-Espanha. Steinbeck, Heminguay, Hammett, Orwell, Dos Passos, todos lutam com fuzil. Mas os nazistas defendem a ordem e é nas terras espanholas que se treinam soldados alemães para a conquista da Europa. Bombardeios. Morte de civis. Bem-vindo ao mundo moderno. Tinha de ser na Espanha.
Nasce o ditador general. Francisco Franco. Modelo de toda ditadura latino-americana. Todo general quer ser Franco. E quando vem a democracia, todo socialista sonha em ser Filipe Gonzalez. Franco morre e milagrosamente a Espanha faz a transição sem dor. Os socialistas criam um esquerdismo light, educado, elegante, e o rei Juan Carlos manda os generais calarem a boca. Em 1980 a história do mundo ainda não se estagnara. Foi hora de heróis. Aqui nos brasís e nas colombias não nasceu esse líder. Pena...
Espanha que tem o maior romance da história, o Quixote, e o mais perfeito pintor, Velazquez. Espanha que inventou o modernismo com Picasso e Grís. País sempre sexual, com seus encapuzados, suas viúvas de preto, sua inquisição ( se é pra fazer, vamos que vamos!!!! ). De Lorca, de Unamuno, de Ortega y Gasset ( como são nobres esses nomes!!!! ).
Então voltei ao Brasil e namorei uma catalã. Ela tinha o nariz fidalgo das verdadeiras espanholas. Poucos amigos e muitos admiradores. E um eterno noivo, nobre e de boa família, claro. Eu lhe dava rosas vermelhas e lhe escrevia poesias ( péssimas... ). Fiquei doente de espanholismo. Falava ( calado ) " Ai mamazita como estou a sofrer!!!!!!!! ", " Trago entre os dentes a faca que me matará!!!!!", " Estou morrendo de amor, ai mamazita, como sou infeliz!!!! " Olé! Ela me telefonava. Ou chorava de ódio, ou falava com tédio e superioridade. Ela era como uma princesa orgulhosa. Eu lia poesia e ouvia Carmem. E pintei meu quarto de vermelho e amarelo.
É um privilégio ser espanhol. Ter esse orgulho e esse fogo apaixonado. Ser o dono do duende, a encruzilhada de arábia e do cristianismo. A elegancia do primitivismo, a ferocidade do paganismo. As coisas se resolvem lá, nascem lá, se aquecem por lá e é lá que a coisa termina.
Enquanto o mundo valer a pena ainda haverá Andaluzia, Castela, Galizia, Catalonia e Aragão. Bascos e Navarra. Quixotes e Sanchos, Goyas e Mirós, Bunuel e De Falla. Enquanto houver sangue haverá olé!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

E SUA MÃE TAMBÉM- ALFONSO CUARÓN. OU: SOBRE A AMIZADE

E toda a alegria vem dessa coisa de termos alguém a nosso lado. O que falo ele entende e na verdade pouco falamos, rimos e corremos pela vida afora. Amizade. Dos 16/18 anos....
Minha maior saudade não é de alguma menina que amei ou de alguma mulher com quem estive. É desse amigo. E pouco me importa se há aqui algo de homossexualismo latente, de repressão ou de sublimação. À merda com isso! Minha saudade dolorida é desse amigo e este filme me fez, feliz, recordar essa amizade. Absolutamente irracional, infantil, tola, sincera.
Aos 16 anos é o coração, e só ele, que guia essa amizade. Eu o encontrava na escola, ele vinha todos os dias aqui em casa. Eu estava apaixonado pela menina que amava à ele. E ele amava a menina que queria a mim. Mas tudo isso não tinha a menor importância. Ele torcia pelo Botafogo. Eu era Flamengo. Que importa? Em sua casa só se escutava samba e soul music. E eu ouvia rock e jazz. Mas o coração ria e ria e ria.
Andar de ônibus era uma festa, ir ao cinema uma revolução. O conhecimento da alegria absoluta e da cumplicidade total. Correr pelas ruas de Pinheiros, matar aulas, jogar bola, tomar Fanta com sorvete de côco, dançar em festas nas quais ninguém dançava. Um amigo. Um amigo.
Mas o tempo, esse inimigo maldito, mata essa amizade. Ela não cabe no mundo sem coração da vida adulta. O que nos guia então é o cérebro. Começamos a não ter tempo, a achar ridícula aquela relação, a querer "mais". Mais o que?
Vejo esse filme sem nenhuma expectativa. México. País que é a coisa mais esquisita do planeta. Nação de morte. Brasil ainda mais exagerado. Espanholadamente viril e mortal. Pré-historicamente assustador. No rosto de cada camponês mexicano voce vê um rosto aturdido e ancestral. O filme viaja pelo México. É on the road. Os dois amigos e uma mulher. Nada do que ocorre é inesperado. Mas tudo é certo. É exatamente assim. Vemos a tolice da adolescência. A classe média dos personagens que não quer ver a miséria do país real. A morte em toda esquina. O tempo.
Os dois atores fazem milagres. A amizade verdadeira está toda lá. Exatamente como eu a tive. Exatamente como ela deve se ir. Os atores ( Diego Luna, Gael Bernal ) conseguem algo de muito precioso: passam a alegria de viver. O filme é sim um poema.
Nunca mais ví esse amigo. Ele foi ser militar no Rio, eu montei uma triste banda de rock. Um telefonema e um convite para eu ir o visitar. Ficou por aí. O mundo real me chamava.
Mas é a saudade maior, a mais radiante alegria, o mais verdadeiro dos sorrisos. Ter um amigo aos 16/18 anos. Nada pode ser mais importante. É para sempre, mesmo que esqueçamos.
E agora, escrevendo isto, penso e sinto pena de Lennon e MacCartney, de Jagger e Richards. De todos aqueles que amaram seus amigos adolescentes e que deles se perderam ao ficar adultos. Estrada inevitável eu sei. Caminho rumo à maturidade, entendo. Mas que puta de merda!!!!!!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

