sexta-feira, 10 de outubro de 2008

carta de uma desconhecida-max ophuls

A câmera voa, roda, baila e flerta com os atores.
O filme, feito por Ophuls ( voce conhece esse austríaco? o mais romantico dos diretores? o mais sofisticado, elegante, nobre, que é capaz de fazer Visconti parecer vulgar? ), bem, voltando, o filme feito por Max Ophuls baseado em conto de Stefan Szweig, fala de um amor irrealisado e se passa na Viena de 1903.
Assistimos a bengalas com castão de prata, carruagens que correm pela chuva sobre calçadas de granito, chás entre espelhos de cristal e veludos da Bélgica, cartas em bicos de pena à luz de gás, vestidos de seda e cartolas negras, luvas retiradas e cigarros acesos...e pensamos que ainda hoje todo o nosso imaginário do amor-sublime está intimamente ligado à essas noites escuras, às sombras de velas, escadarias secretas e peles pálidas entrvistas em decotes discretos.
O filme é uma delícia para os românticos, para os sonhadores, para os literatos, para os fora de moda e fora de esquadro ( Ophuls foi um diretor cheio de lutas, incompreensão e dor, seus filmes em seu tempo eram considerados pesados e exagerados- hoje ele é considerado um mestre- leve, fluido e romantico ).
Fácil de assistir, ele deixa uma vontade de ver de novo e viver mais um pouquinho naquele universo de frases bonitas, ruas bonitas, chuvas bonitas e luzes tão tristes...

A MULHER DE AREIA DE TESHIGAHARA

Feito em 1965, A MULHER DE AREIA de Hiroshi Teshigahara, venceu a palma de ouro daquele ano e concorreu a dois Oscars. Vamos ao filme.
Um homem anda pela areia. Ele coleta insetos para sua coleção. Se hospeda numa casa que fica num buraco, entre as dunas. Lá vive uma viúva, só. Ele se torna um prisioneiro.
O filme é longo, imperfeito, difícil e cheio de grandes e muito fortes cenas.
Primeiro sua fotografia. Areia, cabelos e peles filmadas em detalhes gigantescos dando ao filme um erotismo absurdo. Nós quase sentimos o cheiro dos corpos, quase tocamos o suor que escorre, parece possível tocar as peles que são lavadas, arranhadas e mordidas por todo o filme.
Os atores, Eiji Okada e Kyoko Kishida dão um show de raiva e de sexualidade pura. Raras vezes assisti filme mais erótico.
A música vanguardista de Toru Takemitsu é de uma inesgotável complexidade, preenchendo a fita de climas e momentos impressionantes.
É um filme que excita para em seguida assustar. E é uma alegoria perfeita sobre o sentido do trabalho e da função do homem na Terra.
Único.

A PAIXÃO DE JOANA D'ARC-O QUE É ISTO?

Foi Jean Cocteau quem disse que A PAIXÃO DE JOANA DARC de Dreyer é um filme que parece ter sido feito no tempo em que o cinema não existia. Pois eu digo que Dreyer não faz cinema. Ele faz um outro tipo de arte, uma arte tão original, tão moderna, tão radical que ainda não foi nomeada.
Durante 3/4 do filme o que vemos são paredes brancas e rostos em super-close. Joana, muito jovem, muito crente, muito indefesa, é cruelmente massacrada por inquisidores balofos e machistas. Dreyer usa como roteiro os autos do processo real e isso dá ao filme algo de documentário e de perversamente doido.
A fotografia, de Rudolph Maté, é de um glorioso branco e no final, a cena da fogueira tem o mais belo fogo que já ví.
Falconetti tem aqui aquela que é considerada a mais fantástica atuação feminina da história e o que posso dizer é que chorei ao vê-la perceber, com um olhar apenas, seu final inevitável. Joana sente medo, e nós sentimos com ela.
Carl Dreyer se interessou por apenas um assunto: Deus. Todos os seus filmes falam disso: Deus, o mal, a fé, a dor. Ele foi um bruxo, um louco, um poeta, um Homem. Joana é um soco na boca, um filme poderoso, duro, cruel e absolutamente incomparável em sua originalidade rica e bela. Sua montagem, em que os cortes são velozes, a câmera sempre se movendo em horizontal, os atores berrando e rindo, Joana suplicando e chorando, as portas parecendo fugir e diminuir... é fascinante.
No mais assisti finalmente este mítico filme numa cópia sem trilha sonora e com cartelas em francês. Mesmo assim seus 80 minutos pareceram 20 e me sentí completamente arrasado por sua força. OBRIGATÓRIO para quem se importa com os mistérios da vida e a dor de ser.

O MAIS PERFEITO DOS FILMES-REAR WINDOW

Raras vezes assistimos a algum filme perfeito. Ocasionalmente o filme pode ser genial, sublime, divertido, mas ele sempre apresenta falhas. Momentos de tédio, tomadas inúteis, frases dispensáveis.
JANELA INDISCRETA não tem um só momento fraco. Desde sua abertura, até seu final perfeito, tudo é feito com precisão, com sabedoria, com maestria.
O som, sem trilha sonora-mas com ruídos e trechos de melodias-que lembra Tati, é perfeito. O cenário, um apartamento e o prédio em frente- é fascinante. As histórias vistas nas janelas e jardins- são tão cativantes que dariam vários outros filmes. Mas este, este filme é absolutamente prazeroso. Torcemos para que não termine.
James Stewart é um fotógrafo solteiro que convalesce com a perna quebrada. Ele é obviamente impotente. Grace Kelly ( sua entrada em cena é A MAIS LINDA IMAGEM FEMININA DO CINEMA ) flerta com ele, o seduz, o conquista. As cenas entre os dois são leves, sofisticadas, cheias de humor e com subtramas de raiva e dor. ( O filme é alegre, mas tem algo de neurótico por trás ). Stewart se agarra em sua solteirice e se envolve com as janelas ( cinemas ? ).
O final, irônico, é de uma riqueza perfeita, e todo o filme prescinde de falas, poderia ser um filme mudo. Stewart agora tem duas pernas engessadas e Grace, linda como o impossível, comanda o apartamento.
Quem mais poderia fazer um filme pop onde as mulheres são víboras, os homens são impotentes e seu único cenário é flagrantemente falso ?
Hitchcock é cinema e o amor à Hitch é a prova final de todo/qualquer cinéfilo.

