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sexta-feira, 19 de julho de 2013

GLASTONBURY E O MUNDO É DAS MULHERES ( E SERÁ QUE ELAS GOSTAM DISSO ? )

   Imagens de Glastonbury em 1971. É o segundo ano da coisa. O "dono" do festival, agora, em 2013, ainda é o mesmo. Mas tudo mudou. Pra pior? Pra melhor? Sei lá.
   Vejo as imagens. Fato primeiro, as pessoas com 18 anos pareciam mais velhas. Ninguém tem cara de "vitaminado" ou de "malhado". São pessoas feias. Sujas. Os corpos parecem flácidos, mal cuidados. Os cabelos são imundos.
   Fato segundo. Voce não vê duas pessoas parecidas. Rostos e roupas possuem uma variedade absoluta. Isso choca e é um dos fatos que mais me deixa abilolado nas escolas onde vou: em 2013 todo mundo se parece. Existem cerca de quatro "tipos" e todos se encaixam nesse padrão. Tem o barbudo boa gente, o tímido de óculos, o delicado de camisa e o black descolado. As variações dentro desse padrão são mínimas. A tendência é a coisa ficar cada vez mais igual. Na minha escola temos só dois tipos!!!! O moreno magrinho de boné, do funk, e o cabelinho empastado, de preto, do rock. E é só. Até gays, que eram hiper criativos hoje seguem um tipo padrão. Puá!!!!
   Fato três. Glastonbury era menos show e mais experiência. O centro do evento era a "celebração do solstício de verão". Toda a coisa girava ao redor de mitologias celtas, bruxarias exóticas e as tais "expansões da mente, dude". Na verdade o palco era secundário. A banda fazia a trilha sonora para a "coisa". Hoje Glastonbury é apenas mais um festival de rock. Onde até velhos milionários tocam.
   Fato quatro. Nessa coisa dionisíaca o som ia pra onde desse na telha. Toda banda tinha de saber improvisar. O músico sentia o "astral" e ia nessa direção. E quem ditava o astral era a platéia. Hoje a banda dirige o povo. Ela cria o astral que é sempre uma festa de teens. Não existe perigo algum. Tá tudo dominado.
   Fato cinco. A Tv transmite ao vivo. Sem chance de alguma coisa fora da programação.
   Fato final. As bandas tocam bem agora. E são profissionais. E bonitinhos. So cute and so cool. Do bem, sempre. Viva!
   PS: Em 1971 mamãe teve medo. Hoje mamãe me leva lá.
   Sobre as mulheres.
   Toda banda é para as meninas. Fora o metal mais radical, tudo hoje tem por alvo as meninas. São letras com emoções femininas e que falam coisas gracinha. Ecologia, neuroses, amor, medo, esperança, dor. Há uma ausência de temas "machistas". Carros, estradas, velocidade, bebidas e mulheres fáceis. No rock? Por isso que adoro rap. O rock virou som de castratti.
   OK, tou sendo bobo e radical. Tem excessões. Claro que tem! Mas 90% é só um cara "sensível" chorando suas mágoas. Elton John hoje seria considerado um cara feliz e Donovan seria viril.
   O mundo se feminilizou, estava falando sobre isso com um cara que tem uma banda. E no fundo as mulheres morrem de ansiedade. Não encontram mais homens-homens ( não sou esse cara ). Ficam com barbudinhos sensíveis ou bebedores de cerveja compreensivos. Elas namoram esses caras. Gozam?
   Vi um Chevy 1971 na rua. Em 1971 todo carro parecia ser carro de malandro. Transpiravam sexo. Liberdade. O carro era fálico. Hoje eles são redondinhos como bundinhas de bebê. Carros de familia.
   Né não?