EZEQUIEL NEVES FEZ MEU PARTO

Era a revista POP e eu tinha 13 anos. Matérias sobre camping, Zappa, Bad Company e Lou Reed. Fotos de uma garota de 12 anos que vivia de girassol e mel. Surf e jeeps. E Ezequiel assinando como Zeca Jagger. Ler Zeca aos 13 foi nascer outra vez. Ele não escrevia sobre bons discos ou caras importantes do rock. Ele escrevia rocknrollmente sobre rocknroll, ele era um fã que jamais temia ser parcial.
Comecei a ler Zeca no Jornal da Tarde também. E lá ele era ainda mais rock. Para ele um disco legal era "descaralhante" e um disco ruim era assexuado. Zeca NUNCA suportou música brochada, vozes angelicais, músicas de gente boazinha. Pop era rock e rock era satânico. Sempre.
Foi ele que me falou de Iggy e de Roxy pela primeira vez. E foi ele quem me fez entender o porque de Genesis e Yes serem tão chatos. O segredo era sempre o mesmo: tesão. E tome Jagger e suas altezas satânicas!!!!! Jagger e Miles Davis, esse era o mundo de Zeca.
Nos anos 80 o pop começou a ficar muito fake, anti-descaralhante, posudo. Zeca foi produzir o Barão e se apaixonou por Cazuza. Lógico: Cazuza era o descaralhismo vivo. E aí perdí Zeca, perdí o rastro rocknroll da vida. Deixei estar em vez de deixar sangrar.
Morre Ezequiel hoje. Veja só, no mesmo dia que Cazuza... e este mundo frouxo fica um pouco mais frouxo. Um cara como Zeca não tem lugar em mundo de Big Brother e Caras. Seu caminho era outro, caminho de Big Road e Taras.
Divirta-se Zeca !!!!! Eu tô perdido sem pai nem mãe. A gente logo se vê por aí !!!!!