O AMOR É SEMPRE MENTIROSO-VERTIGO

O melhor dos diretores ( aquele que fazia grande arte e comércio pop ao mesmo tempo ), dá em VERTIGO o mais devastador retrato sobre a ilusão do amor.
Não contarei sua história para não adiantar sua magia. Direi no entanto, que jamais uma cidade foi mais bonita que a SanFran do filme, com seus azuis e amarelos da primeira parte "sonhadora" e seus neuróticos verdes e cinzas da segunda parte. O filme, quase sem diálogos, é como um sonho-alucinógeno, e nos faz realmente sentir o que seu protagonista sente.
Pierre Boulez disse que a trilha sonora deste filme ( bernard herrman ) é a mais perfeita da história cinematográfica. Não sei se ela é, mas direi que ela é hipnótica, wagneriana, obsessiva, inesquecível.
James Stewart tem aqui aquela que é possivelmente a melhor atuação já vista. Ele passa, na hesitação de sua voz, no olhar ansioso, toda a carência, todo o amor do personagem. Sua sina, seu futuro vazio, o seu medo.
Como todo filme de Hitch, o crime é mero pretexto para sua profunda análise da doença humana, das taras e psicoses, das dores e mentiras do mundo. E tudo isso, que em outras mãos se transformaria em arte hermética e obscura, com Hitch se torna diversão simples, direta, nítida e nada pedante, porém, profunda.
Suas cenas recordam muito TAXI DRIVER, a personagem feminina mostra um desamparo tocante e é este o filme que deixa mais clara a afinidade que Bunuel sentia por Hitchcock.
Seu final, trágico-imperfeito-abrupto-louco e vazio, é dos mais cruéis já filmados e ficamos sentindo a mesma dor absurda de Stewart.
Inesquecível, ele nos faz pensar muito. Nas mentiras do amor, na ilusão que criamos para nós mesmos, na busca inutil pela perfeição, e na música irresistível dessa ilusão.
Um dos maiores filmes já feitos e sem dúvida é este o mais moderno e influente dos filmes.
Hitchcock é o cara.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

o filme mais sinfônico-FANNY E ALEXANDER

Bergman realizou FANNY em 1983. É seu testamento, seu último filme para cinema, seu legado ( como bom pessimista, ele imaginou estar perto do fim. Ainda viveu 24 anos...).
O filme é uma perfeita sinfonia e se a grande arte sempre aspira a ser música, Fanny é arte perfeita.
Ele começa em acordes leves e vagos, cresce em festa de sons harmônicos e coloridos, irrompe fortíssimo em graves dissonancias lúgubres e se encerra numa coda cheia de fúria, magia e mistério.
Mas do que fala o gênio, o mestre, o mais inteligente dos cineastas ?
Da luta entre alegria e dor, da disputa entre liberdade e repressão, saúde e neurose, arte e religião, fantasia e tédio, Deus e o homem. É um compêndio de todos seus filmes anteriores, de todas as suas dores e alegrias e recorda muito Shakespeare- A Tempestade ( um mago recontando sua obra e sua magia ).
Raras vezes um filme mostrou cenários tão ricos em beleza e complexidade, raras vezes tantos atores foram melhor dirigidos ( o final, quando se fala da gratidão aos atores é de se aplaudir de joelhos ), raras vezes um filme foi melhor.
Bergman captura nosso cérebro e o leva para uma viagem. Através do olhar de um menino ( Alexander ) assistimos seu crescimento, suas dores, sua revolta e seu maravilhoso humor ( o filme tem duas das falas mais hilárias já vistas ). Nos apaixonamos por sua família, odiamos certos agregados e tememos seu destino. Tudo em ritmo perfeito, uma variação entre cenas longas e curtas, movimentos elaborados de câmera ou fixidez formal, solos ( monólogos ) ou grupos de até vinte atores atuando em grupo ( coisa que hoje ninguém mais tenta ).
Tudo está neste filme. Comédia amarga e drama insuportável. Citações de PERSONA, GRITOS E SUSSURROS, MONIKA, MORANGOS SILVESTRES, O ROSTO... estão presentes os atores que aprendemos a amar, a fotografia do mestre Sven Nykvyst, a música de Schumann e Britten, as preocupações do cineasta que melhor representou a dor do mundo moderno.
É estranho o fato de que meus cineastas favoritos sejam Kurosawa, Hitchcock, Hawks, Ford, Murnau, Lang... mas é Bergman que fala, pensa e mostra aquilo que vivo, penso e gostaria de expressar. Não sei se ele foi o melhor dos diretores, não sei se ele sobreviverá neste mundo cada vez mais acéfalo; mas ele conseguiu fazer do cinema UMA ARTE NOBRE, nobre como Shakespeare, Mozart, Shelley e Rembrandt.
FANNY E ALEXANDER é obrigatório para qualquer amante da vida, do cinema, da cor. Ele é estranhamente feliz, alegre, vivo e subitamente trágico. Nietszche.
Um filme que é uma vida, um espírito livre, eterno como um homem, belo como um segundo, feito com profundo amor pela arte, imensa criatividade e potencia criativa sem igual.
Mágico, único; INCOMPARÁVEL.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

LOACH/ROCKY/LORD JIM/SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

VENTO E LIBERDADE de ken loach.
ingleses massacram irlandeses. todos sabem do meu sangue cem por cento católico-celta-irlandes...mas não gostei do filme. na verdade o achei maniqueista, falso, tolo, vazio. será que todo ingles era tão nazista?
MONPTI de helmut kautner, com romy schneider e horst bucholz
romy aos 18 era adorável mas o filme é velho e mofado. 1.
ABISMO DE UM SONHO de fellini com alberto sordi, leopoldo trieste.
sonolento.2.
A JANELA SECRETA de david koepp com johnny depp, john turturro.
suspense sem emoção. mistério sem tensão. uma chatice ridícula. 1.
CRIMES DE UM DETETIVE de keith gordon com robert downey, carla gugino, robin wright penn. uma das mais grotescas tolices já feitas. um pseudo musical engraçadinho, um pseudo noir sem drama, um completo equívoco. ZERO.
O LOBO ATRÁS DA PORTA de henning carlsen com donald sutherland e max von sydow. são cinco anos na vida de paul gauguin ( meu ídolo maior ). o filme é escuro, denso e prende a atenção graças a força de sutherland e ao belo strindberg de von sydow ( foi sydow o maior ator do cinema ? ). 6.
SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS de peter weir com robin willians. um filme sobre poesia e liberdade filmado sem poesia e sem imaginação. torcemos para que willians fique mais tempo em cena, pois ele é a liberdade e a poesia do filme. os meninos são aqueles meninos de dramas da Metro dos anos 40/50, ou seja, velhos meninos...6.
LORD JIM de richard brooks com peter o'toole, james mason, eli wallach. baseado em conrad, o filme é uma cara aventura arrastada e banal. a falha central é peter que faz jim como um fraco que quase acerta, quando quem leu o livro sabe que jim é um forte que erra sempre.
ROCKY de john g. alvidsen com stallone. sly imita de niro e john imita lumet. 4.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

amigos, escutem!