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O DOGMA É UMA DROGA

   Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que o fim da repressão sexual faria da vida uma coisa simples e feliz. Que todas as depressões e melancolias iriam embora e que os impulsos de violência sumiriam. Não é o que acontece.
   Mas voce pode se aferrar ao dogma e falar que o sexo é livre, mas que a maldita religião nos deu tanta culpa que não conseguimos nos livrar dela. Não somos felizes porque nos sentimos culpados.
   Infantilidade absoluta. Uma das caracteíristicas da mente infantil é jogar a culpa sempre no mais velho. Eu sou assim por culpa de meu pai. Somos infelizes por culpa da velha tradição religiosa. Esse é o tal raciocinio infantil reducionista. Voce cria duas certezas ( que dependem da fé em as aceitar ) e as repete como um mantra mágico. Para voce será uma solução. Não é uma solução, é uma cegueira.
   A infelicidade de um homem independe de vida sexual ou religiosa. O homem é feliz quando ele consegue viver a vida para a qual foi formado para viver. Quanto mais longe ele estiver dessa vida mais infeliz ele será. A repressão do século XIX que tanto fazia mal, não era apenas a repressão sexual. A dor que sentimos hoje não é mera culpa ou vazio. É muito simplório falar de culpa ou de vazio e fingir que alguma coisa foi respondida. A dor, seja no século XIX ou agora, sempre nasce da falta de liberdade, e essa liberdade não é a de se fazer sexo ou a de poder ir e vir. Essa liberdade é a liberdade de ser.
   Ser aquilo que voce é. Nada é mais dificil e proibido. Os costumes sociais, a familia, a moda, a falta de tempo, o trabalho, a politica, tudo contribui para o não-ser. Para voce se achar é primordial a solidão absoluta. É necessária a luta com o meio e o mergulho em seu universo. Diálogo entre voce e voce sem a intermediação de nada que não seja voce. Em nosso mundo hiper-comunicativo ( e portanto solitário ), mergulhar em si-mesmo parece coisa de egoista ou de esquizofrenico. Mas é apenas nesse mergulho que o crescimento ocorre e que a solidão diminui. Antes de se relacionar com alguém voce deve se relacionar com voce-mesmo. Sem isso, tudo fica num encontro de máscara com máscara.
   Não há modo mais garantido de NÂO conseguir se encontrar que sendo membro de uma igreja. Ou de um partido. Ou de uma associação de filosofia ou psicologia. A partir do momento em que voce diz "Amém" para algum dogma voce se perde daquilo que voce poderia ser. O menos religioso dos homens é o que segue uma religião. A busca fica reduzida a soluções simples que dependem de se aceitar uma verdade estabelecida pelo costume. E o mesmo vale para dogmas politicos, existenciais ou o que for. Aceitar uma verdade não vivida dentro de quem a aceita, mas apenas porque deve ser assim, ou o costume diz isso, ou meu meio social é assim, ou é bacana pensar desse jeito, é sempre uma mordaça para a fala. Pior, é um modo de não-ser.
   A vida é muito complicada. Não creia em quem divulga explicações. E creia, às vezes a coisa é tão simples que se torna inaceitável.
   Nada do que escrevo aqui é por "ter sido ensinado". Tudo o que falo foi profundamente vivido e visto por mim. Se pareço confuso é porque eu sou confuso. Se às vezes falo como ateu e às vezes como o mais carola dos franciscanos é porque eu sou essa contradição. Não por  moda ou por ter me convencido intelectualmente de uma verdade. Mas sim por ter vivido as duas condições. Sei da facilidade cômoda e produtiva da crença ateia, e conheço a terrível profundidade da experiência religiosa significativa. Conheço o prazer do sexo e conheço a euforia da descoberta de uma fé. Sei o que é transcendência e até mesmo epifania. Não por ter lido, mas por ter tido a experiência.
   Se creio no Daimon interior não é por amar a Grécia clássica como a amo. É o contrário: por ter o Daimon é que amo a Grécia. Nada pode entrar em mim que já não viva lá.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