domingo, 4 de julho de 2010

RESNAIS/ BETTE DAVIS/ VALLÉE/ TARANTINO/ PEQUENO NICOLAU

DOIS FILMES JÁ COMENTADOS MESES ATRÁS ( MAS QUE SÓ AGORA ESTÃO EM CARTAZ ): A JOVEM RAINHA VITÓRIA e À PROVA DE MORTE de Jean-Marc Vallée e de Tarantino
A jovem rainha é um belíssimo filme. Não se apressa para contar sua história e a conta bem. Emily Blunt está encantadora e o filme é um prazer. Nota 7.
O filme de Quentin é puro rocknroll!!!! Kurt Russell brinca no papel e nós rimos com ele. É uma digna homenagem aos filmes de carrões dos anos 70. E tem uma Rose McGowan show! Nota 7.
SHERLOCK JR. de Buster Keaton
Uma obra-prima. Keaton era um gênio não-literário. Seu dom se revela em seu rosto, seus gestos e sua inventividade inesgotável. Este filme é um delírio de humor e surpreende-nos todo o tempo. Além de tudo ele tinha uma coragem física impressionante. Nota DEZ.
SOLTANDO OS CACHORROS de Brian Robbins com Tim Allen e Robert Downey jr
A história de um pai relapso que se torna cão. É muito engraçado. Allen, ao contrário de certos comediantes galãs, não tem medo de ser completamente ridículo. Ele baba, rasteja e dá a patinha. Convence como cão. Nota 6.
JEZEBEL de William Wyler com Bette Davis e Henry Fonda
Bette é jovem mimada nos EUA pré guerra de secessão. Perde seu noivo por ser fútil e não ter uma idéia de que seus atos tolos têm sempre uma consequencia. Então, em meio a peste amarela que assola a cidade, vem seu amadurecimento ( amargo e tardio ). Mais um grande filme de Wyler e segundo Oscar de Bette. O rosto dela tudo expressa neste papel : infantilidade, ódio, maldade pura e depois uma esperança que se perde. A cena do retorno de Fonda é inesquecível. Belo roteiro ( que ainda fala de racismo e da arrancada do norte progressista contra o sul atrasado ). Um comentário extra: este filme comprova a tese que diz que se o sul tivesse vencido a guerra, os EUA seriam hoje um Brasil. Nota 9.
PROVIDENCE de Alain Resnais com John Gielgud, Ellen Burstyn e Dirk Bogarde
Aaaaaah .... essa crítica esnobe.... este é considerado um dos maiores filmes dos anos 70. Resnais, trabalhando em inglês, nos mostra um rico autor morrendo de câncer. Enquanto ele agoniza, sua imaginação usa seu filho, um frio snob, e sua nora, como personagens de seu derradeiro romance. O filme é tão metido, tão "refinado" ( Yves St.Laurent fez o guarda-roupa ) tão cheio de erudição e de bom-gosto, que se torna o mais frio dos filmes de horror. É um pesadelo de cadáveres sendo dissecados, remédios, solidão e frases literárias. Odiei muito!!!!! Nota ZERO.
BOB, LE FLAMBEUR de Jean-Pierre Melville
Crítica abaixo. Melville filmava quando tinha dinheiro, usou atores amadores, o ator principal era alcoólatra, a atriz foi achada na rua e só tinha 15 anos. E mesmo assim, eis o resultado: uma obra-prima. O mais cool dos filmes, o mais viril dos heróis. Sexy, macho, frio e triste. Roger Ebbert cita em seu livro filmes de Paul Thomas Anderson, Neil Jordan e Soderbergh que o homenageiam. Melville merece muito mais. Bob é o cara! Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
O PIRATA ESCARLATE de James Goldstone com Robert Shaw, Peter Boyle, Genevieve Bujold e Beau Bridges
Filme de piratas. Mas é um filme estranho, não se leva a sério sem ser uma comédia. Shaw faz um pirata sujo, estúpido. Genevieve faz uma heroína feminista. Dá pra ver, mas é um filme bastante banal. Nota 4.
O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA de Cecil B. de Mille com Charlton Heston, Betty Hutton, James Stewart, Gloria Grahame, Cornel Wilde
Um imenso sucesso detestado pela crítica. Mostra os bastidores de um muuuuuito rico circo. Heston é o gerente mandão, Betty uma trapezista, Stewart um palhaço e por aí vai. Os diálogos são tão idiotas que chegam a doer. Mas ao mesmo tempo o filme é tão colorido, tão otimista, tão cheio de acontecimentos, que ficamos lá, detestando aquilo tudo e interessados sem saber porque. Nota 6.
TITANIC de Jean Negulesco com Clifton Webb, Barbara Stanwyck e Robert Wagner
Não o mastodonte, mas sim um simples drama que conta sua história com objetividade e competência. Foi grande hit em seu tempo e tem efeitos bastante bons para sua época. Os passageiros desfilam suas histórias e vem o acidente final. Um pop dos 50's. Nota 6.
O PEQUENO NICOLAU de Laurent Tirard
Encantador! Um fato: se italianos fazem das crianças pequenos chorões e se americanos os vestem de adultos idiotas, são os franceses que sabem mostrá-las como elas são. Exemplos desse talento há as dúzias. De Guerra dos Botões à Idade da Inocência e Brinquedo Proibido. Aqui estão crianças que são crianças. O filme nos enternece e nos diverte. È obrigatório em tempos de histeria fútil. Vá e veja agora e já! Nota 7.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

BOB, LE FLAMBEUR - UM FILME DE MELVILLE, REI DO COOL

O início já marca o tom: em poucos segundos voce já está capturado. O filme é madrugada, é seco-árido, urbano, é de macho!
Vemos Montmartre. Montmartre ainda com cheiro. O bairro cheirava e fedia. Tabaco, anís, urina, frituras, fumaça de carro, perfumes de putas, cachorro molhado, papel. A câmera ,de Henri Decae, viaja pelas esquinas nas primeiras horas da manhã. Parece um quase documentário. Mas então Bob entra em cena.
Bob é um jogador. Ganha a vida no jogo de bares suspeitos. Bob bota ordem entre os pequenos gatunos de araque e entre as damas da madrugada. Cumpriu pena e se fez amigo de policial. Vive só, e se encanta por jovem putaine, uma vagabunda muito jovem que está sempre ok.
Mas atenção!!!! Bob jamais se apaixona! Com ela ele é apenas um protetor. Bob é macho pacas! Ele usa sobretudo, fuma Galoises sem filtro e nunca sorri. Bob quer sobreviver, eis tudo. Bob seria Bogart mais Sartre. Lembramos que Bogart foi criado por Jean Gabin. No fim, tudo é França.
Bob quer um último golpe. Roubar um cassino em Deauville. Conseguirá? Não conto o resto. Basta dizer que o final é surpreendente e perfeito. Bob vencerá?
Todo homem que assistir este filme irá querer ser Bob, Le Flambeur. Hoje estou cheio de maneirismos Bobianos. E este filme é jazz todo o tempo, é sexy toda hora e tem uma fotografia em p/b que é ensaio sobre estilo cool. Talvez seja o mais cool dos filmes já feitos.
Jean-Pierre Melville o dirigiu. É uma obra-prima. Melville não se chamava Melville. Adotou o nome em homenagem ao autor de Moby Dick. Jean-Pierre tinha paixão pelos yankees. Se Gabin criou Bogart, Bogart melhorou Gabin e Bob refinou Bogart. O mundo gira e Montmartre fede.
È um cinema sem tempo. Tarantino e Soderbergh estão neste filme. E mais um monte de coisas boas deste século XXI. Este filme estava cinquenta anos à frente. Melville é o cara.
Bob, le Flambeur. Do cacete!!!!!!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