Um amigo me acusa de ser de direita. E um outro diz que sou socialista demais. Weeeelll....
Eu sou ferozmente contra quem manda alguém calar a boca. Sou a favor de regimes que não se importam com o que é publicado, exibido ou veiculado.
Adoro quem garante a liberdade de ir e vir, de criticar e louvar, e de possuir-sim. Pois o homem, desde a pré-história, quer ter mais que o vizinho. Seja dinheiro, cultura, mulheres, neuroses ou armas. E quero que todos tenham o direito de LUTAR PARA SER DIFERENTE.
Deu pra entender?
Outro amigo diz que não sou MODERNO.
Se ser moderno é consumir séries de tv e bandas inglesas-cover, não sou.
Mas o QUE É SER MODERNO?
O espírito moderno se define em:
Ser infiel. Não se prender a nada. Nem crença, nem gostos, nem desejos.
Ser inconstante. Jamais levar nada até os finalmentes. Ter projetos sempre pelo meio.
Não se comprometer. Se abster de vínculos, de compromissos, de promessas.
Ignorar distancia e tempo. Nações perdem o sentido, pois meus amigos vivem na europa, meu amor foi para a Austrália, falo todo o dia com franceses e fui criado em ambiente americano. Estou em todo o mundo agora. TEMPO. O passado está ao meu alcance, o futuro também. Um quarteto de cordas de Haydn acabou de ser relançado. Ele está ao alcance de todos, influindo na vida de todos-agora- e sendo redescoberto-agora. Portanto, esse quarteto de 1802 é de agora. ( assim como Murnau/ Cocteau/ou Tati- influindo em jovens mentes-hoje! ).
Ter Pressa. Existe tanto a ver e fazer que a pressa é eterna. O moderno tem pressa de ter, ver e saber; e uma preguiça imensa de viver.
Sentir tédio. O moderno está sempre entediado, pois para ele tudo é fácil demais, reprisado demais, comum demais, óbvio demais.
Ser Oscar Wilde ( mesmo sendo hetero e não sabendo quem ele foi/é ).
Ter muito, muito medo. Pois tudo o que é moderno encobre o medo de depender, pertencer, passar, envelhecer e morrer.
Serei então moderno?

DE OLHOS BEM FECHADOS-VOCE VIU?

Um anjo cai do céu e perde suas asas. Condenado, ele vagueia pelas ruas sem conseguir se conectar à ninguém. O filme é isso. Mas...
Um ingênuo marido descobre que mulheres têm desejo. Ou...
Numa festa, marido é cortejado por duas modelos. Elas querem lhe conduzir ao final do arco-iris. Ele não vai, pois a morte intervém. Depois ele irá à esse rainbow, e descobrirá que ao final, rainbow é uma loja de fantasias. Porém...
Ele descobre que tudo é fake. Falso. Aparência. Sua esposa, seu amigo, a cidade...nada é o que parecia ser. Ele tenta se conectar com alguma verdade: é abordado por uma prostituta. Mas não transa com ela. Lhe dá dinheiro ( observe que todas as conexões dele envolvem dinheiro ). Vai à uma orgia. E não toca ninguém. Pensa ter descoberto um crime. Mas ele pode não ter ocorrido. Volta para casa e encontra a esposa dormindo ao lado da máscara.......
Observe que a esposa não o traiu na verdade. Apenas pensou e sonhou. Observe que nada acontece de verdade- tudo é quase/ talvez/ quem sabe...
Recorde a orgia. Críticos mal informados reclamaram dela ser pouco erótica. Bingo! Esse é o objetivo: corpos nús sem qualquer erotismo/ beijos mascarados que não se tocam/ intenções infantis onde tudo é fingimento.
Tom Cruise ( justiça feita: ele está ótimo ) é um crente. Acreditava no amor, no compromisso, na amizade, na verdade. Ao ver a máscara ao lado de sua esposa ( cena muito bela e emocionante) ele chora, reconhecendo que a vida é fake. Nossa vida.
O filme é sim um digno testamento de um gênio, uma mente superior que se ocupou de uma arte inferior ( como Welles, Bergman e Kurosawa ).
Ao final, Nicole diz que precisamos foder. E penso: não é isso que fazemos todo o tempo? No que mais, nós, classe média pensamos? Com quem foder, com quem amar, com quem casar...e de novo, e de novo, e de novo...é tudo o que restou, o único consolo, a última fé.
Mas não existe erotismo nesse mundo. Pois não há tabú a ser rompido, virgindade a ser cobiçada, e nem sequer toque real ( máscaras ).
Uma obra-prima que melhora muito na segunda visão e aumenta na terceira ( como todos os filmes de Kubrick- todos decepcionam na primeira olhada e fascinam na segunda- todos).
Nota dez.