TRANSFORMER, FUTEBOL, SEXO E AL GREEN

   Parece que afinal foi descoberto o óbvio, 1972 foi o melhor ano do rock. Uma série de shows, inclusive no Brasil, comemoram os 40 anos do ano que enterrou o passado e definiu o futuro do futuro. 1972 acabou de vez com as ilusões hippies mostrando ao universo a cara cínica, hiper-profissional e metida a besta do rock. Foi ano que deu aos tempos vindouros o caminho em estilo e produção.
   Harold Bloom, que não gosta de rock mas entende de mundo, diz que durante quinze anos o rock foi uma experiência mistica-transcendental. Seus amigos e alunos iam a shows de Grateful Dead ou Jefferson Airplane como quem ia a um momento decisivo em termos de existência. Procuravam uma reviravolta, um renascer. Em 1972 esse povo botou as botas na Terra. A experiência passa a ser carnal: sexo, drogas e ação.
   Exile on Main Street dos Stones, Harvest de Neil Young, Transformer de Lou Reed, Roxy Music 1, Let's Get It On de Marvin Gaye, Music of My Mind de Stevie Wonder, Catch a Fire de Bob Marley, Ziggy de Bowie, Slider de T.Rex, Superfly de Curtis Mayfield, Gram Parsons, o primeiro do Kraftwerk, Honky Chateau de Elton John, Funkadelic.... uma multidão de discos que ecoam sem parar nessas quatro décadas. Não há nada feito nos últimos milênios que não beba dessa fonte.
   Os Vingadores batem o recorde de bilheteria....em 1972 esse recorde foi batido pelo Poderoso Chefão....alguma coisa ruiu desde então. Falar de cinema hoje é falar de saudade ou de futilidade.
   O Bandido da Luz Vermelha é o maior filme já feito neste Brasil. Hoje estréia sua tardia continuação. Não vi ainda mas já adorei. Tem o sublime Ney Matogrosso fazendo o Luz Vermelha. Segundo Ney, o bandido passou 40 anos na prisão lendo Baudelaire, Nietzsche e Kant. O filho do Luz segue os passos do pai. Faz tudo o que ele fez...em 2012. Não conheço melhor definição do mundo de hoje. Fazemos tudo aquilo que em 68/72 foi feito. As mesmas passeatas, as mesmas rebeldias, as mesmas caretices, as mesmas bandas, as mesmas atitudes. Mas com rostos sem rugas e sem marcas de história. Vazio portanto. Apenas cópias.
   No youtube tem uma cena em que George Best solta gargalhadas enquanto joga bola pelo United em 1968. Ele vai bater uma falta e um amigo do mesmo clube lhe rouba a bola e o dribla. Entendeu porque descrevo esta cena aqui?
   Dylan veio ao Brasil e fez o melhor show da década. Pouca gente viu. Em 1965 ele dizia que o mundo estava empenhado em morrer e que ele estava empenhado em viver. Em 2012 ele continua vivo. Recria suas músicas em cada show, percorre a estrada e renasce a todo dia. Dylan é a prova viva de que viver é possível.
   Ando com um amigo por ruas escuras. Um insight: Dylan repete Rimbaud e Whitman. Renascimento. Morte em vida, mortes em vida e a ressurreição antes da morte. Dylan é um exemplo de gnose.
   Neymar nos recorda que o futebol é uma brincadeira. Ele chega ao limite do jogar por jogar, onde a vitória é um detalhe e o gol uma celebração. Neymar não é um turista. É um peregrino.
   Quando aquela menina anda com seus jeans esfarrapados grudados nos quadris eu sinto que o sexo é uma chance para se deixar de ser bobo. Eu me afundo nela, me esqueço de mim nela, me engulo nela e me perco de mim nela. E depois volto pra mim-mesmo mais eu do que nunca. Quero que ela faça o mesmo. Ela faz. O sexo existe pra gente morrer nele. E aprender a reviver nele. Carne e suor também é religião.
   1972 teve Al Green. E quando se tem Al Green não se precisa de mais nada.