SHERLOCK JR. - BUSTER KEATON, UM GÊNIO

Porque um gênio?
Este filme tem uma hora apenas. E em uma hora temos no mínimo quatro desenvolvimentos: primeiro, ele é um apaixonado injustamente acusado de roubo. Depois ele se torna um projecionista de cinema, que sonha estar na tela. Então ele é um herói das telas e ao final, um namorado apaixonado. Todos esses momentos independentes são entrelaçados naturalmente e citam os temas favoritos de Keaton : o ingênuo que se esforça para vencer, o trem e a água. Todo grande filme de Buster Keaton tem uma estação de onde se vai e se volta, e rios, lagos e cachoeiras, onde se "quase morre".
Porque um gênio?
Em seus filmes nada há de literário, de teatral, de século XIX. Ele é completamente cinematográfico. Seu gênio se revela na facilidade com que ele manipula, brinca, cria, ilude, usa a câmera e nosso olho. Na sequencia em que ele sonha estar dentro da tela, temos uma das mais geniais construções. As trucagens se encadeiam e Keaton brinca com seu talento. Seu personagem vai mudando e mudando de cena, as coisas vão se encadeando e nós começamos a agradecer por essa diversão.
Buster Keaton era também um ator maravilhoso. Seu rosto, estranhamente belo, crédulo e sempre alerta, é a face de um homem honesto, forte, e jamais derrotado. Ao contrário de Chaplin, Keaton não deseja nossa piedade. Ele pede nossa admiração. Ele é um estóico. E o rosto de Keaton é a imagem de toda uma filosofia. Mas há ainda o corpo deste herói.
Desde criança ele foi treinado por seu pai no circo. Era jogado ao palco, derrubado, fazia quedas, saltos, voava. O corpo de Keaton é o corpo de um atleta, de um bailarino e de um "esportista radical". Buster jamais utilizava dublês, e todos os seus filmes são cheios de cenas muito arriscadas. Aqui ele anda de moto de costas, pula de trem, cai em rio, despenca de casa. Há uma cena em que ele pula de uma janela e sai disfarçado pelo outro lado que é maravilha de engenho.
Nada então é mais cinema, mais pura luz e movimento que sua arte. Há uma alegria elétrica em seus filmes, uma sensação de que tudo pode acontecer e um maravilhoso otimismo.
Buster Keaton nunca ri dos outros, ele nos faz rir, apenas nos faz rir. Seu humor nada tem de amargo, de perverso e seu personagem nunca nos inspira dor ou lágrima, ele perde, mas não sofre. Luta.
Nada no cinema mudo é melhor que Keaton, e quase nada feito depois tem seu divino humanismo. Os filmes de Keaton são testemunhos de fé, de arrojo e de coragem. Se o mundo fosse lugar perfeito todos seríamos como Buster Keaton foi.