LISSU/MICHAEL CAINE/TRAINSPOTTING/KEIRA/REESE

COMO POSSUIR LISSU de ronald neame, com michael caine e shirley maclaine. filme de assalto extremamente engenhoso, surpreendente, original, safado. impossível contar a história sem estragar seu prazer. caine está soberbo!........8.
UM GOLPE A ITALIANA de peter collinson com michael caine, noel coward. outro filme de assalto. mal refilmado em 2002 ( com walhbergh no papel de caine-argh! ).....7
SUNSHINE de isztvan szabó, com ralph fiennes, rachel weisz, deborah kara unger. bela novelinha. mostra como os húngaros foram humilhados por todo o século. a nobreza fraca e alienada, o fascismo cruel e o comunismo enlouquecedor. fiennes nasceu para papéis como este: um chorão impotente......6
NORMAL LIFE de john mcnaughton com ashley judd. judd está tão bonita que chega a doer. ela é uma psicótica-junkie que destrói sua vida e a de seu marido policial. muito melhor do que aparenta, é um filme pobre, crú e estradeiro......7
GHOST WORLD de terry zwickoff com thora birch e scarlett johanson. que belo filminho fofo. thora está adorável como uma adolescente que odeia tudo ( os amigos, música, dias de sol...). ela é aquele tipo de menina de óculos, minissaia, botas e cara de tédio. um colecionador de vinil ( steve buscemi ) lhe introduz o blues urbano ( aquele que usa orquestra, anos 30 ) e a garota se apaixona por blues e pelo colecionador. o final é bem amargo. lento, tristinho, moderninho, e muito simpático......8
TRAINSPOTTING de danny boyle. não o assistia desde 1998. os primeiros dez minutos, ao som de iggy pop, são absolutamente geniais. mas ele vai caindo, perdendo a leveza e caindo na pura chatice. envelheceu cedo este filme......7
DE VOLTA AO VALE DAS BONECAS de russ meyer. há quem ame meyer, o homem que criou o cinema quase-pornô americano. este é seu único filme mainstrean. uma salada de lesbianismo, sadismo, rock'n'roll, horror. os atores são inacreditávelmente ruins, o roteiro beira o grotesco, as falas são tolices imensas. cortes abundam ( todo diretor inseguro abusa dos cortes ), e ele fascina e irrita muito.....ZERO.
LOST HIGHWAY de david lynch. Lynch é aquele tipo de diretor que nada tem a dizer. ele não tem histórias para contar e não consegue criar personagens. mas...o cara sabe filmar. cria climas em cima de climas. sabe iluminar, cortar, usar o som, sugerir. eu prefiro o filme com a naomi watts, mas este tem bill pullman muito bem e uma patrcia arquette bem fatal.....7
DESEJO E REPARAÇÃO de joe wright com keira knightley. ouçam e anotem: wright é o melhor diretor de sua geração. a cena da praia ( sem cortes, uma só tomada ) é coisa de mestre. keira já é a atriz de sua época. o filme é perfeito ( e ainda tem vanessa dando show ).....DEZ.
DR. JIVAGO de david lean e todo mundo conhece o elenco. jivago se ergue da cama. lara dorme a seu lado. ele vai à mesa e escreve poemas para ela. lara se ergue e os lê. bem... eu passei anos tentando viver isso!.....9
ARMADILHAS DO CORAÇÃO de oliver parker com reese witherspoon, colin firth, rupert everett, judi dench. baseado em oscar wilde. diálogos brilhantes ( claro ). mas falta alguma coisa...é um excesso de casas bonitas, roupas vistosas, chás das cinco...Wilde se perde...firth está passando a vida fazendo sempre o mesmo papel : ingles triste e tonto. rupertt imita cary grant. ele não sabe que cary é inimitável. e reese... bem, sou apaixonado por ela! devo ser o único não-americano que a adora!.....6
SOCIEDADE FEROZ de griffin dunne com diane lane, donald sutherland e um vasto elenco adolescente. dunne foi ator nos 80 e hoje é diretor. -e que filme é este?- ele fala dos índios brasileiros. de amadurecer. de ritos de passagem. de sexo e de poder financeiro. é um filme cheio de erros, de idéias mal desenvolvidas- mas...é cheio de idéias!- infelizmente faltou coragem para levá-las até o fim. o filme cai num quase policial bobo. mas ele fica na memória, é original, e merece muita consideração. ( donald aparece pouco e brilha como sempre. todo o elenco é bom )........9

lolita, vladimir nabokov- o livro que voce acha que conhece

Sim. Trata-se, aparentemente da história ( bastante cômica ) de um homem de trinta e cinco que se apaixona por uma criança- ninfeta de doze. Ele, Humbert-Humbert, se casa com a mãe da ninfa; a mãe falece e ele viaja pelos EUA com Lolita.
Mas o livro não é só isso. É bem mais.
Humbert é a velha Europa. Ele só valoriza o que é antigo, culto, feito pelo homem superior. Ele é pretensamente sofisticado. Humbert despreza jazz, cinema. Odeia a imensidão americana, os vastos panoramas, as florestas desumanas, o excesso de " por-do-sol", o gigantismo. Ele olha os americanos como caipiras. Gente que só pensa em trabalhar, gente ridícula e sonhadora, gente que não sabe viver.
Veja que coisa: Humbert odeia o cinema por ser apenas ação sem pensamento. E note que por toda a história europeus só fazem cinema quando o misturam a literatura ou teatro, artes nobres e antigas ( na visão deles ). Europeus não amam o cinema -cinema, pura ação, puro movimento, pura imagem. Assim como a música não pode parecer improvisada, deve ser estudada.
Mas Humbert se apaixona por Lolita.
E Lolita é jovem, inocente e muito sensual. Ela rí de sua cultura, ela não presta a menor atenção no que ele diz ou pensa. Ela está sempre rindo, ou chorando, ou gritando. Está sempre em movimento.
Lolita ama as estradas, os motéis, hamburgers, sorvetes, cocas, balas... Para ela a história não interessa, tudo é hoje.
Lolita é infiel e Humbert, que pensava ser o sedutor- senhor, se torna o escravo- capacho.
A Europa ama a América e não cansa de olhá-la. Ela a critica, tenta catequizá-la, mas sempre a lambe, beija, namora. A América, namorada infiel, criou uma forma de governo sem nobreza, sem parlamento, sem tradição. Criou sua própria música, sua própria arte, sua religião ( várias ), seu mundo único.
Humbert se ressente disso. Mas continua a amá-la.
Lolita é tudo isso. Escrito como comédia. Num estilo rico, caleidoscópico, saboroso e muito erótico.
Humbert é ridículo. Lolita é linda. E quem pode negar?