sexta-feira, 23 de março de 2012

VERGONHINHA, FILME DE MCQUEEN

  Assisti SHAME de McQueen. Mas não é especificamente dele que vou falar. Ou é?
  Ontem Calligaris matou a pau. Conseguiu dizer o que me incomoda nesse tipo de filme. Por detrás de sua nudez e pseudo-ousadia, vive uma mente conservadora, medrosa, preconceituosa. Vamos os fatos.
  Leio que antes de rodar o filme, McQueen fez todo o cast assistir e estudar O ÚLTIMO TANGO EM PARIS. Exemplifico aí a diferença. Brando transa todo o filme com Schneider. Ele é um homem em crise. Vazio, culpado, envelhecendo. Mas o filme jamais diz que ele está "errado". Muito menos que ele tem uma doença e precisa ser "salvo". Ele é um Homem em crise. Por pensar, por sentir, enfim, ele vive a crise de viver.
  No cinema de "arte" atual isso não mais existe. Em sua maioria ( há excessões ), eles partem da ideia de que o que se está mostrando é um outsider, um doente ou um viciado. Jamais o personagem é mostrado como gente como a gente. São filmes em que a doença impera. Ora!!!!! É como se Hitchcock mostrasse James Stewart em Vertigo como um neurótico. Ele é. Mas o filme nunca lhe dá esse rótulo. Ele é como eu e voce. Apenas falho. Bergman mostrou pessoas em crise profunda sempre. E nunca moralizou. Elas não precisavam de remédios, de hospital ou de prisão. Talvez precisassem de Deus, de filosofia ou de amor. Acima de tudo Bergman sabia e demonstrava: não as julguemos, elas não são extraordinárias, elas são como nós.
  Calligaris elegantemente evita falar o mais óbvio: a psicologia se foi, o mundo é da psiquiatria.
  Bergman, como Fellini ou Antonioni, é do tempo de Freud, Jung e Lacan. Eles dialogam, não dão diagnósticos. Seguem os personagens sem os rotular. Observam. Sabem que eles são nós.
  Filmes como Shame são psiquiátricos. O cara é um doido e cabe a nós sentir pena ou raiva, e ter piedade. Tudo é reduzido ao sintoma, ao ato esquisito, ao fora do padrão. Não se dá a menor chance ao personagem, antes do filme começar o diagnóstico já foi dado.
  Feito por Truffaut ele seria um homem sofrido, mas ao mesmo tempo sentindo prazer naquilo que faz. A complexidade da vida, o certo misturado ao errado, o bom ao mau. Feito por McQueen ele é apenas doente. E ponto final.

domingo, 26 de junho de 2011

A ARTE DE AMAR- OVIDIO ( COMO PEGAR MULHER )

Alguma coisa mudou em 2000 anos?
O jovem Ovidio escreve um tratado sobre paquera e sobre sexo e suas dicas são as mesmas que seriam dadas hoje. É isso o que mais impressiona, o encontro dos sexos continua sendo exatamente igual.
Fala de onde encontar as mulheres mais belas ( circo, certas ruas, festas, teatro ), e como saber se ela está disponível. O tipo de abordagem mais indicada ( sempre com humor, mulheres são pegas pelo sorriso ), e como cuidar do visual masculino ( deve-se ser magro, cabelos e barba bem aparada, nada de feminilidades: sem maquiagem e sem pernas depiladas, roupa limpa e bem passada, músculos duros e não exagerados, dentes claros ). A mulher é conquistada por aquele que parecer mais confiante, por aquele que sabe ser desejado, que se sente desejado.
Simples assim. Mas Ovidio avisa: seus conselhos são para os jovens pobres, pois àquele que tem dinheiro basta exibir seu poder.
Na parte final Ovidio se dirige às mulheres. Fala de quais são as melhores posições para o gozo, e ensina a como atrair seu homem. Deve a mulher parecer desinteressada, mas sem jamais desencorajar. Interessante é ele diferenciar o caso furtivo, do namoro: para o namoro é necessário o sofrimento, algo que impeça e adie o livre usufruir dos corpos.
Dica para os homens: quando com sua mulher faça-a sempre feliz. Quando longe, faça-a sofrer. A mulher se apaixona apenas por quem a faz sofrer. Mas deve ser uma dor bem medida, nunca em excesso. Dica às mulheres: se dê sem reservas. Mas jamais seja vulgar.
Ovidio, grande amante quando jovem, na parte final da vida se voltaria para outro tipo de interesse. As Metamorfoses contaria a história dos deuses ( escrito em tempo em que esses deuses já eram passado ). Roma era uma área de flertes sem fim e o grande interesse era seduzir e se deixar seduzir. Nesse jogo, escrito em forma poética mas sem meias palavras, o grande desejo é ser valorizado e ter seu poder reconhecido.
O texto é dos primeiros anos de nossa era. E volto a dizer: mudou o que?