domingo, 27 de junho de 2010

SELTON MELLO/ HAWKS/ JODIE FOSTER/ MIZOGUCHI/ REDFORD

NÃO TE MOVAS de Sergio Castellito com Penelope Cruz
Picaretagem braba! Uma coleção de clichés significando tédio e chatice inglória. nota zero.
IBÉRIA de Carlos Saura
É uma coleção de cenas com música e dança espanhola. A maestria de Saura em mover a câmera é aqui muito bem-vinda. O filme é aula de gosto e de melodia. Para quem gosta de som e dança é obrigatório. Nota 6.
O BANDIDO DA LUZ VERMELHA de Rogerio Sganzerla
Um filme barato, pobre, mal feito, mas que talvez seja o melhor já produzido por estes lados do mundo. Rogerio erra todo o tempo mas jamais baixa a guarda: o filme é uma explosão de som e de imagens toscas. Paulo Villaça imita o Belmondo de Godard e Helena Ignez é fatal. Welles e nouvelle vague made na boca do lixo. Nota Dez.
A BEIRA DO ABISMO de Howard Hawks com Humphrey Bogart e Lauren Bacall
Uma ode ao bom-humor. Neste roteiro de Faulkner, baseado em Chandler, nada faz o menor sentido. Os assassinatos rolam sem razão, o detetive investiga por investigar e nós, pobres expectadores, nada entendemos. Mas neste clássico do noir, nada disso importa. O que interessa é assistir ao filme como coleção de sketches, cenas independentes maravilhosamente bem feitas. Dá pra notar a alegria de Bogart em contracenar com sua nova mulher, Bacall; e notamos que tudo ali parece brilhar. Lendo livros sobre o filme ficamos sabendo que na verdade Bogart sofria pelo fim de seu segundo casamento com a violenta Mayo, mas há paixão nos olhares e isso ficou na película para sempre. A irmã ninfomaníaca feita por Martha Vickers é excelente. Nota 8.
O CHEIRO DO RALO de Heitor Dhalia com Selton Mello e Paula Braun
É uma sátira ao capitalismo? Ou trata-se de uma homenagem ao Monty Python? Este filme tem um grave problema que atinge a maioria dos filmes "esquisitos": seria um excelente curta-metragem. Mas falta história para um longa e depois de seus trinta minutos iniciais, tudo se perde. O que era um bom filme de humor torna-se uma chatice pretensiosa. Selton dá um show de humorismo, seu tipo é antológico. Nota 4.
O HOMEM DO ANO de J H Fonseca com Murilo Benicio e Claudia Abreu
A fotografia é interessante, mas tudo o que acontece é muuuuuito previsível. Do porquinho até a pirralha que vira crente, tudo é chavão e banal. Filminho que parece TV. Nota 3.
SE EU FOSSE MINHA MÃE de Gary Nelson com Barbara Harris e Jodie Foster
Antes de ser atriz adulta, Jodie foi atriz infantil da Disney. Aqui, aos 14 anos, ela faz o papel da filha que troca de corpo com a mãe. Serve como nostalgia do visual 1976: carrões, skates fininhos, bocas de sino e mobília vermelha. Fora isso..... nota 4.
O PRÍNCIPE VALENTE de Henry Hathaway com Robert Wagner, James Mason e Janet Leigh
Aventura baseada nos HQ de Hal Foster. É sobre vikings e rei Arthur, sir Gawain e o amadurecimento de jovem herói. Robert Wagner, muito jovem, está perfeito no papel, e Mason sempre faz um bom vilão. A trilha sonora de Miklos Rosza é das melhores de todos os tempos. Um velho clássico da Sessão da Tarde do tempo em que se passavam clássicos à tarde. Bem legal. Tem torneios de heróis, fugas à cavalo, traições e muita briga. Nota 7.
UM HOMEM FORA DE SÉRIE de Barry Levinson com Robert Redford, Robert Duvall, Glenn Close, Kim Basinger
Baseado em livro de Bernard Malamud, o filme, que fala de promissor astro do beisebol que desaparece após crime e recomeça já maduro, é uma parábola sobre a saga de um herói. É incrível como o beisebol é algo mágico para os americanos. Eles sentem o esporte como raiz, como nascimento, a relação deles com o jogo é como a relação de um filho com sua mãe. Eles vêem naquele diamante relvado o berço, o paraíso, o Eden. Este filme é então, meloso, nostálgico, mas mantém seu interesse graças ao bom elenco e a trilha de Randy Newman. Nota 6.
MOONFLEET de Fritz Lang com Stewart Granger, Viveca Lindfors, Joan Greenwood
Outro clássico Sessão da Tarde. É sobre contrabandistas na Inglaterra de 1750. Um menino vai morar com nobre e descobre que ele é o tal contrabandista. Lang sabia tudo. Tem lindas cenas com caveiras e tempestades. Um filme delicioso! Nota 7.
A RUA DA VERGONHA de Kenji Mizoguchi
Mizoguchi nasceu em família arruinada e viu sua irmã ser vendida como gueixa. Toda sua carreira versa sobre a condição da mulher num Japão em transição. Este é seu último filme. E é fascinante. Mostra, na Tokyo pós-guerra, a vida num bordel ocidentalizado. Não existe mais a figura da gueixa, que devia saber caligrafia, ikebama e tocar okotô. Aqui elas são simples "putas", prostitutas que se afundam em dívidas e pensam em sair "da vida". Impressiona a forma como Mizoguchi sabe enquadrar. Cada tomada é um show de imagem. Ele toma o lado das meninas, mas jamais as exibe como vítimas, elas escolheram aquela vida e pagam por sua escolha. Um filme que tem trilha sonora estranhamente de terror e que hipnotiza em sua verdade simples. As atrizes estão perfeitas: há desde a imitadora de estrelas americanas até a mãe abandonada. Um final digno para um dos três gênios do cinema japonês. Nota 9
SONATA DE AMOR de Clarence Brown com Kate Hepburn, Paul Henreid e Robert Walker
Neste hiper-novelão que trata da vida conjugal de Clara e Robert Schumann nada é muito real e tudo é exagerado e doce. Há ainda a figura de Brahms, feito sem jeito por Walker e de Liszt, feito bem por Henry Daniels. Mas, como Brown sabia dirigir, cenas como a da galinha na cozinha e o final com o concerto de despedida de Clara, se sustentam muito bem. O filme consegue ser bem-humorado mesmo tratando de compositor que morreu louco e de amor travado. Kate está magnética como sempre e Henreid faz um Schumann interessante. Tipo de filme papai/mamãe que Hollywood fazia às dúzias. Nota 6.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