domingo, 21 de setembro de 2008

dr jivago, aula de história

Imenso sucesso de bilheteria ( mas não de critica ), Jivago mostra para todos um tipo de cinema classudo, competente, porém, um pouco engessado.
Está lá a competencia de David Lean em montar cenas. Jamais percebemos os cortes. As tomadas se encadeiam naturalmente, todas com o tempo exata e caminhando em cadencia musical. A camera nunca chama a atenção sobre sí mesma, ela é como a caneta que escreve a página. Mas, o David Lean, jovem-ousado dos anos 40 já se fora. Ele ilustra o belo roteiro de Robert Bolt, mas não cria-acrescenta nada. ( As excessões são a belíssima cena no palácio de gelo e a genialidade pura da cena à janela- aquela em que Tom Courtney briga com Julie... puro cinema mudo ).
Lean foi inteligente em diminuir as falas de Shariff, usando seus olhos chorosos como comentário à ação. Julie Christie, musa-maior, brilha com sua imensa força interior, seus olhos de fogo gelado, sua voz metálica. Podemos ainda admirar os lords monstruosos do teatro ingles: Ralph Richardson, como o pai de Geraldine Chaplin; Alec Guiness, como o irmão de Jivago; e Courtney como o noivo. Klaus Kinski causa imensa impressão como o intelectual louco.
Quanto ao fim do filme- não há quem não se comova...
O filme criou em 1965 o padrão Oscar; que se mantém até hoje nos filmes de Spielberg, Ridley Scott, Frank Darabont, Michael Mann e um imenso etc.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

UM DISCO QUE ENLOUQUECE

THEIR SATANIC MAJESTIES REQUEST
eu tinha 16 e me escondia na biblioteca do mackenzie. e tentava e conseguia ser o mais louco possível numa época em que todo mundo queria ser o mais louco possível e esse possível era bem louco. aninha me mostrava a calcinha de algodão branco mas não me deixava tocar sua pele e ela tinha espinhas na cara e sardas e era loura e quase muda e jogava bola com os meninos. ela ria. encontrei satanic numa loja da teodoro sampaio que não existe mais e na rua não existiam camelôs, existia espaço. escutei satanic numa sala gelada, pela janela o sol era frio e minha garganta doía e eu tinha febre e dor nos ossos. o cheiro era de vick-vaporub. eu fechei os olhos...................................................o mais profundo acorde de piano. vindo do mais profundo miligrama do sangue coagulado de meu ser. quando os metais ecoam eu já morri. sing this all together. faixas sobrepostas de realidades comunicantes. o martelar de ondas de mares amarelos e a perdida guitarra vagueia no vazio absoluto interestelar. percussão vagabunda sem ritmo conhecido e vocal de apartamentos cheios de hashish. o convite é feito: enlouqueça comigo. yes. citadel. faíscas lunares pipocam em meio a lsd de flashs em technicolor medieval. o riff das guitarras tem cheiro de demonios, hipnóticos tabletes de estrelas falecidas. enlouqueço e me apaixono perigosamente. o volume é máximo e a bateria faz ecos dentro da super-consciencia e festeja o meu sexo. in another land. afogado no oceano de sereias hermafroditas. passeando num bosque de desejos tortos, a voz guia um cego entre penas de pavão albino. minhas lágrimas são tolices prazerosas. arrancam meus nervos e dados ao corvo e a rosa. tudo zomba e rí. brian jones respira e eu sou ele. 2000 man correm pelas ruas da londres vazia e encontram 4000 buracos entre rochas de espuma. sing this all again. fazemos tolices copulamos e engolimos e jogamos fora e vomitamos e rimos. um ritual bobo. she's a rainbow. sublime na vulcânica lava. uma virgindade cheia de maldade. satânicos anjos. the lantern. meus eus penetram entre páginas de yeats e eliot e encontram o pecado divino e a paz. um violão keithsiano que aspira fumaça de hashishs exorbitantes e uma guitarra que urina luz azul alucinada e ácido de destino. eu já pirei e inexisto. vivo entre frases e riffs. flores mortas em luzes mortas. mick me guia entre gala´xias ilusórias. gomper. eu. pássaro.2000 light yeaes from home. entende? atingí o ponto. eu não conheço e não sou. tudo é vazio, ausencia. absoluto feliz. livre. rosotos de bilhôes de corpos. faces perdidas. não tenho idade, nem função, sou um vazio sim. on with the show. apresento a volta de tudo que foi visto. tudo que vivi e acabei de dizer É UMA GRANDE BOBAGEM. mas talvez bobagens façam a vida valer. o show recomeça como farsa. o show é no teatro e teatro é mentira. mas onde termina o palco? o show é satanico. tudo é inferno. este disco é do mal. e nestes muitos anos EU SEMPRE RETORNO QUANDO O AMOR RETORNA.