segunda-feira, 20 de junho de 2011

SEXO É BOM, AMIZADE É MAIS

Existem três valores supremos em nosso mundo-moderno-atual-contemporâneo: juventude, consumo e sexo. Nesse mundo os 3 valores ditos acima estão sempre interligados. Juventude é valor em si por ser produto novo para consumo: nova moda, nova casa, novas idéias ( ? ), novos produtos de arte ( ? ). É a lógica do iogurte aplicada ao mundo inteiro, cremos que tudo tem prazo de validade. Gostamos de uma novidade pelo simples fato de ser uma novidade. A comemos como verdura fresquinha.
Quem cultuar o antigo será desancado ( a não ser que culturar "esse" velho seja uma nova moda ). Assim como parar de consumir é estar fora do mundo "que vale a pena". Essa lógica é a mais óbvia e nem vale a pena falar. Mas o que vale dizer é a coragem que é preciso ter para se admitir que "sexo não é tudo isso". ( Como está na Folha de hoje, 20/06 ).
Ao dizer isso voce ouvirá coisas como:
A- Voce deve ser um fracasso na cama.
B- Voce só esteve com fracassados na cama.
C- Voce não saiu do armário.
Todas essas são respostas que nada dizem, elas falam de dentro do sexo como senhor absoluto. É como discutir o Corinthians com um corintiano. ( Ou palmeirense o Palmeiras etc.... ).
Mas o sexo é garantia de felicidade? Comer todas ou dar muito é felicidade? Cama é tão bom assim? E mais: não é esse o grande tabu? Mais que se dizer ateu ou maconheiro ou comuna, ser do contra hoje não é ser assexuado? Assexuado sem nenhuma imposição religiosa nisso, como falta de fome sexual.
Eu não sou assexuado. Mas sexo, pra mim, nunca foi prioridade. E mais, todos os melhores momentos de minha vida, com mulheres, ou sem elas, foram momentos sem sexo, momentos de AMIZADE. Daí a irritação que senti/sinto toda a vida com essa IMPOSIÇÃO. A ditadura ( que os amigos reforçam sempre e sem saber ) de que ser feliz é comer um monte. Então ninguém é feliz aos 12 anos? Ou aos 70? Então todo playboy é feliz? Feliz na cama, talvez, e fora dela?
Amizade é meu valor supremo. Posso ser absolutamente feliz sem sexo algum, mas fico seco e vegeto sem amizade, sem diálogo, sem a liberdade de se poder expressar o que se é. Sexo é legal. É ok. Tanto quanto pegar uma onda ou marcar um gol. Mas não é O Objetivo da vida. ( Aliás, as pessoas mais tristes que conheço/conheci são todas muuuuito experientes em sexo e nada vividas em amizades ).
Me parece que a liberação sexual nos deu essa armadilha. Hiper valorizar um valor que é parte dos prazeres de se estar vivo, mas jamais O Valor. Como cachorro preso em coleira, que quando é solto sai correndo sem rumo e se esborracha numa avenida, a liberação anos 60 nos deu essa euforia ilusória.
Tá dito.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