FILOSOFANDO SOBRE FUTEBOL

Domingo antes do rachão africano, dei uma olhada em Brasil x Inglaterra, México, 1970.
Minha mãe apareceu na sala e perguntou o que era aquilo na tv, aquilo com uma imagem tão ruim. Expliquei, e o primeiro comentário dela foi : "Nossa! Parece tão chato!"
Depois assistimos o vale-tudo africano e ela acabou dizendo : 'Mas isso também é bem chato! Tudo o que eles fazem é correr e se jogar uns sobre os outros." Weeeeel....comecei a pensar então....
Dizem que a copa de 70 foi a melhor e o que parece ser chato hoje seria assim tão chato se fosse ao vivo? Explico:
Daqui a quarenta anos ( em 2050 ) será que Brasil x Costa do Marfim terá algum interesse? Voce já tentou rever a final de 94, Brasil 0x0 Itália ? É masoquismo puro.
Vamos ao jogo de 1970.
Primeira coisa que estranhamos: o jogo tem muito espaço. Antes de 1974 não se marcava no campo do adversário. O campo do adversário era CAMPO DO ADVERSÁRIO. A marcação só ocorria a partir do ataque. Então havia muito tempo para se pensar a jogada. O cérebro funcionava com mais clareza, o stress era menor. Então a bola não se demorava na defesa. O jogo era basicamente de ataque para ataque.
Segundo. Uma total ausência de medo. Como não se marcava a saída de bola, nada de pavor de perder a bola. Se tocava com carinho, de lá pra lá ( sempre para a frente, eram 3 toques até estar no ataque ) e então se procurava resolver o ataque.
Terceiro. Não existe o toque de primeira, há um exibicionismo no trato com a pelota, o empurrão é muito raro. Se entra muito na canela, poucos carrinhos. A marcação na defesa é quase igual a de hoje. Cinco contra três. O meio campo é que fica vazio.
Mas há uma sensação de tempo, de lentidão, de usufruir o pensamento. Não vou entrar na inutilidade futil de dizer se Rivellino ou Bobby Charlton conseguiriam jogar hoje. Pelé hoje seria melhor preparado atleticamente, a medicina esportiva o protegeria mais. No final daria no mesmo. Eles enfrentariam melhores defesas mas estariam melhor condicionados. Em 1970 um problema de menisco ou uma fratura era fim de carreira. Mas o que mais percebo no futebol antigo é a ausência de stress. E foi minha mãe quem percebeu isso no meio do jogo africano: o stress que existe no jogo de hoje, a pressa absurda, os rostos completamente crispados, a ausência de prazer ( com excessão de Messi e de jogos que acabam em 7x0 ).
Penso que o futebol de Brasil e Inglaterra, 1970, ainda se pauta pela estética. Há tempo para se pensar uma bela jogada e para se apreciar essa jogada. Seria maravilhoso o super-slow naquele quarto gol contra a Itália. Conteúdo e pouca forma.
O futebol hoje é bloqueio e cortada. Milhões de bolas jogadas a esmo na área e uma tabela a cada 30 minutos jogados. Não há tempo para pensar e tudo o que nos fascina é o fato de NÃO SE SABER O FIM DA HISTÓRIA. Se for tirado o suspense do resultado final, quase nada resta que nos prenda a atenção.
Ficamos então fascinados pelo rosto em slow, pela rede que se estufa, pela bola girando. Tecnologia tentando preencher a miséria estética. Ninguém se interesserá por Brasil e Costa do Marfim em 2050. Nem eu e nem voce.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