MENSAGEIRO DO DIABO/EMBRIAGUEZ DO SUCESSO/PARTNER/PERFORMANCE

AS BRUXAS DE SALEM de nicholas hytner
se mantém a força do texto alegórico de arthur miller. daniel day lewis e paul scofield seguram o filme. 5.
POR AMOR OU POR DINHEIRO de bertrand blier
blier sempre faz filmes que procuram fugir do padrão. não se tratam de comédias, nem dramas, sequer aventuras ou alegorias. este é uma quase comédia. sem graça. 1.
O MENSAGEIRO DO DIABO de charles laughton
para quem não sabe, laughton foi um dos maiores e mais conhecidos atores ingleses de cinema. gordo, com cara de sapo, gay assumido, brilhou como rembrandt, como henrique viii e em filmes de hitchcock e wilder. este filme, de 1955, foi o único dirigido por ele. é considerado uma obra-prima e foi fracasso de crítica e público na época. fácil entender o porque : trata-se de uma comédia gótica afiadíssima! um filme que tim burton ou david lynch adorariam ter feito. a história trata de um pastor que se casa com viúva. comete o assassinato para ficar com o dinheiro. os dois filhos da viúva conseguem fugir e ele os persegue. isso tudo contado em clima de sonho/pesadelo, sombras expressionistas, cortes precisos e um robert mitchum perto do milagroso ( seu papel se tornou referencia ). na parte final, quando as crianças encontram a velhinha boazinha ( lilian gish ), voce quase tem um orgasmo de tanto prazer em estar vendo tal obra-prima. DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A EMBRIAGUEZ DO SUCESSO de alexander mackendridk
filme de 1958, dirigido por um grande diretor ingles de comédias e que dirige aqui, nos eua, seu único drama. fracasso na época ( de público ), traz burt lancaster em mais um grande desempenho, com seu rosto de pedra pleno de autoridade e força viril. mas é tony curtis, o subestimado curtis quem rouba o filme, fazendo um vilão patético e mesquinho. o filme ( cheio de jazz e clima cool ) trata de um jornalista que domina carreiras com suas fofocas. curtis é o auxiliar puxa-saco desse poderoso homem de midia. o filme, cheio de fel e com falas exuberantes, mostra a derrocada dessa carreira e a inexorabilidade de seus destinos. cínico, amargo, brilhante! 9.
RICARDO III, UM ENSAIO
única doreção de al pacino. obrigatório para quem trabalha com teatro ou ama a cultura. 7.
O DESTINO BATE A SUA PORTA de bob rafelson
rafelson, diretor de head e cada um vive como quer, dirigiu este new-noir em 1982, usando jack nicholson e uma jessica lange cheia de sexualidade vulgar. se trata de um bonito filme que não tem aquilo que os noir clássicos tinham de melhor- nervos! mesmo assim é fácil de assistir, lange está maravilhosa e o choro final de jack é coisa que justifica uma carreira inteira. 6.
BEIJOS E TIROS de shane black
primeira direção do roteirista dos filmes lethal weapon. robert downey é um ladrãozinho de quinta que vira ator em ´hollywood ( é uma comédia ). val kilmer ( bem ) é um detetive gay e a lindíssoma michelle monaghan está no elenco. o filme é ágil, alegre, os capítulos têm nomes de títulos dos livros de chandler..mas falta loucura. os coen fariam dele uma festa! como está, é apenas um divertido produto meio termo. 6.
RESGATE ABAIXO DE ZERO de frank marshall
marshall, roteirista e produtor de vários filmes de spielberg, nos apresenta uma aventura antártica. para quem gosta de cães ( eu os idolatro ), é obrigatório. como cinema, é sessão da tarde das boas. 7.
FILMES PSICODÉLICOS FEITOS EM PLENA VIAGEM PSICO

PARTNER de bernardo bertolucci.
em 1968 bertolucci resolveu filmar partner, baseado numa novela de dostoievski. mas, em meio as filmagens explodiu o maio/68 e bernardo jogou o roteiro fora e passou a improvisar. o filme, fascinante, mistura lacan com nietzsche e tem uma trilha sonora de ennio morricone que é absolutamente genial e radical. pierre clementi, ator francês que era viciado em heroína, tem uma das atuações mais maníacas, inesquecíveis, originais, revolucionárias que já ví. ele apresenta completo domínio do corpo, total entrega e uma quase loucura digna de klaus kinski, bruno s ou falconetti. o filme fala de máscaras, de duplos, do quanto nós todos somos fingidos e de alienação. uma quase obra-prima e o mais difícl filme de um cineasta que jamais se acomodou. 8.
PERFORMANCE de donald cammel.
filme maldito feito em 1970. cammel, que se suicidaria em 78, filma em londres, a história de um gangster ( james fox ) que se esconde na casa de um astro do rock ( mick jagger ). nessa casa, o gangster prova sexo, drogas e muito rock e se torna um jagger também ( ou não ? ). o filme, que ainda tem anita pallemberg ( ex- brian, na época esposa de keith ) num papel de junk-bissexual, é absolutamente fascinante e muito inspirador. aqui é criado o conceito de glam-rock e se voce quer saber o que velvet goldmine tentou mostrar veja este filme radical. mick era incrivelmente magro, efeminado, drogado e o filme é hipnótico, macio, colorido e nem um pouco paz e amor. único, ele é aquilo que bergman faria se fosse mais jovem e ingles. 9.
PSYCH OUT de richard rush
jack nicholson tem muita história pra contar. ele está neste filme de 68, feito em san francisco, no auge do movimento hippie. uma moça foge de casa e vai parar em sanfran. conhece os hippies e passa a viver com eles. o filme é fraco, amador, constrangedor, e jack usa um péssimo cabelo. mas tem um clip fantástico dos inacreditáveis the seeds e mostra o que eram os tais hippies. o que eles eram ? drogados classe-média deslumbrados com sexo. comparando este filme com performance vemos que londres nos 60 era mais lsd, mais reichiana, mais individualista, mais psicótica. sua trilha era pink floyd, soft machine e gong. sanfran é mais alegre, comunitária, machista, mais anfetaminas e marijuana, mais byrds, grateful dead e love. hippies americanos se interessavam em sexo, festas e protestos de rua. hippies ingleses queriam saber até onde se cérebro conseguiria enlouquecer. o filme vale como puro fun. 5.
BARBARELLA de roger vadim
e vadim, inventor de brigitte bardot, tenta lançar jane fonda como nova bb. jane está absolutamente linda e anita pallemberg é a vi´lã. psicodelismo para os não psicodélicos, o filme mostra que em dois anos o movimento já se tornara um produto bonitinho e anódino. 4.

domingo, 14 de setembro de 2008

pra que serve will shakespeare

Assistindo o filme de Pacino sobre Shakespeare ( Ricardo iii, um ensaio ), noto que entre belos depoimentos de gente como Vanessa Redgrave, John Gielgud, Kenneth Branagh; ou entre os desempenhos de Pacino, Kevin Spacey, Winona Ryder, Alec Baldwin; nada é mais claro ou brilhante que o depoimento de um negro do Harlem. Ele diz que Shakespeare nos ensina a sentir. Que se sentimos a morte de um camarada, o remorso de uma má ação, deixamos de fazer uma má ação. Shakespeare então nos mostra o quanto o Homem pode ser grande. Pode ser nobre, vil, apaixonado e apaixonante. A tragédia de nossa época é o fato de que por falarmos uma pobre linguagem, vivemos uma pobre existência.
Dizemos que a vida é vazia e não que " ela é um sonho sonhado por um louco ", ficamos com alguém, não " amamos como as estrelas amam o sol que as apaga "...
Shakespeare é a maior jóia do tardio renascimento, filho da filosofia de Sêneca, criador do Humano tal como o conhecemos, um gigante entre gigantes e o maior sábio a ter pisado um dia este planeta.
Ele justifica, sózinho, a existência da língua inglêsa, a sobrevivência do teatro e toda ação do homem sobre a Terra. Foi a culminância de uma inteligência brotada em Roma, fertilizada em Paris e Oxford e colhida sob o reinado de Elizabeth.
Viverá enquanto algo parecido com civilização viver.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