CÍRCULO HERMÉTICO- MIGUEL SERRANO

Estar diante de uma estante de livros, em sebo ou livraria, é como estar num trem: as paisagens vão passando e em algumas eu quero parar. Fuço as prateleiras, leio trechos, admiro capas, tento lembrar quem é aquele autor, me surpreendo. Pego em sebo este livro. Raro volume, manuseado, edição de 1970.
Miguel é um diplomata chileno que no final dos anos 50 privou na Suiça da amizade de Hermann Hesse e de Jung. O livro, breve e sem ambição, é um retrato afetuoso desses dois senhores. Primeiro Hesse.
Fica desse "pássaro" uma imagem de imensa doçura. Hesse morreu conseguindo voltar a ser criança. Ele se maravilha com a vida. Árvores, sol, lua, neve, em seu solitário retiro suiço, o velho escritor andarilho se maravilha em solidão. As lições que ele passa são sublimes. Escreve uma parábola sobre o homem que se tornou árvore e deixou de se transformar. Pois para Hesse, a vida é uma transformação, e só vive essa VIDA quem se deixa ser levado. O homem que é hoje um inseto, depois uma pedra, um cão e uma árvore. Para Hesse, tudo é um círculo e nesse círculo nós não somos o centro ( pois centro não há ), somos parte sendo nada.
Há muito de India e China em Hesse. Ele ama a impessoalidade do Oriente, os templos não assinados, a persona fraca, a passividade. Hesse conta algo interessante: Para um indiano típico, o pensamento é algo que se observa. Ele se coloca na posição passiva, o pensamento acontece independente de sua vontade, então ele assiste seus pensamentos. No ocidente nós somos aquilo que pensamos. Não nos esqueçamos que para a fé cristã, o pecado se faz em pensamento.
Depois o autor conhece Jung em Zurique, Jung já com mais de oitenta anos. De Jung ele absorve a imagem de que toda a transformação psíquica só pode ocorrer através do amor, mas não o amor como o conhecemos, deve ser aquele tipo de amor que enfrenta a morte, que vai além da vida, do medo. Esse amor só existe no que é proibido, no amor que não tem objetivo, no amor onde os dois se fazem um, na cumplicidade contra o mundo. Sem casamento, sem filhos, sem construção alguma. Amor que deverá morrer e matar os amantes, para que assim eles possam morrer em sua persona e mergulhando no inconsciente, renascer como sí-mesmo, satisfeitos com sua unicidade, auto-suficientes.
Conta-se a cerimônia de casamento dos Siddhas na India: os dois jovens, castos, vão à floresta, nús, e lá ficam por meses. Dormem juntos, se banham e trabalham. Moem grãos, confeccionam. Finalmente, ela irá massagear seus chakras, ele irá acariciá-la. Faz-se então a união. União que não é sexual, é muito mais que isso. Ele não irá ejacular, seu sêmem deverá jorrar "para dentro". O amor entre eles não será um amor para fora, será todo para dentro. Um amor que não é morte ( pois não engendra vida ), é um amor que busca o mergulho no incorpóreo, no absoluto. Os dois se separarão após essa noite. Os dois estarão prontos para a auto-suficiência.
Jung fala também que o ocidente viveu um profundo trauma psíquico com o advento do cristianismo. Ao contrário do oriente, que viveu todo o desenvolvimento de suas religiões, as fés e crenças da Europa foram subitamente sublimadas por uma religião importada. Todo o crescimento e amadurecimento dessas religiões nativas foi abortada, reprimida e jogada ao inconsciente. As imagens estão todas trancafiadas, e quanto maior a distância que nossa sociedade vive delas, maiores os surtos de barbarismo.
Comprei também um livro recém lançado de um jovem filósofo francês. Abro o livro e pesco uma frase: " Uma sociedade que se baseie no sexo será sempre uma sociedade incompleta. Pois o sexo é por sua natureza, ser incompleto sempre. Essa sociedade será então marcada pelo vazio, pela ansiedade e pela falta. Sexo só se completa no hermafroditismo, é impossível ser feliz sózinho numa sociedade sexualizada, e pior, é impossível ser feliz a dois numa sociedade sexualizada, pois o eterno flerte torna-se imperativo. Basear uma civilização no sexo é caminhar para a infelicidade. O século XIX, reprimido, deu ao sexo um valor que a repressão lhe fantasiou. Somos os filhos dessa anomalia."

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS - KAWABATA

Um senhor muito respeitável. Visita casa onde adolescentes dormem com seus clientes. Dormem e oferecem seu corpo como templo de adoração. Sim, templo. O senhor, confuso em seu desejo soberbo, adora cada centimetro da pele explorada. O sexo se revela ato de beleza, de transcendencia, de veneração.
Esse homem jamais é analisado pelo autor. Nada o condena e nada o absolve. Estamos em universo que desconhece dogmas, sejam cristãos ou sejam freudianos. Ele deseja e adora religiosamente. O mundo se torna uma menina que dorme.
Sim, pois ela dorme. O que ele quer é um corpo inconsciente, objeto que se torna cosmo e portanto eterno. Sua relação não se dá entre velho e menina, é um contato de consciência que se sabe em seu final e pele jovem, clara, saudável, macia. Há muito de vampirismo.
Kawabata ganhou o Nobel de 1968. Sua escrita é nipônica em tudo. Cada palavra é um acorde de koto. Há delicadeza e ritual, mas há também a violência latente. Sexo e morte, seu mundo é apenas isso, sexo e morte ( apenas ? ).
Milagre : ele faz com que sintamos o que aquele senhor sente. Livro de sensualidade hipnótica. A pele da menina se torna o papel do livro. O cheiro dela é transportado em cada linha. Preto sobre branco, tinta e papel. Nós também a tocamos.
O livro explicita a diferença, imensa, entre erótico e pornográfico. Uma pequena jóia da escrita.
PS : Em mundo de imagem digital e de imediatismo urgente, só a pornografia é possível. Sem o toque do papel e a escrita feita com tinta sobre página clara, o sensualismo morre e a objetividade da pornografia impera.