VIAGEM SENTIMENTAL - LAURENCE STERNE

Machado de Assis adorava Sterne, e lendo esse brilhante irlandês, logo notamos a influência que Laurence exerceu sobre o genial Machado. Como acontece no autor braileiro, Sterne brinca com o texto, comenta o que escreve, finge ser pessoa real aquilo que criou no papel e faz de gente de carne e osso, ficção. Mas tem mais:
Em pleno século XVIII, ele desobedece a pontuação, ignora regras, ignora maiúsculas, ignora parágrafo. Coloca uma Letra grande em meio a frase, começa diálogos sem travessão, E abandona uma narração ao meio e Inicia uma nova história sem mudar de parágrafo. Quando não, deixa um capítulo em branco por se confessar sem inspiração. Ou completa toda a folha com pontos por se envergonhar do que pensou em escrever. Para Sterne, uma Página em branco é um novo mundo. O humor É rei.
Mas não é autor fácil. Muito pelo contrário. Se este VIAGEM SENTIMENTAL é até que simples, TRISTRAM SHANDY é o ponto culminante da arte de Sterne e é o livro que prova sua genialidade. Em Shandy o satirista atinge a altura de Swift, em VIAGEM SENTIMENTAL, que ele deixou inacabado, apenas entrevemos aquilo que ele foi. Dá menos trabalho para ler e dá muito menos prazer.
Em Shandy este irlandês excêntrico chega a gastar 80 páginas para descrever uma escada sendo descida. Sim, oitenta páginas em letra miúda. MAS COMO? Ora, Sterne É o mago da viagem mental. Cada passo dado nessa escada traz uma conversinha que traz uma anedota que traz uma lembrança que traz uma personagem nova & que traz mais uma história & assim nos vamos e só bem depois disso & daquilo é Que voltamos a tal escada. Mas tem mais:
Laurence Sterne fala de Sexo todo o tempo. Tudo o que ele escreve é coito & gozo & foda cifrada. Neste VIAGEM SENTIMENTAL em suas andanças pela França, ele jamais descreve as paisagens, os lugares ou as estradas. Ele só fala das moças, sejam baronesas ou sejam empregadinhas de hotel. Por todas ele se apaixona, e todas ele esquece. E depois as leva a cama. Ou não? ( )?
Aliás o livro termina com uma frase pelo meio. E sabe-se que era pra acabar assim mesmo. O que Sterne não teve tempo de escrever foi o livro dois, Que se passaria na Itália. Que pena.....
Com o começo da industrialização britânica um monte de gente que era Matuto de aldeia virou urbano trabalhador. A alfabetização se fez em massa e uma montanha de jornais, revistas, livros e fascículos apareceram da noite pro dia. É o tempo em que Henry Fielding lança TOM JONES, e Defoe manda ROBINSON CRUSOE e Swift VIAGENS DE GULLIVER e surgem o dr. Johnson com seu diário e Sterne está nesse meio. Montes de escritores, de poetas, de jornalistas, de sátiras e de livros pornôs. O século XVIII foi o século...!
O inglês descobriu o prazer de ler. E STERNE nos exibe o prazer em escrever.
Se você está acostumado a ler, se você já chegou ao nivel de alfabetização de um inglês/leitor/de 1780, procure ler o TRISTRAM SHANDY. Mas se voce ainda lê só o que tem cem páginas sem grandes complicações & vôos, vá de VIAGEM SENTIMENTAL. Depois você lê o livro sobre meu amigo Shandy.
& então você escreve aqui o que achou.
morou ?
mas Que diabos de nome é esse? Tristram? e lá se vai o velho Laurence Sterne escrever 60 páginas sobre o porque desse nome: Tristram. Vá lá se saber.
Esse povo inventou o humor britânico. O Monty Python habita suas linhas. 1700 e uns quebrados e os caras eram uns safados ( estou falando de Swift e Fielding e Sterne e etc & etc .... ); !!!! caraca!!!!! Morou?

sábado, 19 de junho de 2010

O BANDIDO DA LUZ VERMELHA- ROGERIO SGANZERLA

Seria este o mais genial filme feito no Brasil ? Veja o que digo, o mais genial é diferente de o melhor. Para ser o melhor é necessária a perfeição e perfeito o filme de Sganzerla não é. O som é deficiente, a montagem às vezes é feita às cacetadas e os atores se perdem. Mas genialidade não é perfeição, genialidade é fecundação, potência, coragem. E este filme é sim, a hora e vinte e cinco mais genial já feita no país.
Mas está longe de ser o melhor.
Rogerio Sganzerla tinha vinte anos quando o escreveu e dirigiu. Vinte anos... e sem dinheiro. Mas o texto deste filme, as frases cunhadas em sua narração esculachada ( destaco esta, que é jóia de filosofia : " se não podemos fazer a gente esculhamba" ), a vontade de explodir que há em cada fotograma, a garra genuína do sangue jovem tentado dizer tudo e se perdendo...é prova de talento verdadeiro, de brilho, de gênio. O filme mostra o país de seu tempo e antecipa o de agora. Bandidagem feita por manchetes de jornal, políticos misturados a bandidos, violência cega e suicida. O Kane de Orson Welles está presente na forma do enredo, mas Godard e seu Pierrot são citados sem parar. O final, hilário e hiper brasileiro, é homenagem explícita ao doido gênio francês.
São ruas e gente, câmera na mão, narração bombástica de rádio, tv e mentiras, e a solidão. O filme voa entre essas ruas, essas cenas mal ensaiadas, o som sem sincronização, a trilha sonora que sempre vem em volume errado. Mas com toda essa precariedade o filme sobrevive, cresce e nos faz sentir. Quando ele termina ainda fica na gente uma vontade de fazer.
Fazer um filme, fazer um texto, fazer um mico, um erro ou simplesmente ir pra rua andar e ver...........
Mais uma lista de 50 melhores saiu esta semana. Os 50 melhores filmes não-anglo/americanos de todos os tempos. Ganhou OS SETE SAMURAIS de Kurosawa, o que me deixou satisfeito. Mas em sétimo está CIDADE DE DEUS. Cidade é excelente, mas o sétimo melhor filme do século ? Batendo tudo de Bunuel, Renoir, Truffaut, Herzog, Lang, e um imenso etc. É lista de quem viu poucos filmes, só os mais recentes e meia dúzia de clássicos, mas o que quero falar é das mensagens que logo vieram, pedindo O BANDIDO DA LUZ VERMELHA no lugar de Cidade.
Cidade é muito melhor, não há como comparar. Mas, como falei, O BANDIDO tem mais inventividade, talento bruto, poder e alcance. Os americanos amam Cidade porque ele consegue ser exótico com suas favelas e favelados e ao mesmo tempo ele é muito próximo de qualquer americano por seu estilo de edição e de cor. É bem feito, profissional, bem narrado, perfeito. Um americano acharia O BANDIDO insuportável. ( A não ser que fosse um Scorsese da vida ).
É um filme brasileiro. Mais que isso, paulista. Mais que isso, ele é da boca do lixo.
Rogério explodiu. A tensão que há no filme, a eletricidade, a fagulha de destruição, e ao mesmo tempo, a vontade de viver não pode ser repetida. Como aconteceu com Welles e com Vigo, o filme foi começo e fim de uma carreira.
Só se explode uma vez. O resto é fumaça.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