para um amigo

Nem tudo se resume ao pib.
Portugal é um país feito de Paratis, Ouros-Pretos e Búzios.
Habitado por Saramagos, Pessoas e Eças.
Pacato. Confiável. Eterno.
Fácil de negociar, pois é previsível. Preso aos primos da Comunidade. Cheio de aposentados alemães, suecos e ingleses.
Não há nada grande como SP. Tudo lá é pequeno, discreto, reservado, e muito orgulhoso. Sem grandes riquesas, sem grandes misérias, sem grandes problemas, sem qualquer medo. Parati, não é ?
Consomem muito livro, muito museu, muito teatro.
Ainda lembram de Bertolucci e de Cocteau. Não apreciam a América e se envergonham do Brasil. ( Só se fala do Brasil quando um filho mata o pai, dos travestís e das drogas no morro ).
Não importa o pib. Só importa para candidato a eleição, para economista banal e para capitalista deslumbrado.
Importa olhar e ver, escutar e ouvir, comer e saborear.
E em Portugal, o resto é sempre mar...
PS. Detesto o Lobão
Mas ele disse uma coisa na MTV bem certa :
Eu sou brasileiro? Onde? Crescí pensando em inglês, desejando em francês, sonhando em Technicolor e escutando jazz e rock'n'roll. Não jogo capoeira, não gosto de pagode, odeio feijoado e acho cachaça intragável. Umbanda não quero, samba é sempre a mesma nota e bossa-nova, tô fora. Leio Tolstoi, Heminguay, Borges, Flaubert. Onde o Brasil ? Nem futebol me interessa!
É isso aí.

para uma amiga

Todo final de tarde eu olhava aquela janela.
Luz amarelada e um calmo contraste com o barulho da Paulista.
-Quem viveria lá? Aquela casa me dava medo, mas o medo sempre me seduziu e eu ficava parado, frio e noite e solidão, olhando a luz amarela. Eu abraçava meus livros e seguia. Mas a casa me acompanhava e eu a levava para meu quarto onde ela dormia comigo.
Uma manhã eu esperava dentro do carro do meu pai. Meu velho tentava se comunicar comigo mas eu não queria comunicação. Não naquela hora. Escondido detrás daquela janela embaçada, eu esperava que Jeanne saísse da escola. E ela saía sempre a mesma. Empurrando quem estivesse em sua frente, mastigando um eterno chiclete, gritando ordens às amigas, chutando a bunda de alguém. Eu sorria e justificava minha vida absurda. Jeanne fingia não me ver, passava indiferente, voltava e batia no vidro. Ela sorria.
Amei essa cavalinha em cada mulher que encontrei. Percorri toda avenida atrás dela e sei que ela vive atrás de cada janela amarela que me encontra na rua.
Hoje ela não deve mais ser a cavalinha arisca e irrefreada. Mas toda menina que chutou bundas e socou ombros desprevinidos traz sempre em sí o sorriso da rua ensolarada e o segredo da chuva.
A avenida está lá. Jeanne está aqui e eu não esquecí.

grandes discos pouco ouvidos

Começo aqui a falar de grandes discos ( grandes por serem maravilhosos ) e pouco ouvidos ( venderam pouco e são dificeis de achar ).
O primeiro é SHOOTING AT THE MOON de Kevin Ayers.
Lançado em 1971. Kevin é o Oscar Wilde do pop ( porém hétero ), o Noel Coward drunk.
O disco abre com MAY I. Sons de carro. Baixo dominante e sinuoso, percussão discreta, violão. A música é puro prazer, suave, quente, cálida, cheia de vida e de vinho. Feliz. Kevin não tem uma só canção triste, e esta é das mais felizes.
" eu fui flanar pelas ruas/ procurando onde comer/ achei um pequeno café/ vejo uma garota e falo :/ posso sentar com voce/ um pouco ? / gostaria da companhia de seu sorriso e de seu sol ."
Para contar isso, ele usa flauta, e violões suaves.
Puro sol, puro romance, puro flerte. Kevin é do tempo em que se flertava.
RHEINHARDT AND GERALDINE.
Ataque forte de bateria, baixo e sax. Bateria e oboé. Vocal apocalíptico. A música fala de desejo. Então vem uma colagem de sons, de ruídos. Confusão e quase caos.
COLORES PARA DOLORES.
Agora tudo é puro Stooges. Rock ao estilo Velvet Underground. Cavalgada de heróis de garagem. Teclado simples e incisivo. Deliciosa.
LUNATICS LAMENT.
Uma ostra conversa com uma onda. Cinco minutos desse irritante diálogo.
THE OYSTER AND THE FLYING FISH.
Uma canção tão deliciosa, tão savoir faire como comer ostras à beira-mar. Violões felizes e um refrão que diz: " Uh lá lá! "
UNDERWATER
São ruídos de baixo e synth.
CLARENCE IN WONDERLAND
Quse reggae. De bêbado. Fala de Clarence sentado na areia em Wonderland. Backing vocals de polvos, lulas e mariscos. Oboé. " Vamos ao nosso small chateau/ beber com miss juliet e o luar de junho ". Sons de gaivotas. Se o mundo fosse um lugar feliz, esta música seria um hit. Nunca foi.
RED GREEN AND YOU BLUE
Ressaca. Kevin se declara a garota so blue. " Voce está sentada sobre meus sonhos ". Enorme contra-baixo, violões, clarinete e a alegria de gravatas soltas e sapatos levados nas mãos.
SHOOTING AT THE MOON
Apocalipse.Guitarra galopante, tudo corre e roda e se confunde e emite cor. E se repete, repete, repete, repete...
MAY
Em francês. Melhor que a primeira versão. Serge encontra Kevin.
GEMINI CHILD
O romantismo supremo. Forte, feliz, nebuloso, confiante e muito dissonante.
" Fiz gente chorar, me perdí, procurei/ tudo o que todos fazem/ gemini child, voce sabe que eu te amo ? / voce faz de cada dia um Camelot/ vou dividir tudo que faço com voce/ gemini child, voce sabe que te amo? / apesar de nunca ter dito, tudo foi para voce e voce esteve no que fiz."
Se Wilde fizesse pop music seria exatamente isto. Aqui Kevin atinge o Camelot das emoções, o êxtase da eternidade, o simbolismo yeatsiano, o perfeito ideal. Usando instrumentação rock- galopante e acelerada- e com absoluta ausencia de drama ou pretensão.
Um gênio feliz.

HUSTON/ALTMAN/DIRTY HARRY/CLAUDE MILLER

a dama das camélias.
filme de Bolognini com a jovem Huppert. pesado, pretensioso, modorrento. Zero.
the thing.
ficção científica de howard hawks. envelheceu muito. 3.
roy bean, o homem da lei.
western de huston com um paul newman fantástico ( existe paul newman não fantástico ? ). mas o filme, que começa muito hilário e anárquico, se perde e cai ladeira abaixo. 6.
os amantes de maria.
filme de konchalovski com nastassja kinski lindissima! fala de impotencia, crueldade, guerra. bela foto, ótimo robert mitchum, péssimo john savage. 3.
entre o céu e o inferno.
filme sobre o blues e o desejo. tem samuel l. jackson e uma deliciosa christina ricci. mas o filme é de uma tolice atroz. e muito conservador! 2.
o homem que não vendeu sua alma.
vencedor de vários oscars em 1966, tem fred zinemann ( o mesmo diretor de shane, de a um passo da eternidade e de julia ), tem robert shaw, orson welles, susannah york, wendy hiller, vanessa redgrave, john hurt e no papel de thomas more, o grande paul scofield. as primeiras cenas no lago são belíssimas e a música de georges delerue sublime. filme clássico para quem quer saber o que significa competencia e cultura. 8.
cerimônia de casamento.
altman dirige mia farrow, geraldine chaplin, vittorio gassman num filme hipnótico, muito alegre e sem nenhuma pretensão. lilian gish, aos 80 anos, domina o filme. 7.
vampiros de alma.
ficção científica de 1956 que ainda envolve, impressiona e até assusta. don siegel, o inventor do dirty harry, dirigiu. 7.
paris, te amo.
a mais fascinante das cidades recebe uma homenagem de wes craven, gus van sant, walter salles, coen, e um vasto etc. o melhor é o último episódio, de alexander payne, que chega a emocionar e muito. o pior é o de walter salles, óbvio e vazio. 6.
a pequena lili.
filme de 2003 dirigido por claude miller ( produtor dos filmes de truffaut e diretor de classe aa na frança ) e com nicole garcia e bernard giraud. revelou ludivine sagnier, grande estrela na europa, mas que aqui pouca gente conhece. o filme lhe é generoso, lhe dando um papel de ninfeta fatal. bonito e bem conduzido. 7.

kenneth tynan sabe tudo sobre teatro

Separo aqui alguns lances do livro do Tynan ( o melhor e mais famoso crítico britânico ), livro que relí semana passada:
SOBRE ATORES INGLESES
seu abc é feito de Shakespeare e Ibsen, portanto, eles adquirem todo controle de voz, de presença cênica que um ator pode querer ter.
nessa tradição existem os grandes, aqueles que nasceram para fazer personagens maiores que a vida, os grandes símbolos de toda a humanidade: Olivier, John Gielgud, Ralph Richardson e Michael Redgrave.
existem os peso-leve. poderiam ter sido gigantes, mas se especializaram em textos mais leves e no cinema: Alec Guiness, Rex Harrison, Peter Sellers, Michael Caine, Sean Connery, James Mason.
os que abortaram. por motivos vários ( bebida, droga, dinheiro em excesso, preguiça ), estes atores poderiam ter sido grandes como os 4 monstros, mas não vingaram ( apesar de terem deixado momentos de absoluta genialidade ).
detalhe: eles sempre vêm aos pares. um grande ator sempre precisa de um rival/modelo, para manter sua gana e sua ambição.
são eles:
paul scofield- richard burton
peter finch- trevor howard
peter o'toole- albert finney
terence stamp- ian mckellen
anthony hopkins- john hurt
daniel day lewis- jeremy irons

INVULNERABILIDADE
porque kate hepburn, james cagney, bogart, spencer tracy e bette davis são indestrutíveis? porque sobrevivem a modas e se mantêm como ícones?
existe algo de invulnerável neles. voce olha, observa, disseca, penetra, e não acha falhas, não encontra o ponto vulnerável. eles são sobre-humanos. estão no olimpo do arquétipo planetário.

1946-THE BEST
Laurence Olivier em cena fazendo EDIPO REI. Fura os olhos e dá um grito que cinquenta anos mais tarde quem lá esteve ainda sente seu horror. ( Paulo Francis e Antonio Callado sempre citavam esse espetáculo ). Èdipo terminado, o público tomado pelo medo e pelo trágico. Cinco minutos depois, Olivier entrava em cena voando, suspenso por cordas. Usando peruca e pó de arroz, apresentava THE CRITIC de Sheridan, e fazia a audiência gargalhar por hora e meia.
Gênio. Quem viu diz que nada se compara. Nem Brando em Tennessee Willians, nem Gielgud fazendo Hamlet, Richard Burton em Look Back in Anger ou Jason Robards fazendo O'Neill.

MILES DAVIS E O DUENDE
Os espanhóis chamam de duende o ato de exibir o máximo de emoção com o mínimo de ação ou espalhafato. Miles comovia com duas notas e jamais mostrava qualquer emoção, seja dor ou raiva, no palco. Quem sentia dor, raiva, amor e desejo era o público.
Passar muito com pouco. Dizer tudo, falando quase nada.

O QUE É ESTILO
O brilho do estilo está em se simplificar aquilo que é complexo.
O idiota complica o simples ( e engana ingênuos ).
Me parece que o cinema ruim faz muito isso : voce pega uma idéia simplória e a complica. Coloca citações, inverte a cronologia da história, faz malabarismos com efeitos.
O estilo verdadeiro faz o oposto. Conta o mistério do desejo na simples história de um cara olhando os vizinhos com um binóculo.
E em matéria de estilo, de contar muito mostrando pouco, HITCHCOCK foi imbatível.

HUMPHREY BOGART
Bogey foi antes de tudo um grande ator. Foi o primeiro e o melhor dos estóicos: tudo nele nos diz que não iremos morrer, mas que estamos morrendo...

LOUISE BROOKS
Ela criou a imagem da inocencia perversa. Do animal sexual.
Suas herdeiras seriam Dietrich nos filmes de Sternberg; Bacall nos filmes de Hawks; Anna Karina em Pierrot e Harriet Anderson em Monika.