OZU/ MIZOGUCHI/ ALMODOVAR/ ROCK HUDSON/ DORIS DAY

A PRINCESA DAS OSTRAS de Ernst Lubistch
Mais um filme silencioso de Lubistch de sua fase alemã. É uma deliciosa história sobre herdeira milionária e seu principe. Trata-se de comédia mágica, encantadora. Os cenários, irreais, são por sí um prazer. O filme é todo alegria. Enjoy it. Nota 7.
O INTENDENTE SANSHO de Kenji Mizoguchi
Este clássico de Mizoguchi toca na maior chaga da história humana : a escravidão. Mas há mais, ele fala da relação entre mãe e filhos, entre irmãos, fala ainda da decadência e do gosto azedo de toda vingança. Visualmente trata-se de uma obra-prima. Cada cena é uma sinfonia de flores, rostos e de água. Mizoguchi, o mais feminino dos diretores do Japão, desenvolve este enredo, doloroso, triste, poético, com toques de pincel em porcelana. É um filme perfeito e que tende a ser ainda melhor ao ser revisto. O final é inesquecível. Nota DEZ.
CONFIDÊNCIAS A MEIA-NOITE de Michael Gordon com Doris Day, Rock Hudson e Thelma Ritter e ainda Tony Randall
Doris saiu de moda na era hippie. Foi chamada de a mais virgem das virgens do cinema. Mas é pura doideira freak dizer isso. Ao rever seus filmes notamos o quanto ela era sexy. É ainda o modelo de gente como Jennifer Anniston, Meg Ryan e Reese Witherspoon. Rock é um Clooney mais elegante ainda ( e mais afetado ). O filme, o primeiro dos dois, é aquela bobagem bacana sobre moça que odeia playboy e depois passa a amá-lo. O cenário é hiper colorido, Rock faz um mentiroso muito bem e Doris é deliciosa. Um clássico da sessão da tarde. Nota 7.
VOLTA MEU AMOR de Delbert Mann com Doris Day, Rock Hudson e Tony Randall
Sobre publicitário anti-ético e sua rival. É claro que acabam por se apaixonar. É claro que tudo é colorido, fake e muito divertido. E Doris não é uma chata virginal. O filme, o segundo dos dois, ainda é legal. Perfeito para uma tarde de frio. Nota 6.
LE BONHEUR de Agnés Varda
Um homem casado e feliz arruma uma amante. Ele continua feliz e a amante é feliz também. Mas ele, ingênuo e idealista, pensa que a mulher pode aceitar sua felicidade por ter duas mulheres que o amam e a quem ele também ama. Mas talvez não seja assim... de qualquer modo, ao final do filme, ele e a amante continuam felizes. Este filme, de belíssimo colorido, que tem um trio de atores lindos e contentes, não tem trama, não tem drama, não tem comédia. Ele mostra, com muita criatividade e engenho, com uma edição ágil, três adultos e duas crianças comuns e ao mesmo tempo muito especiais. Eis um clássico simples, um belo momento da nouvelle-vague. Lindo filme. Nota 7.
ABRAÇOS PARTIDOS de Pedro Almodóvar com Lluis Homar e Penélope Cruz
Já aviso: eu detestei este filme. Ele é chato, maneiroso, sem nenhum tipo de emoção verdadeira. Tudo parece forçado ou pior: previsível. Dá pra adivinhar tudo o que vai acontecer. Poderia ser uma comédia, mas é levado a sério. Imperdoávelmente vazio. Nota 1.
TOKYO STORY de Yasujiro Ozu
Após os 7 Samurais de Kurosawa, este é considerado normalmente o melhor filme japonês da história. É o filme favorito de Wenders e de vários diretores americanos moderninhos. O estilo de Ozu está todo aqui. Os atores conversam olhando para a câmera. Câmera que está sempre a altura do tatami. Ozu evita as emoções fortes, todas são sutis, mas essas emoções estão sempre presentes, batendo a porta, nos olhares e nos corpos que se encolhem. O tema é típico de Ozu : a família. Trata de dois pais, idosos, que vão à Tóquio visitar os filhos. Nenhum filho é ruim ou frio, mas eles simplesmente não têm tempo livre para os pais. Apenas a nora viúva parece os entender. Nada explode, não há nenhuma cena de dor ou de raiva, mas dentro de nós, lentamente, delicadamente, vai nascendo uma sensação de dor e de inevitabilidade. Misturando seus ingredientes, com precisão poética, Ozu nos leva para dentro daquelas casas, daqueles rostos, daquelas vidas. O filme é uma obra-prima absoluta. Ozu era um santo. Nota DEZ !!!!!!